domingo, 12 de novembro de 2017

As ciências contra as nossas evidências



1. Os nossos olhos são geocêntricos, vêem o sol de nascer e pôr-se rodear a terra, tal como o nosso comboio parado parece andar quando outro se desloca em sentido inverso. Foi por isso que a primeira grande demonstração da (astro)física europeia por Copérnico, Galileu, Kepler e Newton provocou tanto escândalo nesse tempo. O que é extraordinário é que todos nós que passámos pelo liceu aceitamos de boa mente essa contradição da ciência com as nossas evidências, destes nossos olhos que a terra há-de comer, como se dizia antes da moda das incinerações, embora as aventuras dos astronautas tenham vindo ajudar a essa aceitação. É certo que, como dizia Cornelius Castoriadis, a verdade geocêntrica faz parte intrínseca dessa demonstração, já que as medidas (de Tycho Brahe) com que esta foi calculada são geocêntricas, feitas a partir da terra segundo as evidências dos olhos dos astrónomos. Mas não me lembro, após 60 anos de leituras de autores muito variados, de ter visto nenhum filósofo espantar-se dessa contradição – salva a honra de Husserl cujo fundamento na percepção lhe exigia que “a terra não se move” – entre a primeira grande tese científica e as nossas evidências sensíveis (contestadas estas por cartesianos, é certo). Quem sabe como é que Newton conseguiu enfim demonstrar o heliocentrismo?[1] Não a esmagadora maioria das gentes, com certeza. Conclusão: a física não é democrática, há um acto de crença generalizada na adesão à ciência. O problema de Galileu com a Igreja, ainda que não fossem esses os conteúdos da disputa, atesta historicamente o início da transferência de crenças entre as duas instituições, consumada com a posterior generalização da escola e com a viagem de Armstrong.
2. O que é picante é que, no início do século XX, Einstein e os outros seguidores de Planck tenham desembocado estrondosamente na nova área das partículas, tanto os fotões da luz e a sua velocidade inultrapassável como os átomos e os seus constituintes, tais entes ínfimos tendo comportamentos que punham por sua vez em questão as evidências da física clássica de Newton. Ainda hoje o problema não está resolvido e andam em busca de unificar o que ficou quebrado por laboratórios irredutíveis.
3. Então não é que as ciências acima da matéria inerte e da sua química mineral, se encontram numa situação semelhante, sem saberem todavia que os seus paradigmas de busca integram evidências que os impedem da cientificidade postulada? Digamos que acontece nas ciências dos vivos, das sociedades humanas e das suas linguagens, cujos cientistas estarão presos muitas vezes ainda em epistemologias deterministas fora das quais não sabem o que seja ‘ciência’. Como as especializações se acentuaram muito, o apetite por questões epistemológicas ter-se-á esbatido e, se acaso esbarrassem com o título deste meu texto, achariam provavelmente que se trata duma evidência mais ou menos pueril.
4. Mas o que me interessa é a etapa seguinte a esse determinismo filosófico obsoleto, quando biólogos, neurologistas, cientistas sociais, filólogos ou semióticos compreendem que os entes dos seus domínios – vivos, unidades sociais e discursos ou textos – são constituídos como autónomos em cenas que os reproduzem e onde circulam e que, por via de consequência, as regras que vão descobrindo são justamente dadas como as dessa autonomia de reprodução. Marquei com itálicos as chaves desta concepção geral do saber sobre tudo o que releva da vida: são autónomos, sim, com regras que o permitem, mas essas regras são-lhes dadas por outros vivos, por geração e reprodução temporal, regras (da espécie, da tribo, da língua e do paradigma) de heteronomia, a qual permite entes individualmente distintos pois que os deixa ser em sua autonomia, heteronomia dissimulada, retirada (Heidegger). O motivo derridiano do rasto vivo (trace) é a descoberta filosófica desta regra geral do ciclo “vida morte”.
5. É quando se chega aqui que se entende que os cientistas destas vastas áreas têm, como todos nós, uma evidência que lhes oculta este processo de doação retirado, dissimulado, das regras autonómicas, a evidência da sua interioridade como ponto de partida do conhecimento, evidência que o cogito cartesiano reforçou: donde o primado do ‘interior’ (substancial) sobre o que o gera como ‘ambiente’, do corpo vivo, do sujeito, da população, do falante ou escrevente em suas intenções.
6. Na biologia molecular, são os genes que ganharam a primazia, como é claro na afirmação do biólogo chileno Francisco Varela, que esteve em voga nos anos 80 e 90, que defende o primado do indivíduo sobre a espécie: “a reprodução e a evolução, assim como todos os fenómenos que decorrem delas, aparecem como fenómenos secundários, subordinados à existência e ao funcionamento autopoiéticos destes sistemas”[2]. É a noção de autopoiesis que é esclarecedora, um sistema vivo auto-reproduz-se sem sequer a alimentação ser tida em conta: a reprodução e a evolução são secundárias, como se a determinação genética viesse substituir o criador de outrora pelo acaso das mutações! Em termos de lógica, é tanto mais inacreditável quando há o espantoso livro de Darwin, que mostra como as anatomias foram sendo ‘inventadas’ pela evolução seleccionadora das anatomias que conseguem subsistir à cruel “guerra da natureza”, à lei da selva. Entre a galinha e o ovo, não há escolha possível, ambos são estritamente necessários ao longo das gerações e das suas evoluções, isto é provieram da cena ecológica que dá galinhas que põem ovos donde nascem galinhas que põem ovos porque também dá outros vivos como alimentação possível. A cena é prioritária, já lá está sempre já com a sua lei resultante do ciclo do carbono a partir da fotossíntese, mas ela não existe sem galinhas e ovos, tal com o campo do sistema planetário não existe sem planetas: a prioridade é epistemológica, não cronológica. Ou seja, não se trata de inverter a relação dentro / fora : se a lei da selva determina a imensa variedade das espécies zoológicas e botânicas, só o faz através da coordenação genética da anatomia de cada indivíduo na sua luta pela sobrevivência que Darwin tão bem compreendeu.
7. Na neurologia, regozijo-me com a evolução de Damásio cujo novo livro A estranha ordem das coisas estou ansioso por ler, já que anuncia que, após ter vinculado a mente aos neurónios em O livro da consciência (2010), virou biólogo que se interessa especialmente pelo sistema cerebral e põe este na dependência da homeostasia do sangue. Mas parece continuar a ignorar o papel da aprendizagem dos usos da tribo, incluindo a linguagem, sem a qual nenhum cérebro escapa ao pior dos autismos: também aqui a tribo já lá é condição estrutural, como se depreende facilmente ao ver como somos indígenas tão diferentes, consoantes as vozes com as nossas tribos. Mas voltarei a Damásio, à maneira como ele define ‘sentimentos’, com grande esperança de compreender bastante melhor toda esta espantosa economia anatómica.
8. No que diz respeito às ciências da linguagem, a linguística saussuriana deu o grande volte face sem o qual Derrida teria sido impossível, ele que permitiu que a minha tese de doutoramento tivesse resolvido a contradição estruturalista entre língua e fala, que não vão uma sem a outra, esta multiplicada pelos inúmeros indivíduos falantes, aquela sendo a mesma em todos eles sem ser nada sem eles, dando-lhes as suas falas vindas de fora, de outros falantes, sendo o sistema paradigmático das regras que permitem o entendimento entre os falantes dessa língua. Esta linguística respeita a diferença entre as línguas, enquanto que a gramática gerativa de Noam Chonsky (excelente intelectual!) coloca uma semântica lógica no inatismo dos cérebros cartesianos e dela faz decorrer árvores sintácticas prévias às diferenças fonológicas e morfológicas de maneira a serem idênticas para todas as línguas, que obviamente ‘desaparecem’ na ausência da fonologia e da morfologia, sem lugar que não seja secundário para as tribos e para as aprendizagens, essas coisas vindas de fora que nenhum cartesiano pode admitir. Contra esta maneira de ignorar as tribos e o seu papel na aprendizagem da língua, basta reparar nos sotaques regionais alentejanos, minhotos, alfacinhas ou açorianos. Não se trata duma Linguística, duma ciência das línguas em seus usos específicos, mas duma gramática geral, que segue uma das duas grandes tradições greco-europeias, a duma lógica sobrepondo-se à linguagem, uma técnica de tradução para diferentes línguas a partir do inglês e da sua morfologia quase zero. Como é que as traduções automáticas da Google se fazem será um ponto em seu favor, mas por certo que supõem trabalhos linguísticox empíricos infindos de adaptação de detalhes.
9. Ferdinand de Saussure, Louis Hjelmslev, Émile Benveniste, André Martinet, Maurice Gros e outros fizeram o trabalho necessário em Linguística, que não acompanhei nas últimas décadas, creio que é no campo das semióticas textuais e das exegeses literárias que há questões interessantes, embora também aí não possa falar senão da exegese bíblica. De qualquer forma, limitar-me-ei ao aspecto que aqui interessa, que tem a ver com a definição de texto e de leitura, lembrando o papel nesta dos dicionários, fundamentais nomeadamente quando se trata de textos antigos e de línguas estranhas, bem como da necessidade do conhecimento de antropologias de usos e costumes bem diferentes dos nossos, coisas em que todas as cautelas são poucas. Há que ganhar antes de mais conhecimentos de historiador sobre a época da escrita e de gramática da língua do texto em questão, um bom dicionário sempre à mão. O que sendo necessário não é suficiente, justamente por causa das nossas evidências em relação à leitura, em que pensamos o texto como vindo das ‘intenções’ de alguém e ambicionamos como meta máxima poder chegar a tais intenções preciosas, reveladoras da interioridade do escritor ou pensador. É frequente dar uma importância desmedida a cartas ou diários íntimos, ou inéditos desdenhados pelo próprio, como podendo ajudar a decifrar a ‘verdade’ dos textos publicados, o verdadeiro pensamento ou mensagem do seu autor. Depois há questão das palavras difíceis ou raras, um hapax[3] a desvendar sagazmente, a discutir com outros exegetas. Os dicionários não propõem um único significado, multiplicam as polissemias possíveis, consoante os contextos. Ora, a regra de ouro aqui é que é o próprio texto o primeiro contexto a privilegiar, devendo-se construir, à maneira de Barthes ou de Lévi-Strauss, este para corpus de mitos vizinhos, aquele para esse mesmo texto que se lê, construir os códigos de significações. Curiosamente, nos dois textos escritos em grego que analisei à maneira do S/Z de Barthes, o evangelho de Marcos e a Poética de Aristóteles, dei-me conta de que as versões modernas traduziam as várias ocorrências do termo logos por termos diferentes e que foi o cuidado de as correlacionar entre elas e respectivos contextos próximos uma das traves mestras das minhas duas leituras desconstrutivas, se posso dizer, a mais de dez anos de distância uma da outra. Seja o caso de Marcos: o logos é a própria narrativa da prática de Jesus, do que ele faz e lhe acontece, o que por exemplo permite interpretar as parábolas da semente e do semeador (cap. 4) como dizendo respeito a ele e não à ‘palavra de Deus’ em geral, como seria o caso em João 1,1[4]. O que está em jogo nesta questão é que nós, leitores modernos, crentes ou não, sobrevalorizamos o pensamento (do sujeito, da alma em Descartes) sobre a linguagem, que varia com os povos e suas línguas. Os códigos são tecidos da língua que o texto – o têxtil – teceu para si, podendo o autor dar-se conta disso ou não. Não é preciso que Freud nos tenha ensinado que não sabemos coisas importantes de nós, que por vezes surpreendem o sujeito em psicanálise, com o que ele é levado a dizer sem querer e sem saber; basta pensarmos na rapidez com que falamos ou escrevemos para perceber que uma boa parte da escrita faz-se automaticamente – tudo o que são elementos de ligação sintáctica, os sincategoremas da escolástica, preposições, conjunções, artigos, possessivos, e a morfologia dos verbos e nomes, a fonologia – mas mesmo termos significantes verbos e advérbios, substantivos e adjectivos, vêem muitas vezes como que já ligados entre si sem quase atenção nossa, mais virada para o que virá a seguir e – sucede como boa ventura! – este ‘que vem a seguir’ surpreende-nos, não estávamos à espera, não tínhamos pensado assim. Ora bem, é este tecer-se do texto em sua quase autonomia (as regras jogam sem darmos por elas) que escapa às ‘intenções’ do que o escreve e o leva por vezes inadvertidamente a alusões, confissões ou contradições que não se quereriam escrever. Ou quando falamos e a língua nos foge para a verdade, como se diz do que se não queria dizer. O texto pensa mais do que o próprio pensador, sem que haja que opor os dois, é claro: nesse pensar mais do texto quem pensa é a língua e a cultura da tribo, doutros textos lidos ou ouvidos. Em sociedades que nos são culturalmente estranhas, este tipo de leitura de fenomenologia textual permite aceder a conexões que não são nossas. Os textos bíblicos foram cobertos pela filosofia grega pelo menos a partir de Orígenes nos inícios do século III, filosofia essa que reduziu deliberadamente toda a antropologia hebraica, considerada “bárbara” por um platónico como Orígenes teorizando sentidos morais e espirituais porque os literais, históricos, não eram dignos de Deus (ou de Platão)[5]. Foi esta tendência da teologia platónica de Alexandria que dominou a época helenística do cristianismo, nomeadamente se lhe opondo a escola de Antioquia (na Síria) de Teodoro de Mapsuéstia, mais perto do mundo bíblico e das suas categorias históricas literais[6].
10. O cap. 4 de Le Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida, consagrado às ciências das sociedades (antropologia, história e sociologia), definia sociedade como “a assemblagem de unidades locais de habitação, o sistema de usos que uma população transmite de antepassados em descendentes na ‘terra’ que os deu”. Esta definição pretende-se válida para toda e qualquer sociedade, que se diferencia das outras pelos respectivos sistemas de usos e pelo território, contando com a confissão de dois sociólogos franceses que admitiam não haver definições gerais que abarcassem todas as sociedades humanas, sem que eu possa aqui garantir como é que nos inumeráveis textos de especialistas, incluindo as ciências ‘sociais’ (que só abarcam uma zona de estruturas, o que aliás significa que ‘sociologia’ como ciência geral das sociedades contemporâneas não existe), é hoje tratada a questão da definição implícita de sociedade. Vou assim supor alegremente que ela inclui população, em geral vista como conjunto de indivíduos, e território[7]. Este é um conceito geográfico ou topográfico, dele mesmo despido de população, o que contrasta com o nosso termo ‘terra’ que inclui uma dimensão ecológica essencial: há que haver espécies zoológicas e botânicas que dêem possibilidades de alimentação, assim como fontes de água e qualidade respirável de ar, donde que seja a terra (como nós dizemos ‘a minha terra é...’) que dê a cena ecológica de qualquer sociedade, de que a população faz parte. Isso inclui algumas condições biológicas: a) a de ter que se alimentar quotidianamente, b) a de ter de garantir segurança diurna e nocturna de todos, mormente crianças e mães, c) a que é correlativa da descoberta essencial de Lévi-Strauss (interdito de incesto e consequente exogamia na lógica do parentesco), a necessidade de controlar o excesso de energia e desejo sexual numa espécie que não conhece a restrição deste a períodos de cio das suas fêmeas. Ora bem, e só ao escrever desta o percebi, o motivo de ‘unidade local de habitação’ como ‘sistema de usos’, que faz da população gente organizada e não uma mera ‘multidão’, surge como resposta a estas condições ecológico-biológicas, tanto os usos como as unidades locais. Mas esses usos excedem também tais condições, já que incluem a linguagem, mitos e rituais sobre as origens ancestrais, bem como ornamentações e festas, além de dispositivos, digamos políticos, de contenção de rivalidades.
11. O motivo de usos que se aprendem, a que todas as sociedades dão importância crucial, joga pelo conservantismo estrutural (como as células e as espécies em biologia): o movimento social consiste na reprodução das estruturas recebidas dos antepassados. Desde o início tribal se pode encontrar o que perdurará: Freud tendo mostrado como somos estruturados a partir desse interdito e Elias como as relações entre homens e mulheres de casais diferentes nas cortes monárquicas jogaram para afinar as etiquetas dos costumes entre ambos os sexos quando não casados, todas as unidades locais que vão além do familiar – escolas e empresas – terão que interditar as relações sexuais entre homens e mulheres no seu seio (como as questões do assédio hoje ilustram), a libertação sexual dos anos 60 e 70 sendo enfim como que o ‘acabamento’ desse processo. Por outro lado, a diferença de tamanho e de estrutura muscular entre machos e fêmeas herdadas da evolução e os cuidados maternos continuados em partos sucessivos, tanto justificam a guerra entre machos que herdaram agressividade e astúcia, como o machismo que exclui as mulheres das funções ‘dominantes’.
12. Mas o motivo de usos pede um motivo complementar que dê conta das transformações históricas (“a história é a ciência das mudanças sociais”, disse algures Marc Bloch), o de ‘invenção’ de usos ou costumes: serão sobretudo invenções técnicas e escrita diferentes que resultam de novas gerações. A invenção da agricultura foi decisiva para os humanos se subtraírem à lei da selva a que estavam sujeitos como as outras espécies, tendo tornado possível a libertação de gente para invenções técnicas que deram trabalhos especializados em cidades e um mercado de trocas correlativo. Entre outros produtos de luxo, o fabrico de armas tornou possível a estrutura de castas sociais que ilustra a interpretação dos mitos indo-europeus de Dumézil: os camponeses, os guerreiros e os dedicados à soberania e aos mitos da fecundidade, com uma nova abrangência da lei da guerra que tornou possível grandes impérios. Da terceira casta resultou uma outra invenção, a das técnicas de escrita que, além da Índia que ignoro, resultou em duas grandes correntes de dois milénios e meio de história: por um lado, a escrita chinesa dos mandarins garantiu um império inédito que durou mais de 2000 anos, por outro, a escrita alfabética permitiu, com a escola, a invenção da definição filosófica, da physica aristotélica enquanto filosofia com ciências, da lógica e da teoria geométrica de Euclides, assim como do direito romano, o que veio a fecundar a futura Europa com a sua conjunção com técnicas de medida em laboratórios, depois as máquinas e a electricidade, modernidade que ora se globalizou na aliança do mercado com a escola após dois milénios de marginalidade de ambos. Se o § 10 introduziu a ecologia na definição de sociedade, vale agora lembrar que é a aliança entre técnica e conhecimento no seio do laboratório físico e químico que explica o terrível problema da poluição actual, que consiste no que os limites do laboratório (a sua positividade) não permitem saber: por exemplo que os automóveis eléctricos vão resolver, a respiração humana dos gases dum carro não fazer parte dos testes deste.
13. Merece perceber o papel do cristianismo neste processo ocidental. A primeira consideração a fazer é que o cristianismo grego e depois eslavo, chamado ortodoxo, não teve influência nele, portanto o ‘motor’ do processo não foi somente o cristianismo. Em seguida, ele veio dum processo hebraico – ‘bárbaro’ para os Gregos – que implicou uma endogamia, como aliás estes também: ou seja, nem a escrita profética nem a filosófica se destinavam a sair para fora das respectivas sociedades de preferência endogâmica, que hoje diríamos ‘racista’ a maneira como repudiavam os gentios e os bárbaros respectivamente; o que significa que é no império romano, expansivo e integrador de bárbaros, que se deve procurar o segredo desse processo. Mas o cristianismo como movimento espiritual tinha na sua origem judaica endogâmica uma limitação interna: ele visava o fim dos tempos e como isso não sucedeu, a sua fonte judaica secou (e que mal tratada foi ao longo desta história!), tudo teria terminado aí se um tal Paulo de Tarso não tivesse dado a volta para os gentios detestados, o que levou o movimento para o helenismo, agora já com uma população de não judeus. Ora, a vitória da Macedónia de Alexandre sobre as cidades gregas teve um efeito parecido de expulsão da cultura ateniense para o seio do mundo que os Romanos estavam a conquistar, como ilustra a construção da cidade de Alexandria, onde os cristãos de Paulo se encontraram com os filósofos platónicos, os quais tomaram conta do respectivo discurso, duma maneira que a Bíblia deles era incapaz[8] e que os imperadores do século IV, na peugada de Constantino, apadrinharam para dar um ‘suplemento de alma’ ao império que começava a agonizar, nas suas fronteiras militares como nos costumes das principais cidades. O que aconteceu então foi que esse lento processo de dois séculos de apagamento do império e de entrada de ‘bárbaros’ que foram ‘cristianizados’ (expansão tipo ‘imperial romana’ do que com Paulo fora ‘espiritual’) permitiu que, de movimento espiritual o cristianismo se transformasse fortemente em religião da Cristandade de muitos costumes e línguas diferentes durante longos séculos de sociedades praticamente rurais, em que os seus mosteiros guardaram os textos da civilização que se apagara. Ora bem, quando novas cidades e mercados começaram a desenvolver-se nos séculos XII e XIII, este cristianismo gerou uma escola inédita, as universidades, que ofereceram às invenções que estavam para vir – a impressão de livros, as viagens oceânicas e a cartografia, um humanismo de perspectiva e maquinarias variadas – uma cultura livresca como nenhuma sociedade histórica, que se saiba, tivera até então no seu berço. A sequência do processo, a partir do século XVIII e das suas Luzes enciclopédicas, veio a deitar fora como ‘casca’ a religião cristã que lhe trouxera justamente o tal ‘suplemento de alma’ como ‘suplemento de cultura’. Nas margens deste processo, os sopros espirituais dos inúmeros movimentos que foram reformulando a leitura do evangelho no contexto dos anseios e reclamações das suas épocas, inquietando as estruturas eclesiásticas e os poderes instalados até que, com Lutero, Calvino e outros, o contexto de ruptura humanista e a expansão de bíblias impressas em línguas vernáculas colocadas nas mãos de burgueses letrados favoreceram o desencadeamento da Reforma: assim se criaram dinâmicas de mudanças variadas, éticas mas também de ordem civil, donde se desenvolveu a modernidade capitalista e industrial.
14. O cristianismo foi o que, do seu próprio lavrar entre filosofia, platónica primeiro e aristotélica depois, e narrativas bíblicas lidas com olhos gregos primeiro e latinos depois, ofereceu à Europa por vir o material de que ela se fez. Deslindar essa mistura, a que se acrescente o direito romano, é tarefa quase impossível, tender-se-á sempre a puxar para as suas especialidades e preferências. Mas há um motivo forte no seu seio, o da alma imortal que Platão herdou e tematizou no Fédon como convindo a Sócrates e aos sábios virtuosos que são os filósofos, que o cristianismo acolheu por sua vez – “platonismo dos pobres”, chamou-lhe Nietzsche – e generalizou a toda a minha gente, como motor dinâmico de alcance celeste que transfigurava muita vida de quotidiano muito duro. Foi esse dom à Europa que se manifestou na modernidade como individualismo e desejo de liberdade que não parece ter comparação nas outras grandes civilizações. Ora bem, é justamente esta tradição da alma latina, que depois virou sujeito e consciência, o que nos fornece as nossas evidências – de dentro [e-] [-vidência] – sobre nós e sobre os outros, é ela que dá as intuições aos cientistas que têm a ver com vivos (e mesmo com movimentos físicos em seus campos). Quando se pretende que os problemas actuais são da ordem das ‘mentalidades’, que se resolvem com ‘educação’, pensa-se na prioridade do ‘dentro’, mas em vão. Só que pensar estas coisas tão importantes é tremendamente difícil. “Estranha ordem das coisas”, espanta-se Damásio. A ele vamos de seguida.


[1] Tem um texto neste blogue que conta como foi.
[2] Autonomie et connaissance. Essai sur le vivant, 1989, Seuil, p. 71, sublinhados meus.
[3] Palavra que só se encontra uma vez no corpus dum autor.
[4] Mas mesmo nesse caso, não é impossível que haja uma correlação quando se trata de dizer que “o Logos se fez carne”, sabendo-se que esse texto inicial foi um acrescento e que o termo não volta a aparecer.
[5] Excepto num ponto em que, contra si mesmo, interpretou em sentido literal uma estranhíssima palavra do texto de Mateus, em que Jesus diz que há trtês tipos de eunucos, uns de nascença, outros por acção dos homens “e existem eunucos que se castraram a si próprios por causa do reino dos céus” (19,12, trad. F. Lourenço): literalmente, o jovem Orígenes castrou-se.
[6] Bastará este apontamento para perceber como o projecto da tradução duma Bíblia dita grega de F. Lourenço tem riscos enormes, por justamente ignorar os alçapões antropológicos do mundo bíblico criados pela língua grega! Talvez mais do que nas traduções das narrativas, sobretudo nas notas que interpretam o que traduziu
[7] J. L. Vullierme, Le concept de système politique, P. U. F., 1988, um livro aconselhado vivamente por Edgar Morin, recusa, com M. Mauss e contra M. Weber, que o território faça parte essencial da sociedade, argumentando com as sociedades fundamentalmente dispersas e os nómadas (p. 134).
[8] Ficou a dinamizar espiritualmente o culto das assembleias, enquanto o latim foi compreendido pelo povo.

sábado, 21 de outubro de 2017

As desigualdades actuais em escolaridade e economia : porquê o populismo ?



1. O demógrafo francês Emmanuel Todd é o autor de textos notáveis tão iluminadores como objecto de polémica dos seus pares (ou ímpares), nomeadamente O terceiro planeta (1983), publicado em português sob o título A diversidade do Mundo (I. Piaget), juntamente com um outro texto dele, A infância do mundo. A sua tese é a de que há uma correlação entre as estruturas familiares – morgadio (herança do filho mais velho), igualdade entre irmãos, comunitarismo familiar (endogâmico) – e a super-estrutura ideológica das sociedades, quer religiosa quer política. Publicou vários livros, nomeadamente uma análise comparativa dos casamentos mistos nos Estados Unidos, Inglaterra, França e Alemanha que lhe permitiu mostrar como os casamentos mistos de autoctones, respectivamente com os negros, os paquistaneses, os magrebinos e os turcos, são claramente mais baixos do que quaisquer outros, sendo pois uma espécie de ‘ponto fixo’ do racismo de cada um[1]. Ora bem, Todd acaba de publicar  Où en sommes-nous? Une esquisse de l’histoire humaine, no Seuil, de que Le Monde publicou extractos no seu número de 1 de Setembro. Pela primeira vez, leio uma história da escolaridade contemporânea, e mais ainda, colocada face à da economia, o que permite perceber melhor o que se chama ‘sociedade de conhecimento’ e também abre uma pista de compreensão da subida dos populismos, que deduz-se que é um dos objectivos do livro mas que não consta dos extractos.

Escolaridade e economia crescem juntas e interferem
2. Segundo os números que ele dá nos países mais avançados, houve três fases na história da escolaridade moderna, a do ensino primário para todos (ler, escrever e fazer contas) ao longo do século XIX, a do secundário de massas e a do ensino superior. Foi na segunda fase que os Americanos passaram de 10% em 1900 a 70% em 1940, bem à frente dos principais países europeus, sem números nos extractos. A terceira fase diz respeito ao acesso ao superior, onde os números americanos vão de 3 e 2 % (homens e mulheres) em 1900, 7,5 h e 5 % m em 1940, 27 h e 22,5 % m em 1975, finalmente 30 % homens e 35 % mulheres em 2000, em França havendo uns 30 anos de atraso[2]. Além da ultrapassagem dos homens pelas mulheres que se tornou regra nos outros países também, há um fenómeno por assim dizer inesperado: a evolução dos números relativos ao ensino superior não foi a mesma do que fora no primário e no secundário, onde tendeu a atingir toda a população, enquanto que o ensino superior conheceu em todos estes países mais avançados uma estagnação, a correspondente aos 30 % homens e 35 % mulheres em 2000, mas já em 1980 houvera estagnação e até algum recuo.
3. “A questão que é posta é a dum limite à elevação do nível educativo da humanidade”, escreve Todd. Enquanto que a escola primária e o liceu representaram um progresso claro, que “tinha alimentado um subconsciente social igualitário”, o aumento da população estudantil universitária “rompeu a homogeneidade do corpo social”: “o tecto da educação superior gerou, nos Estados Unidos, depois nos outros países, um subconsciente desigualitário”. Todd recorre então às curvas de evolução do rendimento submetido ao imposto do livro de Saez e Piketty para encontrar justamente em 1980, o ano da eleição de Reagan, o ano em que “a liberação dos rendimentos dos mais ricos escapa ao peso de qualquer racionalidade técnica ou económica; o neo-liberalismo toma o comando, num clima de guerra social”. A tese é que “o cultural, o ideológico e o politico precedem o económico”. “Este carácter de lâmina de fundo do movimento desigualitário permite afirmar o primado duma determinação pela educação e a ideologia e o carácter derivado da evolução económica”.
4. Passar de ‘precedência’ à palavra ‘determinação’ aplicada a infra- e super-estruturas mostra o enviezamento do raciocínio: o que Todd busca é ‘inverter’ Marx e a sua velha tese da determinação em última instância das super-estruturas pela instância económica, tese essa  que ‘invertia’ Hegel; ora, a escolaridade invadiu a economia de forma tal que a oposição entre tais estruturas se torna caduca, bem como à sua reinversão toddiana. A proposta da história da escolaridade em correlação com a dos PIB sugere-me outra reflexão, já que a evolução da escolaridade fê-la penetrar na do PIB, para começar por duas vias de escolaridade especializada, a saber a dos engenheiros e a dos economistas e financeiros. O fordismo do princípio do século XX, a invenção da montagem em série dos automóveis Ford, é já o indício de como os ‘patrões’ do século XIX – que tinham legitimidade clássica de serem ‘pais’ (quando nas casas de antanho a economia e o parentesco eram chefiadas pelo mesmo, o pai-patrão) mas que incluía a competência que lhes vinha de conhecerem o ofício – foram sendo substituídos por engenheiros cuja especialização eles, patrões, ignoravam. O saber vindo da ciência por via da escola não era já ‘interno’ e para o voltar a ser as grandes empresas vieram a ter que criar ateliers de investigação própria. Os nomes de Keynes (com Roosevelt) e de Friedman possivelmente indiciam algo de equivalente em termos de competência de economistas e financeiros, o primeiro tendo tido um papel orientador nos célebres 30 anos gloriosos a seguir à 2ª grande guerra e o último na inflexão neo-liberal que, pondo os lucros das empresas à cabeça, as desligaram do campo politico compreendido nas fronteiras dos estados-nação e lançaram as multinacionais (termo do início dos anos 70, se bem me lembro) para a globalização e o crescimento dos países não ocidentais, sobretudo asiáticos, fora o caso à parte do Japão.
5. Como é frequente, Todd resume a 2ª revolução industrial pela “electricidade, automóvel e aviação”, esquecendo o betão armado que tornou possível as grandes cidades e seus prédios de apartamentos para as novas famílias das populações que tinham feito o liceu, as chamadas ‘classes médias’, bem como ignora os seus médias devidos à escolaridade, revistas, rádio e cinema, e depois televisão. Ora, se as suas curvas colocam a Europa avançada com duas ou três dezenas de anos de atraso em relação à América, Todd que não se esquecera de dizer que entre as duas guerras as universidades e investigação científica que contavam eram sobretudo europeias (parece óbvio que os Americanos, tal como os antigos Romanos em relação aos Gregos, são sobretudo engenheiros, não tanto ‘pensadores’), não dá relevo nenhum às incidências dos médias (terão curvas de crescimento a par da da escolaridade) sobre os estudantes liceais e universitários e à contemporaneidade das revoltas juvenis e feministas dum lado e doutro do Atlântico e até ao longínquo Japão. O livro de Luc Boltanski, Le nouvel esprit du capialisme, de 1999, mostra como as empresas francesas se des-hierarquizaram estruturalmente na sequência do Maio de 68, incidência da escolaridade e dos médias.
6. Ora bem, porque é que, tendo melhorado fortemente os níveis de escolaridade, ainda que tendo em conta a estagnação do processo no superior, o neo-liberalismo teve o vento em popa até provocar a gravíssima crise de 2008 e ter em seguida continuado quase como se não tivesse havido crise? Há provavelmente duas razões principais: por um lado, o desenvolvimento dos meios electrónicos de cibernética (e a robotização nos meios de fabrico e transporte) que permitiram acelerar tremendamente a globalização multinacional, levando de vencida a cada vez mais fraca resistência ‘política’ do estado-nação, e por outro lado, a fraqueza ideológico-política deste praticamente soçobrou com o ‘fim do medo do comunismo’ das burguesias ocidentais a partir de 1989. Destes dois factores terá surgido o ‘pensamento único’ desvastador das classes médicas. Aliás, a cibernética das chamadas redes sociais, tipo Facebook, mas já antes a Microsoft e a Google, dá exemplos de novidade na história dos PIB, quando se vê engenheiros muito jovens tornarem-se em poucos anos chefes de grandes empresas multimilionárias: trata-se não de inventores de máquinas (hardware) mas das suas linguagens (soft), o que reenvia para a questão da escolaridade a intervir estrondosamente na produção económica.

A critica do argumento de autoridade
7. Chego então ao ponto que me trouxe a questão de E. Todd: como situar o populismo recente nesta problemática? Estes dados chegam ou há que olhar de forma mais alargada à história da escolaridade? Recuemos à Idade Média, onde nos séculos XII e XIII se deu algo de totalmente inédito na história dos humanos[3]: em vários lados, começando em Bolonha, comunidades de clérigos pegaram na herança greco-romana e árabe para ensinar os seus alunos lendo e comentando os textos recebidos. Estas universidades são a fonte histórica da escolaridade europeia de que se falou acima: desprovidos de saber autónomo, esses clérigos liam textos que discutiam, textos cuja posição era dela mesma a duma autoridade em termos de saber[4]. Ora, quando no século XVI se consumou a crise do magistério eclesiástico no norte da Europa e “os mares nunca dantes navegados” abriram os caminhos marítimos da globalização, essa abertura foi também a da ‘crítica’ dos argumentos provindos da autoridade dos textos que se liam nas universidades, os quais ignoravam quase tudo destas novidades em terras, gentes e hábitos: ao saber literário é oposto o saber da experiência. O alvo principal desta crítica são os textos de Aristóteles, que até aí englobavam uma boa parte do saber que se ensinava. A introdução do ‘labor’ experimental no saber filosófico pelos laboratórios científicos foi parte importante, marginal às universidades em grande parte até às reformas destas no início do século XIX, dessa critica, dessas Luzes a que Kant atribuiu o papel de tornar os humanos adultos pela Razão que, na sua época, fecundou a revolução francesa. Todos os humanos, em princípio, mas a tal estagnação é também a do igualitarismo das Luzes que Todd deplora. É que ser adulto é pensar em autonomia após se ter aprendido, o objectivo da aprendizagem é justamente a autonomia, a liberdade do pensamento, da expressão, e o que a igualdade pressuporia era um nivelamento das possibilidades desse pensar autónomo, que se restringe para a maioria ao saber tribal e ao que é recebido dos médias, mas também para os de nível universitário conhece as inevitáveis restrições da respectiva especialização.
8. Quem é hoje depositário de saberes? Na maneira como as nossas sociedades estão organizadas, a resposta parece ser esta: os professores universitários, já que são eles que ensinam as novas gerações, que ensinam inclusivamente os professores de liceu que vão ensinar os adolescentes. Mas também os médias contribuem para os saberes, os livros antes de mais, revistas e jornais, médias de voz e imagem, e há enfim as ditas redes sociais entre computadores pessoais e telemóveis. As democracias organizam eleições como processo de designação dos responsáveis de vários níveis da coisa pública, no pressuposto de debates que esclareçam e permitam que se vote como adulto autónomo informado. É certo que dos responsáveis que são eleitos são excluídos professores, médicos, cientistas, engenheiros, etc., uma série grande de lugares de eficiência social relevante mais ou menos circunscrita, que devem ser nomeados mediante exames e concursos diversos. Ora, toda esta gente é altamente especializada, em razão mesma da proficiência dos progressos dos saberes, e em consequência não há nenhuma sede de saber de tipo ‘geral’ ou ‘universal’ a que se possa recorrer, fora das competências especializadas. Como se tem visto na questão das alterações climáticas, será sempre o debate entre especialistas o último recurso em termos de saber. Mas como é este acessível? Até há algum tempo, a resposta consistia nas bibliotecas, os professores sendo não apenas autores de livros mas também e sobretudo os cicerones das bibliotecas, que encaminhavam os leitores. Era ainda o tempo dos argumentos, mais ou menos bem tratados, mas era preciso ler e saber ler, ouvir e saber ouvir. As chamadas redes sociais vieram alterar fortemente as coisas. Sem dúvida que já os médias dedicavam muito tempo ao entretimento e ao divertimento, além dos argumentos, esses médias tinham todavia os limites de as suas emissões serem unilaterais em relação aos seus clientes: leitores, ouvintes ou espectadores não tinham voz nem mãos, limitados a receber e a interpretar o recebido, ou a mudar de livro para música, ou a mudar de canal, como sua ‘liberdade’. As redes sociais, que neste sentido não são propriamente ‘médias’ mas ‘redes’, que excluem a unilateralidade e multiplicam os pólos possíveis, criando circuitos diversos mas com tendência, parece, a funcionarem em percursos fechados nos seus interesses. Elas têm uma acutilância: dão voz e mãos-teclado a quem quer que seja. E é onde os argumentos e os saberes desaparecem, submersos cada vez mais no mar das ‘opiniões’ e dos seus interesses. Ora, como sabemos por experiência própria, é mais fácil ouvirmos a nossa voz do que a voz alheia, raros são os que aliam inteligência com a atenção suficiente ao próximo para dele aprender alguma coisa que valha como saber que oriente. O cúmulo deste processo está por um lado no crescente abandono dos livros, da maçada de os ler, e no outro extremo, no uso político do chamado twitter, que, ao que se diz, só admite 140 caracteres:  deve ser a medida mínima para evitar qualquer argumento, a sua substituição por pontos de exclamação. Foi nesta caricatura que desaguou a ‘crítica do argumento de autoridade’ em favor da autonomia do pensar, da liberdade de expressão, agudizando esta até ao ponto do relativismo generalizado que não sabe já o que é saber. É aonde o populismo, como demagogia, se tornou possível.

A réstia de esperança
9. Pessimismo? Foi em águas assim que a Filosofia medrou nos tempos gregos e se fez a sua renovação europeia com a Física: foi a multiplicação de manuscritos no século V a.C. em Atenas e de livros impressos na Europa do Renascimento que originaram relativismos. É que essas multiplicações de ‘médias’ provocaram cortes abruptos com o saber ancestral aprendido, cortes esses que dão testemunho, quer o célebre “só sei que nada sei” de Sócrates (que arrogância! tudo o que aprendeu não valia nada!), quer a “dúvida metódica” de Descartes. A cibernética é uma mais valia tremenda de possibilidades: o gosto de saber como necessidade, que é das coisas mais fabulosas da experiência terrestre, mostrará, sabe-se lá quando, que há-de haver por aí novas gentes a criar novos argumentos. Talvez vindos de fora dos velhos paradigmas europeus refazer estes, de maneira inédita que sirva para as muitas línguas e tribos que se estão a globalizar. Os Trumps grotescos só podem ser um estímulo, o que, seja como for, não se quer.


[1] Le destin des immigrés.Assimilation et ségrégation dans les démocraties occidentales, Seuil, 1997
[2] Em 2010, em França há mais de 50% de ‘superiores’, mas divididos ao meio : os que têm o nível de licenciatura e os que não a têm [após Bolonha, creio], o que mantém a desigualdade.
[3] Só tem como paralelo, bem diferente, a maneira como a estrutura do mandarinato chinês permite compreender os mais de três milénios do respectivo império e portanto a originalidade do seu ‘comunismo capitalista’.
[4] Nos limites, é certo, da autoridade do magistério eclesiástico, cuja inquisição veio a ser terrível.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Questão (prigoginiana): o que é a energia, a força atractiva e a entropia?



1. Uma questão que se pode pôr à ciência que se ocupa dela, a Física, é a de saber o que é a energia, que reconhecidamente se conserva no universo e nele se degrada, segundo os dois princípios da Termodinâmica, mas também é susceptível de constituir estabilidades instáveis (Prigogine), segredo entrópico da evolução dos vivos e da história dos humanos[1]. Dizia o conceituado físico generalista R. Feynman, num texto citado a seguir, que “na física de hoje, não temos o conhecimento do que é a energia” (p. 95). Então haverá que questionar a Física e a Química com os olhos instruídos por Prigogine, como ele próprio não o terá conseguido por falta de filosofia adequada. Antes porém, interroguemos a própria palavra que o físico inglês Thomas Young, em 1807, foi buscar ao vocabulário filosófico de Aristóteles para substituir as ‘forças vivas’ dos físicos clássicos. O par dunamis / energeia corresponde na Physica de Aristóteles a duas situações do movimento dum ente vivo, animal ou humano, da sua alteração: dunamis, a que precede o movimento mas corresponde a haver já a sua capacidade, a ‘potência’ (tradução habitual) ou possibilidade, ‘ele pode’ (do verbo dunamai, poder) mudar, incluindo a força para tal (donde a ‘dinâmica’ newtoniana como teoria das forças); en-ergeia, a situação que corresponde ao ‘acto’ (tradução habitual) desse movimento efectuado, trabalho (-ergon) sobre si (en-); e como movimento diz-se kinêsis, donde ‘cinético’, o que dá para entender porque é que os físicos europeus foram buscar este par aristotélico para dizer as energias potencial / cinética, com a diferença de que em Aristóteles se trata da própria substância (ousia) que se move, que se altera, enquanto que na nossa física se trata da diferença medida, relativa à energia, entre duas posições de graves, por exemplo, no campo da gravitação: numa barragem, a diferença entre o nível da água da albufeira e a posição mais baixa da turbina é a energia potencial, enquanto que a energia cinética é a do movimento da água caindo efectivamente dum desses níveis para o outro.

O labor no conhecimento científico
2. Poder-se-ia pensar que, anterior à vida, a matéria de que Física e Química se ocupam, a matéria ‘verdadeiramente substancial’, conhece uma autêntica estabilidade sem oscilações instáveis. É o que aliás Prigogine parece ter pensado, ao falar na “estabilidade dos átomos do nosso Universo morno”, como que se postulasse que eram inacessíveis à ‘produção de entropia’, descoberta na química do metabolismo celular (o que lhe valeu o Prémio Nobel de Química em 1977) e que ele buscava em turbilhões e outros fenómenos mais ou menos marginais, embora por vezes diga que a sua nova concepção se destina a toda a Física. Para tratar da questão, podemos recorrer ao famoso texto Seis lições sobre os fundamentos da Física do prémio Nobel Richard Feynman[2], cuja pedagogia inovou de tal maneira que talvez se o possa ler na sua lógica de 1961-62, sem ter que saber das descobertas dos mais de 50 anos posteriores, acreditando que os ‘fundamentos’ da Física não foram entretanto alterados nem terá havido textos acessíveis a leigos tão pujantes de clareza.

3. Para adaptar a perspectiva entrópica de Prigogine além do metabolismo celular, à Biologia animal e às ciências relativas aos humanos, foi necessário denunciar o preconceito aristotélico substancialista no paradigma dessas ciências: ‘corpo próprio’ nas biologias em vez de ser no mundo[3], ‘população de indivíduos’ como constituindo as sociedades, em vez dos paradigmas dos usos dessa população nas unidades sociais. A questão será a de saber se se pode, e como, ‘des-substancializar’ os átomos e as moléculas de que os graves e os astros são constituídos. O que será um procedimento fenomenológico equivalente em relação à Física lendo o texto de Feynman? implicará privilegiar o motivo do campo de forças atractivas sobre os corpos ou os átomos a eles sujeitos. Trata-se dum motivo da Física que é paradoxal, já que, tomando o exemplo do sistema solar e dos seus planetas, são os astros que se atraem reciprocamente, com o sol como foco principal, não sendo o campo ‘nada’ de substancial, apenas o jogo entre si dessas diferentes forças de atracção, jogo esse que é no entanto o que sustenta o sistema na sua estabilidade, reconhecida desde os antigos Caldeus e Egípcios. Este paradoxo não permite decidir entre os astros e o campo, já que este não existe sem eles, mas é o que faz o preconceito substancialista, de índole empirista, que considera o campo ‘depois’ dos astros, a partir das suas substâncias e massas. Para compreender isto, teremos que começar por uma questão epistemológica prévia: porque é que o laboratório é essencial à Física?

4. O laboratório busca aliar saber e técnica para pôr à prova as definições e argumentos filosóficos herdados dos Gregos e dos Medievais[4]; ele consiste 1) em retirar um fenómenos dado (delimitado, definido) da respectiva cena de circulação aleatória, 2) determinando-lhe o movimento em condições de determinação com técnicas de medição apropriadas, 3) ao conhecimento adquirido devendo seguir-se um movimento de restituição teórica do fenómeno conhecido à cena donde fora retirado (já que é esta ‘realidade’ que se busca finalmente conhecer por etapas laboratoriais). Tal como em geometria e astronomia, os números da matemática, entre equações e medidas, permitem uma exactidão maior do que aquela que as definições teóricas buscam em linguagens estruturalmente polissémicas como a matemática não é: esta sua exactidão – adentro de margens de erro, repetem-se tais quais em qualquer outro laboratório – corresponde a uma estabilidade a que as filosofias nunca chegaram, mas também não as próprias teorias científicas que interpretam os resultados das experiências laboratoriais. Já que estas têm um ponto fraco, são fragmentárias (como qualquer tipo de problemas em álgebra clássica, cada um com a sua equação), só permitem conhecer com exactidão laboratorial de cada vez um aspecto determinado do movimento dum fenómeno, sendo à teoria, herdeira da filosofia, que cabe a unificação do conhecimento, mas este sempre aproximado, instável pois, já que os ‘fenómenos inteiros’ não são susceptíveis de laboratório e são obviamente indeterminados nas respectivas cenas de aleatório[5]. Assim, por exemplo famoso, Newton descobre as equações da força da gravidade sem saber imaginar esta, como ainda hoje, segundo Feynman, não se sabe o que é a energia ou o porquê da inércia.

5. Uma questão decisiva do laboratório pode ser ilustrado a partir da famosa experiência de Galileu demonstrando o movimento uniformemente acelerado com uma bolinha correndo por uma ranhura num plano inclinado. Não havendo ainda relógios adequados a medir esses tempos, Galileu usa um recipiente com água que escorre durante o tempo da queda e depois se pesa, “as diferenças e proporções entre os pesos dando-nos as diferenças e proporções entre os tempos”[6]. Medir o tempo em gramas de água ou em segundos, tanto vale, só das diferenças sabe o físico experimentalmente, e não das ‘substâncias’; sobre o tempo define e argumenta, faz teoria, ou seja, filosofia; o mesmo se dirá do espaço, da massa, da força, da energia, da intensidade de electricidade, como atesta a convencionalidade (arbitrária) das ‘convenções’ que definem unidades das diversas dimensões (esta palavra sublinhando que em Física só se trabalha sobre medidas). As teorias evoluem historicamente, enquanto que as experiências, fora a precisão das técnicas de mensuração, continuam válidas: por exemplo, se a física de Newton foi reelaborada por Einstein para fenómenos de velocidade perto da da luz, ela continua válida cientificamente para a velocidade da maior parte dos fenómenos de engenharia corrente na Terra. Ora, com as técnicas de mensuração, foi a técnica que entrou no âmago das ciências físicas e (bio)químicas, donde que delas tenham vindo a resultar as invenções técnicas mais diversas, testemunhando da estabilidade dessas ciências, enquanto que os cientistas debatem as respectivas teorias, testemunhando assim da sua instabilidade: o grande problema destas é o movimento de restituição do saber fragmentário adquirido laboratorialmente sobre o fenómeno, restituição à cena donde ele foi retirado, fora do laboratório pois, ao fenómeno inteiro, já que é sobre este que deve versar a teoria. As técnicas laboratoriais fazem parte da elevação entrópica das ciências exactas, juntamente com as ‘vontades’ dos cientistas que, na definição de ‘paradigma’ de Kuhn, são por este ‘atraídos’ (attract)[7] e ligadas as suas ‘vontades’ como colegas do mesmo paradigma pela respectiva aprendizagem. À estabilidade corresponde o curso normal dos paradigmas segundo Kuhn, o que se poderia chamar a homeostasia laboratorial, em contraste com as suas crises, manifestação de instabilidade em fortes polémicas, quantas vezes de gerações.

6. Podemos agora voltar ao heliocentrismo. Se fez parte do génio de Newton compreender a estabilidade heliocêntrica do sistema em termos do princípio da inércia e da sua descoberta das forças de gravidade como atracção dos corpos na razão directa das suas massas e na inversa do quadrado da sua distância – isto é, ele não teria lá chegado sem estes dois motivos fundamentais da sua Mecânica –, o que é notável é que a sua demonstração não se fez através deles mas utilizando as leis de Kepler (o qual utilizara as medições de Tycho Brahe, anti-copérnico), nas quais jogam apenas os espaços e tempos dos percursos das órbitas dos planetas e as razões entre as respectivas superfícies. Parte-se portanto do sistema enquanto ‘campo’ teórico, concluindo aliás Newton pela confissão, reiterada por Feynman cerca de três séculos mais tarde, de que não sabe explicar o que é a força da gravidade enquanto atracção a distância[8], como ainda hoje, segundo o mesmo Feynman, não se sabe qual é a causa do princípio de inércia (que mantém um corpo em movimento se nenhuma força actua sobre ele, p. 114), cujos efeitos podem todavia ser medidos e calculados. Pode-se dizer que esta maneira ‘não substancialista’ de demonstrar o heliocentrismo bate certo com o que se pode deduzir da afirmação de Galileu medindo o tempo em unidades de peso de água: ele só conhece “diferenças e proporções” entre medidas de tempo, e não  o tempo em si, não as substâncias (númenos, dirá o newtoniano Kant). Ora, acontece que Feynman procede de maneira inversa à de Newton, por exemplo, ao definir carga eléctrica, parte das cargas para os campos: “temos assim duas regras: (a) as cargas geram um campo e (b) as cargas em campos ficam sujeitas a forças e movem-se” (p. 60), 1º cargas, 2º campo, 3º forças!  Outro exemplo: no primeiro capítulo, argumenta longamente sobre os átomos de água, vapor e gelo sem nunca referir as forças electromagnéticas perdidas na vaporização ou ganhas na solidificação. O problema manifesta-se ainda na sua concepção de força como interacção, a da gravidade sendo uma interacção a distância (p. 57), o que parece significar que a força é pensada como as forças habituais da mecânica, tipo bola de bilhar sobre outra bola de bilhar, acção e reacção, aquilo a que se pode chamar ‘força local’. Feynman chega ao ponto de caracterizar a força electromagnética pela “propriedade de gostar de repelir e não de atrair” (p. 58): só considera a relação entre cargas do mesmo sinal e não entre as de sinal contrário, de atracção, ora, são estas que justificam que os átomos tenham electrões, atraídos pelos protões, bem como que haja moléculas e graves, gelo, água e vapor! Ora bem, as forças fundamentais da Física, nuclear, electromagnética e da gravidade, constituintes dos átomos, moléculas, graves e astros, as únicas das quais há campos, são forças atractivas, e é porventura a razão pela qual não sabemos imaginá-las: a nossa experiência intuitiva é justamente de ‘forças locais’, tão importantes na dinâmica newtoniana[9]. Dada a sua portentosa atenção ao detalhe que muda as perspectivas, não se pode apontar estas coisas como devidas à inatenção de Feynman, só pode ser algo de inscrito na força do paradigma (atractiva!) que institui os físicos enquanto tais (donde que não haja que esperar da parte deles grande aceitação deste texto).

Energia, força e entropia

7. Se os grandes ‘génios’ da Física, desde Newton até Feynman, não conseguiram, a partir das ‘substâncias’, imaginar o que são as forças atractivas, a energia e a inércia[10], não se tratará de esperar um futuro ‘génio’ que o consiga; é mais provável pensar que o problema está mal posto: porque não partir destes motivos ‘inexplicados’ para compreender melhor o que são as tais ‘substâncias’? Estes motivos, que logo de início estruturaram a Física clássica, manifestando como os seus inventores eram também hábeis filósofos, constituem o motivo fundamental de campo; é claro que não tenho a pretensão de os ‘compreender enfim’, mas, assim como se fala de princípio de inércia, eles poderão ter um estatuto, digamos, de princípios laboratoriais, isto é, de princípios duma filosofia (duma teoria) confrontada com a experimentação de movimentos, princípios necessários à compreensão de qualquer análise de laboratório[11]. Des-substancializar será então considerar teoricamente forças e energia como epistemologicamente (e não cronologicamente!) prévias às ‘substâncias’, ao átomo, molécula, grave, astro, carga electrica, as 3 forças jogando juntas e a energia sendo o que, por inércia, se expande sem elas. Não se ‘parte’ do átomo, como faz Feynman, porque não há ‘o’ átomo, nem ‘a’ molécula, nem ‘o’ grave: o que há, antes de mais, são os campos dos astros em que os três tipos de força actuam. No caso do sistema solar, as órbitas dos astros são estáveis devido ao campo de forças de gravidade que os retêm, campo que são eles próprios em movimento inerte faces uns aos outros[12]; também os graves de que cada astro é feito são retidos pelo campo dessas forças, graves que por sua vez são feitos de moléculas que forças electromagnéticas retêm agregadas, os seus átomos por sua vez devendo a sua estabilidade à retenção de protões e neutrões no núcleo por forças nucleares. O que significa este ‘reter’ sublinhado quatro vezes? Que o que é retido tem estabilidade e que a perderia se deixasse de ser retido: a explosão da gasolina líquida num motor é um exemplo do fim duma tal retenção por forças electromagnéticas e a consequência é que as suas moléculas, gasosas agora, se expandem sob forma de explosão, o mesmo sucedendo, mutatis mutandis, aos protões e neutrões das bombas nucleares que explodem por lhes serem retiradas as forças nucleares, como ainda se expandem os fotões quando electrões se movem e perdem algo da força que os retinha. Se um foguetão enviado à Lua ou uma sonda a Marte, após deixarem o campo da força de gravidade que os retinha na Terra, seguem sem precisarem de mais energia do que a que os expulsou (seria impossível alimentá-los pela estratosfera fora como o foram até aí), seguem num movimento inerte, perdido de ligações a forças quaisquer. Então definir-se-ia uma força atractiva pela sua capacidade de reter o que, de inércia sua, se expande ilimitadamente. Ora, o que assim se expande, explode, são exemplos essenciais e não quaisquer, de energia. Então, o que as forças atractivas fazem em seu reter ou ligar, é criar entropia positiva, isto é, energia interna tal como Einstein a concebeu como equivalente à massa vezes o quadrado da velocidade da luz[13]. A palavra grega ‘entropia’ (‘fechar-se em si, timidez, vergonha’)[14] convém a esta ‘energia’ einsteiniana. Não são só os gases e os líquidos, os ares e os mares, que são sujeitos a ventos, ondas e outros turbilhões, também os sólidos são instáveis segundo a sua posição no campo da gravitação, como rochas sujeitas a erosão, sucedendo por vezes, de forma dramática, que vulcões ou sismos nos venham recordar que as palavras ‘terrível’ e ‘terror’ derivam de ‘terra’. Instabilidade química ainda, sempre que a proximidade entre moléculas dê azo às transformações que a química estuda, como os ferros que se oxidam. Tudo isto será construído entropicamente, em sentido de Prigogine, e é por isso que tudo pode ser destruído, que há entropia no sentido de Clausius, é por isso que há uma ‘história’ do Universo, da cena da gravitação[15].

8. Explosão, expansão, inércia, serão pois contra-exemplos da entropia prigoginiana, são movimentos de degradação dela, entropia clausiana que cresce. Mas são também os exemplos da estranha mecânica quântica, cuja principal estranheza é justamente a instabilidade da sua população de partículas, electrões à solta que disparam como balas ou como ondas (exemplos de Feynman no último capítulo), raras sendo as que conseguem perseverar quando soltas (protão, electrão, fotão e poucas mais); nem se lhes pode chamar ‘população’, que implica duração, nem ‘mundo’ ou ‘universo’ quântico, nem sequer ‘matéria’, já que ‘aquilo’ (que é estranho) só existe na luz, irradiações e corrente eléctrica e fora disso fugazmente em laboratórios. Quando o grande físico multiplica as advertências sobre a dificuldade de compreender a gravitação em termos de forças electromagné­ticas quânticas, deplorando o que se veio a chamar a não unificação das duas grandes teorias da Física do século XX, relatividade e quântica, a questão que o leigo pode colocar é a seguinte: qual é a barreira entre a grande estabilidade do nosso universo macro e a instabilidade inacreditável, ultra caótica, deste estranho micro quântico? Eis a resposta que arrisco: os campos das forças atractivas. Dum lado, só partículas, ainda que átomos isolados, do outro graves e astros que, analisados, se vê que são constituídos por átomos e seus núcleos, por moléculas[16]. Ora, como é que esta barreira pode ser ultrapassada? De cá para lá, por desintegração técnica dos graves até às partículas, em bombas nucleares ou nos grandes aceleradores; e de lá para cá, para a nossa matéria? Do big Bang para as estrelas? É possível ‘pegar’ em protões, neutrões e electrões e fabricar átomos e moléculas?

9. Se se aceita a concepção de ciência física proposta acima (§§ 4-5), haveria que concluir que o seu núcleo duro consiste nas equações correspondentes aos resultados experimentais, estes sendo os ‘dados’ que vão ‘verificar’ nessas equações as suas ‘variáveis’. Enquanto os instrumentos de medida não variarem, essas equações (variáveis e dados) verificam-se, como se diz, são verdadeiras. Galileu e Newton resistem às físicas do século XX, era sobretudo a física deles que se ensinava nas escolas de engenharia de meados desse século. Interpretar essas equações e essas experiências fragmentárias numa teoria, com as suas definições de conceitos e respectiva argumentação, sendo necessário para criar o próprio laboratório, é todavia trabalho de físicos ‘filósofos’ (ou teóricos) que definem e argumentam para compreenderem o que ao laboratório vem, já que as equações não atingem as ‘substâncias’, apenas diferenças e proporções, como disse Galileu[17]. Isso tem algumas consequências que os físicos terão dificuldade filosófica em aceitar. Uma delas é que os laboratórios são irredutíveis e portanto as equações e as técnicas de mensuração da Física newtoniana continuam cientificamente válidas, nomeadamente permitindo inúmeras construções técnicas, ainda que a interpretação ‘filosófica’, vinda de outros contextos laboratoriais (velocidades altíssimas, distâncias ultra microscópicas), possa rever as antigas interpretações, mas não declará-las ‘erradas’, como faz Feynman peremptoriamente uma vez ou outra. Fazendo-o, e é uma segunda consequência, não é enquanto físico (já que os respectivos laboratórios são irredutíveis) mas enquanto filósofo. Igualmente ‘filosófica’ será a pretensão de que a mecânica quântica seja válida em toda a realidade extra-laboratorial, no nosso universo material onde as velocidades são ‘pequenas’ e ‘minúsculos’ os comprimentos de onda, por via das dimensões macroscópicas dos graves. Ou seja, dada a irredutibilidade dos laboratórios respectivos, a tão desejada unificação das duas grandes teorias do século XX só poderia ser ‘filosófica’, incluindo a dimensão filosófica das ciências. Ora, o filósofo Cornelius Castoriadis evoca “a antinomia epistemológica formulada por Heisenberg desde 1935 entre a constatação da não validade das categorias e das leis da física ordinária no domínio microfísico e a demonstração dessa não validade por meio de aparelhos construídos segundo as leis dessa física ordinária e interpretadas segunda as categorias usuais”[18]. O que significa que a unificação das duas Físicas, relatividade e quântica, só seria possível tendo em conta os laboratórios em que elas foram formuladas, os seus instrumentos de medição e respectivas diferenças de escala[19], e portanto também a validade laboratorial da Física de Galileu e Newton, cujas equações aparecem quando reduzidos os factores de escala (quando v/c tende para zero nas equações relativistas).

A entropia e a flecha do tempo contra o determinismo

10. O que Prigogine descobriu foi o segredo de toda a evolução, de toda a história, invenções e descobertas, da chamada flecha do tempo. A partir duma situação caótica ameaçando degradação, implosão ou explosão, entropia de tipo Clausius, como é que pode a vida adiar a morte, a desintegração: como é que, de formas muito diversas consoante o nível de que se trata da chamada realidade, se produz entropia de tipo Prigogine, se criam novas estabilidades com suas regras adequadas a circulações aleatórias, portanto instáveis. Permitiu compreender que a entropia não é só ‘não’, é ‘sim’ e ‘não’, sem se oporem (como foi talvez a sua tendência de pensamento), já que a flecha do tempo vai primeiro ao ‘sim’ e depois ao ‘não’, a morte depois da vida e como condição desta (já que só sobrevivemos comendo cadáveres).

11. Recapitulemos. Há duas formas essenciais de matéria na Terra. Matéria inerte em sentido clássico que se faz da agregação de moléculas relativamente simples e iguais para atingir dimensões macroscópicas, sólidas, líquidas e gases: como perdura, de gelo a água e desta a vapor, a ligação entre os átomos de oxigénio e de hidrogénio, que se revela mais forte do que a solidez e a liquidez. A outra, matéria viva, que, para também chegar a dimensões macroscópicas e formar organismos muitíssimo variáveis, se faz da composição de moléculas diferentes em suas funções celulares e muito complexas, à base nomeadamente de carbono, e por isso instáveis e pedindo serem refeitas constante­mente, pedindo alimentação; que contraste com a estabilidade e a impenetrabilidade dos átomos, graças aos seus núcleos, impenetrabilidade que os torna irremediavelmente outros entre si. O que fez a vida, foi inventar um novo nível de mesmo, acima desta alteridade empírica radical: o nível de indivíduos diferentes da mesma espécie. E foi no metabolismo da matéria viva que Prigogine descobriu uma entropia positiva.

12. É de crer que o sábio tenha sido levado pela importância da sua descoberta a uma oposição entre a sua entropia e a de Clausius, a uma exclusão entre os fenómenos entrópicos, a uma oposição em seguida às certezas que acompanharam as lendárias descobertas dos seus predecessores, cujo fim um seu título proclama: “o fim das certezas”[20]. Ora, as certezas da física clássica, laboratoriais, mantêm-se, como se disse, não passaram a ser leis meramente estatísticas, e em vez de se dizer que são leis deterministas, deve-se dizer que são leis determinadas, isto é, deduzidas nas condições de determinação do laboratório. O problema é que sempre se pensou que o que era válido no laboratório era automaticamente válido na chamada ‘realidade’; mas obviamente que aí sempre houve incertezas, devido à confluência não dominável de efeitos, que é justamente o que implica a necessidade de laboratório. Ora, o motivo da cena, como é claro com a máquina automóvel, esclarece a questão: as regras de detalhe estudadas pelos laboratórios correspondem no todo teórico a situações aleatórias, a máquina é construída rigorosamente nas suas peças para seguir o aleatório da lei do tráfego. Como a anatomia de qualquer animal, ‘construída’ segundo a cruel lei da selva que comanda que se coma outro vivo para se sobreviver. A lei da gravidade vale sempre na terra, mas a trajectória de cada grave depende da sua posição aleatória na cena. Quanto à mecânica quântica, o problema da incerteza das medidas terá a ver com o facto de que a distinção entre laboratório e cena fora desaparece num acelerador de partículas (instabilidade total, nem de cena se pode falar). Que fora do laboratório reina a contingência sempre se soube, duma maneira ou doutra, desde Platão que colocou as entidades resultantes da definição na eternidade celeste porque na terra só havia contingência, geração e corrupção. Mas é certo que, na esteira dele e do neoplatonismo do século III onde o terrível Agostinho foi beber, um Deus absoluto opunha-se a essa contingência e marcou os sábios europeus, fossem ou não crentes, com uma concepção determinista que extrapolava as certezas laboratoriais (que a astronomia justificava), e contra esse determinismo Prigogine estava certo. Mas era preciso outro argumento em tal combate. O que não se sabia – não se escreveu que se soubesse da forma generalizada que convém a um tal saber –, o que o mestre também não soube, é que as regras (ou leis), os saberes científicos que alimentaram a narrativa lendária das ciências europeias dos últimos quatro séculos, não se realizam substancialmente, vimo-lo com Galileu, mas são regras estrutu­rais de regimes aleatórios de circulação: exemplo do automóvel entre o rigor laboratorial da sua construção e o aleatório do seu jogo no tráfego, da anatomia animal que joga no aleatório da caça ecológica e da fuga a ser-se caçado, das regras da língua que servem para o aleatório das conversas ou das escritas. E este ser das regras para o aleatório só é possível, em todos os seus níveis, devido à entropia prigoginiana. Como acima das rochas, dos mares e dos ares, móveis por certo mas duradouras de grande estabilidade se as temperaturas não mexerem muito, se estabeleceram in/estabilidades vivas, não só eminentemente frágeis já que mortais, mas fazendo da morte vida, lei da selva, em espécies cada vez mais complexas, que são elas que duram além das gerações de indivíduos mortais que procriam.

13. É o ser das leis científicas para o aleatório, quero crer, que reabilita – sem determinismos e segundo a relatividade do saber ocidental enquanto histórico – a verdade delas e a das ciências exactas dos sábios europeus, contra muitos dos seus próprios herdeiros que hoje facilmente crêem que uma tal ‘verdade’ é provisória, um erro suspenso. As técnicas que dos laboratórios delas derivaram desmentem esse cepticismo.


[1] Com alguns acrescentos ao que aqui coloquei em 10/ 2014 e agora retirei, por ocasião da comunicação que dele fiz ao Colóquio de Fenomenolgia e Física na Faculdade de Letras de Lisboa, 16-18/10/17, What is a physical entity?, é um texto  que propõe uma fenomenologia científica (http://filosofiamaisciencias.blogspot.pt/) e considera quatro grandes cenas históricas: a do gravitação (cosmo), a da alimentação (vida), a da habitação (sociedades humanas) e a da inscrição (saber definido ocidental), os elementos de cada uma sendo caracterizados respectivamente pelo núcleo atómico, pelo ADN, pelas unidades sociais com disciplina sobre a sexualidade e pelo alfabeto e definição. A viragem fenomenológica em relação à filosofia europeia deu-se com Husserl, Heidegger e Derrida, colocando as diferenças (respectivamente ontológica e com a) antes das substâncias, como adiante se dirá terem iniciado Galileu e Newton.
[2] Ed. Gradiva Presença 2000.
[3] Ver No paradigma da Biologia falta o ‘ser no mundo’ (debate com Teresa Avelar e António Damásio) in  http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/
[4] Herança reconhecida pelo grande físico que foi Feynman: “[...] o que era hábito chamar filosofia natural, de onde derivou a maior parte das ciências” (p. 74), crendo aliás, erradamente mas como Newton, que a Física é o seu equivalente moderno.
[5] As regras que as ciências descobrem jogam em função de tal aleatório, como um automóvel é projectado laboratorialmente para se mover no aleatório do tráfego.
[6] Galilée, Discours et dé­monstrations mathématiques concernant deux scien­ces nouvelles, in­trod., trad. e notas por M. Clavelin, 1970, A. Colin, p. 144.
[7] Thomas Kuhn, La structure des révolutions scientifiques, [1962], Flammarion, 1983, p. 31.
[8] Feynman diz que “Newton não elaborou hipóteses, ficou satisfeito por descobrir o que ela fazia, sem se interessar pelo seu mecanismo. Ninguém desde então propôs qualquer mecanismo” (p. 128). De facto o que Newton disse foi que não era capaz de ficcionar (latim ‘fingere’, fingir), imaginar, uma hipótese explicativa dessa estranha força a distância : “não consegui ainda deduzir dos fenómenos a razão destas propriedades da gravidade e não imagino uma hipótese (hypothesim non fingo)” (Newton, Principes mathématiques de la Philosophie natu­relle, trad. de Mme Châtelet, Paris [1756], édition fac-simile de A. Blanchard, 1966, pp. 178-179).
[9] Quero crer, seja dito de passagem, que o ‘gravitão’ dos físicos que não há meio de ser encontrado, releva desta concepção de força local e que não terá cabimento em forças atractivas. Mas como não se sabe o que estas são, só que não são substanciais...
[10] Feynman sublinha constantemente esta ignorância dos físicos do seu tempo sobre motivos fundamentais da Física: pp. 57, 66, 95, 106, 107, 113-4, 128-9, 133.
[11] As forças atractivas, a energia e a inércia não têm qualquer sentido senão pela sua proveniência do laboratório físico, o que não é verdade de espaço, tempo, velocidade, peso… Sem o campo da gravidade, não há movimentos de graves na terra, sem explosões electromagnéticas ou nucleares não há óptica nem relatividade nem mecânica quântica.
[12] A diferença fenomenológica entre o campo das forças e os astros ou graves que o constituem é equivalente à diferença entre espécie biológica e os seus indivíduos, uma língua e os seus discursos e textos, uma sociedade e as suas populações. Afirmar num primeiro tempo o primado do ‘campo’ sobre os astros, só se pode fazer apagando-o em seguida para se dizer que são o ‘mesmo’, um não vai sem os outros.
[13] Foi sobre radiações electromagnéticas que ele argumentou no 4º texto de 1905, de três páginas apenas, que estabelece essa fórmula.
[14] Em 'entropia', o verbo trepô significa ‘mudar, virar’, que o ‘en-’ interioriza, significando ‘mudança interior’, de sentimentos: aqui, de energia interna.
[15] Até onde é que a ‘atracção’ por forças continua a jogar nos níveis entrópicos da vida e dos humanos? Ao nível biológico, as noções de ‘faro’ e de ‘fome’ jogam como atracções químicas essenciais na reprodução alimentar dos vivos, assim como as pulsões sexuais são atracções químicas para a reprodução das espécies. Na habitação social, o motivo de ‘vontades’ responde igualmente ao paradigma dos usos que as ‘atrai’, continuando o jogo dos desejos a ser de atracção, tal como as rivalidades funcionam entre rivais que se buscam combater e vencer. Enfim, ao nível da inscrição, a curiosidade é o grande motor atractivo de todo o saber, aprendizagens como descobertas e invenções. Treino e educação são maneiras de reter a espontaneidade química dessas atracções para criar nelas entropia, isto é, fazer delas uma espontaneidade hábil capaz de servir em qualquer momento útil. Eis uma maneira de justificar aos físicos a ousadia da proposta feita.
[16] Seria tentado a dizer que a física das partículas é kantiana e a do átomo husserliana. Os pés de barro do kantismo são o seu ponto de partida nas ‘sensações’, como se estas fossem ‘entes’ donde partir, enquanto que Husserl foi mais avisado e assentou o seu edifício fenomenológico na percepção da coisa, sempre a mesma ainda que variando as percepções dela. Quer Kant quer a compreensão (que me parece ser a) da física das partículas obedecem ao princípio cartesiano de ir até ao mais simples e depois ir subindo. A questão é a de saber se esse mais simples, sensações e partículas respectivamente, subsistem por si de maneira a poderem servir de base possível da síntese.
[17] A primeira definição de Newton é de “quantidade de matéria”, que designa pelas palavras ‘corpo’ ou ‘massa’ e conhece-se pelo peso dos corpos, isto é, por mensuração; começara aliás por dizer que “os Modernos rejeitaram enfim, há algum tempos, as formas substanciais e as qualidades ocultas”. Quantidade (por diferenças medidas, como Galileu) e não qualidade: des-substancialização.
[18] “Science moderne et interrrogation philosophique”, Encyclopædia Universalis, vol. Organon, 1975, p. 48.
[19] Tidas em conta nas respectivas equações, como faz para a relatividade restrita Laurent Nottale, La relativité dans tous ses états. Au-delà de l’espace-temps, Hachette, 1998.

[20] Também editado pela Gradiva, 1996.