segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Dois tipos de laços: por conjunção ou por coordenação







Conjunção ou justaposição / coordenação ou sintaxe
1. Uma forma geral de caracterizar os duplos laços é dizer que eles ligam os elementos dum ente ou estrutura social e relevam de duas leis indissociáveis – nenhum dos laços pré-existe sozinho, não são dois laços mas um laço duplo –  e inconciliáveis – entre cada duplo laço e a cena dos outros todos por razões diferentes consoante os domínios –  : uma das leis dá o movimento ao ente ou estrutura social a um como que ‘motor’ alimentado de fora, a outra, recebida das leis de circulação da cena como um ‘aparelho’ de regras que permitem ao ente (ou estrutura) circular (ou reproduzir-se) na cena face aos outros que aí circulam, dando sentido à sua circulação (como um automóvel, que serve de modelo simples). Aproveitando o último texto publicado, a diferença entre as moléculas minerais dos graves e as moléculas orgânicas das células permite um primeiro exemplo destes dois tipos de duplos laços: as moléculas minerais (podendo sem dúvida misturarem-se como no granito, no vinho ou na atmosfera, em que predomina azoto e oxigénio), formam graves juntando-se moléculas iguais, ao invés das moléculas das células, especializadas em funções diferentes criando uma ordem nova, o que, a partir do grego táxis (ordem) juntando o prefixo ‘com’ (syn), deu o termo linguístico sintaxe, de que coordenação é o equivalente latino.
2. O simples não é deste mundo. A Terra é um imenso conjunto geográfico, com zonas de selva e outras urbanizadas. Estas são compostas de unidades sociais diversas, familiares e de emprego, compostas de indígenas e de utensílios, do que os filósofos chamam ‘entes’, os quais são por sua vez ‘compostos’ (de partes mais simples, por sua vez também compostas) e que são susceptíveis de movimento, de mudança. Essas partes mais simples que compõem o composto, algo as enlaça de maneira que condiciona as possibilidades de mudança do composto, que pode ser móvel na sua cena (exemplo com os animais compostos de órgãos) ou ser apenas susceptível de ser movido por outros (pedaços de inertes). Trata-se duma aproximação comparativa dos laços dos compostos que ou serão por conjunção (ou justaposição) dos elementos homogéneos de que são compostos ou por coordenação (ou ‘sintaxe’, ‘organização’ por via de ‘órgãos’) dos seus elementos a partir da sua especialização; com efeito, é a especialização dos elementos que os compõem que define os duplos laços por sintaxe. Os duplos laços do átomo ligam partículas – protões, neutrões e electrões – os quais não subsistem por si sós, são particulas, bom nome que mantém bem o do átomo, etimologicamente aquilo que não se divide. Nem o átomo sozinho nem por mais forte razão as partículas são ‘entes’ ou fenómenos em sentido terrestre, são “entes de laboratório”, como dizia um dos pais da Mecânica quântica, Niels Bohr.

A justaposição dos inertes
3. Do átomo à molécula: os 2 electrões livres (da esfera de atracção ao núcleo, em que estão retidos todos os outros) terão esse papel de força atractiva que liga quimicamente dois átomos em moléculas, e depois liga esses pares de moléculas a outros de número diferente de protões (a química feita por fotões / electrões), pares esses, simples ou compostos, que são por sua vez capazes de formarem com outros iguais graves macroscópicos sólidos, líquidos ou gases, sobre os quais actua a gravidade. A lei de atracção da gravidade de Newton exerce-se, segundo ele, entre quaisquer dois graves, mas nós não a vemos a actuar entre dois objectos quaisquer que aproximemos um do outro como se fossem ímanes, porque o laço de atracção da Terra sobre eles dois é forte demais, o que leva a pensar que só uma grande quantidade de graves é que parece capaz de ‘engravidar’ como astro. O que implica que, do ponto de vista da fenomenologia que eu tento, a partir do motivo de duplo laço em cinco descobertas científicas decisivas do século XX, os electrões acopulando-se com fotões (Feynman) são os elementos decisivos que permitem desdobrar quimicamente a matéria desde o átomo de hidrogénio até aos materiais oferecidos à gravidade para o fabrico de astros, o sistema planetário do sol e planetas, e depois as galáxias todas, todo este macrocosmos entregue às órbitas criadas pelas forças de gravidade e expandindo-se por inércia, a qual supõe o laço nuclear de cada átomo como o que lhe garante uma identidade perene, o que se terá dado aos nossos antepassados como ‘eternidade’.
4. Se começo pelas estrelas é por as partículas à solta que os físicos propõem para antes delas não me parecerem susceptíveis de entendimento em termos de composição em laços, como disse acima. As estrelas são, ao que eles dizem, formadas da conjunção de átomos de hidrogénio e de hélio e as combustões que elas operam desses átomos estão na origem dos outros átomos mais complexos da tabela periódica, que podemos dizer serem, segundo o seu número de protões e neutrões, mais ‘especializados’ do que aqueles donde provêm, sendo eles que deram origem aos planetas, nomeadamente à Terra em que todos estes conhecimentos têm sido adquiridos ao longo dos séculos. Que as estrelas sejam astros capazes de produzirem átomos até então inéditos, os dos graves dos planetas, marca bem uma diferença – estrela / planeta – na génese da cosmologia que veio a acentuar-se muito fortemente no planeta que inventou a vida. A Terra, que Lovelock pensou – como Gaia – como uma unidade quiçá coordenada, dá-se todavia como justaposição de compostos de três grandes condições, rochas sólidas da crosta, mares líquidos e ares gasosos, litosfera, hidrosfera, atmosfera. As suas mudanças são da ordem da química, que opera nas justaposições em que os graves se encontram, e da ordem da física, segundo a gravidade que liga o conjunto dessas três grandes componentes como unidade planetária, em duplo laço que se faz com os laços dos núcleos dos átomos impenetráveis. O que opera nestas conjunções que são os graves, rochas, águas e gases do ar, são essencialmente electrões e fotões, que ligam átomos homogéneos para formar as respectivas moléculas, e estas entre si para fazer os graves em suas dimensões, mas têm que pressupor o papel das forças nucleares que ligam protões e neutrões e os retiram tanto das modificações químicas como das mudanças provocadas pela gravidade. As explosões nucleares como as da gasolina nos nossos carros, em que as partículas do núcleo e as moléculas líquidas virando gás manifestam uma violência que as faz escapar à gravidade terrestre, parecem sublinhar que esta actua essencialmente sobre esses graves que resultam das conjunções de moléculas homogéneas. Ainda que estas conheçam de facto, com dominâncias de elementos – sílica das rochas, água dos mares, azoto e oxigénio dos ares, respectivamente – heterogeneidades significativas, sem todavia chegarem a uma coordenação como o motivo de Gaia postularia porventura.

Foi a vida que inventou a sintaxe
5. A célula é o primeiro duplo laço que se faz claramente como uma coordenação de moléculas heterogéneas altamente especializadas, bem mais complicadas do que as que formam o planeta Terra: onde há especialização tem que haver coordenação ou sintaxe, como em qualquer protozoário ou bactéria. Há um paralelo curioso entre o duplo laço do átomo e o da célula: em ambos, a movimentação interna é levada a cabo pela zona onde se fazem trocas da ordem da química, electrões com fotões no primeiro, metabolismo na segunda, enquanto que os laços restritos, os dos núcleos respectivos, têm em comum garantirem as identidades dos respectivos compostos, do átomo (moléculas de graves) como a da célula (organismos), o que explicará que estes duplos laços escapem ao modelo geral ‘motor + aparelho’ dos compostos (sendo que no caso do átomo se garante também a inércia destes – graves e astros –, já que os respectivos duplos laços incluem os núcleos atómicos). Em contraste com a alta sintaxe da célula, as primeiras colónias de células cuja extensão cria uma unidade animal na cena ecológica, serão simples justaposições donde lentamente se farão embriões de órgãos, como proto-aparelhos digestivos muito simples comuns aos vários anéis justapostos de vermes, por exemplo. O que é fortemente aparatoso é como, tanto em invertebrados como em vertebrados, se dão estranhos fenómenos de metamorfose que parecem ao leigo ser (pelo menos nos vertebrados) a transformação de embriões de tipo justaposto em adultos organizados com os seus órgãos alinhados em torno de um esqueleto (de vértebras justapostas) com membros e músculos, o que exige um sistema digestivo e respiratório com distribuição das moléculas da boca às células todas e sistema neuronal que ‘sabe’ do conjunto e do ambiente próximo da cena de forma a poder estimular a mobilidade para a necessária caça. O duplo laço do organismo é constituído por este sistema que alimenta todas as células e serve de laço ‘motor’ ao conjunto capaz de mobilidade que, laço ‘aparelho’, constituído pelo sistema de órgãos de ‘ser no mundo’ (olhos, faro, ouvidos, tacto da pele, sabor), a rede neuronal e cerebral e os músculos, se encarrega da busca da necessária alimentação na cena ecológica.
6. Os órgãos (de tecidos feitos) destes dois sistemas são as peças que os duplos laços animais ligam. A questão é: como é que se fabrica a especialização das células dos tecidos? Barbieri termina o seu livro pela confissão da ignorância da bioquímica de 1985[1]. As células do sangue, os glóbulos vermelhos, que vão a todas as células, e os nervos do neuronal, axónios de neurónios, que mobilizam os músculos – são ligações? Um, correlativo do genoma, o outro, do aprendido – com as hormonas esteroides? Será que a embriologia esclarece a questão? O sangue alimenta as células com moléculas, o neuronal mobiliza o conjunto dos órgãos para a mobilidade necessária. Algumas etapas da composição da anatomia, sabendo que se trata sempre do conjunto a ter que funcionar para caçar e não ser caçado: ganhar esqueleto de vertebrado, ganhar sintaxe orgânica além dos anéis com as metamorfoses, ganhar superfície neuronal para estratégias mais complexas (neo-cortex). O que é que os electrões têm a ver com as células e com as suas moléculas bioquímicas extremamente complexas, à base de carbono nomeadamente? Essas moléculas são compostas por demasiados átomos que forças intra-moleculares (electrões) ligam entre si; essa complexidade – que joga já na diferença entre as moléculas que os glóbulos vermelhos do sangue levam, aminoácidos, relativamente pequenas, que terão que ser sintetizadas, isto é, compostas em moléculas mais complexas – parece ser a fragilidade mesma da vida, a sua mortalidade face à ‘eternidade’ das moléculas das rochas ou da água dos mares, será o que obriga ao metabolismo incessante das células. Mas como os biólogos que eu li não falam nunca em ‘electrões’ nestas moléculas orgânicas, não sei acrescentar grande coisa a esta hipótese. A biologia é com a embriologia que repete a evolução mas sem os obstáculos que esta enfrentou, usando os truques que ela inventou em cada espécie e que o jogo ARNs/ADN retém; depois, a memória do aprendido. O pouco que li sobre embriologia, já há algum termpo antes de chegar a estas questões mais ambiciosas, não tinha nada a ver com evolução, embora a velha tese de Haeckel, de que a embriologia recapitula a evolução da espécie, pareça muito sedutora; um único exemplo: o líquido amniótico do embrião, assim como o sangue que vai a cada célula, repetem a invenção das células no mar, com a mesma percentagem de sal. As células nunca terão funcionado fora do ‘mar’, o “meio interior” d Claude Bernard será um “mar interior”.

A linguagem é só sintaxe
7. As línguas humanas, comparadas com matemática, músicas (igualmente lineares na sua composição) ou desenhos de mapas ou fotografias (sem essa linearidade, construídas em planos), são as únicas cujas unidades, as palavras, são duplamente articuladas, donde os seus duplos laços, segundo as duas dimensões da fala (parole), que a linguística saussuriana opôs à língua: a voz e o discurso. A voz é a corrente sonora (ou a linha de letras dos textos alfabéticos como este) que sai da garganta e entra no ouvido (que sai da mão que escreve e entra pelos olhos), corrente essa que se percebe, pela energia implicada – na ex-pressão oral ou na im-pressão escrita – ser o ‘motor’ do fenómeno da comunicação; mas que obviamente não é suficiente para ela, basta considerar que se ouve um estrangeiro cuja língua se desconhece. A voz é feita de palavras articuladas por fonemas / letras, enquanto que o discurso articula-as em frases que permitem que o sentido do que alguém diz se torne comum aos que ouvem e partilham da mesma língua. Como é que o falar colhe as coisas do mundo a dizer de forma inerente a esse dizer, como é que essa capacidade de colheita faz parte da língua? trata-se de palavras que são nomes, de coisas ou gentes, de acções ou qualidades, etc. A colheita é inerente ao nome, ainda que este conheça deslocações metafóricas sempre possíveis. Se não forem nomes, são palavras de sintaxe (sincategoremas medievais, preposições, conjunções...) das que o são (signos ou categoremas, substantivos, adjectivos, verbos e advérbios). Na frase, as preposições ligam sintagmas nominais ao verbo, as conjunções ligam frases subordinadas à principal: são, por assim dizer, arremessos de desdobramento, de terceira ligação. E a cena? É a maneira de nomes e verbos agarrarem coisas, gentes e seus actos: criarem uma constelação de actantes, é para isso que serve a linguagem de seres no mundo, dar a ver / ouvir a cena contada. Sem conhecerem justaposições (talvez lengalengas, ladainhas...), que facilitariam a aprendizagem da fala a bebés, estes recebem como automatismos o que a pouco e pouco vão dizendo, quer dos sincategoremas da frase quer da articulação dos fonemas de que cada palavra é feita, isto é aprendem a falar correctamente sem terem de aprender escolarmente as regras da gramática, que nós continuamos a utilizar sem pensar nelas nem gaguejar. Ora bem, há uma maneira de entender a dupla articulação / ligação entre voz e discurso, atentando em quem, em sequência de um acidente tipo AVC, seja afectado nos músculos da fonação e tenha que fazer terapia da fala: esta exige-lhe algo de ‘impossível’, que dê atenção ao que quer dizer e escolha as palavras convenientes para o seu discurso, mas que dê também atenção à maneira como diz cada fonema da voz, aquilo que qualquer falante faz automaticamente (também um estrangeiro tem esse problema, ficando-lhe por regra um sotaque que lhe vem de não conseguir dizer alguns como os indígenas).
8. A cena é feita das experiências (em sentido lato, que inclui o que só se sabe de se ouvir dizer ou de ler) entre actantes que se falam (eu / tu) – são os “discursivos” de Benveniste – ou repetem acontecimentos outros que podem ser repetidos (narrativos) ou definem e argumentam sobre essências, fora do espaço e tempo do eu / tu e dos verbos dos acontecimentos, criando constelações de motivos de saber, do que, não dito por eu / tu nem acontecido, permite compreender o que faz mover a cena (textos gnosiológicos, como os da filosofia e das ciências, da matemática e da lógica). Além de denotarem aquilo que nomeiam, os nomes em qualquer destes três grandes tipos de textos criam conotações entre si no texto, estruturando-se como códigos que se vão dizendo / escrevendo, sendo o que liga os nomes e os verbos do esqueleto textual de frases nessa constelação um código sequencial, outros códigos coadjuvando (analítico e estratégico no evangelho de Marcos que li em tempos), assim como os vários códigos paramétricos que se mantêm constantes ao longo do texto. Nos três tipos linguístico-textuais de Benveniste, a instância de enunciação em torno do presente (discursivo) e os códigos topográfico e cronológico em torno do aoristo (narrativos) fazem parte dos códigos enquanto factor de desdobramento da frase (dos linguistas) ao texto (dos semiotas); que sejam eles que são eliminados no gnoseológico mostra que o paradigma dos sujeitos / verbos é o que estende a frase para o texto, criando conotações textuais que são o factor principal: aqueles dois fazem parte, marcando quer a espacialidade da enunciação quer a temporalidade dos verbos, de forma radical nos narrativos, que o gnoseológico reduz por efeito da definição. O discurso / texto é uma sequência articulada de frases e é esta terceira articulação / ligação que é constituída pela repetição de ‘actantes’ (que são lugares textuais que os textos singulares preenchem) na extensão sequencial coadjuvada pelos códigos paramétricos. Tratar-se-á duma quarta articulação de narrativos e gnosiológicos, a dos códigos formando paradigmas que dão azo a corpus.

Os duplos laços das sociedades humanas
9. Antes de os abordarmos, ponhamos a difícil questão do desdobramento entre dois níveis de cenas abertas pelas ciências europeias. A invenção da célula, supondo um jogo de fazer e desfazer moléculas durante um bilião de anos e a pré-existência entre elas de algumas capazes de sintetizarem moléculas mais pequenas segundo a sua própria ordem bioquímica (Barbieri), é por assim dizer completamente gratuita, face à zona da gravitação sem dúvida, mas também à da ordem química, de tal maneira as suas probabilidades eram diminutas (um bilião de anos!). Se se tem em atenção que essa invenção é a duma estrutura conservadora, capaz de se auto-reproduzir tal e qual (é o grande efeito do ADN, parece-me ser a consequência da teoria do biólogo italiano, que trabalhou muitos anos na Alemanha), resulta que a evolução, que implica alterações anatómicas, é fortemente improvável. Presumo que a descrição que Jean-Marie Vincent fez das hormonas esteroides, lhes permite ter um papel de impulsão de algumas alterações internas, mas antes de haver glândulas que as secretem já houve muita evolução: de qualquer forma, os duplos laços com a sua relação essencial à cena ecológica e à criação de entropia (Prigogine) poderão fornecer uma base teórica plausível. Já no que diz respeito às sociedades, a mesma contradição entre conservação e progresso existe mas é mais facilmente explicável. O risco é que, em ambos os casos, compreender a evolução ou a história, não sendo possível pensar as coisas apenas de baixo para cima, sempre o telos comande o desdobramento, embora de forma incipiente: como evitar a teleologia? A resposta parece ser mais simples em história do que em evolução, em que somos quase irresistivelmente levados a pensá-la como tendo os humanos como o seu ‘fim’ (com a agricultura e a criação de gado como ‘vitória’ duma espécie na guerra da selva), embora não ‘finalidade’ (que orientasse a evolução, lhe desse de avanço esse sentido). Resta saber se os biólogos consideram que a agricultura e a criação do gado inventadas pelas sociedades humanas e a respectiva “selecção” de variedades e raças fazem ou não parte da evolução (porque não?). Em história, é mais fácil evitar a teleologia. O final do ápice mediterrânico da Antiguidade, o império romano do Ocidente e o intervalo de cerca de dez séculos até haver ‘renascimento’ do fio do progresso, assim como, por outro lado, a extrema poluição que a tecnologia trouxe com os  seus benefícios, a crise em que nos encontramos sob a ameaça do aquecimento global, qualquer que seja a sua causa, estes dois exemplos a menos de dois milénios de distância (e já houve algo de equivalente durante três ou quatro séculos entre a Idade do Bronze e a do Ferro, entre os séculos XII e VIII), são suficientes para evitar uma teleologia.
10. A tribo é uma colónia de unidades locais justapostas com usos e língua comuns, que trocam mulheres e bens e se reúnem para fazer guerra e outros casos tribais: os conselhos de anciãos serão os nós do laço político, os trabalhos (digestivo, etc) pertencendo às unidades locais justapostas. São os desdobramentos que resultam de invenções técnicas que vão estar na base da especialização das unidades locais: enquanto que as casas agrícolas permanecem numa lógica de autarcia, de justaposição, nas vilas e cidades  casas artesanais criam um laço económico, o mercado, e as casas de guerreiros dominam o laço politico, formando conselhos (côrtes) de governo, em torno do que rege, o rei, o laço global social, religioso, se votando a glorificar os deuses de quem dependem as fecundidades económicas, colheitas e rebanhos, como as do parentesco, a das mulheres e as saúdes dos indígenas de que elas cuidam, como da alimentação, enquanto que o justifica os guerreiros é a defesa do conjunto e, por jogo de reciprocidade que é a guerra, o ataque dos vizinhos que se revelem mais fracos e susceptíveis de derrota e vassalagem
11. As invenções abrirão também, a parti da invenção da escrita a especialistas desta, nomeadamente literatos, filósofos e cientistas, que virão a abrir escolas secularmente marginais (tal como aliás os mercados) e, no alvor da Europa, laboratórios. Será deles que sairão as máquinas, desde o vapor da segunda metade do sec. XVIII, e a electricidade e da  conjunção de ambas os motores eléctricos e os automóveis e outros veículos e aviões a petróleo. Ou seja, a revolução industrial que provocará, do que até aí era marginal – escola, mercado, laboratório – uma explosão de especializações que rebentou sobre as antigas casas agrícolas e a sua autarcia plurimilenária e as quebrou entre unidades familiares sempre em justaposição entre elas e com paradigmas relativamente equivalentes e unidades de empregos especializados, das quais depende o pão para a boca dessas famílias. Mas todas as novas unidades locais (sem trabalho alimentar), ao ganharem dimensão, precisarão de ‘conselhos de experimentados’, à maneira dos antigos conselhos de anciãos tribais, que as governem como direcção ‘politica’ do laço interno da unidade.
12. Aos dois tipos de laços – por conjunção ou por coordenação / sintaxe – há que ter em conta outros dois que se combinam com um daqueles: os que fazem entes, inertes e vivos, os que fazem unidades sociais de muitos vivos e as respectivas sociedades, uns fazem coisas (inertes ou vivos), os outros estruturas de coisas. Assim, as células em sua sintaxe justapõem-se em tecidos e estes em órgãos que por sua vez se coordenam na anatomia do organismo. Numa casa de antanho, como nas famílias modernas menos rigidamente, indígenas mais ou menos especializados segundo idades e sobretudo género, funcionam no mesmo paradigma que os justapõe aos das unidades sociais vizinhas. Nas instituições, num todo em sintaxe, o trabalho em série coordena trabalhadore/as que repetem os mesmos gestos no que se pode chamar justaposição consigo mesmo (rotina exacerbada, que é o contrário da sintaxe especializada). E como encaixar no jogo de duplos laços dois tipos espantosos de fenómenos biológicos: as metamorfoses e a transformação de órgãos justapostos em órgãos coordenados em sintaxe, por um lado e por outro, a tese sedutora de Haeckel, na geração a seguir a Darwin, segundo a qual a evolução de cada espécie biológica é recapitulada pela sua embriologia. Claro que este tipo de ‘recapitulação’ é para ser lido com muitas aspas, é preciso uma certa quantidade de especialistas de épocas diferentes para estabelecer a sua verosimilhança. Mas de forma não sequencial, até porque desconta o que se tem por erros, é óbvio que a escola recapitula a história do saber ocidental, como uma forma de embriologia social, desde a primária até aos seminários de doutoramento, e fá-lo através de unidades textuais, manuais e sebentas não sendo outra coisa do que recapitulação, começando pela definição e pela lógica de argumentação inventadas pelos Gregos.
13. E a menção dos Gregos faz surgir uma questão final: para que servem filosoficamente os duplos laços? Há que dizer que a grande ambição deste motivo é o de substituir o motivo deAristóteles de ousia (essência / substância na versão latina), que foi o nó da sua Physica enquanto Filosofia com Ciências. Ela serviu-lhe para disciplinar a argumentação das várias ciências gregas. A primeira pretensão dos duplos laços gramatológicos é a de corrigir – fraternamente para cientistas, de filósofo (com ciências, não vindo de fora) – os erros que a ousia gerou nos paradigmas das ciências, erros resultantes da operação de definição, a qual foi fundamental para as ciências, mas com ‘danos colaterais’ (ontoteológicos). Como a definição exclui a cena dos entes definidos, como ‘ambiente’ de que relevam os “acidentes” na sua singularidade, variáveis consoante os entes definidos, o coração da ousia, a sua essência, estava no próprio ente como substância: ontoteologia, o ente em si próprio com o seu eidos (o que dele se vê) que a teologia cristã tornará facilmente na criatura do Criador, e a filosofia / ciência europeia na dupla de opostos sujeito / objecto. A primeira vantagem dos duplos laços é a de colocar os fenómenos na cena, na sua singularidade (e não uma ‘essência’ abstracta), como efeito produzido por ela, cena, por nascimento ou fabrico ou química. Ora, a ousia foi pensada para compreender o movimento dos entes, fundamentalmente o dos vivos (os que crescem, phuô, donde physica). Esse motivo foi repudiado pelos físicos e filósofos do sec XVII, e com ele as ‘causas’ associadas aos seus ‘sentidos’, as de matéria e  forma por razões de inadaptação ao laboratório, cuja operação principal é a medição do movimento, retendo apenas a de ‘motor’ (kinein, o que dá o movimento) e nomeadamente negando a causa final (telos). Esse repúdio generalizou-se, como se fosse uma tese filosófica imposta pela ciência emergente (apenas a Biologia resistiu alguns séculos), em todo o caso tornou-se, mais do que um erro, quase um delito herético. A questão é: e porquê essa rejeição? Devido ao facto da Física ocupar-se de inertes, tendo a sua extensão filosófica aos vivos provavelmente num fisicalismo latente: a Física seria capaz de explicar um dia mais tarde o movimento dos vivos que crescem (como hoje está conseguindo, mas com dificuldades fora da cena, em aliar bioquímica e anatomia). Foi todavia ela que inventou máquinas em que o motivo de finalidade é estrutural, como qualquer automóvel ilustra, ainda que venha a ser automático, não deixará de ter destino em cada viagem, como um aspirador o tem na limpeza duma casa. E qualquer vivo na busca de alimentação como meio necessário para evitar a morte. Os duplos laços implicam justamente, excepto os dos inertes e os das células, que um dos laços serve de ‘motor’ e o outro de ‘aparelho’ encarregado da direcção, do sentido da circulação, têm motor e finalidade. O que mostra que o movimento dos fenómenos (ou ser movido no caso dos inertes, mas todos o somos quando caímos estatelados ou no esforço a fazer para andar e para trabalhar) implica forças / energias exteriores dadas pela cena (ao ‘motor’), a começar pelo seu fabrico ou nascimento que constrói um ‘sentido’ (buscado pelo ‘aparelho’) que só o é na cena e em relação aos outros entes dessa cena, sejam vivos, sejam instrumentos. Donde uma terceira vantagem – os duplos laços implicam sempre, entre os progenitores e os fabricantes (com seu direito de propriedade), que resultam de antepassados, de que recebem uma ‘marca’, que o nome de família e do fabricante atesta. Se se trata de unidades sociais, os fenómenos que elas ligam incluem outros nessa ligação como irmãos (ou primos; ou equipa de trabalho) que são familiarmente comuns mas diferentes individualmente, como atestam os gémeos como excepção da atenuação dessa diferença. Dito isto, só os próprios especialistas poderão ajuizar do interesse eventual dos duplos laços nas suas investigações, que obriga a questionar a oposição interior / exterior nos seus paradigmas, o que já não é fácil e torna improvável que um especialista seja capaz de atenção à dimensão filosófica (fenomenológica) do mundo, mais difícil ser sensível ao jogo que eles permitem entre mais duma ciência. Como é difícil por razões inversas de especialidade ao fenomenólogo.





[1] “A evolução entre biologia e bioquímica, entre Darwin e Marcello Barbieri (6/8/2017)

domingo, 30 de setembro de 2018

A diferença entre a matéria inerte e a matéria viva



Fotão, electrão e o resto da Física (Feynman)
1. O livro foi traduzido em português há 12 anos mas só dei por ele  este verão, numa feira do livro: QED. A estranha teoria da luz e da matéria [1985], que tem uma veia pedagógica equivalente às Seis lições de física fundamental, que tanto me encantou. Tratou-se agora de quatro conferências em fim de vida (estamos no seu centenário, morreu há 30 anos) sobre a QED, a electrodinâmica quântica, que diz ser a mais bela e correcta teoria de toda a física (mas é suspeito, é um dos seus criadores). O que ele consegue é dar uma panorâmica que se entende grosso modo da estranha mecânica quântica, que coloca as partículas nos seus lugares – foi sem dúvida a minha grande surpresa – e permite uma ideia de conjunto ao leigo verdadeiramente notável. E fez-me outro favor: colocou essas coisas que explicou em três grandes regiões, a dos electrões (com a notável junção dos fotões que dá à luz e à óptica um papel primacial inesperado na lógica da matéria), a do núcleo dos átomos e a da força da gravidade, o que coincide com a minha proposta de forças atractivas em duplos laços, a saber: a que liga protões e neutrões nos núcleos dos átomos, a que liga electrões nas moléculas, desde o átomo até aos sólidos, líquidos e gasosos, a que liga estes graves em astros e os astros entre si. O livro trata apenas da segunda e brevemente da primeira na última conferência e da terceira nas duas últimas páginas.
2. Começarei por lembrar rapidamente a minha proposta para depois poder ver o que lhe sucede face ao que compreendi da teoria de Feynman. É claro que esta pretensão pode parecer ridícula, mas o próprio autor lhe abre a porta: “esta estrutura de amplitudes não levanta dúvidas experimentais: podem ter todas as preocupações filosóficas que quiserem quanto ao significado das amplitudes (se, de facto, representarem alguma coisa) mas porque a física é uma ciência experimental  e o quadro teórico concorda com a experiência, isso é suficientemente bom para nós” (p. 169, subl. Feynman), diz na abertura do 4º capítulo, “pontas soltas”. Também é suficiente para mim, que ao fenomenólogo não cientista o laboratório é interdito e só pode ser aceite, tratando-se apenas de interrogar filosoficamente (com ciências) os significados dos conceitos, vistos de fora do laboratório.
3. Quando o motivo derridiano de duplo laço me apareceu como fenomenológico, isto é, como dando conta dos fenómenos de cinco ciências principais (e das máquinas), foi a consideração de que, no campo tradicional de fenómenos de cada uma dessas ciências, fora descoberto no século XX algo de ‘não fenoménico’: se o fenómeno é o que se manifesta, em cada ciência havia algo de retirado do campo fenomenal (o núcleo dos átomos, o ADN, o interdito do incesto em Antropologia, os fonemas ou letras em Linguística e o inconsciente na Psicanálise). Em Física. a força da gravidade dominava o campo dos astros e dos graves e as moléculas da Química não foram então tidas em conta (tal como a anatomia em Biologia), só o foram anos mais tarde com os manuais da minha amiga Carmo Mateus e da Rosário  Martins, mas protões e neutrões do núcleo são retirados pela força nuclear (forte), quer do alcance da gravidade, quer das transformações químicas. O que significa que nessa primeira abordagem só havia o que Feynman excluiu da sua argumentação como sendo “o resto da Física”. O desenvolvimento das leituras e da escrita multiplicou os duplos laços, o primeiro consistindo no do átomo, entre o núcleo retirado e os seus electrôes, um laço relevando da força nuclear e o outro da força electromagnética que liga os electrões ao núcleo, as duas forças dos físicos que postulei como forças atractivas à maneira da da gravidade, sabendo embora que as forças electromagnéticas repelem também partículas da mesma carga. Mas estas forças electromagnéticas têm um papel fulcral em Química, o de ligarem electrões de dois ou mais átomos para formarem moléculas e darem origem a graves com três possibilidades terrestres normais, sólidos, líquidos e gases, consoante a pressão e a temperatura, e a partir deles a 3ª força dos físicos, a da gravidade – na minha interpretação limitada justamente às dimensões  macroscópicas dos tradicionalmente chamados ‘graves’ –, fabricar os astros[1]. Mas estes duplos laços dos graves e dos astros supõem sempre o da força nuclear que retém protões e neutrões de transformações químicas e de cederem à gravidade[2], assegurando assim a impenetrabilidade da matéria. Se for o caso de as partículas que se desintegram de protões e neutrões (quarks e companhia) também forem renitentes à química e à gravidade, teríamos que fotões e electrões seriam as únicas partículas a lhes cederem, o que me parece adequar-se bem à teoria de Feynman.
4. O livro é deslumbrante. Para quem tinha uma ideia vaga da Mecânica quântica e das suas múltiplas e inexplicáveis partículas ao invés de toda a matéria, Feynman consegue propor um panorama que cria a sensação de compreensão do conjunto surpreendente, consegue o que um octogenário não esperava já em sua vida: fosse ou não esse o seu objectivo, arrumou-me as partículas quânticas nos seus lugares. Do que compreendi e que Feynman nunca propõe assim: haverá quatro tipo de partículas essenciais na estruturação da matéria, as que já conhecíamos, fotões e as três dos átomos, o que dá as duas nucleares inseparáveis, por assim dizer, e o par inesperado fotões / electrões, que já vinha do efeito fotoeléctrico, um dos quatro famosos textos de Einstein em 1905, aquele que lhe valeu o Nobel em 1921, mas que aqui revela uma universalidade insuspeitada (por mim, o par) na estruturação de toda a matéria além dos núcleos atómicos. Quem diria? A luz e a electricidade, o que há na nossa experiência de menos material, menos ainda que os gases! Todas as outras partículas, se bem percebi (haverá uma ou outra excepção?), quarks e companhia, que tanta confusão fazem ao leigo, resultam da desintegração de protões e neutrões em condições muito elevadas de pressão e temperatura, que não conhecem os “átomos mornos” (Prigogine) da Terra. Sem saber a intervenção dessas variadas partículas filhas das nucleares nas tecnologias que a Mecânica quântica tornou possível, fico com a sensação de terem sobretudo um interesse especulativo, que se poderia com propriedade chamar ‘metafísico’ (e não ‘metaphysico’, de ascendência aristotélica): a busca incessante do ínfimo das coisas.
5. As duas primeiras conferências só se ocupam de fotões, vidros e espelhos. O determinismo é excluído na base: se a luz incide perpendicular a um vidro, os fotões atravessam-no mas alguns reflectem-se: quantos? Só se pode calcular a sua probabilidade, segundo a espessura do vidro, como as coisas se passam não se sabe. Feynman poupa-nos as equações e substitui os números complexos (com parcela em i) respectivos por setas que dizem o percurso do fotão : o quadrado do comprimento da seta é a probabilidade e a sua direcção o tempo do percurso, com dois sentidos possíveis (fotão que atravessa o vidro, que reflecte e volta atrás). Estas setas somam-se, multiplicam-se, contraiem-se e rodam. Estas setas são “amplitudes de probabilidade de um acontecimento” (p. 68) e dão-nos uma simulação dos cálculos sobre os percursos dos fotões e mais tarde dos electrões, cujas amplitudes são também as de se acopularem com um um fotão. A complexidade das experiências laboratoriais e dos ‘verdadeiros’ cálculos são-nos poupados, teremos apenas que ‘acreditar’ nas setas e acompanhar com cuidado os vários casos de percursos que se vão complicando ao longo das conferências. Todo este jogo de setas é dito ‘teoria’, mas ao aceitarmos o seu pacto que permite entender o panorama, ao oferecer a nossa credibilidade a Feynman, fica uma inquietação: trata-se de ‘teoria’ ou de um relatório da experimentação laboratorial num certo código, metodologicamente muito fecundo?
6. Ora, é nesta inquietação que se instalam as minhas dúvidas fenomenológicas, ridículas sem dúvida para qualquer outro leitor feliz do texto. Os duplos laços postulam que as três forças fundamentais dos físicos (há uma quarta, nuclear fraca, não estrutural) são todas atractivas, com um efeito de retenção do que elas abarcam. Ora, como já era o caso nas Seis lições, elas são tratadas como “interacções” entre partículas, com excepção da força da gravidade. Sejam duas citações. “Havia o problema do que mantinha os neutrões e os protões juntos dentro do núcleo. Percebeu-se imediatamente que não poderia ser a troca de fotões, porque as forças que conservavam o núcleo íntegro eram muito mais fortes” (p. 177). E 20 páginas à frente, ao terminar do livro: “na matéria [fora dos núcleos atómicos], quase todas as forças eléctricas são gastas a manter os electrões próximos do núcleo do seu átomo[3], criando uma mistura muito equilibrada de cargas positivas e negativas que se anulam. Mas, no que respeita à gravidade, a única força é a atracção, que se mantém somando e somando [setas], à medida que vão aparecendo mais átomos, até que finalmente, quando chegamos às grandes massas pesadas que somos, nós podemos começar a medir os efeitos da gravidade, nos planetas, em nós, etc.” (p. 197)[4]. Nestas duas citações trata-se das três forças fundamentais: há “forças que conservam o núcleo íntegro”, assim como “forças eléctricas gastas a manter os electrões próximos do núcleo do seu átomo”, “mas no que respeita à gravidade, a única força é a atracção”, o que implica que não é o caso nas electromagnéticas do átomo, apesar de “conservarem” os electrões ligados ao núcleo e obviamente entre si: não se pode dizer que a força predominante é uma força electromagnética de atracção entre electrões e núcleo? E o mesmo raciocínio valerá para a força nuclear: manter protões e neutrões juntos não implica uma atracção entre eles? Porque me interessa este ponto é fácil de perceber: são os duplos laços que o exigem, e se a exigência fenomenológica deles vem também das outras ciências, é certo porém que o motivo de força de atracção vem da própria Física, para grande espanto de Newton que a descobriu, sendo que. “até agora, a gravidade não é compreensível com base em outros fenómenos” (p. 38)[5].
7. Antes de prosseguir, um esclarecimento importante sobre o motivo de duplo laço (lien em francês de Derrida, bind em inglês de Bateson), que não é nada de fenomenal, verificável experimentalmente, mas um motivo gramatológico (como trace, diférance ou suplemento), que talvez seja melhor percebido como dupla ligação: trata-se em fenómenos – sejam físicos, biológicos, linguísticos ou sociais – do que liga os elementos de que são compostos, fazendo deles uma unidade com um duplo funcionamento que permite que esse fenómeno se mova ou seja movido. O exemplo simples dos cilindros do motor de explosão e do resto do aparelho mostra que se trata de duas ligações entre peças, sem que o engenheiro mecânico ‘veja’ ou ‘mexa’ nessas ligações que estruturam o carro que ele constrói. Também na anatomia dum mamífero as duas ligações não são ‘órgãos’ feitos de células. Acontece todavia que em Física há as três forças fundamentais e seus campos que permitem detectar as duplas ligações, mas também essas forças são caso de polémica, desde Newton que não conseguiu ‘imaginar’ (fingo) a força de atracção que descobriu e calculou.
8. Voltando à segunda citação do § 6, o percurso de Feynman é o de ir subindo numa escalada de átomos até chegar aos graves e aos astros que a gravidade afecta, atrai. Nessa subida não conta com ela, como antes não contou também, com as forças nucleares e electromagnéticas das duas citações. Já fiz essa critica em relação a átomos de água e a cargas eléctricas nas Seis lições (nota 5): tal como aqui as partículas, fotão e electrão, a ‘substância‘ tem o privilégio sobre as forças e os campos, que não têm praticamente nenhum papel nas quatro conferências. Ora bem, também se poderia pensar em fazer o percurso inverso, em vez de partir do ínfimo descoberto recentemente, as partículas, para a terra e os astros, seguindo o percurso histórico das descobertas físicas, da terra para o ínfimo, este escrutinado nos laboratórios. É sem dúvida o laboratorial que comanda a escalada das escalas, já Newton estudou o movimento a partir da força mecânica sobre a ‘substância’ experimentada, provavelmente a sua dificuldade em relação à atracção lhe venha da visão de força da sua mecânica. Se partisse da Terra como um astro, o que sucederia? Teria que colocar que tudo o que nela há de graves é reunido pela sua força de gravidade. Continuaria a não saber imaginar esta, mas saberia de antemão que ela não era como as outras forças mecânicas, guinchos ou alavancas, que dela dependem como se depende dum ‘princípio’, dum laço ou ligação que permite movimentos no seu seio. Ora, o que a teoria quântica permite é justamente ter acesso ao outro laço ou ligação, aquela que garante a inércia que torna possível que os graves se deixem mover.
9. Compreende-se que eu tenha ficado tão contente por Feyman me deixar a gravidade e o núcleo do átomo fora da sua bela demonstração, como a confirmação que seria possível esperar dum físico da minha proposta dos duplos laços. Quanto ao núcleo e à desintegração  de protões e neutrões em quarks, gluões e companhia, toda essa cacafonia quântica que só embaraçava o leigo, fica-se a saber que ela corresponde a estádios explosivos de desintegração de protões e neutrões que sõ se dão a conhecer a altíssimas temperaturas, que não afectam a nossa visão habitual do mundo. Enquanto que fotões juntam-se a electrões numa dança de acopulamentos (termo de conotação erótica!) que, juntamente com os núcleos atómicos torna possível toda a Química, cujo papel é justamente o de produzir graves que oferece à força da gravidade como fruto de cópulas sem fim. O papel da luz, dos fotões, nesta fábrica química da matéria fascinou-me[6], eu nunca tinha dado importância à óptica! Ora, fotões e electrões são as únicas partículas simples, que não se desintegram (será por isso que podem copular). Pegar pelas duas pontas – de baixo para cima para quem vem do laboratório, de cima para baixo para quem vem da fenomenologia terrestre e considera a ‘unidade’ da Terra como duradoura – é o que fazem os duplos laços. Eles são extra-laboratoriais, como aliás as estranhas forças de atracção. O que uns e outras permitem entender: o laço da Terra joga com os de cada grave que ele conserva nela e joga duplamente com os laços do Sol e dos outros planetas do sistema, que assim é conservado desde que há observações astronómicas, apesar da expansão do universo que hoje se sabe; cada grave tem laço que o atrai para a Terra duplamente com o que liga as suas moléculas como grave; cada molécula liga os seus átomos entre si e liga-se às outras moléculas do seu grave; cada átomo, por sua vez é ligado aos outros com quem faz molécula e ao seu núcleo. Finalmente, impenetrável quimicamente e sem poderem ser atraídas as suas partículas para fora do núcleo pela gravidade, parecerá que o laço que conserva este na sua impenetrabilidade se fará entre a força nuclear e a série dos outros  laços que vai até aos graves que a Terra guarda.

A produção celular de entropia segundo Prigogine
10. “A mecânica quântica explica [...] a razão pela qual um átomo de oxigénio combina com dois átomos de hidrogénio para formar água, etc. Portanto, a mecânica quântica forneceu a teoria que está por detrás da química. Logo, a química fundamental é, de facto, física” (pp. 39-40) e mais adiante: “os biólogos tentam interpretar o mais que podem da vida usando a química, mas a teoria por detrás da química é a electrodinâmica quântica” (p. 42), donde que também a biologia fundamental será igualmente física, e Feynman chega a dizê-lo algures, identificando bioquímica e biologia, mas aqui mostra a sua liberdade intelectual ao moderar essa conclusão pela atribuição aos biólogos de “tentarem interpretar o mais que podem da vida”, deixando assim o espaço para o que me vai interessar nesta segunda parte: o que falta em Feynman, além desta questão dos campos e da irredutibilidade dos laboratórios (Newton errado, no mesmo texto da nota 5), pode ser esclarecido por esta comparação entre Física e Biologia. Acontece que Prigogine, um químico que também foi Nobel como Feynman, se interessou pela bioquímica do metabolismo celular e induziu dele, sem fazer intervir categorias biológicas, uma categoria física nova por inversão doutra clássica: a de produção de entropia (positiva), em contraste com a entropia (negativa) como degradação energética da Termodinâmica do século XIX (Clausius). Essa nova categoria permitiu-lhe compreender o que chamou estruturas dissipativas como explicação do conjunto de reacções químicas do metabolismo da célula: trata-se duma estabilidade (estrutural) que tem uma base instável (dissipativa), supondo uma alimentação exterior ao sistema. Foi algo de fulcral para a proposta dos duplos laços da Filosofia com Ciências[7]. Ora, é relativamente claro que todos os fenómenos da vida, implicando doenças e mortalidade, como os fenómenos sociais implicando crises e transições de gerações, são fenómenos instáveis estruturalmente, relevam de estruturas dissipativas, o que me permitiu generalizar a categoria prigoginiana, inclusive ao campo da Física. O que aliás, é compatível com a perspectiva de probabilidades e de acontecimentos de que Feynman se reclama como o que se pode saber dos “percursos de fotões e electrões”.
11. O que há então que tentar fazer é confrontar átomos e moléculas com células como estruturas dissipativas. O que há de acontecimentos, acopulamentos, entre fotões e electrões em ordem a reacções químicas, dar-se-á sempre em condições de pressão e temperatura, por certo, mas também de proximidade propícia entre moléculas que venham a dar origem a novas moléculas. É provável que esta proximidade entre moléculas seja habitualmente com um dos parceiros em estado líquido ou gasoso; de qualquer forma, a gravidade terá um papel indirecto na propiciação dessa proximidade. Se for assim, há sem dúvida limitações mais ou menos fortes das condições para tais reacções químicas. O que é que permite que estas se dêem? Que os átomos que trocam electrões – um de oxigénio e dois de hidrogénio, por exemplo, para se obter uma molécula de água que permanecerá seja como gelo, com água ou como vapor – garantam que permanecem átomos de oxigénio e de hidrogénio na nova molécula de água, o que dependerá essencialmente dos respectivos núcleos (que, no caso do oxigénio, mantenham também os electrões que não se trocam). O papel do núcleo atómico, se se permite ao leigo, será então duplo: por um lado, resistir, guardar a impenetrabilidade do átomo, por outro, deixá-lo oferecer-se à troca química de electrões que produz a nova molécula. Como, tratando-se de graves com muitos milhões de moléculas, todos os átomos jogam por igual nessa reacção, e a força da gravidade intervém na propiciação da proximidade, parece claro que as três forças, os três laços, jogam um papel aqui, e não apenas electrões e fotões. Mais: parece-me claro também – mas quem sou eu? – que a força da gravidade terrestre, a força do conjunto de todos os graves que é a Terra, tem como correlato a força nuclear de cada átomo que garante a impenetrabilidade de todos e cada um dos átomos. Porque o jogo de acopulamentos entre fotões e electrões, sujeito a probabilidades é certo, não se faz motu propriu, é isso a inércia, o não ter movimento próprio, ser movido, deixar-se mover por atracção electromagnética, sem se mover por si. O que daria que estes fenómenos implicam não apenas os laços locais, das moléculas que trocam e das novas que resultam, mas outros laços de graves da Terra, os que condicionam a pressão e temperatura na zona dessa troca química (como aliás se está vendo na crise das alterações climáticas, com efeitos múltiplos de razões diversas). Temos então que ver como se passam as coisas nos vivos que se movem por si próprios.
12. Se se olha para a célula, damo-nos conta dum metabolismo incessante de reacções químicas múltiplas e jogando com moléculas muito mais complexas do que as dos graves minerais inertes. A célula viva está sempre a mexer, mas para isso tem que ser alimentada de fora, pelo sangue nos vertebrados, o que permite diagnosticar a sua dupla ligação: o laço interno à membrana celular que engloba o metabolismo e o laço necessário ao sangue como condição sine qua non desse mesmo metabolismo. Parece óbvio que seja a maior complexidade das moléculas orgânicas – de átomos de carbono, oxigénio, azoto, hidrogénio, fósforo, por vezes enxofre – que, razão de ser da diferença para com os graves inertes, seja também a da complexidade do metabolismo como actividade própria da célula. Evoquemos brevemente como é que isto começou. “Teve início, conta o bioquímico italiano Marcello Barbieri (Teoria semântica da evolução) em 1953 um verdadeiro novo campo de investigações quando Stanley Miller submeteu uma mistura de metano, amoníaco, água e hidrogénio a descargas eléctricas durante uma semana e obteve aminoácidos” (p. 95). O autor pôde postular um jogo de moléculas se agregando e se desfazendo que terá chegado um bilião de anos mais tarde às primeiras células (3 biliões de anos antes da explosão de fósseis de organismos no Câmbrico, há 600 milhões de anos). As primeiras moléculas tinham propriedades que as tornavam capazes de participar na estrutura das futuras células, tal como pedrinhas, penas e lama servem para se fazerem ninhos de aves, só que aqui os ninhos serão auto-construídos e os materiais estão dispersos. Se bem percebi a demonstração razoavelmente complicada para o leigo de Barbieri, mais do que no ADN, é no que ele chama o ribótipo que está o segredo da actividade celular: são ribossomas que concentram “muitos protagonistas da síntese proteica, aminoácidos, mensageiros, transferências e enzimas activantes, que se encontram difundidas livremente no citoplasma” (pp. 79-80). Donde a tese de Barbieri de que os antepassados dos ribossomas são os verdadeiros antepassados da célula (como agregado de moléculas que se reproduz). É esta conjunção que permite a fabricar as proteínas que são necessárias à própria estrutura da célula, onde reside o segredo da vida. Esta síntese das proteínas por tradução do ARN mensageiro faz-se sobre os aminoácidos que foram extraídos dos alimentos no intestino delgado e passados ao sangue, chegando à célula por assim dizer como ‘matéria prima’ a ser sintetizada segundo a mesma ordem das moléculas do mensageiro. Ora, esta ordem de composição da proteína é a necessária como molécula estrutural da célula, segundo o ‘plano’ guardado no gene do ADN e previamente transcrito no mensageiro, o que supõe que esse gene seja “expresso” por um mecanismo adequado, de forma a corresponder à proteína desejada para a estrutura da célula, seja em reparação duma deficiente, seja em ordem ao crescimento da célula para futura reprodução em duas similares (conjecturo eu). Mas o que me parece decisivo é o carácter construído destas moléculas das células: donde vem a necessidade dessa construção? Julgo que só haverá uma razão: essas moléculas complexas demais não existiam, tiveram que ser inventadas, digamos fabricadas artificialmente, por ARNs (faz parte das suas propriedades moleculares) nesses proto-ribossomas como condição das futuras células. Estas moléculas ‘artificiais’, supondo sem dúvida ligações por forças electromagnéticas adequadas, terão uma espécie de fragilidade estrutural: construídas que foram por não as haver prontas a usar nos mares e tempos da evolução pré-celular de invenção destes mecanismos até se garantir a reprodução, como definição de célula: como tendo movimento próprio de se reproduzir se for alimentada por aminoácidos. Note-se aliás, contra o determinismo genético que grassou nos primeiros tempos da biologia molecular, como este processo bioquímico joga segundo o aleatório, tanto o das carências a colmatar – que sínteses a fazer, portanto que genes a expressar – como o das ‘matérias primas’ que o sangue traz, segundo o aleatório das dietas alimentares (regionais, ricos e pobres), a que a medicina actual acrescenta moléculas fabricadas farmaceuticamente.
13. Ora bem, pode-se pensar que serão estes mecanismos produtores do que chamei ‘moléculasartificiais’ duma parte pelo menos das moléculas da célula que correspondem à produção entrópica de Prigogine, que em A nova aliança justificava, limitando-se à bioquímica, com reacções químicas não-lineares, auto-catálise, auto-inibição e catálise cruzada (p. 223), sem nunca referir categorias propriamente biológicas. A entropia positiva seria a diferença entre este conjunto de moléculas agindo no metabolismo duma célula e o amontoado delas mais os aminoácidos de matéria prima que estão a chegar, entre a bioquímica da célula viva e a bioquímica de moléculas duma célula sem célula[8]. Vê-se claramente aqui porventura a diferença dos papeis entre  os vários tipos do ribótipo (ARNs) no metabolismo e ADN retirado no núcleo: aquele dissipa, mas para que essa sua capacidade não vá contra os interesses da célula, o ADN mantém a estrutura, com um papel de ‘arquivo’, dando o modelo ao ARN mensageiro[9], que depois da síntese se degradará, inútil. O duplo laço da célula será constituído pelo que Barbieri chama ribótipo, jogando no aleatório da bioquímica do citoplasma, ligado ao núcleo dos genes, limitados à repetição que garante a identidade do organismo que se reproduz.
14. Feynman não terá dado por Prigogine, que julgo aliás ter sido malvisto pelos físicos e químicos estabelecidos[10]; fica por saber se a teoria da electrodinâmica tem maneira de avaliar estes processos bioquímicos e o seu carácter entrópico ou se não haverá uma barreira intransponível, aquela que faz com que, nas questões fascinantes e complexas de articulação entre ciências da vida e das sociedades humanas, não é nunca necessário contar com a Física: as leis desta valem para toda a diversidade de organismos e de estruturas. Nestas tão variadas ciências, os duplos laços vão ganhando novos patamares – evolução e história – em que um duplo laço anterior se torna laço motor do duplo laço posterior, por vezes articulando ciências diferentes, por exemplo entre Biologia e Antropologia pela relação entre sinapses e usos aprendidos (Kandel deu a pista) ou Linguística (a fala como uso). Ao contrário da Física, se for verdade o que propus acima (final § 11), da relação da gravidade com todos os núcleos atómicos, o que está de acordo com a inércia; nas ciências que têm a ver com vivos, estes patamares que se acrescentam, dos unicelulares aos organismos, plantas e animais, invertebrados e vertebrados, em ambos havendo como transição entre anatomias de justaposição de órgãos e anatomias com um sistema complexo de circulação de sangue a estranha invenção das metamorfoses. Também das palavras e frases curtas aos discursos e textos, simples e complexos, aos corpus destes e às escolas. Das tribos as sociedades agrícolas de casas formando reinos ou impérios, com divisão do trabalho entre artesãos, guerreiros, escribas, sacerdotes e escritores pensadores, filósofos e vinte séculos depois laboratórios de cientistas além da geometria e da astronomia, e depois máquinas e electricidade que vieram a permitir sociedades de instituições de emprego e de famílias, de escola universal e de médias generalizados, e por aí fora, com instabilidades sempre crescentes, guerras, fomes, epidemias, crises de vários géneros..Trata-se de consequências das mobilidades e da sua alimentação.
15. Pode ter sido complicado demais, mas para mim houve um eureka, entre o deslumbramento da electrodinâmica de Feynman e o que ele me permitiu, revisitar Prigogine e Barbieri, precisar esta diferença espantosa entre os inertes e os vivos, que parece estar-se atenuando: as máquinas – o automóvel que me serve de modelo de duplo laço, um inerte que, alimentado, se move – e a electricidade que, além de se transformar de/em outras formas de energia (mecânica, térmica, luminosa...), e de correndo, transportá-la a distância com alto rendimento, o que transformou completamente a paisagem urbana da civilização do século XX, se revelou produtora informática de movimentos humanos, tanto gestos como cálculos. O que se faz parte da maior instabilidade e portanto da intensificação possível de crises, também será remédio útil nas tentativas de as superar. Entre os apocalípticos que temem o fim do mundo e os optimistas das novas tecnologias que antevêem o futuro radioso sem uma nuvem, há lugar para esperança, apesar dos populismos trumposos.


[1] A minha dúvida, que para aqui não interessa, é sobre a explicação habitual  da génese das estrelas.
[2] Nunca li que protões ou neutrões interviessem nas trnaformações químicas, como fazem os electrões ; quanto à gravidade, quando se desintegra o núcleo atómico os protões e os neutrões partem como partículas loucas, não se deixam atraír pela gravidade terrestre.
[3] Há dois periféricos livres para se combinarem com outros e fazer moléculas.
[4] Tinha acabado de dizer que a influência gravitacional entre os objectos [as partículas] é extremamente pequena” (p. 196, sublinhando) pode-se pois considerar desprezível; desconsidera em seguida as teorias doutros físicos de ‘gravitões’, partículas ligadas à gravidade, o que conforte a minha hipótese no § 3.
[5] Ver o texto “Questão (prigogiana(: o que é a força, a energia e a inércia?” (18/10/2017)
[6] A luz é privilegiada pelas duas fontes do saber ocidental : é a primeira criação, antes do firmamento, do sol e da terra, no lindíssimo poema com que abre a Bíblia hebraica ; o motivo filosófico de eidos, o que se vê dum fenómeno, do verbo idein (ver), é feito por Platão Forma ideal eterna. Mas nestas duas fontes, é a capacidade humana de ver assim como a possibilidade das coisas serem vistas que recebem o privilégio da luz. Feynman abre à luz uma vertente criadora de tudo que ultrapassa incrivelmente a criação de órgãos de visão nos organismos animais, o que se deu  nos últimos 600 milhões de anos, já o universo tinha alguns 13 biliões. Mas a electricidade também, e essa só a conhecemos há uns 200 anos ! Incrívelmente, Feynman nem se deu conta desta consequência tão estranha da “teoria da luz e da materia”.
[7] Durante os primeiros anos, o texto da proposta chamava-se Le Jeu des Sciences avec Heidegger, Prigogine et Derrida, como aliás atesta o lugar ocupado pelo químico belga entre os dois filósofos na capítulo 2, que apresnta o quadro fenomenológico do texto.
[8] Logo após a morte, suponhamos, quando começa a entropia de Clausius. Seja dito de passagem que quando Prigogien passou em Lisboa, em novembro de 1988, recusou esta relação entre as duas entropias, a morte estava fora da sua visão das coisas, como quem opunha as duas entropias, provavelmente por não ligar a bioquímica à biologia.
[9] Gostaria de saber qual a diferença molecular dum átomo de oxigénio entre estas duas moléculas, que a designação acusa no ‘desoxi’ do ADN
[10] A sua ‘filosofia’ do “fim das certezas” não o terá ajudado, a sua parceira química e filósofa Isabelle Stengers já não co-assinou este seu último livro.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Um passado que nunca foi presente



1. A expressão, bizarra em primeira leitura, é do filosofo francês Emmanuel Levinas para dizer a incidência dum Deus sem essência nem existência, além do Ser, do seu agir nos justos que fazem mais do que o que podem e querem, do que aprenderam, efeito dum “traço diacrónico”: o que se poderia comparar com noções como ‘inspiração’ ou ‘revelação’, que justamente Levinas quer evitar, despersonalizando o divino, por assim dizer. No texto “Da fecundidade espiritual” (neste blogue 3/7/2018), nos seus §§ 12-14 procurei explicitar esta proposta levinassiana, contrapondo-a à experiência da aprendizagem interpretada como traço sincrónico e ligada à différance de Derrida: aprender a ler, por exemplo, faz-se num relativamente longo presente que terá incidências de passado nas repetições posteriores, sempre que se lê.
2. Mas esta minha explicação, adequada no que diz respeito a Levinas, foi-o menos em relação a Derrida; este retomou por vezes a expressão por conta do que ele próprio escrevia e pensava como différance, motivo que implica além do adiar também o repetir: só posso repetir o passado porque ele já era repetição, passado pois também quando era presente: nenhum ‘presente’ é puro e nele há sempre mais do que um passado que, ao adiar o futuro presente; quando aprendi a ler, na cartilha maternal de João de Deus, “cão casa gato”, já repetia leituras futuras variadas. Sem linearidade causal, é essa a nossa dificuldade nestas coisas das diferenças entre os tempos que também são diferenças entre coisas e repetições que nunca se repetem exactamente: é que aprender é aprender a repetir e nunca se repete indenticamente quando se repete a mesma palavra, já que o contexto é diferente e é ele que dá sentido a essa palavra. Darei alguns exemplos  simples.
3.O primeiro é o dos sonhos., em que se jogam personagens oníricas variadas que a sua interpretação permite reconhecer como gente que jogou na história do sonhador, mas que os mecanismos do sonho – condensação, deslocamento e figuração onirica, segundo Freud – alteram de tal maneira que esse carácter ‘histórico’ o torna, senão irreconhecível, pelo menos estranho na sua actuação, não tendo pois nenhum contraponto ‘presente’ no tal passado histórico, que pois não houve assim.
4. Outro exemplo é da ordem dos limites intrínsecos da investigação histórica, do trabalho do historiador em torno dos documentos duma época dada, seja o caso de Galileu. Se o trabalho for bem feito, restitui-nos uma biografia do físico italiano fidedigna, que significa o melhor que conseguimos. Mas o ‘passado’ assim restituído por hipótese brilhantemente nunca foi presente no século XVII, há algo que nenhum historiador pode alguma vez conseguir captar no seu retrato de Galileu: aquilo que ele não sabia e que o historiador sabe que sucedeu depois, aquilo que ele estranharia se voltasse à vida, a força da gravidade descoberta por Newton, por exemplo. Esse ‘não saber’ não lhe era presente mas faz parte do passado de Galileu como inacessível: os anacronismos são um dos pecados maiores da investigação histórica. Não se pode contar a história de Galileu como se não tivesse havido história da física a seguir, mas devia-se, deve-se aproximar desse desiderato o mais que seja possível. O que permite imaginar grandes inventores sem saberem do que veio a ser feito do que eles inventaram: o Platão renascentista tornado critico do Aristóteles medieval ou, entre o trágico e a farsa, Jesus e a inquisição, Marx e o estalinismo (“Marx et Jesus, ce sont des cocus”, disse José Escada, o pintor, uma noite na casa parisiense do Nuno Bragança).
5. Nos antípodas deste exemplo com ‘gente grande’, seja a memória de acontecimentos antigos da nossa vida. Quando restituímos algum, muito importante ou mais ou menos trivial, sofremos a mesma dificuldade do historiador, apenas com a ilusão de que nós ‘sabemos’, estávamos lá. Lembro-me duma birra que fiz com 4 ou 5 anos, chegado com os meus irmãos à quinta dos meus avós à beira de Matozinhos para passar férias tendo a minha mãe ficado em Lisboa com outra gravidez ou a convalescência da última, e eu queria voltar para casa e fiquei mais de uma hora a chorar no jardim sem entrar. Não são apenas detalhes que me escapam, não me lembro da viagem de comboio até ao Porto, não consigo voltar à cabeça da criança que fui, a tudo o que não sabia e agora sei. É certo que é um caso extremo, uma das primeiras lembranças que tenho, mas o mesmo se passa quando restituo a cena do meu primeiro namorico que decidiu a minha vida, não sei da minha bela ingenuidade como hoje a lembro, já que, por definição, o ingénuo não se sabe assim. Quando penso nesses passados, o presente deles escapa-me, toldado pelo que foi passando. O tempo da memória é deveras complicado.

domingo, 5 de agosto de 2018

Há que reabilitar a Física de Newton ?



1. A maior parte dos físicos parece acreditar que a Física de Newton está ultrapassada. Por exemplo, um livro de divulgação da Mecânica quântica de 1985, de Sven Ortoli e Jean-Pierre Pharabod, Le Cantique des quanti­ques, Le monde existe-t-il?, La Découverte, mostra bem no sub-título o que chamaria a ‘cegueira dos físicos’ modernos, e não creio exagerar por generalização indevida, já que presumo que é algo que afecta a dimensão filosófica do paradigma dominante. O que pode significar a colocação desta tão estranha questão – “o mundo existe?” – ainda que a resposta fosse positiva? Já li o  livro há muito tempo, na altura em que saiu, creio, ainda longe das questões que se me puseram uma quinzena de anos depois, ao redigir o capítulo sobre a Física Química do meu Le Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida. Em primeiro lugar, significa que a abordagem do quântico por estes dois físicos implica o extremar do que muitos outros têm pretendido: a total desconsideração da Física de Newton, que é aqui a do ‘mundo’ que ela descreveu. Como se o princípio da incerteza de Heisenberg, que torna impossível a simultaneidade da medição da posição e da velocidade duma partícula, fosse deslocado para o que fica aquém da abordagem desse... como lhe chamar? ‘mundo’ quântico, ‘domínio’ quântico? onde não há nenhuma ordem não há mundo, onde não se consegue sequer medir (o que foi sempre a chave do labor da Física), não há domínio, controle. Isto é, é o próprio princípio da incerteza que obrigaria a derivar a insólita questão para o ‘canto’ dos quânticos, que tem mais aliás de ‘cântico’ do que de qualquer ‘canto’ duma das salas dum laboratório. E é onde creio que reside a dificuldade, o lugar do laboratório; todos os físicos sabem que o laboratório é essencial: os resultados do que no seu labor se mede vão preencher as variáveis da equação em estudo. Mas quando se passa à reflexão teórica, o laboratório parece esquecido, só se têm em conta as equações e as definições dos conceitos. É a diferença dos laboratórios, das escalas dos aparelhos de medição que torna impossível comparar as três físicas: a das velocidades perto da da luz, a da dimensão espacial das partículas e a do espaço e tempo dos graves terrestres. Como se sabe, quando nas equações das duas primeiras as dimensões que lhe são específicas se tornam velocidades terrestres e extensões do sistema métrico, chega-se a equações newtonianas. Só esquecendo as diferenças de escala laboratorial é possível a uma ou duas das físicas mais novas decidirem, a partir do respectivo laboratório, do carácter ultrapassado da física mais velha, de cujo laboratório elas não sabem nada (os físicos sabem, claro, mas não sabem do esquecimento).
2. Ora, a civilização actual é impensável – não na sua existência, mas na sua ordenação – sem as milhentas técnicas inventadas segundo a Física de Newton em laboratórios cujas medições fornecem resultados que continuam a verificar cientificamente as variáveis das equações que se foram construindo a partir do paradigma newtoniano: é o que valida essa Física como ciência, com resultados verdadeiros sem incertezas heiseberguianas, tal verificação continua a fazer-se quotidianamente. O que significa que a segunda hipótese de leitura, retórica é claro, da insólita questão  – “o mundo existe?” – é a intentada: a certeza (incerta?) dos dois físicos sobre a Mecânica quântica seria mais forte do que sobre o Mundo que lhe deu origem, em que eles foram paridos, cresceram e se alimentam todos os dias. A questão que me faz voltar a um texto anterior num texto (neste blogue em 18/10/2017, “o que é a energia, a força atractiva e a entropia?”),  é a da barreira que há entre as duas Físicas, a de Newton e a de Heisenberg.
3. Coloquei essa barrreira assim. Sabemos como é que, partindo da matéria de que os engenheiros newtonianos se ocupam, como qualquer um de nós quotidianamente, feita de graves compostos de átomos e moléculas, um pedaço de urânio por exemplo, se passa para as partículas quânticas: pela cisão e explosão dos átomos. E inversamente, como é que das partículas se pode voltar aos átomos iniciais? nunca ouvi dizer nem li que se o tenha conseguido experimentalmente, nem sequer que tenha sido tentado. O que é que impede de se tentar? Presumo que não se pense que haja aí um problema, que haja uma barreira entre as duas Físicas, tal como as velocidades próximas da da luz supõem uma barreira entre Newton e Einstein (provavelmente aliás esta mesma, já que os fotões também são partículas resultantes de explosões de electrões solares). Como acabei o curso de engenharia civil há mais de 60 anos e nunca mais acompanhei o que pode ter continuado a haver de descobertas teóricas na Física clássica (tive o privilégio de ter sido aluno de Rómulo de Carvalho no liceu Pedro Nunes) que alimente as invenções tecnológicas, não posso senão conjecturar que o que tenha havido de descobertas nesse campo seja considerado ‘menor’ em comparação com as duas grandes Físicas do século XX, a da relatividade e a quântica, que manifestamente exaltam os entusiasmos dos físicos que se ouvem nos médias. Ou seja, presumo que, com Newton ultrapassado por Einstein, Bohr e os outros grandes, toda história da Física clássica tenha passado à história, assim como os liceus entre nós se tornaram ‘secundários’.
4. Em que é que consiste essa barreira entre os domínios da Física histórica e as duas Físicas dominantes hoje em dia, para além das diferenças laboratoriais e das escalas de medição? A barreira consiste nas forças atractivas: a) as nucleares que ligam protões e neutrões nos núcleos dos átomos, b) as electromagnéticas que ligam electrões a núcleos atómicos e a outros electrões – de outros átomos para formar moléculas, de outras moléculas para formar moléculas compostas, de solidificação ou liquefacção – mas que também se opõem quando as cargas são ambas positivas ou ambas negativas, c) as forças da gravidade que atraem sólidos, líquidos e gases para formar astros como a Terra, atraídos por sua vez por outros astros. Richard Feynman, nas suas tão estimáveis Seis lições sobre os fundamentos da Física, lembrou que os físicos do seu tempo continuavam sem saber como explicar como se faz a atracção a distância que deixou Newton perplexo: “não imagino uma hipótese” (hypotesim non fingo, como em fingir, no sentido de figurar, desenhar). Não tenho a certeza se se considera as forças nucleares (ditas fortes) como forças de atracção, devido à noção que me parece bizarra de ‘gravitão’ (partículas que sustentariam a atracção), mas o que me parece certo é que as partículas encheram o olho dos físicos e não lhes deixam consideração para essas ‘forças’. Se quando protões e neutrões se ‘encontrarem’ a minúsculas distâncias entre ambos (em fermis) atraem-se e se longe são indiferentes uns aos outros, portanto não havendo ‘forças’ distintas dessas partículas, ou as forças serão algo de ‘distinto’ delas? Há forças ‘fora’ do que atraem? A força da gravidade parece ser inerente aos astros e aos graves componentes de planetas como o nosso; a minha heresia sendo não acreditar que haja gravidade entre partículas, mas apenas forças nucleares ou electromagnéticas consoante, isto é, os três tipos de forças são relativos às escalas dos entes físicos, como disse em a), b) e c). A barreira é constitutiva de matéria, a saber átomos, moléculas, graves e astros.
5. O que julgo que proporciona o que chamei a ‘cegueira dos físicos’ modernos é algo que fez parte do “método” de Descartes de análise: a noção de dividir até ao elementar e compreender de novo a realidade sintetizando a partir daí. É nesta análise / síntese que está o problema, que os estruturalismos em filosofia e certas ciências sociais, a complexidade de Edgar Morin, as lógicas de sistema e em física o motivo de campo puseram em questão. A descoberta do mundo das partículas a seguir à dos átomos foi fascinante, é óbvio, ainda por cima com problemas epistemológicos completamente novos. Na minha ignorância, creio que se passa dum estado caótico, as partículas à solta nos aceleradores, para partículas ligadas por forças atractivas que as estabilizam em matéria. Reeves diz algures num dos seus livros de divulgação que os conceitos habituais como este não têm sentido no quântico, que não será ‘mundo’ nem ‘domínio’, apenas ‘caos’, porventura. Ora, é esta barreira entre o caos e a matéria que permite perceber que a força atractiva não é como a noção de “força” corrente em Mecânica, o que chamei ‘força local’, do tipo clássico da bola de bilhar que põe outra em movimento, o que me permite concluir que terá sido, quero crer, a dificuldade de Newton, em que estas forças mecânicas têm um lugar crucial. Continuará a ser o que impede de ver a barreira entre o caos e a matéria.
6. Antes de concluir, afaste-se um preconceito: que o espaço seja relativo (Einstein) e não absoluto como Newton pensava, não creio que afecte a sua física enquanto ciência laboratorial; também Einstein e os físicos quânticos mantiveram o tempo reversível e ignoraram a sua essencial irrever++sibilidade histórica, como demonstrou Prigogine, o qual por sua vez também não foi capaz de estender o seu motivo precioso de produção entrópica ou entropia positiva às forças atractivas constitutivas dos átomos, moléculas, graves e astros. Tudo o que aqui se escreveu desemboca na proposta arriscada, devido às minhas ignorâncias, que fiz no texto citado acima (§ 2), de colocar estes motivos de energia e força atractiva como motivos constituintes da Física de Newton, à maneira do princípio de inércia. Ou seja, passados mais de três séculos sobre ele, continua-se a não se saber ‘imaginar’ (fingo) o que é a gravidade como força a distância, sendo no entanto o motivo central da unificação da mecânica terrestre e da mecânica celeste numa só Física: este motivo foi crucial para o desenvolvimento posterior da Física sem que esse desenvolvimento tenha no entanto contribuído para o entender retrospectivamente. É ele que permite compreender o que se passa no laboratório de Física: tratar-se-á, dum ‘princípio’ não matemático mas físico, deduzido e calculado a partir de medições laboratoriais, dum princípio físico de filosofia natural. Se nos lembramos que o motivo de ‘energia’, nome aristotélico (de energeia) inventado por Thomas Young em 1807, era no tempo de Newton chamado “forças vivas” (por Leibniz, se bem me recordo, num teorema com esse nome), percebe-se que ele também faz parte deste grupo de princípios físicos. As forças atractivas atraem protões, neutrões, electrões, graves e astros, isto é, retêm-nos, criando entropia; quando deixam de os reter, eles disparam com inércia, e é isso a energia. As físicas de Einstein e Heisenberg permitem compreender enfim a física de Newton! Provavelmente permitiriam compreender inclusivamente porque é que nem Newton nem nenhum dos grandes físicos até hoje foram capazes de imaginar, ficcionar, a força de gravidade: princípio físico, seria ela que torna possível que façamos experiência de forças de ordem mecânica (enquanto que ‘atracções’ como os amores e outros gostos relevam de um outro nível ôntico, o da vida). 

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Retorno à questão da verdade



1. Tratei dela a propósito da proposta dum filósofo italiano sobre a chamada pós-verdade (no blogue, 11/02/2018), mas a questão ficou pouco clara, sem sistematicidade argumentativa. E é uma questão preocupante para quem se dá às questões fortes do sentido das coisas e da vida. Volto pois a ela, procurando saber donde partir o questionar. Há dois obstáculos seculares à questão: por um lado, a separação entre pensamento e realidade, entre as palavras e as coisas, entre o sujeito que questiona e o objecto questionado, como se fossem dois mundos que se enfrentavam de zonas opostas; por outro, a bitola absoluta para a verdade, vinda desde o platonismo da diferença Céu / Terra onde o cristianismo alojara o Criador, valendo por si só, ab-solus, a que cada coisa que ele criou é relativa, como criatura sua, a sua verdade anterior a qualquer consideração do seu contexto particular, numa espécie de tête-à-tête, a que Heidegger chamou onto-teo-logia, discurso (logos) do ente e do deus. Claramente predominante nas filosofias dos cartesianos até Leibniz, a critica da razão pura desalojou-lhe os três pilares, mantendo todavia o esquema cognitivo no sujeito / objecto, aquele voltado para o mundo deste em seus a prioris.
2. É ainda neste esquema que Husserl liga a consciência que percepciona ao objecto que lhe aparece, ligados na intencionalidade do aparecer fenomenal, sem o qual não há consciência,; mas também não há sensações prévias ao objecto percepcionado, que necessitem de ser sintetizadas: a mesmidade do objecto na diversidade de percepções possíveis, visuais, tácticas, acústicas, olfactivas, é condição da mesmidade da consciência que percepciona, em sua intuição sensível. Só no passo seguinte, o da intuição categorial, intervém a linguagem do juízo que nomeia o objecto S e o adjectiva de uma (ou mais) qualidade P (S é P), o que mantém a secundariedade da verdade deste juízo em relação à intencionalidade perceptiva. Não é certo que Ser e Tempo a desfaça como o fará a gramatologia, mas a sua revolução consiste em retirar o Dasein do par ontoteológico sujeito / objecto ao colocá-lo como ser no mundo, que é o dos outros humanos e do cuidar enquanto habitante da Terra, permitindo ao II Heidegger recuperar a phusis de Aristóteles e a sua fecundidade, a doação que se retira. Ora, faz parte deste percurso a consideração da historicidade das palavras, mormente filosóficas, a indagação de etimologias possíveis, como a célebre entre todas alêtheia, verdade de algo ou de alguém como o seu desvelar ao humano que cuida, verdade que é doada à sua nomeação. É o caso dum bebé que nasce e se recebe – é menino ou menina? é preto, branco ou mestiço, em casal de etnias diferentes?[1] –, bebé a quem se dá um nome como parte do ritual que o torna membro da tribo. Ou no caso dum marceneiro que, trabalhando com vários tipos de madeira, faz um objecto que, depois de (pro)duzido, de trazido à presença dos usos, se chamará cadeira, ou mesa, ou armário. E se não tem nome ou este for ignorado, será por exemplo a ‘coisa’.
3. O passo de Derrida introduz os outros e o contexto da habitação com a questão da linguagem enquanto escrita, isto é, um sistem que se re(pro)duz por aprendizagem em articulação com os outros usos. Nem palavra nem frase são ‘verdadeiras’ , não são senão elementos de composição de falas, discursos orais ou textos escritos. É certo todavia que se pode falar da ‘verdade’ duma mesa, feita de nogueira, com mais de cinquenta anos, bonita e adequada a uma dúzia de comensais, etc., ou da verdade da cadela Ginja, arraçada de pastor alemão misturado, com 14 anos e com seus hábitos e gostos, a verdade das suas possibilidades. Quando se trata da verdade dum humano, a questão é bem mais delicada, já que em boa parte ele/a sabe melhor dela, da sua saúde e do seu contentamento com a vida, das suas memórias e sonhos, do que lhe vem à cabeça, enquanto que os que com ele/a convivem saberão do que observam de fora ao longo dos tempos, do que lhe ouvem, talvez confidências, do que deduzem, simpatias e aversões, habilidades e incapacidades, convivas esses que rapidamente chocam com o enigma que ele/a é, e que ao/à próprio/a é dado doutra perspectiva. A sua verdade é também ela de possibilidades, mas muito mais vastas porque incluindo possibilidades de mudança de contexto, de mundo e de usos, que pode até ser para longe da tribo de origem, a perder de vista o que, tribalmente enquadrado, se sabia dele/a. Com efeito, o que se apercebe de outrem é sempre no contexto tribal de relações (parentes, vizinhos, colegas, amigos, conhecidos), em torno dos respectivos nomes, os quais vêm sempre no que se conta ou opina dele/a, com as qualificações mais ou menos adequadas, mais ou menos incertas. Coisa ou gente não se conhece sem os nomes respectivos, não há oposição entre um nome e a coisa nomeada, como não a há entre um retrato e a pessoa retratada, entre um mapa e o correlativo território. Esta diferença coisa / nome vem constantemente na filosofia grega clássica, onoma / pragma, antes do helenismo ter acrescentado outras línguas ao grego e portanto a economia da tradução, com o signo e o seu lekton, o significado do nome que o estrangeiro desconhece, ao ouvir o nome e sem ver a coisa. [A denominação é certa mas não é uma definição, contém por vezes um grau de incerteza, por exemplo em que se escolhe os pratos pelos nomes no menu dum restaurante : escolhi ‘toucinho do céu’, que nome supõe (uma receita e) um gosto e ao comê-lo perguntei a mim próprio por que carga de água é que chamavam àquilo ‘toucinho do céu’]
4. Mas a grande diferença introduzida pela gramatologia nesta questão da verdade está no aforismo “não há fora de texto”, que implica que as coisas de que o texto fala são ditas, significadas pela indicação do seu nome mas apenas conhecidas pelos efeitos nesse nome das diferenças textuais, que podem figurar algo de diferente, como as metáforas, por exemplo, esse algo será o que o texto dá a conhecer. Ora estes efeitos textuais, escritos ou orais, em geral segundo códigos conhecidos dos falantes, quando são relativos a usos estritos, são multiplicação de polissemias (de que a metáfora é um caso) como economia estrutural da língua que evita que as palavras usadas não ultrapassem os poucos milhares que se usam no quotidiano. São bons exemplos de polissemia os provérbios, capazes de ilustrar situações sempre diversas, tanto para o sim como para o não ou o talvez, exemplo popular do que os eruditos fazem como poesia e literatura, pensamento ou conhecimento. É que não se conhece nada senão relacionando com outros conhecimentos já sabidos, à maneira do dicionário (imensa tautologia, Barthes) que dá as significações das palavras através de outras palavras, possibilidade indefinida de frases com limite de palavras, multiplicadas pela sintaxe, morfologia e polissemia.
5. A questão então é: como passar da verdade das coisas e dos humanos para a verdade dos textos, orais ou escritos. A minha proposta é abordar esta questão da verdade textual passando da diferença nomes / coisas para estoutra com a qual aprendemos uns e outras: receitas / usos, aquelas sendo os textos narrativos que dizem estes em seu fazer-se. Teoria e prática, saber e experiência, são aí sempre ligados, o que permite que a aprendizagem ligue indissociavelmente os nomes, as coisas e o como se faz, em verdade. Verdade, em nome de quê? Dos antepassados que já assim faziam. Digamos que é onde está a base que impede a radicalidade dos cepticismos filosóficos, que sempre viveram da oposição nomes / coisas que aqui não existe. Mas além dos usos, de carácter técnico, por assim dizer, há os costumes, e é aqui que tudo fia mais fino. Se se puder dizer, de forma simplista, que o que até agora chamámos ‘coisas’, da ordem dos ‘fenómenos’, do que aparece aos olhos e talvez às mãos também, ao faro e aos ouvidos, releva do que a gramática clássica designava por substantivos (e verbos, mas talvez não todos), sobra o mundo dos adjectivos que qualifica e introduz gostos, aqueles que o provérbio diz que não se discutem mas também os que se discutem, muitas vezes fortemente, e que por isso mesmo deram origem à substantivação desses adjectivos: de livre a liberdade, de justo a justiça, e por aí fora, essência e existência dos filósofos. De forma geral, usos e costumes organizam-se segundo paradigmas e é nesses paradigmas, nas suas variações históricas, que a questão filosófica da verdade se põe, em torno de discussões de época. Há um exemplo no meu e.book Da Natureza à Técnica (cap. 3. 21-31), sobre a querela medieval dos universais entre ‘realistas’ e ‘nominalistas’, em que se percebe como um especialista dessa época (Alain de Libera) lê Aristóteles à maneira medieval (platonizado teologicamente, se se pode dizer, na sua Metaphysica, ignorando a Physica de que aquela depende), no que consiste a maneira da filosofia académica funcionar, isolando os textos do mundo que os escreveu e ignorando as transformações desse mundo: ou seja, a verdade textual deve incluir o gesto histórico da escrita em sua época, a da discussão, deve ter em conta a história da civilização que impede a noção de “philosophia perennis”. De maneira muito elementar, pode-se dizer que aquela discussão – saber se em cada cavalo há uma essência de cavalo (realismo) ou se esta é um ‘nome’ acrescentado pelos humanos aos cavalos (nominalismo) – foi vencida pela verdade nominalista, pela sua via moderna sobre a aristotélica via antiqua, tendo vindo a abrir a possibilidade cartesiana das ideias e a possibilidade do laboratório da ciência física de Galileu e Newton, a possibilidade de toda a ciência europeia, incluindo a biologia molecular. Só que esta caracterizou a espécie equídea pelo seu programa genético em cada cavalo e égua, confirmando numa outra conceptualidade a verdade dos realistas, cuja derrota de então a tornou possível. Exemplo duma verdade, entre filosofia e ciências, historicamente retorcida.
6. O primeiro lugar dum inquérito sobre a noção de verdade deve fazer-se, não apenas em tal texto, como também no paradigma histórico em que ele foi escrito e depois naqueles em que foi lido: buscar a verdade desse texto, o que o fez escrever e ler. O motivo de paradigma de Kuhn diz quer o que atrai um cientista à sua ciência, digamos a tradição dela, como o que orienta o seu saber e fazer, os puzzles a resolver, mas sem opor teoria e experiência, incluindo todo o operar laboratorial e o teorizar em compêndios e revistas, condicionando a visão de cada indígena do paradigma (que foi o que implicou muitas resistências a este motivo). Ora, é um motivo que se presta a definir toda e qualquer unidade social, fábrica, empresa comercial, unidade administrativa, família, e permite em geral circunscrever a verdade dessa unidade social à sua verificabilidade em relação ao paradigma, aos respectivos usos, como se faz exemplarmente no laboratório de física. No exemplo dado acima, é a verificabilidade que o laboratório bioquímico deu ao motivo de espécie biológica que permitiu concluir sobre a verdade filosófica medieval e moderna. As ciências inventaram com os respectivos laboratórios métodos de verificabilidade do conhecimento que produzem que a filosofia, com apenas a definição, não conseguiu. Esta verificação diz respeito a erros, não a mentiras nem a ficções. Estas duas formas de ‘não verdade’ só podem jogar desde que respeitem a condição aristotélica da verossimilhança (eikos), isto é que pareçam verdade em relação ao paradigma em que se inserem.
7. Resta dar um exemplo do que acima se disse como tarefa de leitura da verdade dum texto, daquilo que o fez escrever. Não sei que destino tiveram, a partir dos anos 80, as semióticas estruturalistas dos anos 60 e 70, de que creio terem tido sucesso – não sei se sucessores – quer as Mitologias de Lévi-Strauss, quer a leitura textual dum só texto de Roland Barthes, S/Z e outras três tentativas. Procurei seguir o método deste último em vários exemplos, de que contarei um aspecto da minha Leitura materialista do evangelho de Marcos[2].
8. A Bíblia cristã (conheço muito mal a hebraica e nada da tradição judaica de leitura) é considerada como o livro que foi mais lido no Ocidente, mas nunca foi o seu texto, apenas pedaços, citações destacadas do contexto e mesmo essas lidas com olhos gregos, platónicos ou não. Foi também provavelmente o texto mais avaliado criticamente na modernidade mas aí a armadilha maior foi a consideração praticamente unânime, crentes ou ateus, de que se trata dum livro religioso. Os crentes, lendo a sua figura principal, Jesus, como uma divindade incarnada que sabia tudo, acrescentaram-lhe a noção implícita de que foi escrito para durar os quase dois mil anos que nos separam dela. A exegese científica da escola histórico-crítica que predominou no século passado cortou os textos evangelhos em perícopas (Formgeschichte, história das formas), procurando encontrar nas comunidades que receberam a pregação cristã inicial, ou seja no seu contexto de destino, a razão de ser de cada uma delas. A ideia não é má, embora provavelmente essas comunidades tivessem muito do imaginário ‘cristão’ do exegeta, mas teve como consequência a desintegração do texto narrativo, suspeito aliás, com os seus milagres, de infidelidade histórica. Diga-se desde já que, ao procurar-se uma ‘verdade’ do texto, da narrativa, não se trata aqui de buscar  uma verdade histórica desse tipo, embora alguns pontos de verossimilhança sejam possíveis e outros de plausibilidade, com a não verificabilidade dos elementos relevando do código mítico, opondo Céu / Terra / Abismo (desmitologização bultmanniana). Desse trabalho exegético resultou uma tese importante no que diz respeito aos três evangelhos ditos sinópticos, justamente por causa da relação entre eles permitir uma ‘óptica’ de ‘conjunto’ (sun): Mateus e Lucas dependem de Marcos no que têm de paralelo, ambos têm uma outra fonte comum, Quelle, e ambos têm uma fonte própria. O que faz de Marcos o primeiro, que mereceu a confiança dos dois outros (enquanto que João releva duma tradição bem diferente, com pouco paralelo com os outros três).
9. Vamos então ao texto de Marcos em que, à maneira de Barthes, repertoriei uma série de códigos de tipo paramétrico, interpretando-os com uma grelha restituindo o modo de produção da Palestina da época, que colocou o Templo de Jerusalém no nó do poder religioso, politico e financeiro. Quando Marcos foi escrito, esse Templo tinha sido incendiado pelos Romanos em 70 e pode-se perceber que nos três sinópticos a narrativa oferece um antagonismo fundamental entre o actor narrativo profético Jesus e esse Templo, donde expulsou os vendilhões e que ocupou, depois de discutir com as chefias politicas e religiosas, tendo-as calado com autoridade. Três códigos sequenciais articulam a trama narrativa, o principal conduzindo as acções dos diversos actores narrativos, colocando em Jesus uma primeira palavra “o tempo cumpriu-se e o reino do Deus está perto; convertei-vos e crede na boa nova” em forte contraste com a última, “meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”, que é dada no original aramaico em que Jesus a terá pronunciado antes de expirar. Outro código sequencial busca saber quem é este Jesus taumaturgo que fala com autoridade e anuncia o fim dos tempos, entre várias hipóteses (profeta, João Baptista ressuscitado, etc), um dos discípulos, Pedro, na sequência dum gesto de partilha de pão e peixe, tendo reconhecido que ele era o Messias, o que ele próprio prisioneiro confessará diante do tribunal judaico no Templo. Um terceiro código se cruza frequentemente com este, o das estratégias de Jesus e dos seus discípulos (que o seguem), das multidões (que o procuram e escutam) e dos adversários (que tramam a sua perca desde muito cedo). Diante dessas estratégias, Jesus escolhe a sua, fugir das cidades deixando-se atrair pelas multidões fora delas, durante a primeira metade do texto, passada na Galileia; na sequência da confissão de Pedro, decide-se a partir para Jerusalém onde afrontará os senhores do Templo, refugiando-se em clandestinidade durante a noite, onde será preso por traição dum dos seus, condenado pela autoridade romana, executado e sepultado. Uma curta sequência junto do sepulcro dois dias depois dá-o como ressuscitado e anuncia-o na Galileia. A narrativa é pois a dum fracasso do Messias que anunciou o fim dos tempos, que teve sempre a precaução estratégica de escapar aos seus adversários mas acabou apanhado. Questão que poderá pôr um leitor: porque é que ele foi meter-se na boca do lobo, em Jerusalém? O texto dá uma resposta a tal questão, fazendo Jesus por três vezes anunciar o que lhe sucederá, como sofrimento, rejeição e crucifixão, mas depois levantar-se-á dos mortos. Ora, esta predição do futuro narrativo é contraditória com o código estratégico e com o que ele supõe de Jesus como alguém que toma cautelas por não saber o que virá e que obviamente não quer ser morto, contradição aliás que se manifesta claramente na surpresa total dos discípulos em torno do sepulcro vazio. É nesta contradição textual que se manifesta a verdade do texto. Não apenas em relação ao que se passou 40 anos antes, mas sobretudo em relação ao fim do Templo que acaba de ocorrer, que um longo discurso de Jesus anuncia, evocando uma expressão profética sobre uma antiga profanação do Templo: “quando vires a abominação da desolação erigida onde não deve – compreende, leitor! – [...]”, este convite ao leitor sendo a chave do texto, caso raríssimo na Bíblia em que se cita o seu leitor[3]. É para o anúncio primeiro, “o tempo cumpriu-se e o reino do Deus está perto”, que o leitor é chamado, a compreender que Jesus Messias virá brevemente, ele que dissera que o faria enquanto fossem vivos alguns dos que o conheceram. As cartas de Paulo mostram que os apóstolos acreditavam que Jesus voltaria em glória ainda durante a vida deles. Em 70 já tinham morrido quase todos, agora que também o Templo acabou, não falta mais nada; mas depois da morte na cruz, que não tenha voltado como Messias foi o segundo grande fracasso (que Lucas procura adiar sine die)[4].
10. Afinal, para o leitor de Marcos, Jesus não foi o Messias. A verdade deste texto desdobrou-se em seguida, na procura duma outra resposta ao clamor do “meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”, do que as possíveis no paradigma antropológico hebraico, nem a ressurreição nem o retorno messiânico que ela supunha. Essa nova resposta, já se esboça nos últimos textos do novo Testamento, ajudada com terminologia filosófica (Colossenses, Efésios, Filipenses 2,6-11, evangelho de João) mas desenvolver-se-á no paradigma platónico de Alexandria, com o que será o dogma da incarnação, afirmado no sec. IV sem a menor referência à ressurreição nem ao Messias. É certo que Deus e a ressurreição são fenomenologicamente inverificáveis, que há muitas leituras textuais a fazer nesta conclusão rápida, não impede que se possa vislumbrar que a verdade de Marcos permite programar a verdade da teologia cristã como resposta àquele clamor insuportável.



[1] Tenho vários sobrinhos em que a questão se pôs.
[2] Publicada em francês em 1974, traduzida em castelhano, alemão e americano. Em resposta ao sucesso duma ficção célebre sobre o código bíblico, esta leitura foi retida na antologia das 50 obras principais de crítica moderna da Bíblia por um grupo de exegetes de língua alemã, Thomas_Staubli, Wer knackt den Code? Meilensteine der Bibelforschung 50 Porträts, Patmos, 2009, Dusseldorf [Quem é capaz de decifrar o código ? Grandes marcos da investigação bíblica. 50 retratos] 35 anos após a publicação, foi um consolo incalculável.

[3] Além do paralelo de Mateus, apenas numa carta no início do livro do Apocalipse (1,3).
[4] Tratei da questão de como se instituiu o dogma cristão da incarnação no texto de 23/02/2018.