quarta-feira, 4 de abril de 2018

Marcos e Marx, em 1974



O que na liturgia cristã se chama Semana Santa, entre Domingo de Ramos e Domingo de Páscoa, é a comemoração piedosa dum acontecimento espiritual-político de há 1985 anos que foi tudo menos piedoso. Tratou-se da ocupação do Templo de Jerusalém por uma turba que subira da Galileia, seguindo um carismático profeta e taumaturgo, ocupação essa que calou os dirigentes do Templo devido ao apoio popular que ela suscitou. Mas de noite, mediante traição, conseguiram prendê-lo e que fosse crucificado. Quereria ter colocado este texto na semana que passou mas não deu.
Sucedeu que mão amiga me fez chegar o artigo seguinte, de um filósofo e teólogo americano (Fort Wayne, Indiana) que, com a preciosa ajuda do tradutor da Google, bastante melhor do que esperaria, traduzi para português, deixando a referênciao inglesa para quem o leia correntemente, o que não é o meu caso (virei analfabeto neste novo século). Depois da versão portuguesa, coloco a minha resposta a Lance Richey.


Lance Byron Richey, University of Saint Francis,
“MarK/X After Marxism. Fernando  Belo and Contemporary Biblical Exegesis”,
The Bible and Critical Theory, vol. 8, nº 2, 2012, pp. 57-66


Resumo
Em 1974, Uma Leitura Materialista do Evangelho de Marcos de Fernando Belo, combinou idéias marxistas e estruturalistas para descobrir os temas políticos revolucionários que ele reivindicava estarem codificados na narrativa de Marcos. Embora saudada na época como uma estratégia exegética visionária, ela foi amplamente esquecida na última geração. Enquanto que algumas das preocupações teóricas e políticas de Belo são inevitavelmente datadas, as suas contribuições para entender o ambiente social e político da Palestina do primeiro século e como textos religiosos como o Evangelho de Marcos operaram dentro dele merecem a nossa atenção e avaliação crítica, que este artigo tentará fornecer. Proponho uma dupla discussão sobre a abordagem materialista de Marcos por Belo à luz dos desenvolvimentos subsequentes tanto da filosofia quanto da teoria social marxista. Primeiro, vou delinear e avaliar criticamente a teoria dos textos que se  encontra na sua discussão do conceito de modo de produção, que possibilita a sua exegese de Marcos como um texto político subversivo. Em segundo lugar, explorarei brevemente o seu quadro do funcionamento específico do “modo de produção” da Palestina do primeiro século, onde Belo vê o Evangelho de Marcos como um desafio, dando especial atenção aos seus pressupostos teóricos. Concluo que, embora o trabalho de Belo seja certamente limitado tanto pelo estado da teoria quanto pelo conhecimento histórico de sua época,  os seus esforços inovadores para ler o Evangelho de Marcos como um texto subversivo permanecem altamente relevantes para os esforços contemporâneos da exegese materialista.

Texto
Em 1974, Uma Leitura Materialista do Evangelho de Marcos, de Fernando Belo ([versão americana] 1981), combinou marxismo e idéias estruturalistas para descobrir os temas políticos revolucionários que ele alegou estarem codificados na narrativa de Marcos. Embora saudado na época como uma estratégia exegética visionária, tem sido amplamente esquecido ao longo da última geração, em grande parte devido ao colapso simultâneo do estruturalismo como sistema teórico dominante na academia e do marxismo como ideologia política dominante em grande parte do globo. Dada a renovação do marxismo e da análise marxista que está a ocorrer actualmente em todo o mundo (e não apenas na crítica bíblica), essa amnésia deve ser especialmente lamentada. Enquanto algumas das preocupações teóricas e políticas de Belo são inevitavelmente datadas, o seu comentário permanece uma tentativa intelectualmente empolgante e politicamente poderosa para construir conexões entre prática religiosa, teoria literária e acção política revolucionária. As suas contribuições para compreender tanto o ambiente social e político da Palestina do primeiro século como textos religiosos como o Evangelho de Marcos operando dentro dele merecem a nossa atenção e avaliação crítica, o que este documento tentará fornecer.
Vou propor aqui uma discussão em duas partes sobre a abordagem materialista de Belo em relação a Marcos, à luz dos desenvolvimentos subsequentes na filosofia e na teoria social marxista. O meu foco será fundamentalmente teórico e não histórico-crítico, com o objetivo de avaliar os pontos fortes e as limitações da estratégia exegética geral de Belo, em vez de abordar questões específicas sobre o texto de Marcos. Primeiro, vou delinear e avaliar criticamente a teoria dos textos que se encontra na sua discussão do “conceito de modo de produção” e que possibilita a sua exegese de Marcos como um texto político subversivo. Em segundo lugar, explorarei brevemente o seu apanhado do “modo de produção” específico operativo da Palestina do primeiro século, no qual Belo vê o Evangelho de Marcos como um desafio, com atenção especial dada aos pressupostos teóricos da reconstrução histórica de Belo. Concluo que, conquanto o trabalho de Belo seja certamente limitado tanto pelo estado da teoria como pelo conhecimento histórico da sua época, os seus esforços inovadores para ler o Evangelho de Marcos como um texto subversivo permanecem altamente relevantes para esforços contemporâneos na exegese materialista.

CONSTITUINDO A SUBVERSÃO: A TEORIA DO TEXTO DE BELO

No “ensaio de teoria formal [do conceito de modo de produção]” que prefacia o seu estudo de Marcos, Belo escreve: “o propósito deste livro é analisar uma narrativa subversiva [no Evangelho de Marcos] e o trabalho ideológico que já se faz nele” (1981: 33). A abordagem metodológica para essa tarefa, escreve ele, “é sempre ler MarK com a ajuda de Marx: K / X portanto, se o posso dizer e prestar homenagem ao esplêndido livro de Roland Barthes, S / Z ”(Belo 1981: 6). Barthes (1977), é claro, é apenas uma das muitas fontes da moderna teoria francesa em que Belo joga. Belo depende especialmente do marxismo estruturalista de Louis Althusser (1969; Althusser e Balibar, 1970), matizado pelas teorias linguísticas e psicanalíticas de pensadores como Sigmund Freud (1961a: 1961b), Jacques Lacan (2006), Emile Benveniste (1973) e o primeiro Jacques Derrida (1998), bem como o não categorizável Georges Bataille (1962; 19911993). De facto, o que distingue o pioneirismo do trabalho de Belo do de tantos exegetas materialistas e marxistas é este muito intencional e detalhado emprego de conceitos estruturalistas, linguísticos e psicanalíticos para ler o texto bíblico.
Dada a gama de influências no seu pensamento, mesmo um relato moderadamente detalhado do complexo aparelho teórico é impossível aqui. Em vez disso, gostaria de me concentrar em algumas das categorias centrais estruturalistas e marxistas que ele emprega, uma vez que estas são mais centrais para a sua estratégia como exegeta bíblico. Mais importante ainda, a auto-descrita “teoria materialista dos textos” de Belo distingue entre três camadas da realidade social no trabalho em qualquer texto:
(1) o conceito marxista clássico da superestrutura, isto é, “o nível das formas concretas” de actividade económica, política e ideológica como um todo que determina as possibilidades de prática dentro de uma determinada formação social (1981: 9);
(2) a infra-estrutura, isto é, os códigos e práticas específicas que definem os práticas económicas, políticas e ideológicas dentro de seus próprios campos autónomos. A última delas, a região infra-ideológica, é “constituída por uma linguagem oral articulada como um sistema ... criado como diferente da ‘realidade’ da formação social [que] torna possível ler essa realidade, isto é, organizá-la de acordo com classificações semânticas específicas” (1981: 9); e finalmente,
(3) os próprios textos individuais, especialmente textos narrativos (contendo “o discurso de uma prática”), que são excepcionalmente bem adequados para comunicar os códigos infra-ideológicos duma sociedade, “uma vez que a formação social é [ela mesma] um conjunto complexo de práticas estruturadas” (1981: 30).
Segundo Belo, esses textos narrativos individuais, operando dentro de um sistema ideológico simbólico que é determinado pela superestrutura, tipicamente funciona “para estabelecer e / ou reproduzir os ... códigos da formação social” e assim perpetuam a ordem social construída sobre eles (1981:31). Esta função ideológica dos textos, facilitando, legitimando e perpetuando a ordem social em que eles existem, é familiar aos marxistas de todos os tipos. No entanto, Belo insiste em que os textos podem, pelo menos em alguns casos, em vez de funcionar ideologicamente, “subverter esses códigos para os transformar” e, desse modo, para refletir e permitir “práticas revolucionárias [que] sejam subversivas das estruturas da formação social” (1981: 31). É precisamente essa subversão do código ideológico de governo que Belo visa quando fala da “narrativa subversiva e do trabalho ideológico que já se fez em Marcos”. Mas o que é esse “trabalho ideológico que já se fez” em Marcos? Para Belo, nenhum  texto revolucionário nasce totalmente formado para revelar de forma ideal a prática revolucionária, escreve ele – o Evangelho de Marcos não é nenhuma excepção aqui. Pelo contrário, a relação entre a práxis e a teoria é de carácter dialéctico. O caráter revolucionário de qualquer texto,  a sua capacidade de desafiar e subverter o código ideológico dominante, "não aparece de repente, mas por um processo longo e lento, uma génese : uma primeira saída fora do fechamento ideológico que permite uma leitura daquele fechamento; depois a escrita programática dum outro ligeiramente diferente e portanto uma primeira prática um pouco subversiva; etc. Novas leituras, novos escritos, novos actos subversivos” (Belo 1981: 32)[1]. De facto, Belo insiste em que o acto de escrever, de narrar a prática subversiva, é em si um elemento constitutivo daquela prática subversiva, pois é apenas dentro de uma narrativa (o relato de uma prática ou de uma série de práticas) que a subversividade pode ser pensada. “Como é que o conhecimento teórico desta prática subversiva é possível? Sendo singular, a prática é contada em uma narrativa ou série de narrativas. … ‘Narrativa’ significa a narrativa do acto subersivo, uma narrativa subversiva”.
Belo pretende, quando fala da “narrativa subversiva e do trabalho ideológico que já se fez em Marcos” (1981: 33), que o acto de narrar torna possível romper com os códigos ideológicos dominantes e relacionar imediatamente as práticas para o real e para a existência incarnada dos agentes, e não para a ordem simbólica que anteriormente mediatizava e definia essas práticas. Belo escreve: “a totalidade das forças organizativas determina os limites estritos de qualquer prática política subversiva; a totalidade das forças inscritivas (ou a totalidade dos textos orais e escritos) determina os limites estritos de qualquer prática teórica subversiva. … Subversividade é [apenas] possível, então, se as práticas em questão são deslocadas para fora do campo dos fechamentos, e se afastam em direção aos locais materialistas do leitura” (1981: 31). Por outras palavras, a própria possibilidade de prática política que subverte a ordem política e económica dominante repousa sobre uma re-narrativa textual desta prática que a interpreta precisamente como subversiva, em vez de permitir que ela seja absorvida e definida dentro dos códigos ideológicos dominantes de uma sociedade. Para ser ainda mais conciso: para Belo, pelo acto de narrar, o texto subversivo identifica e cria uma prática subversiva! Belo aqui resiste à tendência encontrada entre muitos marxistas para um rude reducionismo economicista em todos os assuntos religiosos, exemplificado por pensadores tão diversos como Karl Kautsky (1953) e Anton Pannekoek (2003), mas na verdade rastreável ao próprio Marx (Boer 2010a). De facto, a realização teórica central de Belo como exegeta materialista, sugiro eu, reside no uso que ele faz de conceitos linguísticos para identificar a tarefa teórica que enfrenta toda a exegese materialista. O seu “áspero esboço de uma teoria das relações entre narrativa, prática e ideologia” [subtítulo do meu livro, FB] trata o texto bíblico como pelo menos quase-autónomo da ordem económica e possuidor de seu próprio simbolismo interno e necessidade lógica (1981: 5). Isso leva Belo a negar a supremacia absoluta da esfera económica que reduziria todos os textos ao estatuto de meros efeitos ou espelhos das relações económicas (como com o reducionismo vulgar dos primeiros teóricos marxistas da religião cristã), ainda que adoptando uma compreensão reconhecidamente marxista e materialista do texto. Respondendo à famosa afirmação de Engels de que as relações económicas determinam a sociedade “em última instância”, Althusser negou até mesmo a possibilidade das forças económicas existirem totalmente à parte da sociedade, que inclui também forças políticas e ideológicas: “desde o primeiro momento até ao último, a hora ‘solitária’ da última instância não chega nunca” (Althusser 1969: 113). Seja como for, a interpretação de Engels do cristianismo foi tão reducionista quanto é comumente assumida – um recente autor argumentou que não era (Boer 2010b) –, Belo seguiu a proposta de causalidade estrutural de Althusser ao conceptualizar a relação da religião com a estrutura mais alargada da sociedade. Ele escreve: “a tese de Marx de que a formação social é, em última instância, determinada pelo modo económico da produção é formulada assim: em última análise, a instância económica determina a formação, seja por ter o papel dominante na mesma ou por determinar se é a política ou a ideologia que tem o papel dominante” (1981: 26).
Para Belo, como para Althusser antes dele, as práticas textual, política e económica estão sempre já em relações mutuamente determinantes dentro da totalidade social, de forma que nenhuma esfera de práticas humanas pode nunca ter prioridade absoluta ou definitiva e determinação sobre qualquer outra. De facto, económico, político e ideológico são eles próprios apenas “instâncias relativamente autónomas” de práticas humanas que são determinados, em última análise, pela superestrutura, “que em todos os casos já sobredetermina as instâncias infra-estruturais” (Belo 1981: 9). Assim, em boa forma estruturalista marxista, Belo conclui que o Evangelho de Marcos não é apenas uma realidade exclusivamente textual – é sempre já uma intersecção do económico e do político, tanto como da prática ideológica na Palestina do primeiro século. Portanto, o Evangelho de Marcos tanto reflete como ajuda a constituir (re-narrando-a) a prática subversiva dos primeiros cristãos. Como Belo explica: “como proclamador dos actos subversivos, a narrativa torna possível lê-los, ampliá-los e estendê-los. A narrativa tem pois um importante e desvalorizado papel a desempenhar numa revolução”(1981: 32). Basta a importância deste discernimento, juntamente com a seriedade intelectual com que Belo o analisa, para o tornar digno da nossa atenção continuada no século XXI [digamos que o que Richey chama a minha teoria dos textos articula a análise textual de Barthes com a histórica de Althusser, a relação do texto com a sociedade que o porduziu, o que hoje chamo fenomenologia histórico-textual, FB].
Uma vez que ele tem a nossa atenção, o que deveríamos dizer hoje sobre o quadro teórico em que Belo constrói a sua “leitura materialista de Marcos”? Como a discussão já mostrou, ler Belo é entrar inteiramente no reino da grande teoria social que marcou tanto a cena intelectual do final dos anos 60 e 70 e que separa esse mundo cultural do nosso. Eu suponho que a mais óbvia (na verdade, a mais banal) crítica que se possa fazer da teoria de Belo do texto é precisamente a sua dependência de conceitos estruturalistas e questões políticas que parecem datadas como calças de sino fora de moda e música disco. Despedir assim o trabalho de Belo, porém, não teria sentido, seria um exercício de história na moda ao invés de uma tentativa séria de separar o que está vivo e o que está morto na exegese marxista estruturalista de Belo. No entanto, o tempo passou e alguns juizos sobre as suas posições mais importantes, à luz dos desenvolvimentos subsequentes, podem e devem ser feitos, ainda que brevemente. Embora esta discussão dificilmente possa pretender ser uma lista exaustiva dos desafios que confronta a estratégia exegética de Belo no século XXI, tampouco deverá ser tomada como um post mortem identificando falhas fatais na sua abordagem. Pelo contrário, o meu objetivo aqui é simplesmente destacar alguns dos desafios teóricos e metodológicos mais imediatos que um seguidor contempo­râ­neo de Belo teria que enfrentar.
Primeiro, devemos levar a sério as críticas anti-essencialistas da sua metodologia levantadas pelo pós-modernismo. Enquanto Belo se baseia nas obras de Derrida e Barthes, que são ambos classificados entre os pais do pós-modernismo, o seu meio intelectual é claramente definido por temas estruturalistas e pós-estruturalistas que precederam o pós-modernismo na cena intelectual francesa, e o seu trabalho claramente não é pós-moderno, tanto nas suas suposições como nas conclusões. Por exemplo, Belo seguindo Althusser e Etienne Balibar (1970: 214), fala da “invariância absoluta dos elementos que são encontrados em todas as estruturas sociais (uma base económica, formas legais e políticas e formas ideológicas)” (Belo 1981: 4). Esta suposição de que todas as estruturas sociais de todos os tempos e lugares, pelo menos no nível superestrutural, têm certas características essenciais em comum, é aceite como auto-evidente por Belo – como de facto deve ser, dado o seu desejo de usar Marcos como uma base para a moderna prática revolucionária e usar Marx como chave para resolver todas as questões sociais. No entanto, a tendência de muito pensamento pós-moderno para negar a comensurabilidade dos diversas sistemas ideológicos e para enfatizar a singularidade de cada estrutura social particular, torna esta suposição problemática, para dizer o mínimo.
Não é necessário ter lido profundamente filosofia pós-moderna para reconhecer os problemas envolvidos nas propostas de qualquer sistema filosófico totalizador (incluindo o marxismo) que suprimisse a diferença radical ou a incorporasse dentro de um sistema mais amplo de identidade (o que é a mesma coisa). Lembre-se, por exemplo, da insistência de Gilles Deleuze em que “estruturas sociais e económicas, formas de pensamento, normas de acção, são todas produzidas através de conjunções particulares e contingentes de desejos, acções e efeitos, e fazem parte de um conjunto no qual cada elemento é condicionado por todos os outros” (Baugh 2006: 285). Esta negação da comensurabilidade de fenómenos sociais historicamente discretos é, ela própria, problemática, é claro, pois põe em questão a própria possibilidade de conhecimento histórico objectivo. Embora o próprio pós-modernismo seja talvez o resultado lógico da alegação de Althusser de que a história é “um processo sem um sujeito”, isto é, um processo indefinidamente descentrado sem uma lógica única (contra Hegel), conduzindo-o a uma conclusão e, portanto, sem qualquer garantia de unidade diacrónica ou inteligibilidade, Belo não viu nem aceitou essa consequência no seu trabalho. Quaisquer que sejam as visões do valor do pós-modernismo, os leitores contemporâneos não podem aceitar o marxismo estruturalista de Belo de forma acrítica ou como não problemática. No mínimo, qualquer tentativa sustentada de prosseguir a metodologia de Belo no século XXI precisaria de abordar (se não resolver) estes desafios filosóficos fundamentais que surgiram desde os princípios dos anos 70.
Em segundo lugar, deve-se abordar o uso de Belo de conceitos freudianos (filtrados através da psicanálise lacaniana) para conceptualizar o papel das “utopias” tanto na prática social como na ideológica. A importância de Jacques Lacan na cultura francesa do pós-guerra dificilmente pode ser subestimada (Turkle, 1992), e a sua influência no marxismo de Belo foi tão profunda como problemática. Por exemplo, pode o “ideal” que regula e normaliza cada prática social particular, isto é, a “utopia” duma dada sociedade,  ser realmente concebido como um “análogo na formação social da pulsão freudiana” e a “ordem-utopia” que esse ideal cria na sociedade um “análogo da pulsão de morte freudiana” (Belo 1981: 20)? Pode o psicanalítico ser alinhado tão de perto e sem esforço com o económico, as ordens políticas e simbólicas da sociedade? Duvido. Enquanto que a influência de Lacan e Freud duramente não desapareceu (Žižek 2007), não se pode negar que o amplo estatuto cultural de Freud diminuiu desde a década de 1970 (Dufresne 2006), nem se podem ignorar os debates tanto sobre os fundamentos teóricos como sobre as evidências empíricas da teoria freudiana que ocorreram desde que Belo escreveu (Grunbaum 1984; Sachs 1991; Robinson 1993). No mínimo, a própria compreensão de Belo da psicanálise parece agora subdesenvolvida e desactualizada. Além disso, mesmo que se aceite o princípio geral da solidez da teoria freudiana, o uso de Belo como um análogo para as formações políticas e sociais requer uma teoria muito mais grandiosa do que a maioria dos exegetas contemporâneos ou teóricos políticos estão dispostos a aceitar. Certamente, a tentativa de Belo de usar conceitos freudianos para estabelecer um isomorfismo entre os significados do Evangelho de Marcos para a prática revolucionária no Modo de Produção Sub-asiático na primeira Palestina do século e o Modo de Produção Capitalista no Ocidente moderno continua problemático, para dizer o mínimo.
Mesmo deixando de lado estas críticas “externas”, talvez que a questão mais difícil de todas seja: a lógica interna da teoria de Belo, definida pelo marxismo estruturalista, pode realmente teorizar a possibilidade de mudança revolucionária sem mais? Não se trata apenas da questão de saber se a revolução era uma possibilidade histórica para os camponeses palestinianos do primeiro século. Belo admite que “o que os camponeses de um [Modo Subasiático de Produção] poderiam alcançar através da revolução seria um retorno às formas ‘comunitárias’ primitivas. A revolução era impossível para eles” (1981: 28). Em vez disso, a questão é se um marxismo estruturalista, com a sua ênfase nas limitações ideológicas, tanto sobre a subjetividade como sobre os agentes, pode fornecer um qualquer quadro de prática revolucionária e da transição de uma ordem social para outra – uma possibilidade negada no passado por alguns marxistas estruturalistas (Hindness e Hirst, 1975). O absoluto [aspecto] não discreto de cada instância histórica, a incomensurabilidade de todos os sistemas sociais e a omnipresença da diferença tão celebrada por muitos pós-modernistas são certamente presságios desta aporia nas abordagens estruturalistas da história. De facto, a acusação do marxismo estruturalista como essencialmente incapaz de explicar a mudança foi notoriamente apresentada pela E.P. Thompson (1978; Bottomore, 1998), vários anos após aparecer o trabalho de Belo, e continua sendo uma das dificuldades mais sérias enfrentadas por esse ramo marxista. Evidentemente, várias estratégias foram sugeridas para lidar com esse problema (Giddens, 1979; Anderson 1980) – pessoalmente não acho que seja intransponível – mas qualquer tentativa de seguir hoje o método de Belo deve abordar também essas questões.
Apesar dessas dificuldades teóricas, insistiria em que o arcabouço teórico de Belo permanece extremamente desafiador e promissor para os exegetas contemporâneos. De facto, eu iria ao ponto de dizer que continua sendo promissor justamente por causa dessas dificuldades, uma vez que as mudanças que ocorreram desde o surgimento de seu trabalho, a ascensão do pluralismo metodológico dentro da disciplina dos estudos bíblicos e a proliferação aparentemente interminável de factores sociais, raciais e perspectivas de género na leitura das escrituras, talvez tenham feito maior, em vez de menor, o desafio de transcrever o texto bíblico num programa político viável. A incursão de Belo na grande teoria, por mais estranha que seja à mentalidade académica de hoje, continua a ser uma base essencial para qualquer leitura materialista politicamente astuta do texto bíblico.

A RECONSTRUÇÃO HISTÓRICA DE BELO DA PALESTINA DO PRIMEIRO SÉCULO
Passando da teoria dos textos de Belo para sua reconstrução do contexto histórico específico da Palestina do século primeiro em que o texto de Marcos apareceu e operou, encontramos tanto os persistentes pontos fortes do sentido histórico geralmente sólido de Belo (pelo menos do ponto de vista marxista) como as limitações impostas pela teoria histórica e social disponível quando ele escreveu. Em vez de reconstruir o seu quadro da Palestina do primeiro século em detalhe (tarefa que está além do escopo deste artigo), vou-me concentrar brevemente aqui em dois pressupostos que regem a maneira como Belo conta o contexto religioso-político de Marcos e oferecer algumas sugestões sobre como a evolução posterior da investigação histórica e da análise sociológica poderia melhorar o trabalho de Belo, deixando intacto o seu modelo básico.
Primeiro, Belo assume que a Palestina do primeiro século foi organizada como o que a tradição marxista chama “Modo de Produção Sub-Asiático”, isto é, uma economia agrária caracterizada por trabalho de escravos e de camponeses ao nível de subsistência, cuja atividade económica estava centrada em aldeias rurais, mas governado e explorado através de um aparelho de estado controlado pelos grandes proprietários de terras, a classe mercantil e uma classe política urbana. Os deslocamentos económicos e sociais ocasionados por esse sistema, por sua vez, deram origem a lutas de classes e movimentos de guerrilha generalizada nos campos e a ascensão nas cidades de um lumpemproletariado economicamente incapaz de ação política concertada (Belo 1981, pp 83-84). Este modo de produção sub-asiático, afirma Belo, produziu fundamentalmente diferentes situações económicas e políticas na fértil região norte da Galiléia e na região mais árida da Judéia, conflito entre os quais a ideologia religiosa do Templo do Judaísmo concentrada em Jerusalém tentava suprimir (1981, pp. 60-61).
Embora Belo esteja, sem dúvida, correcto ao apontar as diferenças geográficas e económicas entre Norte e Sul como [razões] críticas para explicar o sucesso do ministério de Jesus na Galiléia e o seu fracasso na Judéia, bem como ao ligar a resistência política ao domínio romano com as realidades económicas em toda a Palestina, o conceito especificamente marxista de um Modo de Produção Asiático – do qual o “Modo Subasiatico” de Belo é derivado, através do trabalho teórico de Guy  Dhoquois (1970) – é dificilmente tão auto-evidente e não problemático como Belo assume. Deixando de lado a questão de saber se as teorias marxistas do desenvolvimento social são em geral apropriadas – como poderia a exegese marxista questionar isso? – dentro da sociologia marxista tem havido muito debate sobre a viabilidade do conceito de um modo de produção asiático (AMP). Como Bryan Turner observou na sua avaliação do conceito, muitas vezes “o conceito de AMP tem sido usado de forma promíscua para descrever quase todas as sociedades baseadas na propriedade comunal e aldeias auto-suficientes, onde os mercados capitalistas são  ausentes. … A AMP também está repleta de problemas teóricos. É difícil ver, por exemplo, como aldeias auto-suficientes e autónomas podem ser compatíveis com um estado centralizado que deve intervir na economia da aldeia” (Turner 1998). Turner (1978, 1998) não está sozinho na sua crítica deste conceito (Hindness e Hirst 1975; Krader 1975), embora outros estudiosos tenham defendido a sua (limitada?) utilidade (Briant 2002: 802). Também abundam outros problemas no conceito, incluindo o de explicar a origem do estado na ausência de lutas de classes (Currie, 1984). De forma mais geral ainda, será o conceito do Modo de Produção Asiático apenas uma expressão marxista do “orientalismo” geral que tem atormentado os estudos ocidentais modernos das culturas não ocidentais, de acord com escritores como Edward Said (1979)? Quaisquer que sejam as respostas dadas a essas perguntas, fica claro que a aceitação de Belo desta categoria social como um elemento essencial na sua exegese de Marcos levanta dificuldades que um quadro materialista da história mais teoricamente informado deve ter em conta hoje.
Em segundo lugar, de maneira muito estruturalista, Belo argumenta que o espaço ideológico do primeiro século da Palestina envolveu “dois sistemas distintos [que] podem ser encontrados nos textos legislativos do Antigo Testamento: um sistema de mácula ou contágio e um sistema de dívida, sendo o primeiro dominante em textos pertencentes ao documento sacerdotal (P), o segundo em textos pertencentes aos documentos Eloísta (E) e Deuteronomista (D)… Começando em certo período na monarquia subasiatica, os dois sistemas são relacionados por uma dialética que é a duma luta de classes ”(1981: 38). Belo então elabora um quadro estruturalista muito complexo de sentido em que esses sistemas simbólicos concorrentes (o sistema da mácula sendo associado com a classe sacerdotal dominante e com o Templo de Jerusalém, o sistema da dívida com a economia rural agrária e observância religiosa popular no campo) espelham e mediatizam as tensões de classe geradas pelo Modo Subasiático de Produção. De acordo com Belo, o sistema da mácula e o seu foco na pureza e sacrifício do templo tem as suas origens no campo da monarquia davídica, enquanto que o sistema de dívida, transmitido também através dos profetas, representa a religião prática de “tribos pré-sub-asiáticas iniciais” (1981: 56). Os conflitos sociais e económicos que resultam desta imposição do sistema monárquico posterior na sociedade agrária, afirma Belo, definem a sociedade na qual Marcos foi escrito e define o espaço dentro do qual sua narrativa subversiva opera. Como Belo escreve: “Uma exegese dos textos proféticos confirmaria facilmente, estou convencido, a brutal conclusão que já é clara e que os exegetas burgueses sistematicamente evitam; o sistema de classes estabelecido por David e a exploração do irmão pelo irmão são a maldição que caiu sobre Israel e o levou para a devastação e exílio. Veremos que o Evangelho de Marcos está localizado no mesmo campo no que diz respeito à leitura da história de Israel” (1981: 56).
O que devemos dizer sobre isso? Obviamente, a Hipótese Documentária, da qual Belo tão claramente depende, sofreu críticas sustentadas desde que ele escreveu, e seria rejeitada inteiramente por um número considerável (talvez até a maioria) de estudiosos bíblicos hoje (Blenkinsopp, 2000). Contudo, esses debates parecem menos centrais para avaliar o projeto de Belo (eu suspeito que Belo poderia navegar por esses desafios e reter uma base bíblica e histórica para os sistemas ideológicos que ele identifica a trabalhar na Palestina do primeiro século) do que os desenvolvimentos metodológicos na pesquisa bíblica desde que ele escreveu. Mais significativo, creio eu, para quem usa Belo hoje, é o desenvolvimento de uma crítica social-científica que, ao longo dos últimos trinta ou mais anos, apresentou uma abordagem muito sofisticada e um retrato empiricamente bem fundamentado do mundo ideológico do Novo Testamento que não se centram em torno da dicotomia mácula-dívida que o estruturalista Belo propõe, mas sim em torno de sistemas mais universais de honra-vergonha como os propostos por Bruce J. Malina (2001). Essas abordagens levam plenamente em conta as relações de parentesco, estatutos de classe e relações económicas (assim como Belo), mas mediatizam-nas e interrelacionam-nas através das investigações antropológicas e sociológicas mais do que através dos lentes da teoria francesa.
É claro que essas abordagens social-científicas geralmente minimizam ou até eliminam a consideração de classe para produzir o que Steven J. Freisen rotulou de “crítica capitalista” do Novo Testamento, e deve-se resistir a tais tendências (2004: 336). Um excelente exemplo de tal negligência (o que ajuda a explicar a amnésia contemporânea em torno do trabalho de Belo) seria a Leitura de Marcos: Envolvendo o Evangelho de David Rhodes (2004). Este estudo, que faz uma abordagem explicitamente social-científica do texto, relega o trabalho de Belo (que o autor admite ser “uma fascinante análise marxista do Evangelho”) a uma única nota de rodapé (Rhodes 2004: 233), enquanto que o estudo de Vernon K. Robbins (2009) não o referencia de todo. O próprio Belo lamentou tais tendências numa geração anterior de estudiosos como Reginald de Vaux (1961), que frequentemente colocava tanta ênfase na esfera ideológica religiosa que até mesmo “negam a existência de classes sociais no antigo Israel” (1981: 310 n. 72). A exegese marxista permanece essencial hoje, quanto mais não seja pela sua insistência em que os exegetas não permitam que factores sociais secundários e terciários distraiam os leitores das divisões económicas e de classe que operam nos níveis mais profundos e determinantes da sociedade. No entanto, estou relutante em afirmar que essas abordagens não identificam características reais do espaço ideológico da Palestina do primeiro século, que pode enriquecer uma exegese marxista, mesmo que não possa derrubá-la. Certamente, qualquer estudioso em 2011 que deseja continuar o trabalho de Belo e estendê-lo não pode ignorar o tempo que passou desde que ele apareceu pela primeira vez.
Os dois pilares teóricos sobre os quais Belo edificou a sua reconstrução histórica do primeiro século da Palestina, ou seja, o conceito marxista do Modo Asiático de Produção e o modelo estruturalista do quadro do sistema de mácula / dívida que o acompanhava, exige certamente uma explicação mais rica e subtil do que a que ele lhes deu no seu trabalho. Levando a sério estes subsequentes desenvolvimentos na compreensão histórica, tanto dentro da teoria marxista como dentro do grémio alargado dos estudiosos da Bíblia, certamente mudaria muitos detalhes do magnum opus de Belo, maneiras que ele nunca imaginou e que provavelmente não o deixariam totalmente confortável. No entanto, até uma maneira mais frutífera e sugestiva de relacionar os sistemas económicos e ideológicos do primeiro século da Palestina ser apresentada, que consiga preservar tanto  a sua autonomia relativa como a sua inter-relação, a obra de Belo permanece um excelente ponto de partida para os exegetas marxistas contemporâneos. Em vez de descartar a solução proposta por Belo para esse problema como desactualizada ou irrelevante, a exegese marxista contemporânea precisa de assumir a tarefa outra vez.

CONCLUSÃO

À luz da avaliação e das críticas da “leitura materialista de Marcos” de Belo, o que devemos concluir sobre sua relevância para as tentativas contemporâneas e futuras da exegese marxista? Sem dúvida, o estudo de Belo mostra as limitações do estado do conhecimento histórico e da situação teórica quando o livro foi escrito. Muitos dos seus métodos e suposições históricas parecem muito mais problemáticas para nós do que para os leitores parisienses de meados da década de 1970 e abordar esses problemas exigiria algumas revisões substantivas, tanto em teoria quanto na prática. No entanto, a abordagem de Belo para a Bíblia merece nossa atenção contínua porque reconhece e tenta com rigor conceptual lidar com a profunda complexidade da interação entre economia, política e texto que encontramos em ação no Evangelho de Marcos. Uma tal sofisticação intelectual quando a leitura do texto bíblico é essencial se quisermos escapar a leituras “políticas” que favorecem o sentimentalismo moral e o narcisismo mais do que proporcionam orientação para uma exegese política sustentada e teologicamente séria. Além disso, o reconhecimento de Belo (tornado possível precisamente por sua metodologia estruturalista) de que o caráter revolucionário de Marcos e do próprio Evangelho foi subsequentemente re-narrado e "re-ideologizado" na ideologia dominante e, portanto, despojado de seu poder subversivo é em si uma contribuição crítica e duradoura que ele fez para a compreensão do texto (Belo 1981: 33). Como tal, sua exegese materialista, por descobrir o poder subversivo original desses longos códigos re-ideologizados, ainda pode “tornar possível um confronto entre uma prática política que pretende ser revolucionária e uma prática cristã que não pretende continuar a ser religiosa ”(Belo 1981: 1). Essa conquista, apesar dos inevitáveis problemas que acompanham os seus esforços, faz com que o empenhamento teórico do texto de Belo seja oportuno e, sugeriria em conclusão, de interesse duradouro e significativo.

Minha resposta a Lance Reich este domingo

Caro amigo

Estou muito feliz por ter lido o seu artigo de 2012 sobre o meu livro MarC / X, a sua abertura intelectual para discernir o que é datado e o que permanece válido para si. Estou surpreendido e satisfeito com o que você diz no início sobre o ressurgimento do marxismo, inclusive na crítica bíblica. Acontece também que você toma como objeto de crítica o que ninguém havia feito na época e que, sem dúvida, se tornou mais avaliável hoje. Por mim, concordo com sua primeira parte, mas não concordo nada com a segunda (eu leio muito mal inglês).
Regressei a Portugal em 1974, durante a ‘Revolução dos Cravos’, e depois de alguns anos entendi que não havia possibilidade de uma ‘revolução’, o que a nossa situação actual reforça: revolução em Portugal? na Catalunha? na Bélgica? As lutas actuais não são leninistas (duas vezes tentei ler O que fazer?, sem conseguir ir além das primeiras páginas), não visam a tomada do poder do Estado, que deixou de ser 'decisivo', dizem respeito ao local e ao global, como se diz, poluição e clima, racismo e machismo, trabalhadores tratados como cidadãos e não como mercadorias, diminuição das horas de trabalho e eliminação do desemprego, e assim por diante. Ou seja, entendi que o marxismo não era senão uma análise das sociedades capitalistas; por exemplo, o conceito de modo de produção, unidade inseparável das ‘forças produtivas’ (relação trabalhadores / máquinas, matérias-primas, etc.) e ‘relações de produção? (relação de capital e juros / salárioz), parece permanecer adequado para entender uma fábrica capitalista, sendo a primeira relação a da tecnologia, cujo líder é o engenheiro, e a segunda, a das compras e vendas no mercado, de que o líder é o economista. Essa dupla relação encaixa muito bem numa fenomenologia inspirada no motivo gramatológico de double bind de Derrida, que desenvolvi jogando com algumas descobertas científicas decisivas do século passado. Se você quiser espreitar, há uma apresentação no meu blogue  www.philoavecsciences.blogspot.com. Concordo também consigo, foi ingenuidade minha misturar Marx e Freud, a utopia e a pulsão.
Dito isso, admito que o título “modo de produção sub/asiático” talvez seja orientalista, como denunciado por E. Said, embora acredite que a minha descrição da Palestina se mantém bastante bem sem esse título. Não havia sem dúvida nenhum “Estado centralizado”, ele preocupava-se obviamente com a ordem por causa do ocupante e recebia os dízimos devidos ao clero, o que basta para caracterizar o político; que o Templo é o nó do Tesouro, do Sinédrio e do Culto dos sacrifícios (os três misturados), é mostrado nos sinópticos como uma espécie de adversário simbólico de Jesus o Messias (João antecipa a expulsão dos comerciantes do Templo para ‘despolitizar’ o Messias), tudo se desmorona em ruínas em 70, tudo isso parece-me ‘organizado’ no quadro proposto, marxista ou não.. Em suma, quando houver uma melhor descrição, sera óptimo, mas vamos mantê-lo enquanto não houver melhor, acho que também é a sua opinião.
No que diz respeito aos sistemas de mácula / dívida: actualmente, renuncio à noção de oposição dialética e luta de classes entre eles – tornei-me “contra” a própria noção de dialética, que pressupõe a exterioridade dos dois termos – mas creio que a revisão da exegese do Pentateuco não afecta os dois sistemas, que são da ordem da antropologia hebraica. Estou muito feliz com a nova exegese: se o Deuteronómio foi o primeiro a ser escrito, então todos os grandes textos foram escritos por profetas, o que me permitiu traçar um paralelo com os filósofos gregos. Os profetas hebreus, é a ‘corrente’ dos escritores que escreveram a Bíblia. Mas o sistema dom / dívida claramente domina
o Deuteronómio (“que não haja pobre entre vós”), assim como pureza / mácula domina o Levítico do documento sacerdotal, que continua sendo a última mão da Tora, onde “os sacrifícios de vários tipos, escreve Schmid, que originalmente tinham funções diferentes, tornam-se todos no escrito sacerdotal sacrifícios de expiação; todo o culto se torna numa instituição monumental de origem divina cujo único propósito é assegurar a expiação "(Schmid, Hans Heinrich,”Para uma teologia do Pentateuco”, em de Pury, Le Pentateuque en question. Les origines et la composition des premiers cinq livres de la Bible à la lumière des recherchess récentes, Labor and Fides, 1989, pp. 379-380). Foi a tomada do poder pelos sacerdotes no tempo da dominação persa, eles tornaram-se os intérpretes das Escrituras, da escrita dos profetas. Não vejo muito bem que se oponha a estes dois sistemas, um terceiro como honra / vergonha, assaz mediterrânico, especialmente entre as máfias, uma vez que estes diferentes sistemas antropológicos podem muito bem jogar uns com os outros, não se excluem mutuamente. Só que não vejo muito bem como honra / vergonha pode ajudar a ler Marcos ou os outros evangelhos, enquanto que a questão entre a observância de rituais de pureza e dívida (pecado), entre os sacrifícios e a misericórdia, parece muito importante na questão dos alimentos e da admissão dos pagãos (Mc 7, Ga 2, Act 15), na crítica paulina da Lei, assim como continuou a ser relevante ao longo da história do cristianismo.



[1] Corrigi a citação a partir do original francês (FB).

segunda-feira, 26 de março de 2018

Um buraco na história da humanidade




1. O livro chama-se Sapiens. Une briève histoire de l’humanité, versão francesa da versão inglesa do original hebreu do historiador israelita Yuval Noah Harari (2012) e tem quase 500 páginas que se lêem muito bem, com bons exemplos em seus contextos muitos dos quais ignorados do grande público, bons contastes entre épocas diferentes para sublinhar parecenças ou diferenças entre épocas largas de história, ou seja, aprende-se muito e mesmo as irritações filosóficas que tive aqui e ali acabaram por me agradar, como direi a propósito do ‘buraco’ anunciado pelo título. A linguagem é clara, apesar do empirismo radical e das lacunas devidas à ‘brevidade’ duma história da humanidade, que me lembre o nome de Platão nunca aparece, e na parte final da ‘crendice’ nos projectos dos biólogos e informáticos igualmente empiristas radicais, que só sabem, uns de bioquímica e outros de sílica e digitalização. O livro consta de quatro partes: a revolução cognitiva, a revolução agrícola, a unificação da humanidade e a revolução científica.
2. A revolução cognitiva conta como as várias outras espécies homo, neandertal, erecto e outros, se extinguiram há cerca de 30000 anos, com a possibilidade de que o nosso sapiens tenha contribuído para isso. Entre os anos 70000 e 30000, já com fogo e utensílios vários bem anteriores, a revolução cognitiva é atribuída à invenção das línguas, de que Harari destaca três vantagens: poder falar de coisas que aconteceram longe, no espaço e no tempo; permitir conversar de tudo e de nada, isto é, ser um laço social, tribal; capacidade de ficção, de poder falar de coisas que não existem, lendas, mitos, religiões. É nesta terceira que o empirismo radical se anuncia: porquê decide o historiador que essas coisas não existem? A partir do seu ateísmo? Este faz parte da metodologia do historiador? Não creio que historiadores ou antropólogos encontrem alguma vez indígenas que digam que aquilo em que acreditam existe ou não à maneira dos ocidentais; se vasculharem bem, o que encontrarão provavelmente sempre é que eles acreditam nessas narrativas e nesses rituais porque os aprenderam dos seus antepassados, os quais também aprenderam de outros que aprenderam, sem se encontrar nunca nenhuma ‘origem’ de mitos; tal como nós aprendemos a falar sem saber gramática ou aprendemos na escola que a terra é que gira em torno de si mesma e o sol está como que parado num dos focos das elipses das trajectórias dos planetas, a grande maioria de nós não sabendo demonstrar essa crença aprendida; além disso, encontrarão que, quer a língua em que conversam, quer os rituais e mitos que jogam em festas, guerras, nascimentos e funerais, são laços que integram todos os que são da tribo e excluem os que não são. Ou seja, a aprendizagem como mecanismo de reprodução social é totalmente ignorada nas cinco centenas de páginas de descrição histórica. Com uma consequência impressionante, à vista da imensa bibliografia, livros e artigos de investigação, quase sempre anglo-saxónica, é certo: o capítulo que segue esta tripla caracterização da linguagem, intitulado “a lenda de Peugeot”, explica que ‘Peugeot’ não existe, é uma lenda, como o Estado moderno, a Igreja medieval, a cidade antiga, a tribo arcaica ou o sistema judiciário não existem, nada disso se vê, apalpa ou cheira: tratando-se de aglomerados acima de 150 indivíduos, são produtos imaginários, só ‘existem’ sob forma de mitos contados de boca em boca. “Nenhuma destas coisas existe fora das histórias que pessoas inventam e contam umas às outras; não há deuses no universo, nem nações, dinheiro, direitos humanos, nem leis nem justiça fora da imaginação comum dos seres humanos”. “Peugeot é uma criação da nossa imaginação colectiva. Não se a pode mostrar apontando com o dedo; não é um objecto material; [...] existe como ficção jurídica do tipo ‘sociedades anónimas de responsabilidade limitada’. Empirismo nominalista, à maneira de Occam – “só existem os singulares”, a relação de ‘pai’ só existe como ‘nome mental’[1] – ou de Margaret Thatcher, “a sociedade não existe, só existem homens e mulheres”. O que é surpreendente é que os nomes das línguas não sejam suficientes para  que algo que liga humanos possa ‘existir’ sem ser ficção; o imaginário é uma noção alheia ao ‘colectivo’, releva da subjectividade individual, ao invés das palavras, que são iguais para todos os falantes e também estruturam o psiquismo de cada um deles.
3. A revolução agrícola é introduzida com o seguinte título: “a maior fraude da história”. Ao espanto inicial, sobrevem a explicação: a vida dos colectores caçadores na selva era muito melhor do que a dos camponeses, o que lembra o que contava Pierre Clastres algures em La société contre l’État, de indígenas do Brasil que receberam machados metálicos, dez vezes mais eficazes do que os seus de pedra, e que em vez de cortarem dez vezes mais no mesmo tempo, cortaram a quantidade habitual em dez vezes menos tempo, ganhando tempo para se enfeitarem e divertirem, ou a caracterização por Marshall Sahlins das sociedades arcaicas como sociedades de abundância. Nesta lógica, Harari dará sempre lugar na sua síntese histórica aos seus aspectos mais terríficos: as escravaturas, quer as antigas quer sobretudo as de africanos na Europa e nas Américas, a dizimação (literal, reduzidos a 10%) dos indígenas americanos nos primeiros 100 anos, o proletariado inglês dos começos da industrialização do século XIX, mas também os animais que são hoje em dia tratados de forma crudelíssima em vista da nossa alimentação. Aqui, não posso senão tirar-lhe o chapéu! Terá direito a um capítulo final inédito: enquanto historiador, interroga-se sobre a felicidade dos humanos e o sentido da vida nesta época da história.
4. A unificação da humanidade tem uma tese que me pareceu original: a de que foram os impérios que conduziram a história para a unificação actual, além da moeda e do mercado (com um excelente resumo do mecanismo da moeda e da confiança bancária) e das religiões. O “papel histórico crucial da religião foi o de dar uma legitimidade sobre-humana às frágeis estruturas sociais”, quando se tratou de crenças universais e missionárias. Além do que se chama habitualmente ‘religião’, Harari prolonga a noção às grandes ideologias modernas: liberalismo, comunismo, capitalismo, nacionalismo, nazismo, distinguindo religiões teístas e religiões humanistas e nestas incluindo o budismo (sem deuses).
5. A revolução científica leva-nos ao extraordinário buraco deste empirismo de sociedades à base de “imaginários comuns”, que foi o que me atraiu para escrever este texto. O autor começa por contrastar a ciência moderna (com um belo capítulo sobre a invenção das estatísticas) que começa pela ignorância de que os humanos não conhecem, as respostas às questões mais importantes, enquanto que, segundo ele, “as tradições pré-modernas do saber como o Islão, o cristianismo, o budismo e o confucionismo [que] afirmavam que já se sabia tudo o que era importante saber sobre o mundo”. Esta frase, com um conteúdo que aparece outras vezes, diz a ignorância do historiador: a filosofia não aparece nestas “tradições pré-modernas do saber”, como se vê quando algumas páginas adiante se põe a questão “porquê a Europa?”. A questão está longe de ser nova. Por exemplo, o historiador Eric Jones, O milagre europeu, Gradiva, compara a China, a Índia, o Islão otomano e a Europa, que terão um equivalente estádio de civilização em 1400, com alguns argumentos comparativos interessantes – a não existência de impérios na Europa como os outros, os quais limitavam os ganhos dos seus mercadores, as cidades livres que estiveram na origem do comércio intra-europeu, a planície que vai da França aos Urais coberta de floresta – mas termina por não encontrar argumento histórico que explique que, 400 anos mais tarde, a Europa irrompa como civilização tecnológica e capitalista, e por resignar-se ao ‘milagre’. Aqui esta ‘ignorância’ que desembocou em ciência, como que ‘inventada’ pelos cientistas sem antecessores, explica-se pela aliança com os ‘impérios’ marítimos em que se ‘conquistam’ territórios e saberes geográficos, zoológicos e botânicos sobre eles. Mas quando chega a 1800, aos comboios a vapor e a tecnologia que vem com eles, à questão de saber porque é que a China e a Índia não foram capazes de construir logo máquinas a vapor como as europeias, encontra a seguinte explicação: “nem Chineses nem Persas tinham falta de invenções técnicas como as máquinas a vapor (que podiam ser livremente copiadas ou compradas); o que lhes faltava, eram os valores, os mitos, o aparelho judiciário e as estruturas sócio-políticas, cuja formação e maturação levaram séculos no Ocidente e que era impossível de copiar e de interiorizar rapidamente. [...] desde os alvores dos tempos modernos que a Europa desenvolvera a ciência moderna e o capitalismo, que os Europeus tinham ganho o hábito de pensar e de se conduzir de maneira científica e capitalista antes mesmo de gozarem duma vantagem técnica significativa”. O texto dá a ver que Harari manifestamente só conhece a ‘ciência’ de longe, caracterizando-a pelo “lugar central da observação e da matemática”: ora, esta disciplina de cálculo exacto só ganhou este nome no século XIX, nos clássicos era chamada geometria, que já Platão considerava aliada da filosofia na Academia; quanto à ‘observação’ é o método próprio das ciências aristotélicas, que o que ignoravam era a experimentação e a sua mensuração laboratorial, a ciência inventada no século XVII. A grande diferença entre a Europa que renasceu entre 1450 e 1520 e todas as outras grandes civilizações, foi que só ela teve antes de se formular como civilização, recebeu um berço cultural vindo da Antiguidade e da discussão medieval de textos filosóficos, lógicos, jurídicos, de medicina, além de teologia.
6. Eis o buraco: para Harari, por certo que a metafísica releva do imaginário, do que não existe, mas também coloca “os valores e os mitos” com “o aparelho judiciário” sem mencionar o direito romano. O que ele ignora, tal como Eric Jones e provavelmente a historiografia anglo-saxónica que ele cita abundantemente em notas de pé de página, não é apenas a filosofia, misturada ao cristianismo medieval: ignora as universidades medievais, a invenção da imprensa e o comércio dos livros, a Enciclopédia e as universidades e colégios! Nada disto faz parte da história que ele conta, muito menos históricas  do que os livros e as escolas são as palavras que se ensinam e aprendem, veja-se ou não o que elas dizem! Ora é neste buraco que tenho trabalhado, como mostro sobretudo no e.livro Da Natureza à Técnica (construção, desconstrução e reconstrução), edição de autor na Leya. Não lhe passa pela cabeça que a escrita alfabética, a invenção socrática da definição de essências [que claro que não ‘existem’ à mão de semear] (e da ‘ignorância’: “sei que nada sei” é o que lança a filosofia que tornou possível os laboratórios científicos!) e da argumentação lógica por Aristóteles, em seguida a da geometria por Euclides, que tudo isso – e também a alma imortal que também não ‘existe’, mas foi extremamente  eficaz para induzir o individualismo ocidental, ignorado pelas outras civilizações – fizesse parte do que Newton, citando um medieval, chamava os gigantes aos ombros dos quais ele se sentava. Ou seja, a sua concepção da ficção de coisas que não existem como o mais importante da “revolução cognitiva”, e provavelmente o papel do “imaginário comum” a sobrepor-se à existência da companhia Peugeot – de quem todos os que nela trabalham e lhe compram carros falam constantemente, sem necessidade de nenhum impossível, por definição, imaginário comum a milhões de pessoas – é que o impede de ‘ver’ o buraco da escrita que existe transmitindo-se por aprendizagem através de escolas e de livros. Apetece pensar que se trata dum exemplo (inesperado para mim) do que Heidegger chamou ontoteologia: este senhor lê ‘vendo e mexendo’ nas coisas lidas, discernindo nesse referente real o que existe e o que não existe, como um ‘sujeito’ diante de objectos. Para um ‘ateu’, deveria ser terrível ganhar consciência dessa sua posição herdeira da teologia.
7. Mas que esta brincadeira não afaste leitores: vale muito a pena lê-lo, aprende-se imenso.





[1] O nominalismo é a única corrente filosófica que refere a linguagem no título.

sábado, 10 de março de 2018

Céu de estrelas e acelerador de partículas



1. Escrevi isto no meu último texto deste blogue. “A meu ver, a grande crítica que as ciências em geral merecem, sobretudo a concepção que os cientistas delas têm, tem a ver com o ‘fora do laboratório’: teoricamente, os resultados científicos só são válidos nas condições de determinação criadas pelos laboratórios, os quais são necessários porque justamente na realidade quotidiana reina a indeterminação, vários tipos de efeitos jogando de forma casual ou pelo menos aleatória. Há, que eu saiba, duas grandes excepções, bastante opostas: a astronomia, cujo laboratório de telescópios enfrenta directamente a cena astral e pode calcular com exactidão as suas causalidades sem interferências terrestres significativas, e os aceleradores de partículas, em que o laboratório não se distingue da cena em que elas explodem, o que provocará provavelmente os limites da mecânica quântica (não sei que chegue para garantir esta afirmação). Escrevi, e só depois de o ter publicado é que me dei conta de que estas duas excepções correspondem, nada mais nada menos, do que aos dois novos domínios da Física, a da relatividade e da velocidade astral da luz (que só se pode medir / calcular nos astros não terrestres) e a mecânica quântica. O que merece uma pequena reflexão.
2. Que a astronomia, decana das ciências antigas como da física europeia, tenha como campo de compreensão um mundo ‘determinado’ é o que corresponderá à perspectiva dos astrónomos gregos, Aristóteles, por exemplo, considerando o movimento dos astros como perfeito, em contraste com os movimentos terrestres, o que porventura conduziu à noção astrológica de que o ‘movimento perfeito influía nos dos humanos’ (a palavra medieval influir foi criada para dizer essa relação astrológica). Mas também a lógica da demonstração do heliocentrismo de Newton (resumida num texto deste blogue) supõe as órbitas dos planetas como determinadas, repetindo-se periodicamente; creio que isso ainda é assim. Por outro lado, os cometas como o de Halley também têm algo como uma trajectória que é conhecida, prevendo-se as passagens dele à vista da Terra. Dito isto, haverá nos céus movimentos erráticos? Se for o caso, isso não se opõe a esta característica da astronomia de o seu laboratório coincidir, se dizer se pode, com a cena dos fenómenos astrais, sendo certo todavia que a Terra é uma grande excepção em relação aos outros astros: é dela que partem todas as medidas astronómicas, é do ponto de vista dela que se fazem todas as cartas celestes, ainda quando tenham contributos de sondas espaciais, uma vez que essas cartas são lidas na Terra, ou com ‘olhos terrestres’ de astronautas no espaço.
3. Quanto à Mecânica quântica, sem dúvida que, desde a teoria do átomo nos começos do século XX, foi em laboratório que ela foi sendo construída, Niels Bohr dizendo que “o átomo é um ser de laboratório”, com a célebre indeterminação de Heisenberg sobre a medida simultânea da posição e da velocidade duma partícula. Aqui, ao contrário da astronomia, é a cena fora de laboratório que como que falta: presumo que ela existe de duas maneiras. A primeira é sob a forma de bombas atómicas, o filósofo greco-francês Cornelius Castoriadis tendo dito, ironicamente mas com inteira razão, que a verdade da teoria física dos átomos foi validada pelas mortes dos cidadãos de Hiroshima e de Nagasaki, ou ainda sob a forma de centrais nucleares; a segunda, sob a forma de grandes aceleradores de partículas por desintegração de certo tipo de núcleos atómicos. Tanto quanto sei, e é certo que não sei muito, em todos estes casos o que se passa na cena, fora do laboratório no primeiro caso e na cena-laboratório no segundo, são explosões de partículas, onde as causalidades são incontroláveis cientificamente e os procedimentos de medida da ordem da estatística, a qual é sempre um recurso, uma confissão de não-saber no sentido tradicional da física de Galileu e Newton. Apesar disso, há um (inacreditável) estigma dessa física clássica como “errada” pelos físicos modernos, que têm a mecânica quântica como “o infinitamente pequeno no qual se apoia a física actual”, como diz a contracapa dum belo livro de Étienne Klein (Einstein +6. A revolução). No entanto, já Castoriadis falava “da antinomia epistemológica formulada por Heisenberg desde 1935 entre a constatação da não validade das categorias e das leis da física ordinária no domínio microfísico e a demonstração dessa não validade por meio de aparelhos construídos segundo as leis dessa física ordinária e interpretadas segunda as categorias usuais” [1].
4. A que vêm estas reflexões ? Provavelmente não são senão mais um ponto do meu desconforto fenomenológico (ignorante) diante, não destas duas novas físicas, é claro, mas duma consequência da junção das duas na especulação sobre os primeiros tempos do universo, uns 180 milhões de anos até à formação das primeiras estrelas. Como é pensável tantos milhões de anos sem astros dignos desse nome, apenas multidões de poeiras de átomos e de partículas? É a noção de ‘evolução’, a que é difícil de escaparmos, creio, como fazemos em relação à formação da Terra e à epopeia da vida, que me parece que falta nesta especulação, algo que se possa compreender. Ora, não se tratará aqui apenas de Física mas também, e talvez antes de mais, da construção da Química: do núcleo atómico, dos átomos mais simples (H e He) juntando um e dois electrões a esses núcleos, depois dos outros átomos da fabulosa Tabela Periódica de Mendeleiev, em seguida como átomos se juntaram para formar moléculas simples e mais complexas. Questões que põem decisivamente a de saber como é que se fizeram as ligações das forças nucleares e dos vários patamares de forças electromagnéticas (que juntam electrões ao átomo, juntam átomos em moléculas, depois juntam estas em graves), donde vieram, quando aparentemente, pensa o leigo, quanto mais a multidão de poeiras se expandir mais as partículas estruturais (protões, neutrões e electrões) se afastam umas das outras, quando a regra das transformações químicas que geram moléculas é a da proximidade entre elas, que nesta noção de expansão parece se desfazer: em vez de se aproximarem, afastam-se.
5. Estas teorias do big Bang e da sua sequência até às primeiras estrelas (a partir das quais julgo que uma lógica se apresenta), além de cálculos matemáticos que ignoro, serão apenas ‘especulativas’ ou haverá experimentação laboratorial adequada, inversão da que existe nas explosões atómicas de bombas e centrais nucleares como de aceleradores de partículas? Nestes casos, sabe-se experimentalmente como é que moléculas, átomos e núcleos atómicos se desagregam; mas há também experiências de protões e neutrões se agregarem para formarem núcleos atómicos, de se lhes juntarem electrões e se produzir um átomo? Em mais complicado, François Jacob, na Logique du vivant (1970) dizia, se bem me lembro, que se era capaz de sintetizar todas as moléculas duma célula mas não se sabia com elas construir uma célula, as que temos vêm sempre de outras anteriores (tanto quanto sei, as bio-tecnologias acrescentam moléculas a células, não fazem o que F. Jacob dizia não se saber então fazer). A única experimentação retroactiva, por assim dizer, que eu saiba é a famosa de Stanley Miller em 1953, que reconstituiu a atmosfera primitiva e conseguiu que hidrogénio, amónio, metano, vapor de água, sob descargas eléctricas, tivessem originado moléculas orgânicas. Nem sequer o estimado M. Barbieri, com uma excelente teoria sobre as moléculas ribóticas na génese das células, fala em ter feito experimentações sobre essas moléculas que justificassem a sua teoria. Voltando à física, seria talvez mais fácil conseguir experimentalmente ‘construir’ átomos, que são bem mais simples do que células. Talvez que o problema dos físicos seja justamente este, o da simplicidade que resiste a ser ‘pensada’; talvez que, em épocas de “complexidade” (Edgar Morin), o método cartesiano da redução das questões ao mais simples seja a esparrela filosófica em que caiu a especulação física, a de imaginar uma poeira de partículas em procissão no céu das estrelas ainda por virem, quando nos aceleradores de partículas não se constroem átomos nenhuns.
6. Seria preciso um/a novo/a Einstein, um/a físico/a que tenha – como ele teve com o seu emprego em Zurich de leitor de relatórios de “patentes nas quais se trata incessantemente de electromagnetismo” (Klein, p. 54) – uma espécie de ‘laboratório de ideias’ que lhe permita repensar o paradigma, repensar a antinomia epistemológica de Heisenberg (§ 3), a relação entre a mecânica quântica e os instrumentos laboratoriais da física ordinária. Mas se o/a houver – talvez que já o/a haja, sabe-se lá, longe das universidades de topo – far-se-á ouvir de maneira a ser levado/a a sério?
7. Devaneios meus, porventura.


[1] “Science moderne et interrrogation philosophique”, Encyclopædia Universalis, vol. Organon, 1975, p. 48.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Ciência, pós-materialismo e espiritualidade



1. Pela primeira vez vi referida uma corrente de pensamento de cientistas e filósofos que escrevem sobre “ciência pós-materialista”, denunciando a ciência europeia ocidental a partir dos séculos XIX e XX como materialista. Foi um texto no Público de 3/2/2018 de Leonor Nazaré que cita, além de dois livros, um em francês e outro em inglês, um “manifesto para uma ciência pós-materialista” de 2014, que se encontra na Web tanto em francês como em inglês. A autora reclama-se desse movimento para criticar o dogmatismo de David Marçal (não fala do seu comparsa Fiolhais) contra tudo o que não seja medicina ocidental da segunda metade do século XX, no caso a medicina tradicional chinesa, cuja licenciatura foi aprovada recentemente pelo Ministério da Ciência, sem que no texto dos inquisidores se perceba se alguma vez tentaram saber em que é que consiste essa ‘medicina’ que não é ‘ciência’. Nem se os vê preocupados, com o que Leonor Nazaré lembra de passagem: “não me alongarei em relação à componente financeira avassaladora associada às indústrias agro-química e farmacêutica mundiais, na dependência da qual 25.000 lobbyistas trabalham diariamente em Bruxelas, no sentido de inverter, impedir, ludibriar, adiar qualquer esforço legislativo que vise proibir, por exemplo, os perturbadores endócrinos e, de forma geral, os mais de 1500 produtos tóxicos e cancerígenos cuja utilização é LEGAL no que comemos, respiramos, habitamos, cultivamos, medicamos, etc. (cf. Stéphane Horel, Intoxication. Perturbateurs endocriniens, lobbyistes et eurocrates: une bataille d’influence contre la santé, 2015)”.
2. Se há pois boas razões para se argumentar contra o dogmatismo de muitos cientistas, da física à bioquímica e neurologia (o resto não é costume achar-se ser científico, a linguística estrutural, por exemplo), a critica de que essas ciências seriam ‘materialistas’ e de que se possa querer uma ciência pós-materialista (quando se trata de neurologia e psicologia face a fenómenos paranormais e espirituais) é algo que merece reflexão, já que se baseia na oposição entre material e espiritual, típica do século XIX positivista, como se o interesse pela dita ‘espiritualidade’ implicasse anti-materialidade.
3. A primeira questão é esta: a física é ‘materialista’? O argumento é aduzido a partir da mecânica quântica, da necessidade de ter em conta a interacção do observador para decidir da mensuração das partículas. Ora, no que diz respeito à física clássica dos engenheiros, à química e à bioquímica, a questão não se põe dessa maneira, nunca soube de cientistas destas áreas que reclamassem esta característica quântica para as suas questões laboratoriais. Por um lado, o motivo de ‘medida’ e de ‘dimensões’ susceptíveis de medidas só tem sentido em relação a coisas que chamamos habitualmente ‘matéria’, dimensões a que se pode atribuir convenções de sistemas de medida a partir duma unidade (centímetro, grama, segundo, no que no meu tempo de liceu e IST se chamava o sistema CGS). Mas por outro lado, como ilustra extraordinariamente bem o balde de água  com que Galileu media o tempo em “diferenças e proporções” de peso de água, são os resultados dessas medidas que se prestam às equações físicas de tipo algébrico, seja qual for o exemplo material da experimentação laboratorial: não é a matéria – enquanto realidade substancial, bolinha de pedra ou de ferro que desliza pelo plano inclinado de madeira – que é conhecida cientificamente, mas as regras de movimento, tipo lei da gravidade, que as equações e as suas variáveis preenchidas com os resultados da experimentação permitem conhecer de forma universal, científica. Aqui, o que faz o observador enquanto medidor não é relevante, a não ser a exigência de que não erre, foi por isso que o problema da mecânica quântica provocou um alvoroço tão grande, mas sem reflexos retroactivos sobre a física de dimensões macroscópicas: o critério nesta, que está na base da maioria da engenharia e tecnologia actuais, é ‘universal’ para qualquer laboratório, independentemente da subjectividade dos cientistas. Isto não é ‘materialismo’, é exactidão científica, que não joga da mesma maneira noutras ciências como a linguística estrutural ou outras ciências sociais, nem sequer na economia. Foi esta exactidão que levou Heidegger a dizer que “a ciência não pensa”, indo ao encontro de a ciência ser estruturalmente laboratorial, mensuração e matemática algébrica adequada. Onde o cientista pensa – usando linguagem de palavras articuladas em frases – é quando propõe novas maneiras de experimentação ou de medir, ou novas hipóteses teóricas, ou quando discute paradigmas. Nada disso é ‘materialista’ no sentido pejorativo da palavra: a intervenção da matemática – que mede e conta, isto é faz operações com coisas materiais, não soma ‘ideias’ nem sequer ‘imagens’ – joga com “diferenças e proporções”, as quais também não são coisas materiais, nem os números, nem sequer as palavras, diferenças entre sons ou riscos que referem ‘coisas’, aliás tanto materiais como ideais. Já o marxismo teve dificuldade em caracterizar a ciência e as línguas como ‘materialistas’ e não como ‘ideologia’ (Estaline decidiu no debate soviético que a língua não pertence à super-estrutura).
4. Não é pois por aí que o gato vai às filhozes, as ciências, laborando com coisas materiais, não são materialistas. A meu ver, a grande crítica que as ciências em geral merecem e sobretudo a concepção que os cientistas delas têm, tem a ver com o ‘fora do laboratório’: teoricamente, os resultados científicos só são válidos nas condições de determinação criadas pelos laboratórios, os quais são necessários porque justamente na realidade quotidiana reina a indeterminação, vários tipos de efeitos jogando de forma casual ou pelo menos aleatória. Há, que eu saiba, duas grandes excepções, bastante opostas: a astronomia, cujo laboratório de telescópios enfrenta directamente a cena astral e pode calcular com exactidão as suas causalidades sem interferências terrestres significativas, e os aceleradores de partículas em que o laboratório não se distingue da cena em que elas explodem, o que provocará provavelmente os limites da mecânica quântica (não sei que chegue para garantir esta afirmação). Ora, é fora do laboratório que se situam as poluições todas e os efeitos secundários, tudo resultante de lacunas laboratoriais inevitáveis, isto é, de experimentações não feitas além das que foram feitas, das que as técnicas confirmam a exactidão científica. Que os gases dos automóveis provoquem doenças respiratórias ou efeitos climáticos nocivos, que o que cura certo tipo de células tenha efeitos catastróficos noutros tipos, etc. Fora do laboratório e de certas rotinas, os efeitos de factores com causas diversas congregam-se em acontecimentos, que são possíveis, isto é, não determinados, imotivados, desconhecidos pelas ciências fora dos seus laboratórios. Ora, o dogmatismo dos cientistas vem de não terem em conta a importância do laboratório para as verdades que eles descobrem e de transporem indevidamente essas ‘verdades’, uma concepção determinista para a realidade em geral, o que é mil vezes pior do que um pretenso ‘materialismo’.
5. Do tal manifesto para uma ciência pós-materialista[1] (do seu § 15) retiro alguns pontos que merecem consideração. A afirmação de que as ciências reduzem o ‘espírito’, que um pouco adiante é exemplificado pela dupla vinda da psicologia racional clássica “vontade / intenção”, é perfeitamente correcta. Qualquer ciência só tem um mínimo de cientificidade se reduzir a subjectividade do cientista, mas mais além, a necessidade estrutural do laboratório implica a redução de tudo o que não corresponde às dimensões retidas para serem medidas do fenómeno. Para dar um exemplo fora da física e das químicas, a linguística estrutural reduz a Acústica e a Fonação fisiológica nas operações de comutação com as quais constrói os seus paradigmas científicos (fonológicos, morfológicos, sintácticos, lexicais). Nenhuma ciência pode ser retida, na tradição ocidental, sem esta redução, o que significa que os ensaios de conhecimento das realidades espirituais ou criam uma ciência própria (teológica ou agnóstica, não vejo o que possa ser) ou procedem apenas a argumentação filosófica, não científica.
6. Dito isto, há uma série de “fenómenos psi” que merecem todo o interesse, nomeadamente a telepatia, fenómeno que muito me intriga, claramente atestado frequentemente e de difícil explicação em termos das ciências vigentes, ou ainda as “experiências de morte iminente” com experiências fora do corpo durante uma paragem do coração, ou experiências espirituais profundas durante essas paragens, donde se conclui que o espírito é separado do cérebro, manifesta-se através dele mas não é produzido por ele; ainda se citam, sem que se possa duvidar, casos de “médiums que comunicam mentalmente com pessoas falecidas e obtêm informações muito precisas delas”, sugerindo sobrevida da consciência após a morte e a existência de realidades que não são de ordem física; acrescenta-se que “espíritos individuais podem aparentemente unir-se” o que “sugere a existência dum Espírito envolvendo-os”. Os dois casos obviamente ‘metafísicos’, a imortalidade do espírito e a existência dum Espírito divino, são denunciados enquanto tais pelo verbo ‘sugerir’, que parece afastar qualquer hipótese de ‘ciência’. Mas a telepatia e os médiums põem uma questão muito interessante, a de saber se eles exigem a autonomia duma instância ‘espiritual’ relativamente ao cérebro. O que  é difícil é que nos laboratórios de neurologia põe-se também a questão da relação entre a análise estritamente bioquímica-biológica das  redes neuronais e o ‘conteúdo’ dos neurónios a que só o próprio tem acesso, o que Damásio chamou ‘mente’: entre análise neurológica laboratorial e o discurso subjectivo da mente, contado pelo próprio, há um salto metodológico que julgo intransponível, o que deixará lugar para uma concepção filosófica espiritualista, mas não vejo como ‘científica’.
7. Argumentarei por isso duma forma indirecta. Há um caso extraordinário, mencionado noutro sítio da Web[2], dum tsunami na Indonésia em 2005 em que morreram 150 mil pessoas e em que não se encontraram praticamente carcaças de animais – elefantes, javalis, búfalos, leopardos – que pressentiram a vinda do mar e fugiram para as serras. Um biólogo, especialista em ecologia e comportamento animal, explica que não se trata dum “sexto sentido”, mas que “os animais teriam sentidos mais desenvolvidos do que os nossos para detectar certos sinais premonitórios: uns ouvirão uma gama maior de sons, outros perceberão melhor as modificações da pressão atmosférica ou do campo magnético; em tudo o que é vibratório, tremores de terra ou ondas sonoras, os animais têm aptidões que nós não temos ou já não temos” (Hervé Fritz, CNRS). Ora, o ‘já não temos’ sugere que tinham os nossos antepassados vivendo na selva e devendo defender-se dos perigos desta mas que se foram perdendo com as novas tarefas trazidas pela agricultura e sobretudo pela vida citadina. Então, os tais fenómenos psi, telepatia e médiums (para não falar de levitação), corresponderiam a gente que guarda, sabe-se lá porquê ou como, algumas possibilidades arquétipas, se dizer se pode, prévias à aprendizagem da linguagem provavelmente; isto seria o caso dos “espíritos individuais [que] podem aparentemente unir-se”, o que me lembra uma proposta de José Gil em As metamorfoses do corpo, a do “corpo comunitário” das tribos vivendo na selva, procurando alertar-nos para comunidades muito diferentes do individualismo exacerbado da contemporaneidade. “O corpo de que falam os selvagens não é o ‘corpo’ individual, porque este é em cada instante investido dos outros corpos da comunidade – seja pela fala, pelos gestos, pela expressividade afectiva, pelos jogos, por toques, carícias [...] Em cada comunidade primitiva o laço que une todos os membros funda-se neste corpo comunitário [...] É onde se jogam partilhas profundas: as funções mais imediatas, mais vitais – como a nutrição, a reprodução, as excreções, as percepções – canalizam e reproduzem o Mesmo em que cada corpo individual, fragmento e transmissão do corpo comunitário, compõe e analisa os seus ritmos deixando-se atravessar pelos ritmos de todos os outros [...] É ele que, oferecendo à comunidade a sua coesão, abre o espaço em que se elabora cada singularidade, o espaço da individuação dos corpos, quer dizer dos ritmos singulares. [...] As formas de educação que se encontram nas sociedades primitivas mostram como desde muito pequenos as crianças entram em relação com uma multidão de outros corpos, são manipulados por múltiplas mãos, balançados por dez mulheres, confrontados com mil imagens parentais, identificados a mil outras crianças e adultos. [...] A criança aprende os seus próprios ritmos, aprendendo a modelar em si os dos outros. [...] em vez de implicar uma atomização como nas sociedades ocidentais, o efeito de singularização supõe uma coesão social extremamente potente”[3].
8. A hipótese muito geral a tirar seria a de que médiums e gente capaz de telepatia seriam pessoas que guardam algo desta potência comunitária, desta intuição de outros, da capacidade de uma certa ‘comum unidade’ que poderá parecer-se com ‘relação espiritual’, sem ter implicações metafísicas nem ser ‘materialista’, esta oposição não tendo aqui lugar. Como dizer esta espiritualidade?[4] O motivo releva no Ocidente da tradição cristã, em que predominou a perspectiva platónica, opondo-a à matéria, como é o caso no manifesto em questão. Só vejo como alternativa o sopro judaico que em Orígenes aparece platonizado como ‘espírito’ (“hipóstase intelectual”), tenha sido ele como creio provável a fazê-lo, ou já antes Clemente de Alexandria ou outro filósofo cristão anterior. Seria digno dessa perspectiva o que releve de acontecimentos que escapem ao domínio dos outros humanos, ao poder do dinheiro, ou ao poder social em instituições ou ao poder politico ou ao poder dos saberes estabelecidos, mediáticos, científicos, eclesiásticos, académicos ou que sejam. É fácil dar exemplos, além dos espirituais anónimos, mulheres e homens que possamos conhecer, os clássicos Mahatma Gandhi, Martinho Lutero King, o nosso Aristides Sousa Mendes, Francisco, que está a renovar espiritualmente aos nossos olhos um lugar de poder.




[2] Google: Tsunami - Incroyable : les animaux ont échappé à la menace !
[3] J. Gil, Métamorphoses du corps, La Différen­ce, 1985, pp. 155-6.
[4] Ver texto de 15/10/17 neste blogue, os §§ 1-2