domingo, 15 de outubro de 2017

Ética espiritual : o que significa ‘amar o próximo como a si mesmo’ ?



1. Que sentido pode receber a palavra ‘espiritual’ na fenomenologia aqui praticada? Não é ‘religioso’, como foi argumentado num texto deste blogue (26/9/2013), nem sequer necessita de nenhuma divindade. Opõe-se a ‘material’ no sentido corrente do ‘materialismo’? também não, em rigor, se verificarmos que tudo é material, por certo, mas não há nada de ‘espiritual’ que não tenha algo a ver com algo de ‘material’. Além dos fenómenos? Na minha maneira de seguir, tanto quanto sei e sou capaz, a gramatologia de Derrida, o que estrutura cada humano são os usos que vai aprendendo, entre os quais os costumes, tal como as regras morais, desde o interdito do incesto até às ‘finalidades’ que levem a romper com elas e com o próprio paradigma tribal (familiar e escolar: estrutura de base), romper para a aventura: ora, são tudo coisas que implicam a linguagem. Esta foi analisada por Derrida a partir da redução fenomenológica (de Husserl) sobreposta à diferença linguística entre os sons e os significantes, estes sendo diferenças entre aqueles. Se já o som pode dificilmente ser dito ‘material’, já que se trata de oscilações atmosféricas com frequências repetidas, ainda mais a diferença entre sons, que não é um som (como a diferença ente duas cores não é uma cor) nem é nada de substancial (que o som como fenómeno ainda seja), nem é sequer ‘um sentido’ (uma ideia, no exemplo europeu) mas uma rede indefinida de sentidos: não é nada que possa ser dito ‘material’ mas também não pode ser ‘oposto’ a ‘material’ (como querem os espiritualismos e os materialismos que se opõem àqueles). Aliás, a palavra latina ‘spiritus’, tal como a grega ‘pneuma’ e a hebraica ‘ruah’, que se costumam traduzir por ‘espírito’, significam sopro, como se, ao falar-se, se soprasse sobre o outro, se soprassem sons com sentido de coisas que ele entende na mesma língua, coisas relativas ao mundo de ambos, aos fenómenos, este ‘entender’ tanto podendo ser aceitar como rejeitar após o tempo da fala, a qual deixou um rasto estruturante do que se ouviu e aprendeu (ainda que esquecido rapidamente a maior parte das vezes). Este rasto (diferença não substancial entre substanciais) efectua a aprendizagem, tanto das palavras como das coisas e gentes do mundo que elas dizem.
2. Levinas contrapôs a este rasto da aprendizagem, que se pode dizer ‘sincrónico’, simultâneo ao que fala e ao que ouve, ao que ensina e ao que aprende, um rasto diacrónico que lhe permite pensar a santidade, sendo no santo (o que ama o próximo como a si mesmos) o rasto dum Deus “sem existência nem essência” que o envia ao Pobre como ‘refém’ dele, para que o ‘substitua’ naquilo em que ele seja impotente. Com todo o respeito pela figura de Levinas e pela sua própria santidade, que quem o conheceu atesta, nem ‘refém’ nem ‘substituição’ – hipérbole levinassiana – me parecem palavras éticas. Guardo dele, chamando-lhe ‘espiritual’, este motivo de rasto diacrónico, ética não aprendida, além da moral tribal, à maneira dos talentos tão precoces que parecem inatos em muitos artistas ou outros grandes apaixonados. O espiritual terá algo de arranque ao paradigma da tribo, de aventura além das finalidades de vida que ela promove educando.
3. A injunção “amarás o teu próximo como a ti mesmo”, no livro bíblico do Levítico (19, 18), recomenda uma relação de amor pelas famílias vizinhas, é uma injunção ética de ordem social, que pretende criar um clima de paz social dentro duma aldeia ou dum bairro. Mas que não se trate apenas duma relação como a que se tem com os membros da sua própria família, porventura lembrando que a primeira parelha familiar de irmãos foi a de Caím e Abel, ciente pois que adentro da família amor e rivalidade vão a par com frequência, mas “como a ti mesmo”, introduz uma espécie de introspecção ética – como é que te amas a ti mesmo? – e um correlativo ‘sai de ti mesmo’ que deve vir de dentro de ti mesmo, tal como os teus pensamentos vêm de ti: uma injunção ética muito intrigante nos seus dois itens, o amor do próximo e o amor de si mesmo, este dado como termo de comparação ou de avaliação do primeiro. O que é ‘amar’ em cada caso? Comecemos pelo amor do próximo e vejamos primeiro o que ele não é. Não é um amor de paixão, como quando se diz que se está apaixonado, pois aí trata-se duma relação exclusiva, ligada ao sistema sexual como erotismo.  Também não é uma relação de ocasião igualmente erótica, muito menos se envolvendo prostituição e excluindo o amor. O que parece ficar assim excluído é que este ‘amor do próximo’ tenha incidências com a química hormonal da ordem do erotismo, que é a acepção mais corrente da nossa palavra ‘amor’. Uma segunda hipótese será a da ‘amizade’, enquanto relação de preferência por um ‘tu’ singular, cultivada por um convívio partilhado, recíproco, que tanto vale para mim como para ti, que joga no desinteresse mútuo além dessa partilha afectiva. Fruto de circunstâncias que suscitaram a amizade, parece que lhe é estranha qualquer forma de injunção: não se decide unilateralmente ser amigo de alguém, é algo que acontece a ambos e por ambos é reconhecido como gratificante. Não tem sentido dizer a alguém que deve ser amigo do seu próximo.
4. Sobra então, parece, uma terceira possibilidade de amor, o que se chama habitualmente compaixão, que implica um desnível entre o que ama e o que é amado, supõe neste uma carência de qualquer ordem que pesa sobre a sua autonomia de vida e naquele uma atitude de querer ajudar a colmatar tal carência. Neste sentido, a injunção afasta-se da relação de boa vizinhança que o Levítico sugeria, embora outros textos da Bíblia hebraica multipliquem o apelo a cuidar dos sem casa, do órfão, da viúva, do emigrante, desde o primeiro grande texto, o do Deuteronómio (15, 4), com a sua injunção a todo o Israel: “não haja pobre no meio de ti”. A Bíblia cristã retomou a injunção do Levítico claramente entendida agora como compaixão ou misericórdia pelo que tem fome ou sede, pelo estrangeiro ou pelo nu, pelo doente ou pelo preso (Mateus 25, 35-45), a injunção da compaixão operante sendo proposta como critério decisivo de avaliação do que foram os destinos de cada um em relação ao Reino dos Céus. Há uma modificação decisiva, passou-se de uma moral de toda a sociedade de Israel para uma ética individualizada e responsabilizadora, para uma injunção ética além de toda a moral tribal, correlativa da maldição que é lançada sobre os ricos em Lucas 6, 24-6. Este mesmo autor (10, 29-37) reinterpreta o motivo levítico, estendendo-o bem além da vizinhança, dos amigos e conhecidos, propondo uma parábola em resposta à questão “quem é o meu próximo?”, na qual um judeu que descia de Jerusalém para Jericó foi vítima de bandidos que o despojaram e feriram, deixando-o meio morto: um sacerdote e depois um levita (duas categorias sociais votadas ao culto religioso) que passaram e seguiram caminho e foi um semi-estrangeiro, da Samaria, uma zona religiosamente mal vista pelos Judeus de então, quem se ocupou dele e o fez tratar. A compaixão não conhece fronteiras políticas ou religiosas, muito mais além das fronteiras da tribo, dos bairrismos e dos nacionalismos.
5. Mas também não é um afecto vazio, é um amor praticante, de obras[1]. O que de si restringe, se dizer se pode, o próximo, como aliás já o faz a noção de proximidade: não se trata de amar os meus conhecidos quando passo por eles, nem de dizer ‘que horror!’ diante das desgraças que a televisão mostra. Trata-se de amar o próximo em suas carências, fome ou sem abrigo, doença ou aflição, trata-se de atender ao que elas implicam de... quê? É a esta questão que o “como a ti mesmo” ajuda a responder. Que amor se tem a si mesmo? Não se tratando de narcisismo ou de egoísmo, que são o contrário de ‘amor’, pode-se pensar que se trata do ‘cuidado’ que tenho dia a dia com o meu viver. Então a questão será: o que é que eu tenho de que o outro carece? A possibilidade de o ajudar nessa carência, a qual possibilidade me é dada pela minha autonomia de viver, que justamente recebi da minha tribo, que me fez doação dela como heteronomia que se retrai para deixar ser a autonomia: o ‘onde’ se nasce, que foge a qualquer escolha, configura aquele que se será, que só escolherá dentro dessa configuração, trate-se mesmo de rebeldia contra ela. A autonomia recebida gratuitamente é a doação que é feita a qualquer um que nasce em tal tribo. É do que carece o que merece compaixão: que se o ajude a recuperar a autonomia que lhe falta, que se substitua, não a ele, carente, pois que isso significaria permanecer sem autonomia, mas aos da sua tribo que lhe faltam. A esta interpretação heideggeriana corresponde uma outra injunção evangélica de Mateus 10,8: “recebeste gratuitamente, dai gratuitamente”. Diante do que tem fome ou não tem abrigo, quem come em sua casa atesta dum privilégio gratuito: antes de todos os esforços feitos para garantir casa e refeição, nasceu aonde recebeu por aprendizagem de doação tribal as possibilidades desses esforços. ‘Nascer aonde’ é gratuito, ajudar o carente releva da mais elementar solidariedade humana, gratuita igualmente como o amor. É por isso que é dito ‘ama’. ‘Como a ti mesmo’, alarga sem fim os limites desse amor, se se trata de ajudar o outro a aceder à sua autonomia ‘como’ a minha.
6. ‘Nascer aonde’ é gratuito: ninguém pode perscrutar-se suficientemente para poder vir a aceder conscientemente a essa gratuidade. Mas cada filho ou filha que se tenha e de que se acompanhe um pouco o percurso testemunha dela. Como dizia a minha sogra dos filhos: “podemos criá-los, não podemos fadá-los”. A diversidade de destinos parte da gratuidade dos nascimentos antes de todo outro factor de percurso. Faz parte do segredo da fecundidade, quer dos nascimentos, quer das aprendizagens doadas com retiro dos doadores: este retiro da heteronomia é justamente a não substituição que torna possível a autonomia. Amar o próximo efectivamente como a si mesmo é participar no grande segredo da vida, o da fecundidade das suas doações gratuitas, contribuir para melhorar as autonomias diminuídas em vista do que chamamos a humanidade: autónoma, solidária, pacífica.
7. Mas quem sou eu para falar de amor ao próximo?


[1] A tradição eclesiástica elencou sete obras de misericórdia corporais”, as seis de Mateus 25 mais “enterrar os mortos”, e sete “obras de misericórdia espirituais”: dar bons conselhos, ensinar os ignorantes,
corrigir os que erram, consolar os tristes, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo, rogar a Deus por vivos e defuntos. 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Linguagem e conhecimento




1. Trata-se duma breve adenda ao último texto sobre a des-substancialização e talvez aos três sobre a questão do conhecimento de janeiro e fevereiro 2017. O conhecimento segundo a minha leitura do “não há fora do texto” de Derrida ficou mal explicado: trata-se duma posição que integra as duas posições da tradição filosófica sobre o conhecimento, entre as quais quase sempre oscilou. Dum lado, a tradição dita ‘idealista’, iniciada com Platão, herdeiro de Parménides, em que o conhecimento é algo que releva da alma e visa as essências eternas definidas de que as coisas terrenas são cópias frustres. No Crátilo, após uma longa dissertação sobre etimologias gregas das palavras mais importantes para o filósofo, Platão exclui as palavras como incapazes do conhecimento, condição para poder colocar as suas Formas ideais. O outro lado, o dito ‘realismo’, foi o resultado da critica desta posição por Aristóteles (anunciada já no Parménides) que colocou o conhecimento na sequência das sensações corporais e efectuou o primeiro ‘retorno às coisas’, trazendo-lhes as Formas ideais como ousia segunda, categoria do discurso que coincide em cada coisa com a ousia primeira que ela é sob os seus acidentes particulares. As coisas são pois realmente conhecidas pelas respectivas definições, mas apenas no plano inteligível da argumentação gnosiológica, enquanto que as sensações só conhecem os seus acidentes, nas narrativas e discursos quotidianos.
2. No que diz respeito à tradição europeia a partir de Galileu e Descartes, antes da separação kantiana entre filosofia e ciências, pode-se dizer que o problema do conhecimento foi sempre colocado entre a inteligência no interior da alma e depois do sujeito, e as coisas sensíveis, exteriores, os empiristas partindo destas para aquela ao invés dos idealistas que ligavam as ideias a Deus. Foi o que, depois de Kant e Hegel, quebrou o passo da intencionalidade de Husserl e depois o do Dasein, ser no mundo, de Heidegger, passos esses decisivos na ultra-passagem da separação inteligência / coisas, nomeadamente com a importância que o II Heidegger dedicou ao peso histórico das palavras, na sua interrogação das etimologias gregas e alemãs, ficando apenas eventualmente a questão do ‘pensamento’ a impedi-lo de chegar às ‘coisas’. Era a lacuna das palavras na problemática europeia do conhecimento que tornava este insolúvel, oscilando os pensadores entre um subjectivismo solipsista (devido às manifestas diferenças individuais) ou um realismo objectivista e nos cientistas determinista.
3. Uma excepção importante foi a do conceito de ideologia do marxismo, todavia não suficientemente trabalhado por Marx, os seus problemas assentando na contradição económica e histórica essencial da infra-estrutura, como se deu como sintoma o debate soviético em torno da linguística, que Estaline decidiu com a famosa tese de que “a língua não pertence à super-estrutura”, tese essa que. dando a importância devida à linguagem, permite uma elaboração do conhecimento mais adequada ao materialismo histórico, julgo eu (formulei esta hipótese numa tentativa de elaboração duma “teoria formal do conceito de modo de produção”, primeira parte da minha leitura materialista do evangelho de Marcos, em 1974).
4. Voltando à corrente fenomenológica, formulando em termos clássicos a solução de Derrida “não há fora do texto”, ela consistiu justamente em chegar ao conhecimento das coisas na sua singularidade jogando com as palavras que as nomeiam: por um lado, o seu lado ‘realista’, o qual, não separando sensações corporais e inteligência subjectiva sem voz, permite, por exemplo maior, conhecer as coisas que se utilizam rotineiramente, fazendo a unidade com elas dum ciclista com a sua bicicleta, unidade do dizer com as mesmas palavras que são de todos com o fazer os mesmos usos com as mesmas coisas (argumento contra todo e qualquer cepticismo solipsista); por outro lado, o seu lado ‘diferencialista’ dos sujeitos, palavras e usos sendo aprendidos de forma sempre singular, os textos que são ditos ou pensados por cada qual têm sempre essa singularidade enigmática, até para o próprio em certas vertigens da vida, a singularidade do jogo de diferenças entre as palavras, como entre os jeitos de fazer. Com efeito, as diferenças que tecem os textos – fios dos têxteis – permitem matizar indefinidamente o que se pensa e sente, desde a musicalidade das entoações às figuras literárias que enxameiam os próprios dizeres quotidianos. Derrida ‘realiza’ assim o ‘idealismo’, se se pode dizer, assumindo o antagonismo estrutural do pensamento greco-europeu. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A des-substancialização : Física, Kant, Husserl, Neurologia




1. “Na natureza, disse Lavoisier, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. É certo, mas ‘nada’ e ‘tudo’ reenviam a coisas, a substâncias que se fazem e se estragam, vivos que nascem e morrem: surgem de transformações de outras substâncias, acabam transformando-se em outras substâncias. Este verbo ‘transformar’ parece ser aristotélico: a mesma matéria muda de forma, o que significaria que não haveria desmaterialização nas transformações de Lavoisier. Mas a química, que é a ciência destas transformações, sabe o que é a ‘matéria’? sabe pesá-la, medir-lhe a massa, detectar-lhe as moléculas e os átomos, a energia que se ganha ou perde nas tais transformações, sobretudo quando se trata de explosões, nas nucleares surgem as partículas dos quantas, aonde é difícil de saber a quantas anda a matéria, ou sequer se este termo e o de substância ainda têm sentido. A dizer verdade, esta falta de sentido possível acaba por implicar a dúvida de saber se a química ou a física sabem qual o sentido desses termos tradicionais, ou melhor, se eles têm sentido científico. Se o labor dos laboratórios nunca passa de medir o que se chama ‘dimensões’ das coisas, objectos, substâncias materiais, para fazer cálculos com essas medidas de maneira a saber o ‘como’ quantitativo das transformações medidas e poder usar esses resultados para criar artefactos técnicos muito diversos, haverá que concluir com Galileu e Newton que no reino da ‘quantidade’, das ‘diferenças e proporções’ das medidas, não se sabe da substância ou da matéria. Que as medidas são convencionais, sabemo-lo desde o balde de água com que Galileu mediu o tempo das suas experiências: têm regras, mas a convencionalidade das unidades definidas é uma arbitrariedade no coração da medida – metros ou pés, quilos ou libras, Celsius ou Fahrenheit – que tem como correlato a des-substancialização: conhecem-se (e calcula-se) dimensões, medidas, não aquilo que é medido.
2. Uma incidência manifesta mas pouco assinalada desta questão é a diferença entre os pensamentos de Kant e de Husserl, o primeiro assentando a sua critica da razão pura no laboratório de Newton onde a geometria recebe com o movimento o tempo, enquanto que o segundo retrocede à geometria anterior à introdução do tempo por Galileu. Porque é que Kant vai buscar o ponto de partida da sua análise às sensações? Faz parte do epistema da época, diria Foucault, toda a gente fazia assim, empiristas ou racionalistas: o dispositivo anti-aristotélico da análise / síntese que analisava até ao nível mais simples das coisas, aos indivisíveis (átomos, indivíduos), tal como hoje em dia os físicos quânticos e as suas partículas. E porquê essas estranhas formas a priori da sensibilidade, a do espaço e a do tempo? Aí parece mais clara a inspiração newtoniana: ainda era uma novidade extraordinária a medida do tempo, como novidade era, apesar da geometria, a medida da distância entre as coisas (e não o lugar delas) a par da do tempo (medida do movimento), nós é que estamos habituados; um século mais tarde (como era lenta a história!) Kant estava a revolucionar a filosofia tal como Newton fizera para a ciência, estava a ter filosoficamente em conta as grandes novidades desta[1]. Porque, saído do tal sono dogmático, tinha um desafio imenso pela frente: a crítica do conhecimento por Hume deitava por terra justamente essa extraordinária inovação de cariz científico e filosófico. Há pois que recorrer a Newton e à sua matemática para combater eficazmente o cepticismo empirista, deixando a filosofia para os combates mais difíceis da razão pura (ou teórica). Kant foi popular na literatura do século XIX[2] um pouco como Einstein no XX, tinha nem mais nem menos salvado a ciência e a filosofia, digamos retoricamente. O que ele fez foi des-substancializar radicalmente os ‘objectos’, as coisas a conhecer – que não podem ser conhecidas nelas mesmas, na sua ‘substância’ (já Aristóteles o pensava, os ‘acidentes’ não o permitiam), reduzidas pois a númenos. Ou seja, assim como o laboratório com as suas técnicas de medir espaço e tempo é o dispositivo central do conhecimento científico, da física, também o sujeito kantiano tem as suas ‘maneiras’ de fornecer espaço e tempo às coisas exteriores, que ficam reduzidas, por assim dizer, à inércia em termos de cognoscibilidade. Desorganizadas enquanto objecto ou ‘fenómeno’, elas oferecem-se às formas de espaço e tempo como lugar de sensações diversas, que precisam de serem ‘síntetizadas’.
3. O que Kant fez foi retirar à filosofia, senão a ontologia, pelo menos a fenomenologia, oferecendo os fenómenos à ciência (onde tive que os ir buscar!), ao conhecimento pelo entendimento. O que é deixado à filosofia da razão pura é, não o ‘conhecimento’ mas o pensamento enquanto filosofia do conhecimento e da ciência, epistemologia, pensamento além da ciência e sem ciência. Émulo de Aristóteles num contexto de civilização quase oposto, é com ele que corta como que definitivamente em termos de modernidade[3]. Salto por cima de Hegel porque não sei tratar suficientemente da sua fenomenologia da história e do espírito, coisas que Husserl ignora soberanamente quando retoma uma preocupação que se pode comparar com a de Kant: com uma grande diferença, o seu mote do “retorno às próprias coisas” consiste justamente em contrariar os númenos de Kant (e os acidentes de Aristóteles), o qual aliás contrariava a grande cisão cartesiana entre duas substâncias, a do pensamento – res cogitans – e a das coisas -  res extensa – e é o que Husserl busca ligar, mas para isso, em vez de re-substancializar contra Newton e Kant, prefere des-substancializá-las a ambas. Como assim? Com uma dupla audácia: por um lado, dizer que a consciência só é a intencionalidade das coisas que percepciona, dos fenómenos, não é nada sem estes, não tem ‘substância’ dela própria (o sujeito não é autista, se se pode dizer assim); por outro lado, para evitar o empirismo com que chocara no seu projecto duma psicologia dos números, des-substancializa aquilo que, da coisa substancial, ‘aparece’ à consciência, esta não retendo senão o seu ‘aparecer’ fenomenal, estrutural[4]. O fenómeno tal como ele é intencionalizado pela consciência é reduzido da sua substância empírica, mundana. Volta atrás de Kant e Newton, volta aos Gregos, disse Gardel no artigo sobre ele da Encyclopædia Universalis, antes pois do laboratório[5], mas com a vantagem sobre Kant de abandonar as sensações e de ancorar a consciência na percepção da coisa, do fenómeno: não integralmente, visto que as percepções são sempre parciais, nunca se vê as costas do que estamos a ver, mas o que aparece mantém-se sempre ele mesmo na diversidade das suas percepções. Só que a percepção é predominantemente visual, ignora o espaço (a distância) e o tempo, este só é considerado num segundo tempo, tal como a linguagem e as categorias, com o juízo sobre o fenómeno percepcionado. Esta colocação, ultrapassando a oposição alma / corpo que Descartes recuperara do platonismo e do cristianismo, aloja todavia a intencionalidade do lado do ‘inteligível’, reduzido o ‘sensível’ do objecto, o empírico e mundano. Não sai da metafísica que Heidegger caracteriza por esta oposição; este radicaliza a integração da intencionalidade com o seu ‘ser no mundo’ dotado de tempo, de mãos, de linguagem, ficando retido apenas pelo seu motivo do ‘pensamento’, que parece não ter chegado a ser pensamento dum ser no mundo com outros seres no mundo; será a gramatologia de Derrida que o fará, tendo em conta implicitamente a aprendizagem. 
4. Esta questão que dividiu Kant e Husserl, entre as ‘sensações’ dos cinco sentidos por um lado e por outro a ‘percepção’, que consiste de facto no privilégio tradicional do sentido visual sobre os outros quatro, mas nele privilegia também de forma tradicional a visão como actividade de quem vê sobre a recepção do visível dado pelo mundo, ocultando que é a tribo que ensina a ver de tal ou tal maneira, consoante os seus usos, como se torna óbvio nos trabalhos de especialização, com suas habilidades e artes implicam aprender a ver e a nomear o que o leigo não distingue[6]. Uma citação saborosa de Condillac no Tratado das sensações (no texto sobre a psicologia de Maio passado) conta muito bem o primado do aprender a ver na doação (Heidegger) da visão, esta que a filosofia sempre privilegiou fazendo par com a voz, se se pode dizer, ambas, visão e voz, vêm de dentro do sujeito, da sua intimidade, fonte impartilhável: o logocentrismo (Derrida) não é apenas o privilégio da voz mas também com ele o da visão, privilégio patriarcal do logos do pai-patrão que vigia os seus escravos, filhos, mulher, e que não usa as mãos em usos ditos ‘servis’ porque são os servos que os executam[7].


5. Este tipo de questões sobre as sensações são hoje em dia assunto das neurociências, mas as minhas leituras deixam-me uma decepção muito grande: elas tratam das suas coisas segundo um empirismo que se poderia dizer empírico ele mesmo, já que se ignorando enquanto tal, ignorando o que são as correntes filosóficas empiristas pré-kantianas; como que um empirismo empírico que será resultado do carácter necessariamente fragmentado das experimentações laboratoriais dos neurologistas, tanto de ordem física como bioquímica. Parece óbvio ao fenomenólogo que não será muito fácil evitar a dispersão dos fenómenos neuronais, e para começar a questão das áreas neuronais a analisar, onde os tais cinco sentidos se diferenciam à partida pela respectiva localização, embora se juntem os grafos dos três principais que se cruzam em áreas comuns, nos humanos com uma dificuldade acrescida, a audição também veicula as palavras e as frases, que não fazem parte dos cinco sentidos tradicionais mas que no entanto abrem ao pensamento, uma outra imensa dificuldade neurológica, lá iremos. Como é claro que em tudo o que fazemos, em sentido estrito, mãos e olhos vão de par, formam o que se pode chamar um eixo comportamental, em que as mãos tanto relevam do sentido do tacto como dos gestos musculares inerentes ao fazer, parece óbvio que a este eixo corresponde um grande ‘grafo’ (termo de Changeux) dos cérebros humanos, o mesmo se podendo dizer do eixo entre ouvidos e voz, segundo grande grafo, um terceiro sendo o dos olhos e pernas, não apenas para andar e correr, mas também para firmar-se no fazer o que quer que seja que se faça. Trabalho, linguagem e andar firme, seria a trindade tribal que a neurologia partilharia com a antropologia sem saber. Ora, o seu material de investigação laboratorial é feito essencialmente de química e electricidade e de, em consequência, o que se mede em suas experimentações pede uma interpretação teórica, isto é, a integração com inúmeras outras experimentações, todas igualmente fragmentárias (a ‘teoria’, no grego, é uma visão de um conjunto extenso, um exército, por exemplo, visto duma colina). Claro que qualquer experiência supõe uma hipótese teórica, que releva do que o (paradigma) neurologista crê ser o funcionamento... de quê? eis a grande dificuldade: do ser humano no mundo? do cérebro? De tal pequena zona dele com ramificações muito diversas a outras, incluindo os tais órgãos dos sentidos e a tal zona do córtice antigo que sempre se cruza quando se vem de fora antes de voltar às áreas comuns do novo córtice (Changeux insistiu nisto, trata-se dum duplo cérebro, não de dois cérebros)? O risco desta fragmentação é o de haver um ‘humano aos bocados’, digamos assim. Ora, se essa zona em estudo fica no percurso dum dos tais grandes grafos[8], em vez de se procurar uma função específica dela, haverá que pensá-la na integração desse eixo maior, dos olhos às mãos ou vice-versa, ou aos pés, dos ouvidos à voz, de eixos neuronais que vão dos órgãos periféricos aos músculos dos gestos. Pois que se trata dum eixo biográfico, que se aprendeu e continua a aprender todos os dias, com frequências temporais mais ou menos susceptíveis de serem apreendidas, o que permitirá em princípio articular o laboratório do neurologista com o do antropólogo, os usos da tribo do humano em análise. Difícil será, mas se for possível, que bom não seria para um uso saudável da neurologia. É certo que é muito complicado, mas é um desafio que ainda será o de muitas gerações.
6. Ora bem, o que é que isto tem a ver com a des-substancialização? É que tratar o cérebro como pequenas ilhas locais de actividades, é tratá-lo como uma ‘coisa’ ou uma mão cheia de coisinhas, ao invés de se o conceber como rede diferencial de percursos – de espaços e tempos, ritmos, frequências –, o ‘gravado’ dos grafos reenviando para a tribo e suas repetições e ritmos, paradigma tecido de usos oscilando entre alianças e rivalidades. Atender à linguagem pode ajudar a compreender esta dificuldade, já que ela não se apreende em palavras nem sequer em frases, mas no encadeado destas que reenviam constantemente para o que já ficou dito e para o que ainda falta dizer que cria suspense, num jogo espácio-temporal de diferenças alternando com o outro falante (a différance com a de Derrida). A experiência de J. Gallant mostrou que as palavras se espalham por todo o novo córtice, segundo um mapa (para americanos) do que eu chamaria ‘paradigmas de usos ditos’. O discurso ouvido no eixo ouvidos / voz, ao chegar ao novo córtice, pode ter um destino neste relativamente localizado (se se trata de especialistas discutindo), ou oscilar entre vários, se a conversa for eclética, digamos. Uma resposta prosseguirá do/s mesmo/s local/is (ou talvez de outro/s, se se desconversar ou se ripostar) para as áreas de Broca e Wernicke onde se articulará para os músculos da voz. Obviamente que isto é conversa de fenomenólogo, sem outras pretensões do que ajudar a pensar coisas muito difíceis. De qualquer forma, faz parte da dificuldade que se trata sempre de trajectos ou percursos espácio-temporais em que se faz o jogo da compreensão retendo e diferindo, não é nunca algo de meramente local. Outra parte dificílima é a do pensamento que se faz neste eixo que se espraia pelo dito mapa, quando não parte de ouvir ou de ler e não chega à voz, que fica pois ‘mental’ em sentido de Damásio, ou no de Derrida, a auto-afectação da voz silenciosa. Trata-se da corrente de pensamento em cada um de nós e das suas associações de ideias, atentos ou divagando. Há de haver um mecanismo neuronal que silencia a voz, Changeux faz-lhe algures uma alusão sem detalhe, mas parece certo que essa corrente mental silenciosa[9] se faz neste eixo ouvidos / voz da linguagem, como qualquer um de nós pode experimentar que pensa numa das línguas que conhece bem, nunca fora da língua, ainda que seja músico ou pintor e o seu pensamento despose frequentemente a musicalidade ou a visão de desenhos e cores.
7. Mas tanto neles como nos não artistas, esta corrente pensada, ouvida ou dita, tem relação no seu jogo diferencial ao que é pensado, ouvido ou dito, às ‘coisas’ do mundo ou de si no mundo, e é outro berbicacho de monta. É todavia onde a linguagem, em sua sintaxe-semântica, presta ao cerebral o enorme serviço de ser ‘alavanca’ além do puro biológico, como a tabuada também faz com os números e suas operações elementares, como escrevi a propósito da psicologia. Para entender a dificuldade desta questão entre as palavras pensadas e as coisas exteriores que elas nomeiam, vale a pena procurar perceber uma afirmação estranha de Derrida, a de que “não há fora do texto”, com uma aparência falsa de idealismo (não se trata de ‘ideias’!): só atentamos, vemos, ouvimos, apalpamos, cheiramos, saboreamos, com texto mental, ainda que divagando. Um texto é um encadeado de frases correlacionadas por ‘códigos’ (Barthes, Lévi-Strauss), os quais por sua vez se relacionam com a lógica dos usos sociais, domésticos ou especializados, das ‘receitas’ que ensinam esses usos. Por sua vez, as palavras correntes são aprendidas em relação estrita com a aprendizagem de usos (domésticos, escolares, profissionais...), o que implica que cada uma traz consigo um significado referencial a algo dum uso, significado como o que os dicionários assinalam, que tanto pode ser literal como metafórico (a língua quotidiana cria frequentemente metáforas para não ter que inventar novas palavras, trata-se dum mecanismo de economia linguística), significado que vem nela, sob pena de não ser palavra[10]. Os textos são frases de palavras assim significantes, em jogos de diferenças que são o pensamento desses textos. Ora bem, só há pensamento reduzindo a imensidade das coisas possíveis de serem pensadas e é o que as palavras fazem enquanto nomes: dizer ‘cão’ ou ‘casa’ reduz as ‘sensações’ kantianas ou os ‘acidentes’ aristotélicos de todos os cães e de todas as casas, guardando apenas uma generalidade que a frase pode afinar para tal cão ou tal casa singulares com determinantes, artigos, demonstrativos, possessivos – ‘o meu cão’ ou ‘a casa dele’ –, sem perder a generalidade do significado e ganhando as singularidades contextuais (como acontece em qualquer romance ou conversa). O que significa que os nomes no pensamento são ligados pela lenta aprendizagem às ‘coisas’ nomeadas por uma relação textual (semântica e de determinantes sintácticos), essa ligação joga na nossa relação com as ditas coisas em seus usos variados: Derrida chegou a dizer, contra Husserl, que “não há percepção”, não haverá ‘sensações’ de tal coisa sem o seu nome, “não há fora de texto”. Posso pensar ou dizer a torre de Belém sem a ver, imaginá-la nela mesma, sem ‘representações’ nem ‘informações’: mas se a vejo, pensar e ver ou dizer e ver não se separam como dois actos ou dois níveis.
8. Um texto escrito des-substancializa o seu próprio contexto de escrita, as ‘sensações’ de quem escreve, o que ele vê, ouve ou cheira, os seus ‘sentimentos’ e até as suas intenções (embora tudo isso possa transparecer no texto, é claro, tal como os músicos encontram sentimentos em partituras escritas nas barras do solfejo); uma carta enviada vai ela só, sem outro contexto do que o texto que ela diz (‘o meu cão pegou fogo à casa’) e que o leitor restitui através da sua competência semântica (posso enganar-me ou mesmo mentir, a carta será lida igualmente por cada leitor, embora possam variar as interpretações, conhecendo-se o autor dela). O ponto é o seguinte: aquilo a que se chama ‘percepção’ de qualquer dos sentidos só se dá nos textos ditos ou pensados que dizem o que vem aos tais sentidos. Nada se vê ou se mexe ou faz sem ser pensado textualmente: é a condição derridiana de não admitir a separação que nos vem dos Gregos: tanto alma / corpo, como dentro / fora, inteligível / sensível, palavras / coisas. É por certo um dos pontos mais difíceis do seu pensamento. O que não pode deixar de ser complicado para o neurologista, dada a formação dualista recebida nos liceus, mas poderá também abrir-lhe outras portas mais simplificadas (sou incapaz de dizer algo de útil neste sentido). Mesmo quando sem falar se pensa o que se faz, sempre que se vê ou cheira ou ouve, se deseja ou se tem medo, é sempre em palavras, em texto, que se acede ao que se diz. No cérebro – oh espanto dos espantos – o que foi imaginado como espiritual para o bem como para o mal dá-se ao neurologista como um jogo da ordem da bioquímica e da electricidade iónica, esta corrente eléctrico-química na rede sináptica é para o neurologista a des-substancializa­ção do que para a mente do próprio são palavras, olhos, mãos, pés e o mais que seja, o seu viver mais ou menos tumultuoso, seus segredos e paixões, de que só uma parte diz em volta alta, havendo outra que, se o fizer diante dum psicanalista, o surpreenderá como tendo vindo de si, do seu não saber de si. O problema é que o neurologia também parte das sensações, não consegue ver que linguagem as integra, como Kant também não viu, como mostra as inenarráveis formas a priori da sensibildade[11].
9. ‘Retorno às coisas’ em neurologia que é uma limitação muito grande: o neurologista, enquanto tal, sem se fazer psicólogo, não sabe interpretar (laboratorialmente) o que lhe é dito. Donde a tentação de fazer como os críticos literários que vão em busca de dados biográficos para discernirem intenções escondidas nos textos que lêem, também o neurologista tem a tentação de ‘substancializar’ o que se passa na electricidade das sinapses, ficcionando uma hipótese teórica que liga tal localização com um correlato ‘na realidade’. Fraca ajuda filosófica, que seria como se ele quisesse encontrar apoio em Kant, que lhe recusou a tal ‘realidade’ (númenos incognoscíveis), envolvendo os dados cerebrais, sensações em formas a priori de espaço e tempo. Dir-se-á que aqui também é complicado, mas proponho algo que Kant ignorou completamente: que espaço, tempo e sensações como ver e ouvir e mexer também se aprendem, e não de forma subjectivista individualista mas segundo as regras sociais da tribo: seriam estas por ventura que poderiam sugerir ao neurologista algo de relativamente ‘firme’ para conjecturar as suas hipóteses, saber que o cérebro que estuda tem os arquétipos dos seus grafos cá fora, relativamente acessíveis na tribo. Interdisciplinaridade: correlacionar a cartografia neuronal com o paradigma dos usos quotidianos.


Umas semanas antes tinha escrito os parágrafos que seguem, sem saber o que lhe fazer. É um pré-escrito.

O cérebro desintegrado
10. A revista do Expresso de 9/9 trouxe uma reportagem da jornalista Alexandra Carita junto de neurologistas do Instituto Champallimaud que oferece a quem se interessa pelo tema há mais de 30 anos um retrato da prática actual da neurologia muito problemático: o cérebro é tratado triplamente desintegrado. Antes de mais, como um órgão ao lado de outros órgãos com que tem relações, mas sem se saber qual é a sua função no conjunto anatómico; em seguida, nele mesmo são apresentadas uma série de ‘curiosidades’ localizadas aqui ou ali em zonas estudadas, mas também falta a unidade do conjunto, que é certamente muito complexa, mas não se limita a ser feita de conjuntos de células; enfim, em relação ao mundo ambiente há um esquema computacional em termos de in/out put que coloca as relações entre ambos como de exterioridade. Quem me tenha lido, perceberá que a minha perspectiva fenomenológica funciona de maneira integrada e que o ‘defeito’ desta desintegração é da filosofia espontânea dos neurologistas, como dizia Althusser, faz parte do paradigma das ciências bio/neurológicas, cujo laboratório é de ordem bioquímica e se ocupa de células, tendo uma dificuldade grande em ‘imaginar’ um modelo integrado do que se estuda.
11. A primeira dificuldade releva de se porem questões de investigação aos cérebros humanos no seu desenvolvimento social actual, aos adultos de hoje, em vez de se partir das suas funções na anatomia dos vertebrados, articulando o sistema que assegura a reprodução das células pelos aparelhos digestivo, respiratório e pelo sangue que chega a cada uma delas com as moléculas de que elas necessitam com o sistema da mobilidade que tem que caçar animais ou plantas na cena ecológica, sistema esse que vai dos órgãos periféricos da sensibilidade pelo cérebro aos músculos dos movimentos de caça e de fuga a ser caçado. A principal função do cérebro é essa, a do velho córtice, tendo aves e mamíferos desenvolvido um suplemento cerebral, o novo córtice, que permite estratégias mais complexas.
12. A segunda dificuldade tem a ver com o facto de tudo o que se tem que ‘saber’, enquanto vertebrado, implica conhecer o mundo onde caçar e defender-se, que nos humanos é muito mais desenvolvido pelos usos e costumes sociais, linguagem incluída, que como Changeux sugeriu no Homem neuronal, são grafados cerebralmente: são estes usos sociais exteriores que são aprendidos, isto é, estruturam o cérebro de forma tal que ele só ‘reconhece’ algo do mundo em que actua porque já o tem grafado em si. O cérebro  é simultaneamente um órgão biológico e social, o essencial do seu movimento releva do que se aprendeu.
13. A terceira dificuldade releva das outras duas: a memória é essencialmente a rede dos grafos que se vai constituindo ao longo da vida. O que, enquanto filósofo, me preocupa, mas que me parece de correcção extremamente difícil porque se trata de adultos fortemente estruturados, são os conceitos usados pelos neurologistas para porem as suas hipóteses. Dou só o exemplo do termo ‘informação’, usado também por psicólogos, sociólogos e outros, que é melhor do que a ‘ideia’ que ela substitui, mas é, tal como esta, uma ilha isolada, sem relação entre ‘informações’ e sem contexto: ora, uma ‘informação’ – saber as horas do comboio, o nome de um livro, os anos duma pessoa – tem sempre contexto de legibilidade. Em termos de linguagem, a unidade mais óbvia para ser usada será a frase, que tem algum conteúdo, que se liga a várias outras em geral e que tem contexto; também é mais complicada do que ‘informação’, só que esta é uma caricatura (na informática trata-se primeiramente de números).



[1] Há um livro do filósofo francês Jules Vuillemin, Physique et métaphysique kantiennes, Paris, PUF, 1955, rééd. PUF, coll. Dito, 1987, que elucida esta relação entre Newton e Kant.
[2] Evocado por J.-L. Nancy num livro sobre o filósofo de Königsberg, Le discours de la syncope. Logodædalus, Aubier-Flammarion, 1976.
[3] Se Heidegger retornou a ele, não foi sem um horizonte quase reaccionário de ruralidade, que não coincide com o nazismo e o anti-semitismo.
[4] O linguista Roman Jakobson dirá que colheu em Husserl a inspiração estruturalista.
[5] Matemático e lógico, Husserl é movido pela necessidade de fundamentar as ciências da sua época ‘em crise’, mas a maneira como a sua Origem da geometria (PUF, 19995) duvida de Galileu mostra que considera a ruptura que o seu laboratório introduziu nas disciplinas de forma matemática como negativa no sentido da experiência de pensamento geométrico puro. “Origem da geometria, para abreviar, juntamos neste título todas as disciplinas que tratam de formas cuja existência matemática se desenvolve na espácio-temporalidade pura” (p. 174), esta ‘pureza’ exclui o laboratório como impureza. Mas o que ele faz é romper com a relação da filosofia europeia com o laboratório, como se pode ver pelo título que dá a outro pequeno texto do início dos anos 30: “a terra não se move”. Com efeito, nós, terrestres, nós não podemos ‘ver’ que há movimento da terra, o que percepcionamos é o do sol, só sabemos que a terra é um astro por cálculos posteriores. A ‘percepção’ faz-se no contexto da terra imóvel; sem este retorno, não teria havido Heidegger nem Derrida, os seus dois grandes dissidentes.
[6] Devo dizer que esta distinção entre visão e receber o visível veio-me pela primeira vez à escrita agora. Se é certo que me repito muito neste blogue, também julgo que só escrevo quando há coisas novas a mexer comigo, pequenas nuances muitas vezes que melhorem a minha proposta de 2007. Passados 10 anos, modéstia à parte, as  melhorias são-me claramente manifestas. A reforma é agradável, resiste ao envelhecimento.
[7] Como mostrava a série de Downton Abbey, que senhores e meninas eram vestidos pelo/as criado/as.
[8] ‘Circuito’, parece preferirem os neurologistas, perdendo a noção de que as sinapses foram gravadas pela aprendizagem, como mostrou Eric Kandel (igualmente no texto sobre psicologia).
[9] A que Platão no Sofista chama dianoia ‘pensamento’ na tradução habitual (à letra ‘do nous [intelecto] para o nous’, de mente a mente, de mim a mim), à diferença do logos, com voz, e do dia-logos, entre dois ou mais.
[10] Também o Sofista se refere a essa propriedade de qualquer frase.
[11] É na síntese dos fenómenos da sensibilidade pelas categorias do entendimento que Kant mete subrepticiamente a linguagem, pelos ‘signos’ na escala que sobe das sensações por ali acima. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Palavra chave



1. Por vezes, há quem pergunte se se tem uma palavra chave para a sua vida. É uma pergunta difícil, claro. Eu responderia que tenho duas, uma para o que consigo e outra para o que não consigo.
2. Consigo compreender o que leio e me interessa, acho que consigo razoavelmente, que o que escrevo é relativamente claro. Mas eu que passo a vida a falar de ‘ser no mundo’, tenho muita dificuldade em compreender fora do meu mundo (distraído, não reparar, enganei-me algumas vezes até à patetice).
3. O que não consigo é amar o  próximo como a mim mesmo, costumo desculpar-me dizendo que é a coisa mais difícil do mundo. Mas o Bernanos disse algures que só há uma tristeza, a de não se ser santo.

domingo, 6 de agosto de 2017

A evolução entre biologia e bioquímica, entre Darwin e Marcello Barbieri


uma questão de lógica em fenomenologia

A perspectiva biológica da evolução segundo Darwin
A perspectiva bioquímica da evolução segundo M. Barbieri
A questão de lógica entre as duas perspectivas
Uma perspectiva fenomenológica da evolução
A cruel origem da espécie humana

Charles Darwin, A origem das espécies por meio da selecção natural ou a luta pela existência na natureza, [1859], 2011, Mel editores[1]
Marcello Barbieri, Teoria semântica da evolução, 1987, Fragmentos
Fernando Belo, Le Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida, 2007, L’Hamarttan
Idem, Manifesto duma Fenomenologia sistemática e indeterminista, relativa e verdadeira, 19 de fevereiro de 2008, no blogue Filosofia mais ciências


“Portanto,
da guerra da natureza, da fome e da morte,
segue-se directamente a coisa mais admirável
que somos capazes de conceber, a saber:
a produção dos animais superiores”[2]
(última página de A origem das espécies)


1. Este “portanto” é conclusão lógica das quatro leis gerais da natureza (crescimento e reprodução, hereditariedade, variabilidade, multiplicação das espécies) enunciadas resumidamente: o texto conclui-se pela admiração do sábio perante o saber que acabou de expor. Ora, o que é extraordinário é que as palavras, ‘guerra’, ‘fome’ e ‘morte’, raras nas mais de 500 páginas do texto, apareçam inopinadamente aqui em torno da ‘natureza’, como se, na sua ênfase retórica, se tratasse da lição de todo o livro. Veremos que o é, de facto, mas que ela só é teoricamente legível após as descobertas bioquímicas dum século mais tarde sobre o metabolismo celular. Mas então, porque é que a biologia molecular ainda não a explicitou? O que é que ela parece não ter lido nesse tratado impressionante de conhecimentos científicos da época que é A origem das espécies? Poder-se-á suspeitar que a amplidão das descobertas da Bioquímica ocultaram o saber que vinha da Biologia de Darwin? Porventura, para esclarecer esta questão insólita, haverá que recorrer ao registo fenomenológico de leitura destes dois saberes que se partilham o conhecimento Bio, o conhecimento científico ocidental dos seres vivos.
2. Coloquemos o quadro da questão que vai ser discutida entre a biologia de Darwin em meados do século XIX e a bioquímica molecular da segunda metade do século XX. Ambas se ignoram mutuamente. Darwin, que não soube da genética de Mendel – quando esta foi descoberta por três artigos independentes entre si no ano 1900, abriu-se um período que terá sido de incompatibilidade entre as duas perspectivas, Darwin sendo desconsiderado durante algum tempo, até à síntese neo-darwiniana –, marca várias vezes a sua ignorância, dele e da sua época, em relação às causas das variações individuais[3]. Ora, esta ignorância tem uma vantagem, a sua abordagem pode ser comparada à maneira como a psicologia behaviorista [que não partilho] recusou ter em conta a “caixa negra” interior, o cerebral, e se dedicou apenas ao observável exteriormente como “comportamentos”. A sua visão global do domínio da evolução das espécies[4], justamente porque ignora a teoria da genética molecular e não tem que compor com ela, permite-lhe uma argumentação biológica com que qualquer proposta teórica em biologia tem que se confrontar.
3. A biologia molecular, como o adjectivo indica, é o esclarecimento teórico do metabolismo das moléculas das células dos seres vivos, que só foi possível devido às grandes melhorias de técnicas laboratoriais, o que implica que ela releva, antes de mais, da bioquímica, que teoricamente só num segundo tempo é que se torna ‘biologia’, a ciência tradicional herdada da zoologia (e da botânica) que se ocupou longamente de anatomia dos animais (e dos humanos a partir do Renascimento), esclarecendo essas anatomias que a bioquímica, enquanto disciplina laboratorial, ignora. O que significa que, a priori, a argumentação que esta disciplina molecular pode pretender em relação ao conhecimento da evolução dos seres vivos na terra, antes de se articular com o estudo das anatomias, ignora a argumentação de Darwin. É pois entre duas disciplinas metodologicamente distintas e com dois tipos de laboratório irredutíveis entre si – entre a argumentação biológica de Darwin (sem que eu tenha competência para saber como é que os biólogos de hoje lêem os seus imensos exemplos de investigadores da sua época) e a descrição bioquímica teórica actual –, que pretendo colocar um problema de lógica em torno da explicação da evolução. Com a presunção de que a articulação entre estas duas disciplinas da ciência dos vivos não está feita de forma (fenómeno-) logicamente aceitável e com todos os riscos inerentes às leituras dum amador, mas com a vantagem duma perspectiva que releva não apenas da fenomenologia, uma das melhores filosofias contemporâneas, como também da luz que esta permite sobre as grandes descobertas cientificas do século passado, incluindo a própria biologia molecular (de que dá conta o “manifesto” de Belo 2008).

A perspectiva biológica da evolução segundo Darwin
4. A exposição do longo argumento deste texto fulgurante dá-se pela sequência dos seus capítulos que vão introduzindo metodicamente cada ponto fulcral. O cap. I aborda a “variação das espécies no estado doméstico”, no que se trata, por assim dizer, do laboratório da ciência darwiniana da evolução, pois é onde testa as questões posteriores relativas às espécies em estado selvagem ou de natureza, como diz, por exemplo, para entender as grandes diferenças frequentes entre espécies do mesmo género: “como é meu costume, procurei entre as nossas produções domésticas, a explicação deste facto” (138, eu sublinho). O cap. II  vem então às espécies naturais, propondo a diferença entre variedade e espécie, na primeira podendo haver cruzamentos entre indivíduos de variedades diferentes da mesma espécie, enquanto que indivíduos de espécies diferentes do mesmo género já não se cruzam ou, se o fazem – como a mula –, os híbridos resultantes são estéreis (a que consagra o cap. IX). A sua tese é a de que “cada espécie existiu primeiro como variedade, sendo a variedade a origem da espécie” (84). A consequência dela é que bastará analisar a sequência variações individuais (dentro duma variedade) / variedades (dentro duma espécie) / nova espécie (resultante duma variedade) para se ter o quadro de toda a evolução, já que as famílias actuais foram géneros que foram espécies que resultaram de variedades de espécies anteriores: toda a árvore genealógica dos seres vivos (que ele diz sistematicamente “seres organizados”) passou por aquela sequência evolutiva elementar, se se pode dizer assim. A grande excepção é justamente a das variações do estado doméstico, do cap. I, em que só há mudanças dentro de variedades (raças), sem que os criadores de animais (ou de plantas) consigam seleccionar novas espécies.
5. Como “o único facto da existência de variabilidades individuais e de algumas variedades bem acentuadas [...] ajuda-nos muito pouco para compreender como se formam as espécies” (86), o cap. III introduz um factor dinâmico, “a luta pela existência, motivo como que ‘existencial’, que não é elaborado biologicamente (não podia ser, mas ainda hoje não é, quando já o poderia ser, lá iremos), que pode ser colocado por haver variações individuais mas só ganha sentido biológico teórico por estas serem de populações de muitos indivíduos, que permite introduzir um conceito de inspiração malthusiana de concorrência pela sobrevivência: “nascem mais indivíduos que os que podem viver” (89), em proporção geométrica nos casos de grandes multiplicações em boas condições de vida, donde a necessidade de destruição de indivíduos, jovens e velhos (89-92). Com um “corolário da mais alta importância, isto é, que a conformação [a anatomia] de cada ser organizado está em relação, nos pontos mais essenciais e algumas vezes contudo mais ocultos, com a [anatomia] de todos os seres organizados com os quais se encontra em concorrência para a sua alimentação e habitação, e com a [anatomia] de todos aqueles que lhe servem de presa ou contra os quais tem de defender-se” (101, eu sublinho).
6. Donde que o cap. IV possa chegar à teoria “da selecção natural ou da persistência do mais apto”, tal é o título desse capítulo que recapitula no final: dado que as condições da existência mudam, há diferenças individuais em quase todas as partes da estrutura de cada um, progressão geométrica do aumento dos indivíduos, portanto luta pela existência, dadas enfim as relações de todos os seres organizados entre eles e com as condições de existência, “seria deveras extraordinário que se não produzissem jamais variações úteis à prosperidade de cada indivíduo [na natureza], da mesma forma como [domesticamente] se produzem tantas variações úteis ao homem; [...] os indivíduos que disso são o objecto [dessas variações úteis] têm melhor probabilidade de vencer na luta pela existência; pois, em virtude do princípio tão poderoso da hereditariedade, estes indivíduos tendem a deixar os descendentes tendo o mesmo carácter que eles. Dei o nome de selecção natural a este princípio de conservação ou de persistência do mais apto” (158, sublinhei ‘princípio’), que antes definira como “a conservação das diferenças e das varições individuais variáveis e à eliminação das variações nocivas” (107). “Metáfora”, dirá, como em química “afinidade electiva” entre ácidos e bases ou em astrofísica “atracção ou gravitação como regendo o movimento dos planetas” (ibidem), como na selecção doméstica humana, que “não pode produzir nem impedir as variações; pode apenas conservar e acumular as que se lhe apresentam” (106), as que ‘acontecem’. Nem a selecção doméstica nem a natural são ‘mecanismos’[5], ao contrário do que hoje se diz habitualmente e como é claro do ‘ou’ do título do capítulo: trata-se de, polemicando contra o criacionismo dominante na sua época, sublinhar a lógica imanente (“princípio”, que sublinhei da p. 158, por vezes “lei”) do fenómeno biológico que é a evolução das espécies. Essa lógica é a da transformação de espécies que hoje se nos dão como ‘imutáveis’, pretendendo os criacionistas que cada uma foi criada directamente pela divindade ocidental. A metáfora implica que são ‘seleccionadas’ as variações de populações que se revelam vantajosas para a sobrevivência na concorrência, esta consistindo nomeadamente nos “meios de se nutrir e defender” (109, eu sublinho) das populações, sendo que, por via dessa concorrência, são destruídas as que ficarem em desvantagem. Darwin propôs um esquema desenhado (p. 20) extremamente elucidativo de como a lógica da selecção natural explica como numerosas espécies foram extintas no passado geológico. Tal como os criadores de gado e os agricultores ‘seleccionam’ qualidades que lhes são vantajosas sem intervirem a não ser – e é imenso – na garantia de alimento e protecção, justamente o que é a razão da “luta pela existência” na selva, também as “variações vantajosas” dos “mais aptos” seleccionaram tal variedade como espécie, a qual extinguiu as outras variedades (da mesma espécie) e a própria espécie, as populações com que concorreu. A ‘selecção’ escolhe e elimina (o que Darwin diz ser a sua “acção”), mas sem ‘treinador’, digamos: a metáfora não passa da constatação da lógica que explica que haja ‘vencedores e vencidos’; ela não é ‘nada’, nem sequer uma ‘causa’: pelo contrário, é um argumento contra um ‘Quem’ divino que não o substitui por nenhuma outra ‘causa’. Aduziu factos e considerações que “parecem provar que o cruzamento acidental entre indivíduos distintos, nos animais e nas plantas, constitui uma lei, senão universal, pelo menos muito geral na natureza” (129, eu sublinho). A figura filosófica que serviria para dizer esta lógica seria a do jogo, cujas regras são relativas a ‘acontecimentos’, imotivados por definição e indeterminados, em que há múltiplas incidências entre os seus actores. Teremos que ter esta não-causalidade em vista quando discutirmos o “dogma” bioquímico de Crick.
7. O ponto de partida lógico de Darwin é pois o de que há variações individuais, das quais as ‘vantajosas’ se transmitem por vezes hereditariamente, produzindo variedades dentro da mesma espécie, sendo que esta variabilidade é muito maior na experimentação doméstica do que nas espécies selvagens. Ela releva das “condições de vida” agirem directamente sobre o organismo ou algumas suas partes, duma maneira que depende dessas condições mas sobretudo da “natureza do organismo”, ou indirectamente sobre o sistema reprodutor (28-9), diz-se logo à partida. Mas as condições de vida na selva são não apenas as de ordem climática ou física, são sobretudo as que têm a ver com as relações entre organismos, nomeadamente nos animais o serem presas alimentares duns para os outros (citação da p. 109 no § anterior). E este é que é o ponto. A importância primordial das relações entre organismos na luta pela existência, enquanto factor de transformação individual que se reflecte nos numerosos indivíduos duma variedade, implica que estas sempre lentas aquisições se transmitam hereditariamente: ora, elas não são quaisquer, são variações vantajosas, vantagens que só têm sentido em relação a outras variedades sem elas. A quantidade de exemplos de Darwin – e é certo que não tenho a menor competência para saber como é que os biólogos actuais avaliam cada um desses exemplos[6] – é impressionante, quer os que relevam de experimentação doméstica, incluindo a sua com pombos e plantas, quer de convívio e leitura de outros naturalistas; percebe-se que há bastantes autores que estão perto de pensarem como ele, a sua originalidade tendo sido sem dúvida a amplidão erudita e o rigor da argumentação deste tratado, apoiada sempre em questões trabalhadas pelas duas comunidades, a dos práticos da criação doméstica e a dos investigadores, que obriga o leitor a ultrapassar a objecção subjectivista ‘tratar-se-ia da simples opinião dum naturalista não crente’. Ora, a genética bioquímica permite reformular estes exemplos com outro rigor em seus laboratórios, mas os limites destes implicam que, não sabendo o que se passa fora do laboratório, seja na selva seja na criação doméstica, visto que os animais vivos não são susceptíveis de análise laboratorial bioquímica, implicam que lhe falhe inteiramente a dimensão biológica essencial de A origem das espécies. Muito provavelmente sem que os biólogos / bioquímicos se dêem conta desta questão epistemológica, mas sentindo porventura que ela é gravosa não deixaram de se defender dela, nada mais nada menos do que com um “dogma”, coisa de espantar em cientistas[7].
8. Qual é o problema, digamos filosófico, que coloca a evolução, de plantas como animais e até de protozoários, mas aqui só me ocupo de animais? É o de os seres vivos crescerem alimentando-se e reproduzirem-se em seres do mesmo ‘tipo’: mudam dentro dum princípio de conservação, quer individual, quer hereditariamente. Mas esses ‘tipos’ multiplicam-se por muitos milhares que excluem cruzamentos entre indivíduos de ‘tipos’ diferentes, o que significa que o princípio de conservação foi muitas vezes permeável à inovação, mas depois recuperando-a através da conservação num novo ‘tipo’. Ao sublinhar por vezes a ignorância da sua época sobre a origem das variações individuais, Darwin deixou a porta aberta à biologia molecular que veio, me parece, acrescentar um argumento bioquímico à vasta argumentação biológica do mestre inglês: todas as células de todos os seres vivos são, com excepção da água, compostas de moléculas orgânicas (bioquímicas) com pelo menos átomos de carbono; ora, estes não existem, tais quais, no ambiente físico mineral, e que por isso, para crescerem e se conservarem, têm que se alimentar de outros seres vivos igualmente compostos de moléculas orgânicas com  átomos de carbono. Se se pretende um mecanismo universal para a evolução, o que a selecção natural não é, está aqui: o mecanismo da alimentação, a começar pela fotossíntese das plantas. Confesso que muito me admira nunca ter encontrado esta trivialidade biológica em nenhum dos textos de biologia que li (lista no final), sendo obviamente para o leigo fenomenólogo que é esse mecanismo (de conservação) que está no coração da “luta animal pela existência” na sua dupla vertente: caçar outros vivos, evitar ser caçado. E é a sua transformação a diferença primeira entre a criação doméstica e a selva: a agricultura e a pastorícia arrancam plantações e rebanhos a esta lei da selva, anulam (parcialmente) a sua “luta pela existência”. Mas como isso permite, segundo Darwin, uma mais intensa variabilidade dos animais domésticos em relação aos selvagens donde derivam, isto é, como continuam a ter variações com vantagens, para eles ou para os seus criadores, o debate entre as duas argumentações, biológica e bioquímica, põe-se igualmente relativamente às aquisições domésticas de caracteres, como diz Darwin, de possibilidades hereditárias (que não as que resultam de treino, por exemplo, de galgos ou cavalos de corrida).

A perspectiva bioquímica da evolução segundo M. Barbieri
9. O maior elogio que um filósofo pode fazer da Biologia molecular é que ela esclareceu não apenas o que Darwin várias vezes confessa que lhe escapa, as leis que permitem as variações vantajosas do seu ponto de partida, como iluminou de forma laboratorial – de transformações bioquímicas devidamente medidas – o maior mistério que os humanos sempre tiveram, a crer nos seus mitos, que sempre consideraram a fecundidade como a coisa dos deuses, a ‘bênção’ nos termos dos profetas bíblicos; a phusis como espanto de Aristóteles, cuja teoria da ousia (substância-essência) quádrupla explicou o movimento por si mesmos dos seres vivos para os vinte séculos posteriores, vida que só com a biologia molecular foi enfim esclarecida: como se reproduzem as células, como se reproduzem os organismos. 
10. Darwin logo no início diz que a acção directa das condições de vida se exercem “sobre o organismo inteiro, ou sobre certas partes somente” (p. 28). Sucede que a esmagadora maioria dos seus exemplos incidem sobre patas, asas, bicos, olhos e equivalentes, ou seja sobre elementos do sistema de mobilidade, essencial para caçar presas e para fugir de o ser, sistema que hoje se sabe ser pulsionado internamente por hormonas, como a da fome ou da sede e regulado pelo cérebro que faz a ligação entre a parte perceptiva do sistema e a sua parte muscular que age nos membros. Quanto ao sistema nutricional propriamente dito, boca, digestivo, circulatório, respiratório, regulado igualmente pelo cérebro que vigia sobre a homeostasia do sangue, está estruturalmente dependente de que o da mobilidade, de que a boca em geral também faz parte com os seus dentes ou bico, lhe traga a presa, planta ou animal que será digerida em ordem a passar ao sangue as moléculas orgânicas com carbono que, com o oxigénio, serão levadas a todas as células. O metabolismo destas varia consoante a sua especialização histológica, o seu tecido, haverá pois que fazer com o material recebido, igual para todas as especialidades, fazer as sínteses de proteínas adaptadas à estrutura da célula. Uma série de moléculas de ácido-ribonucleico (ARN) é encarregada de o fazer, partindo o chamado ‘mensageiro’ duma outra série de moléculas de ácido-desoxyribonucleico (ADN), que está conservado no núcleo donde não sai, apenas enviando os tais mensageiros, que se degradam quimicamente após terem sido utilizados. Está aqui o segredo bioquímico da vida, do princípio de conservação e da mobilidade incessante, do crescimento nomeadamente: é o ponto do nosso debate. Qual é a função biológica do ADN, porque é que ele está retirado estritamente no núcleo de cada célula? Pode-se dizer que do embrião até ao adulto há como que uma ‘evoluçãozinha’ em que o ovo se vai repartindo em células que se repartem, etc., até se tornarem nas células especializadas do adulto. Além de coisas que eu não sei de embriologia, que o ADN seja sempre o mesmo em todas as células é a garantia da conservação do conjunto do organismo, mas que só é possível se, à medida da especialização celular, houver zonas diferentes dele que, ‘abertas’, sejam adequadas às respectivas sínteses de proteínas. O que significa que a sua função é exclusivamente a de regular o metabolismo da sua célula, sendo rigorosamente cego, tal como as hormonas endócrinas, como o nome indica[8], para a cena ecológica em que o animal se encontra e busca caçar e defender-se. Uma maneira de dizer a lógica da evolução animal do ponto de vista do ADN das primeiras eucariotes, é dizer que se foram encontrando muitas diferentes formas de ‘ganharem corpo’, anatomias com órgãos de faro, visão, audição, tacto, membros ósseos e musculares e a respectiva regulação neuronal para conseguirem melhores ‘vantagens’ na captação de moléculas orgânicas. Acima do nível celular, é o conjunto de todos os órgãos da anatomia com as respectivas células que prossegue as tarefas de nutrição de todas e cada uma destas. Donde que a ‘cegueira’ biológica do ADN, cada um em sua célula, seja incompatível com a argumentação biológica de Darwin, cuja ignorância confessada das leis das variações não impede o alcance biológico da sua argumentação: são dois mundos de conhecimento diferentes (como o da Acústica das frequências eléctricas da audição duma fala e o da Linguística das letras, sílabas e palavras dela). Então como é que a questão se põe? As variações hereditárias de Darwin implicam, como condição da conservação delas, que haja o que os bioquímicos chamam mutação do ADN no que diz respeito às células atinentes ao(s) órgão(s) em que há variação. O problema é o do como surge essa mutação: a sua cegueira e o seu carácter intracelular tornam difícil de pensar, face à demonstração darwiniana, que seja o ADN a origem da mutação. Mas não será fácil de procurar uma alternativa, ainda por cima quando não se é biólogo. Ajuda todavia ter lido o belo livro dum grande biólogo-bioquímico italiano, Marcello Barbieri.
11. A sua grande inovação é uma nova teoria da bioquímica da célula, criticando a dualidade ADN (genótipo) / proteínas (fenótipo), por implicar a redução das moléculas ribonucleicas (ARN) do citoplasma a ‘instrumentos’ dessa dualidade e propondo uma tríade ADN / ARN[9] / proteínas ou genótipo / ribótipo / fenótipo. Chamou ribosóide aos vários ácidoribonucleicos (ATP, nucleótidos, transferências, mensageiros e ribossomas) que jogam na química celular e ribótipo ao sistema formado por todos os ribosóides da célula (Barbieri, p. 113), vindo a mostrar – depois de restituir a sua evolução pré-celular de que resultaram, além dos diversos ribosóides, também os genes e as proteínas, os ARN antes do ADN![10] – como o ribótipo é “o centro organizador da célula” (137), o seu “cérebro" (165). O que ele nos oferece assim pode ser dito, em vez duma carta dos elementos da célula reflectindo a experimentação laboratorial, é uma como que ‘anatomia bioquímica’ do seu funcionamento integrado, incluindo um mecanismo de auto-reparação, digamos, que faz a síntese de proteínas da própria célula que necessitam de ser substituídas, mecanismo regulador que joga entre as necessidades da célula e os aminoácidos digestivos que o sangue lhe traz, em termos pois de resposta aos ‘acontecimentos aleatórios’ que são o estado de saúde da célula por um lado e os produtos da procura de alimentação na cena ecológica, por outro. Desse mecanismo deve-se destacar o ATP (trifosfato de adenosina), reserva energética que movimenta o próprio mecanismo, como se fosse o seu ‘motor’, que tem características que o distinguem de todo o resto do ribótipo: por um lado, é um universal de todas as células que joga tal e qual, repetitivamente, qualquer que seja a bioquímica da regulação a que fornece energia, por outro, no que diz respeito aos animais, alimentado também pelo sangue mas a partir duma fonte diversa da dos aminoácidos, a respiração de oxigénio.
12. A proposta de Barbieri tem um significado extremamente importante, decisivo nomeadamente para a critica do “dogma” de Crick. Embora caso por caso, na experimentação bioquímica, haja (provavelmente) relações de causa / efeito, como é timbre da análise científica, de Aristóteles a Newton, a proposta de Barbieri parece implicar que cada processo de síntese duma proteína tenha uma dimensão ‘aleatória’, que é a dos acontecimentos: acontece algo que é possível acontecer, mas ‘sem necessidade’ em termos do conjunto temporal de sínteses proteicas do metabolismo, que acontecem quando acontecem, caso por caso, ao contrário do que parece ser o caso do ATP, que se repetirá sempre, quiçá em todo o tipo de células. Se bem percebi, o ADN, ou melhor os seus nucleótidos (70-1), também farão parte do mecanismo central, mas tendo um duplo papel claramente distinto. Podem-se dar exemplos análogos do seu papel em relação ao metabolismo: o do plano do arquitecto dum edifício a construir, o duma receita que permite cozinhar um prato mais ou menos complexo. Em ambos os casos, trata-se de ‘pro-gramas’ de obras que se distinguem delas mas sem a relação estrita aos quais elas não seriam executadas. Não foi por acaso que os biólogos escolheram letras para designar os nucleótidos e o termo programa genético para dizer o papel do ADN: ‘-grama’ significa ‘escrita’, ‘pro-‘ diz o carácter prévio dela em relação à obra. Mas tiveram que lhe acrescentar um outro mecanismo, variável segundo as situações bioquímicas, dito expressão dos genes, que tem que designar o gene que é indicado para a situação de síntese proteica que se apresenta a pedir solução ribotípica, isto é, designa o desencadeamento do processo de transcrição do ARNm. Mas também a teoria unificada de Barbieri permite entender melhor a possibilidade de várias transcrições inversas, documentadas experimentalmente, “produção de ADN sobre um molde de ARN” (p. 82). Pensa o leigo que poderá dizer-se que esse pedaço de ADN inédito será um exemplo de ‘mutação genética’. O outro papel do ADN será porventura o mais autónomo em relação ao ribótipo, é o da reprodução celular efectuada por via da dupla hélice descoberta por Crick, Watson e Rosalind Franklin, em que se inscreve nomeadamente a hereditariedade, ainda que as células sejam especializadas e em cada tipo de tecido o ADN ‘aberto’ às transcrições a fazer seja diferente.
13. Vamos então à critica do “dogma central da biologia molecular” (também sublinhada pelo célebre matemático René Thom, no curto mas entusiasta prefácio à versão francesa), assim definido por Crick, que, como qualquer dogma, serve para evitar a priori ‘heresias’ como esta de Barbieri; em última análise porventura, é uma ortodoxia para eliminar qualquer hipótese de repetir o ‘erro’ de Lamarck, mas sobretudo de Darwin, ao admitirem a hereditariedade dos adquiridos: creio que só é ‘dogma’ por reflectir na teoria a experimentação bioquímica[11] em termos lineares de causa / efeito, atribuindo à grande complexidade química do metabolismo celular o determinismo que para muitos (todos os?) cientistas é a caução epistemológica decisiva do que praticam como ‘ciência’. Em última análise, é da argumentação biológica de Darwin que o dogma se defende, como quem interdita para sempre as tentações bioquímicas de afrontar os argumentos e os exemplos de Darwin, o que parece aliás ter conseguido: o próprio Barbieri nem sequer imagina sair da bioquímica para discutir a evolução, não só recusa também a hereditariedade dos adquiridos[12], como nem imagina que haja uma argumentação biológica além da célula. Donde talvez que termine pondo a questão do como da passagem dos unicelulares eucariotas aos organismos que se revelam na explosão de fósseis do Câmbrico: “o último grande evento do pré-câmbrico – a origem da multicelularidade – consiste num problema para o qual não dispomos de qualquer solução” (p. 145). Chegou a um impasse que pode ser dito assim: um século e meio depois de Darwin, com novos e poderosos meios de análise, os bioquímicos não sabem como explicar a ‘origem das espécies’!
14. Perto do final do seu capítulo de introdução sobre “a ideia de evolução”, Barbieri escrevera: “o que podemos confirmar com segurança é que o ponto de referência a partir do qual encaramos o mistério [da origem das espécies] se modificou radicalmente, em relação aos tempos de Darwin. Este partiu da hipótese de que existiam variedades intermédias entre as espécies e chegou à conclusão de que todos os organismos são aparentados entre si. Actualmente, não temos de facto qualquer certeza quanto à existência de variedades intermédias, mas já não restam dúvidas sobre a comunhão biológica dos seres vivos. A unidade da vida tem um sólido fundamento bioquímico na universalidade do código genético e no facto de todas as células usarem ATP [...] e terem em comum um grande número de reacções simbólicas” (34). Este final sobre a “unidade da vida” na perspectiva bioquímica é bonito, mas a citação deixa algo muito claro: Darwin argumentou sobre “organismos” e seu parentesco na cena ecológica da luta pela existência, Barbieri argumenta sobre células, genes e metabolismo no laboratório bioquímico. Só o que não é claro é que o bioquímico não esclareça que esta diferença também faz parte da “modificação radical”, isto é, que Darwin e ele não falam da mesma coisa ao falarem da “ideia de evolução”.

A questão de lógica entre as duas perspectivas
 15. Com efeito, trata-se justamente da questão da articulação entre bioquímica e biologia, entre Barbieri e Darwin. Que tão lúcido critico da biologia molecular não se dê conta de que a dificuldade é de outra ordem do que continuar simplesmente a investigação, significa que se trata dum impasse da ordem do paradigma bioquímico, aquele que foi instaurado pela revolução que representou essa mesma biologia molecular: foi esse paradigma que estruturou Barbieri como biólogo. Como explicou Kuhn, o paradigma aprendido diz os puzzles a resolver e o que fazer para isso, condicionando a visão a esses puzzles, isto é, sem deixar ver para além do paradigma. É o que me permite o que representa uma audácia para os biólogos, sem dúvida, mas que se justifica muito simplesmente por me ter apercebido de que, quando peguei nestas questões no início da redacção de Le Jeu des Sciences, avancei pela dificuldade espontaneamente sem dar por ela, apenas por ter a vantagem de não pertencer ao paradigma, de não ser nem biólogo nem bioquímico. Se se disser que o coração deste é a célula e o da biologia darwiniana é a anatomia animal, a questão da evolução terá que implicar uma descrição que as inclua a ambas e as articule na cena ecológica, sem passar imediatamente dos genes ao organismo e suas funções; é o que tentarei fazer nos meus limites paradigmáticos, fenomenológicos, sabendo que, aqui e ali, tive que deduzir algumas coisas importantes que nunca vi tratadas por quem de direito. Como se depreende dos livros dos bioquímicos ou biólogos moleculares que li, incluindo Barbieri, há sempre já metabolismo no citoplasma de cada célula acabada de ser reproduzida, parte-se sempre de células que há, não se encontra nunca um qualquer ‘fabrico de todas as moléculas duma célula’: a produção de proteínas será apenas reparação, substituição das deficientes, creio que devido à usura da vida, provavelmente à fragilidade intrínseca das ligações internas de moléculas orgânicas extremamente complexas, quando comparadas com as moléculas minerais da Química de Lavoisier. Ora, isso é feito segundo a grande diversidade dos cerca de 200 tecidos da anatomia dos vertebrados, essa diversidade que Barbieri não sabe explicar bioquimicamente.
16. A questão a pôr é a seguinte: o que fazem esses órgãos diversificados que compõem a anatomia dum mamífero, por exemplo, porque é que a evolução os seleccionou? a resposta é biológico-quimicamente simples: o conjunto deve prover à alimentação de todas e cada uma das células especializadas, como se a anatomia resultasse dum ‘contrato  orgânico’ entre todos os tecidos e suas células, especializando-se elas em ordem a conseguirem alimentar-se todas de maneira muito mais eficaz do que mantendo-se unicelulares[14]. Como se disse no § 9, além do sistema de reprodução sexual e da ossatura do esqueleto, pode-se pretender que na anatomia dum mamífero há dois sistemas diferentes com funções complementares: o nutritivo, aquele que tem a ver com a nutrição que se destina a levar aminoácidos a todas e cada uma das células (boca, digestivo, respiratório, circulatório e por aí fora) e o da mobilidade, aquele que se ocupa de trazer à boca o que dará origem a essa digestão (órgãos perceptivos, cérebro, músculos dos membros, boca), o cérebro sendo um regulador comum a ambos que os articula, por um lado atento à homeostasia do sangue, por outro pulsionando a (aprender a) caçar ou a comer ervas na cena ecológica. Ora bem, é esta anatomia com imensas variações consoante as espécies que é, digamos, o ‘sujeito portador’ da famosa “luta pela existência” de Darwin e que os bioquímicos ‘dispensam’ de qualquer função na evolução, se esta ficar entregue apenas ao efeito de “mutações” genéticas.
17. É onde se põe a questão de lógica anunciada, no frente a frente entre duas demonstrações, uma biológica, a outra bioquímica. Releia-se o “corolário” de Darwin no final do § 5 sobre a “relação” entre as “conformações”, as anatomias dos diversos animais da mesma cena ecológica: é nas alianças e lutas entre eles que A origem das espécies demonstra que está o que explica que, apesar do inexorável princípio de conservação dos vivos e das espécies, haja todavia variações vantajosas e evolução. O que é rigorosamente ilógico é pensar que essas variações, inovadoras porque com adequação na ordem dos fenómenos que é a da evolução, sejam resultado ou efeito de mutações cegas do ADN celular. Por exemplo frequente em Darwin, que haja insectos ‘especializados’ no suco de certas flores, por efeito de mutações nas células de uns e das outras que ‘acertam’ umas nas outras sem que se saiba como. Eu é que não os sei ler ou haverá gente de ciência que subscreve esta doutrina, recorra ao dogmatismo – sublinhando sem dar por isso a falta de lógica –, em vez de ter a posição que se espera de gente de razão, que seria a de estabelecer que existe relação entre alterações genéticas e alterações anatómicas, como? não sabemos ainda!
18. Darwin demonstrou que as diferenças entre anatomias animais de espécies ou variedades diferentes resultam de variações vantajosas para o que chamou “luta pela existência” (e que as dificuldades em encontrar espécies intermediárias se explicam pelas contingências dessas mesmas lutas); sem conhecer a bioquímica posterior, não soube explicar porque é que há variações e porque é que se tornam hereditárias, limitou-se a constatá-las na experimentação com animais e plantas. A bioquímica, por sua vez, argumentou que nenhuma variação celular, implicando novas proteínas – ou “usar proteínas velhas para fins novos”, segundo alguns autores citados por Barbieri – (86), pode ser transmitida hereditariamente sem uma alteração genética correspondente. A exigência de mutações genéticas visa garantir a hereditariedade, o problema lógico reside na sua ‘cegueira’, que o próprio Barbieri confirma, “o facto de as mutações genéticas ferirem às cegas” (154). Mas também cita R. Dawkins, que contradiz, segundo o qual “o ADN encontra-se hoje firmemente no posto de comando” (138): segundo o dogma, o gene comanda ARNm e este sintetiza uma proteína consoante esse gene. Ora bem, esta tese contém duas posições herdadas da filosofia ocidental e que vêm de Platão e de Aristóteles e fazem parte do pensamento de todos os que frequentaram os liceus modernos, impregna todo o tipo de paradigmas disciplinares, mormente científicos e filosóficos. A primeira consiste numa noção linear de causa e efeito e é um elemento estrutural da experimentação nos laboratórios científicos clássicos e por certo nos da bioquímica. Colocar a organização do metabolismo celular no ribótipo, terá sido uma maneira de Barbieri substituir esta ‘linearidade causal’ entre ADN e ARN, privilegiar os ribossomas em detrimento do ‘mensageiro’, o jogo plural deles, se dizer se pode, que me parece permitir ter em conta outras relações relativas ao ADN, mormente as transcrições inversas e as expressões dos genes, sem todavia afectar a necessidade da relação entre cada gene e a sua proteína. Digamos que o ribótipo obedece a uma ‘lógica de acontecimentos’ (§§ 6, 11). A segunda, sem dúvida mais difícil de ser detectada, foi uma das descobertas decisivas da gramatologia de Derrida, a do logocentrismo: consiste  na evidência que todos temos da prioridade do nosso ‘interior’ – os nossos pensamentos, emoções, memórias, segredos – sobre o ‘exterior’ que nos rodeia e a que chamamos ‘ambiente’. Ora, esse mundo interior, que é precioso a cada um de nós, foi-se estruturando a partir de aprendizagens de usos sociais desse ‘ambiente’, nomeadamente a língua da nossa tribo: sendo em nós ‘activo’, em ‘eu’, esse interior começou por ser recebido ‘passivamente’ do exterior, que no-lo deu de maneira a ser em nós ‘activo’: as regras recebidas de outros – heteronomia – foram recebidas como regras nossas – autonomia – porque esses outros se retiraram (como uma mamífera se retira progressivamente do filho que dá à luz em ordem a que se torne adulto). Pressuposto deste logocentrismo é o substancialismo filosófico herdado de Aristóteles que Heidegger questionou[15], que no paradigma biológico propõe o primado sobre a cena ecológica, quer do organismo na biologia de Darwin, quer da célula na bioquímica de Crick, Watson, Jacob e Monod: o dentro prévio ao fora. Ora, a bioquímica demonstrou que nenhuma célula se constitui por ‘geração espontânea’, mas a partir de outras células sempre alimentadas de fora, a partir da cena ecológica. Aplicando esta lógica desconstrutiva à evolução: haverá que buscar uma relação entre as “variações” devidas à “luta pela sobrevivência” darwiniana e as mutações genéticas, de forma a que estas possam ser tanto causa das outras como seu efeito, como correlação que se construa na lentidão das modificações em que Darwin insiste frequentemente. Tratando-se igualmente de alterações – alteração genética e alteração anatómica na cena –, têm que ser acordadas uma à outra, sem que o fenomenólogo possa dizer o ‘como’ desse acordo.
19. Releia-se o “corolário” darwiniano (§ 5) e o resumo da definição de “selecção natural” (§ 6), “os meios de se nutrir e defender” (ibidem). ‘Alteração anatómica na cena’ significa que não se pode pensar o ‘organismo’ separado da ‘cena ecológica’ (do dito ambiente): desde o ovo que qualquer animal é um ser dado pela e na cena ecológica segundo regras que esta dá (as da espécie), que só se pode desenvolver, passar a duas células, depois quatro, etc., só pode crescer recebendo moléculas orgânicas de carbono e outros átomos, que permitam que as suas células sejam capazes de funcionarem nas suas especialidades de tecidos / órgãos, de maneira a colaborarem com todas as outras para serem capazes de buscar moléculas orgânicas de carbono, água e oxigénio, que permitam que as suas células sejam capazes de funcionarem nas suas especialidades de tecidos / órgãos, de maneira a colaborarem com todas as outras para... e assim sucessivamente, repetitivamente do ponto de vista orgânico, segundo um ‘ciclo homeostático’ análogo ao ‘ciclo hermenêutico’ de Heidegger, mas sempre devendo aleatoriamente encontrar presas na cena ecológica e fugir de ser presa, segundo capacidades do sistema de mobilidade aprendidas para funcionar numa cena aleatória por estrutura. Como foi dito, pode-se verificar que a esmagadora maioria dos exemplos de Darwin com animais se referem a modificações surgidas justamente no sistema da mobilidade, membros de locomoção sobretudo, mas também órgãos perceptivos, o que obrigaria os bioquímicos que dêem por ela a localizar as tais mutações nas células dos órgãos desse sistema. Que as ciências ‘bio’ pensam o organismo separado, exterior, à cena ecológica que o dá, é atestado pelo motivo central da respectiva teoria da evolução, a saber o de “adaptação”, Darwin ao “ambiente”, Barbieri aos “ciclos naturais”. E no entanto, cada um à sua maneira, apercebeu-se de que havia ali um problema: o biólogo implicitamente, insistindo em que as “condições de existência”, além do clima, solo, e outras realidades “físicas”, são sobretudo os outros organismos com quem estão em relação, nomeando ele sobretudo os concorrentes (§ 5), o bioquímico sublinhando a pertença dos organismos ao nicho ecológico (151) para criticar a “adaptação ao ambiente” de Darwin e a substituir pela adaptação aos “ciclos naturais (do oxigénio, do carbono, do azoto, do fósforo, etc.)” (44), mas ‘separando’ aqui estes dos organismos que têm que se adaptar a eles. Só que Barbieri, indo no bom sentido bioquímico de sair da célula para a cena ecológica, limitou-se a mencionar os ciclos e não parece ter-se apercebido da importância primordial do ciclo do carbono a partir da fotossíntese e implicando a necessidade de animais se alimentarem através de outros vivos, o que chamei a lei da selva (§ 8). Ou seja, também aqui não tem sentido falar em ‘adaptação’ (tornar-se apto para): todo e qualquer animal (e planta) pertence sempre já ao ciclo do carbono, este só existe enquanto ‘ciclo’ por haver plantas e animais, não lhes é prévio (nem sequer aliás a própria cena ecológica).
20. O que Heidegger propôs para definição dos humanos, serem “seres no mundo”, dá aqui para, indo mais longe do que ele, dizer que os animais também são seres no mundo, na cena ecológica[16]. Ora, a ignorância da genética por Darwin permite que a sua argumentação, que justamente só joga nesta cena, tenha a amplidão necessária que a valida na perspectiva fenomenológica, é adequada a seres no mundo (embora não seja essa a filosofia dele), enquanto que o dogma de Crick, por sua vez, sublinha que o princípio essencial da vida, o da conservação das células, é anti-evolutivo, garantido pelo retiro do ADN no núcleo de cada célula, pela sua ‘cegueira’. Mas é a este princípio que se opõe uma espécie de contraponto existencial, “a luta pela existência”, que resulta justamente de os animais serem seres no mundo: terem que procurar encontrar na cena recursos para obviar à fragilidade das suas complexas células de carbono, azoto, fósforo, etc., que provavelmente estão sujeitas a desfazerem-se em moléculas menos complexas, ao contrário da perenidade das moléculas inorgânicas da terra, rochas, mares e ares, sujeitas apenas às diferenças de pressão e temperatura, transformações químicas, erosão… Sendo assim, a lógica desconstruída desta questão torna-se óbvia quando se juntam as duas pontas da cadeia: em terminologia parcialmente heideggriana, é a lei da cena ecológica que faz doação de todas as espécies animais, determinando as respectivas anatomias como mecanismos de alimentação bioquímica de todas as suas células; mas faz doação, retirando-se, deixando-as autónomas, como é ilustrado por dois factos: por um lado, as anatomias são imensamente diversas – é o que encantou Darwin – e por outro elas têm que “lutar pela existência”, o que lhes é doado (‘passivo’) tem que ser buscado (‘activo’) com o que isso implica de aprendizagem, muito variável com a complexidade das espécies. Ora, se a lei da selva determina as anatomias biológicas como feitas e seleccionadas para ‘resolver’ a bioquímica das células, e se os órgãos dessa anatomia são feitos bioquimicamente de células, então o acordo entre as duas perspectivas tem que ser fenomenologicamente possível, com paradoxos porventura, mas sem dogmas.

Uma perspectiva fenomenológica da evolução
21. Mas então, em vez de termos os genes a ‘inventarem’ a anatomia de cada espécie, temos uma ‘lei’ imanente ao fenómeno chamado vida que, do ponto de vista da animalidade chamo lei da selva, que na imensa refrega das espécies as foi inventando temporalmente, tanto as anatomias como os respectivos genes celulares e ribótipos (que são parte delas). Estes são dinâmicos, pertence-lhes a iniciativa celular e por aí dos tecidos e órgãos, com um segundo nível organizador, o sistema neuronal. O que sugere que ao nível celular, o genoma é o guardião da conservação e para haver evolução de tal aspecto dum órgão (ou mais), ela jogar-se-á celularmente no complexo ribótipo que encontrará maneira de alterar o que for necessário do genoma para garantir a sua reprodução hereditária. Uma proteína nova ou funções novas para velhas proteínas, sugeriram vários autores: em ambos os casos, haverá alteração genética[17].
22. Os animais são estruturados de forma complexa, com vários níveis articulados de maneira a, por um lado, ser garantida a conservação da estrutura, sabendo-se, por exemplo, que os ossos humanos renovam completamente as suas células de seis em seis meses (prazo de recuperação de fracturas) e, por outro, a permitir a agilidade dinâmica que possibilite a caça de presas e a protecção e defesa de outros mais fortes ou astutos. A anatomia tem por isso que ser indeterminada, mesmo nos invertebrados, nomeadamente os artrópodos, o grau de indeterminação crescendo com a complexidade, como atesta a inovação mais importante entre os vertebrados, a transição do sangue frio (temperatura do ambiente) para o sangue regulado homeostaticamente e a correlativa modificação do cérebro que ganhou um novo córtex, mais adequado para as aprendizagens de aves e mamíferos (com alguns répteis), sempre articulado com o herdado dos peixes (só há um cérebro, que é duplo), o chamado límbico, que é deixado à sua especialização de secreção hormonal e regulação homeostática do sangue. A dificuldade é que a fenomenologia geral que eu pratico tem uma lógica que articula vários níveis de acontecimentos, que nos são conhecidos através de fragmentos de causa / efeito descobertos pela condição de determinação própria do laboratório que são a compor teoricamente – extra laboratorialmente – como acontecimentos indeterminados, segundo uma lógica de jogo (§ 6). Poderão ser introduzidos num laboratório bioquímico os animais que crescem de tamanho devido à melhor alimentação que recebem dos seus criadores (Darwin, p. 29)?
23. Eis como descrever os vários níveis da estrutura, inspirando-me no motivo fenomenológico de duplo laço[18], que não explicito para não complicar, mas que tem a pretensão de substituir o motivo da ‘adaptação’. Uma vez que, segundo Darwin, as alterações dão-se na cena geral onde os animais se disputam as alimentações, comecemos por ela. Suponhamos-lhe uma qualquer alteração estrutural que os afecte e seja uma população de leões que, sujeitos à lei da selva na sua luta pela existência – luta de vida ou de morte –, são estimulados no seu sistema de mobilidade a um esforço suplementar ao que lhes é habitual. Como se depreende dos treinos domésticos (mas estes a nível individual), é possível que essa população vá ganhando algumas ligeiras alterações de tal ou tais órgãos desse sistema, perceptivo ou muscular, além das inscrições neuronais devidas à aprendizagem[19]. Nesse primeiro nível de acontecimentos em que eles atacam gazelas, trata-se assim de alterações, que podem intensificar-se num prazo mais dilatado, as quais, segundo nível de acontecimentos, o da digestão, se dão nos vários tecidos desses órgãos, nas suas células, implicando que as moléculas que lhes chegam pelo sangue, aminoácidos, água, oxigénio, sejam recebidas no terceiro nível de acontecimentos, celular, pelo ribótipo como ‘acontecimento inesperado’, fora da rotina do metabolismo, fora nomeadamente do alcance de genes e da sua capacidade de transcrição. É aqui que o motivo de Barbieri, o do ribótipo como “organizador da célula” (§ 10), poderá ser útil, sem que se possa saber como[20] se enlaçam entre si os três níveis de acontecimentos. Mas que biólogos ou bioquímicos não se ofusquem com a minha ousadia. Basta-me que os bioquímicos dêem importância à anatomia, releiam A origem das espécies.
24. Resumindo. As células fazem tudo o que têm que fazer na sua especialidade para serem alimentadas, esta alimentação permitindo-lhes por sua vez fazer tudo o que têm que fazer na sua especialidade para serem alimentadas, e assim de seguida, sem que possamos decidir entre ‘fazer’ e ‘ser alimentado’, entre o activo e o passivo. É esta indecidibilidade, o que se pode chamar o círculo homeostático (como Heidegger fala do círculo hermenêutico”), que será o que torna teoricamente tão difícil a lógica da origem da vida e da evolução. O conjunto duma célula em meio molecular orgânico teve que se instituir como tal, donde o círculo ser indecidível, foi onde Crick decidiu por razões filosóficas de interpretação bioquímica. A tese essencial a reter aqui é a da determinação de todas as anatomias (genes incluídos, claro) de todo o tipo de espécies pela lei da selva, segundo a lógica da cena e o ciclo natural do carbono. Determinação de todas as anatomias, tão diferentes entre si, põe em questão o determinismo cientista, fenómeno fenomenolgicamente equivalente ao das tão diferentes sociedades humanas[23] e o das suas tão diferentes línguas. É que tal ‘determinação’, o que ela determina é a doação[24] das cenas ecológicas : espécies diferentes em suas regras, em suas heteronomias que se revelam em cada indivíduo como autonomias, como indeterminação, nos humanos multiplicada antropológica e linguisticamente como enigma de cada indivíduo, a que chamamos liberdade.

A cruel origem da espécie humana
25. Termino relendo a exergue de Darwin, que se refere justamente à “guerra da natureza” que se joga em termos de “fome e morte”, implicitando que esteve muito perto de descobrir a lei da selva, que lhe daria mais um argumento contra os criacionistas: como podia esta lei terrível ser obra dum Deus bom? O grande biólogo extasia-se como desta crueldade enorme da vida animal surgiu “directamente a coisa mais admirável que somos capazes de conceber, a saber: a produção dos animais superiores”, ou seja, como foi cruel a origem dos humanos. Se continuasse a especular, chegaria a apresentar a sua obra como a solução biológica a um dos problemas metafísicos que foram mais discutidos pelos pensadores ocidentais, o da origem do mal. Este vem desta lei da selva que os humanos herdámos como força muscular e astúcia para uma luta de vida e de morte, transformada na lei da guerra, desde todas as rivalidades no seio das famílias, que ilustravam aos olhos de Aristóteles as tragédias gregas, passando pelas classes nobres das sociedades históricas serem as dos guerreiros e as das sociedades desenvolvidas a dos capitalistas, que agora se assumiram como especuladores financeiros.

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[1] Utilizei a edição francesa de Edmond Barbier de 1876 (ed. Reinwald), herdada do meu avô, mas dou a paginação das citações duma edição portuguesa que retoma a versão de Joaquim Dá Mesquita Paúl, da Lello de 1909, feita aliás sobre a versão francesa que eu utilizo.
[2] Thus, from the war of nature, from famine and death, the most exalted objet we are capable of conceive, namely, the production of the higher animals, directly follows
[3] “As leis diversas, absolutamente ignoradas ou imperfeitamente compreendidas, que regem a variação, têm efeitos extremamente complexos” (Darwin, p. 33); “muitas leis desconhecidas, de que a correlação de crescimento é provavelmente a mais importante, regulam a variabilidade” (62); “a nossa ignorância absoluta sobre as causas de cada variação particular” (164).
[4] Sem que se possa dizer que ele viu os animais como “seres no mundo”, como também não a biologia contemporânea – por exemplo a oposição (ontoteológica) entre “organismo” e “ambiente”, a alimentação relevando deste –, a sua argumentação é, me parece, em grande parte compatível com este motivo fenomenológico. 
[5] Esta palavra tem a ver com máquina, que consiste numa composição de peças ou elementos diversos e numa fonte energética, que opera certo tipo de efeitos fora dela; esta definição breve também dá para os organismos biológicos propriamente ditos, aqueles que têm órgãos especializados concorrendo para a sua alimenta­ção, buscada fora deles. Não se percebe como é que a selecção natural pode corresponder a esta definição, já que o que ela ‘selecciona’ é o que já lá está, ela não tem elementos e fonte energética que lhe permitam ‘operar’ como um mecanismo.
[6] Ele acha que os cães domésticos relevam de várias espécies (38), um artigo do Público (19/07/2017) contava como investigações genéticas recentes vão no sentido de apenas uma ou duas origens.
[7] Dizia-me um dia um cientista não biólogo que ‘ciência quer dizer curiosidade’.
[8] A hormona que me faz saber que tenho fome, não me diz o que comer, tenho que procurar.
[9] Ribossoma, não o mensageiro que é uma pequena parcela do ribótipo (113).
[10] “A vida, à superfície da Terra, é oriunda dos antepassados dos ribótipos” (113).
[11] Crick teve que aceitar em todo o caso a transcrição inversa, revendo um tanto o dogma (82).
[12] Mas porque “veio a provar-se incompatível com muitas experiências do campo da genética” (20); a minha dúvida é a de saber se o laboratório bioquímico tem alcance sobre a argumentação de Darwin, sobre as relações entre anatomias.
[14] Um tal ‘altruísmo’ é o contrário do “gene egoísta” (egoístas são os cancros, que rompem o contrato com as outras células), que só pôde ser pensado por um puro bioquímico que não soubesse nada de biologia, contraprova fenomenológica da cegueira paradigmática, correlativa, é caso para dizer, da dos próprios genes, fechados no seu núcleo.
[15] Mas também Galileu e Newton, à maneira deles e sem o reflectirem expressamente. Ver neste blogue Questão (prigoginiana): o que é a energia, a força atractiva e a entropia? §§ 5-6 (19/10/2014).
[16] E nosso, que também participamos inteiramente dela, e estamos a estragá-la com o que. feito por nós, não lhe pertence.
[17] Pequena história da epigenética : a hereditariedade além dos genes. A epigenética define-se hoje pelo estudo das mudanças modificando a expresãon dos genes sem mutação do ADN. Mudanças herdáveis e reversíveis, que se transmitem fora dos genes”.
http://www.nationalgeographic.fr/sciences"
[18] Este motivo permite descrever, ou pelo menos abordar, a lógica de acontecimentos. Por exemplo dum automóvel, os cilindros de explosão são um laço de peças, o ‘motor’, o resto das peças são enlaçadas pelo ‘aparelho’, a embraiagem sendo o nó que faz dos dois laços um único e duplo laço, construído na sua anatomia pela lei do tráfego (tal como as motos, os autocarros, as bicicletas). Quando vou a guiar e me aparece inopinadamente um carro que me obriga a travar e a desviar-me para a berma da estrada, tanto o gesto das mãos no volante como o de cada pé, um no travão, o outro na embraiagem, são decisivos na manobra, como o é o pedaço de estrada em que me encontro, o carro que apareceu e as manobras do seu piloto, etc. Várias causas jogam de forma indecidível no acontecimento, vários órgãos do carro incluindo os dois pilotos, mais ou menos hábil, se ia ou não distraído a conversar, etc., mas eu saio para discutir, conseguir ‘decidir’ que o outro foi causa ‘decisiva’, e portanto ‘culpado’, o outro jogará em sentido contrário. 
[19] Claro que não há aquisições hereditárias com ‘aprendizagem’ que, como Kandel demonstrou, cria novas sinapses em neurónios; isso exige que os neurónios sejam permanentes, não se renovem como as outras células, mas exclui obviamente a hereditariedade.
[20] Ver as suas análises nas p. 124-7.
[21] Darwin dá vários exemplos com cães, coelhos, pombos domésticos do que crê serem aquisições hereditárias por via de selecção doméstica (295-8), também fala de “modificações de tamanho provenientes da quantidade de nutrição” (29); sabe-se, segundo medidas da tropa, que houve aumento da estatura média das populações masculinas europeias de 11 cm durante um século. É possível testar o papel dos genes nestas alterações, se ‘causa’ ou se ‘efeito’, demonstrar que não é a modificação das condições de existência que tem a primazia em casos destes, as mutações vindo em consequência? Ou o laboratório de bioquímica é impotente para uma tal decisão?
[23] Que são variedades da nossa espécie e que são ‘imotivadas’ por factores alheios que sejam sua condição. Eis uma questão interessante para colocar noutro dia. 
[24] Este motivo heideggeriano de doação substitui o de ‘causa’ como determinação linear : há doação quando se trata de acontecimentos.