sexta-feira, 15 de abril de 2016

O Dasein não aprende



1. Há bastante tempo já que desconfiava que o Dasein de Heidegger, não apenas em Ser e Tempo mas ainda nos anos 60, depois de Tempo e Ser, mantinha uma ligação ao ‘sujeito’ de que se queria cortado, como atesta o muito importante motivo de ser no mundo. O que me faltava era perceber o que é que lhe falhou, porquê não deu o passo e que passo era que obviamente não quis dar (não se trata de pensar que ele se enganou). Ora, a leitura recente, pela 3ª ou 4ª vez, de A essência da Verdade, revelou-me duas coisas que concorrem para compreender a questão. Uma delas é que a verdade é sempre questionada em termos de ‘essência’ e esta, essência do ente em totalidade, é a questão da metafísica e, consequência lógica, o tempo não vem nunca à questão, apesar de ser onde se enceta a viragem entre os dois textos que ligam o tempo ao ser, o de 1927 e o de 1962. Trata-se de metafísica em sentido tradicional, o que não parece incomodar o pensador (senão fazia uma nota ou um parêntese a alertar para o que ali não estava a poder tratar). A outra é a maneira como a liberdade é aduzida como essência da verdade, através da aperidade para o ente que se trata de ‘deixar ser’, e também aqui não aparece nenhum dos motivos temporais de Ser e Tempo, angústia e ser para a morte, cuidado quotidiano, distinção entre o que está à mão e o que apenas está ao seu alcance; ou seja, o Dasein aparece posto diante do ente como um sujeito diante dum objecto: tal como o sujeito, o Dasein não aprende. Embora haja outros textos entretanto, dez anos mais tarde o magnífico texto sobre a phusis segundo Aristóteles trata da Physica deste, do 1º capítulo do 2º livro, aonde os seus grandes motivos foram demonstrados, argumentados, a ousia sendo o que explica o ente enquanto dotado de movimento, o que permitirá depois (justeza do ‘meta’) a metafísica do ente enquanto ente. E é onde o tempo é dito o número do movimento segundo o antes e o depois, como é sabido. Vinte anos depois, a viragem consuma-se: o ser e o tempo são dados aos entes (nascidos ou fabricados: de certo, mas isso não é nunca dito) pelo Ereignis que dissimula a doação. O que me parece significar o quê? Que até aí, desde 1927, sempre o Ser dominou o Tempo, a viragem iniciou-se com A essência da Verdade que ‘abre’ a relação do Dasein ao ente para a relação ao ente em totalidade (inversão do motivo da definição, do definido ao contexto, se dizer se pode), este dissimulado, obnibulado. É o motivo essencial do retiro do Ser que aparece pela primeira vez, e que no texto sobre a phusis é acrescentado a Aristóteles pela citação do aforismo123 de Heraclito que ele tornou célebre, sendo onde se vê a Physica sobrepor-se à Metaphysica. Claro que este § 12 à cavaleiro não tem nenhuma pretensão exegética, não conheço suficientemente os textos para isso. Mas o que me parece é que no texto heideggeriano não se deu nunca o passo do ser no mundo para o ser que aprende do mundo e é pois instituído por ele: a aprendizagem é o tempo dos humanos e sobremaneira o tempo em que o ‘sujeito’ muda, se transforma, não é sempre o mesmo.
2. A descoberta deste texto sobre a essência da verdade é a da relação dela com a liberdade do Dasein e a retracção da doação do ente que torne possível tal liberdade, o futuro retiro do Ser, e ainda, de passagem, um recuo da liberdade em relação ao ente a que o Dasein está aberto no seu comportamento em relação a ele: recuo e liberdade que deixam o ente ser o ente que ele é, de velado a desvelado (alêtheia), comportamento com desvelo, dir-se-á em português. Comportamentos esses que se repetem em relação a tal tipo de entes em usos quotidianos mormente, domésticos ou profissionais, mas também em relação a outros humanos da tribo, as quais relações também pedem abertura que os deixe ser, desvelo em sentido mais apropriado até. O motivo de repetição aproxima este comportamento do motivo da possibilidade do ser no mundo (Ser e Tempo), a qual tanto é do Dasein como do mundo, como aqui se vê melhor, já que o retiro tanto se joga na doação (pelo mundo, o ente em totalidade da tribo) como no Dasein. E é onde a questão da aprendizagem me parece indispensável em sua temporalidade, necessária menos ao ente, se se trata dum utensílio à mão, do que ao que aprende a utilizá-lo por ensaios e tentativas orientadas por quem já saiba, e que também se retirará quando a habilidade do comportamento esteja adquirida como espontaneidade do Dasein. Aprender a conduzir um automóvel, por exemplo, leva algumas semanas em geral, tempo para o aprendiz saber tornar-se, em seus gestos em situações aleatórias, na peça piloto do carro, que este faça parte doravante das suas possibilidades. Isto é, o Dasein alterou-se nas suas possibilidades e não apenas nas semanas em que aprendeu, já que toda a sua prática futura de condução melhorar-lhe-á essa habilidade, a sua possibilidade. O mesmo exemplo se pode aduzir, com muito mais tempo, para a aprendizagem da fala e as transformações que virão ao Dasein com os estudos que fará, as especializações, a cultura humana, espiritual e artística, e por aí fora. Nestes dois exemplos, é essencial o deixar ser o ente, o carro na estrada, a língua da tribo e aqueles com quem se fala, que se ouve. E esse deixar ser implica a inscrição no Dasein da lei da verdade, quer a da condução automóvel, quer a da linguagem e da relação com os outros: é essa lei  que implica que se aprenda de mestres, de quem já sabe, que se trate de doação com retiro de quem a faz, que sabe muito mais do que o que aprende mas tem que o deixar ser, deixar aprender à medida da sua ignorância. 



O filósofo brasileiro de origem croata Zeljko Laporic assistiu a seminários de Heidegger e numa entrevista conta como o viu, extraordinário.

“Nos seminários sobre o Heráclito (1966/67), eu estava diante de um homem totalmente tomado, não sobrava dele nada que não fosse iluminado por aquilo que ele dizia e como ele o dizia. Ele era aquele que falava aquelas coisas. Havia nele uma extrema concentração; toda figura dele, no dizer, no estar presente, era filosofia. Isso eu nunca havia visto antes em outras figuras brilhantes, em Henrich ou em Gadamer. Este era um homem de espírito que cuidava das palavras. Heidegger, ainda aos 77 anos era homem vigoroso, totalmente diferente: era filosofando que ele existia. Isto pode ser em vários aspectos um defeito. Seja como for, diferentemente de Heidegger, eu mesmo nunca me identifiquei com nenhuma carreira filosófica, nem mesmo com a carreira acadêmica, nem mesmo com a atividade de ser filósofo. Sempre achei que, qualquer coisa que você faça, não deixa de haver em você algo que sobra. Tem sempre uma sobra. Sempre havia sobras em mim, mesmo quando me entregava a algo, sem reservas. Em Heidegger, não. Mesmo assim, a centralidade da filosofia na vida e na figura dele me marcou, confirmando meu ímpeto inicial de que a Filosofia é algo sem o qual não posso andar por ai.”







segunda-feira, 28 de março de 2016

Ainda matemática e física, em diálogo





O meu velho Amigo Artur Mário respondeu assim a “A relação da Matemática à Física”
(http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2016/02/a-relacao-da-matematica-fisica.html)


“O que mais me enche de admiração é que o cérebro humano possa reproduzir o que se passa no mundo”. Tem particular importåncia o poder das grandes formulas matemáticas...
Heisenberg diria por outro lado: as pontes entre o psiquismo  e a matéria são os números.
Neste sentido, tudo se torna “informação”,o que é igualmente exemplificado ao nível biológico pelo ADN e em particular pelo ARN (planos), a tal ponto que se põe a questão da “anterioridade” destes em relação aos mecanismos gerados.
Estes “sistemas de representação” ao nível do cérebro e dos “embriões” são significativos duma quase “codificação” universal. As informáticas confirmam isso mesmo.
Ao nível do infinitamente grande e pequeno (quanta), só a estatística funciona como lógica científica.
Aí esbarramos com limites. O caminho para a fórmula universal está vedado, assim  como para um deus qualquer. Que se sabe dizer de noções como o vazio, a anti-matéria ou o infinito?
A “não harmonia” do mundo (como um bloco que resvala sem fim) aliada à consciência dos limites geram (em alguns) a exigência dum deus ou a crença dum “acaso absoluto”.”Só um deus nos pode salvar·” (Heidegger). Apesar das grandes convergências, estamos longe dum código universal...

Minha resposta

Muito gosto em ler-te, coisa rara !
Mas eu não ando por essas tuas andanças. Talvez pela minha formação de ‘engenheiro’, nunca dei muito para metafísicas, mesmo as dos físicos, cosmos e quantas. Tenho os pés na Terra, onde o que me causa admiração é a fecundidade dos vivos e dos humanos, as respectivas guerras também. A extrapolação para as físicas de estatísticas deixa-me justamente reticente sobre a ‘cientificidade’ dessas démarches, que se limitam a médias. Tu que és economista, sabes como a economia é pouco exacta, não é? Útil, mas arma de guerra. A anti-matéria, ignorância minha sem dúvida, também não me convence muito; choca-me a maneira como os físicos de hoje pensam, ou melhor, não pensam as forças atractivas e a energia. Se algum físico levasse a sério os duplos laços fenomenológicos que eu propus, talvez houvesse outras perspectivas, mas não creio que isso alguma vez suceda (ninguém me conhece), de qualquer forma os físicos hoje são uma muralha de aço, como soube o Jacques Benveniste.
 ‘Informação’ é uma palavra que eu detesto, ela supõe o dualismo: o que está fora informa o que está dentro. Ora, o cérebro não está dentro nem fora, está em ambos, ‘dentro’ (do crâneo) enquanto biológico e ‘fora’ enquanto social, olhos, ouvidos, pele, mãos, tudo isso faz de nós (com cérebro) ‘ser no mundo’. No cérebro só há química e electricidade, não há representações nem informações. A informática é uma má palavra, cibernética é muito melhor, diz o ‘trabalho’ do software, que não tem nada a ver com informações. Um número não é uma ‘informação’, é uma conta ou uma medida, que só vale em situação e em relação a outros números, ainda que implícitos. Donde que o infinito matemático seja como o zero, convenções matemáticas, sem relação com o divino ou o nada. Vazio, de ar, é giro: uma pena a cair ao mesmo tempo que uma bolinha de chumbo, num cilindro de vidro no Pavilhão do Conhecimento da Expo.

O enigma do cérebro : biológico e social



1. Porque é que um filósofo se mete a falar daquilo que aprendeu com os neurologistas? Por se ter apercebido de que, tal como em outras ciências, eles são vítimas duma tradição filosófica de 24 séculos que não lhes deixa ver senão o ‘biológico’ do órgão que o ‘opõe’ ao mundo, sendo todavia o neuronal irredutível à oposição interior (alma, sujeito, consciência) / exterior (corpo, mundo). Ou seja, um excelente argumento numa das principais questões filosóficas actuais: como é que os estudos de neurologia nos podem ajudar a compreender o que é a liberdade, fora dessa dicotomia platónico-cristã.
2. Dentre os cerca de 200 tipos de células especializadas dos vertebrados, ossos, músculos, adiposos, etc, qual é a especificidade das do cérebro e dos nervos? Não se juntando umas às outras em ‘colónias’ para formar tal tecido de tal órgão, os neurónios criam relações entre eles (sin-apses: agarrar-se com), cada um sendo afectado por milhares de outros numa imensa rede recíproca extremamente complexa (1014 sinapses num cérebro humano). A sua especialidade é pois serem afectados e afectarem-se, auto e hetero-afectação, esta com alguns circuitos importantes, já que são afectados pelo mundo (nervos dos olhos, ouvidos, pele) e vão intervir nele pelos que mobilizam os músculos da mobilidade, pés, mãos e voz nomeadamente. São os circuitos da aprendizagem.
3. Eric Kandel, Nobel de 2000, À la recherche de la mémoire. Une nouvelle théorie de l'esprit, descobriu como aprende uma lesma do mar: um choque recebido cria uma sinapse (que se relaciona com um gene do neurónio) que reagirá em defesa ao próximo choque. Assim se aprende com a repetição de experiências que geram grafos (Changeux, O homem neuronal), circuitos de sinapses que se inscrevem nos cérebros desde o feto. O que chamamos memória é este território de sinapses grafadas, aprendidas. O que há de prodigioso na aprendizagem dum uso social, da nossa tribo, é a passagem do não-saber fazer à habilidade espontânea de artista. Por exemplo, ao falarmos: todos nós usamos espontaneamente algumas centenas de regras linguísticas, as morfologias dos verbos, preposições e conjunções, etc., aprendidas em criança sem nunca termos tido consciência delas ao usá-las até hoje. Inacreditável! Isto é igualmente verdade para o que pensamos e não dizemos a ninguém: donde que o nosso jeito ou estilo mais pessoal e íntimo, que nos distingue de todos os outros, veio também da aprendizagem. O cérebro é um órgão social.
4. O que é a ‘mente’? Damásio explicou no Livro da consciência (p. 97) que é o que há nos neurónios (visual, auditivo ou outro), acessível só ao próprio, inobservável por terceiros. Isto é, a mente é o saber que o sujeito tem de si nos neurónios, con-saber (scire), consciência: não é nada de ‘mental’ oposto a ‘corporal’. Pelo contrário: o que a aprendizagem nos ensina é como os usos da tribo, diferentes dos dos estrangeiros, são os mesmos, iguais para todos, e ao mesmo tempo e indissociavelmente temos um estilo singular. Esta indissociabilidade implica um enigma estrutural. Somos ‘seres no mundo’: a neurologia dá assim um relevo maior à grande revolução filosófica de Heidegger, que vai além do que ele próprio pensou: o que vem do exterior estrutura-nos no interior. O seu motivo de possibilidade corresponde justamente a esta ‘liberdade’ de sermos capazes dos usos sociais segundo o que o nosso percurso foi fazendo como nosso estilo singular. A noção de aprendizagem exclui o determinismo genético que já muitos biólogos recusam mas que se tornou ‘dogma’ em leigos! Basta pensar na diferença de línguas entre povos!
5. Isto ajuda a compreender que a complexidade cerebral resista aos esforços dos neurologistas: esta dupla dimensão, biológica e social é tudo ‘mental’, inacessível aos instrumentos laboratoriais. Mas também nos é em grande parte inacessível: alguém consegue explicitar tudo aquilo que sabe em suas memórias? Do que propôs Damásio, conclui-se que é impossível que todos os nossos neurónios nos estejam simultaneamente acessíveis, mas que tenha que haver, como os neurologistas sabem, mecanismos de atenção, de prioridade neuronal à situação em que se está e ao que ela implica, calando todos os outros neurónios não necessários e chamando apenas os que convêm à compreensão dessa situação, o que os franceses chamam ‘souvenir’, o que nos subvém sem que saibamos como. Quando fazemos relaxação, por exemplo, podemos ao fim de alguns minutos sentir o sangue a correr nas principais veias, da cabeça aos pés e às mãos: normalmente, esses neurónios estão calados. Outro exemplo importante, a perca da memória da primeira infância foi interpretada por Freud como um ‘recalcamento’: dir-se-ia que a memória dos choques que então se tiveram (parto, desmame, perca do colo da mãe) foi apagada pelos choques da aprendizagem, antagónicos àqueles, voltando ao discurso do divã sob a forma de romance do Édipo.
6. É onde creio que reside o enigma da liberdade.

Público, 28/03/2016

quarta-feira, 9 de março de 2016

Um argumento de Antropologia sobre a questão da diferença sexual no mundo muçulmano


Testemunho dum homem argelino
Testemunho duma mulher argelina
O argumento de antropologia


1. A questão que se joga neste texto é a da possibilidade de argumentar sobre estruturas antropológicas e deduzir delas consequências estruturais ignoradas. Sucedeu que um texto meu, O sonho do Califado (Público, 3/12/2015), propunha uma dedução sobre o machismo muçulmano que confessava que sabia arriscada e que surgiu depois, ao longo do mês de fevereiro passado em Le Monde, um debate sobre justamente o que esse texto deduzira, afirmando um autor esse machismo, a propósito do fim de ano em Colónia na Alemanha, que outros negaram. Teresa Joaquim, especialista de questões relativas à diferença sexual, passou-me um livro de 2009 duma feminista argelina que confirmava a minha conclusão e que me levou a esta reflexão: é que ninguém, a favor ou contra, argumentava, fora duas alusões ao “harém”, a partir das estruturas antropológicas magrebinas que tinham sido o suporte da minha argumentação de ignorante da realidade muçulmana.

Testemunho dum homem argelino
2. O primeiro texto, Cologne, lieu de fantasmes, 5/2/16, do jornalista argelino Kamel Daoud, argumentava que os emigrantes muçulmanos que atacaram mulheres alemãs naquela noite vinham “desse vasto universo doloroso e horroroso que são a miséria sexual no mundo arabo-muçulmano, a relação doentia à mulher, ao corpo e ao desejo”. E mais adiante. “Uma mulher é mulher para todos, excepto para si própria. O seu corpo é um bem vago para todos e a sua ‘mal-vida’ só para ela. Ela erra como um bem de outrem, um mal só para ela. Ela não pode tocar-lhe sem tirar o véu, nem amá-lo sem passar por todos os outros do seu mundo, nem partilhá-lo sem o esmigalhar entre dez mil leis. Quando ela o despe,, expõe o resto do mundo e é atacada porque foi o mundo que mostrou nu e não o seu peito. Ela está em jogo, mas sem ela; sacralidade, mas sem respeito da sua pessoa, honra para todos, menos a sua; desejo de todos, mas sem desejo que seja dela. O lugar em que todos se encontram, mas excluindo-a. Passagem da vida que lhe interdita a sua vida, a dela”. E mais adiante. “O sexo é a maior miséria no ‘mundo ‘Allah’. Ao ponto de dar nascimento a este porno-islamismo de que discursam os pregadores islamistas para recrutarem os seus ‘fieis’: descrição dum paraíso mais perto do bordel do que da recompensa para gente piedosa, fantasma das virgens para os kamikazes,, caça aos corpos nos espaços públicos, puritanismo das ditaduras, véu e burka”.
3. O segundo texto, Os fantasmas de Kamel Daoud, 12/2/16, é assinado por 17 cientistas sociais (historiadores, antropólogos, sociólogos, ciência politica), um filósofo e um jornalista, os nomes sendo quer árabes quer franceses, masculinos e femininos. Trata-se sobretudo de uma acusação, a da islamofobia de Kamel Daoud: o seu essencialismo culturalista – a religião determinando “uma relação patológica à sexualidade” –, “psicologização das massas muçulmanas” com o “apagar as condições sociais, politicas e económicas que favorecem esses actos”, “projecto disciplinar [...] valores devem ser ‘impostos’ a esta massa doente, a começar pelo respeito das mulheres” [eu sublinho].
4. O terceiro texto,  Daoud ou la défaite du débat, 27/2718), do jornalista de Le Monde Michel Guerrin, diz de Kamel Daoud, “tratado de islamófobo”, que o escritor anunciou que parava o jornalismo, dedicando-se apenas à literatura. Tendo publicado textos no New York TImes, no Repubblica italiano e no Le Point francês, o seu Meursault, contre-enquête (Actes Sud, 2014) teve o Goncourt do primeiro romance e foi classificado pelo magazine americano Publishers Weekly entre os dez melhores romances do ano. Vive na Argélia,, está sob o golpe duma fatwa desde 2014, o que dá carne às suas convicções.A sua visão do Islão é apaixonante, fora das normas, já que divide a esquerda, as feministas, os intelectuais. Uma grande parte da sociologia está contra ele mas há intelectuais africanos que saúdam a sua coragem, Liberation defendeu-o, L’Obs também, onde Jean Daniel reencontra nele ‘todas as grandes vozes feministas históricas’”. Ou seja, Kamel Daoud é alguém, escritor argelino que vive na Argélia e arrisca a vida num testemunho de escrita.

Testemunho duma mulher argelina
5. Ao qual se acrescenta o da advogada argelina Wassyla Tamzali, Une femme en colère. Lettre d’Alger aux Européens désabusés (Gallimard, 2009), ensaista feminista, grande senhora da luta de libertação da Argélia, com 21 anos aquando desta conseguida em 1962, nomeada directora do Programa da Unesco para a Promoção da Condição das Mulheres no Mediterrâneo em 1996. Que o seu texto duma centena e meia de páginas, com a veemência que o título anuncia, seja publicado na porventura mais prestigiada editora francesa, atesta também da sua fidedignidade. A cólera vem do desencanto duma longa luta que se vê frustrada com a aceitação, face aos extremismos violentos reclamando-se do Islão, dum “islamismo moderado” na emigração europeia e com aproveitamento nos países muçulmanos: as feministas árabes perderam o lugar, a sua voz deixou de ser ouvida, abandonada inclusive por companheiros de esquerda e até por feministas europeias. Ora, este “islamismo moderado” representa a capitulação da emancipação das mulheres muçulmanas, que vão aceitando o véu que lhes fecha a liberdade, implicando a “adesão à cultura de harém, de que ele é a continuidade no espaço público” (p. 81). A historiadora das origens do Islão, Latifa Lakhdar [actual ministra da Cultura na Tunísia] escreve em Les femmes musulmanes, au miroir de l’orthodoxie islamique (éd. de  l’Aube, 2007) que “o véu não é um simples uso, é a parte visível duma visão do mundo baseada no corte em dois do universal, os homens e as mulheres. O véu é o sinal do encerramento teológico das mulheres [L. L. é leitora de Foucault] e a santificação do ascendente do eros muçulmano sobre o ethos muçulmano” (p. 97), [...] “mostrando através dos escritos que nos chegaram quanto os homens dos primeiros tempos do Islão faziam da virilidade e da libido dominanti o seu capital simbólico. Este eros teologizado excessivamente condicionou, e continua a fazê-lo, o ethos islâmico, isto é o hábito e os costumes que deveriam conduzir à definição do bem e do mal e comandar a conduta dos homens e a relação entre os sexos nas sociedades muçulmanas” (p. 98).
6. “Há territórios em que é impossível escapar ao efeito devastador da omnipresença do eros muçulmano, continua Tamzali, e onde as mulheres são cada vez mais veladas com um resultado desastroso e contrário aos valores de respeito e de reserva que pregam os prosélitos do véu. Cada dia, nas cidades árabes, nas actividades mais insignificantes da vida corrente, no olhar dos homens na rua, nas praias, nos cafés, pode-se medir os seus efeitos, e assistir à vitória sem limites do eros muçulmano. Todos os dias me dou conta da sua força crescente na rua árabe. Doravante é ela que determina a circulação das mulheres e dos homens nos lugares públicos. [...] Os tabus comandam subterraneamente os costumes e formam profundamente a relação dos sexos nos países ditos muçulmanos. Todos os dias no são contados actos de barbaridade em relação às mulheres” (p. 103). “Assim o véu que foi pensado como o último recurso para proteger as mulheres não é uma protecção, não é a barreira dos instintos sexuais. [...] Numa lógica implacável, quando cada vez mais mulheres, raparigas, meninas escondem os cabelos e certas partes da sua pele, cada vez mais as ruas árabes se erotizam. Quantas mais há mulheres veladas, mais o seu número aumenta. O véu dumas despe as outras. Em árabe argelino, para dizer que uma mulher não usa o véu, diz-se que ele está nua” (p. 108).

O argumento de antropologia
7. Trata-se de testemunhos, dum jornalista e romancista e duma advogada, militante e ensaísta, nenhum deles é cientista social. Mas estão do lado da paixão de viver, sofrem do que testemunham. Ambos percebem que a religião é uma ‘capa’ ideológica, que a questão é de fundo antropológico, “lei de harém”, diz Tamzali, e é o que parece escapar aos cientistas sociais que atacaram Daoud, fraca ciência que não vê o que um estranho à causa ‘deduziu’ a partir de análises de G. Tillon e E. Todd com algumas dezenas de anos. Devo dizer que estes testemunhos duma ‘verdade antropológica’ produzem em mim uma reacção contraditória: se me regozijo como intelectual que vê as suas leituras e elucubrações certificadas, fica-me uma dor pelo imenso sofrimento que essa ‘verdade’ testemunha. No texto sobre o califado, só tentava compreender os extremismos, estes testemunhos duma “miséria sexual” difusa são confrangedores, eles podem ao mesmo tempo esclarecer a estranha ‘estagnação’ de sociedades que vão até quase um bilião de pessoas, algumas com grandes riquezas petrolíferas, que parecem incapazes de aceder à modernidade.
8. O que parece estar em questão nestas duas manifestações ‘anti-modernas’ do mundo muçulmano – a violência mortífera e a progressão do véu das mulheres –, é ele encontrar-se empurrado pela globalização para a modernidade – comércio e médias libertinos – que exigiu às sociedades ocidentais a fractura das casas entre empresas económicas e famílias e provocou também reacções anti-modernas muito fortes, nomeadamente na geografia católica, cobrindo-se de religião contra a liberdade que escola, livros, jornais e comércio fomentavam. Serão as estruturas de parentesco muçulmanas que reagem assim à defesa. Devo dizer que fiquei sempre com uma dúvida em relação às análises de Todd, se elas incidiam apenas sobre o norte de África e a Arábia asiática, ou também se estendiam à Turquia, Irão, Indonésia. A ler Tamzali, é claramente o ‘muçulmano’ que ela questiona, as referências ao ‘árabe’ sendo diminutas. Mas a dificuldade de que falava Todd, que o parentesco endogâmico (que privilegia o casamento com primos e cria grandes comunidades patriarcais; sem cunhados, acrescento eu) manifesta em deixar erguer um Estado que, sem ditadores e partidos laicos, se imponha a esses patriarcas, ditaduras que vemos, após a infeliz invasão do Iraque, oscilarem para os islamistas, parece ser extensiva a todas as sociedades muçulmanas: não é a Turquia de Kemal Ataturk e Erdogan que parece obedecer a esta mesma lógica oscilante? Será também necessário saber como funciona a escola nestas sociedades, como se defende a ideologia muçulmana dos factores de secularização que ela veicula, que são inerentes à razão ocidental que a estrutura. Uma das ironias desta história foi no Afeganistão, os zeladores excessivos do Islão serem “estudantes de teologia” (talibans), uma espécie de ‘contra-escola’.
9. Segundo Tamzali em 2009 (p. 131ss), os políticos e intelectuais ocidentais olham as sociedades muçulmanas com o pavor do Irão encerrado pela religião e estariam dispostos a favorecer os “muçulmanos moderados” como capazes de democracia, crêem eles ver nos dirigentes que encontram nas emigrações nos seus países. É esta perspectiva que justifica que ela tenha perdido audiência, criticada pelo seu feminismo radical. Com efeito, ela percebe, em França como na Argélia, vivendo em ambas as capitais, como esses “moderados” não têm o princípio da liberdade de consciência (p. 114ss): não entendem a laicidade como respeito da liberdade religiosa, mas como possibilidade democrática de se ser muçulmano na Europa, em contraste com a impossibilidade do que chamam “apóstatas” (nascidos muçulmanos que se tornam ateus, ou pelo menos críticos do Corão a partir da razão) que o Corão condena à morte (fatwas). E o véu, proibido em França, acham que é um elemento da identidade muçulmana; o que significa que a moderação deles é a não emancipação das mulheres muçulmanas. “Toda a politica internacional tende para evitar a eventualidade de iranização dos países árabes, e os poderes actuais nos países de maioria muçulmana jogam com esse medo, quando os nossos países optaram, na maior parte e já desde vários anos, por um segundo cenário. Esse cenário foi imaginado para retomar e corrigir a politica dos seus predecessores que, aprendizes de feiticeiro, tinham favorecido nos anos 1970 a islamização da sociedade para abafar as veleidades democráticas dos seus povos. Os poderes actuais herdaram as sequelas dessas politicas, sob forma de movimentos violentos determinados a eliminá-los. Um cenário maquiavélico trabalhado a várias mãos que visa manter os poderes existentes, integrando os islamistas – os islamistas moderados. A sua realização seria tão nefasta para as mulheres como o cenário à iraniana” (p. 133).
10. No fundo, o que há de mau presságio nisto, é o véu estar a andar para trás, o que confirmaria a apreensão de Tamzali: é que a emancipação das mulheres muçulmanas seria a derrocada da ordem do parentesco e com ela da ideologia da religião, deixando esta apenas aos espirituais, como sucedeu na Europa (mas não nos Estados Unidos?). O que terá sucedido nas revoluções árabes da Tunísia à Síria, passando pelo Egipto, que tenha tido a ver com o parentesco endogâmico, com a sexualidade agressiva dos machos, com os entusiasmos e os medos das mulheres? Que im-possibilidade se jogou e se joga aí, a duma secularização como ameaça intolerável? Quantas gerações serão precisas para modernizar de forma democrática as sociedades muçulmanas, as únicas que, tendo uma longa história de civilização, parecem estagnadas, apesar da juventude que manifestou desejos de modernidade nas revoltas das ruas?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Secularização e democracia



adenda a
AS CIÊNCIAS DAS SOCIEDADES 
NUMA ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA

http://filosofiamaisciencias.blogspot.pt/2015/11/as-ciencias-das-sociedades-numa.html

Cosmopolitismo e secularização
O espaço de saber espiritual
A secularização económica
A “instituição” secularizada: da Igreja romana ao Estado do século XIX
Breve caracterização do messiânico
Dos movimentos espirituais e de reforma aos movimentos críticos
A secularização da busca do saber, do ‘espiritual’ ao ‘intelectual’
O messiânico e a democracia




1. Nesse texto sobre as ciências das sociedades não aparece sequer a palavra ‘secularização’, o que não impede que a questão lá esteja, mas não elaborada de forma explícita. Ora, com a leitura de alguns textos sobre ela na revista Noésis (univ. Nice) sobre Philosophie et religion aujourd’hui[1] estimularam a pensar, dei-me conta de como textos que fazem actualmente autoridade na questão, mormente Le désenchantement du monde de Marcel Gauchet, me parecem falharem aspectos fulcrais do fenómeno da diminuição drástica das práticas e crenças religiosas nas sociedades desenvolvidas do Ocidente, nomeadamente nos últimos 50 anos. A tese da substituição das funções anteriores das igrejas pelas da escola (§ 26 do texto de referência) permite entender o ponto essencial da secularização, desde que se acrescente, para se perceberem as razões estruturais do processo, que o cosmopolitismo helenista do império romano já consistiu na época numa forma de modernidade secularizante.

Cosmopolitismo e secularização
2. Em que é que consiste o cosmopolitismo? Na colocação do mecanismo que define o que chamamos modernidade: a avaliação critica dos saberes recebidos dos Antepassados que permitiam que as sociedades se reproduzissem, as novas gerações aprendendo com as adultas os usos e costumes dessa reprodução. Esta transmissão continuou a fazer-se nos meios agrícolas e pastoris em que a inovação é muito lenta (os ‘pagi’, camponeses fixados à terra, que resistiram ao cosmopolitismo e depois ao cristianismo como religião, serão chamados os ‘pagãos’), mas as cidades, sobretudo as grandes metrópoles (Atenas, Roma, Alexandria, Antioquia, Constantionopla), conhecem por um lado uma inovação razoável de usos e por outro uma mistura de tradições ancestrais de costumes religiosos, com atenuação gradual da própria tradição genealógica (menos nas casas de grandes heranças). É aonde a escrita permitiu, desde os meados do milénio antes da nossa era, a formação de escolas de exercícios espirituais – Zaratustra na Pér­sia (sec VIII), Lao-Tseu e Confúcio na China (sec. VI-V), Buda na Índia (sec. VI-V), os Profetas em Israel (s. VIII-VI), também Heraclito, Par­ménides, Pitágoras, Sócrates na Grécia (s. VI-V) – em torno dos textos dum Mestre que rompera com os usos dominantes, religiosos inclusive, da sua sociedade (riqueza, glória da guerra, luxos da mesa e do corpo) e propunha outras intensidades para o viver, a sabedoria, a temperança, a virtude, como é claro na Apologia de Sócrates e no  Fédon, um misto do que chamamos intelectual com o que chamamos espiritual. Foi nomeadamente onde Sócrates inventou a definição que Platão e Aristóteles utilizaram, este último abundantemente, nos seus textos gnoseológicos a que chamamos filosofia. Esta avaliação critica de escolha (‘heresia’ em grego) do recebido tradicional holístico, isto é válido para todos (holoi), em que consiste a religião, institucionalizou-se como escola, a qual substitui a relação de aprendizagem das casas, entre pais e filhos, por uma relação entre mestres e discípulos exterior à ordem do parentesco, à hereditariedade e à herança das casas. Esta substituição é o princípio da secularização, o paralelo entre as duas formas de herança – a da economia das casas e a da transmissão escolar de saberes além dessa economia – é a trave mestra de qualquer modernidade. A relação holística religiosa em torno do sagrado, pertencendo à ordem do parentesco e da soberania, é substituída por uma relação cultural, que privilegia os antepassados da escola, guardando os seus nomes e os seus textos. A antiguidade grega e romana foi já uma modernidade[2], em que escrita e leitura supõem uma invenção técnica relativamente desenvolvida em termos de divisão do trabalho nas cidades.
3. Mas esse cosmopolitismo não resistiu ao desmoronar das grandes metrópoles onde houve a sua possibilidade e a religião holística voltou ao Ocidente, como Cristandade: o que fora inicialmente forma marginal de ‘leitores’ de textos espirituais tornou-se um fenómeno de religião global a várias sociedades, acima das suas variadas genealogias. Como o Judaísmo no tempo do domínio persa, o Budismo provavelmente na Ásia, o Islão alguns séculos depois, esta religião com textos cobrindo várias sociedades formou-se segundo duas camadas sociais: na Cristandade, dum lado a dos clérigos, capazes de lerem os textos, do outro a dos leigos analfabetos, camponeses mas também artesãos das vilas e nobres guerreiros. A genealogia religiosa cristã sobrepôs-se às genealogias de parentesco, como aliás já sucedera no mundo israelita nos séculos VI-V, o livro bíblico da Tora, resultante da escrita profética, tendo-se imposto na formação do judaísmo, o que veio a gizar várias escolas de interpretação dos textos como movimentos espirituais, de que o cristianismo é exemplo nos séc. I-II: heresia do judaísmo, platonizada por Orígenes de Alexandria no alvor do s. III, o que o tornou também em heresia de Atenas. O que a Cristandade medieval significou foi que no cosmopolitismo antigo a escola não chegou a ser obrigatória; foi necessária uma boa dezena de séculos até ao ressurgir dum novo cosmopolitismo, de cidades de artesanatos e comerciais em expansão e Renascimento humanista, que veio a tornar possível a industrialização, cuja secularização substituiu as igrejas por uma escola agora holística.
4. Uma vantagem de se considerar a diferença entre religião e movimentos espirituais em torno de textos escritos (a nova religião escondeu a Bíblia em latim) é de permitir compreender como a leitura dos textos evangélicos foi sempre fomentando fenómenos espirituais (mosteiros, conventos, frades) e mesmo, aquando do alvor das comunas dos séc. XII e XIII, gerou escolas universitárias, entre o escolar e o eclesiástico religioso (§ 24). Ora, este espiritual-e-intelectual nas margens da Cristandade teve efeitos críticos sobre esta, com apelos à reforma do aparelho eclesiástico encostado ao poder politico das armas, o que veio a ter, a partir da produção industrial de livros na segunda metade do século XV e as traduções vernáculas da Bíblia, como efeito o grande cisma cristão que cindiu as sociedades do norte da Europa de línguas não latinas do sul latino e católico romano. As diversas confissões protestantes organizaram-se todavia como religiões holísticas (como testemunham as guerras de religião que se seguiram) mas, com a leitura da Bíblia no centro da piedade, as reformas espirituais da Reforma e os ‘revivals’ foram-se disseminando de forma cosmopolita clara.
5. Mas enquanto a forma de riqueza tiver a sua base na agricultura e a maioria das populações for feita de camponeses, ciosos da fecundidade dos seus campos e rebanhos, os rituais religiosos continuam a ser praticados no mundo rural e nas pequenas cidades, onde quase não haja escola. A secularização actual vai bastante além do cosmopolitismo das sociedades de energia apenas biológica, ela tem uma outra fonte muito clara que no § 26 é enunciada assim: a grande diferença entre as sociedades europeias clássicas e as da modernidade é de ordem energética, contraposta às formas biológicas das sociedades de dominância agrícola e pastoril; a partir da invenção da máquina a vapor, a energia será doravante produzida industrialmente, com dois grandes saltos posteriores, o da electrificação social e o da electrónica. A fecundidade dos campos, misteriosa até à biologia molecular dos meados do século XX, cede à produtividade devida às máquinas do saber científico e técnico. Este ponto nenhum dos vários textos sobre secularização na dita revista tem a menor noção de como é crucial na secularização moderna, a torna bem mais conseguida do que a da Antiguidade.

O espaço de saber espiritual
6. O que é que fez a escrita no cosmopolitismo? A “invenção da transcendência”, disse Gauchet, além da imanência, pois: inventou saberes além da economia das casas e das cidades, da guerra e do comércio, das honras das riquezas e do poder. Inventou um espaço de espiritualidade, autónomo dos usos quotidianos e critico eticamente da super-estrutura de poder (social, político, religioso): de busca de sabedoria, de pensamento verdadeiro (invenção socrática da definição), de amor, amizade e beleza, de ética, de conhecimento das coisas, ciências e lógica (Aristóteles), de busca de saberes sem utilidade imediata, o equivalente no que à escrita e discussão diz respeito ao desporto olímpico no campo dos atletas da física. Saber de ociosos (scholê, ócio, lazer) que não trabalhavam de suas mãos (tinham escravos para isso), saber do que ia além do que se via crescer e mudar, desse ‘além’ nos ficando o prefixo ‘meta’ dos textos aristotélicos que se seguiam aos da physica, ou o latino ‘sobre’ da teologia da ‘graça sobrenatural’. Saber metafísico e sobrenatural, que os modernos pejorativamente chamam ‘especulativo’, mas foi dele que sábios burgueses testaram saberes desses em aparelhagens (físicas) que ‘laboravam’ produzindo movimentos que mediam, que homens como Galileu e Newton retiraram um saber novo, que se veio a revelar capaz de energias inesperadas e de máquinas que trabalham a partir delas, saber que se veio a revelar fecundo duma modernidade inédita, além da physica aristotélica dos vivos, duma modernidade ‘metafísica’ e ‘sobrenatural’ (em seus prodígios que nos maravilham). Que esta maneira de dizer sublinhe como a ética e a espiritualidade foram o rasgão que os nossos antepassados deram ao social criando novos saberes, que ela nos ajude a ofuscarmo-nos de ver as suas heranças nas mãos de ‘especuladores financeiros’ que não vêem um palmo à frente do nariz (ai de nós!).
7. Já agora, há que acrescentar (num domínio a que o meu apelido deveria me ligar mas a que sou alheio de educação, hélas!) que também as artes – poesias, músicas, pinturas, esculturas, arquitecturas – relevam desta maneira de se pensar a diferença espiritual, já que usam meios de usar quotidianos de forma não utilitária, transcendendo, indo além da utilidade da reprodução da habitação, das necessidades da vida ecológica, sem sair todavia do seu horizonte, ‘sensível’ como se diz, já que esta necessidade da arte manifesta assim – na imanência do material que trabalha, elabora, transformando matéria – a gratuidade da doação da própria condição ecológica e humana. Por isso as artes apareceram em situações rituais, repetições que traziam pujanças ancestrais, os Mortos fecundando mitologicamente os vivos.

A secularização económica
8. Se a palavra ‘secularização’ foi forjada para dizer a maneira como a Revolução francesa se apropriou dos imensos bens eclesiásticos franceses – do campo do ‘sagrado’ ao do ‘século’, como era a maneira clerical de falar do mundo profano e ‘temporal’ dos leigos, que eles, clérigos, ocupavam-se da ‘eternidade’ –, há que voltar à Cristandade medieval para entender as razões históricas do processo. Como foi ilustrado por G. Bataille em La part maudite, um livro de economia geral, além do utilitário e mercantil de que a ciência económica se ocupa, o excesso da economia medieval, sem comércio digno desse nome, era desviado para o campo do sagrado, catedrais, abadias, conventos; o livro de Jacques Le Goff, O nascimento do purgatório, permite compreender como essa invenção teológica, um terceiro lugar provisório entre céu e inferno – nestes a Igreja não tinha poder – em que as almas iriam para o céu depois de purificadas, durante um período que as esmolas e missas de sufrágio, além daquelas obras eclesiásticas, poderiam abreviar. Era uma economia ‘transcendental’, que em Portugal ainda se manifestou na primeira metade do século XVIII com D. João V e o convento de Mafra.
9. Ora, a Reforma de Lutero pôs essa economia directamente em questão. Tendo visitado Roma na época em que se construía a Basílica de S. Pedro, reagiu violentamente contra a pregação de “indulgências” a favor das almas do purgatório, cuja ‘venda’ tinha essas obras como objectivo. A sua dicotomia célebre entre “a fé e as obras”, excluindo estas (e a própria noção de purgatório) da salvação das almas que só a “fé” justificava, teve como consequência o encerramento dos conventos do mundo protestante, os quais foram assim secularizados de boa vontade, por razões evangélicas, cerca de três séculos antes dos revolucionários franceses seguidos de outros latinos terem secularizado à força os bens católicos, vistos como inúteis pela nova economia mercantil em vias de industrialização. Max Weber assinalou na sua A ética protestante e o espírito do capitalismo, como o próprio Lutero fez a transição do termo ‘vocação’ (Beruf) do mundo religioso que ele reformara para o uso profano profissional que se institucionalizou: celebrou assim a secularização, poupando aos povos nórdicos a peste do clericalismo e do anticlericalismo (após as guerras da religião) e fomentando, com o mercantilismo, o que Marx chamou a acumulação capitalista que tornou possível a industrialização.

A “instituição” secularizada: da Igreja romana ao Estado do século XIX
10. A tese é do alemão Carl Schmitt, teórico do direito (católico e nazi), que pretendeu que “todos os conceitos do poder legislativo e da metafísica aparecidos na Europa no decorrer da história dos últimos séculos e que exerceram uma influência na formação da sociedade, provêm da supremacia da Igreja romana na Idade Média, e mais, relevam do facto de que essa Igreja, como diz Schmitt, é ‘em larga medida, a que transporta o espírito jurídico e que é a verdadeira herdeira da jurisprudência romana’ ” (André Doremus, La théologie politique de Carl Schmitt[3], p. 31). É fácil de presumir que ao ser institucionalizada durante o século IV, de Constantino a Teodósio, a igreja de Roma tornou-se ‘romana’, substituindo formas litúrgicas e organizativas da religião civil que se esgotara (o Papa como ‘Sumo Pontífice’ e a sua ‘Cúria’ são ainda hoje termos herdados assim), mas quando as formas do Estado imperial se esvaziaram, elas como que foram continuadas à maneira de uma instituição religiosa que ganhará funções cívicas administrativas. Ora, que essa instituição com uma rede de bispos e clérigos espalhada pela geografia da cristandade tenha adoptado uma forma de celibato para todos os seus funcionários religiosos, fosse mais ou menos cumprida de facto mas entendida como devendo-o ser, é algo que merece ser sublinhado: a relação mestre / discípulos própria da escola espiritual e intelectual, distinta da de pai / filhos mas pensando-se na sua matriz parental (‘padre’), reforça uma distinção provavelmente inédita historicamente entre as duas esferas, a da economia e parentesco por um lado, a da instituição do “governo das almas”[4] e (politica) dos lares por outro. Que as universidades tenham mantido durante séculos, mesmo após o cisma do século XVI, a teologia como disciplina de topo e a filosofia como a sua ‘serva’ (ancilla), isto é, um discurso que busca esclarecer e justificar o outro, que é posto como proeminente mas cujo texto base, o bíblico, não tem meios para essa busca teórica, eis o que parece explicar que “todos os conceitos significativos da doutrina moderna do Estado”, diz o terceiro capítulo da Teologia politica (C. Schmitt), “são conceitos teológicos secularizados. E isso não apenas pela sua evolução histórica, já que eles foram transpostos da teologia à doutrina do Estado, como por exemplo no caso do Deus todo poderoso tornado o legislador omnipotente, mas também na sua estrutura sistemática, cujo conhecimento é necessário para observar estes conceitos dum ponto de vista sociológico” (Doremus, p. 27). Depois de citar a ‘vontade geral’ em Descartes e Rousseau, Doremus exemplifica como “das leis da natureza, tais como Descartes, Malebranche e Leibniz as desenvolvem, decorrem já em d’Holbach as ‘leis do desenvolvimento económico’ a que o Estado tem que se submeter” (Doremus, p. 44).

Breve caracterização do messiânico
11. Além desta perspectiva dum cristianismo secularizante vinda da jurisprudência, poder-se-ia aproveitar a boleia que ela oferece partindo duma outra visão do cristianismo mais integrada, se dizer se pode, retirada da minha leitura dos evangelhos num texto inédito[5]. Os dois primeiros a serem escritos, o de Marcos e o de Mateus, inserem-se numa perspectiva apocalíptica, anunciando logo de entrada o fim dos tempos para breve, o que tem como incidência a radicalização das posições: Jesus forma com os seus discípulos um movimento messiânico que propõe três oposições politico-espirituais (estas duas dimensões no contexto apocalíptico são indissociáveis): “Deus de vivos / Deus de mortos” (Mc 12, 27, Mt 22, 32, também Lucas 20, 38) “Deus / Dinheiro” (Mt 6, 24, Lc 16, 13) e “Deus / César” (Mc 12, 27, Mt 22, 21, Lc 20, 25). O que significam estas oposições?
12. Em que é que consiste o “Deus de mortos”? A discussão passa-se no Templo que Jesus desembaraçou violentamente do comércio que nele se fazia em função dos sacrifícios do culto e pode dizer-se que na economia dos textos evangélicos (excepto no de João) o Templo é o Adversário simbólico do Messias: o “Deus de mortos” é o Deus desse Templo. Numa outra passagem de Lucas (9, 60), o termo ‘mortos’ é usado de maneira equivalente; a alguém que quer seguir Jesus como discípulo mas pede para que o deixe primeiro ir enterrar o seu pai, a dura resposta é esta: “deixa os mortos enterrar os mortos deles”, o zelo religioso é desqualificado de forma apocalipticamente radical. Em resumo, o “Deus de mortos” é o da religião hierarquicamente instalada como um poder social, bem dissociado do “Deus de vivos” de quem o movimento messiânico se reclama, no caso como aquele que ressuscitará todos os mortos no final dos tempos anunciado para breve.
13. A oposição a César é entendida habitualmente de forma anacrónica, como se se tratasse duma repartição de actividades, um pacto entre dois ‘poderes’ substantivos: ao poder do Estado o que lhe compete, ao mundo eclesiástico a sacristia e o seu rebanho de pastores. Mas uma leitura atenta do episódio que culminou nessa frase mostra o anacronismo que seria deixar-se todo o domínio de César ao seu arbítrio. Trata-se com efeito de uma armadilha: “é ou não lícito pagar o imposto a César?”, questão politica por excelência num pais ocupado militarmente pelos exércitos de César para justamente cobrar esses impostos. Se Jesus disser que não é lícito, será denunciado à autoridade romana ocupante, a quem esse imposto se destina; se disser que sim, será abandonado pela multidão anti-ocupação romana que o aclamou à entrada em Jerusalém e à expulsão dos comerciantes do Templo, deixará portanto de ser perigoso. Se a resposta de Jesus fosse a que hoje corre, ele teria caído na armadilha e teria sido renegado pela multidão, o que obviamente não sucedeu: a resposta não foi a dum ‘colaborador’ com o ocupante. A astúcia de Jesus foi pedir a moeda e pegar pela imagem de César nela: a Lei bíblica proíbe as imagens de humanos, aquela imagem é pois ilícita, estrangeira, mandá-la para César equivale a expulsar a moeda do pais, o que por um lado convém à multidão que o aclama e por outro não dá pretexto a acusação aos Romanos. “E eles ficaram espantados” com a resposta, concluem os três evangelhos. César é a cabeça do poder politico e dos seus exércitos, oposto ao Deus de vivos de que o movimento messiânico se reclama; no livro do Apocalipse, César é o adversário do Messias.
14. Quanto à oposição de Deus ao Dinheiro, há que dizer que o que provoca algum espanto é a importância politica dessa oposição já nessa época, algumas parábolas aliás testemunhando da divulgação do comercio e do dinheiro na Palestina ocupada. Proposto como equivalente às trocas de coisas produzidas, a sua acumulação em mãos dos senhores de casas ricas torna-o capaz de poder económico sobre os que têm que trabalhar para receber um salário de sobrevivência.
15. Em todas as estruturas que consolidam um poder, ‘substantivo’ de uso corrente, este tende a impedir o que os seus subordinados podem, ‘poder’ agora como ‘verbo’. O motivo evangélico do serviço extremamente radical – “vocês sabem que os que são vistos como chefes das nações mandam nelas como senhores e que os grandes fazem sentir o seu poder sobre elas; não deve ser assim entre vocês: pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vocês, far-se-á o vosso servo e quem quiser ser o primeiro entre vocês, far-se-á o escravo de todos” (Mc 10, 42-44) – pode ser lido como fomento das possibilidades dos que estão sujeitos aos poderes, ajudá-los a libertarem-se para o que possam fazer e ser. O que significa que se há uma ética messiânica, ela não consiste em virtudes pessoais das almas, numa moral de indivíduos como a dos 10 Mandamentos da Bíblia hebraica, rebuscada pela cristandade e ensinada nos catecismos, mas numa ética de amor do próximo, de solidariedade, que tem a ver directamente com o mundo social, com a inversão do seu poder. Foi esta ética que propuseram constantemente os movimentos espirituais que sempre foram surgindo nas margens dos aparelhos eclesiásticos, uma ética de vivos assim testemunhada bem além dos que a professavam. Porquê chamar-lhes ‘messiânicos’? Para marcar a radicalidade apocalíptica em torno da figura escatológica do ‘Messias’, termo vindo hebreu que em grego se traduziu para ‘Cristo’ e rapidamente perdeu a perspectiva escatológica hebraica, tornado no mundo greco-romano o apelido de ‘Jesus’. A palavra cristão traduz  messiânico, a palavra cristianismo traduz messianismo.
16. Com efeito, durante dois séculos e meio, o movimento espiritual, messiânico ou cristão, perdida a esperança apocalíptica breve, disseminou-se nas cidades do império romano, mal tolerado e por vezes perseguido cruelmente, manifestando todavia uma relativa frontalidade aos três emblemas simbólicos que cativavam os desejos dos pais de família em ordem à relativamente ordeira reprodução social que os três poderes, religioso, imperial e económico procuravam assegurar tanto quanto possível: o dinheiro permitia que as trocas económicas tivessem alguma racionalidade, o imperador velava para que o direito se cumprisse assegurando as armas a boa ordem, os sacrifícios religiosos procuravam ganhar a bênção dos Deuses que detinham o segredo da fecundidade dos campos e dos rebanhos; em resumo, os emblemas do poder eram necessários para que, melhor ou pior, a sociedade funcionasse. Ora, o cristianismo, como o budismo sem dúvida, de movimento espiritual que, exilado da Palestina de origem e da esperança messiânica breve, guardou da sua dimensão politica apenas a resistência às perseguições durante esses dois séculos e meio, veio ao longo do século IV a ocupar o lugar de religião do império, rapidamente aliás tomando atitudes de poder persecutório contra a antiga religião oficial e contra os outros cultos espirituais, filosóficos inclusive. Donde que o messiânico se tenha deslocado para as margens do mundo religioso, retomando nas vidas de eremitas, monges, frades, etc., o desígnio do amor do próximo e do serviço, segundo as três oposições evangélicas. Mas nas gerações seguintes, conventos e ordens mais ou menos se integraram no mundo eclesiástico, abrindo caminho a futuros movimentos espirituais.

Dos movimentos espirituais e de reforma aos movimentos criticos
17. Sejam três observações gerais. Uma diz respeito à maneira como os mosteiros beneditinos, entre os primeiros movimentos espirituais a institucionalizarem-se, teve como desígnio ora et labora, colocando o trabalho considerado servil, próprio dos escravos e dos servos, no lugar nobre da instituição, em comum com a oração. A noção de ‘serviço’ fazia pois parte estrutural dela, ainda que entre os trabalhos dos mosteiros houvesse também os que diziam respeito aos manuscritos que eles copiaram, permitindo um mínimo de transmissão do acervo da Antiguidade greco-romana. A segunda consiste em sublinhar o sentido da palavra ‘ministro’ que designa nos países ocidentais os lugares proeminentes da governação e do poder. Ora, em latim, o magister e o minister eram o senhor das casas ricas e o respectivo escravo, o ‘magis’ e o ‘minus’, o maior e o menor. Que o termo que dizia o escravo se tenha tornado o que diz os lugares de poder, é um sintoma de secularização: os chefes cristãos ainda não tinham esquecido a injunção do serviço ao invés das nações, e o termo secularizou-se invertendo o sentido semântico da palavra latina. A terceira diz respeito à maneira como os juros de empréstimos foram proibidos na cristandade, segundo a Bíblia hebraica que só os permitia a estrangeiros (Deuteronómio 23, 20-21): donde que cristãos não podiam emprestar a cristãos nem judeus a judeus, mas estes, minoritários, podiam emprestar a cristãos, o que explica historicamente o lugar proeminente que alguns tiveram na história das finanças europeias. O mundo católico após a Reforma manteve essa proibição até 1745 (encíclica Vix prevenit), onde o ‘atraso’ capitalista desse mundo se sublinha historicamente e que a admissão da cobrança dos juros no sec XVIII se mostra como secularização.
18. A reclamação da reforma da estrutura eclesiástica na chamada Alta Idade Média, os séculos das comunas e das universidades, é um movimento cujo fôlego é simultaneamente espiritual, nas suas motivações, e politico nos seus objectivos, que visam uma estrutura eclesiástica com dominação temporal frequentemente (no Estado pontifício romano, em feudos de Abadias e Arcebispados) e enredada ao poder feudal nas outras regiões: sintoma de como esse conluio se manteve no mundo católico até ao século XX são as capelas dos palácios nobres com os respectivos capelães na sua casa civil. Ora, essa reclamação é uma atitude ‘moderna’, faz-se a partir da leitura critica dos textos evangélicos e da sua injunção de serviço, das três oposições aos emblemas dos poderes sociais. Assim os socialismos utópicos terão frequentemente motivos cristãos explícitos, como é o caso do inglês G. Winstanley (sec. XVII), desde os tempos medievais que as ditas heresias (Valdenses, Joaquim Fiore, Jan Hus, Muntzer, Anabaptistas) foram suas antepassadas. A filosofia de movimentos espirituais como a chamada devotio moderna ou o pietismo, será de ordem platónica, vincando tudo o que é invisível, destacando-se inclusivamente da própria liturgia e dos seus rituais. É a salvação das ‘almas’ após a morte que, como sempre, é o mote decisivo, mas ainda com referências às oposições evangélicas: poder-se-á dizer que a secularização encontrará no fôlego destes movimentos um suporte que traz os objectivos de mudança para o social e politico deste mundo. Mas o próprio marxismo se formulou teoricamente a partir duma ‘inversão’, que se pode dizer secularizante, da dialéctica hegeliana e da sua matriz teológica: a solidariedade cristã do amor do próximo pode-se dizer que é revertida secularmente no lugar essencial do proletariado na revolução comunista. Completar-se-á assim em parte, que se trata aqui de questões que nunca trabalhei, a perspectiva sobre a secularização política aberta por C. Schmitt.

A secularização da busca do saber, do ‘espiritual’ ao ‘intelectual’
19. Se a Physica de Aristóteles é “o livro de fundo da filosofia ocidental” (Heidegger), isso foi devido à maneira como Tomás de Aquino o introduziu no pensamento medieval: desde ele até Galileu pelo menos que se lhe chamou “O Filósofo”. Ele ganhou com efeito o lugar proeminente nas universidades em que a Teologia era a disciplina principal, de que a Filosofia era a ‘ancilla’, como disse acima. Aonde quer que, do século XVI ao final do XVIII, se encontrem autores para dizerem mal de Aristóteles, quase todos os modernos, temos aí a confissão de que foi com ele que aprenderam a pensar e a criticar, e que o criticaram também a ele. Se o anti-aristotelismo é pensar ‘contra’ Aristóteles, é sempre o segundo tempo dum pensamento que foi feito a partir dele. Galileu di-lo claramente no Diálogo dos grandes sistemas: “Aristóteles retirado da sua cátedra, a quem recorreríamos nós para pôr fim às nossas controvérsias? Que outro autor seguir nas escolas, nas academias, nas universidades? Que outro filósofo tratou de todas as partes da filosofia natural com tanto método, sem negligenciar a menor conclusão particular?” (ed. 1966, pp. 161-2). Ora, a critica da modernidade é anti-aristotélica: é Platão, o mestre que ele criticara na Academia, que ocupa agora a posição critica. Os seus textos foram traduzidos para latim na segunda metade do século XV – à boleia dos livros impressos, das naus atlânticas e do humanismo renascentista por estava a começar a modernidade europeia –, abrindo a possibilidade de o platonismo de Descartes (penso = existo como coisa cogitante) se tornar por sua vez crítico do aristotelismo e fecundar cientistas e filósofos europeus, formados na universidade com as problemáticas e conceitos de Aristóteles mas sendo na sua maioria enquanto inventores marginais à universidade, até que as reformas desta no século XIX, a partir de Humboldt, desalojou a teologia e o aristotelismo de vez e entregou a formação dos estudantes aos cientistas e aos pensadores modernos. Esta marginalidade do pensamento e do ‘labor’ científico que veio a fecundar a modernidade pode ser lida como um fenómeno de secularização, a do ‘sopro’ para a razão e a liberdade: em vez de irem para os movimentos espirituais nas margens das igrejas, os jovens foram para os movimentos intelectuais as margens da escola, criando as condições da sua reforma, que a pudesse tornar na instituição holística do mundo do saber e da busca da sabedoria, substituindo as igrejas cristãs.
20. Ora, esta secularização da busca do saber fez-se pela escola mas também pela edição industrial de livros desde o sec. XV, sem a qual a escola não se teria expandido. A edição de jornais, que se generalizou lentamente a partir do sec XVII, veio criar condições de debate politico, fomentando uma opinião pública entre os s suficientemente escolarizado que sofreu um incremento notável no sec XIX com a generalização da escola e dos movimentos políticos e sindicais. É no sec XX todavia que há uma mutação deste fenómeno, que se caracterizou por aquilo que os americanos chamaram ‘médias de massa’ com sons e imagens em movimento, rádio, cinema, televisão, discos, com expansão paralela à da formação do que se chama ‘classes médias’, caracterizadas pela urbanização em apartamentos de prédios, pela escolaridade liceal e por ofícios em escritórios e equivalentes. Há dois grandes tipos de modo de produção destes médias, os que distribuem geograficamente o que produzem, livros, jornais e revistas, discos, filmes, e os que emitem directamente a sua produção por ondas electromagnéticas recebidas em antenas nas residências familiares. Ora, este tipo de produção de imagens, músicas e discursos, em que é de sublinhar a sua incompatibilidade com os livros, ganhou um alcance holístico que prolonga o da escola obrigatória e concluindo de facto a substituição das igrejas holísticas de antanho. Mas ambos estes tipos de produção, por distribuição geográfica e por emissão de ondas para antenas, jogam o que se chama ‘comunicação social’ de forma unidireccional, de emissores para consumidores, o controle democrático fazendo-se por via da publicidade, cujas finanças procuram os médias de maiores audiências e tende pois a uma mediania, senão a uma ‘mediocridade’ que bate certo com ‘médias’ para classes ‘médias’. Provavelmente como as medianias religiosas de outrora.

O messiânico e a democracia
21. É aqui que a Internet, a ‘rede entre’ computadores, aparece com uma novidade que pode oferecer possibilidades de ‘comunicação social’ sem a estrutura unidireccional de emissores para consumidores, já que a existência de publicidade e o papel dos ‘servidores’ não interfere directamente com o jogo dos utentes em seus computadores e equivalentes: embora este jogo também tenha a ver com os usos gerais dos outros médias e com as suas ideologias, esta ausência de pólos de produção de discursos aproxima-se mais da concepção de democracia à maneira de Claude Lefort, embora se deva ressalvar que os médias, desde a televisão que parece manter um lugar proeminente, estão abertos a correntes de opinião razoavelmente contrárias e contraditórias entre si, com excepção é certo das propostas ‘extremas’ em relação às medianias correntes: privilégio das médias (estatísticas) e dos centros, com alguns ‘pensamentos únicos’ em economia e finanças.
22. Segundo Lefort, que cito de segundas mãos, a democracia define-se pelo lugar vazio do poder politico, vazio de ideologia, entenda-se, do nazismo como do comunismo, de qualquer partido politico que, de ‘parte’ que exclui as outras ‘partes’, se situa como ‘parte única’, vazio de ‘verdades’. Como deveria excluir o pensamento neo-liberal que hoje predomina na União Europeia e tanto mal nos fez: as decisões politicas fazem-se a partir de debates da opinião pública, entre os que (partidariamente) das suas ‘partes’ relevam. O ‘poder’ (-cracia) do ‘povo’ (demos-) em seus conflitos, insiste Lefort. O que chamei messiânico – motivo de filosofia politica de vários autores de confissão judaica que não li[6]– desenha o horizonte da democracia, que, tal como a justiça e a paz, nunca estão realizadas, são sempre a recomeçar. O que não significa um adiamento sistemático. Com efeito, pode-se dizer que a Cristandade medieval, que os movimentos espirituais ‘contestaram’ vitalmente, foi organizada sob a égide do ‘Deus de mortos’ e que a sequência das guerras de religião dos sec XVI e XVII foi, em França nomeadamente, os regimes absolutistas de ‘reis pela graça de Deus’, em que o ‘Deus de mortos’ ficou no lugar de cobertura de César, até que a revolução francesa viesse decapitá-lo, republicanamente. Reis nórdicos e presidentes da república ocuparam o lugar burguês de César, de que Hitler, Mussolini, Salazar e outros se apoderaram como afirmação de César “acima de todos”, de quem os parlamentos democráticos devem limitar os poderes. A globalização financeira e cibernética veio a delimitar o ‘poder politico’ quando o religioso já se tornou minoritário e os médias o substituíram: que os Estados, governos e parlamentos, não tenham senão o poder que o sistema financeiro, em suas concorrências especulativas, lhes deixa (um pouco como os governos nacionais fizeram aos governos municipais), mostra como o Dinheiro finalmente suplantou César (Kaiser, czar) que suplantara o Deus de mortos.
23. Mas não são só as finanças que justificam que o Dinheiro seja hoje o ocupante do lugar do poder, basta pensar no papel que ele tem em todos os orçamentos empresariais e familiares, que faz com que ele seja o mais desejado de todos os bens (sem ser outra coisa do que um meio de troca de bens!) por praticamente toda a gente (como atestam as lotarias), porventura o único ‘laço social’ que nos une a todos. A questão democrática então seria a de saber se é possível, não acabar com o dinheiro, mas, por exemplo, tornar a redistribuição das riquezas igualitária, justa. Tratar-se-á em qualquer caso,, na sua radicalidade messiânica, de ‘esvaziar’ este lugar de poder social, este obstáculo democrático. Foi o que os espirituais sempre buscaram, cuja forma secularizada hoje são os inumeráveis que dedicam as suas vidas, ou são dedicadas porque tem que ser, a alguma das causas sociais impossíveis, às misérias que a globalização tem fabricado por esse mundo fora. A esmagadora maioria anónimos e tantos deles não crentes nas religiões tradicionais, os não corruptos nas tarefas várias, económicas e politicas, mas também nos médias e nas artes, no pensamento e na animação cultural e social.
24. As igrejas cristãs têm conhecido crises fortes em consequência da secularização, a crise católica francesa entre 1965 e 1978 sendo contada pelo sociólogo D. Pelletier[7]. É certo que elas têm um lastro religioso terrível, como se vê com os evangélicos americanos de extrema direita, que devem fazer perder a paciência a tudo o que seja padres ou pastores. Mas pode-se pensar que a secularização as empurra para voltarem a ser movimentos espirituais messiânicos no contexto da actual modernidade, local como global, problemas insolúveis é que não faltam.




[1] Em que publiquei o texto De la fécondité spirituelle, no meu blogue em francês sobre questões do cristianismo.
[2] Meu e.book Da Natureza à Técnica, da Modernidade antiga à moderna.
[3] https://www.cairn.info/revue-les-etudes-philosophiques-2004-1-page-65.htm
[4] Título duma obra ‘pastoral’ do papa reformador Gregório Magno (590-604)
[5] Qu’est-ce que le christianisme? Essai de phénoménologie historique.
[6] Pierre Bouretz, Témoins de futur. Philosophie et messianisme, Gallimard, 2003. Trata de Hermann Cohen, Franz Rosenweig,Walter Benjamin, Gershom Scholem, Martin Buber, Ernst Bloch, Leo Strauss, Hans Jonas, Emmanuel Levinas. Não inclui todavia Derrida (não confessional?), cujos textos de ética e politica, das duas últimas décadas da sua vida, conheço pmal.
[7] Denis Pelletier, La crise catholique : religion, société, politique (1965.1978).Payot, 2002