domingo, 20 de dezembro de 2015

A descoberta heideggeriana : a doação retirada da fecundidade




1. A todos os níveis das coisas, nossas humanas e históricas e sociais, nossas biológicas com plantas e animais, e as dos astros e as da nossa Terra tão única e rara, rochas e vulcões, chuvas, rios, mares oceânicos, atmosferas que respiramos, em todos esses níveis o que há foi doado por algo que não sabemos dizer – Ser, Ereignis ou Acontecimento, disse Heidegger no singular – onde há energias que trazem (e são trazidas por) diferenças repetidas que jogam a fazer lugares (de espaços) e momentos (de tempos), ou seja movimentos muito variados, evoluções crescentes e minguantes, nascimentos de pequeninos que se tornam grandes e acabam morrendo. O retiro de tais doações, eis o que singulariza o que assim vem como acontecimento que continua a acontecer; o seu plural infindável impede de as divinizar em panteísmos: enigmas incessantes de jogos inacreditáveis que fazem a felicidade de artistas, cientistas, de todos os que se deixam arrebatar pelo inexplicável.
2. A doação retira-se, dissimula-se, como condição da fecundidade do que é doado: retira-se a força do outro doador (heteronómico), deixando ao rebento autonomia de crescer, deixando ao que nasce a sua fecundidade na cena em que veio à luz, fecundidade de vir também a doar fecundidades. Quando se lê o primeiro capítulo do primeiro livro da Bíblia hebraica, percebe-se que a ‘criação’ que ele conta é justamente a doação da fecundidade, dita ‘bênção’, e que o doador ao sétimo dia se retirou, deixando as fecundidades fecundarem-se, como se não precisassem dele. Assim como a leitura do primeiro capítulo do segundo livro da Physica de Aristóteles por Heidegger (Questions II) é a redescoberta da phusis (natureza em latim) como movimento fecundo, tendo no final o pensador ido buscar a Heraclito ("a natureza gosta de se esconder", aforismo 123) o motivo do retiro do poder (archê) da phusis, que vem assim completar Aristóteles, o qual aliás já deixara o seu primeiro Motor retirado do que doara. Termos chegado com a biologia do século findo a compreender, no que aos vivos diz respeito, o segredo molecular da sua fecundidade que doutras vem indefinidamente, permite-nos prescindir de qualquer primeiro, criador ou motor, na origem, como descobriu por seu turno Derrida, sendo a repetição, ou seja, toda a origem é mítica, a começar, em cada um de nós, o nosso nascimento de que só sabemos o que nos contaram, nosso mito inacessível.
3. A Terra é fecunda pois, de vida pois, que lhe veio dos mares em que ela se formou e dos ares que jogam na doação (fotossíntese e respiração) da complexidade evolutiva. Mas também os seus vulcões lhe fecundaram as rochas e os solos da crosta, tal como os físicos reconhecem as estrelas como que fecundas em suas combustões que produziram átomos e moléculas da grande variedade terrestre que a tabela periódica gloriosamente organizou. E voltamos ao problema da origem, da repetição originária, à questão de saber como foi antes desses primeiros astros, das estrelas. Acho que ninguém sabe, não percebo como nuvens de partículas sejam susceptíveis de doação retirada, de evolução fecunda. Aceito a data que os físicos calculam para o big Bang, mas deste desconfio, é mono-teológico demais: é o mito dos físicos.

domingo, 29 de novembro de 2015

O sonho do califado



1. O que os diversos fundamentalismos religiosos que se manifestam no nosso mundo actual – extrema direita americana evangelista, integrismos católico, judaico e islâmico – têm em comum é a recusa global dos excessos libertários, mormente em matéria de costumes sexuais, que as televisões exibem como depravação do mundo ocidental desenvolvido. Uma questão prévia aos massacres desde o 11 de setembro ao 13 de novembro é a de saber porque é que apenas o mundo árabe muçulmano tem fornecido a forma terrorista-bomba que nos assombra desde as torres de Nova Iorque, que imola igualmente os que a provocam juntamente com as vítimas inocentes indiscriminadas, o horror ético de ‘darem a vida’ para matar criminosamente. Não tenho resposta para ela, nunca estudei o Corão nem a história que ele iniciou, apenas uma sugestão arriscada que permite gizar a noção de Califado, reclamada como meta politica pelos guerrilheiros da Síria e Iraque.
2. Semelhante à Cristandade medieval como forma religiosa unificadora de várias sociedades, o Califado difere dela por representar o que foi o auge da civilização muçulmana sem rivais na época, enquanto que a Cristandade, que aliás beneficiou da cultura árabe, foi apenas um início de que a modernidade se afastou. Durante os seus Séculos de Ouro, ignoraram os bárbaros europeus, até estes aparecerem a barrar-lhes os caminhos dos negócios e sobretudo quando, já modernos, manifestaram uma capacidade tecnológica que eles ignoravam e muito os surpreendeu. Diferença também e sobretudo na organização antropológica a que Germaine Tillion chamou “o harém e os primos”, visando as comunidades familiares endogâmicas (E. Todd, O terceiro planeta), com prioridade do casamento entre primos de primeiro grau, criando conjuntos vastos sem ‘cunhados’ entre eles. Este patriarcado fortemente machista (as burkas femininas são uma defesa contra os homens de fora) dificulta os acordos entre as ‘ilhas’ familiares, é talvez o que dificulta o regime democrático de discussão e eleições em ordem a Estados modernos: oscilam entre formas de liderança ditatorial laica ou de fraternidades islâmicas, a Turquia, de tradição imperial e não árabe, está a voltar para trás.
3. Reclamar o Califado como vasta unidade politico-religiosa, exprimiria uma homogeneidade de costumes muçulmanos opostos aos modernos ocidentais, sonhando integrar nela as técnicas ocidentais (sem saber que estas são parte essencial da desconstrução dessa homogeneidade, conforme sucedeu na Europa), excluindo as relações com o Ocidente desmoralizado e ateu; mas exprimiria também um ressentimento histórico, o dos ‘homens’ muçulmanos face aos europeus que conseguiram desenvolver-se mais do que eles. A pulsão agressiva (machista, o prémio são as virgens no céu) que vitima também os seus portadores teria aí raízes antropológicas e históricas, a que a grande maioria da população muçulmana é obviamente alheia, querendo uma vida melhor, a que vêem nos écrans das televisões.
4. Há já alguns anos que pensava que não haveria, pelo menos tão cedo, uma 3ª guerra mundial, que de vez em quando há quem anuncie. Numa sociedade globalizada, os poucos que possam decretar uma guerra mundial têm interesses em todo o lado que lhos impedem. Há, sim, a guerra económica, de que temos sido vítimas, nós todos que dependemos da banca. Mas este ‘acto de guerra’ (Hollande) parece significar que uma guerra mundial começou com o 11 de setembro e com os Bush-Blair a invadirem o Iraque, continua com a França, os EUA e a Rússia a bombardearem a Síria, a que ‘eles’ ripostam em Paris. Bagão Félix, no Público de sábado, 21, citava o Papa Francisco em junho deste ano, em Sarajevo, a falar na “3ª guerra mundial travada por pedaços”: será este um novo tipo de guerra na história. E dá alguma razão a Huntigton, não que seja guerra de civilizações, mas tem algo disso, já que vinda dos que parecem incapazes de se modernizarem e detestam a ‘imoralidade’ ocidental, que fazem esta guerra não para conquistar o que quer que seja (Loureiro dos Santos) mas por pura raiva, explodindo-se. É a esta raiva que o ‘sonho’ do Califado dá um título ‘nobre’.

domingo, 1 de novembro de 2015

Determinação e desconstrução



1. Determinação, juntamente com delimitação e definição: são três termos das línguas latinas que tendo uma etimologia equivalente – de terminus, limes, finis, respectivamente, os três dizendo ‘fronteira’ –, mas com diferenças; delimitação ficou mais perto da fronteira da raiz comum, definição tecnicizou-se em precisão pelo seu uso filosófico, enquanto que determinação ganhou um sentido causal que as outras duas não têm, como é claro por exemplo na palavra ‘determinismo’ ou na expressão ‘uma pessoa determinada’. Donde lhe veio esta diferença? Não sei, busquei em dicionários, de português (Houaiss), de latim (Gaffiot), de filosofia (Lalande), nenhum se ocupa dessa diferença. Acontece que a palavra ‘determinação’ (que Derrida, desconstrutor, confessou uma vez que detestava) me parece útil para dizer a diferença entre duas operações decisivas da história do pensamento ocidental, a definição e o laboratório científico. Este consiste em construir ‘condições de determinação’ para as experimentações a fazer nele, incluindo os dois sentidos da palavra, aquele que ela tem em comum com definição e delimitação – estabelecer limites, fronteira com o seu fora – e o de causalidade, que lhe é próprio: os limites do laboratório implicam guardar apenas um efeito de causalidade ‘determinado’, aquele que há que analisar, que justifica o conhecimento que traz o laboratório. Assim, nas análises de movimentos e forças, há que eliminar os efeitos contrários de atritos e resistência do ar, para se assegurar quanto possível uma só ‘determinação’ a jogar no fenómeno medido. ‘Quanto possível’: por exemplo, a lei de Boyle e Mariotte, que relaciona volumes, pressões e temperaturas de gases, é chamada “lei dos gases perfeitos” porque nenhum gás consegue corresponder exactamente à fórmula da lei, a condição de determinação não é conseguida completamente com nenhum deles.

2. O dicionário de latim indica como um dos sentidos de ‘determinar’ o de ‘regular’, introduzir regras (exemplo meu: um chefe que determina as regras no domínio que coordena), e o filosófico a certa altura fala no uso psicológico do termo, alguém determinar-se ou decidir-se, decisão sendo uma consequência da definição, que de-cide incluir um só sentido, aquele que é definido, e deixar de fora os outros sentidos polissémicos da palavra definida. Ora, alguém determinar-se ou decidir-se (a fazer qualquer coisa) implica uma delimitação, uma determinação pois, mas também um efeito consequente, uma causalidade: uma regra diz ambas as coisas, delimita o que fazer dentre vários possíveis. Seria pois talvez este sentido psicológico que se terá afirmado com a invenção do laboratório e gerado o termo determinação como causalidade, depois regra ou lei científica; só um especialista de filosofia medieval poderá dizer a pré-história do termo nas disputas e especulações que anteciparam a Europa por vir.

3. Então, inesperadamente determinação aproxima-se de regulação. Esta, na fenomenologia que tenho elaborado com Husserl, Heidegger e Derrida como leitores das principais descobertas científicas do século deles, diz que as regras científicas não são a ser pensadas de maneira determinista, segundo a substancialidade metafísica do aristotelismo medieval – causa como efeito duma substância sobre outra substância, uma bola de bilhar que choca com outra e a põe em movimento – mas como regras recebidas da cena de circulação no aparelho regulador do móbil que atende às circunstâncias do tráfego dos outros móveis: as regras jogam em contextos aleatórios, tenho insistido frequentemente nesta tese, a qual responde justamente à definição gramatológica de jogo, “unidade do acaso e da necessidade num cálculo sem fim” (texto “La différance” das Margens. Da Filosofia, de Derrida, p. 9 da ed. fr.). Se for verdade que tanto rochas, oceanos e atmosferas como plantas e animais, sociedades humanas e seus usos e textos, máquinas e por aí fora, se for verdade que todos estes ‘entes’ de que as ciências analisam as regras são duplamente enlaçados, duplos laços que incluem regulação ao acessório da respectiva cena, se justamente não há nenhum determinismo na face da terra nem nos seus interiores, percebe-se que se justifica a repulsa da palavra ‘determinação’ por Derrida: ela diz o contrário do jogo, mas diz também que o seu equivalente fora do laboratório – ‘regulação’ – permite um passo além da desconstrução que a prolonga como reconstrução, a qual faz justiça à exigência da desconstrução – tudo é jogo – mas lhe acrescenta um novo patamar de racionalidade não metafísico, fenomenológico, gramatológico.
4. Foi esta parte de aleatório em tudo o que se usa, diz e faz que moveu os Antigos para o conhecimento, os socráticos tendo inventado a definição e os europeus clássicos o laboratório científico, as duas grandes etapas da construção do que chamamos razão. Mas é por esta razão se ter excedido fora dos seus argumentos e dos seus laboratórios, excessos como poluição e como crises económicas e financeiras, além de outras, que guerras sempre as houve mas as armas da razão tecnológica são mortíferas de forma obscena, foram estes excessos maléficos da construção moderna que necessitaram da desconstrução. Coube-me a modesta e ambiciosa demais aventura fenomenológica de vislumbrar uma necessária reconstrução que permita compreender, não as coisas em seus trajectos mas as suas possibilidades, segundo as regras dos jogos a que são dadas: é, por exemplo simples, o que podemos conhecer dum dado automóvel.
5. Seguir-se-á alguma coisa? 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Rotina e Acontecimento


1. A rotina tem má fama, como repetição monótona para quem a faz, a suporta, ou até quem a paga, em contraste com a inovação, a mãe de todos os progressos, das surpresas boas, das boas razões de viver. E no entanto... andar é uma rotina das pernas, ora uma ora a outra a tomar a dianteira e a deixar a outra para trás, o avanço dependendo de ambas sem que nenhuma tenha primazia, a rotina da cozinha em que se faz uma sopa é necessária para não se demorar uma hora à espera que se acerte com o resultado de que esfomeados estão à espera, guiar um carro implica uma rotina de gestos de que muitas vezes nem se dá conta de que se os fez, o cirurgião que tem um caso complicado não salta rotinas nem o grande cozinheiro que prepara um menu de banquete real. A mais engraçada das rotinas nós nem damos por ela ainda que o quiséssemos, é como ao escrever isto, ou ao falar, as regras das frases se encadeiam umas nas outras para que elas saiam com o sentido que move a escrita ou a conversa, ainda que se trate de descobertas inéditas. Estes poucos exemplos que se podem multiplicar indefinidamente implicam todos, se se reparar bem, que as rotinas correspondem ao resultado conseguido satisfatoriamente de aprendizagens, algumas longas de experiências repetidas, de longas rotinas de especialistas pois, outras vindas desde os alvores da infância a toda a minha gente.
2. Tenho insistido muito, nestes meus textos, sobre o motivo da aprendizagem, sobre esta maneira espantosa de os usos da tribo se fazerem os usos de cada um dos seus indígenas, da passividade que recebe e se torna actividade que age, sem dois tempos nem oposição entre contrários. Ora bem, o que é que se aprende? Rotinas, exclusivamente! Porque se parte do não saber fazer, do não ser capaz, para se chegar ao jeito espontâneo e hábil de fazer em circunstâncias diversas: ‘dá cá, que eu sei como é que se faz’, diz quem sabe a rotina. E se se pensa em alguém que quer montar um negócio, fábrica, atelier, escola ou loja, ou o que seja, além das questões de financiamento e de local que enfrenta, só se pode dizer que ‘já está!’, quando uma rotina se instalou entre os vários membros da equipa. Ou julga-se que algum patrão paga salários para cada pessoa fazer o que lhe dá na real gana? Tu fazes isto, e tu encarregas-te daquilo, etc., o organigrama é o mapa das rotinas.
3. Quanto a acontecimentos, tanto podem ser bons como maus, coisas que correm bem quando as rotinas vão funcionando ou correm mal; o acontecimento resulta sempre de rotinas de outros que jogam com estas e dão um resultado que à partida é imprevisível, uma aposta que se ganha ou se perde. O que define acontecimento é que acontece a mais do que um, é a sua imprevisibilidade por efeitos múltiplos, responda ou não a planos que se fazem, pode ser um êxito inesperado ou uma catástrofe qualquer, de clima ou revolução social, doença de alguém decisivo, é sempre surpresa, boa ou má; em ‘surpresa’ há ‘presa’, quem a recebe fica atado momentaneamente na sua reacção ao que lhe vem (‘sur’ como ‘sobre’), ‘preso’ no que a-prendeu, se posso assim brincar com estas palavras. Diante do acontecimento, o que se aprendeu não nos serve imediatamente, há que improvisar.
4. Improvisar é difícil, como todos sabemos. Dar um salto diante dum buraco quando vamos a andar na rua pensando em qualquer assunto complicado, o leite a ferver que transborda para o fogão, reagir a uma má notícia sobre um familiar próximo ou a um insulto despropositado, querer dar a volta numa assembleia que foge em sentido contrário ao que se quer, sei lá. Não se aprende a improvisar, por definição quer de aprendizagem de rotinas, quer de acontecimento. Porque as rotinas que se aprenderam foram, não propriamente improvisadas, mas inventadas, o que é o mais difícil em tudo isto: as invenções são lentas, as mais quotidianas, que nem sabemos quem as inventou ou quando, foram se fazendo ao longo de muitas gerações, as receitas de cozinhas e as regras das falas, como Newton, esse tão grande inventor, dizia citando um medieval que “era um anão aos ombros de gigantes”. Mas as dele também pediram muito tempo de estudo e experimentação, com algumas fulgurações por vezes, como a célebre maçã que viu cair e lhe fez pensar que alguma força a tinha feito cair, a que veio a chamar força da gravidade e disse não saber imaginá-la, e ainda há 50 e tal anos Feynman dizia que os físicos não sabiam o que é uma força de atracção a distância. Inventar é moroso e raros o conseguem, releva do acontecimento e mete também muita sorte, aprender o que eles inventaram torna-se depois mais fácil para muitos, consoante aquilo de que se trata, uma rotina em qualquer caso, mas que pode ser muito complexa, como a do cirurgião.
5. A rotina é feita de pequenas repetições que quase não pedem atenção, que muitas vezes permitem que se vá conversando de outra coisa entretanto, a fazer a sopa ou a guiar um carro. Mas podem sempre oscilar para acontecimentos que a surpreendem e desarmam e pedem improviso; ‘oscilação’ aqui significa que não há oposição entre ambos, uma rotina é uma espécie de acontecimento de grau zero que pode sempre complicar-se e chocar com outras, gerando acontecimentos de graus fracos que podem também oscilar em certas circunstâncias para graus mais fortes. Uma espécie de escala de acontecimentos partirá das coisas que nos sucederam e contamos em casa ao jantar, depois as que contamos também aos amigos a quem telefonamos, enfim as que anos mais tarde ainda contamos; depois há as que vieram como breve notícia num jornal local, as que deram notícias em vários médias, depois em todos, e assim sucessivamente até às que entram na história, em notas de rodapé, depois um capítulo dum livro, até aos acontecimentos históricos que desafiam as escalas.
6. Este motivo de oscilação entre pequenas repetições e acontecimentos mais ou menos inesperados encontra-se também nas disciplinas científicas ditas ‘naturais’. Desde uma pedra que caia a um vulcão que entre em actividade e um sismo, sem contar com todos os movimentos dos vivos na terra, os acontecimentos da cena da gravidade são muito variáveis, assim como as transformações químicas que eles tornam possíveis. Na Biologia, o jogo das células dos variados órgãos dum animal implica as pequenas repetições que os biólogos estudam aos vários níveis da sua anatomia, das quais as mais acessíveis ao leigo são duas automáticas, a da circulação do sangue e a da respiração, esta aliás visando aquela, cujas oscilações homeostáticas entre níveis mínimos e máximos dependem de acontecimentos digestivos entre fome e saciedade; as dificuldades animais em encontrar presas ou o susto de fugir de ser presa de outro mais forte são acontecimentos que oscilam com essas rotinas celulares e anatómicas, enquanto que em nós um banquete de festa joga como acontecimento forte, indigestões ou bebedeiras podendo estragar-lhe o prazer gastronómico. A rotina respiratória mantém-se no sono e no coma, sabemos que alguém adormeceu pela regularidade que lhe ganha o respirar até à oscilação do bocejar matinal, enquanto que os acontecimentos tanto são a tosse e um ambiente irrespirável como um bom charuto ou perfume, o coração que bate no amor ou na entrada em cena, num exame, uma corrida, fuga ou combate... Mas a respiração intensa, que é em geral acontecimento, pode treinar-se – treinar é ganhar rotinas – num atleta, numa cantora de ópera, num trompetista, visando outros acontecimentos, vitórias, recordes, concertos. Mas treinar não ensina a acontecer numa cena entre vários, o acontecimento surpreende, corta o fôlego, faz bater o coração, acelera o sangue, suscita reacções rápidas e intensas sobre as pequenas repetições da rotina que ele revolve, sem que se saiba como.
7. Os usos quotidianos, em família – a higiene, a culinária, a lavagem da louça e da roupa, as refeições – como nos empregos as burocracias e as cadeias de montagem, trata-se de gestos repetitivos em que ‘não se passa nada’, de tarefas sempre a recomeçar, com pequenos acontecimentos da variabilidade dos dias e dos comparsas, cujos acontecimentos mais óbvios e esperados são as férias, de que os fins de semana são um anúncio em ponto pequeno; mas os acontecimentos sociais que dão mais azo à surpresa, são uma greve, uma revolução, um tremor de terra, uma epidemia, uma guerra e os seus desalojados que buscam refúgio. Usos são rotinas aprendidas que, por essa definição, resistem à mudança, às reformas, tanto mais quanto mais velho se for: porque são esses hábitos que outros querem fazer mudar que asseguram a nossa habilidade e o nosso talento.
8. Igualmente a linguagem é feita de repetições, como indica o teclado dos computadores onde estão as letras e outros sinais que se repetem constantemente, uns mais do que outros, é claro, nas palavras que dizemos e escrevemos, assim como estas se repetem, também umas mais do que outras, nas frases que delas são feitas, com regras fortes e outras mais subtis, mas que são condição de entendimento entre os que falam, ouvem, lêem, e ainda se repetem nos paradigmas de todo o tipo de corpus de textos, científicos, administrativos, jornalísticos, e por aí fora. A não consciência por quem fala e por quem ouve, escreve e lê, das múltiplas regras da língua – só se atenta nalgumas palavras e expressões que se repetirá se se quiser resumir o dito – é condição energética da fala e da escrita, essas regras agenceiam-se como que automaticamente na espontaneidade do falar e escrever. Qualquer discurso ou texto, sendo singular, releva do acontecimento, mas na banalidade dos dias jogam como repetições sem grande incidência acima do grau zero, ao contrário do que acontece quando o meu interlocutor me surpreende e o coração se me acelera, engasgo-me sem encontrar logo o que responder: são as pequenas repetições rotineiras que resistem se a rapidez duma resposta à altura não me é dada, não me acontece. Mas os acontecimentos aqui são sobretudo os textos literários, poesia e pensamento, os textos que se veneram e transmitem de geração em geração, o poema sendo uma solução do desafio essencial entre o seu pensamento e a sua música, o seu canto oral, indiscernível a diferença entre o que se busca e o que acontece.
9. Quanto às oscilações no domínio atómico e molecular da Física e Química, a questão é complicada, tratei dela nos §§ 34-41 do cap. 8 do meu Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida (l’Harmattan, 2007), em torno dos electrões quânticos, disponíveis a movimentos vários, transformações químicas, hidro e termodinâmica, electricidade e magnetismo, óptica, as suas oscilações permitindo relacionar entre elas estas várias regiões de fenómenos (mas hei-de confessar que quinze anos mais tarde, fora do contexto de leituras que me permitiram essa escrita, tenho dificuldade em acompanhar os raciocínios). De qualquer forma, a oscilação nela mesma, em qualquer um dos domínios científicos que se considere, vida, sociedade, linguagem, é um fenómeno estritamente de ordem física: as pequenas repetições da rotina e do hábito são estádios de despesa energética mínima, de poupança de fadiga, evitando os acontecimentos que, ao contrário, cansam, desgastam, pedem recuperação da energia dispendida em demasia.
10. Os §§ 20-28 do cap. 7 e os citados acima do cap. 8 propõem uma (entre quatro) tese de ontologia desta fenomenologia de filosofia com ciências: todos os entes, materiais, vivos, humanos, linguísticos e outras estruturas sociais, são susceptíveis de oscilações entre rotina e acontecimento, tese que depende do motivo da produção de entropia de Ilya Prigogine, o químico belga de origem russa que foi Nobel em 1977 graças à sua descoberta das estruturas dissipativas, das estabilidades instáveis da bioquímica do metabolismo celular. Essa entropia positiva, que explica a entropia clássica de Clausius como sua degradação, é um fenómeno universal, donde a possibilidade duma tese ontológica que tenha em conta os fenómenos de energia (não esquecer que este termo releva da definição aristotélica de movimento entre dunamis e energeia, vem das origens da filosofia ocidental). Esses entes, que se movem / são movidos em seus estados entrópicos oscilantes, foram tratados nesse texto através da categoria derridiana de duplo laço, um deles formando estritamente um motor fortemente repetitivo, o outro formando um aparelho que assegura a regulação do movimento na cena de circulação, tendo sido esta que lhe deu as regras na sua própria anatomia de aparelho. É este aparelho regulador que é o lugar das oscilações entre rotinas de pouca energia dispendida e acontecimentos que sobrevêm mais ou menos inesperadamente doutros movimentos na circulação, como crise, que tanto pode ser de circunscrição limitada ao pequeno caso local como generalização que afecta uma zona maior da cena.
[no blogue filosofia com ciências, os 30 textos do dia 19/02/2008 expõem um resumo das principais propostas da obra citada]

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Se o problema é o desemprego...



1. Porque faltaram os empregos no Ocidente? Por duas razões: pela deslocação das indústrias que precisam de trabalhadores para as zonas emergentes de salários baixos, pela robotização e computadorização das indústrias e serviços escriturários que ficaram com os despedimentos em massa respectivos e baixa de admissões. A esta razão de organigramas acrescentou-se a da nova teoria económica fortemente nobelizada vinda de Friedman e utilizada por Reagan e Thatcher para fomentar ganhos de capitais susceptíveis de ultrapassar o que ele achava ser a ‘estagnação’ das economias após os 30 gloriosos anos, regidos à maneira de Keynes, entre patronato e sindicatos, entre democracias cristãs e sociais democratas (a sério, não à PSD).
2. Ora, se o problema é o desemprego, não há solução para o P. S., nem aliando-se à esquerda nem à direita, mas também não a há para a direita sozinha, ainda que tivesse a maioria absoluta. Porque é o emprego que decide os votos da dita classe média, a dos que vivem de salários médios ou fracos e a dos que aspiram a eles e não os têm. Como é que se criam empregos, ou se cresce economicamente, com a dívida monstruosa e a mão de ferro do Eurogrupo, dum grupo de contabilistas financeiros a quem as economias locais e as democracias são alheias? Os resultados eleitorais de 4 de outubro mostram, parece-me: 1) que o Bloco jogou como o Podemos ou Syriza que não temos porque o PCP não deixou outra hipótese (além da emigração das tais 4 centenas de milhar de emigrados), 2) que o PS com Costa se salvou do afundamento que porventura teria com o inseguro Seguro e 3) que a direita que tanto castigou quem trabalha ainda apareceu para muitos assalariados como o que poderá garantir segurança de emprego, porque está do lado do capital.
3. A solução possível é democraticamente impossível: não procurar redistribuir as mais valias económicas, o que o alto desemprego torna inviável, mas redistribuir os empregos, diminuindo os horários de trabalho. Não me parece que isso possa fazer-se por uma lei para toda a gente, à maneira das 35 horas semanais de Leonel Jospin, fora dum cenário de catástrofe que tornasse viável tal lei; mas será a sociedade civil – famílias e empresas – que deveria ir resolvendo as questões de forma local, com contribuição municipal e regional, de maneira a aliviar situações gritantes e governos impotentes.

domingo, 18 de outubro de 2015

Porque é que a Economia não é uma ciência exacta ?



1. Os economistas gabam-se de a ciência deles ser a ‘mais matemática’ das ciências sociais, mas enganam-se tantas vezes que não se percebe de que é que se gabam; pior, ultimamente revelam-se impotentes para obstarem às consequências terríveis duma especulação financeira que tomou os freios nos dentes e anda a comprar ao desbarato as economias produtivas mais frágeis, depois de as ter incentivado a desenvolverem-se com base no crédito fácil. Truques dignos duma qualquer fábula de La Fontaine, a inventar se não a há já. E vê-se a multidão de economistas de todo o gabarito a acharem que não há alternativa. Ciência exacta? Ainda que não exacta: que tipo de ciência?
2. Para vislumbrar uma resposta: o que é que faz da Física, Química e Bioquímica ciências exactas? Não é tanto a teoria interpretativa, que tem as suas falhas como qualquer saber de humanos, mas a sua dupla matematicidade: as equações  algébricas que se inventaram para dar conta das medidas de movimentos variados, deslocamentos, correntes eléctricas, transformações moleculares, etc. Ora essas medidas relevam da tradição geométrica que o século XVII algebrizou (curvas em coordenadas cartesianas correspondentes a equações) e têm a propriedade de os seus resultados, em unidades convencionadas, se destinarem a ocupar as variáveis dessas equações e a verificá-las (‘verdade’ duma ‘igualdade’), qualquer que seja a proximidade das interpretações teóricas delas, discutida frequentemente entre os cientistas. As medidas dependem de técnicas diversas (régua, relógio, balança, etc.), consoante a dimensão da experimentação laboratorial, e é usando por sua vez, de forma politécnica, as equações e aplicando as técnicas de medida que a engenharia constrói mecanismos capazes de movimentos concertados segunda as descobertas experimentais. Mas é sempre ao tipo de fenómeno singular, com experimentações científicas repetidas, que corresponde a equação física. Galileu mediu o tempo da bolinha a correr pelo plano inclinado com uma balança que pesava água, dizendo que “as diferenças e proporções” são as mesmas, ainda que com unidades de medida diferentes: a equação é sempre satisfeita com os diversos resultados de qualquer experimentação laboratorial concreta. Isto não existe em Economia.
3. Os fenómenos de cujo saber a Economia se ocupa são os do mercado, compras e vendas, segundo uma ‘língua’ de preços em unidades monetárias, oscilando conjunturalmente, língua que todos os agentes devem conhecer, já que é desses preços que se fazem os custos mais complexos dos orçamentos de cada unidade social, empresa ou família. Se se pergunta em que é que consiste o laboratório da Economia, percebe-se logo uma diferença importante: não há nada de geométrico nele nem de equações algébricas cujas variáveis correspondam a técnicas de mensuração. Essencialmente, o laboratório dos economistas, cuja manipulação lhes dá um saber que mais ninguém tem de outra forma qualquer, consiste nas estatísticas em seus arquivos, os principais sendo oficiais. Elas não podem ter em conta os fenómenos singulares do mercado, com é óbvio, cada compra e venda, cada custo e cada orçamento, e está aí uma primeira diferença em relação às ciências exactas: elas registam somas aritméticas de milhares desses fenómenos, contando com o ‘equivalente’ que a moeda é – outorgando preço – a qualquer mercadoria para não precisar de ter em conta as diferenças entre elas, adentro duma região de fenómenos estatisticamente seleccionados. Na estatística – interesse e limite dela –, os fenómenos económicos encontram-se misturados e quanto mais se subir em generalidade económica, maior é a mistura. E o que é que se sabe que releve de cientificidade? Movimentos sociais económicos, dados pelas diferenças entre estatísticas correspondentes a dois períodos de tempo, comparando as respectivas taxas: estas não têm dimensão, apenas cresceram ou diminuíram. Por definição de ciência social, o ‘singular’ desaparece, donde que nenhuma técnica exacta seja possível aos economistas, cujo saber é sempre de aproximações (nunca há 100%), sempre com uma forte componente de interpretação.
4. Ora, esta é necessariamente politica e a razão é simples. Se alguém preocupado com a solidariedade social pode pensar que o fenómeno crucial da Economia enquanto ciência seria tratar a maneira de decidir a partilha justa do que se ganha com a venda do que abastece o mercado de mercadorias entre os lucros dos que investem o capital na maquinaria e os salários dos que laboram com esta, deverá saber que não há nenhum critério rigoroso, aritmético ou científico para essa decisão: os seus critérios são sempre políticos, de concertação ou de luta social, com intervenção ou não do Estado. Ora, nas estatísticas, os lucros vêm nas rubricas financeiras relativas ao capital, enquanto que os salários não aparecem, vêm na contabilidade dos “custos sociais”, a dimensão politica essencial entre ambos não joga nas interpretações feitas com base nas estatísticas que os economistas fabricam e consultam, fica escondida nelas. O que se chama ‘neoliberalismo’ vive dessa trapaça.
Público, 22 de outubro de 2015 [ligeiramente modificado]

A fecundidade e o poder



       1. É o que há de mais extraordinário, que os vivos dêem vivos, os humanos humanos, o enigma maior do que os Gregos chamaram phusis. Foi a grande descoberta do Heidegger. Dar um bebé e deixá-lo ser, deixá-lo crescer o seu tempo vital, havendo nos mecanismos celulares compondo órgãos anatómicos o que é necessário à sua autonomia adulta, como se vê depois de os pais morrerem; mas já antes deixaram a casa dos pais, munidos duma anatomia de sobrevivência que se foi formando no ventre da mãe, no aleitamento depois do parto e por aí fora, no aprender a mexer na colher e a levar a papa à boca, a gatinhar e a fazer tem-tem, a andar e a dizer palavras ouvidas e depois frases, responder ‘não!’, aprender a saber do que ouve dizer que não viu, a ler mais tarde. É a tribo que é o lugar primacial deste milagre constante, desta possibilidade quase impossível, como mostra a diferença enorme dos resultados, todos singulares, com jeitos e faltas de jeito diferentes.
         (Sobre a "fecundidade espiritual", ver texto no blogue Questions au christianisme)
        2. O que se chama poder, enquanto substantivo, estrutura social, é uma limitação da fecundidade daqueles que lhe são sujeitos, que o sujeito é sempre a um poder que se sujeita, perdendo algumas das suas possibilidades, do verbo poder. Ora, a descoberta heideggeriana, de que o que dá ser deixa ser, permite perceber como é que esta questão do poder pode ser encarada, já que o crescimento das crianças implica o poder paterno e escolar que justamente evita possibilidades anarquistas dando disciplina às possibilidades como condição de ‘ser no mundo’, de que sejam, não apenas possibilidades do ‘ser’ humano mas também do ‘mundo’. Então o poder tribal, da família e da escola, deve ser doação para deixar ser a prazo: consoante aquilo que se trata de aprender assim os prazos da disciplina. A tabuada e as contas são para aprender só com disciplina, evitando a possibilidade de erros, enquanto que muitas aprendizagens são da ordem de se ganhar um estilo pessoal. Nos empregos haverá o mesmo tipo de maneiras de poder, as maneiras de fazer que têm a ver com erros graves para a unidade social e as múltiplas questões em que o estilo do trabalhador nas suas possibilidades ganhas no longo tempo do aprender é uma mais valia para a unidade que favorece quem exerce o poder com responsabilidade sobre o conjunto. Mas é claro que isto só pode ser assim se houver uma compreensão de quem detém o poder sobre os que lhe são sujeitos, uma inteligência das possibilidades de cada qual, e uma concertação justa da partilha dos frutos em termos de salários.