domingo, 16 de agosto de 2015

Prova e provação de Deus



Deus, não se o pode provar, mas obsta ao pensar fenomenológico[1]
Inumeráveis são todavia os que foram provados por Deus na história

             1. Que o Deus do Ocidente, meio grego, meio hebreu, tenha ‘morrido’, como Nietzsche anunciou, isto é, que o Ocidente se tenha secularizado, não quer dizer que a fé cristã tenha desaparecido, que só alguns atrasados se reclamem dela. A história levaria a pensar que, pelo contrário, as épocas de relativismo como a nossa são propícias à eclosão de afirmações espirituais. Quem não conhece crentes bastante cultos? As igrejas modernizaram-se em assembleias, minoritárias sem dúvida, de pessoas de fé pessoal e convicta, abundam grupos carismáticos, e parece que a maior parte dos Ocidentais secularizados, sem frequentarem as igrejas senão esporadicamente, guardam no entanto uma espécie de crença vaga em Alguém que governa este mundo: sendo parte de nossa herança cultural, não será fácil de desaparecer, ainda que tenha perdido a sua relação antiga, enquanto religião holística, aos usos sociais. Tratar-se-á aqui de tentar colocar os aspectos intelectuais e espirituais da questão de Deus, para além do fim do monoteísmo como religião do Ocidente. A modernidade mudou, revolucionou o contexto tradicional desta questão, o das sociedades dominantemente agrícolas (em que parentesco e economia faziam uma unidade social, a casa), e é esse o problema capital: como qualquer outra questão, esta não é abordável senão num contexto que dê sentido à argumentação. O que torna em regra diálogo de surdos os debates entre crentes e ateus, é justamente a diferença dos contextos que suportam os argumentos, a diferença dos paradigmas, o que se pode chamar o princípio moderno da relatividade. Já que os contextos são históricos, uns e outros têm antepassados comuns, pode-se esperar que, por difícil que seja de diagnosticar, haja algo do contexto da modernidade que trabalha os discursos contemporâneos que permita abordar a questão.

Deus, não se o pode provar, mas obsta ao pensar fenomenológico

2. Pode-se provar Deus, a sua existência? Pode-se pensá-lo? Duas vias do pensamento ocidental alternaram na resposta a esta questão, segundo a maneira do pensar que se desdobrou a partir da definição como determinação em relação à phusis[2], a Terra de Heidegger. Por um lado, a tentativa de responder ao espanto diante da própria força da experiência de pensar[3] levaria a privilegiar a eternidade, a colocar o acento na fonte do próprio pensar, as Formas ideais de Platão: os entes vivos e as coisas são determinados, delimitados por elas, permanecendo separados delas da distância que há entre o céu e a terra. Pelo outro lado, responder ao espanto diante das regularidades que se repetem na terra em seres tão diferentes em sua contingência de nascer, crescer se alimentando e morrer, privilegiaria o conhecimento da reprodução incessante em seus ciclos, acentuando a possibilidade de pensar a autonomia relativa da phusis nos seus motivos (a causalidade de Aristóteles em seus quatro sentidos), segundo o outro sentido filosófico da palavra determinação: não já separação, retorno às próprias coisas. A questão posta por esta segunda via será a da ligação desta causalidade, desta motivação do movimento dos vivos com o Primeiro Motor imóvel postulado. Foi aonde Tomás de Aquino foi buscar as suas célebres cinco maneiras de demonstrar a existência do Deus cristão. Digamos, de forma breve, que se tem aqui uma maneira ‘afirmativa’ de pensar Deus, dita por ‘analogia’, a dificuldade maior sendo a de poder garantir a validade da causalidade do campo do sensível quando ela se desloca para o mundo inteligível, da ‘criação’ metafísica. E ter-se-ia na primeira via o que se chama a ‘teologia negativa’, que negaria de cada predicado terrestre quando atribuído ao Deus celeste a ‘determinação’ que o opõe ao seu contrário: se Deus é o princípio das Formas ideais eternas que permitem atribuir predicados aos entes terrestres, ele não poderia ser passível dessa determinação entendida, quer como definição – ele é infinito –, quer como causalidade – ele é ab-soluto, sem laços, não é senão por ele, ‘causa sui’, não causado por outrem. Autarcia total, incognoscível da terra: Outro sem medida com os humanos que o pensam, donde recebem o pensamento.
3. Na terminologia da tradição, idealismo e realismo nomeariam estas duas vias: dos dois pensadores que mais terão contribuído para a construção do edifício da teologia medieval e européia, Agostinho relevaria do primeiro através de Plotino, Tomás d’Aquino sobretudo do segundo mas deixando aberto um lugar no seu sistema ‘afirmativo’ para a via negativa, já que a ideia cristã de criação e a manutenção da imortalidade da alma (contra Aristóteles) impedem de separar nitidamente as duas vias[4]. Com efeito, a dimensão inteligível da alma coloca-a do lado de Deus, em relação ao corpo de que é a forma, e a relação alma / Deus do (neo) platonismo é fortemente reforçada pela trilogia das virtudes teologais, fé, esperança e amor, na sua relação à revelação divina. Por outro lado, o Deus hebraico-cristão só pode ‘intervir’ na história dos humanos, ao invés da autarcia do Primeiro Motor e do Um plotiniano, porque já lá está, cada ente sendo criado e conservado na existência por ele (com a ajuda da providência estóica). Será esta dimensão ‘criadora e conservadora’ do Deus europeu que as filosofias clássicas (Descartes, Malebranche, Berkeley, Leibniz) valorizarão muito fortemente, exarcebando a oposição alma / corpo como interior / exterior, para quebrar a sintaxe dos quatro sentidos da causalidade aristotélica.
4. A grande questão da filosofia, tanto entre Gregos como entre Europeus  clássicos, é a da contingência de cada ente terrestre ou sublunar, nenhum tendo em si a sua razão de ser, pois começa e terá fim, é finito. O seu conhecimento, filosófico ou científico, implicará sempre saber o que o causou (causa sive ratio, causa igual a razão, dirá Descartes). Deus foi assim concebido como Causa (aition) das coisas pelo platonismo como pelo aristotelismo: através das Formas ideais eternas no primeiro, criador directo pelos augustinianos, como Occam, Lutero e os clássicos nomeados acima, Causa primeira e final em Aristóteles e no tomismo, sublinhando a autonomia relativa das ‘causas segundas’ da phusis. Ora os quatro sentidos da causalidade são, na Physica de Aristóteles, indissociáveis dos quatro sentidos de ousia (donde lhes vem aliás a quadruplicidade) e, quaisquer que tenham sido as infidelidades do Aquino em relação ao Estagirita, são esses quatro sentidos que são afastados pela nova Física européia, a de Galileu, Newton[5] e Kant. Duma forma muito grosseira, poder-se-á dizer que a redução cartesiana desta quadruplicidade unicamente à causa eficiente vai permitir que esta, em Física, seja equivalente à noção de ‘força’, oposta ao que resta de ‘substância’, como sugere aliás a maneira como Newton terá guardado Deus na sua astrofísica, a ‘força’, digamos, que colocou na respectiva órbita os planetas do sistema solar, já que as suas equações e medições apenas explicavam o funcionamento do sistema, não a sua constituição. Ora, estas medições e equações laboratoriais operam uma redução da ‘substância empírica’ dos elementos que são medidos: não o espaço mas diferenças (distâncias entre lugares), não o tempo nem a massa mas diferenças de tempo (entre momentos) e de massa, e por aí fora. É esta des-substancialização da Física, integrada por Kant como matriz da sua Metafísica (J. Vuillemin[6]), que implicará o seu agnosticismo (da razão pura) em relação a Deus, à Alma e ao Mundo das coisas-em-si (as ‘substâncias’ aristotélicas), isto é, em relação ao que releva apenas da razão prática, o que diz respeito ao que está fora do laboratório). Este agnosticismo filosófico, antepassado da secularização duma civilização moderna em que a Física será a rainha das ciências, resulta da substituição da Physica aristotélica por este seu rebento rebelde, que despediu por razões ‘mecânicas’ o par causa / substância (ousia) da antiga phusis. Tratou-se da mais célebre revolução epistémica, de mudança de paradigmas, e em conseqüência do contexto dos problemas filosóficos: duma ontobiologia de seres autónomos à ontofísica de seres inertes, excluindo os vivos e os humanos[7]. Estes ocupam o lugar exterior do ‘sujeito’ (oposto ao ‘objecto’, incluindo o seu corpo), que é um sucedâneo da alma, posto em questão por Darwin, Marx e Freud. Esta revolução do paradigma científico e filosófico faz parte da revolução global da modernidade, isto é da transformação das sociedades de casas em sociedades em que as unidades sociais se estruturam segundo duas redes, a das instituições (onde os empregos, a economia) e a das famílias (onde o parentesco). A contingência, perdida a semelhança divina das almas e reconhecida a historicidade de todas as coisas, do céu e da terra, tornar-se-á relatividade e finitude, como Heidegger mostrará em Ser e tempo. Exit assim o Absoluto, aquele que ocupava sozinho – mono – o lugar causal da antiga barak ou moïra (bênção, sorte, destino) e polarizara o Bem (Platão e Bíblia), excluindo o mal.
5. Permita-se-me uma digressão recapituladora. A dunamis (potência) de Aristóteles efectua-se (por via acidental) como energeia (acto, en-ergon, em obra) pelo poder (arché) escondido da phusis (Heidegger)[8], efectua-se portanto por si mesma (kath’auto), ainda que pedindo actuação de outrem como causa eficiente: trata-se do sempre surpreendente fenômeno do crescimento. Tomás de Aquino, segundo E. Gilson[9], compreende a ‘criação’ da ‘existência’ dos entes como energeia, acto divino, de que a respectiva essência (dunamis) não dispõe, abrindo assim neste dispositivo aristotélico (que despojou do ‘movimento’, reduzido a acidente) o lugar para o Deus cristão criador: o poder de ‘dentro’ da natureza é ‘activado’ pela criação, sem anular todavia o jogo acidental das mudanças, respeitando assim a unidade hilemórfica alma / corpo. É assim que a matéria (a hylê) é enobrecida e oferecida à Europa, tanto em teologia como em filosofia, sem o quê o laboratório seria impossível (forte razão para os Gregos não o terem inventado). Mas esta novidade contém um obstáculo que Galileu e Newton diagnosticaram: a inércia é a negação desse poder kath’auto, dessa ‘substância’. Na épochê de Husserl, em sequência de Kant, é esta existência empírica substancial dos objectos do Mundo que é suspensa, guardadas as idealidades de que se ocupam as ciências. Heidegger radicaliza este movimento mas noutra direcção[10]: tomando o tempo no sentido do kairos, do acontecimento propício do novo Testamento, ele ‘destroi’ a substância, anulando a sua oposição ao tempo-acidente: o Ereignis[11] dá ser e tempo aos entes. Este Nada de acontecimento que dá os acontecimentos permitirá compreender filosoficamente o que chamarei adiante ben(mal)dição: aí não há já lugar para Deus, a sua figura tendo sido desconstruida após ter permitido a modernidade.
6. Na linhagem teológica augustiniana, Anselmo de Cantorbery (1033-1109) parece ter querido prevenir esta possibilidade moderna, forjando um argumento que não joga directamente sobre a causalidade, que seja válido a partir apenas da ideia do Ser mais perfeito que se possa conceber, cuja existência portanto terá que ser uma componente necessária dessa perfeição última. O aristotelismo de Tomás de Aquino opõe a este argumento a diferença irredutível entre um possível concebido pela inteligência humana (uma ideia) e a sua existência real[12], enquanto que Kant, que está de acordo com esta contestação, uma vez que o contexto histórico mudou, relacionará os dois argumentos um com o outro, aquele a que chama argumento ontológico, o de Anselmo, e os do tomismo, ditos cosmológicos e físico–teológicos: segundo a sua crítica, estes supõem aquele. Isto porque os raciocínios de analogia, para conseguirem o ‘salto’ do sensível ao inteligível perfeito, têm que pressupor a existência deste. Com efeito, parece que é isso que se passa na argumentação da Summa Theologica (I, II, 3), em que os cinco argumentos dizem o ‘salto’ que conseguiram por estas fórmulas: “e isto todos entendem, nomeiam, dizem Deus” e “e isto nós dizemos Deus”, em que ‘todos’ e ‘nós’ designam (os habitantes d)o contexto monoteísta enquanto assentimento ou consenso como necessário ao próprio alcance dos argumentos[13]. Ora, esse contexto tornou-se obsoleto na nossa civilização moderna enquanto tal, podendo dizer-se que o agnosticismo de Kant a antecipa: qualquer argumento ‘afirmativo’ da razão, dependendo sempre da analogia da causalidade sublunar, é inadequado para provar o que a transcende radicalmente[14]. O que implica aliás que não se possa provar tão pouco a não existência de Deus.
7. É por essa razão que um pensamento moderno (que não pode deixar de ter uma qualquer aliança com as ciências europeias, já que elas penetram as nossas instituições e os nossos discursos constituídos no liceu) não pode fazer intervir Deus na sua argumentação sem correr o risco de se perderem essas redescobertas preciosas que são a relatividade e a finitude, o belo fruto do retorno europeu à contingência grega num contexto bem diferente, pós-copérnico, que tenta desconstruir a separação mais velha de todas, a do inteligível e do sensível, da alma e do corpo, do céu e da terra, do sujeito e do objecto. Nietzsche compreendeu-o, depois de Kant, Heidegger é o principal filósofo desta questão no século XX, o seu retorno aos Gregos desenhou a matriz filosófica do acabamento da nossa modernidade: já não um Ente supremo criador no lugar do Ser enquanto doações sem fim (a ontoteologia), nem substância nem eternidade, não mais absoluto, nem causalidade determinista, apenas o jogo universal sem origem nem fim, sem essências nem substâncias, apenas, digamos, as oscilações infindas entre repetições quase estruturais e os acontecimentos (imotivados) entre elas. Deus não foi, como se costumava dizer, o ‘tapa buracos’ das causas necessárias que as ciências vinham substituir: explicação bem coxa que substitui um determinismo por outro[15]. Haverá antes que buscar a resposta do lado duma anomalia teológica que ‘motivou o imotivado’, que fez do dom, da ‘graça’ bíblica, uma ‘causa’ filosófica, esta anomalia tendo parido essa verdadeira monstruosidade que é a predestinação augustiniana. Ou seja, se houvesse qualquer ‘buraco a tapar’, era do lado do imotivado, do aleatório, dos acontecimentos: Deus terá sido o que impede a contingência, o acaso, o sem porquê da rosa[16], sem causa, sem razão necessária, ele foi o primeiro (motor) e o último, aquele que impede o jogo, a multiplicidade dos dons, a ben(mal)dição da Terra em sua pujança de vida mortal. Fosse na alma dos pensadores e dos crentes, na destino pessoal de cada humano, ou na disseminação incessante do jogo (cruel) da natureza e da história, na existência substancial e efémera, contingente, finita, de cada ente, vivo ou não, Deus era sempre a arché, o fundamento, o primeiro princípio. Questão sintoma poderia ser a de saber se se pode colocar Deus sem o corolário intolerável da predestinação, sem esta ambigüidade entre ‘graça’ e ‘causa’ que fez de Deus um personagem omnipotentemente arbitrário: mono – causa – primeira de todos os dons, de toda a ben(mal)dição, do necessário mas sobretudo do aleatório, apagando esta oposição na homogeneidade do Um-Só, da Causa necessária que não joga aos dados. Deus ‘quereria’ de antemão, de sua vontade omnipotente e omnisciente, a morte de qualquer vítima de acidente ou doença prematura. Ora, o que Heidegger nos deu a pensar no seu motivo de retiro da doação do Ser (phusis, Terra), e em 1962, do Ereignis, que Derrida buscou de maneira diferente (o motivo de destinerrância, por exemplo), foi a desconstrução da oposição ontológica entre a necessidade e o acaso.
8. Com efeito, o que há que pensar é o motivo do jogo: “o conceito de jogo [...] anuncia, na véspera e além da filosofia, a unidade do acaso e da necessidade num cálculo sem fim”[17]. Seja um exemplo de ordem técnica familiar. Um automóvel é estudado em laboratório na minúcia rigorosa de todas as suas peças, segundo a necessidade das leis físicas e químicas, mas a concepção teórica que guia o conjunto é a da sua capacidade de responder em cada momento ao aleatório do trânsito: as regras de detalhe visam, a um nível global, o aleatório estrutural da circulação. O mesmo, em bem mais complexo, se passa com as leis bioquímicas de qualquer animal estudadas fragmentariamente em laboratório para compreender como é que o conjunto consegue reproduzir-se a si e à espécie numa cena ecológica em que há que buscar o alimento aleatoriamente e escapar igualmente de ser alimento dos outros (se a hormona da fome nos empurra ‘necessariamente’ para comer, ela não indica todavia qual o menu). Se a ideia de Deus é esta separação entre necessidade e aleatório, ela permanece, juntamente com a oposição interior / exterior[18] (alma / corpo, mundo, sujeito / objecto) o obstáculo por excelência ao pensamento fenomenológico.
9. Ora bem, sem esta unidade do acaso e da necessidade, das regras e do aleatório, não se poderia compreender o que se chama o problema do mal ou da violência, desde o início do pensamento grego colocado como objecção à omnipotência e à bondade divinas. O aleatório não é acidental nem conjuntural, é estrutural, a violência também. Duas grandes leis o ilustram. Qualquer biólogo saberá demonstrar com rigor científico como, sendo o carbono essencial a qualquer molécula das células dos vegetais e dos animais e, por outro lado, sendo o número de moléculas de carbono da atmosfera e da biosfera constante, a vida animal não é possível a não ser que numerosas espécies, ditas herbívoras, se alimentem de vegetais (que recebem o carbono do CO2 da atmosfera pela fotossíntese) para fazerem a sua própria substância e em seguida as outras, ditas carnívoras, os comem a eles, pela mesma preocupação de se reproduzirem enquanto indivíduos. Esta é a lei da selva, na sua letra biológica. É o desenvolvimento em ferocidade desta lei, após a invenção precoce da sexualidade, a razão da imensa variedade das espécies animais, que, mais do que diferenças dos sistemas nutritivos, parece ser a das astúcias dos predadores e das suas presas, astúcias inscritas pela evolução nos seus sistemas de adaptação ao aleatório das situações de caça. Às vezes a situação é-nos apresentada nos documentários, como as leoas caçam as gazelas: o ‘bem natural’ de umas é o ‘mal natural’ das outras, e se nos pretendemos defensores dos  animais – defendemos o quê, a fuga das gazelas e a fome das leoas ou a sobrevivência destas à custa duma daquelas? -, é pelo menos difícil de acreditar num Deus bom que tenha inventado esta selva infernal.
10. Esta lei da selva é responsável pelos músculos e os apetites agressivos da espécie humana, como dos outros mamíferos. E se a invenção da agricultura representou o controle da lei da selva pelos humanos, não foi sem que antes mesmo, desde os povos ‘selvagens’ segundo Pierre Clastres[19], até às duas guerras mundiais e às que se lhe sucederam, passando pelas sociedades monárquicas cujas classes nobres faziam da guerra ofício, se deva fazer a constatação pelo menos empírica da história dos humanos como dominada pela lei da guerra: com efeito, o progresso pode ser medido pela maneira como gradualmente a razão das leis se foi impondo a esta lei da guerra. Foi da guerra que resultou a primeira grande chaga da humanidade, a escravatura, que foi admitida tanto pela cultura e pela filosofia grega como pelo cristianismo europeu. A segunda grande praga foi a aplicação da lei da guerra à relação da oposição Bem / Mal (Deus / Diabo), o Bem entendido como a ‘verdade revelada’ oposta às outras crenças ou ideais: a relação entre verdade e tortura estabelecida pela Inquisição, a instituição do ‘santo ofício’ (como a guerra era o ofício dos nobres)! Esta monstruosa relação foi retomada pelas polícias dos regimes totalitários de qualquer cor ideológica que seja. Horror da exterminação sistemática, metódica, burocrática, técnica, querendo-se exaustiva, do povo judeu, cujos antepassados são também nossos pelo seu legado, a Bíblia, exterminação que requereu a participação e a cumplicidade de dezenas de milhar de gentes (“banalidade do mal”) formadas nas escolas da nação européia que durante o século XIX esteve na vanguarda da cultura humanista, da nossa filosofia, da nossa música: é a mais forte negação que se possa pensar do progresso. Se a guerra como batalha de armas parece deixar o seu lugar às violências dos urbanismos esquecidos e ao crime organizado, das drogas ao terrorismo, isso permite ver melhor outras guerras: todo o tipo de rivalidades e de desafios locais e regionais, os desportos sendo os mais vistosos na sua paixão, e sobretudo, último reduto ‘machista’ sem dúvida, a guerra económica em sua essencial ‘competitividade’ e o seu cume, a guerra financeira que a crise do final de 2008 exibiu, com o desencadear dum desemprego massivo que há muito se não via. Mas é desta guerra também que resultam as poluições que ameaçam o planeta, a miséria, em números milionários, de tantas populações que foram ‘invadidas’ para a pilhagem dos seus recursos que elas ignoravam, a ‘bêtise’ que os médias e suas publicidades e audiências propagam americanamente e que veio substituir o moralismo dos pecados mortais e do inferno que laborou séculos sem fim as populações europeias.
11. Estas duas leis, da selva e da guerra, pedem controle, sem dúvida, como tarefas humanas – agricultura, uma, busca de justiça e de paz sempre a prosseguir, a outra –, mas não são um estado de excepção: são a regra da chamada ‘criação’. À semelhança da lei da selva, que é condição bioquímica da alimentação e auto-reprodu­ção animal, também a da guerra resulta, além das forças e energias que da selva vieram aos humanos, duma condição  antropoquímica, digamos, cujas hormonas desencadeiam ‘envies’ (precisões, desejos, vontades) de aprender os usos sociais, repetindo os outros, sem as quais ninguém se tornaria membro adulto da sua tribo; ora estas ‘envies’ de ser como os outros, tão positivas, correm sempre o risco de se tornarem ‘envies’ de se ser ‘envié’ (invejado) pelos outros, o que está na raiz de toda a emulação e de toda a rivalidade, da lei da guerra pois. Assim como no caso das leoas e das gazelas, também aqui não é possível introduzir uma fronteira entre boa e má ‘envie’, como tenta a educação (a não ser quando já suficientemente amadurecidas) sem o risco de tolher o próprio dinamismo do crescimento de cada qual. As rebeldias adolescentes são sempre ambíguas em relação ao bem e ao mal social, como sabe qualquer educador avisado (necessidade da ‘morte do pai’ para que ele se torne modelo, explicou Freud).
12. À unidade do acaso e da necessidade junta-se assim a do bem e do mal, da vida enquanto mortal necessariamente (e segundo o aleatório): o que acima chamei ben(mal)dição será uma objecção essencial a um Criador ‘bom’, como a história mitológica parece sublinhar ao ter frequentemente, senão sempre, que lhe acrescentar uma divindade maléfica compensadora, ou um panteão de deuses rivais, bons e maus consoante, à imagem dos humanos. A bela conferência de Hans Jonas, Le Concept de Dieu après Aus­chwitz. Une voix juive[20],  sem se deter sobre esta segunda objecção, procura responder à primeira à luz da catástrofe da Shoah: entre bondade, compreensibilidade (o Deus revelador conhece tudo) e omnipotência, é este terceiro predicado tradicional das tradições judia e cristã que tem que ser negado, já que os três juntos são insuportáveis. A potência divina não se pode opor à pujança do universo criado, à autonomia do seu devir - segundo regras (da matéria, da energia, da vida) e aleatório, como vimos -, o Deus silencioso em Auschwitz teve que se retirar, deixar-ser o universo[21]; então não será imutável, mas sofredor, afectável, em devir, preocupado com o risco do não conseguir-se da sua obra, como dizem justamente os textos antigos da Bíblia hebraica (arrependeu-se de ter criado os humanos, Gn 6.6-7, sofre por Israel, Is 63.9, etc.)[22]. Jonas modifica a tradição, mesmo bíblica (responde diferentemente de Job ao silêncio de Deus), mas aproxima-se da tradição da Kabala. Deus permanece assim dependente do testemunho dos seus Justos, como o comovente extracto do diário d'Etty Hillesum, morta em Auschwitz: “...uma coisa se torna cada vez mais clara a meus olhos, a saber, que Vós não nos podeis ajudar, somos nós que devemos ajudar-Vos a nos ajudar. Ai de nós, não parece de maneira nenhuma que possais agir Vós mesmos sobre as circunstâncias que nos envolvem, sobre as nossas vidas. [...] Nós temos que Vos ajudar, temos que defender o Vosso lugar de habitação em nós até ao fim” (p. 44)[23]. Eis o que nos permitirá passar à segunda parte desta reflexão.
 

Inumeráveis são todavia os que foram provados por Deus na história

“Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”[24]

13. O motivo Deus é assim uma maneira de, na história ocidental, se ter respondido ao espanto intelectual que levanta a questão das origens das sociedades humanas e dos outros vivos, bem como do Universo: questão impossível, já que, segundo Derrida, por onde quer que se pegue sempre se encontram efeitos da différance, indecidivelmente repetição com excesso ou diferença (espécie e indivíduo, língua e fala, e por aí fora): é a repetição que é originária, diz ele, não há pois ‘origem simples’. Mas nos textos hebraicos e gregos que o lavraram para nós, o motivo Deus é simultaneamente intelectual e espiritual, tendo vindo – no Judaísmo de Esdras (séc. V a.C.) e no Cristianismo de após Constantino e Teodósio (séc. IV) – a tomar a forma de religião para toda a gente, o que obscurece o seguinte: quer nos textos dos Profetas hebreus e nos que se referem a Jesus como Messias, quer nos textos gregos que se referem a Sócrates, mormente a trilogia Apologia, Críton e Fédon, a questão ética da virtude, justiça ou santidade é a questão fulcral. Os santos e os justos da história ocidental reclamam-se, afora excepções recentes, de Deus como fonte do seu agir: como ignorar esta reclamação, apesar do que na primeira parte se disse? Ou seja, a santidade é possível sem referência a Deus e à tradição que dele se reclama? E nomeadamente ao motivo de alma imortal?
14. “Ninguém me pode ver, diz Yahvé, e permanecer vivo”, é a lição dum velho profeta (Êxodo 33.20)[25], a que faz eco, no outro extremo da Bíblia cristã, esta palavra de João: “nunca ninguém viu a Deus” (1ª epístola de João 4.12). Se se ousasse glosar estas duas palavras pelo jogo grego entre ‘ver’ (idein) e ‘ideia’, isso daria em termos de teologia negativa: ‘nenhum pensamento pode pensar Deus e permanecer pensante’, ‘nunca nenhum pensamento pensou Deus’. No contexto da mesma carta de João (4.8,16), diz-se também: “Deus é amor (agapê)”. Acontece que um ramo da literatura mística, pelo menos cristã ocidental, diz a experiência do encontro da alma com Deus na linguagem do amor, do noivado, do casamento, em discursos impregnados de erotismo[26]. J. da Cruz é um dos mais importantes autores da teologia negativa: o amante não pensa o amado, a experiência que dele faz escapa às palavras do pensamento. O Amado (“a amada no Amado transformada”) dá-se em cada rasto dos seus passos, das suas mãos, dos seus olhos, da sua voz, da sua palavra, pode continuar a ser amado na sua ausência, na “noite do espírito” (tão próxima do ateísmo), quando ele deixou de estar lá: mas esteve ele alguma vez lá? Não terá ele sempre já passado com o seu passo, não deixando senão as marcas dum passado que nunca foi presente, nem ausente (Derrida[27])? Estes rastos são-no também da experiência de sermos arrancados à nossa tribo (casa, família, instituição), dum rapto, arrebatamento, duma provação que nos transporta, nos move, nos promete a muito mais do que a tribo, a “qualquer coisa de misterioso e de glorioso” (Leonardo Cohen): alteração, metamorfose, conversão, abertura dum caminho inédito sem medida comum com o que se era antes da provação do amor, antes da paixão ‘inaugural’. Tempo relâmpago, claro-escuro, tempo fora do tempo, tempo acontecimento, kairos no grego do novo Testamento, tempo tal que não se volta mais atrás. O destino mudou, uma de-cisão se fez aí entre antes e depois. Fica-se assim cortado dos seus antepassados, do sagrado de outrora: é nisso que uma tal experiência é ‘moderna’, podem-se atribuir experiências assim aos Profetas que escreveram a escrita hebraica[28] e aos Filósofos gregos, mu­tatis mutandis[29]. E ainda aos santos de todos os tempos e espaços espirituais. Foi sem dúvida a fecundidade desta experiência de santidade que fez os nossos antepassados atribuí-la ao Totalmente Outro, ao Separado (isto é, Santo) pensado como Criador, fonte da fecundidade da natureza.
15. Da experiência de (amor por) Deus pode-se fazer um argumento em favor da existência deste? Retenhamos do Dasein – do pensador da doação (múltipla, não ‘mono’, não ontoteológica) da fecundidade, doação essa dissimulada, retirada – que o ek-sistir dos humanos é um -sistere sempre-já fora (ek-), exterioridade, ser-no-mundo[30]; a tão prezada por cada um de nós ‘interioridade’ vem-lhe da aprendizagem, dos rastos (memória) das experiências passadas, rastos esses que lhe permitem uma certa distância ou afastamento, um retiro, um Fort-sein[31], em relação ao Da- (proximidade, ser-o-aí), a esta ex-posição de exterioridade sempre-já. É este retiro que retém a identidade do humano, guarda-o enquanto ‘ele próprio’ nessas suas ‘saídas’, nessas experiências mais fortes que o alteram; ele provém dos usos recebidos dos antepassados, da repetição quotidiana, em que o seu ‘eu’ se vai afirmando, simultaneamente agindo fora e retirado, repetindo os outros mas segundo o seu talento, estilo, idiossincrasia, os rastos dos outros (heteronomia social) ficam esquecidos[32] como condição da sua autonomia, sem o quê seríamos loucos, sempre presos da exterioridade como alienação: o grande interesse deste motivo heideggeriano é justamente o de permitir pensar os humanos fora da oposição alma / corpo, sujeito / objecto, indivíduo / sociedade, como seres-no-mundo tribal, liberdades finitas reguladas para cenas aleatórias. Por outro lado, como se sabe, Ser e Tempo[33] é construído sobre uma experiência de antecipação da morte como mudança duma existência imprópria, inautêntica, em uma existência própria, autêntica. Tomada na sua etimologia latina, a palavra ex-per-iência diz um per-igo, a saída (ex-) de si, da sua identidade (tribal) assegurada até aí, o risco de per-ecer[34]; uma alteração pois da identidade construída a partir dos seus antepassados, mortos e vivos: a ex-per-iência é vida / morte / vida, uma morte na vida, uma sua alteração mais ou menos brutal. Ora bem, esta ex-per-iência, esta alteração de-cisiva, entre aqueles que sofrem a sua provação a um nível especificamente ético, há inumeráveis humanos que a atribuem a Deus, ao totalmente Outro. Mas se o si de cada um é já tecido indefinidamente de outrem, desde a noite dos tempos ancestrais, como separar este totalmente Outro de todos os outros e de si mesmo? A ex-per-iência tornar-se-á rasto também ela, memória, outrem-em-si, si-como-outro-mais-si-do-que-si (‘inti­mior intimo meo’, dizia Agostinho de Deus: mais íntimo a mim do que o meu próprio íntimo, também vale de outrem, como os nossos sonhos atestam[35]): como é que ela aguentará a duração, já que haverá outras experiências sempre possíveis? Não é o próprio que de-cide (a tradição teológica será unânime nesse ponto); pode-se regressar duma ex-per-iência em que o ‘si’ se perdeu, pereceu? Quem de-ciderá então? A de-cisão está lá, indecidida todavia, pode ser que ela seja o futuro do -per- da experiência: jogando de novo do que chamamos memória, refará a experiência de outra maneira, reabrindo o campo que ela tinha aberto, impedirá o si perdido de se perder, perdendo-o novamente. Como conseguir falar de tão fortes experiências, das seqüelas em toda uma vida do vendaval que a alterou, dos altos e baixos que inevitavelmente se sucedem?
16. Voltemos à questão: pode-se argumentar Deus a partir da sua provação, a outros que não a tiveram? O -per- da ex-per-iência não a torna incomparável a qualquer outra experiência? Diz-se que o amor é cego, que não vê aquilo que toda a gente à volta vê. Mas é a cegueira dum visionário, ele vê o que os outros não vêem. É por isso que ele está aquém e além dos argumentos de pensamento. A palavra ‘Deus’ é dela mesma paradoxal: como qualquer outra palavra, ela só tem sentido por ele ser recebido a partir do jogo das diferenças das outras palavras e regras da língua e do discurso, ela é pois estruturalmente relativa; se, porque diz o ‘ab-soluto’, devesse deter sozinha o seu sentido, sem depender das outras palavras, seria incomunicável a outrem. Todavia Michel de Certeau[36] escreveu: “sem dúvida é impossível nomear o que sobrevém e parece todavia subir de um insondável qualquer da existência, como dum mar que começou antes do humano. O próprio termo Deus (ou absoluto) recebe mais daí o seu sentido do que fornece indicações à experiência”. Reencontramos o que havia sido dito do pensamento e dos argumentos a respeito de Deus: a compreensão do sentido dessa palavra dependerá sempre de compreensões já dadas antes, do seu contexto de vida e de prática. E não é isso que sucede a qualquer palavra, seja mais ou menos usual?
17. São usos, hábitos, contextos quotidianos, que mudam nessas experiências-acontecimentos de-cisivos duma vida que nunca mais será a mesma. Nessas grandes provações dos místicos, dos santos, dum Jesus e dum Francisco de Assis, duma Teresa de Ávila e doutra de Calcuttá, dum Gandhi e dum Martin Luther King, de tantos e tantos outros, reconhecidos e anónimos, não são tanto os aspectos mais ou menos extraordinários da experiência que contam, mas mais o itinerário de fecundidade forte que ela abre, a ‘bênção’ reconhecível por terceiros, em que o dom se manifesta em ‘efeitos’ além, tantas vezes muito além dos pobres ‘meios’ utilizados[37], em regra a convicção inabalável e contagiosa. Mas acrescente-se já: muta­tis mutandis, esta desproporção entre os meios e os efeitos é também estrutural às grandes obras de pensamento, de arte, ou mesmo de acção cívica e política, inclusive de não crentes[38], como é óbvio[39], melhor dito, de outras maneiras ‘espirituais’ terrestres de se ser crente. O leitor tem assim a possibilidade de concluir do que venho propondo que a não possibilidade de provar e de pensar Deus também joga aqui: esta ex-per-iência como provação atesta das possibilidades inauditas de certos humanos, de certos realistas que fazem o impossível, em linguagem de Maio 68, sem porventura ser necessário invocar Deus.
18. Em todo o caso, na ex-per-iência espiritual que se reclama de Deus para compreender a sua fecundidade além daquilo que se pode do seu próprio querer, trata-se sempre de testemunho, e este não prova nada[40]. A testemunha – Derrida dizia-o na sua passagem por Lisboa no final de Setembro de 1994 – não faz mais do que dizer ‘crê em mim’. Mas, acrescentava ele, respondendo pela negativa à questão que lhe puseram da possibilidade de desconstrução radical do discurso religioso, é igualmente o caso de qualquer tomada da palavra, de qualquer ‘falo-te’ que implica um ‘crê em mim’, abrindo ao crédito, à ‘crença’, à confiança do que escuta[41]. Como pois de-cidir decididamente nesta escuta? Com que argumentos recusar escutar os numerosos textos que nos vêm dessas experiências, que contam entre as mais fortes de que a história humana guarda as narrativas?[42] Como de-cidir, em nome de quê, que eles se enganaram sobre esse Deus que eles confessam? Que, ainda que sem o acolhimento dito ‘fé’, não se tem de escutar o que – com numerosos outros textos e obras artísticas e de pensamento, com o que se chama cultura em sentido forte – nos permite seguir os nossos difíceis itinerários humanos, nos dá algo como uma esperança em época tão mal tratada como a nossa?
19. Assumindo claramente agora o papel de leitor testemunha, é neste ponto de colocação de leituras em paralelo, a discerni-las e avaliá-las, é aonde o meu passado de crente me impede de decidir definitivamente entre fé e ateísmo: nem uma nem o outro. Tanto me é difícil de acreditar num Ser sobre-humano que teria ‘em suas mãos’ a infinidade do universo (das suas galáxias a todos os seus átomos e moléculas, as células de todos os indivíduos de todas espécies vivas) e o conhecimento da intimidade de cada coração de todos os humanos de todos os tempos, quanto me é difícil de admitir intelectualmente que os santos, esses crentes por excelência, essas narrativas de grandes feitos espirituais, os mais ‘impossíveis’ dentre as narrativas humanas donde colhemos incitação a viver e a navegar mais além, não teriam sido senão gente ‘enganada’. Como avaliar a afirmação dessas narrativas sem se crer na existência de Deus?
20. Será necessária, esta alternativa entre crença e engano? Tentar ultrapassá-la é uma das maneiras de dizer o que está em jogo no pensamento de Levinas, colocando o que chama ‘ética’ antes e além do que chama ‘ontologia’, o que não vale senão entendendo ‘ética’ como a valoração da relação ao Outro como primeira, o que significaria que ele vai paradoxalmente ao encontro da doação retirada de Heidegger[43] e da respectiva destruição do ‘substancialismo’ metafísico ou ontoteologia (a ‘morte de Deus’), como se pode verificar na maneira como rejeita, enquanto ‘ontológicas’, as noções de existência e de essência de Deus. É possível interpretar o seu recurso à fórmula epekeina tês ousias[44] da República de Platão (509b) como significando o passo da ex-per-iência acima evocada, passo além das casas e das suas ‘envies’ (§ 10) para as que relevam da busca incessante dos espirituais, se dermos à bela palavra ‘espírito’ o sentido etimológico de purificação da ‘respiração’, do ‘sopro’. Esta filosofia do profetismo e da santidade está do lado da provação traumática do Infinito, defende que Deus não entra na ‘ideia de infinito’, que não é um ‘conceito’, não cabe na cabeça que a pensa, pensamento que pensa mais do que ele pensa: Deus, mas também o meu vizinho pobre, o Outro. Pode-se dizer, por uma citação de Fernanda Ber­nardo, qual é o desígnio de Levinas em relação ao santo: “pensar como é que a inquietação, o cuidado obsessivo do sujeito pela sorte do outro, seu próximo, se faz sentir nele mesmo, independentemente da sua vontade”[45]. Este impulso à santidade, a efectuar a justiça, corresponde ao seu motivo de ‘rasto diacrónico’, dum ‘passado’ que nunca foi ‘presente’, que reenviaria, acrescento eu, a uma tradição de santos e justos aonde, sem se saber como, se colhe e acolhe esse rasto histórico, nem presente nem ausente. É aonde buscar o que me parece ser o que merece o nome de Deus: não eterno – não Ente que seria susceptível de prova –, antes do lado da história ética dos humanos, sem ser histórico (históricos são os justos), susceptível todavia de provação. E a não dever ser invocado em vão.
21. Mas quem sou eu, para falar destas coisas que me ultrapassam?




[1] Com alguns ajustes, trata-se da contribuição para o Seminário A Questão de Deus. Ensaios Filosóficos, coord. por M. Leonor Xavier, ed. Zéfiro, 2010, pp. 299-313.
[2] Terei que supor aqui alguns motivos da tentativa de reformulação da Fenomenologia nos meus textos Le Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida, 2 vol., 2007, e o recente La Philosophie avec Sciences au XXème siècle, 2009, ambos editados em Paris pela L’Harmattan.
[3] Quando esta claramente ultrapassa o que se aprendeu de Mestres e Antepassados.
[4] A Física aristotélica é em certo sentido platonizada no tomismo  (Belo, 2007, 13.18).
[5] Galilée, Dialogues, Lettres choisies, trad., choix et préface de P.-H. Michel, introduction aux Lettres de G. Santillana, Paris, Hermann, 1966 e Discours et démonstrations mathémati­ques con­cernant deux sciences nouvelles, introd., trad. et notes de M. Clave­lin,Paris, A. Colin, 1970; Newton, Principes mathématiques de Philosophie naturelle, trad. de Mme du Châ­telet, Paris, édition fac-simile de A. Blanchard (1966).
[6] J. Vuillemin, Physique et métaphysique kantiennes, Paris, P.U.F., 1955.
[7] A Physica é uma filosofia dos entes enquanto capazes de movimento: geração e corrupção, crescimento e mudança de qualidade, deslocamento (de lugar), é uma ‘biologia geral’, se dizer se pode, responde ao espanto dos vivos e da respectiva autonomia. A Física só guarda do movimento os deslocamentos, as respectivas medidas (distâncias e tempos). Passou-se assim duma ontobiologia compreendendo os humanos (contingentes, nascendo e mortais) e o seu saber, portanto duma epistemologia compreendida na ontologia, a uma epistemologia ontofísica das massas materiais inertes, de que o humano está excluído, situado no lugar exterior do ‘sujeito’ (oposto ao ‘objecto’ que se mede no laboratório): a epistemologia torna-se uma disciplina separada da ontologia e ganhará uma grande proeminência filosófica. Coisas que Ser e tempo questionará.
[8] M. Heidegger, "Ce qui est et comment se détermine la Phusis", Questions II, trad. fr. de F. Fédier, Paris, Gallimard [1940], 1958.
[9] E. Gilson, Le Thomisme, Paris, J.Vrin, 19475.
[10] Paisana, João, Fenomenologia e Hermenêutica, A Relação entre as Filosofias de Husserl e Heidegger, Presença, 1992.
[11] M. Heidegger, "Temps et être" [1962], Questions IV, trad. F. Fédier, Paris, Gallimard, 1969. Veja-se o meu Heidegger, pensador da Terra, Centro de Filosofia da U. Lisboa, 2012.
[12] “Da ideia de ser que existe necessariamente não se concebe senão a existência necessária em ideia” (Jeanne Delhomme, “Dieu. La négation de Dieu”, Encyclopédie Universalis).
[13] A lógica comum dos três primeiros argumentos – segundo a qual o movimento (a mudança), a causalidade eficiente e a contingência pedem sempre um (outro) precedente sem possibilidade de retroceder indefinidamente e exige pois um primeiro motor que nada mova, que mova os outros, necessário por si mesmo – parece ser com efeito a resposta ‘criacionista’ ao problema da origem e da reprodução das espécies, o problema da galinha e do ovo. Essa lógica parece desmentida pela lógica científica da evolução, aliás bem mais fiel ao kath’auto aristotélico, já que se trata duma lógica de crescimento das espécies vivas (os defensores do desígnio inteligente situam-se na lógica do quinto argumento, segundo a causalidade final, ver § 7n). A biologia molecular, que nos desvelou os mecanismos extraordinários desta reprodução, não sabe (ainda) responder, na medida em que se trate de algo que escapa à experimentação (pelos menos nas espécies mais complexas), duma imotivação, quase acontecimento, quer nas primeiras células, quer entre uma espécie e outra. Por outro lado, a postulação dum primeiro Motor cai sob a desqualificação da busca das origens pela ‘différance’ de Derrida: é a repetição que é originária, diz ele, maneira de dizer que não houve nunca origem simples. Sobra no entanto, do lado da Física, uma ‘origem’ sem compreensão possível, quero crer, até hoje: aquilo a que chamam big Bang, uma espécie de mito astrofísico que, apesar do ateísmo da maior parte dos físicos, está mesmo a reclamar um deus. Creio na minha modesta ignorância que haveria que repensar o percurso até se chegar à formação das estrelas, depois das quais já uma lógica ‘evolutiva’ parece justificável.
[14] A Física moderna aplicou a sua razão laboratorial dos dados terrestres aos astros do céu: a astrofísica como região da física da gravitação implica a anulação da irredutibilidade da oposição céu / terra que sustentava a crença holística no monoteísmo.
[15] Há uma bela panorâmica da história ocidental da problemática do determinismo, desde os Estóicos e Agostinho de Hipona a Laplace e outros físicos clássicos e contemporâneos e ainda às ciências estatísticas das sociedades na introdução de K. Pomian ao volume que ele coordenou, La Querelle du Déterminisme, Paris, Gallimard, 1990, pp. 11-58. É aliás o que predomina na querela contemporânea sobre a evolução entre neodarwinistas e defensores do desígnio inteligente. O paradoxo desta questão consiste em que, constatada de forma indiscutível, a noção de evolução contraria a definição de reprodução celular, quer nos tecidos dum organismo, quer adentro da mesma espécie: a célula é estruturalmente conservadora, cada uma dá origem a duas células iguais a ela. A invenção precoce da sexualidade explicará as diferenças individuais adentro da mesma espécie, sobretudo nas mais complexas: mas como se passou de espécie para espécie? O determinismo genético invoca o acaso das suas mutações, a cuja ilógica  pretende responder a causalidade final dos criacionistas, obviamente incompatível com a falta de finalidade dos fenômenos evolutivos (mesmo este termo é suspeito de finalismo, um fenómeno biológico como os vírus é ‘anti-evolutivo’, veio depois das células, mais complexas do que eles, e creio que mesmo depois dos organismos). Ora, a proposta do jogo como a unidade entre necessidade e acaso (§ 8), regras e aleatório das cenas ecológicas, permite em princípio entender correlações complexas entre metabolismo celular e sangue, entre sangue e sistema neuronal e entre este e as variações geológicas e climáticas da cena ecológica, que serão necessárias e suficientes para explicar a evolução, a chamada “selecção natural” com base nos mecanismos da lei da selva: ainda que se admita um Criador, ele respeitaria integralmente esses mecanismos. Quanto à formação das primeiras células vivas, o biólogo italiano Marcello Barbieri (Teoria semântica da evolução, Fragmentos, 1987) tem uma proposta muito aliciante para ela (Belo, 2007, 11.6-10, Belo, 2009, 92-3).
[16] M. Heidegger, Le principe de raison, [1957], trad. A. Préau, Paris, Galli­mard, 1962.
[17] J. Derrida, Mar­ges, Paris, Minuit, 1972, p. 7.
[18] É certo que esta oposição nos aparece como uma evidência (quase) absoluta, condição do nosso falar, fazer, pensar, amar, agir, criticar e rebelar-se. Mas essa evidência não é universalizável por definição, já que se opõe às evidências equivalentes de todos os outros, é uma clausura insular, a alma ou o sujeito como ‘ilha inteligível’.
[19] “Os povos primitivos são sempre apresentados [por viajantes e missionários europeus] como dados apaixonadamente à guerra” (P. Clastres, "Arqueologia da violência : a guerra nas sociedades primiti­vas", in Guerra, religião, poder, [Libre, 77-1] trad. J. A. Santos, Lisboa, ed. 70, 1980, p. 12).
[20] Paris, Payot & Rivages, 1994 (há tradução portuguesa).
[21] Numa análise do motivo de força ou potência (dunamis) em Aristóteles, Heidegger escreve de forma bem mais radical: “A finitude íntima e essencial de cada dunamis reside na decisão de ir para um lado ou para o outro, decisão que é exigida por si mesma e inerente ao seu próprio cumprir-se. Onde há força e potência (Kraft und Macht), há finitude. É por isso que Deus não é potente, e ‘omnipotência’ é um conceito que, compreendido correctamente, desvanece-se em fumo como todos os seus semelhantes. Não é um conceito que se possa pensar. Ou então, se Deus é potente, é finito e em todo o caso bem diferente do que pensa a representação comum de Deus, dum Deus que pode tudo e é assim reduzido a um ente gazua” (M. Heidegger, Aristote, Métaphysique Q 1-3, De l’essence et de la réalité de la force, [1931], trad. B. Stevens et P. Vandevelde, Paris, Galli­mard, 1991, pp. 159-160). Para quem quiser argumentação filosófica especulativa actual: Secondo Bongiovanni, La philosophie italienne contemporaine à l’épreuve de Dieu. Pareyson, Vattimo, Cacciari, Vitiello, Severino, Paris, L’Harmattan, 2008.
[22] Deixando o plano da filosofia grega e regressando à concepção hebraica, o que Jonas faz é propor um Deus ‘finito’, como diz Heidegger.
[23]  A que ecoa esta citação de Emmanuel Levinas: “É o humano que tem que salvar o humano; a maneira divina de reparar a miséria consiste em não fazer intervir Deus nela. A verdadeira correlação entre o humano e Deus depende duma relação de humano a humano, de que o humano assume a responsabilidade completa, como se não houvesse Deus com quem contar. Estado de espírito condicionando o laicismo, mesmo moderno” (E. Levinas, “La laïcité et la pensée d’Israël”, [1960], Les Imprévus de l’Histoire, Paris, Fata Morgana,, 1994, p. 183, eu sublinho). ‘Como se não houvesse Deus com quem contar’: isto põe em questão a noção tradicional de Providência universal, que aliás a história desmente tanta vez de forma atroz. Que não se possa provar nem que Deus existe nem que não existe, isso significará porventura que o universo e o nosso mundo terrestre seriam o mesmo em qualquer dos casos. No caso afirmativo seria um Deus que respeitaria de tal maneira a autonomia das coisas, dos vivos e da respectiva evolução, dos humanos e da respectiva história, que não interferiria nelas como se não existisse.
[24] Última palavra de Jesus, antes de dar um grande grito e de expirar, segundo Marcos e Mateus, que lhe vincam a autenticidade dando a sua versão original em aramaico. Com efeito, é uma palavra inverosímil face à divinização posterior de Jesus, Lucas apagou-a.
[25] Ver também Deuteronómio 5.23.
[26] Estes textos, como qualquer outro, relevam da finitude humana, dão-se à leitura de quem quer que seja. Um leitor psicanalista lerá neles, sem dúvida, algo que releva da sublimação das energias sexuais, certas descrições de experiências de êxtase tendo traços muito semelhantes aos de um orgasmo. Em vez duma explicação por reducionismo determinista (a sexualidade explica o êxtase), haverá que tentar compreender, na medida do possível, como é que uma experiência fora do contexto habitual que conduz os humanos ao orgasmo pode conduzir a um quase orgasmo, quais os deslocamentos dessa sublimação.
[27] J. Derrida, De la Grammatologie, Paris, Minuit, 1967.
[28] Alguns contam as suas “experiências de vocação”: Isaías 6, Jeremias 1, Ezequiel 1-3, Samuel 3, Jonas. A de Jesus é contada em Marcos 1.9-13 e paralelos, a de Paulo nos Actos 9, 22.5-16 e 26.10-18.
[29] Rousseau contou a sua experiência de mudança pessoal em suas Confissões: “peguei um dia no Mercure de France e, andando e percorrendo-o, encontrei esta pergunta proposta pela Academia de Dijon para o prémio do ano seguinte: ‘se o progresso das ciências e das artes contribuiu para corromper ou purificar os costumes’. No instante dessa leitura, eu vivi um outro universo e tornei-me num outro homem”. Do ponto de vista cristão, são célebres as conversões do físico e filósofo Blaise Pascal e de Paul Claudel.
[30] Que fenomenologicamente se traduz na maneira como a aprendizagem dos usos da sua tribo fazem dele um humano.
[31] J. Derrida (La carte postale de Socrate à Freud et au-delà, Flammarion, 1980, p. 342) aproxima o Dasein de Heidegger do Fortsein de Freud (o jogo infantil do Fort/Da em Para além do princípio do prazer), o que daria uma espécie de Dafortsein que aqui me inspira.
[32] O motivo derridiano do rasto implica o retiro e o esquecimento ou apagamento heideggerianos.
[33] M Heidegger, Être et Temps, [1927], trad. E. Martineau, ed. hors-commerce, 1985
[34] Como aliás no alemão (Erfahrung, experiência, Fahrt, viagem), creio que se trata do mesmo –per- na semântica latina, a da viagem fora da segurança do seu território, per-igo de per-ecer entre estranhas gentes, em suas línguas e usos outros. W. Bromeier, tradutor francês de Heidegger, "He­gel et son concept de l'expérience" (Chemins qui ne mènent nulle part, 1962, Paris, Gallimard) diz numa nota (p. 308) que este ‘-per-‘ “significa o movimento de atravessar, de ‘percer’ [em francês]”. Ver ‘perig-‘ e ‘peregr-‘ no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2003, Lisboa, Círculo de Leitores, que, além de ‘experiência’ e ‘perito’, acolhe também ‘peregrino’, mas não ‘perecer’.
[35] Quando, deixados os outros, recolhido só na noite, olhos e ouvidos fechados, na maior intimidade, se perde a consciência de si no sono, nesse mais íntimo do que o seu íntimo, encontramo-nos fazendo parte dum povo de gentes estranhas e familiares, que fazem o que lhes apetecem, por vezes nos fazem mal, nos levam para onde não sabemos nem sempre queremos.
[36] No belíssimo artigo "Mystique" da Encycl. Universalis.
[37] Como diz a parábola hiperbólica dos terrenos semeados pela ‘boa prática’ evangélica: os que são semeados “em boa terra, escutam a palavra, acolhem-na e dão fruto, trinta, sessenta ou cem por um” (Marcos 4.20; F. Belo, Lecture matérialiste de l’évangile de Marc. récit, pratique, idéologie, Cerf, 1974, p. 168). Tinha proposto nessa leitura o conceito de ‘prática messiânica’ ou eclesial segundo Marcos (prática dos olhos ou fé, dos pés ou esperança, das mãos ou amor), sem recurso à noção de alma (que a Bíblia ignora, na sua oposição ao corpo) ou de interioridade. Provavelmente esta é mais acessível...
[38] Por exemplo, Henri Curiel, evocado por um seu companheiro de luta política, Robert Davezies, Un temps pour la guerre, Lausanne, Age d’Homme, 2002.
[39] É o que dá peso ao argumento de Sócrates sobre a imortalidade da alma no Fédon (63b-67a), a força da sua experiência de pensamento e de acção cívica não pode ficar confinada à duração efémera duma vida humana. O Eterno Retorno de Nietzsche também releva desta força da ‘vontade de pujança’ (M. G. Llansol), que o que se faz seja tal que se possa querer que volte eternamente.
[40] Este testemunho tem uma longa história, judaica primeiro, judaico-cristã depois, greco-cristã, romano-cristã, medieval, européia, mundial, também susceptível duma indagação de tipo fenomenológico, no sentido aqui usado.
[41] Sem implicar necessariamente ‘ingenuidade’. Com a linguagem recebida dos nossos antepassados, também se recebe a crença na realidade que ela diz (o que se pode chamar a lei da verdade, inerente a todas as linguagens sociais, a reter estruturalmente com as leis da selva e da guerra), mas também a incitação à dissimulação (e portanto à crítica). Assim os usos sociais de que a linguagem é parte, trazem consigo, na sua aprendizagem, a razão que nos ensina a avaliar as crenças que necessariamente essa aprendizagem traz como ‘pre-conceito’.
[42] Por exemplo, O futuro duma ilusão de Freud é um texto cuja surdez faz pena pelo seu ‘obscurantismo moderno’, sem fazer análises (como as fez, bem interessantes, em Moisés e o Monoteísmo), ignorando os factos espirituais fortes (respondeu a Roman Rolland: “estou tão fechado para a mística como para a música”, citado por M. De Certeau, "Mystique" da Encycl. Universalis), sem pensamento que valha, indigno do autor desse texto admirável que é A Interpretação dos sonhos.
[43] Como ele parece dizê-lo na introdução que escreveu para o livro de Marlene Zarader, Heidegger et les paroles d’origine (há trad. port.), Paris, Vrin, 1986.
[44] Antes de Aristóteles, ‘para além da realidade’, ousia na linguagem corrente significando o patrimônio duma casa, que se mantém o mesmo ao longo das gerações. Em Aristóteles, substância e essência, sentido que Levinas entenderia, ou ainda ‘ser’.
[45] F. Bernardo, Transcendência e subjectividade, A ‘subject-illeidade’ ou a responsabilidade ética como incondição do sujeito em Emmanuel Lévinas, tese de doutoramento, policopiado, Universidade de Coimbra, 2000, 1º vol., p. 168.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Uma pergunta filosófica sobre o cancro



1. Na instrutiva entrevista a Maria de Sousa e Manuel Sobrinho Simões por Anabela Mota Ribeiro sobre o cancro (rev. 2 do Público de 26 julho), a primeira fez vários apelos à diversificação das perguntas das investigações científicas. Dirigia-se aos cientistas, é certo, jovens nomeadamente, mas acontece que as perguntas científicas relevam do paradigma e este tem uma dimensão filosófica escondida aos olhos dos cientistas, dimensão essa que contém um erro que interfere nas perguntas experimentais que eles fazem. Trabalhando em Filosofia com Ciências, com a dimensão filosófica delas antes de se diferenciarem em ciências com a invenção dos laboratórios, proponho aqui a minha pergunta.
2. Ao ler textos de biologia molecular e de neurologia, fiquei admirado de verificar que dão sempre um salto por cima da anatomia; o título do livro de M. Sobrinho Simões citado na entrevista (Gene, célula, ciência, homem) ilustra-o bem: dos ‘genes’ e das ‘células’, a ‘ciência’ passa logo para o ‘homem’ (e a mulher, claro), ou seja, para o organismo, como se a anatomia não estivesse entre esses dois níveis, o básico e o geral. Trata-se a descoberta extraordinária da genética como se ela determinasse tudo o mais e não houvesse caminhos entre ambos os níveis. A entrevista fala de órgãos diferentes, mas enquanto susceptíveis de serem afectados por cancros, não em relação à sua especificidade anatómica. Creio que, além do cartesianismo da compreensão do complexo a partir do simples (contra o qual se levantou E. Morin com o motivo de ‘complexidade’), reflecte-se aí uma atitude filosófica europeia (que vem de Platão e Aristóteles) em que o ‘interior’ é determinante sobre o ‘exterior’, donde resulta a dificuldade de compreender as incidências do ambiente ecológico sobre o organismo.
3. Eis o que me parece ser a lógica da evolução, tal como a deduzi dessas leituras. Os genes dos unicelulares eucariotes primitivos têm como papel regular o metabolismo para restabelecer as suas diversas moléculas complexas admitindo moléculas exteriores; os ribossomas que jogam na síntese dessas proteínas degradam-se quimicamente, o ADN permanece o mesmo no núcleo para quando voltar a ser necessário. A partir das colónias de unicelulares, iniciou-se um processo de ‘aquisição colectiva’ de moléculas para todas as células, as quais se especializarão em tecidos e órgãos com o objectivo único de facilitarem a alimentação molecular de todas as células em condições ecológicas mais exigentes (além de se defenderem de serem comidos). É que para os animais só noutros vivos – plantas (que receberam carbono do CO2 pela fotossíntese) para os herbívoros e plantas e animais para os carnívoros – é que se encontram as moléculas orgânicas de que precisam: lei da selva. Esta determina os dois sistemas na anatomia de todas as espécies animais, com ou sem vértebras: um de nutrição e outro de mobilidade, encabeçados pela boca e ambos regulados pelo cérebro, eles visam essencialmente a reformulação incessante das células (predação) e evitar ser presa de outrem. A lógica da anatomia de cada espécie pode dizer-se como uma espécie de contrato que todos os órgãos fazem entre si para alimentarem democraticamente todas as células. Com efeito, a circulação do sangue, após o processo digestivo que moleculiza os pedaços comidos, vai a todas as células levar moléculas. É esse contrato que os cancros rompem.
4. Se os genes têm como papel regular o metabolismo e restabelecer as suas diversas moléculas complexas a partir da chegada de novas moléculas pelo sangue, poder-se-á deduzir que seja a relação deles com o que chega do sangue que há que analisar em termos de saber como se canceriza. Talvez que entre as várias regulações da homeastasia pelo velho córtex endócrino se encontre a do tamanho dos vários órgãos e tecidos e que esta se exerça na relação sangue / células alimentadas, com papel quiçá das esteroides (http://filosofiamaisciencias.blogspot.pt/2008/02/evoluo-e-sexualidade.html) e que o neo córtex, adequado às estratégias no ecológico e no social, intervenha (um cérebro duplo, não dois à parte, Changeux). No caso humano, o que se chama psico-somático é provavelmente aí que tem lugar, maneira possível de qualquer ‘stress’ poder influir na distribuição sanguínea das moléculas. Quando a evolução chegou aos humanos e estes progrediram em usos e saberes até hoje, já o essencial das anatomias estava fixado em prol da predação e das artes de ataque e defesa em vista do objectivo da economia estrutural: alimentar todas as células.
5. Não sei se já isto é aceitável. Sou mais atrevido todavia na maneira de responder a uma questão do livro admirável de M. Barbieri, Teoria semântica da evolução (questão que ele não põe), em que o papel dos ribossomas ARN na constituição dos unicelulares foi prévio ao dos desoxi-ribonucleicos ADN: como é que estes são retidos no núcleo para se manterem os mesmos sem degradação? A crer na nomenclatura, perde um ‘oxi’, sei lá como: dos ARN se fez o ADN. Mas haverá, hoje vai-se sabendo, processos de retrotranscrição que se acrescentam aos genes: então não poderá ser que as mutações genéticas, em vez de serem puramente casuais (o que aflige muito a lógica), sejam resultado de processos desses que sejam, por assim dizer, a inversão do normal ADN -> ARN, este será por vezes transgredido, repetindo os começos? Se for assim, o processo da evolução não será puro acaso de mutações genéticas que batem certo sabe-se lá porquê, mas jogo celular em órgãos anatómicos que também recebem impactos da cena ecológica, de dentro para fora e de fora para dentro. O mecanismo essencial da retenção dos genes na reprodução celular poderá ter tido infracções positivas que repetiam as origens unicelulares e deram as evoluções. Ora bem, não poderão essas infracções continuarem a ocorrer frequentemente mas de forma negativa, por exemplo por vias psico-somáticas de inadaptação ao social, caso por caso? Serão isso muitos dos cancros?
6. Peço desculpa de me meter nisto, mas evitei o meu jargão fenomenológico (ser no mundo, doubles binds, etc). Claro que não tenho a menor ideia de como poderá haver nesta especulação algo que interesse as hipóteses laboratoriais, limito-me a deduzir de coisas que leio na divulgação corrente. Mas estou convencido de que todas as ciências são marcadas negativamente nos seus paradigmas teóricos pelo predomínio do interior sobre o exterior de que falo no § 2, a que Heidegger chamou ontoteologia e Derrida logocentrismo; só a matemática e as técnicas de medida laboratoriais lhe escapam, mas não a teoria que interpreta os resultados depois de ter imaginado a experiência, nem sequer a maior parte da filosofia que se faz ainda hoje. Será esse erro filosófico que impede de entender coisas como a influência do psicosomático nos cancros. No caso dos neurologistas (Eccles, Changeux, Edelman, Damásio, Kandel), ninguém dá importância à aprendizagem, da linguagem por exemplo maior, que estrutura o cérebro com o que lhe vem de fora, um órgão simultaneamente biológico e social. É certo que só os cientistas é que sabem o que se faz nos laboratórios, mas as suas teorias não são imunes à filosofia que inventou a definição e a argumentação teórica. Esta pergunta diferente atesta a dificuldade do diálogo, mas eu achei que tinha alguma responsabilidade cívica em fazê-la.
Para mais ampla curiosidade eventual

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Movimento e Acontecimento (Ereignis)


(pequena nota)

1. Em http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2015/05/os-passos-que-o-tempo-da.html escrevi que o motivo de movimento em Aristóteles era prioritário sobre o de tempo, que Ser e Tempo privilegia no título. Era uma espécie de critica a Heidegger, mas o tempo nesse grande texto é, tanto quanto me parece lembrar-me, a temporalidade do Dasein, do ser no mundo, o qual, ‘ser’, se destaca contudo do que será o Ser posteriormente, o que dá e retém a doação. Se creio certo que o motivo aristotélico de ‘movimento’ não aparece explicitamente em Heidegger, é provavelmente porque restringido ao ‘ente’ e deixando as suas marcas nos ‘acidentes’ que, relevando do movimento e portanto do tempo, como que se ‘substancializam’ como ‘qualidades’ do ente, que duram, permanecem. Tudo coisas com que Heidegger está rompendo. Como parece testemunhar o texto sobre a phusis em Aristóteles de 1940 (Questions II), em que a análise da ousia se faz como o que se explica pelo movimento, mas sem que este ganhe qualquer primazia (escrevo esta pequena nota de cor, sem ter ido olhar de novo os textos, segundo o que creio ser a lógica do pensamento heideggeriano).
2. Ora, Tempo e Ser, a conferência de 1962 que se apresenta como o acabamento do percurso que vem desde 1927, torna claramente o tempo como dependente do que o dá ao ente, e isso que o dá (não sendo por certo o movimento, de nível ôntico) tem em todo o caso precedência sobre o tempo, pois que de nível ontológico. A temporalidade do ente deve relevar do nível ôntico, onde se passam os movimentos e os acontecimentos, com que o Ereignis não se confunde (embora, contra uma observação de Derrida, acho que se deve traduzir por Acontecimento, sentido corrente de Ereignis em alemão): a diferença ontológica em 62 é entre o ontológico Ereignis (que é ‘nada’) e os ônticos tempo e ser (só em entes que ‘são’), senão o texto perderia todo o sentido. Enquanto que em Aristóteles, a ousia parece ser o nível ‘ontológico’ e os movimentos relevarem do ‘ôntico’, do fenomenológico ou physico, já que a ousia é tratada na Metaphysica aquém ou além do movimento, em Heidegger 62 haverá saída da ontoteologia (em Aristóteles, esta predomina por definição!) como atesta justamente o motivo de Acontecimento com a sua pluralidade anterior à unidade de cada ente que se jogue, seja doado e/ou transformado, nos acontecimentos dados. É por isso que creio poder falar em acabamento de 62 em relação a 27, já que a ruptura deste com Husserl, segundo a lição de João Paisana, foi justamente com o ‘objecto’ definido, retorno ao quotidiano do Dasein, isto é início da saída da ontoteologia.
3. O que Heidegger não fez nos seminários que comentam Tempo e Ser nem nos seguintes foi tirar a conclusão desta viragem – deste III Heidegger! – para o Dasein. Nunca o ser no mundo é dito ou aludido como doado em multiplicidades pelo Acontecimento (ou pela Terra – Mundo dos anos 30, quando o termo de Ereignis lhe surgiu).

sábado, 1 de agosto de 2015

Leitura textual



1. O § 1 do texto Platão entre Sócrates e Aristóteles pede um esclarecimento. Fui aprendendo a ler ao longo da minha vida e compreendendo que não há nenhum método ou equivalente de leitura, nem em filosofia nem em ciências em que os textos sejam importantes, como a história e outras ciências que tenham a ver com sociedades. Mas é claro que toda a gente acha que sabe ler, sem método aceitar-se-á facilmente, como que intuitivamente. Houve tentativas, claro, tipo análises de ideias ou de conteúdos, as semióticas estruturais de Greimas, mas sem grande sucesso, ou, se se quiser, o sucesso da inteligência do leitor, como acontece também com os psicólogos: a experiência de gente inteligente permite coisas boas.
2. Qual é o problema? O que se faz por regra quando se lê um texto? Há certo tipo de palavras, os categoremas dos medievais ou os signos dos modernos, que reenviam para ‘coisas’ da dita ‘realidade’, concretas ou abstractas, as ‘coisas’ que os dicionários indicam como significado das palavras, com frequentemente polissemias (o verbo ‘fazer’, dizia Benveniste, tinha 80 significados no dicionário Littré). Fora dessas palavras, substantivos, adjectivos, verbos e advérbios das gramáticas clássicas, há os sincategoremas, o ‘sin-‘ dizendo que são elementos da sintaxe que põem em relação entre eles os categoremas nas frases, não têm pois significado referencial, nem concreto nem abstracto, mas estabelecem correlações entre as outras palavras. Ora bem, creio que que se pode dizer que aprender, a ler como a falar, implica como atitude essencial, indispensável a qualquer leitura ou escuta ou fala, o saber correlacionar esses signos ou categoremas com o que eles referem. A questão é saber se essa atitude indispensável é a única e, se não for, o que é que a completa. E é possível que esteja aí o busillis. Na tradição filosófica, pelo menos a partir do helenismo enquanto sendo coisa de bilingues, de gente falando grego além da sua língua materna (já o fundador do Estoicismo, Zenão, que aprendeu grego na escola), quando se teorizou o motivo do signo, essencial para a tradução justamente por essa economia de referencialidade ser em torno da qual se traduz, houve na tradição filosófica helenística e na moderna europeia (quando se largou o latim como língua de erudição e a tradução reapareceu) uma atenuação da estrutura da linguagem que foi subalternizada ao pensamento e à sua relação com a ‘realidade’ a pensar. Então creio que se pode dizer que o que veio completar a capacidade de leitura foi a importância dada aos ‘significados’ das coisas da ‘realidade’, concretas ou abstractas: lê-se pensando nas coisas lidas, como se não houvesse linguagem. Uns melhores, outros menos bem. É ainda assim que muita gente lê, toda a gente é ensinada assim, à maneira da ontoteologia heideggeriana (eu sujeito diante de objectos), do logocentrismo derridiano (privilégio da minha voz a ler mentalmente).
3. Escapar a isto demanda uma lenta aprendizagem da textualidade. A leitura textual, seja a de Barthes no S/Z e noutros textos da mesma época, seja a da Derrida, este na sua proposta gramatológica de ler o texto filosófico enquanto escrita e que, lendo Rousseau, escreveu – grande  indignação, grande escândalo – que “não há fora do texto” 
(http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2014/07/o-que-e-que-ha-fora-do-texto-nada-tudo.html), 
o que implica ter em conta não o ‘contexto’ das coisas lidas, como se o texto fosse transparente à realidade, mas o que se pode chamar o contexto textual, todo o resto do texto, tanto próximo (no sentido habitual de contexto) como longínquo. Ou seja, ler o texto como um textil, uma renda de fios entrecruzados (Barthes), um tecido de diferenças, de conotações, isto é, de diferenças entre denotações, os tais ‘significados’ dos signos. E a ‘realidade’? Nenhum texto diz esta sem mais, mas escolhe, dum imenso indizível, aquilo que dela diz. Qual é a vantagem deste método de leitura? A dizer verdade tem muito pouco de método, cada texto tem o seu, a pedir habilidade ao leitor, a vantagem sendo a de se poder chegar mais perto do que foi escrito, o que é tanto mais importante quanto mais antigo for o texto, por exemplo, os textos filosóficos gregos e medievais e os textos bíblicos. Assisti uma vez a uma apresentação e debate do poema de Parménides por gente da filosofia analítica que me impressionou muito: procuravam no venerável texto respostas para as suas discussões do século XX. Tal como os exegetas bíblicos, crentes ou ateus, lêem os textos como se fossem da nossa actualidade da separação da religião e da politica. Ou ainda uma tradutora de Orígenes (início do século III) que a certa altura introduzia a expressão “representação mental” que o Vocabulaire de la Philosophie (início do século XX) ainda não continha! Ora, estes textos antigos são nossos fundadores, isto é, ignoravam totalmente as nossas questões de descendentes retardados e o principal problema da leitura deles é que nós, por nosso lado, ignoramos inevitavelmente as ignorâncias deles. Por exemplo mais perto, ignoramos que Galileu não sabia física, estava a dar-lhe início: não conhecia sequer a lei da gravidade, descoberta por Newton, o qual nasceu no ano em que ele morreu, Galileu. Kuhn fala algures deste anacronismo, contando como nos seus seminários de história da física os alunos vindos doutras áreas têm mais facilidade em abordar limpidamente os textos do que os alunos com formação científica, que metiam física de épocas posteriores sem darem por isso.
4. A vantagem da leitura textual, implicando sempre a competência referencial em relação aos ‘significados’ das palavras antigas, tanto quanto podemos conhecê-los, é claro, é a de nos aproximarmos da problemática desses textos, no sentido que foi aberto por Bachelard e retomado por Althusser. Como saber que nos estamos a aproximar dessa problemática? Quando o texto começar a reagir contra a nossa grelha de leitura, começar a revelar contradições nele mesmo que obriguem a corrigir a grelha e a procurar os motivos escondidos dessas contradições. Quando o texto se torna fascinante.
5. Mas há uma desvantagem também. É que dá muito trabalho, exige muita energia, muito tempo, para relacionar assim as diferentes partes do texto, encontrar as suas repetições além do nível das frases, nos códigos que ele tece para contar o que conta, o seu movimento de escrita, a ‘realidade’ que o fez escrever. Este motivo de código, que se encontra também de outra maneira nas Mythologiques de Lévi-Strauss, permite com efeito compreender nas suas repetições, quer sequenciais quer paramétricas, os elementos linguísticos das frases que reenviam dumas para as outras. Quando se trata de textos que fazem ‘corpus’, esses códigos repetem-se como paradigma do corpus respectivo (é o caso dos mitos que leu genialmente o grande estruturalista), o que permitirá ganhar rendimento de leitura com o tempo: se inicialmente há que andar à procura lentamente, a verdade é que depois as vantagens compensam. 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Platão entre Sócrates e Aristóteles



1. A minha vida intelectual foi cheia de surpresas, as maiores deste jeito: pegar em textos muito lidos por especialistas e descobrir-lhes lógicas textuais inéditas que transformaram a leitura deles. Foi o caso antes de mais do evangelho de Marcos, mas depois da Poética de Aristóteles, do 4º capítulo do Discurso do Método de Descartes, dum bom conjunto de livros da Bíblia, da hebraica (após revolução da exegese do Pentateuco: http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2013/09/a-biblia-hebraica-revisitada.html) e do novo Testamento cristão, dos diálogos de Platão, enfim. É claro que não se trata de habilidade minha, a não ser a que me veio da admirável leitura textual do Sarrasine de Balzac, S/Z, por Roland Barthes (é certo que esta, que eu saiba, não proliferou assim em mais ninguém), da leitura sintomal de Althusser com Bachelard por detrás, da gramatologia de Derrida. O que se passou em cada uma destas descobertas, tanto quanto me apercebo, sem conhecer na maior parte dos casos quase nada do dossier respectivo, foi que a abordagem da problemática textual aos textos inovou em relação a ‘leituras referenciais’ – se dizer se pode assim a ausência de métodos de leitura adequados à textualidade –, leituras por assim dizer ‘pedaço a pedaço’, referindo cada um deles à ‘realidade’ de que fala, consoante as questões do leitor investigador que, à leitura textual, se revelam não serem as do texto. Claro como água no chamado método histórico crítico da exegese bíblica (os exegetas, crentes ou ateus, vão em busca dum livro ‘religioso’ e não entendem a sua dimensão ‘política’ indissociável), mas também única explicação no caso de Aristóteles, como no de Platão, de que vai ser questão aqui.
2. Com efeito, quando há uma dezena de anos, ao começar uma leitura das cartas de Paulo de Tarso, decidi interrompê-la para realizar um desejo antigo, o de ler de seguida os diálogos de Platão, de que só conhecia bem o Crátilo e o Sofista e alguns passos de outros, nomeadamente da República – e já aí me tinha espantado, ao saber na introdução de Mª Helena Rocha Pereira à sua tradução na Gulbenkian do que os especialistas chamavam “a grande digressão”, sem pelos vistos terem dado pelo pequeno episódio de cochicho que serve de introdução e conclusão dela como óbvio mecanismo de inserção (ver http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2015/07/mulher-e-homem-casa-e-alma-luce.html) posterior – quando comecei a ler ingenuamente, seguindo uma cronologia deles que previra e ia tacteando, em busca de compreender a génese das Formas ideais e da alma imortal, com a questão também de saber quanto daquilo provinha tal e qual de Sócrates e que coisas eram já do geómetra Platão, dei por encontrar no Crátilo, no que já presumia ser a primeira referência dos diálogos às Formas ideais, que se tratava dum sonho que Sócrates tivera. Ora, pareceu-me logo óbvio que o ‘sonho’ era um sintoma textual de que se tratava de invenção de Platão. Donde que fosse fácil em seguida ir detectando outros sintomas que pudessem dar a perceber aonde Platão assinalava aquilo que conscientemente estava a acrescentar ao seu mestre: como é que tantos e tão doutos especialistas não davam por algo que o neófito percebia? o espanto da República crescia, enigmas do que Khun chamou paradigmas. Mesmo quando rompe em certos pontos, essas rupturas seriam exigências de ‘fidelidade’. Mas ele não deixa de assinalar apesar de tudo essas rupturas, deslocando Sócrates do seu papel de condutor do diálogo que devolve a Parménides, a um estrangeiro de Eleia ou a Diótima. Ora, como esse texto tem mais de 40 páginas, Sócrates e Platão, ensaios de leitura, que se pode encontrar no blogue http://filosofiamaisciencias.blogspot.pt/2012/02/socrates-e-platao-ensaios-de-leitura.html, pareceu-me que poderia ter algum interesse sublinhar essas novidades da leitura.
3. A maior parte dos textos são diálogos entre Sócrates e um ou dois interlocutores, sem outras circunstâncias ou muito poucas. O que sublinha o contraste com o enquadramento de alguns – Protágoras, Górgias, República e Banquete – com assistência abundante, em casa dum rico anfitrião. Eles são aliás relativamente contemporâneos uns dos outros. A minha hipótese parte de Chambry, a propósito do Górgias e da “violência dos seus ataques contra a retórica”: “Platão acabava de fundar a Academia. Renunciara desde então à politica activa para se dedicar à filosofia. O Górgias foi o manifesto da nova escola. Tratava-se de atrair os jovens que a retórica atraía sozinha” (Garnier-Flammarion, p. 160). Foram provavelmente esses quatro os textos que Platão publicou, os outros terão sido sobretudo destinados ao uso da Academia. O quadro destes textos diria a ruptura com a maneira socrática de fazer politica: já não na ágora, mas num espaço privado, retirado, onde haverá todavia bastante público tomando parte nos diálogos do mestre. Pois se a Academia deverá fazer concorrência a outros, como diz Chambry, é porque ela é uma instituição de aprendizagem com fim politico: ela deve ensinar jovens cidadãos que se tornarão homens políticos.
4. A ponta da fidelidade de Platão ao seu mestre seria a procurar no que Chambry diz a propósito do Hípias menor: “esta ideia fundamental do dialogo, que a ciência e a virtude se confundem, Platão guardá-la-á toda a sua vida” (Garnier-Flammarion, p. 61), o objectivo socrático, “que se votou ao estudo das virtudes éticas”, dizia Aristóteles, o seu discípulo não o renegou, nem mesmo quando a Academia o orienta para as questões de geometria e de ontologia. Tudo se passa com efeito como se os primeiros diálogos de Platão fossem ‘reportagens’ bastante fieis da maneira de fazer de Sócrates, como se, à noite, tendo voltado a casa, o jovem discípulo estudioso escrevesse um memorando, como sugere a Apologia, o Criton e o Fédon I. Assim o personagem Euclides no prólogo do Teeteto: “logo que cheguei a casa, pus por escrito as minhas recordações e redigi em seguida tudo o que me lembrava e, sempre que ia a Atenas, interrogava Sócrates de novo sobre aquilo de que me não lembrava e voltando aqui, corrigia as minhas notas, de forma que tenho essa conversa [o texto do Teeteto] escrita quase inteiramente” (143a).
5. “Considera com efeito, admirável Crátilo, um pensamento que me vem frequentemente como um sonho. Devemos dizer sem mais que existe o belo mesmo e o bom (einai auton kalon kai agathon) assim como cada uma das coisas? Há que o dizer ou não?” (493d). Ponto de ruptura de Platão com Sócrates, como depois no Ménon, a evocação de dizeres de gente divina funciona à maneira do ‘como um sonho’ do Crátilo que lhe permitirá a proposta da reminiscência: quando Sócrates evoca uma experiência deste tipo, sonho ou revelação de ‘origem divina’, é Platão quem assinala um ponto importante do seu afastamento do mestre.
6. No Banquete, após os outros convivas terem exposto as diversas concepções correntes sobre o amor, encontramos pela primeira vez Sócrates na posição de interlocutor diante de outrem que, ela, está na posição da que conduz o discurso, aquela que sabe, “uma mulher de Mantineia, Diótima, sábia destas matérias e muitas outras” (201d). Esta inversão das posições é sem dúvida um índice muito forte da ruptura que Platão aqui opera em relação a Sócrates: a argumentação irá até à Forma ideal do Belo / Bem, representa pois o culminar do platonismo, após o Crátilo e o Ménon. As três redacções da República resumem este percurso: o livro I, sobre a virtude da justiça, faz parte dos textos iniciais estritamente socráticos, os II-IV, VIII-IX, da passagem à justiça da cidade, os V-VII, X, da proposto ontológica relativa à educação da cidade; respectivamente 1º ética, 2º politica e 3º ontologia.
7. Pode-se resumir assim a caminhada de Platão até aqui: sobre a dupla base socrática da pedagogia erótica e da crença tradicional da sobrevivência da alma no Hadés, por um lado ele faz jogar a definição que o próprio Sócrates inventou para, a partir de múltiplas coisas que mudam, fazer existir realmente (celestialmente) os definidos enquanto entes inteligíveis, imutáveis, por outro busca demonstrar a tradição órfica da imortalidade da alma (e o reforço, recorrendo à geometria, à oposição entre a alma e o corpo, o inteligível e o visível ou sensível) a partir da reminiscência desses definidos, contemplados antes do nascimento.
8. O Parménides é o texto da grande viragem seguinte, que se assinala imediatamente pelo lugar tomado pelo velho filósofo que interroga o jovem Sócrates e o critica por ter começado a definir muito novo, censura-lhe a precocidade: “o que é que tu vais fazer em termos de filosofia? Para que lado te virarás (trepsei), se as coisas não são conhecíveis? – É algo que não vejo nada, pelo menos de momento. – É que tu começaste cedo de mais, Sócrates, antes de te teres exercido, a definir (horizesthai) o belo, o justo, o bom e cada uma das outras formas. Foi uma observação que fiz o outro dia ouvindo-te a discutir aqui mesmo com o nosso amigo Aristóteles” (135c). A citação inopinada de Aristóteles, cujos argumentos críticos das Formas ideais tinham sido retomados por Parménides, assinala que os textos futuros, que iniciam uma nova problemática, que foi a chegada de Aristóteles à Academia que incitou a essa viragem para a questão do conhecimento das coisas, que dominará o Teeteto, e cujo fracasso levará à ruptura do Sofista, o parricídio de Parménides. Com excepção do Filebo, Sócrates será após o Teeteto excluído do seu papel tradicional de condutor do inquérito, na sequência textual em questão, a da critica da separação das Formas ideais. Ora, a primeira vez em que Sócrates foi interrogado, diante de Diótima, foi ela quem pela primeira vez falou dum “ser eterno com uma forma una” (monoeides aei on), ela que foi assim, se dizer se pode, o ‘pivot’ da viragem para o platonismo. Este situou-se entre Diótima e Parménides, nas duas únicas vezes em que Sócrates virou discípulo.
9. Em que é que consiste então esta viragem? Trata-se dum deslocamento da questão, da problemática: pode haver uma ciência, um saber organizado sobre as coisas deste mundo? Traça-se um novo estaleiro do saber. O interesse do Filebo e do  Timeu é apresentarem uma espécie de hipótese de trabalho que Aristóteles desenvolverá, retomando a tradição das filosofias da phusis – e renovando-a, pela sua maneira de jogar com a definição e com as lógicas argumentativas que ela tornou possíveis –, hipótese de trabalho que dará origem à ousia e à Physica aristotélica, às suas diversas ciências. O motivo de género (genos: nascimento, família, linhagem, raça, geração) como categoria de pensamento  (geral, as espécies do género)  sublinha esta coisa tão bonita, do pensamento só ter vindo a ser possível a partir do que é a geração: tratava-se de pensar a multiplicidade das coisas do mundo, submetidas ao nascimento e à morte, ao tempo e ao movimento, à fecundidade em suma.
10. Terá havido assim três épocas dos escritos de Platão: o período socrático, o platonismo e o que se poderá designar como pós-platonismo, uma espécie de pré-aristotelismo. Foi o segundo que vingou, é ele que é sempre designado com o nome de Platão. O lugar que ele deu a Sócrates nos seus textos, à maneira da epigrafia antiga, é um testemunho da fidelidade ao Mestre que lhe ensinou a pensar, a pensar a virtude e a definir, fidelidade que se alargou e acabou por se romper posteriormente (exit Sócrates), mas veio a estar por sua vez na origem dum outro grande discípulo. Sem estes três grandes Gregos não haveria Europa. 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Força e fraqueza da ciência económica à luz da crise grega



1. Raramente nos é dado um espectáculo tão nítido duma fractura das atitudes como a que houve face a esta crise, que não é simplesmente entre direita e esquerda nem de antagonismos étnicos anti-gregos e anti-alemães, mas que creio ser ilustrável por duas faces da ciência económico-financeira, tal como elas se manifestaram ao longo destes seis meses, que foram empolgantes nomeadamente por se tratar dum pais que, melhor ou pior, todos sabemos estar na origem da nossa civilização, como atestam as numerosas palavras gregas das nossas línguas modernas, música e mecânica, por exemplo, não apenas eruditas. O que me importa aqui é a economia enquanto ciência.

Pensar e conhecer implicam redução do contexto
2. A palavra ‘cão’ aplica-se a um pastor alemão e a um pelo de arame, a palavra ‘casa’ a uma mansão vitoriana e a uma habitação pré-construída de madeira. Estas palavras só podem funcionar por reduzirem as singularidades de cada coisa que nomeiam e designarem-nas por uma generalidade. A redução é uma operação essencial do pensamento ocidental, tal como foi inventada por Sócrates a definição, utilizada por Platão e abundantemente por Aristóteles em filosofia e lógica e nas suas ciências. Definir é reduzir o contexto singular da coisa definida, onde ela teve origem e sofre e opera efeitos diversos, para que, comparada com outras da mesma espécie, a respectiva essência possa ser argumentada intemporalmente, seja qual for o contexto.
3. O laboratório científico é filho da definição em suas teorias, a que acrescenta o labor operatório no conhecimento – mede movimentos; Galileu conta assim com o tempo (o que a geometria não fazia) e Newton com as forças da mecânica (que não tinha teoria). Mas só funciona reduzindo os contextos dos fenómenos que mede, donde que, em rigor, o novo conhecimento é válido dentro do laboratório, fora dele pode sempre haver, em contextos que não foram tidos em conta, os chamados “efeitos secundários” em farmácia e a poluição em geral. Limites duma ciência cuja fecundidade é óbvia.

O laboratório da economia: moeda e estatísticas
4. Vamos então à economia enquanto ciência. Antes de indagarmos do seu laboratório, como é que ela opera a redução que a torna científica, sobre quê? É a moeda que reduz tudo o que se joga no mercado a custos e preços, com os quais se fazem as contas aritméticas que dizem lucros e prejuízos. Das mercadorias guardam-se as quantidades que multiplicam preços unitários, todos os outros intervenientes, mormente salários, são reduzidos a números de euros ou dólares, para que as contas se façam: tal como em física (mas aí com dimensões variadas e técnicas de medida que permitem tecnologias), essa redução que permite fazer contas é a grande vantagem dos números, a força da economia enquanto ciência, as quantidades em vez das qualidades reduzidas (estas exigem palavras e frases para serem tidas em conta, é muito mais complicado).
5. Quanto ao laboratório, ele é constituído essencialmente pelas estatísticas aonde se vão buscar os números para fazer as contas, as teorias e as discussões consistindo em guias de escolha dos números que importam para o problema de que o economista se ocupa: é aonde a incerteza é irredutível entre teorias (a favor ou contra o capital, posições políticas escondidas). O que é que fica de fora desse laboratório? Toda a sociedade além do sector a que os números se referem, sendo que mesmo esse sector não é apenas mercado e que o que não o é mas tem efeitos nele e dele recebe efeitos não é tido em conta, não o pode ser, qualquer que seja a opinião ou atitude politica do investigador (que jogam nas escolhas dos números, claro). Um exemplo: se tal política económica pode prever os limites do aumento do desemprego que será consequência da sua aplicação, não pode todavia saber, por ela mesma, se haverá ou não em consequência uma explosão social, ou algo semelhante, que possa pôr em causa o aspecto económico que essa política visava regular. O economista japonês T. Sakaiya (Japão. As duas faces do gigante) mostrava como as “leis económicas" ocidentais não produziam no Japão os mesmos efeitos que no Ocidente.

Economia com politica
6. Não há actualmente nenhuma ciência global das sociedades e o grande problema neste aspecto é que a economia, que é apenas a ciência dos mercados, se coloca como a ciência global, a única que há. Ora, o que mostrou esta crise de forma flagrante, não foi tanto os engravatados contra os sem gravata, mas por um lado aqueles para quem a economia é a ciência global de que não conseguem ver o que lhe sobra e por outro, em face, aqueles para quem há mundos sociais e políticos além das finanças - economia. A crise é financeira, por certo, os números são essenciais mas não podem ser só eles a decidirem do contexto; já basta que não haja instância política que controle as finanças desreguladas, nenhum Estado da União Europeia nem nenhum órgão desta. Schaüble é um homem antipático, o seu handicap deve torná-lo mais feroz, a mostrar do que é capaz, mas não é ele o problema: o problema é o paradigma económico que o possui e aos outros dos 18 a 1 do Eurogrupo (F. do Amaral), é o mal chamado ‘pensamento único’, porque se é único não é pensamento, é clausura laboratorial. Para os 18, a Grécia estava reduzida, não ouviram o ‘não!’ do referendo: é o que melhor exibe a fraqueza da economia. Seja Keynes ou outra coisa adequada a estes tempos globais, economia politica deverá ser economia que se articule com a dimensão politica, tarefa constante dos Estados e das autarquias. Tarefa de ciência social, incluindo a economia.