quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Uma pergunta filosófica sobre o cancro



1. Na instrutiva entrevista a Maria de Sousa e Manuel Sobrinho Simões por Anabela Mota Ribeiro sobre o cancro (rev. 2 do Público de 26 julho), a primeira fez vários apelos à diversificação das perguntas das investigações científicas. Dirigia-se aos cientistas, é certo, jovens nomeadamente, mas acontece que as perguntas científicas relevam do paradigma e este tem uma dimensão filosófica escondida aos olhos dos cientistas, dimensão essa que contém um erro que interfere nas perguntas experimentais que eles fazem. Trabalhando em Filosofia com Ciências, com a dimensão filosófica delas antes de se diferenciarem em ciências com a invenção dos laboratórios, proponho aqui a minha pergunta.
2. Ao ler textos de biologia molecular e de neurologia, fiquei admirado de verificar que dão sempre um salto por cima da anatomia; o título do livro de M. Sobrinho Simões citado na entrevista (Gene, célula, ciência, homem) ilustra-o bem: dos ‘genes’ e das ‘células’, a ‘ciência’ passa logo para o ‘homem’ (e a mulher, claro), ou seja, para o organismo, como se a anatomia não estivesse entre esses dois níveis, o básico e o geral. Trata-se a descoberta extraordinária da genética como se ela determinasse tudo o mais e não houvesse caminhos entre ambos os níveis. A entrevista fala de órgãos diferentes, mas enquanto susceptíveis de serem afectados por cancros, não em relação à sua especificidade anatómica. Creio que, além do cartesianismo da compreensão do complexo a partir do simples (contra o qual se levantou E. Morin com o motivo de ‘complexidade’), reflecte-se aí uma atitude filosófica europeia (que vem de Platão e Aristóteles) em que o ‘interior’ é determinante sobre o ‘exterior’, donde resulta a dificuldade de compreender as incidências do ambiente ecológico sobre o organismo.
3. Eis o que me parece ser a lógica da evolução, tal como a deduzi dessas leituras. Os genes dos unicelulares eucariotes primitivos têm como papel regular o metabolismo para restabelecer as suas diversas moléculas complexas admitindo moléculas exteriores; os ribossomas que jogam na síntese dessas proteínas degradam-se quimicamente, o ADN permanece o mesmo no núcleo para quando voltar a ser necessário. A partir das colónias de unicelulares, iniciou-se um processo de ‘aquisição colectiva’ de moléculas para todas as células, as quais se especializarão em tecidos e órgãos com o objectivo único de facilitarem a alimentação molecular de todas as células em condições ecológicas mais exigentes (além de se defenderem de serem comidos). É que para os animais só noutros vivos – plantas (que receberam carbono do CO2 pela fotossíntese) para os herbívoros e plantas e animais para os carnívoros – é que se encontram as moléculas orgânicas de que precisam: lei da selva. Esta determina os dois sistemas na anatomia de todas as espécies animais, com ou sem vértebras: um de nutrição e outro de mobilidade, encabeçados pela boca e ambos regulados pelo cérebro, eles visam essencialmente a reformulação incessante das células (predação) e evitar ser presa de outrem. A lógica da anatomia de cada espécie pode dizer-se como uma espécie de contrato que todos os órgãos fazem entre si para alimentarem democraticamente todas as células. Com efeito, a circulação do sangue, após o processo digestivo que moleculiza os pedaços comidos, vai a todas as células levar moléculas. É esse contrato que os cancros rompem.
4. Se os genes têm como papel regular o metabolismo e restabelecer as suas diversas moléculas complexas a partir da chegada de novas moléculas pelo sangue, poder-se-á deduzir que seja a relação deles com o que chega do sangue que há que analisar em termos de saber como se canceriza. Talvez que entre as várias regulações da homeastasia pelo velho córtex endócrino se encontre a do tamanho dos vários órgãos e tecidos e que esta se exerça na relação sangue / células alimentadas, com papel quiçá das esteroides (http://filosofiamaisciencias.blogspot.pt/2008/02/evoluo-e-sexualidade.html) e que o neo córtex, adequado às estratégias no ecológico e no social, intervenha (um cérebro duplo, não dois à parte, Changeux). No caso humano, o que se chama psico-somático é provavelmente aí que tem lugar, maneira possível de qualquer ‘stress’ poder influir na distribuição sanguínea das moléculas. Quando a evolução chegou aos humanos e estes progrediram em usos e saberes até hoje, já o essencial das anatomias estava fixado em prol da predação e das artes de ataque e defesa em vista do objectivo da economia estrutural: alimentar todas as células.
5. Não sei se já isto é aceitável. Sou mais atrevido todavia na maneira de responder a uma questão do livro admirável de M. Barbieri, Teoria semântica da evolução (questão que ele não põe), em que o papel dos ribossomas ARN na constituição dos unicelulares foi prévio ao dos desoxi-ribonucleicos ADN: como é que estes são retidos no núcleo para se manterem os mesmos sem degradação? A crer na nomenclatura, perde um ‘oxi’, sei lá como: dos ARN se fez o ADN. Mas haverá, hoje vai-se sabendo, processos de retrotranscrição que se acrescentam aos genes: então não poderá ser que as mutações genéticas, em vez de serem puramente casuais (o que aflige muito a lógica), sejam resultado de processos desses que sejam, por assim dizer, a inversão do normal ADN -> ARN, este será por vezes transgredido, repetindo os começos? Se for assim, o processo da evolução não será puro acaso de mutações genéticas que batem certo sabe-se lá porquê, mas jogo celular em órgãos anatómicos que também recebem impactos da cena ecológica, de dentro para fora e de fora para dentro. O mecanismo essencial da retenção dos genes na reprodução celular poderá ter tido infracções positivas que repetiam as origens unicelulares e deram as evoluções. Ora bem, não poderão essas infracções continuarem a ocorrer frequentemente mas de forma negativa, por exemplo por vias psico-somáticas de inadaptação ao social, caso por caso? Serão isso muitos dos cancros?
6. Peço desculpa de me meter nisto, mas evitei o meu jargão fenomenológico (ser no mundo, doubles binds, etc). Claro que não tenho a menor ideia de como poderá haver nesta especulação algo que interesse as hipóteses laboratoriais, limito-me a deduzir de coisas que leio na divulgação corrente. Mas estou convencido de que todas as ciências são marcadas negativamente nos seus paradigmas teóricos pelo predomínio do interior sobre o exterior de que falo no § 2, a que Heidegger chamou ontoteologia e Derrida logocentrismo; só a matemática e as técnicas de medida laboratoriais lhe escapam, mas não a teoria que interpreta os resultados depois de ter imaginado a experiência, nem sequer a maior parte da filosofia que se faz ainda hoje. Será esse erro filosófico que impede de entender coisas como a influência do psicosomático nos cancros. No caso dos neurologistas (Eccles, Changeux, Edelman, Damásio, Kandel), ninguém dá importância à aprendizagem, da linguagem por exemplo maior, que estrutura o cérebro com o que lhe vem de fora, um órgão simultaneamente biológico e social. É certo que só os cientistas é que sabem o que se faz nos laboratórios, mas as suas teorias não são imunes à filosofia que inventou a definição e a argumentação teórica. Esta pergunta diferente atesta a dificuldade do diálogo, mas eu achei que tinha alguma responsabilidade cívica em fazê-la.
Para mais ampla curiosidade eventual

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Movimento e Acontecimento (Ereignis)


(pequena nota)

1. Em http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2015/05/os-passos-que-o-tempo-da.html escrevi que o motivo de movimento em Aristóteles era prioritário sobre o de tempo, que Ser e Tempo privilegia no título. Era uma espécie de critica a Heidegger, mas o tempo nesse grande texto é, tanto quanto me parece lembrar-me, a temporalidade do Dasein, do ser no mundo, o qual, ‘ser’, se destaca contudo do que será o Ser posteriormente, o que dá e retém a doação. Se creio certo que o motivo aristotélico de ‘movimento’ não aparece explicitamente em Heidegger, é provavelmente porque restringido ao ‘ente’ e deixando as suas marcas nos ‘acidentes’ que, relevando do movimento e portanto do tempo, como que se ‘substancializam’ como ‘qualidades’ do ente, que duram, permanecem. Tudo coisas com que Heidegger está rompendo. Como parece testemunhar o texto sobre a phusis em Aristóteles de 1940 (Questions II), em que a análise da ousia se faz como o que se explica pelo movimento, mas sem que este ganhe qualquer primazia (escrevo esta pequena nota de cor, sem ter ido olhar de novo os textos, segundo o que creio ser a lógica do pensamento heideggeriano).
2. Ora, Tempo e Ser, a conferência de 1962 que se apresenta como o acabamento do percurso que vem desde 1927, torna claramente o tempo como dependente do que o dá ao ente, e isso que o dá (não sendo por certo o movimento, de nível ôntico) tem em todo o caso precedência sobre o tempo, pois que de nível ontológico. A temporalidade do ente deve relevar do nível ôntico, onde se passam os movimentos e os acontecimentos, com que o Ereignis não se confunde (embora, contra uma observação de Derrida, acho que se deve traduzir por Acontecimento, sentido corrente de Ereignis em alemão): a diferença ontológica em 62 é entre o ontológico Ereignis (que é ‘nada’) e os ônticos tempo e ser (só em entes que ‘são’), senão o texto perderia todo o sentido. Enquanto que em Aristóteles, a ousia parece ser o nível ‘ontológico’ e os movimentos relevarem do ‘ôntico’, do fenomenológico ou physico, já que a ousia é tratada na Metaphysica aquém ou além do movimento, em Heidegger 62 haverá saída da ontoteologia (em Aristóteles, esta predomina por definição!) como atesta justamente o motivo de Acontecimento com a sua pluralidade anterior à unidade de cada ente que se jogue, seja doado e/ou transformado, nos acontecimentos dados. É por isso que creio poder falar em acabamento de 62 em relação a 27, já que a ruptura deste com Husserl, segundo a lição de João Paisana, foi justamente com o ‘objecto’ definido, retorno ao quotidiano do Dasein, isto é início da saída da ontoteologia.
3. O que Heidegger não fez nos seminários que comentam Tempo e Ser nem nos seguintes foi tirar a conclusão desta viragem – deste III Heidegger! – para o Dasein. Nunca o ser no mundo é dito ou aludido como doado em multiplicidades pelo Acontecimento (ou pela Terra – Mundo dos anos 30, quando o termo de Ereignis lhe surgiu).

sábado, 1 de agosto de 2015

Leitura textual



1. O § 1 do texto Platão entre Sócrates e Aristóteles pede um esclarecimento. Fui aprendendo a ler ao longo da minha vida e compreendendo que não há nenhum método ou equivalente de leitura, nem em filosofia nem em ciências em que os textos sejam importantes, como a história e outras ciências que tenham a ver com sociedades. Mas é claro que toda a gente acha que sabe ler, sem método aceitar-se-á facilmente, como que intuitivamente. Houve tentativas, claro, tipo análises de ideias ou de conteúdos, as semióticas estruturais de Greimas, mas sem grande sucesso, ou, se se quiser, o sucesso da inteligência do leitor, como acontece também com os psicólogos: a experiência de gente inteligente permite coisas boas.
2. Qual é o problema? O que se faz por regra quando se lê um texto? Há certo tipo de palavras, os categoremas dos medievais ou os signos dos modernos, que reenviam para ‘coisas’ da dita ‘realidade’, concretas ou abstractas, as ‘coisas’ que os dicionários indicam como significado das palavras, com frequentemente polissemias (o verbo ‘fazer’, dizia Benveniste, tinha 80 significados no dicionário Littré). Fora dessas palavras, substantivos, adjectivos, verbos e advérbios das gramáticas clássicas, há os sincategoremas, o ‘sin-‘ dizendo que são elementos da sintaxe que põem em relação entre eles os categoremas nas frases, não têm pois significado referencial, nem concreto nem abstracto, mas estabelecem correlações entre as outras palavras. Ora bem, creio que que se pode dizer que aprender, a ler como a falar, implica como atitude essencial, indispensável a qualquer leitura ou escuta ou fala, o saber correlacionar esses signos ou categoremas com o que eles referem. A questão é saber se essa atitude indispensável é a única e, se não for, o que é que a completa. E é possível que esteja aí o busillis. Na tradição filosófica, pelo menos a partir do helenismo enquanto sendo coisa de bilingues, de gente falando grego além da sua língua materna (já o fundador do Estoicismo, Zenão, que aprendeu grego na escola), quando se teorizou o motivo do signo, essencial para a tradução justamente por essa economia de referencialidade ser em torno da qual se traduz, houve na tradição filosófica helenística e na moderna europeia (quando se largou o latim como língua de erudição e a tradução reapareceu) uma atenuação da estrutura da linguagem que foi subalternizada ao pensamento e à sua relação com a ‘realidade’ a pensar. Então creio que se pode dizer que o que veio completar a capacidade de leitura foi a importância dada aos ‘significados’ das coisas da ‘realidade’, concretas ou abstractas: lê-se pensando nas coisas lidas, como se não houvesse linguagem. Uns melhores, outros menos bem. É ainda assim que muita gente lê, toda a gente é ensinada assim, à maneira da ontoteologia heideggeriana (eu sujeito diante de objectos), do logocentrismo derridiano (privilégio da minha voz a ler mentalmente).
3. Escapar a isto demanda uma lenta aprendizagem da textualidade. A leitura textual, seja a de Barthes no S/Z e noutros textos da mesma época, seja a da Derrida, este na sua proposta gramatológica de ler o texto filosófico enquanto escrita e que, lendo Rousseau, escreveu – grande  indignação, grande escândalo – que “não há fora do texto” 
(http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2014/07/o-que-e-que-ha-fora-do-texto-nada-tudo.html), 
o que implica ter em conta não o ‘contexto’ das coisas lidas, como se o texto fosse transparente à realidade, mas o que se pode chamar o contexto textual, todo o resto do texto, tanto próximo (no sentido habitual de contexto) como longínquo. Ou seja, ler o texto como um textil, uma renda de fios entrecruzados (Barthes), um tecido de diferenças, de conotações, isto é, de diferenças entre denotações, os tais ‘significados’ dos signos. E a ‘realidade’? Nenhum texto diz esta sem mais, mas escolhe, dum imenso indizível, aquilo que dela diz. Qual é a vantagem deste método de leitura? A dizer verdade tem muito pouco de método, cada texto tem o seu, a pedir habilidade ao leitor, a vantagem sendo a de se poder chegar mais perto do que foi escrito, o que é tanto mais importante quanto mais antigo for o texto, por exemplo, os textos filosóficos gregos e medievais e os textos bíblicos. Assisti uma vez a uma apresentação e debate do poema de Parménides por gente da filosofia analítica que me impressionou muito: procuravam no venerável texto respostas para as suas discussões do século XX. Tal como os exegetas bíblicos, crentes ou ateus, lêem os textos como se fossem da nossa actualidade da separação da religião e da politica. Ou ainda uma tradutora de Orígenes (início do século III) que a certa altura introduzia a expressão “representação mental” que o Vocabulaire de la Philosophie (início do século XX) ainda não continha! Ora, estes textos antigos são nossos fundadores, isto é, ignoravam totalmente as nossas questões de descendentes retardados e o principal problema da leitura deles é que nós, por nosso lado, ignoramos inevitavelmente as ignorâncias deles. Por exemplo mais perto, ignoramos que Galileu não sabia física, estava a dar-lhe início: não conhecia sequer a lei da gravidade, descoberta por Newton, o qual nasceu no ano em que ele morreu, Galileu. Kuhn fala algures deste anacronismo, contando como nos seus seminários de história da física os alunos vindos doutras áreas têm mais facilidade em abordar limpidamente os textos do que os alunos com formação científica, que metiam física de épocas posteriores sem darem por isso.
4. A vantagem da leitura textual, implicando sempre a competência referencial em relação aos ‘significados’ das palavras antigas, tanto quanto podemos conhecê-los, é claro, é a de nos aproximarmos da problemática desses textos, no sentido que foi aberto por Bachelard e retomado por Althusser. Como saber que nos estamos a aproximar dessa problemática? Quando o texto começar a reagir contra a nossa grelha de leitura, começar a revelar contradições nele mesmo que obriguem a corrigir a grelha e a procurar os motivos escondidos dessas contradições. Quando o texto se torna fascinante.
5. Mas há uma desvantagem também. É que dá muito trabalho, exige muita energia, muito tempo, para relacionar assim as diferentes partes do texto, encontrar as suas repetições além do nível das frases, nos códigos que ele tece para contar o que conta, o seu movimento de escrita, a ‘realidade’ que o fez escrever. Este motivo de código, que se encontra também de outra maneira nas Mythologiques de Lévi-Strauss, permite com efeito compreender nas suas repetições, quer sequenciais quer paramétricas, os elementos linguísticos das frases que reenviam dumas para as outras. Quando se trata de textos que fazem ‘corpus’, esses códigos repetem-se como paradigma do corpus respectivo (é o caso dos mitos que leu genialmente o grande estruturalista), o que permitirá ganhar rendimento de leitura com o tempo: se inicialmente há que andar à procura lentamente, a verdade é que depois as vantagens compensam. 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Platão entre Sócrates e Aristóteles



1. A minha vida intelectual foi cheia de surpresas, as maiores deste jeito: pegar em textos muito lidos por especialistas e descobrir-lhes lógicas textuais inéditas que transformaram a leitura deles. Foi o caso antes de mais do evangelho de Marcos, mas depois da Poética de Aristóteles, do 4º capítulo do Discurso do Método de Descartes, dum bom conjunto de livros da Bíblia, da hebraica (após revolução da exegese do Pentateuco: http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2013/09/a-biblia-hebraica-revisitada.html) e do novo Testamento cristão, dos diálogos de Platão, enfim. É claro que não se trata de habilidade minha, a não ser a que me veio da admirável leitura textual do Sarrasine de Balzac, S/Z, por Roland Barthes (é certo que esta, que eu saiba, não proliferou assim em mais ninguém), da leitura sintomal de Althusser com Bachelard por detrás, da gramatologia de Derrida. O que se passou em cada uma destas descobertas, tanto quanto me apercebo, sem conhecer na maior parte dos casos quase nada do dossier respectivo, foi que a abordagem da problemática textual aos textos inovou em relação a ‘leituras referenciais’ – se dizer se pode assim a ausência de métodos de leitura adequados à textualidade –, leituras por assim dizer ‘pedaço a pedaço’, referindo cada um deles à ‘realidade’ de que fala, consoante as questões do leitor investigador que, à leitura textual, se revelam não serem as do texto. Claro como água no chamado método histórico crítico da exegese bíblica (os exegetas, crentes ou ateus, vão em busca dum livro ‘religioso’ e não entendem a sua dimensão ‘política’ indissociável), mas também única explicação no caso de Aristóteles, como no de Platão, de que vai ser questão aqui.
2. Com efeito, quando há uma dezena de anos, ao começar uma leitura das cartas de Paulo de Tarso, decidi interrompê-la para realizar um desejo antigo, o de ler de seguida os diálogos de Platão, de que só conhecia bem o Crátilo e o Sofista e alguns passos de outros, nomeadamente da República – e já aí me tinha espantado, ao saber na introdução de Mª Helena Rocha Pereira à sua tradução na Gulbenkian do que os especialistas chamavam “a grande digressão”, sem pelos vistos terem dado pelo pequeno episódio de cochicho que serve de introdução e conclusão dela como óbvio mecanismo de inserção (ver http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2015/07/mulher-e-homem-casa-e-alma-luce.html) posterior – quando comecei a ler ingenuamente, seguindo uma cronologia deles que previra e ia tacteando, em busca de compreender a génese das Formas ideais e da alma imortal, com a questão também de saber quanto daquilo provinha tal e qual de Sócrates e que coisas eram já do geómetra Platão, dei por encontrar no Crátilo, no que já presumia ser a primeira referência dos diálogos às Formas ideais, que se tratava dum sonho que Sócrates tivera. Ora, pareceu-me logo óbvio que o ‘sonho’ era um sintoma textual de que se tratava de invenção de Platão. Donde que fosse fácil em seguida ir detectando outros sintomas que pudessem dar a perceber aonde Platão assinalava aquilo que conscientemente estava a acrescentar ao seu mestre: como é que tantos e tão doutos especialistas não davam por algo que o neófito percebia? o espanto da República crescia, enigmas do que Khun chamou paradigmas. Mesmo quando rompe em certos pontos, essas rupturas seriam exigências de ‘fidelidade’. Mas ele não deixa de assinalar apesar de tudo essas rupturas, deslocando Sócrates do seu papel de condutor do diálogo que devolve a Parménides, a um estrangeiro de Eleia ou a Diótima. Ora, como esse texto tem mais de 40 páginas, Sócrates e Platão, ensaios de leitura, que se pode encontrar no blogue http://filosofiamaisciencias.blogspot.pt/2012/02/socrates-e-platao-ensaios-de-leitura.html, pareceu-me que poderia ter algum interesse sublinhar essas novidades da leitura.
3. A maior parte dos textos são diálogos entre Sócrates e um ou dois interlocutores, sem outras circunstâncias ou muito poucas. O que sublinha o contraste com o enquadramento de alguns – Protágoras, Górgias, República e Banquete – com assistência abundante, em casa dum rico anfitrião. Eles são aliás relativamente contemporâneos uns dos outros. A minha hipótese parte de Chambry, a propósito do Górgias e da “violência dos seus ataques contra a retórica”: “Platão acabava de fundar a Academia. Renunciara desde então à politica activa para se dedicar à filosofia. O Górgias foi o manifesto da nova escola. Tratava-se de atrair os jovens que a retórica atraía sozinha” (Garnier-Flammarion, p. 160). Foram provavelmente esses quatro os textos que Platão publicou, os outros terão sido sobretudo destinados ao uso da Academia. O quadro destes textos diria a ruptura com a maneira socrática de fazer politica: já não na ágora, mas num espaço privado, retirado, onde haverá todavia bastante público tomando parte nos diálogos do mestre. Pois se a Academia deverá fazer concorrência a outros, como diz Chambry, é porque ela é uma instituição de aprendizagem com fim politico: ela deve ensinar jovens cidadãos que se tornarão homens políticos.
4. A ponta da fidelidade de Platão ao seu mestre seria a procurar no que Chambry diz a propósito do Hípias menor: “esta ideia fundamental do dialogo, que a ciência e a virtude se confundem, Platão guardá-la-á toda a sua vida” (Garnier-Flammarion, p. 61), o objectivo socrático, “que se votou ao estudo das virtudes éticas”, dizia Aristóteles, o seu discípulo não o renegou, nem mesmo quando a Academia o orienta para as questões de geometria e de ontologia. Tudo se passa com efeito como se os primeiros diálogos de Platão fossem ‘reportagens’ bastante fieis da maneira de fazer de Sócrates, como se, à noite, tendo voltado a casa, o jovem discípulo estudioso escrevesse um memorando, como sugere a Apologia, o Criton e o Fédon I. Assim o personagem Euclides no prólogo do Teeteto: “logo que cheguei a casa, pus por escrito as minhas recordações e redigi em seguida tudo o que me lembrava e, sempre que ia a Atenas, interrogava Sócrates de novo sobre aquilo de que me não lembrava e voltando aqui, corrigia as minhas notas, de forma que tenho essa conversa [o texto do Teeteto] escrita quase inteiramente” (143a).
5. “Considera com efeito, admirável Crátilo, um pensamento que me vem frequentemente como um sonho. Devemos dizer sem mais que existe o belo mesmo e o bom (einai auton kalon kai agathon) assim como cada uma das coisas? Há que o dizer ou não?” (493d). Ponto de ruptura de Platão com Sócrates, como depois no Ménon, a evocação de dizeres de gente divina funciona à maneira do ‘como um sonho’ do Crátilo que lhe permitirá a proposta da reminiscência: quando Sócrates evoca uma experiência deste tipo, sonho ou revelação de ‘origem divina’, é Platão quem assinala um ponto importante do seu afastamento do mestre.
6. No Banquete, após os outros convivas terem exposto as diversas concepções correntes sobre o amor, encontramos pela primeira vez Sócrates na posição de interlocutor diante de outrem que, ela, está na posição da que conduz o discurso, aquela que sabe, “uma mulher de Mantineia, Diótima, sábia destas matérias e muitas outras” (201d). Esta inversão das posições é sem dúvida um índice muito forte da ruptura que Platão aqui opera em relação a Sócrates: a argumentação irá até à Forma ideal do Belo / Bem, representa pois o culminar do platonismo, após o Crátilo e o Ménon. As três redacções da República resumem este percurso: o livro I, sobre a virtude da justiça, faz parte dos textos iniciais estritamente socráticos, os II-IV, VIII-IX, da passagem à justiça da cidade, os V-VII, X, da proposto ontológica relativa à educação da cidade; respectivamente 1º ética, 2º politica e 3º ontologia.
7. Pode-se resumir assim a caminhada de Platão até aqui: sobre a dupla base socrática da pedagogia erótica e da crença tradicional da sobrevivência da alma no Hadés, por um lado ele faz jogar a definição que o próprio Sócrates inventou para, a partir de múltiplas coisas que mudam, fazer existir realmente (celestialmente) os definidos enquanto entes inteligíveis, imutáveis, por outro busca demonstrar a tradição órfica da imortalidade da alma (e o reforço, recorrendo à geometria, à oposição entre a alma e o corpo, o inteligível e o visível ou sensível) a partir da reminiscência desses definidos, contemplados antes do nascimento.
8. O Parménides é o texto da grande viragem seguinte, que se assinala imediatamente pelo lugar tomado pelo velho filósofo que interroga o jovem Sócrates e o critica por ter começado a definir muito novo, censura-lhe a precocidade: “o que é que tu vais fazer em termos de filosofia? Para que lado te virarás (trepsei), se as coisas não são conhecíveis? – É algo que não vejo nada, pelo menos de momento. – É que tu começaste cedo de mais, Sócrates, antes de te teres exercido, a definir (horizesthai) o belo, o justo, o bom e cada uma das outras formas. Foi uma observação que fiz o outro dia ouvindo-te a discutir aqui mesmo com o nosso amigo Aristóteles” (135c). A citação inopinada de Aristóteles, cujos argumentos críticos das Formas ideais tinham sido retomados por Parménides, assinala que os textos futuros, que iniciam uma nova problemática, que foi a chegada de Aristóteles à Academia que incitou a essa viragem para a questão do conhecimento das coisas, que dominará o Teeteto, e cujo fracasso levará à ruptura do Sofista, o parricídio de Parménides. Com excepção do Filebo, Sócrates será após o Teeteto excluído do seu papel tradicional de condutor do inquérito, na sequência textual em questão, a da critica da separação das Formas ideais. Ora, a primeira vez em que Sócrates foi interrogado, diante de Diótima, foi ela quem pela primeira vez falou dum “ser eterno com uma forma una” (monoeides aei on), ela que foi assim, se dizer se pode, o ‘pivot’ da viragem para o platonismo. Este situou-se entre Diótima e Parménides, nas duas únicas vezes em que Sócrates virou discípulo.
9. Em que é que consiste então esta viragem? Trata-se dum deslocamento da questão, da problemática: pode haver uma ciência, um saber organizado sobre as coisas deste mundo? Traça-se um novo estaleiro do saber. O interesse do Filebo e do  Timeu é apresentarem uma espécie de hipótese de trabalho que Aristóteles desenvolverá, retomando a tradição das filosofias da phusis – e renovando-a, pela sua maneira de jogar com a definição e com as lógicas argumentativas que ela tornou possíveis –, hipótese de trabalho que dará origem à ousia e à Physica aristotélica, às suas diversas ciências. O motivo de género (genos: nascimento, família, linhagem, raça, geração) como categoria de pensamento  (geral, as espécies do género)  sublinha esta coisa tão bonita, do pensamento só ter vindo a ser possível a partir do que é a geração: tratava-se de pensar a multiplicidade das coisas do mundo, submetidas ao nascimento e à morte, ao tempo e ao movimento, à fecundidade em suma.
10. Terá havido assim três épocas dos escritos de Platão: o período socrático, o platonismo e o que se poderá designar como pós-platonismo, uma espécie de pré-aristotelismo. Foi o segundo que vingou, é ele que é sempre designado com o nome de Platão. O lugar que ele deu a Sócrates nos seus textos, à maneira da epigrafia antiga, é um testemunho da fidelidade ao Mestre que lhe ensinou a pensar, a pensar a virtude e a definir, fidelidade que se alargou e acabou por se romper posteriormente (exit Sócrates), mas veio a estar por sua vez na origem dum outro grande discípulo. Sem estes três grandes Gregos não haveria Europa. 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Força e fraqueza da ciência económica à luz da crise grega



1. Raramente nos é dado um espectáculo tão nítido duma fractura das atitudes como a que houve face a esta crise, que não é simplesmente entre direita e esquerda nem de antagonismos étnicos anti-gregos e anti-alemães, mas que creio ser ilustrável por duas faces da ciência económico-financeira, tal como elas se manifestaram ao longo destes seis meses, que foram empolgantes nomeadamente por se tratar dum pais que, melhor ou pior, todos sabemos estar na origem da nossa civilização, como atestam as numerosas palavras gregas das nossas línguas modernas, música e mecânica, por exemplo, não apenas eruditas. O que me importa aqui é a economia enquanto ciência.

Pensar e conhecer implicam redução do contexto
2. A palavra ‘cão’ aplica-se a um pastor alemão e a um pelo de arame, a palavra ‘casa’ a uma mansão vitoriana e a uma habitação pré-construída de madeira. Estas palavras só podem funcionar por reduzirem as singularidades de cada coisa que nomeiam e designarem-nas por uma generalidade. A redução é uma operação essencial do pensamento ocidental, tal como foi inventada por Sócrates a definição, utilizada por Platão e abundantemente por Aristóteles em filosofia e lógica e nas suas ciências. Definir é reduzir o contexto singular da coisa definida, onde ela teve origem e sofre e opera efeitos diversos, para que, comparada com outras da mesma espécie, a respectiva essência possa ser argumentada intemporalmente, seja qual for o contexto.
3. O laboratório científico é filho da definição em suas teorias, a que acrescenta o labor operatório no conhecimento – mede movimentos; Galileu conta assim com o tempo (o que a geometria não fazia) e Newton com as forças da mecânica (que não tinha teoria). Mas só funciona reduzindo os contextos dos fenómenos que mede, donde que, em rigor, o novo conhecimento é válido dentro do laboratório, fora dele pode sempre haver, em contextos que não foram tidos em conta, os chamados “efeitos secundários” em farmácia e a poluição em geral. Limites duma ciência cuja fecundidade é óbvia.

O laboratório da economia: moeda e estatísticas
4. Vamos então à economia enquanto ciência. Antes de indagarmos do seu laboratório, como é que ela opera a redução que a torna científica, sobre quê? É a moeda que reduz tudo o que se joga no mercado a custos e preços, com os quais se fazem as contas aritméticas que dizem lucros e prejuízos. Das mercadorias guardam-se as quantidades que multiplicam preços unitários, todos os outros intervenientes, mormente salários, são reduzidos a números de euros ou dólares, para que as contas se façam: tal como em física (mas aí com dimensões variadas e técnicas de medida que permitem tecnologias), essa redução que permite fazer contas é a grande vantagem dos números, a força da economia enquanto ciência, as quantidades em vez das qualidades reduzidas (estas exigem palavras e frases para serem tidas em conta, é muito mais complicado).
5. Quanto ao laboratório, ele é constituído essencialmente pelas estatísticas aonde se vão buscar os números para fazer as contas, as teorias e as discussões consistindo em guias de escolha dos números que importam para o problema de que o economista se ocupa: é aonde a incerteza é irredutível entre teorias (a favor ou contra o capital, posições políticas escondidas). O que é que fica de fora desse laboratório? Toda a sociedade além do sector a que os números se referem, sendo que mesmo esse sector não é apenas mercado e que o que não o é mas tem efeitos nele e dele recebe efeitos não é tido em conta, não o pode ser, qualquer que seja a opinião ou atitude politica do investigador (que jogam nas escolhas dos números, claro). Um exemplo: se tal política económica pode prever os limites do aumento do desemprego que será consequência da sua aplicação, não pode todavia saber, por ela mesma, se haverá ou não em consequência uma explosão social, ou algo semelhante, que possa pôr em causa o aspecto económico que essa política visava regular. O economista japonês T. Sakaiya (Japão. As duas faces do gigante) mostrava como as “leis económicas" ocidentais não produziam no Japão os mesmos efeitos que no Ocidente.

Economia com politica
6. Não há actualmente nenhuma ciência global das sociedades e o grande problema neste aspecto é que a economia, que é apenas a ciência dos mercados, se coloca como a ciência global, a única que há. Ora, o que mostrou esta crise de forma flagrante, não foi tanto os engravatados contra os sem gravata, mas por um lado aqueles para quem a economia é a ciência global de que não conseguem ver o que lhe sobra e por outro, em face, aqueles para quem há mundos sociais e políticos além das finanças - economia. A crise é financeira, por certo, os números são essenciais mas não podem ser só eles a decidirem do contexto; já basta que não haja instância política que controle as finanças desreguladas, nenhum Estado da União Europeia nem nenhum órgão desta. Schaüble é um homem antipático, o seu handicap deve torná-lo mais feroz, a mostrar do que é capaz, mas não é ele o problema: o problema é o paradigma económico que o possui e aos outros dos 18 a 1 do Eurogrupo (F. do Amaral), é o mal chamado ‘pensamento único’, porque se é único não é pensamento, é clausura laboratorial. Para os 18, a Grécia estava reduzida, não ouviram o ‘não!’ do referendo: é o que melhor exibe a fraqueza da economia. Seja Keynes ou outra coisa adequada a estes tempos globais, economia politica deverá ser economia que se articule com a dimensão politica, tarefa constante dos Estados e das autarquias. Tarefa de ciência social, incluindo a economia. 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Aquém do género, o sexo : como desconstruir esta oposição ?




Porquê a questão feminista se pôs no século passado?
Género, sexo e ontoteologia
O sexo, aquém do género
Identidade? Essência?
A desconstrução histórica do patriarcado

1. Deixem-me dizer com alguma imodéstia que eu ‘descobri’ o género alguns anos antes de este conceito antropológico começar a ser divulgado, num texto do Jornal de Letras, “Quando masculino / feminino não coincide com homem / mulher” (27 dezembro 1983). Convivendo quotidianamente com uma intelectual reputada das questões feministas, acompanhei um tanto as questões com alguns textos, dos quais um ou outro neste blogue. Parece-me agora que este par não conseguiu desenvencilhar-se da oposição metafísica alma, sujeito / corpo, sociedade, cultura / biologia e que, como de costume desde Platão pelo menos, o corpo e a biologia é que são espezinhados, apagados, parte fraca. Donde a questão, para a qual haveria que trabalhar mais do que a idade me concede mas o género literário blogue não exige, de saber como e com que vantagens de pensamento e de conhecimento proceder à sua desconstrução? Haverá que saber se, como e em que níveis de análise a categoria universal homens / mulheres ou mulheres / homens abriga dois itens indissociáveis e inconciliáveis? O ponto de interrogação é de rigor, que nestas questões gerais há o enigma de cada humano singular, como se sabe pela paixão que a questão suscita, sobretudo entre as mulheres, as protagonistas revoltadas do que está em jogo.

Porquê a questão feminista se pôs no século passado?
2. É por onde temos de começar. Terá sempre havido mulheres de tempos anteriores para se insurgirem com a desigualdade das posições entre os dois sexos, mas não houve nunca feminismo, no sentido de movimento social de questionamento e transformação dessas posições desiguais. Este teve duas fases, na viragem do século XIX ao XX com reclamação por certas elites cultas e sindicais do direito de todas as mulheres à escola e ao voto politico, nos anos 60 e 70 o movimento avassalador correspondente à grande entrada em massa das raparigas nas escolas e das mulheres nos empregos fora de casa. Foi a consequência sobre a organização social das famílias do que Karl Polaniy chamou a “grande transformação”, a saber das sociedades em que a agricultura e a criação de gado são a base da riqueza e esta predomina na aristocracia de vocação guerreira, senhores de largas terras, transformadas em sociedades modernas em que predominam classes burguesas, industriais e comerciais, as cidades pois e os novos saberes.
3. As sociedades humanas, desde as primitivas, sempre estiveram sujeitas à lei da guerra, que a partir da invenção da agricultura e dos rebanhos se tornou guerra de conquista, formando reinos de extensão variável, por vezes impérios. As unidades sociais eram as casas que, por um lado, reproduziam o parentesco e, por outro, tinham actividade económica, com escravos ou servos nas casas ricas. Assim como a agricultura e o gado dependiam da fecundidade das plantas e fêmeas, também os filhos da casa da fecundidade da mãe, sabendo-se que havia razoável mortandade infantil e que os filhos, sobretudo nas casas não ricas, eram mão de obra desejada. A organização social variou bastante na geografia e na história, mas ela como que distribuiu os papeis sociais em termos da dupla actividade doméstica: ao homem, mais forte fisicamente, as actividades fora de casa, políticas e guerreiras, incluindo a defesa da própria casa e nesta as actividades que pediam músculo, e à mulher a maternidade todo o tempo em que fosse fértil. Os usos que aprendiam e @s tornavam apt@s ás respectivas funções eram desde logo bastante diferenciados: elas e eles eram instituídos por esses usos aprendidos, ainda que houvesse quem não se revisse nos destinos que lhes correspondiam, nomeadamente quem preferiu dar-se às letras ou a espiritualidades: aquilo a que se chama ‘vocação’ implicava justamente uma recusa (parcial) dos usos do respectivo sexo, mas esses destinos diferiam ainda segundo se fosse homem ou mulher.
4. As sociedades modernas definem-se por terem separado as duas actividades das casas e de terem acabado com estas: por um lado instituições de trabalho, como emprego de algumas horas diárias, por outro famílias em apartamentos, como reprodução das gentes. Essa separação resultou da invenção das máquinas, cujo aperfeiçoamento desfez em grande parte o predomínio da força muscular física nas tarefas de trabalho e tornaram-nas por isso mesmo acessíveis às mulheres, juntamente com a atenuação das guerras e o ganho progressivo de segurança nas ruas. A prova da igualdade de princípio entre homens e mulheres no que aos usos sociais em geral diz respeito deram-na as mulheres invadindo as escolas e os empregos, mas esta prova só foi possível pela “grande transformação”, como antes se formara o proletariado industrial a partir do êxodo rural, no outro grande movimento social comparável ao feminismo, o socialismo, que teve a ver sobretudo com homens mas não exclusivamente. Digamos que estes movimentos, que o foram com o que isso implicou de aventuras e lutas pessoais de muit@s, resultaram de possibilidades abertas pela transformação social, este motivo heideggeriano implicando o de ser no mundo, tanto relevando de cada humano (ou cada movimento social) como do mundo em que ele é, que o instituiu com seus usos aprendidos e dos quais depois buscou tirar proveito. Não se trata de diminuir ninguém, há sempre quem force muito mais as suas possibilidades e abras novas inéditas e quem se acomode mais das possibilidades encontradas.
Género, sexo e ontoteologia
5. É assim em termos de seres no mundo que há que pôr a questão e não em termos de homens e mulheres, mulheres e homens. Umas como os outros são, como dizem os sociólogos, ‘construídos socialmente’; acrescente-se que essa construção social se efectua pela aprendizagem dos usos que se vão alterando com as modificações sociais, importância enorme dos electrodomésticos e dos automóveis, por exemplo, como da televisão e do cinema. O ano 1968, desde o Japão à Califórnia, passando por Praga e por Paris, foi o grande manifesto da ruptura entre duas gerações, de pais e de filh@s, com autonomias novas dest@s devidas aos novos usos que seus pais já conheceram tarde de mais para tirarem benefícios equivalentes (como sucede agora com os computadores e uma nova juventude). Fazei amor e não a guerra, no tempo de guerra do Vietnam.
6. Ter em consideração os seres no mundo, instituídos enquanto humanos sociais pelos paradigmas dos usos aprendidos, implica que não se possa olhar para o passado como se os homens e as mulheres de então fossem como nós somos hoje: basta ver que ainda há muito ‘passado nosso’ em homens e mulheres de sociedades actuais não modernas que reagem contra os usos ocidentais que lhes aparecem nas televisões como coisas desavergonhadas, raiz sem dúvida de muito das motivações de terroristas islâmicos.
7. A segunda fase do feminismo foi inaugurada por posições a respeito dos seus corpos enquanto de possível maternidade, a respeito de contracepção e de aborto legal, fase essa em que, como já sucedia no Segundo sexo de Simone de Beauvoir, a maternidade é, por assim dizer, deixada atrás do combate, não como se fosse uma vergonha mas sim um empecilho de escolhas livres, como as dos homens: ser mãe ocupa uns bons vinte anos de vida de cuidado maternal, tem-se visto que os homens facilmente se descartam da paternidade, à maneira de quem no máximo só se sente responsável por umas horas de sexo. Ou seja, se este ganhou uma importância enorme com a libertação desses anos férteis, foi como que engolido pela dimensão que estava realmente em grande reelaboração, o género, a reelaboração dos usos urbanos das mulheres, estudos, emprego, carreira, quantidade de profissões dantes estritamente masculinas que se foram abrindo às mulheres, ufanas de serem as primeiras que... O feminismo é uma luta além do que era possível, é accionado por desejos, é oposto aos homens, busca ser como eles, ainda que haja ao menos uma corrente ilustrada por Luce Irigaray que procura afirmar, juntamente com a emancipação, também a diferença feminina. Ora, esta dimensão de busca de libertação e de afirmação implica que a teorização se faça no registo do ‘sujeito’ filosófico, do ‘eu’ que pensa e quer, ‘eu’ que não é feminino, dirá Françoise Collin, ao qual registo não convém nem a categoria do género nem a do sexo nem a do social. E porque se trata de mudança do género e do social, o sexo, de que o género veio dizer a dimensão social, fica constrangido à do biológico, repondo o sujeito / corpo da oposição metafísica. A mulher quer-se ‘sujeito’ como o homem se quis também. Isso faz parte do que Heidegger chamou ontoteologia, Deus / criatura, depois sujeito / corpo, mundo, sociedade. Não se sai facilmente deste paradigma duplamente milenar.

O sexo, aquém do género
8. No regime patriarcal, o género era constituído predominantemente pela dupla pai / mãe, o pai sendo também o patrão da zona económica da casa. E o sexo? Claro que havia fornicações e adultérios, mas estes eram graves sobretudo quando eram da mulher, porque arriscavam o parentesco, o ‘sangue’ da família, a ‘honra’ da casa. Mas na ordem social, o sexo existia em função da reprodução sexual, para se ter filhos, onde justamente mulher e homem fazem um dispositivo com duas posições (Luce Irigaray), onde não vai uma sem o outro. Ou seja, como nas outras espécies animais, o que conta para a evolução que inventou a dupla anatomia, é o macho e a fêmea. A diferença para a maior parte das espécies animais próximas das nossas é a formação do género (a casa, nas sociedades antigas) como estrutura de herança dos usos e dos bens, de aprendizagem e de trabalho, o casamento por causa dos filhos e do longo tempo da sua criação. Muitos filhos, disse-se acima, porque eram facilmente perecíveis, herdeiros e mão de obra. As sociedades modernas acabaram com as famílias numerosas, inventaram as pílulas e outros contraceptivos para não terem que renunciar ao sexo com a estrita limitação dos filhos: institucionalizaram o erotismo, o prazer sexual sem reprodução. Limitadas, maternidade e paternidade não foram todavia abolidas, as famílias continuam a justificar-se por elas. Hoje em dia, nos romances, filmes e conversas, quando se fala de sexualidade é de erotismo que em geral se entende, não de reprodução, a qual implica o dispositivo de duas posições. A legitimação das homossexualidades, gays e lésbicas, leva esta separação entre reprodução e erotismo ao limite, quando se torna necessária uma engenharia sexológica para terem filhos, se desejarem constituir família. Antigamente género e sexo praticamente coincidiam. Agora que a diferença apareceu, o género ganhou sexualidade em dicotomia, homens por um lado, mulheres por outro, com aliás sucede nas alternativas de orientação sexual que não dispensam o dispositivo com duas posições, mas em que elas são estritamente eróticas (além, claro, do amor e companheirismo, como nos heterossexuais). A questão a pôr é a seguinte: como é que o erotismo, aparentemente individualizado, se refere à dualidade? de género ou de sexo? Ser homem é um ser no mundo sem mulher, ser mulher sem homem? Será preciso recorrer à anatomia para ver um pouco mais claro. Noutro texto[1] há dados de tipo científico com algum detalhe, para onde reenvio o leitor interessado; aqui limitar-me-ei a alusões, já que o que me move agora, quase 20 anos depois de escrever esse texto, é uma revisão global fenomenológica da questão.
9. Toda a dificuldade dela tem a ver com o facto da diferença ser antes de mais a de macho / fêmea, como em todas as outras espécies animais, assim como ter que comer e evacuar todos os dias, que respirar e dormir, e a nossa tradição em nós pensa negativamente esta nossa dimensão ‘animal’, um corpo que ‘temos’ mais do que ‘somos’. Aliás, a própria linguagem foi subestimada na tradição por causa da sua dupla dimensão fisiológica (falar / ouvir, cerebral): privilégio europeu do pensamento e da razão. Mas no seio desta dicotomia ancestral entre o sujeito (que sabe de si, consciente, pensa, sente) e o corpo, a dificuldade é também a da maneira como ela governa as teorias biológicas, à base de análises laboratoriais bioquímicas, teorias que quando querem compreender o todo humano só dispõem de noções eivadas da dicotomia ontoteológica (sensações, emoções, percepções, e por aí fora), dificuldade recíproca para o fenomenólogo que lê os livros de biologia. Acontece que os homens têm mamilos sem função fisiológica aparente, índice de que há um momento em que ser feminino faz parte da possibilidade do embrião, de que os cromossomas XY e XX não regem inteiramente o macho e a fêmea. O biólogo J.-Didier Vincent diz como as hormonas sexuais, as esteroides, têm uma grande importância na estruturação da rede neuronal cerebral e depois no seu funcionamento, tendo por outro lado observado que o jogo delas, quer as ditas femininas (estrogénio e progesterona) quer as masculinas (testosteronas) – jogo por predomínio, não por exclusão –, é susceptível de transformação duma na outra (têm estruturas bioquímicas muito próximas). Pode-se dizer que se trata de oscilações – numa espécie de continuidade entre dois extremos mais tipificados como macho e fêmea –, tanto no que diz respeito aos humanos singulares, como às oscilações em cada um de nós.
10. Ora, o papel das hormonas em geral foi dito no início do século XX por Starling serem “um instrumento regulador do organismo e de comunicação entre órgãos” (Sinding, p. 52[2]). Onde há regulação, não há determinismo, as regras bioquímicas das anatomias implicam o jogo aleatório delas, na cena da selva em que a evolução se fez ao longo de milhões de anos, implicam que haja jogo aleatório no seu funcionamento em nós. Ora, uma das coisas que é curiosa, bizarra à primeira vista, é este papel das hormonas sexuais na estruturação do cerebral, elas que julgaríamos apenas dedicadas à reprodução sexual propriamente dita. Com efeito, esta foi inventada nos alvores da evolução dos organismos como tendo uma economia de desperdício inacreditável, já que apostando no acaso do encontro entre células de macho e fêmea e devendo para isso fabricar muito mais moléculas do que as necessárias se o processo fosse apenas ‘anatómico’ num só indivíduo: mais sementes, espermatozóides, incitações ao sexo. Este excesso[3] parece ter sido compensado pelo desvio para um papel individual da força ‘excitadora’ (hormaô, em grego, é excitar, incitar), segundo uma lógica de suplementaridade (Derrida) ou de sublimação (Freud), deslocada para a luta na cena ecológica, para o desenvolvimento dos humanos como seres no mundo da sua tribo. Pelo menos isso será visível nas aves e nos mamíferos que, além do chamado cérebro dos peixes ou límbico (paleo córtex) que joga na regulação hormonal, desenvolveram um neo córtex suplementar, encarregado mais especializadamente, digamos assim, das aprendizagens dos usos e das estratégias relativas à cena ecológica, de tão difícil sobrevivência. Se for assim, isso significa que as aprendizagens dos humanos se fazem segundo o género, os meninos nascidos com pilinha orientados para o género masculino e as meninas com vagina para o feminino. Ora são estes usos que se modificaram fortemente nestes tempos de feminismo, justificando algo de extraordinário, a confirmação passados vinte e quatro séculos do argumento feminista que Platão desenvolveu na República[4] para legitimar a sua utopia da abolição das casas (do património e do matrimónio, o género predominante no seu tempo e até à abolição das casas há um ou dois séculos): as mulheres são iguais aos homens excepto no que diz respeito à procriação e à força física e podem aceder às mesmas tarefas que eles, desde que sejam educadas para isso. Hoje, em escolas mistas, a educação é a mesma praticamente e os constrangimentos do género patriarcal foram grandemente abolidos, o género multiplicou-se abundantemente com o que os conservadores chamam ‘a crise da família’. Generosidade do género, as famílias encontram várias formas, hetero e homossexuais, celibatários e comunitários, perdendo por certo estabilidade por quererem melhorar as relações, com inseguranças acrescidas, quer do ponto de vista dos orçamentos (as crises económicas devastadoras...), quer do crescimento das crianças.

Identidade? Essência?
11. Nunca entendi bem as preocupações que parece haver em certas disciplinas sociais e psicológicas em torno do que se chama ‘identidade’. A palavra é feia, idem é o mesmo, o que se repete, a modernidade fez-se em nome da novidade. Não sei até que ponto as querelas em torno do género têm a ver com essa questão: um gay, uma lésbica, precisam duma identidade enquanto tais? Casados ou não, com profissão reconhecida, por exemplo, não é suficiente, como variante actual de género? Que a sexualidade seja oscilante em sua hormonalidade, o que é que isso obsta a reconhecer que há homens e mulheres, diferença de sexos e diferença de géneros? O género dum gay é diferente do dum heterossexual, ambos do dum bissexual? E dum solteirão, dum viúvo? Todos somos singulares na nossa maneira e no nosso percurso. Buscar identidades, além da que releva desse percurso (família, profissão, nacionalidade, sei lá), é procurar ‘essências’? Mas estas na tradição filosófica seguiam como fio de pesquisa as palavras que se procurava definir, de maneira a poder argumentar-se logicamente, deixando cair os ‘acidentes’ de cada singular. Não será justamente esta ontoteologia da definição, que isola os ‘entes’, homem e mulher, que subtende as querelas em torno do género, como se se pudesse definir um e outra sem o respectivo par? Ou há uma ‘definição universal’? a do par mulher / homem, sexo e género, com todas as suas oscilações que relevam do aleatório dos percursos, de que fazem partes as variadas orientações sexuais, profissionais e muitas outras. Nós continuamos a ter as palavras de que precisamos para falarmos de nós, os romances podem inventar outras para aproximar melhor certos percursos e dramas. Mas o que continua a ser a norma é o par macho / fêmea que vem desde os invertebrados e os peixes e répteis (a literatura sobre o género ignora quase totalmente esta nossa ‘animalidade’): pode-se não gostar, quem sofreu para se afirmar com outra orientação sexual antes tão mal tratada, mas parece-me óbvio que continua a ser a heterossexualidade o padrão definitório do sexo e género, o par homem / mulher, a que as várias variantes de género se referem, quando um homem apresenta o ‘seu marido’ ou uma mulher a ‘sua esposa’, quando os filhos chamam ‘pai’ a ambos, ‘mãe’ a ambas, julgo eu.
12. Não há género sem sexo e este é, antes de mais, reprodução, procriação. E todo o sexo sobrevive socialmente em género, com as suas variantes. Assim como a espontaneidade hábil dum uso é a sua biologização, também o género é a socialização histórica do sexo em cada humano, homem e mulher, o que nunca deixam de ser, fora dos casos estranhos de transsexo. O género está para o sexo como a culinária para a alimentação, os géneros variam como as tradições culinárias, os erotismos como as gastronomias.
13. Como é que o sexo joga no género? É o velho problema da igualdade e da diferença. Na cópula, o penetrar e o ser penetrada dizem como não há uma sem outro, um sem outra: a diferença implica que cada um esteja/seja no outro, são parte mútua. Não se trata de complementaridade, já que o ‘dois’ precede’ o ‘um’, como os mamilos do homem explicitam. Ninguém é homem antes da diferença sexual, mulher também não, ainda que esta seja mãe deles e delas.

A desconstrução histórica do patriarcado
14. Voltemos à questão do título: desconstruir a oposição sexo / género, que degenera facilmente em corpo, matéria / cultura, social. O sexo é anatómico, vê-se à nascença se é menino ou menina (e os casos de indecisão não alteram nada, revelam o primado do ‘dois’, implicam indecisões com grandes sofrimentos), mas essa constatação, como Butler sublinha algures, orienta imediatamente para o género respectivo, para os usos; ela diz ‘práticas’, mas essa terminologia (althusseriana, por exemplo importante) deixa de fora a instituição do género operada pelos usos, entre as quais – quase ausente do inglês – o género das frases nos adjectivos (‘sou bonito’ / ‘sou bonita’). Sexo e género indissociáveis: nasce-se com vagina e é-se orientado para os usos femininos, sem ela para os masculinos, só muito mais tarde se saberá das orientações sexuais. O motivo da suplementaridade permite articular os dois motivos marcando ao mesmo tempo a sua indissociabilidade e a sua inconciliabilidade (o diferendo entre mulheres e homens). Eis uma proposta: além do papel provável (mas difícil de provar) das hormonas esteroides na evolução[5], além do seu papel anatómico explícito de incitação ao coito reprodutor a favor da espécie e da sociedade, haverá também sublimação, isto é, um deslocamento destas excitações hormonais de espécie para o indivíduo, as “pulsões ” de Freud, para os usos da tribo, quer no que diz respeito à sua invenção quer sobretudo à sua aprendizagem pelos jovens, mas sublimação ainda para o erotismo, busca do prazer além da reprodução, erotismo esse que é provavelmente de sempre (conheci um cão de uma amiga que se masturbava obsessivamente com uma manta) mas que explodiu socialmente no Maio de 68 com os movimentos de libertação sexual, feministas, lésbicas e gays, a fazerem implodir o género patriarcal dominante. A homossexualidade tornada pública em época de planeamento familiar releva justamente deste triunfo geral do erotismo sobre a reprodução. Mas é ainda duma sublimação das hormonas sexuais que relevam provavelmente os fenómenos de mística, as vocações celibatárias espirituais para causas de misérias sociais. Como a razão, a tecnologia, o erotismo é um outro fenómeno de superação do biológico, do natural (sobrenatural), do físico (metafísico).
15. Mas não só sexualidade, o feminismo veio com a invasão das escolas e dos empregos assalariados pelas raparigas e pelas mulheres, com os estudos e empregos mistos a sublinharem a igualdade, até com vantagem feminina nas classificações. Esta igualdade, que pede ainda no privado que se traduza nos salários, criou no Ocidente actual um género ‘unisexo’, onde aliás o assédio sexual sublinha que este ‘um’ é sempre ‘dois’: ninguém confunde homens com mulheres. Resta uma questão de sobrevivência do género patriarcal: embora estudos e empregos sejam por regra unisexos ou unigéneros, creio, há profissões de esmagadora maioria feminina e masculina (questão, por exemplo, que não tem a ver com orientação sexual): enfermeiras, médicas e professoras (a caminho), assistentes sociais, por um lado, engenheiros, militares e polícias, financeiros e administradores, por outro. Até que ponto são tendências actuais, maiorias estáveis no futuro, por ora não se sabe. Como não se sabe se as diferenças sexuais e hormonais interferem nestas diferenças de género.
16. E não será que este espectáculo ocidental dado nas televisões por todo o lado não será a mais forte razão para os fundamentalismos islamistas? Os excessos deles não virão das ‘sublimações’ dos seus machos?


[2] LÖWY, Ilana e ROUCH, Hélène (coord) (2003) Cahiers du Genre, nº 34. La distinction entre sexe et genre: Une histoire entre biologie et culture, L’Harmattan
[3] http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2008/06/sexualidade-como-excesso-e-alteridade.html
[5] http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2013/10/a-sexualidade-na-evolucao-e-na-historia.html

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A metáfora do crescimento em economia



1. O problema do desemprego não é apenas económico, custos, descontos, subsídios, sustentabilidade. É antes disso, chaga maior das sociedades, um problema politico que tem a ver com o direito à vida de cidadãos, iguais a todos os outros perante a Lei, com o mesmo peso de voto em eleições. Esta consideração sobrepõe-se à primeira e é tida em conta na Constituição que propõe o pleno emprego (art. 58). Mas não passa dum desejo piedoso pela simples razão do discurso económico ser determinado por uma metáfora fatal que se impõe como uma evidência, tipo “não há dinheiro, qual destas palavras não compreende”? (Vítor Gaspar, ao tempo de ministro). Ora, a palavra que eu não compreendo é ‘crescimento económico’, quando ela é usada por toda a gente, à direita como à esquerda como condição essencial para criar emprego.
2. Nascer e crescer são as manifestações mais aparatosas da espantosa propriedade dos vivos que é a fecundidade, a generosidade da vida, o que os Latinos chamaram natura, de nascer, e os Gregos phusis, de phuô, crescer. Foi o que provocou o espanto dos seus pensadores, como do menos resulta o mais, que Aristóteles teorizou com a noção de ousia, substância e essência, dando assim o conhecimento de que a Europa se fez. É que tudo nasce pequenino e frágil (semente, ovo, embrião, bebé), arriscado, e depois crescem (livremente as plantas, os animais em proporção harmoniosa dos seus órgãos) até ganharem uma dimensão adulta, muito variável com as espécies (ervas, arbustos, árvores, animais sem e com vértebras) e nas mais complexas também com os indivíduos, mais altos ou baixos, fortes ou magros. O crescimento chega aos seus limites em extensão, nos humanos foi tempo de aprender os usos sociais, em seguida passa a ser de maturidade, densidade, para se exercer como adulto, ganhando experiência, conhecimento do mundo.
3. Do ponto de vista do crescimento social, nós Europeus temos duas tradições diferentes. A romana é um princípio antropológico de expansão e de conquista, é o princípio imperial cujas fronteiras dependem apenas da capacidade dos exércitos; também os princípios civis, o direito, a cidadania e a língua se estenderam aos povos bárbaros ocupados, os nossos antepassados lusitanos perderam a sua língua substituída pelo latim. A tradição grega é inversa, é um princípio antropológico de restrição às cidades, ‘naturais’ (Aristóteles contra Platão), cada cidadão grego era estrangeiro (meteca) nas outras cidades, sem Estado grego, criando no exterior colónias de cidadãos gregos que imitam a metrópole (Mileto, Éfeso, Siracusa), a sua língua vingou até hoje, apesar duma longa sujeição ao império otomano. Mas fecundou os bárbaros que não falavam grego, a começar pelos Romanos, com a cultura que resultou justamente desse princípio antropológico de restrição: duas invenções deles foram decisivas para a nossa modernidade: uma, juntamente com a do laboratório de Galileu, Newton e outros, foi a da definição, que estabelece limites a um só sentido essencial das palavras com que se argumenta, essências sem contexto nem tempo nem lugar nem sujeito, é aquilo a que chamamos razão. A outra, a democracia, foi o estabelecer limites políticos de razão à expansão das casas ricas em detrimento das pobres, cada uma tinha um voto na assembleia.
4. A terra, planeta de rochas, mares e atmosfera, de minerais inertes, não cresce; ora é de minerais que são constituídas as tecnologias, que têm assim os limites ecológicos de serem recursos da terra. Natureza de vivos tem como regra primeira a alimentação deles, as sociedades humanas têm como primeiro dever ecológico assegurar a alimentação dos seus cidadãos, os salários, o pleno emprego e o estado social, hoje também a preservação do ambiente dos vivos. Estas duas vertentes, a técnica dos engenheiros e os mercados dos economistas, ditam os limites ecológicos e sociais: se se entender o emprego como questão ecológica (à maneira da encíclica de Francisco), digamos que a economia e a ecologia deveriam fundir-se numa só ciência ‘eco’, a do crescimento económico e dos seus limites, uma economilogia.
5. Onde é que está o problema? É na metáfora do crescimento quando utiliza os números. Estes servem para medir e contar, o tamanho dum garoto, 70 ou 90 cm, a idade, 4 ou 5 anos: é o garoto que cresce, uns números são maiores do que outros, mas nenhum cresce. E não têm limites, desde o zero ao oito deitado sem fim, como tem o crescimento, cujos limites são os daquilo que os números contam ou medem, vêm-lhes de fora, donde também vem o querer sempre números maiores. E como a economia só se conhece através de números, tratados metaforicamente, foi na sua vertente financeira, regulada por Roosevelt na crise dos anos 30 e desregulada por Reagan quando acelerou a electrónica e o respectivo desemprego (operários e escriturários), que a coisa se agravou com as novas velocidades: perdeu a sua relação às economias concretas e jogou a fundo com a busca de números maiores, com a cumplicidade dos actores sociais, especuladores e economistas, políticos e jornalistas, de todos os que se fascinam com números grandes ligados a dólares ou euros. Os números crescem nas imaginações, numa metáfora que serve de evidência ao paradigma dominante. Como também ‘crescem’ as coisas negativas, o desemprego, a pobreza, as desigualdades. Que serão ‘resolvidas’ com o crescimento da economia, dizem, sabendo ou não que nunca se chega ao patamar em que se acha que se cresceu, enfim. É esse o logro.
6. Se se partilhassem os empregos que há pelos que não o têm e se se levasse a sério as alterações climáticas, diminuiria eventualmente o PIB, aumentaria o emprego e a sustentabilidade das actividades humanas. As contas a fazer serão complicadas, mas para que é que serve a ciência ecologinomia (ou economilogia)?
Público 15 de Julho 2015