quarta-feira, 15 de julho de 2015

MULHER E HOMEM, CASA E ALMA, LUCE IRIGARAY E PLATÃO





1. “Quando se deixará de confundir o sexo da mulher com o seio da mãe, de pretender que aquele não tem valor senão por­que recolhe a herança deste?” (p. 181). Luce Irigaray formula as­sim uma das questões de fundo do feminino e do feminismo no último quarto deste século, no início do qual esta psicanalista fi­lósofa publicou o que creio ser um dos textos mais fortes de filo­sofia feminina: Speculum, de l'Autre Femme (Minuit, 1974). To­dos sabemos que só as mulheres podem ser mães, que sem a maternidade as sociedades não se reproduzem. A questão poderá pôr-se assim: mas são as mu­lheres apenas mães? Se as não consi­derarmos como mães, por exemplo como engenheiras ou filósofas, ou enquanto ci­dadãs, dei­xam de ser sexuadas, são como os ho­mens? O que significa a di­ferença mulher / mãe, que implicações tem essa diferença na pro­blemática feminina actual? 209

Um texto deliberadamente anti-pedagógico
2. O meu propósito era apresentar aqui este texto que nunca lera, mas devo dizer desde já que não o conseguirei fazer cabal­mente: ele foi escrito justamente para não poder ser ‘exposto’ se­gundo os cânones da pedagogia, inevitavelmente masculina, de trazer o novo ao mesmo já conhecido. E sobretudo para não poder ser exposto por um homem. Uma nota final precisa que “a/uma mulher, ocupando em relação à elaboração teórica uma função tanto de um fora mudo sustentando toda a sistematicidade como de solo materno (ainda) silencioso de que se alimenta qual­quer fundamento, não tem que se relacionar com ela da ma­neira já codificada pela teoria. Confundindo assim, mais uma vez, o imagi­nário do ‘sujeito’ – nas suas conotações masculinas – e o que se­ria, será talvez, o do ‘feminino’ [...] Mas se sucedesse, na resistên­cia a reconhecer-se aí, o constrangimento duma distorção, irresis­tível se possível, então talvez ? que algo da diferença dos sexos teria tido lugar também na linguagem” (p. 458). Ora, sem dúvida que comigo houve cons­trangimento, já previsto em certo sentido, por­que doutros textos dela eu viera a este provocado por uma espé­cie de barreira in­transponível, a dum pensamento que coloca em lugar de destaque a multiplicidade das zonas erógenas femi­ninas e o gozo sexual daí decorrente, que me deixou parcialmente de fora enquanto leitor; esse desafio me trouxe, fui outra vez der­ro­tado, creio, mas conti­nuo interessado.
3. O livro compõe-se de três partes de cerca de 150 páginas cada: a primeira em torno de Freud, a última da alegoria da ca­verna de Platão, a do meio percorrendo Platão, Aristóteles, Ploti­no, Descartes, a mulher mistérica, Kant e Hegel, de cada um suge­rindo sintomas de como o múltiplo materno excluído pelo fi­losófi­co suporta o seu edifício uno e paterno.

A mulher que Freud mede pelo homem
4. É por Freud que se faz a entrada: Irigaray descobriu, di­gamos assim, a se­gunda ‘descoberta’ de Freud (mas da qual ele mesmo não se deu conta). “Freud, escreve ela, teria infligido dois golpes à cena da representação. [Ou seja, à cena europeia do sujei­to / objecto em mútua exterioridade, este se representando naque­le através de sensações, imaginações, ideias, etc.] Um deles em certo sentido directo, quando põe em xeque uma certa concepção do presente, da presença, quando põe o acento no ‘après-coup', na sobredeterminação, no automatismo da repetição, na pulsão de morte, etc. ou quando indica, na sua práti­ca, o impacto dos meca­nismos chamados inconscientes no discurso do ‘sujeito'. O outro [golpe], mais cego e mais indirecto, quando – prisioneiro ele pró­prio duma certa economia do logos, duma certa lógica, nomeada­mente do ‘desejo’, de que ignora a li­gação à filo­sofia clássica – de­fine a diferença sexual em função do a priori do mesmo, recor­rendo, para apoiar a sua demonstração, aos proces­sos de sempre: a analogia, a comparação, a simetria, as oposições dicotómicas, etc. Quando, sendo parte activa duma ‘ideologia’ que ele não põe em causa, afirma que o gozo [jouissance] masculino é o paradigma de qualquer gozo, que qual­quer representação do prazer não pode senão referir-se a ele, medir-se por ele, subme­ter-se-lhe. O que, sem dúvida, para per­manecer eficaz, deveria ao menos permane­cer escondido! Exibindo este ‘sintoma’, este ponto de crise da metafísica onde se vem expor a ‘indiferença’ sexual que lhe asse­gurava a coerência e a ‘clausura’, Freud propõe-o à análise” (pp. 28-29). É esta análise que Irigaray conduz na sua primeira parte que comenta a conferência intitulada “A feminili­dade” (1933) e que, sendo conhe­cida porque retomada por muitas outras autoras, resumirei rapi­damente.
5. Apesar de as suas primeiras e decisivas pacientes terem sido mulheres, a teoria freudiana da estruturação do inconsciente feminino foi elaborada após a do masculino, onde por exemplo Édipo e Narciso têm um papel decisivo na reformulação do Ego da segunda tópica, e mais, foi elaborada de forma derivada da ma­neira como o in­consciente masculino se centra em torno do pénis, da sua posse e castração. O ponto de partida é formulado assim: como é que uma criança com tendências bissexuais se torna mu­lher? A resposta a tal questão, que nunca foi posta para a análise da génese do ra­pazinho, é dada pela constatação precoce da me­nina de que ela não tem um pénis como os rapazes, se acha cas­trada e põe-se a desejar ter um (enquanto que o rapaz, ao ver que a rapariga não tem pénis, deduz que ela já foi castrada, o que reforça o seu medo de o ser também). A rapariguinha, rejeitando o seu sexo, é por­tanto um rapaz falhado em algo de essencial, que não tem senão um desejo, o de ser um rapaz, desejo que será cumprido um dia em que seja mãe, o filho substituindo enfim o pénis ausente. O filho, e não a filha: como se pode conceber uma rapariga?, per­gunta Irigaray.
6. Ora, contrapõe ela, à mulher não falta nada, ela tem : tem óvulos, tem órgãos sexuais (vagina, seus dois lábios, clítoris, útero), tem seios, tem corpo com sensibilidade de tocar e de ser tocado; o que ela tem corresponde a um gozo sexual específico dela, nomea­damente de auto-erotismo entre a multiplicidade das suas zonas erógenas; ora, o que ela assim tem não ocupa nenhum lugar na explicação freudiana, dominada pelo pénis só, exclusi­vamente, isto é, a se­xualidade masculina exclui a consideração da sexualidade femini­na. Mas há mais : o devir mulher da raparigui­nha, segundo Freud, decide-se antes da puberdade, antes de ela ter acesso ao seu pra­zer sexual, antes de ter descoberto a vagina, antes de ter desco­berto o útero como matriz, etapas da evolução da mulher que Freud ignora, como também a sua saída da família para outra família, a mudança de nome, do pai para o marido, nome que nunca lhe é ‘próprio’, a maternidade e o aleitamento, nenhuma destas etapas especificamente femininas intervêm na estrutura­ção do incons­ciente duma mu­lher.

A psicanálise é herdeira da filosofia masculina
7. Ora bem, em vez de voltar as costas a Freud, já que psi­canalista, Luce Irigaray leva-o a sério e interroga-se : como é que foi possível que alguém, cujo trabalho tão arguto teve incidências filosóficas tão grandes, se tenha mostrado cego a este ponto ex­tremo? É onde ela se dá como filósofa, como filósofa genial : Freud pensou o in­consciente feminino segundo o modelo masculino por­que não dis­punha, na tradição filosófica ocidental, de outro mo­delo para pensar. Esta masculini­dade essencial da filosofia greco-europeia foi a segunda grande descoberta de Freud, a tal de que ele próprio não se apercebeu, e é do que se ocupam as duas ou­tras partes do seu livro. A começar pelo privi­légio da visão, já que a ‘inveja do pénis’ pressupõe que este se vê, que os órgãos se­xuais femininos pelo contrário não dão nada a ver, são in-visí­veis. Foi a cumplici­dade estrutural entre o olho e o pénis que ex­cluiu este in-visível, este buraco. Mas também a unidade do pénis e a solidez da sua erecção excluem a multiplicidade e a flui­dez do gozo fe­minino. O visível, a unidade, o sólido sobre seu solo ou fundamento, não é isto mesmo que desde Platão se privilegiou no Ocidente como medida de todo o conhecimento ?
8. Conhecimento é reflexão, especulação: o título, Speculum, indica a estrutura do espelho, do olhar ao espelho, que Luce Iri­garay procura desconstruir210, para mostrar como a erec­ção da filo­sofia só foi possível a partir do materno como fonte e da sua ex­clusão e ocultação. É o objecto da terceira parte do seu livro, em torno da alegoria da caverna com que abre o livro VII da Repú­blica e que ela segue a par e passo, num dis­curso que é si­multa­neamente comentário e ironia, em que ela analisa com todo o ri­gor... é assim que eu continuaria normalmen­te, isto é, dando conta da leitura de outro filósofo masculino. Mas aqui não posso: Luce Irigaray não pretende ‘analisar', se se tratar de ana­logia, de comparação, de simetria, de oposições dico­tómicas, não pretende ‘rigor', já que o comentário se quer exube­rante, irónico, chocante, para os hábitos estabelecidos na filosofia do Mesmo.

A caverna-mãe-terra
9. A caverna é uma metáfora: a Glaúcon que se admira com o “estra­nho quadro e estranhos prisioneiros esses de que tu fa­las”, Sócrates responde “semelhantes a nós” (515a)211. A “habitação sub­terrânea em forma de caverna” (514a) é metáfora de quê? “do antro, ou matriz, ou hystera, por vezes terra” (p. 301). Do útero da mãe, portanto. A saída da caverna, dolorosa porque à força, pelo caminho-vagina que leva à luz – “e se o arrancassem dali à força e o fizessem su­bir o caminho rude e íngreme, e o não deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do sol, não seria natural que ele se doesse e se agastasse...?” (515e) – é também metáfora do parto (p. 347) (explicitada aliás em Tee­teto 150a-b: “a minha arte de parteiro compreende pois todas as funções que cumprem as par­teiras; mas difere da delas em que liberta homens e não mu­lheres e em que vigia as almas deles em trabalho e não os corpos de­les”). Haverá pois novo nascimento mas sem mãe, só entre ho­mens, uma re­produção por reflexão, especulativa, no logos ape­nas. O que se faz numa escola como a nossa, por exemplo, ainda que hoje com mu­lheres também: reprodução sem sexo. Ora nesta caverna há toda uma maquinaria óptica, uma estranha maquina­ria de projecção de sombras e imagens, com uns não me­nos es­tranhos espectadores, homens que não são senão olhos, presos de forma a não poderem olhar para trás, vi­rados de costas para as origens dessas imagens, nem o fogo, nem as estatuetas, nem os homens que as transportam; não podem olhar para a fonte (para o mater­no) donde são originados e de quem re­cebem os fan­tas­mas e as alucinações que o parteiro, usando da força, dissipará. Mas o parteiro não mostra ao ex-preso a fraude cine­ma­tográfica a que estivera sujeito: cá fora, à luz do sol, o tempo todo da habita­ção na caverna será esquecido, inconsciente, longe de qualquer saber (uma das propostas de Irigaray é que o in­consciente que Freud deu a ler é essencialmente feminino, não que os homens não o te­nham, mas são femininos aí); o único re­gresso que é admitido é en­quanto parteiro, a retirar outros da prisão das som­bras.
10. Se bem entendi Irigaray, também a alma platónica, alma-olho, é um espelho in­terior, que reflecte os aspectos ou for­mas das coisas e as compara para encontrar o eidos mesmo212, que não muda, como por reminis­cência a alma sabe. Reminiscência duma alma que já era antes de nascer em corpo, que durará eter­namente além da morte desse corpo (e doutros posteriores), a inatalidade / imortalidade da alma é a desse espelho em que o homem se reconhece como o Mesmo, se quer o Mesmo, espelho em que a mãe-caverna se não reflecte, fica esquecida.
11. A caverna é pois metáfora de uma ruptura, de um salto sem regresso. Donde para onde? Da gruta terrestre e materna para o Sol e o Bem paternos. E quem é que salta? só homens? Humanos de sexo não especificado213, Iragaray assinala-o por ve­zes, mas sem ressalvar (por razões a que viremos depois) que se está no contexto dos livros V-VII, onde se trata do estatuto das mulheres na cidade, porventura o texto filósofico mais ousado so­bre o feminino em 24 séculos, até Simone de Beauvoir e Hannah Arendt. É a interrogação desse contexto que tentarei, an­tes de re­gressar à pro­blemática de Luce Irigaray, já que as re­sis­tências que o texto dela me ofereceu me instigaram a deambular um pouco pela República, texto que nunca trabalhara e havia muito tempo que me seduzia.

Digressão pela composição da República de Platão
12. O livro V inicia-se por um discurso feminista de defesa da igualdade das mulheres em relação aos homens na cidade (com ressalva do que diz respeito à maternidade e à força física), defesa essa que é argumentada filosoficamente contra as opiniões antifeministas correntes em Atenas, que aliás também são as de Platão em outros textos. Acontece que esta discussão é introduzi­da abruptamente por um artifício literário. Sócrates interrompe o que se está a dizer, ao dar-se conta de que dois dos seus ouvintes estão a bichanar ao ouvido um do outro, e quer saber do que se trata. A resposta de Adimanto214 – “[...] julgas que nos passará des­percebido, que disseste vagamente que em relação a mulheres e filhos, seria evidente para todos que são comuns os bens dos ami­gos?” (449c) – reenvia para uma passagem bastante anterior (423e), perto do início do livro precedente; ora, Sócrates vai pegar nesta questão e seguir um novo fio temático, e só três livros de­pois, tendo ficado assente que “atingimos o termo da discussão” (541b), no início do livro VIII, volta a desenvolver o tema que estava a tratar antes da inter­rupção: “uma vez que levámos a bom termo esta questão, vamos recordar em que ponto nos des­viámos do cami­nho para chegarmos aqui, a fim de voltarmos a seguir pelo mesmo” (543c), recordação essa a que Gláucon proce­de, terminan­do “[...] e quando eu te perguntava quais eram essas quatro constituições a que te referias, nesse momento Polemarco e Adi­manto interromperam-me, e assim é que tu encetaste essa dis­cussão, e chegaste a este ponto” (544a-b) ; o livro VIII desen­volve esses quatro tipos históricos de constituição política, suce­dendo-se em degenerescência progressiva e o IX as virtudes do homem político, com o que fica arrematada a problemática da constituição justa da cidade, que se iniciara no livro II, sem que intervenham nestes dois livros nem a questão do estatuto das mulheres e das crianças nem o lugar de go­vernante do filó­sofo nem a teoria das Formas ideais dos livros V a VII, enquanto que no livro X volta a crítica dos poetas que já fora feita nos livros II e III, mas agora do ponto de vista das Formas ideais, mais a questão da imor­talidade das almas, pedida pela teoria da reminiscência e que também fôra silenciada no corpo primeiro do texto. O artifício li­terário parece-me bem claro, à ma­neira das mães de famílias numerosas doutros tempos quando acrescentavam as camisolas dos filhos que tinham cresci­do de­mais e as lãs não tinham já a mesma cor, a arte consistia em ar­ranjar um enfeite de ‘tricot’ na costura que disfarçasse esta : Platão procura disfarçar que os li­vros V a VII e X, sem dúvida contemporâneos dos grandes diálo­gos sobre a Teoria das Formas ideais, a sua reminiscência pela alma antes do nascimento e a imortalidade dela (Crátilo, Ménon, Fédon, Ban­quete, Fedro), foram escritos al­gum tempo de­pois do conjunto II-IV, VIII-IX. Por outro lado, há muito tempo que há quem pense que o livro I (sobre a justiça) foi publicado anteriormente, como os primeiros diálogos aporéticos sobre as virtudes, e posterior­mente tornado “prelúdio” da segunda edição, consti­tuida pelos livros I, II-IV, VIII-IX. “Di­tas, portanto, estas palavras, julgava eu que estava livre da dis­cussão”, é como Sócrates inicia o livro II, “mas de facto era apenas o prelúdio, ao que parece” (357a): trata-se de um outro ‘tricot’ li­terário, sabendo-se aliás por Dionísio de Halicarnasso que “Platão continuou sempre a rever os diálogos”215.
13. Qual é a importância desta questão para o debate sobre o feminino? É que ela permite propôr uma hipótese de leitura de Platão que lhe dá uma posição privilegiada. Com efeito, a República seria o grande texto de Platão, não apenas o mais extenso mas a trave mestra de toda a sua textualidade ; enquanto que os outros diálo­gos traba­lham os diversos motivos que Platão foi pensando, ela exibir-nos-ia o plano de conjunto das três primeiras etapas do pensamento de Platão, primeiro ética, depois política, enfim ontologia. O livro I mostra-nos o primeiro Platão, próximo de Só­cra­tes e do seu não-saber, da sua maneira de ‘criti­car', digamos, as tradições e os ensinamentos aprendidos de ou­trem sob forma de repetição, a sua maneira de utilizar a definição mas sem pro­pôr saída à questão ética debatida, já que esta deve­ria resultar do exercício de pensamento e de mudança de vida de cada um dos auditores, do próprio exercício da virtude em deba­te. Haverá as­sim uma espécie de ‘cepticismo’ em relação à tradi­ção (atitude mo­derna por excelência, que Descartes, por exemplo, retomará na sua dúvida metódica) mas que não o é (em Descartes também não), uma vez que se trata de uma arma contra o ‘rela­tivismo’ dos seus contradictores. A segunda etapa rompe com a ambivalência desta atitude, propondo uma tarefa de pensamento político inédi­ta: “considerar em imaginação a formação de uma ci­dade” (369a), para lhe repensar o modelo, a constituição, a ‘poli­teia'. Esta se­gunda redacção da República parece convir bastante bem ao auto-retrato de Platão como pensador da cidade, da polí­tica, no início da sua 7ª Carta: ela conta a sua ruptura com a ma­neira so­crática de intervir, metaforizada na mudanda de óptica da escala das letras (368d), na passagem do questionamento da vir­tude de cada humano ao da própria cidade. Donde lhe veio este novo projecto? Dos diversos esforços de reforma política demo­crática em Atenas de havia mais dum século a essa parte e da constata­ção do seu fracasso, tornado definitivo aos olhos de Platão pela condenação recente de Sócrates, o mais justo de todos os homens. Basta pensar no que significaria para um ateniense a leitura deste texto, dito na pri­meira pessoa por Sócrates, passados uns 10 ou 20 anos sobre a sua condenação à morte. Há que re­pensar a cidade inteiramente, há que repartir do zero. A 3ª etapa, os livros V a VII e X, refaz o nó entre as duas anteriores, já que a teoria das Formas ideais eternas su­põe sempre que só a alma de cada um pode vir, por reminiscên­cia, à sabedoria, por um lado, e por outro lado, sendo o coração do platonismo, esta teoria é colocada como a justificação do lugar preponderante do pensamento filosófico no governo da nova ci­dade, é o que justifica, com o plano da forma­ção filosófica dos futuros governantes, que essa cidade seja possí­vel. É esta unidade ‘republicana’ da política, da ética e do saber filosófico que é o grande desígnio de Platão216.
14. Já agora, uma breve alusão à 4ª etapa, a da crítica das Formas ideais eternas, encetada pelo Parméni­des, onde Sócrates é desalojado do lugar principal em benefício do velho Parménides que argumenta com um homónimo de Aristóte­les, como se Platão indicasse assim que esta última etapa era o fruto das suas discussões com o seu jovem discípulo. De qualquer forma, é certo que os textos seguintes, Teeteto, Sofista, Político, Filebo, Ti­meu, Crítias e Leis, terão como objecto as realidades ter­restres ou sub-lunares nelas mesmas, se se pode dizer, e já não do ponto de vista da relação delas às Formas ideais, mas de dois princípios, o Ilimitado e o Limitado, mais a sua mistura217 e a fonte desta, a Ideia de Bem (Filebo, 23d). Como se esta problemática fizesse um novo passo na ruptu­ra com Sócrates, um passo na direcção de Aristóte­les, da filosofia da phy­sis deste.
15. Concluindo esta digressão pela composição da República, nesta hipótese, em vez da concepção (reinante?) dum ‘puzzle’ de diálogos platónicos instaurando o projecto filosófico do saber so­bre temas variados, entre os quais o duma reflexão, cu­riosa mas utópica, sobre a polis, teríamos que é esta que estrutu­ra a pro­pos­ta filosófica de Platão (no coração dos livros VI-VII estaria o pro­grama da Academia), como a physis o faz em Aristó­teles. Po­de­mos supôr que sem a República e antes de Aristóteles (e não creio que este seria possível sem aquela), pura e simples­mente nós não teríamos tido o que chamamos filosofia, teríamos tido apenas lite­ratura, à maneira das grandes culturas asiáticas.

A ruptura: a alma arrancada à casa
16. Para reatar com Luce Irigaray, a questão que nos fica é a de compreender porque é que a série de três discussões do 3º troço da República, o dos livros V-VII, é inaugurada pela do lugar das mulheres na cidade repensada pelo discurso. Obviamente que esta questão implica antes de mais saber qual é esse lugar na ci­dade de facto, em Atenas. Ela é a mêtêr218 e a oikodespoina, a mãe e a dona da casa, como é regra das sociedades guerreiras, à base de agricultura e criação de gado, de que a casa é a unidade estru­tural: por um lado, a unidade de parentesco que se transmite de pai para filho, com troca de mulheres entre casas em cada nova geração, como Lévi-Strauss nos mostrou e o jogo dos apelidos en­tre nós atestava, por outro lado a unidade económica que o pai governa (nas casas ricas os escravos pertencem à casa, veja-se a Política de Aristóteles), a casa onde se mora, mas também os campos de trabalho agrícola, os rebanhos. É a este conjunto, activo e fecundo, que os Gregos chamam oikos, casa. Porquê activo e fe­cundo? Porque ele depende, por um lado, do trabalho, segundo usos e artes cujas receitas são transmitidas de antepassados em descendentes, mas por outro da boa ou má tuchê (fortuna), da maior ou menor fecundidade das plantas, das fêmeas, das mães. Ora, os humanos ‘activos’ não dominam a fecundidade, acolhem-na como dom, dom plural nas suas fontes, terrestres e celestes, como atesta o que chamamos politeismo. Proporia o termo ben(mal)dição para dizer a incógnita constante da tuchê, da (in)fortuna e, ignorante que sou da mito­logia grega, recorro à he­braica para ilustrar este motivo. O nasci­mento de um bebé, sobre­tudo se fôr macho, é das maiores bên­çãos, mas acompa­nha-se de largos escorrimentos de sangue (e sangue que escorre é sempre sinal de ferida, de violência, de morte) vindos de dentro do ven­tre materno, im­pureza esta que obri­gará a mãe a uma severa ‘quarentena’ para se purificar. Também esse bebé virá por he­rança a ser pai na casa, a herdar linhagem e nome patriarcais, terras, gado, residência, escravos, criados e suas famílias: a bên­ção que é o seu nascimento anuncia pois também a morte futura do pai (tocar num cadáver, porque impuro, obriga também a al­guns dias de segregação purificadora). Bênção ainda que as terras que venha a trabalhar sejam fecundas em ceifas, vindimas, azeite... mas para que tal ocorra muito traba­lho duro se lhe pe­dirá. Bênção sim pois, mas com maldição no seu seio, nunca se sa­bendo de antemão se o que se anuncia, nasci­mento ou pri­mavera, será de bom ou mau destino. Ora bem, se relermos no capítulo 3 do livro do Génesis os castigos divinos lan­çados sobre Adão e Eva depois da transgressão do Éden, lá encon­tramos o pa­rir na dor, o suor no trabalho do campo, a morte ao fim da vida : expulsos donde não havia senão bênção, a maldição que se mis­tura tão in­certamente no coração da bênção é contada mitica­mente como consequência de uma falta ética, tendo o texto profético decidido, se­parando a bênção da maldição, no que quotidianamente se não de­cide. Não me estive desviando : é uma decisão formalmente equi­valente separando o Bem e o Mal – salto da casa para a alma – que é feita nos livros V-VII da República e nos diálogos seus contem­porâneos, Fédon por exemplo (cap. 7).
17. Costuma-se falar do ‘comunismo’ da República, mas de facto este não é proposto para toda a cidade, limita-se à classe dos patrícios enquanto guardiões, dos guerreiros profissionais (distinguidos entre chefes e auxiliares das decisões destes, III, 414b), que mais não fazem do que dedicar-se a essa arte (já que é na especialização exclusiva que consiste uma cidade justa), para a qual terão de ser educados (música-poesia e ginástica), o que para os lavradores e outros artífices (415a) não é considerado219. Também assim a tal comunidade das mulheres e a educação colectiva das crianças sem pai nem mãe é limitada aos guardiões guerreiros, tal como a educação filosófica. Ora bem, o tal ‘comunismo’ da República cor­responde à abolição das casas dos patrícios guerreiros na sua dupla dimensão, quer da propriedade e actividade económica, quer da maternidade e da pater­nidade enquanto dispositivos patriarcais do parentesco, organização tradicional das tarefas femininas e masculinas para que raparigas e rapazes são tradicionalmente educados. Para cortar na raíz os ciúmes e invejas que envenenam o quotidiano da cidade, Platão, num gesto correlativo da invenção socrática da definição (que ar­ranca o definido ao seu contexto quotidiano), arran­ca a alma à casa, à natureza, ao sensí­vel, ao corpo, já que existen­te antes do nascimento deste e para além da sua morte.

O feminismo de Platão
18. Esta utopia, como se diz, teve uma primeira concretiza­ção par­cial nas comunida­des monásticas, com a diferença essen­cial do celibato que as votou às margens das sociedades; mas pode-se dizer que foi realizada nas sociedades contemporâneas, a diferença essencial sendo agora a da propriedade (cuja abolição foi experimentada sobretudo em países não ocidentais mas fra­cassou, como sabem os chineses) ; de facto, a in­dustriali­zação moderna liqui­dou as casas das sociedades tradicionais e substituiu-as por duas redes, uma de institui­ções (onde temos em­pregos preenchidos por uma prévia selecção esco­lar) e outra de famílias, sem actividade eco­nómica220, com di­vórcio fácil e (quase) sem educação das crian­ças, assumida esta maiori­ta­ria­mente pela escola, tendo como con­sequência o ingresso massivo das mulheres nos empregos da so­ciedade tal como os homens, justa­mente como Platão preconizou : “concordas portanto – per­guntei eu – que haja entre homens e mulheres a comuni­dade que descrevemos, e acerca da educação, dos filhos e da guarda dos outros cidadãos, que as mulheres de­vem ficar na cidade e ir para o combate, fazer vigilância e caçar junto com os homens, tal como entre os cães, e participar em tudo, até onde for exequível, e que, se assim fizerem, procederão da melhor maneira possível, e não contra a natureza do sexo fe­minino em relação à do masculino, pois ela os criou para viverem em comunidade ? Concordo, sim” (V, 466c-d). Sendo assim, há que dizer que este dis­curso do livro V não é ape­nas ‘um’ discurso fe­minista, ele é ‘o’ discurso feminista já, an­teci­pado vinte e quatro séculos. É o argumento, retomado por Mary Wollstonecraft e por Condorcet, no final do sé­culo XVIII221, de que se as mulheres estudarem como os ho­mens estudam, elas são tão capa­zes na cidade quanto eles ; esse argu­mento foi comprovado histo­ricamente na segunda metade do sé­culo XX, o feminismo sendo o belo e raro triunfo de uma argumento filosófico como tal 24 séculos mais tarde. Não é a opinião de um ‘homem’ (Platão é misógeno, como os seus contemporâneos noutros diálogos) mas um argumento da Filosofia, necessário como consequência lógica da abolição da casa.
19. Feminismo este que Luce Irigaray atravessa, ao menos em parte. A res­posta à questão do donde e para onde do salto, da ruptura do prisioneiro saído da caverna, fica agora mais cabal­mente respon­dida : da casa e da sua multiplicidade de usos e de dons e fecun­didades, da casa politeista e dos seus desejos próprios – comer e beber, sexo e erotismo, honras e riquezas –, do mundo do sensível e dos seus cuidados, para a alma e a unidade dos seus desejos fixa­dos na contemplação das Formas ideais, e mormente da de Bem, em suma do politeismo dos dons ao monoteismo da causa primeira. Da maternidade para a paterni­dade, dizia Irigaray. Por exemplo, a paternidade intelectual e es­piritual dos Mestres em relação aos discípulos, a escola, na senda aberta pela Academia aliás, sendo uma boa ilustração desta leitu­ra, até na maneira como faz guerra aos saberes tradicionais das casas222. Para o di­zer, Irigaray teve todavia que contestar o texto de Platão nos seus pres­supostos, já que os seus propostos explícitos são de abandono também da paternidade : homens e mulheres são para ele almas (que dominam seus corpos) e só de longe em longe sexua­dos e procria­dores. E terá sido a razão pela qual Speculum não se ocupa deste discurso, a quem censura que as mulheres só sejam admitidas na cidade “se na verdade tiverem tudo em comum com os homens” (540c). Se Platão teve que se ocupa­r das mulheres como corolário da sua necessidade de li­quidar as casas para introduzir os chefes-filóso­fos-almas, e elas so­bravam-lhe, ele teve que as pensar, mas justa­mente pensou-as mulheres e não só mães, é honra dele ; mais, admitiu explicitamente no final do livro VII que elas possam ser governantes da cidade ideal223. A igualdade entre homens e mu­lheres, que só foi possível fora do contexto das casas, a consideração se­parada de cada um em relação à diferença sexual – é isso a alma, o sexo relegado para o corpo de cada um –, relevam do que Hei­degger caracterizou como ontoteologia : os livros V-VII e X da Re­pública, e os outros por via deles ao menos, fazem parte essencial da sua instau­ra­ção.

“A mulher não é nem uma nem duas”
20. Volto à questão inicial: o que significa a di­ferença mu­lher / mãe, que implicações tem essa diferença na pro­blemática feminina actual ? Enquanto ci­dadãs, as mulheres não são sexua­das ? Ou têm sexo e seio ? As homosexualidades, por exemplo, distinguem o sexo da maternidade e da paternidade : e as/os cida­dãs/os, são sexuadas/os? São questões em de­bate aberto. Na minha ignorância, creio que a primeira cor­rente feminista, bem repre­sentada por Simone de Beauvoir, afir­mou a mulher em seu devir, tendendo a ocultar a maternidade, à manei­ra, sem dúvida difícil de evitar quando se irrompe, de quem in­verte a posição patriar­cal que identificava a mulher pela mãe. E se assim fôr, dir-se-ia que esse primeiro feminismo repetiu Platão. Do que Irigaray di­verge sem dúvida, dessa exclusão da maternidade, dis­tinguindo embora, foi a minha primeira frase, “o sexo da mulher do seio da mãe”. Há quem pense que ela assim vinculou de mais uma e ou­tra, estaria perto dum essencialismo do feminino. (Não me cabe, não posso tomar posição, cito apenas uma frase da filósofa Françoise Collin : “eu sou uma mulher, mas ‘eu’ não é uma mulher”)224. Onde, porém, tenho dificuldades, é na maneira tão vinca­da, num estrato do texto de Irigaray, de ‘opôr’ masculi­no e feminino, paterni­dade e maternidade. Creio com efeito que, do ponto de vista desta problemática, se pode dizer que o sentido do trabalho dum Niet­zsche, dum Heideg­ger, dum Deleuze, dum Derrida, todos homens, é o de pensa­rem a descontrução – que se vem fazendo nos dois últimos séculos – da sociedade pa­triarcal, da figura platónica do Pai e da sua cisão nítida entre o Bem e o Mal, o Uno e o Múltiplo, o Inteligível e o Sensível. Outro estrato do seu texto, propõe que se tratará primeiramente, antes do homem e da mulher, duma diferença sexual225, “de duas relações específi­cas à ‘materialidade’ do começo – concepção, nascimento [...] mas um dois que não é evidentemente um + um, o produto duma soma, nem dois meios, duas metades, o produto duma divisão. Cada uma dessas não-unidades tomando o lugar de dois mesmos e de dois outros, indefinidamente” (Speculum, p. 92). Então, antes da mu­lher e do homem empírico, desde as primeiras semanas da em­briogénese, há uma diferença sexual singular, a partir da qual, no seu devir histórico com outrem, a sexualidade (biológico-so­cial) se pode articular de formas múltiplas (como, em matéria de textos, fa­zem as poesias, os romances, os filmes, per­manentemen­te re­for­mulando essa dife­rença da espécie). Colocada a questão assim, po­der-se-á dizer que nenhum humano, homem ou mulher, pode­rá dizer a(s) diferen­ça(s) sexual(is) que tem com o seu/ a sua amante, com o seu pai ou a sua mãe, os seus irmãos de ambos os sexos, e assim por diante, porque sempre parceira ou parceiro, parte da diferença sexual que, por de­finição, não pode dar nunca conta da outra parte, fa­lar por ela, nem sequer dizê-la, tão só in­vocá-la e escutá-la. Se há sem dúvi­da género feminino e gé­nero masculino, eles modalizam-se singu­lar e multiplamente em cada humano, em sua história que é sem­pre de uma multiplicidade de relações com outras/os.
21. Creio poder resumir assim as questões de Luce Irigaray: 1) o que é que foi preciso negar da terra, das mães, das mulheres, da diferença sexual, para que a filosofia (e as ciências), a cena do conhecimento-pelas-al­mas-dos-homens gregos e cristãos e depois pelos homens-sujeitos europeus, tenha sido pos­sível? 2) o que é que resulta na nossa cena actual quando se reintroduz o que foi negado há 24 séculos? O que é a diferença sexual na cidade de hoje? Como sair do patriarcado? Eis o que está em aberto.
22. Termino, com uma citação que me resiste, e vos ofereço. “Este sexo que não dá nada a ver também não tem forma própria. E se a mulher frui justa­men­te com essa incompletude de forma do seu sexo que faz com que ele se retoque indefinidamente a si mesmo, essa fruição é dene­gada por uma civilização que privile­gia o falomorfismo. O valor conce­dido só à forma definível faz barreira à que está em jogo no auto-erotismo feminino. O um da forma, do indivíduo, do sexo, do nome próprio, do sentido pró­prio... suplanta, afastando e divi­dindo, este tocar de pelo menos dois (lábios) que mantém a mu­lher em contacto consigo mesma, mas sem discriminação pos­sível do que se toca. Donde este mis­tério que ela representa numa cultura que pretende enumerar tudo, cifrar tudo em unidades, inventoriar tudo por individuali­dades. Ela não é nem uma nem duas. Não se pode, em rigor total, determiná-la como uma pessoa, mas também não como duas. Ela resiste a toda definição adequa­da. Aliás ela não tem nome ‘pró­prio’. E o seu sexo, que não é um sexo, é contado como não sexo226. E no Speculum: “Assim a mu­lher ainda não teve lugar” (p. 282).

Permita-se-me a minha bibliografia em torno do feminino
“Quando Masculino / Feminino não coincide com Homem / Mulher”, Jornal de Letras, 27 de Dezembro, 1983
“Feminino / Masculino, Dispositivos em metamorfose”, in As Mul­heres, a Identidade Cultural e a Defesa National, Actas do Semi­nário de 5-7 Abril 1989, Cadernos Condição Feminina, nº 29, pp. 33-36
“Sexo e Género: que relação ? ”, in Universidade de Verão, Actas, Em busca duma Pedagogia da Igualdade organizado pela C.I.D.M. e pelo Seminário Universitário de Educación no sexista (SUENS) da Univ. de Palencia (Valladolid), na Faculdade de Psicologia da Univ. de Lisboa, CIDM, 1995, pp. 249-265
“Tentativa de enquadramento dos processos de Individualização e de Subjectivização das Mulheres”, Comunicação ao Seminário Políticas para a Igualdade, Construção de novos Indicadores da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres (25 Março 1996)
A propósito do debate sobre o aborto:
“Uma calamidade social face à ética e ao direito, um ponto de vista (masculino) so­bre o aborto”, Diário de Notícias, 25 de ja­neiro 1984
“O direito ao corpo”, Jor­nal de Letras, 2 de Janeiro 1997
“O direito à existência humana”, Jornal de Letras, 26 de Março1997
“Crime e pecado não são a mesma coisa”, Jornal de Letras, 9 de Julho 1998
Com Teresa Joaquim
“Feminino sem mulher?” (polémica com António Guerreiro), Jor­nal de Letras, 3-9 de Julho de 1984





209 Comunicação ao Colóquio Filosofia no feminino, Faculdade de Letras de Lisboa, novembro de 1998, in L. Ribeiro Ferreira (org.), Também há mulheres filósofas, Caminho, 2001, pp. 187-204.
210 Sobretudo Heidegger e o motivo do esquecimento, por vezes Derrida, são claramente suas fontes, mas nunca citados nem nomeados, como se se tra­tasse duma desforra que excluisse os masculinos que houvesse que invocar como com­panheiros e não apenas adversários, como se Irigaray es­quecesse por sua vez, deliberadamente é claro, a sua relação às fontes, esse esqueci­mento que ela fustiga em Platão e nos outros seus descen­dentes em filoso­fia. Publica em 1983 um livro sobre o que Heidegger terá ‘esquecido’, L’oubli de l’air, Minuit.
211 Cito, é claro, a tradução de M.H.R. Pereira.
212 Seja o exemplo da geometria, de como é possível calcular e conhecer a altura dum templo a partir da sua sombra e da proporção entre a altura e a sombra duma vara. Ora, é do sol que vem essa possibilidade: a geometria é “conhecimento do que existe sempre” (527b), ela serve de paradigma a Platão, como se sabe (509b-511e).
213 “Ide anthropous” (imagina humanos) (514a), e não ‘andras’.
214 Gláucon e Adimanto são os dois irmãos de Platão, que dão réplica a Sócra­tes a partir do segundo livro, substituindo Trasímaco; se vai abolir as casas, a sua também é visada !
215 M.H.R. Pereira, p. XV.
216 Há um caminho ontológico paralelo à segunda re­dacção de República, que se pode ler no Fédon e no Fedro, dos quais G. Colli (“Sur la composition des écrits platoniciens”, em Nature aime se cacher, l’éclat, 1994, [1948], pp. 229-249) despistou as diversas redacções seguindo o critério dos respectivos estilos. No primeiro: 57a-69e e 114c-118 (narrativa da morte de Sócrates, fazendo trilogia com a Apologia e o Criton), depois 69e-95e e 107b-114c, e enfim a terceira redacção, 95e-107b; no segundo, 227-257b primeiro, 257b-279c mais tarde. As últimas redacções são contemporâneas dos livros V-VII da República, as outras mostrariam uma ontologia dionisíaca do eros no jovem Platão, antes da sistematização, que Colli privilegia, deplorando a ontologia.
217 Antes tinha sido sempre rejeitado que a mistura fosse compatível com as Formas ideais eternas, nitidamente separadas entre elas, mas foi justamente a mistu­ra – do mesmo e do outro – que decretou o ‘parricídio’ do próprio Par­méni­des no Sofista, questão aliás que poderia vir a ter efeitos numa even­tual re­consideração da questão das mulheres por este último Platão.
218 Também a Terra (III, 414e), a pátria (ibidem), fonte produtiva, são mê­têr.
219 É dos primeiros (ouro e prata do mito forjado, 414d-415c) que se diz que “nenhum possuirá quaisquer bens próprios (ousian), a não ser coisas de primeira necessidade [...], nem habitação (oikêsin) ou depósito algum” e se­rão alimentados “pelos outros cidadãos, como salário da sua vigilância, em quantidade tal que não lhes sobre nem lhes falte para um ano; as suas re­feições serão em comum e em comunidade viverão, como soldados em cam­panha” (417d-e).
220 As tarefas domésticas ficaram bastante aligeiradas pelos electrodomésti­cos; e até o cinema e a televisão não são sem relação com os homens-olhos da caverna.
221 Ver Teresa Joaquim, Menina e Moça, A construção social da Feminilida­de, Fim de Século, 1997, pp. 142-4.
222 Raul Iturra, A Construção social do Insucesso escolar, Memória e Aprendizagem em Vila Ruiva, Escher, Lisboa, 1990.
223 “São uma formosura os governantes que tu modelaste, como se fosses um estatuário, ó Sócrates! – E as governantes também, sem dúvida, ó Gláu­con! Não vás julgar que o que eu disse se aplica mais aos homens do que às mulheres, a quantas dentre elas são dotadas duma natureza capaz. – Exacto, se na verdade tiverem tudo em comum com os homens, conforme a nossa análise” (540c).
224 Je partirais d’un mot, FusArt, 1999, p. 156.
225 Poder-se-á dizer: primeiro, antes de homem/mulher, masculino/femi­ni­no, há um dispositivo com duas posições, como nas outras espécies mamíferas e não só.
226 Ce sexe qui n'en est pas un, 1977, Minuit, p. 27.

domingo, 12 de julho de 2015

Cristianismo e política : uma história por regra mal contada



1. Quem tenha alguma cultura histórica, perceberá facilmente que há um anacronismo inevitável nas leituras correntes dos evangelhos, como se eles tivessem sido escritos para durarem vinte séculos ou mais até aos crentes de hoje: a sua característica mais óbvia reside na consideração de que a Bíblia é um livro religioso. O historiador alemão judeu Folker Siegert (in P. Geoltrain, Aux origines du christianisme) disse lapidarmente que “o judaísmo do primeiro século não é uma religião, é um povo”. O que significa que nele religião e  política são indissociáveis, o que inclui também Jesus, cuja 'boa nova' é a narrativa duma praxis, não é só um 'dizer' mas dizer e agir e dizer como agir, o que não podia deixar de ter consequências políticas, como aliás atesta o processo que o condenou. 

Religião e cosmopolítica
2. Todas as sociedades não industriais, em que colheitas e rebanhos são a fonte principal da riqueza, estão dependentes das respectivas fecundidades que os humanos não controlam, são segredo dos deuses. A abertura em algumas grandes cidades de uma cultura escrita cosmopolita fez surgir escolas espirituais que criticam a religião, Buda, Confúcio, Zaratustra, e no helenismo escolas filosóficas e de cultos de divindades orientais, escolas essas ditas ‘heresias’ (em grego, ‘escolha’), termo que significa o gesto moderno por excelência, o da critica da tradição, em que se escolhe o que se quer reter.
3. A especificidade da Bíblia hebraica, livro político-religioso, foi segundo o Deuteronómio (~640 a.C.) a proposta com Moisés duma aliança em que a bênção, fecundidade e paz, seria dada se as casas israelitas e os reis observassem uma ética de justiça social: “que não haja pobre no meio de ti” (15,4). Segundo os Profetas, foi por não terem sido fieis que essa aliança falhou e foram derrotados, primeiro pelos Assírios (sec VIII) e depois por Babilónia (início sec VI). Os livros da Lei escritos em seguida reformularam a aliança, agora sob a égide de Abraão, como uma promessa incondicional, mas depois de 2 séculos pacíficos como vassalos do Irão, as vitórias de Alexandre e em -63 de Pompeu vieram pôr em questão essa promessa: ocupação estrangeira violenta sem nenhum vislumbre de saída  política, isto é, guerreira, que tornasse viável a promessa. Esta situação está na origem de dois séculos e meio de literatura apocalíptica que (com influência do iraniano Zaratustra, a quem se deve o motivo de Juízo final e da ressurreição dos mortos), apostou como única possibilidade na intervenção escatológica vitoriosa dum Messias que vencesse enfim os Romanos. Entre as várias tendências inconformistas, desde os Essénios marginais do Mar Morto às tentativas de rebelião armada dos Zelotes, vencidos no ano +70 por Tito, situam-se João Baptista, Jesus e Paulo, crendo que o Reino de Deus, o Juízo Final, se faria em breve, durante a vida da respectiva geração (Marcos 1,15 e 9,1, !ª Tessalonicenses 4,15-17 e 1ª Coríntios 15,51-53). O evangelho de Marcos foi escrito na sequência do fim de Jerusalém (e da literatura apocalíptica) e interpreta a derrocada do Templo como sinal do retorno iminente do Messias ressuscitado: “compreende, leitor!”, adverte em 13, 14. Mateus ainda subscreve esta expectativa que, Lucas, da geração seguinte, tem que desfazer, adiando a escatologia.
4. Sempre muito resumidamente, a consequência deste desfecho foi que as comunidades cristãs deixaram rapidamente de ter membros vindos do judaísmo e seguiram o caminho aberto por Paulo, tornando-se gregas e romanas. Orígenes de Alexandria instituiu o discurso teológico que acolherá os grandes dogmas dos séculos IV e V e perdurará até ao século XX, teologia que de si mesma se diz dogmática, enquanto que o legado judaico ficou confinado à liturgia. Ou seja, o cristianismo, fenómeno de cidades (o ‘pagão’ era o camponês fixado à terra pela ‘pax’ romana), foi durante dois a três séculos uma ‘heresia’ cosmopolita entre as outras (Actos dos Apóstolos 24,5; o termo veio a tornar-se pejorativo na 2ª metade do sec. II), perseguida por várias vezes, até receber o beneplácito de Constantino e dos seus sucessores: a ecclesia espiritual tornar-se-á religião do império e sobreviverá à implosão ocidental deste, voltando a haver pelos séculos seguintes religião e  política indissociáveis, como é regra das sociedades agrícolas e testemunham os conflitos constantes entre reis e bispos, papas e imperadores. Mas também confirma este deslocamento para o religioso ancestral holístico (que o cosmopolitismo questionara) o facto de, desde os monges do deserto egípcio e de S. Bento, se gerarem incessantemente grupos espirituais, franciscanos, dominicanos e por aí fora, com reclamações de reforma eclesiástica, as quais explodiram no sec XVI com a Reforma espiritual protestante em ruptura com Roma, mantendo, é certo, uma parte da estrutura religiosa, donde a multiplicação de confissões e de revivalismos espirituais. E foi o cosmopolitismo que, desde a impressão dos livros até à industrialização moderna, levou à separação das Igrejas e dos Estados seculares, mormente nos países católicos, onde a resistência clerical foi maior, aonde os cristão rurais ocupam o lugar dos antigos ‘pagãos’. Com essa excepção inacreditável do dólar ter inscrito “em Deus confiamos”.

Cristianismo e  política
5. Delineado o quadro histórico, resta a questão inteira: como se relacionam os evangelhos, na sua radicalidade espiritual escatológica, com a  política do mundo de hoje, com as suas questões ecológicas e sociais lancinantes? Do religioso para o espiritual, o enigma da fecundidade (duma planta muitas sementes, dum casal muitas ninhadas) desloca-se dos campos e dos rebanhos para os comportamentos humanos, cujo excesso tem o nome de generosidade: amar o próximo é a coisa mais difícil do mundo, como todos temos experiência. Em que é que a  política, a organização da sociedade, se opõe à generosidade, quando em termos de riqueza, a fecundidade foi substituída pela produtividade? Em todas as suas estruturas que consolidam um poder, substantivo de uso corrente, este tende a impedir o que os seus subordinados podem, como verbo. O motivo evangélico do serviço extremamente radical – “vocês sabem que os que são vistos como chefes das nações mandam nelas como senhores e que os grandes fazem sentir o seu poder sobre elas; não deve ser assim entre vocês: pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vocês, far-se-á o vosso servo e quem quiser ser o primeiro entre vocês, far-se-á o escravo de todos” (Marcos 10,42-44) – pode ser lido como fomento das possibilidades dos que estão sujeitos aos poderes, ajudá-los a libertarem-se para o que possam fazer e ser. Como por exemplo deve ser o lema de toda a educação, de todo o ensino.
6. Há três dicotomias políticas nos evangelhos que podem ser esclarecedoras: “não podeis servir Deus e o Dinheiro” (Mateus 6,24), “dai o que é de César a César e o que é de Deus a Deus” (Marcos 12,17), “[Deus] não é um Deus de mortos, mas de vivos; todos com efeito vivem por ele” (Lucas 20,38). O dinheiro, César e o Deus dos mortos (da religião enquanto poder, de que o suporte é o Templo, adversário simbólico de Jesus) são três feitiços do poder substantivo que impede que se possa viver fecundamente. É o cerne da atitude espiritual, renunciar aos feitiços, mas também é a de todos os grandes apaixonados por causas de vida, artistas ou pensadores, gente entregue à generosidade social, aqueles cujas biografias lemos por vezes maravilhados, que nos mostram como vale a pena viver. Fecundidade fora do ‘poder’: ‘sem posses’ mas ‘podendo’ além do que podiam. É isso uma ética radical.
7. É o dito referido ao imposto a César que pede um esclarecimento, os outros dois podem ser deixados à imaginação do leitor. Esta oposição é uma espécie de emblema da leitura anacrónica, que lê uma repartição das actividades, ao poder do Estado o que lhe compete, ao mundo eclesiástico a sacristia e o seu rebanho de pastores, um pacto entre dois ‘poderes’ substantivos (em que um deles está a perder terreno há mais de um século, o outro também aliás, nos últimos 30 anos de supremacia financeira do grande capital, como temos sentido). Mas uma leitura atenta do episódio que culminou nessa frase mostra o anacronismo que seria deixar-se todo o domínio de César ao seu arbítrio. Trata-se de uma armadilha: “é ou não lícito pagar o imposto a César?” Se Jesus disser que não, será denunciado à autoridade romana ocupante, a quem esse imposto se destina; se disser que sim, será abandonado pela multidão anti-ocupação romana que o aclamou à entrada em Jerusalém e à expulsão dos vendilhões do Templo, deixará de ser perigoso. Se a resposta de Jesus fosse a que hoje corre (e que ajuda ao ajuste dos poderes, não é daí que vêm os problemas entre nós, essa lição de separação dos aparelhos de poder até seria útil a muçulmanos e israelitas), ele teria caído na armadilha e sido renegado pela multidão, o que obviamente não sucedeu: a resposta não foi a dum ‘colaborador’ com o ocupante. A astúcia de Jesus foi pedir a moeda e pegar pela imagem de César nela: a Lei bíblica proíbe as imagens de humanos, aquela imagem é pois ilícita, estrangeira, mandá-la para César equivale a expulsar a moeda do pais, o que por um lado convém à multidão que o aclama e por outro não dá pretexto a acusação aos Romanos. “E eles ficaram espantados” com a resposta, concluem os três evangelhos. Em vez de submissão ao poder de César, é a libertação dos feitiços do poder – do dinheiro e das burocracias (clerical ou outra, engravatada, mediática) – que permite ‘viver’ fecundamente, apaixonadamente.
Público, 12 de agosto 2015

P. S. - escrito antes da encíclica do Papa Francisco sobre ecologia e questão social. Ele tenta, com  a coragem e generosidade inventiva que é sua maneira espiritual, reformar a estrutura religiosa que herdou.
2º P. S. - A interpretação corrente do "dai o que é de César a César e o que é de Deus a Deus" consiste a pôr em diálogo César e o Deus dos Mortos, as duas estruturas de poder. O que o evangelho preconiza tem a ver com práticas possíveis de baixo, desligando dos vários poderes, criando solidariedades e comunidades que tornem possível liberdades impossíveis, mais além do que se pode. Vale mesmo sem fé, mas é aonde há espiritualidade.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O ‘retorno às coisas’ tem uma história



1. A palavra chave da fenomenologia de Husserl, o “retorno às coisas”, que Heidegger não abandonou (ainda em Questions IV, pp. 173, 183), indica um movimento da História da Filosofia que se repete então pela terceira ou quarta vez, um movimento sem o qual teríamos sido sempre platónicos, pois foi nele que consistiu a ruptura de Aristóteles, critico da separação que o mestre instituíra entre as Formas ideais (Eidê) e as coisas de que elas davam o conhecimento: juntar essência com a substância na mesma ousia, esta categoria primária e aquela aparecendo como secundária mais adiante na tabela das Categorias. Mas ao fazê-lo guardou a definição que dera a Platão a separação radical (entre o Céu e a Terra), o motivo do acidente em sua singularidade distinguindo cada ente da respectiva ousia, deixando-o fora da fronteira que define esta. A essência veio à substância, foi a primeira vez.
2. Uma segunda vez, agora sim, claramente retorno, repetição dum gesto anterior, foi para revolucionar o pensamento que dos gregos se recebera, vindo aliás através das fontes árabes comentadoras de Aristóteles (mas delas eu não sei nada, tendo embora lido um livro que trata disso, ver o meu e.book Da Natureza à Técnica): foi Tomás de Aquino na esteira de Alberto Magno quem repetiu Aristóteles critico de Platão, tendo na mira Agostinho de Hipona cujo neo-platonismo dominava o pensamento eclesiástico havia mais de oito séculos. [A dificuldade aqui é saber como é que o aristotelismo medieval privilegia a concepção metafísica da ousia (o ente enquanto ente) e deixa em segundo plano a física (o ente enquanto capaz de movimento); não sei que chegue para dizer a permanência do motivo de ‘acidente’ enquanto relação ao contexto, é possível que ‘acidente’ também se tenha tornado um motivo metafísico, ao pensar por exemplo como ele joga na teologia tomista da eucaristia]. Ora bem, o ‘nominalismo’ de Guilherme de Occam, jogado contra o ‘realismo’ dos medievais aristotélicos, tem igualmente um efeito de retorno às coisas que se acrescenta ao do Aquino, mas agora com incidência sobre o próprio Aristóteles, já que propõe localizar a ‘essência’ das coisas nos nomes que as designam e privilegiar a singularidade delas nesta máxima surpreendente “não há senão singulares”, donde sem dúvida virão os empirismos clássicos. Propus no meu Da Natureza à Técnica que o que joga nele é a contaminação da filosofia pelas narrativas, bíblicas sobretudo: mas sendo ele um lógico, qual é o papel da definição em relação aos singulares? Nos empiristas posteriores, serão as “ideias” e a análise da sua génese, desde as sensações que sugerem ideias simples às mais complexas e abstractas (definições), que abrirão caminho a partir da experiência dos singulares, Locke e depois Condillac tendo compreendido o papel da linguagem na génese dessas ideias (meu Linguagem e Filosofia, INCM).
3. Mas Kant ignorará soberanamente este papel, ao fazer a nova repetição do retorno às coisas, que se refere a Descartes e Leibniz, que ele procura ultrapassar ao ter em conta as análises empiristas de Hume. Kant tem todavia outra fonte primacial, o laboratório de Newton, que mede fenómenos: como se as suas formas transcendentais da sensibilidade fossem réplicas subjectivas do metro e do relógio. O laboratório é filho da definição, também ele deixa de fora dos seus muros o contexto dos fenómenos cujo movimento analisa e acaba por só saber das relações matemáticas entre as medidas deles, e não das suas ‘substâncias’, os númenos singulares. Estes ficam fora do laboratório, nem a ciência nem a filosofia os conhece, porque não os sabe definir sem restos, são deixados à literatura, às narrativas.
4. Saltando sobre Hegel que nunca trabalhei, quando encontramos Husserl na quarta ou quinta vez (pelo menos) deste deslocamento do pensamento filosófico (o científico além da física e química seria outro continente a desbravar, que não aqui), este quer voltar aos Gregos e ultrapassar a oposição ousia / acidentes, partindo da percepção de coisas singulares nelas mesmas para chegar às suas essências eidéticas, ligando a consciência que vê à coisa que é vista na intencionalidade duma intuição sensível que evita a separação entre ambas, reduzindo todavia a empiricidade ou mundaneidade da coisa. O Heidegger de Ser e Tempo retorquir-lhe-á, lição da tese do João Paisana, que essa coisa percepcionada antes da intuição categorial (do juízo, com linguagem e cópula) é o ‘objecto’ da definição que foi já separado do seu contexto, como aliás a redução esclareceu.
5. E que sucede com ele, Heidegger? Dir-se-ia à primeira vista que ele abandona a definição, vindo nos anos 30 a aproximar-se da poesia, mas é claro que se tratou de modificar a maneira de abordar a filosofia, pegando nela por uma leitura filosófica da sua história, pondo em questão o privilégio da ‘substância’ aonde Occam pusera o da ‘essência’. Ora, como Aristóteles está entre as suas leituras preferidas, pode-se dizer que ele reencontra a Physica que os Medievais subestimaram para indagar do que ficou fora da definição, o ‘poder’ (archê) da phusis, o que o crescimento e, além de Aristóteles e com Heraclito, retira o que haveria de ‘substancial’ na doação. O que implicitamente faz é saltar da Física europeia para a Physica grega: a percepção husserliana era de inertes, poderia ele ter dito, incapaz de dar conta do exemplo de um cavalo ou de uma mosca. Com efeito, a Biologia quando se tornar ‘newtoniana’, isto é, molecular, bioquímica, tornar-se á incapaz de ‘definir laboratorialmente’ um insecto ou um vertebrado. Dessas coisas que se movem, crescem e morrem, buscam comer e evitar serem comidas, continua a saber-se apenas por descrição fenomenológica empírica, mais ou menos aproximada. Se é certo que Heidegger não falou assim, o que faz desde Ser e Tempo é reintroduzir este na sua concepção dos humanos como Dasein, o tempo e o movimento, e isto de maneira completamente alheia ao motivo do ‘acidente’. No que aliás prolonga o gesto decisivo de Husserl, o de dessubstancializar a ‘consciência’ (a res cogitans cartesiana) na intencionalidade. Mas ao buscar que esta ‘constituísse’ os seus objectos (inertes, é claro), não era uma espécie de ‘poder substancial’ que ele assim resguardava? A aproximação do ‘mundo’ é a saída heideggeriana, ainda que não vá até ao cabo dessa aproximação: o ser no mundo poderá vir a esclarecer cabalmente os estudos neurológicos contemporâneos quando se perceber que o papel dos neurónios é justamente o de serem impressos pelo ‘mundo’ tribal que lhes impõe a aprendizagem como o que permite, não à consciência constituir os objectos, mas ao humano ser capaz de os usar à maneira da tribo. É o mundo que institui o Dasein humano. É o mais forte retorno às coisas que creio poder ser pensado e só Derrida o conseguiu, embora sem o formular assim.
6. A sua gramatologia propõe duas reviravoltas duma penada nesta questão. Por um lado, substitui o ‘ente’ que dos gregos substancialmente nos vem pela sua espacia-temporalização estruturalmente impressa pelo Outro [pela tribo], abre assim a sua ‘anatomia’ fenomenológica, se dizer se pode, e por outro introduz como componente estrutural (espacia-temporalizada) dessa anatomia a aprendizagem através do exemplo da linguagem: a escritura como origem da linguagem (impressa pela tribo). Mas em rigor, mais difícil sem dúvida, poderia ser através da aprendizagem de outros usos tribais. Esta tríade gramatológica – a) espácio-temporalização, b) relação estrutural ao Outro, c) escritura como origem da linguagem (De la grammatologie, p. 69) – que se poderia eventualmente comparar com a tríade existenciária de Ser e Tempo (afeição, compreensão, interpretação discursiva), dá conta de forma extraordinária do ser-no-mundo heideggeriano. a) permite entender como se faz o processo da constituição biológica (crescimento, alimentação) e o da instituição tribal (aprendizagem dos usos); b) dá conta de como é o mundo da tribo que tem a iniciativa, que dá (ovo, alimento, aprendizagem) e se retira para deixar ser o que está dando; c) resolve o problema que sempre impediu que o retorno às coisas fosse conseguido sem cair no empirismo relativista.
7. O que Derrida teve que ter em conta como constitutivo da filosofia ocidental foi o papel da definição e da diferença que ela instituiu em relação ao contexto, singular e empírico, donde retirou o definido. Esta singularidade empírica das cenas do mundo que habitamos torna todas as coisas exteriores umas às outras (foi a intuição do nominalismo acima citada, não há senão singulares); o que a definição fez foi criar uma fronteira gnosiológica – a da essencialidade, que virará na Europa conceptualidade – permitindo argumentar entre as essências de que o contexto singular, o dos acidentes, foi reduzido pelo gesto de definir. Ora bem, Derrida não pôde limitar-se a ‘denunciar’ a definição ou a recuar aos pensadores de antes dela, teve que a ter em conta como tendo efeitos de transcendentalidade na maneira como pensamos, lemos e escrevemos, como avisadamente aliás já fizera a redução de Husserl, a quem ele foi buscar a diferença entre o aparecer estrutural dum fenómeno e o próprio (substancial) fenómeno aparecendo, transcendental um, e empírico, mundano, o outro; foi essa diferença que ele aplicou à diferença linguística [antes da percepção!] entre os sons empíricos, diferença essa que Saussure chamara significante, para a distinguir dos próprios sons, que não pertencem à língua, apenas à fala. Esta dicotomia linguística fica assim enfim esclarecida, num debate estruturalista que ficara num impasse (Derrida não se preocupou com ele) como a minha tese de doutoramento esclareceu: a língua, tribal e sem existência substancial, é o que se transmite das falas umas às outras, bem sonoras estas, gritadas até por vezes, é o que passa do contexto dos outros da criança e vai gerar fala substancial nela, a sua voz e discurso, enquanto que a fala dos outros se retira em sua substancialidade, para que só o transcendental ‘passe’, se inscreva. Como ter em conta o ‘retiro’ destas falas ensinadoras? Diz Derrida que após ter utilizado a diferença transcendental / empírico, há que apagá-la. Como? Tendo justamente em conta que, sendo privilegiado o significante sem sons como diferença entre sons, em termos filosóficos tradicionais, um inteligível como diferença entre sensíveis, que portanto não ‘subsiste’ sem eles, não é inteligível, não se lhes opõe como a transcendentalidade metafísica. Na linguagem que usará mais tarde, poderia ter dito que o significante é um quase transcendental. Ao fazer assim, bom discípulo de Heidegger, Derrida fez uma leitura crítica exigente de toda a tradição do pensamento ocidental mas acrescentando no mesmo gesto que não podemos pensar sem ela: foi a isso que a sua gramatologia chamou desconstrução.
8. Qualquer ciência encontra o seu rigor na maneira como o seu laboratório souber jogar com esta quase transcendentalidade. Nas ciências Física e Química, Bioquímica incluída, ela reside na maneira como se medem dimensões dos fenómenos substanciais e se faz com essas medidas equações de tipo matemático, donde as coisas mesmas estão ausentes, é claro (por isso a poluição é sempre possível). Saussure também o fez, como se aludiu, e as regras das línguas – incluindo as palavras – são o que os vivos vão ensinando e assim ultrapassam a morte das gerações, como quase transcendentais, quase imortais. Também o protoplasma das células gâmetas com o seu ADN nuclear, entre gerarem um novo ser e virem a formar-se nele mais tarde novos gâmetas para nova geração se manifestam como quase transcendentais, além da morte. ‘Quase’, em qualquer destes casos, porque nunca garantido que não haja extinção, da língua e da tribo como das espécies, isto é, estes quase transcendentais são históricos, relativos, não são transcendentes.
9. Não foi sem relação com esta questão que o discípulo do inventor da definição que projectou no céu as Formas ideais definidas também atribuiu a imortalidade à alma justa que as contempla: a sua escrita transcendeu as escolas, de mestres em discípulos, até nós, que lemos Platão quase como se ele fosse imortal – a imortalidade é o idealismo – e temos que saber retornar à Terra que nos deu como ‘coisas’ vivas, isto é mortais e fecundas além da morte, como as plantas e as fêmeas e as mulheres, Platão e Aristóteles, Agostinho, Tomás e Guilherme, Renato e Emanuel, Edmundo, Martinho e Tiago.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Conjugar Broca e Wernicke : como é possível falar ?




1. Um dos grandes enigmas da psicologia dos humanos, anterior aliás a qualquer tese psicológica, é a maneira como se aprende a língua dita materna antes de qualquer escolaridade, nas suas regras sintácticas razoavelmente complexas e que são as mesmas de toda a gente da tribo falante em que a criança nasceu. Ela vem com efeito completamente de fora e a criança de muito poucos anos fala com essas regras numa espontaneidade inacreditável. Basta pensar na demora de ensinar um poema ou uma oração de cor a uma criança ou a um adulto, um actor de teatro, para se perceber que não há nada de equivalente na aprendizagem infantil da língua materna, ninguém se põe a ensinar sujeito e verbo, singular e plural, feminino e masculino, pretérito e futuro, indicativo ou conjuntivo. A pouco e pouco, a criança vai aprendendo empiricamente do que ouve dizer à sua tribo, em casa ou na escola, e faz vibrar a sua espontaneidade (em que diz o que ‘ela quer’, o que ‘ela pensa’) no leque de entoações, da ternura à cólera, da hesitação ao espanto, que é o da tribo igualmente. A criança fala mas também nela as regras da língua são dadas ‘passiva’ e indissociavelmente pela tribo, apagada a sua ‘actividade’ pela da ‘própria’ criança.
2. Ora, este enigma tem um aspecto que o torna ainda mais enigmático, se dizer se pode, faz participar o cérebro ainda mais no enigma, quando se abordam as suas regiões do hemisfério esquerdo que receberam as impressões dos falantes da tribo, as chamadas áreas de Broca e de Wernicke. As lesões numa destas áreas são significativas nas afasias que implicam, nenhuma delas por si só extinguindo a fala mas afectando o discurso de maneira específica.
3. Seja uma citação do Homem neuronal de J.-P. Changeux. A lesão da área de Broca (área 44 de Brodmann) faz com que “o paciente fale len­tamente, deforme as palavras, empregue sobretudo nomes, verbos no infi­nitivo; a sua gramática é rudi­mentar” (p. 153 da ed. fr.), enquanto que a lesão da área de Wernicke (área 22 de Brodmann) faz com que “os pacientes falem facilmente, com as palavras encadeadas em frases perfeitamente estruturadas, mas o discurso é vazio de sentido, a associação das palavras em frases significantes não se faz” (p. 154). Seja um exemplo do primeiro caso tirado da Web (afasia de Broca, Wikipedia), de alguém que conta uma ida ao dentista : "Ah sim... segunda... pai e Peter... e pai... quarta... nove da manhã... e quinta... dez da manhã... e doutor.... e dois... eeee.... doutores... dentes…”. O que é que falta neste balbuciar para ser inteligível? Preposições, artigos, conjunções, até mesmo verbos, que Changeux diz virem no infinitivo, isto é, sem a sua rica morfologia de pessoas, tempos e modos, falta aquilo que encadeia os signos a que os escolásticos chamavam categoremas, que é o que temos no exemplo: termos que têm um sentido que reenvia ao mundo, mas ditos fora da gramática que faz as frases. Isto que falta chamavam-lhe sincategoremas, os elementos linguísticos que asseguram morfologia e sintaxe. Ao invés, se a lesão for na área de Wernicke, os sincategoremas estão bem colocados, são os categoremas que falham a sua correlação, são quaisquer, não fazem sentido em relação ao mundo. No exemplo da afasia de Broca, os elementos temporais, o pai e o médico, os dentes, são categoremas relacionados entre si, fazem parte da mesma história, é esta que não é contada por não ter os elementos gramaticais correspondentes a esses ‘signos’.
4. Não sei como é que os neurologistas encaram esta dupla localização das frases e discursos em duas áreas, mas aparenta-se ao fenomonólogo algo de fortemente bizarro: dissociadas, as duas áreas trabalham de maneira intrinsecamente ligadas nos detalhes, como se cada uma juntasse coisas à outra com uma rapidez desconcertante, inclusivamente antecipando o que a outra vai ‘dizer’. Parece impossível pensar em contribuições distintas a cada uma das áreas, de tal maneira elas se articulam entre si no detalhe, o que sugere que elas funcionem como uma única área num contexto neuronal mais vasto; é o facto de o desenho das duas áreas resultar de lesões que impõe a sua consideração, senão os mapas neuronais para outras actividades serão sempre mais abrangentes e parecem opor-se a especializações mais estritas das áreas reconhecidas por Brodmann.
5. Uma outra consideração, posta em função do meu texto sobre a escrita ideográfica chinesa (neste blogue), é a de saber se as várias línguas orais asiáticas a que essa escrita corresponde, monossilábicas e portanto desprovidas de morfologia e elementos sintácticos, implicam que os seus falantes não necessitem da área de Broca, sejam desprovidos dela, mesmo quem é de língua materna inglesa quase nada a usando. Se for o caso, teriam mais dificuldades em aprender línguas europeias com as suas riquíssimas morfologias, já que teriam que receber a inscrição duma área nova, virgem.
6. Chego duma mercearia aonde duas ou três romenas entre 25 e 30 anos falam português idiomático de forma extraordinária, só ao ouvi-las falar romeno entre elas é que acreditamos que aprenderam o português já adultas. O pasmo que se diz no título deste texto duplica: como podem elas falar tão bem, tão depressa e tão espontaneamente, conjugando duas áreas distintas no fabrico das suas frases, sem que elas tenham algum controle dessa duplicidade e como é que o fazem em duas línguas diferentes? Sem nunca esquecer que as regras das línguas, morfologia, sintaxe e semântica, sem falar na fonologia, são milimétricas e vêm todas de fora, da tribo. E pensar que a filosofia pensou o pensamento mais de vinte séculos sem indagar do papel das línguas nele, sem saber o que fazer dessas regras que variam com os povos, procurando mesmo em certas épocas uma impossível ‘gramática universal’, que fosse como a matemática.

 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

O que a Terra dá – breve reflexão ecológica




As ciências da matéria e da energia
As ciências dos vivos
As ciências antropológicas
As ciências do saber
A poluição: fora do laboratório
Os inertes e as células
Ecologia e economia
Apocalipse e regionalização

Eu sou devedor à Terra
A Terra me está devendo
A Terra paga-me em vida
Eu pago à Terra morrendo
(cante alentejano)



1. Pressuposto deste texto, as ciências modernas deram-nos a conhecer quatro grandes histórias cujas problemáticas incidem na crise ecológica: a cosmológica dos astros, incluindo a Terra onde essas ciências se situam, e três terrestres, a da evolução dos vivos, a das sociedades humanas e a do saber greco-latino-europeu, cada uma sendo envolvida pela precedente donde desabrochou. A Filosofia com Ciências (uma nova fenomenologia) é um nível de filosofia entre a filosofia teórica e as ciências, de modo equivalente ao que foi a Physica de Aristóteles entre a Metaphysica e as várias ciências aristotélicas.
2. O motivo heideggeriano de diferença ontológica articula o que o pensador designa como Ser e os entes, aquele doando estes e retirando-se; ora, em 1962, na conferência Tempo e Ser, esse Ser foi substituído pelo motivo do Ereignis, Acontecimento de nível ontológico – o que havia de ‘unidade’ em Ser cede a uma ‘multiplicidade’ doadora – donde os entes serem, em seu ‘ser’ e ‘tempo’, doação retirada desse Acontecimento ontológico. Ora é destes entes, segundo critérios específicos, que se ocupam as diversas ciências[1]. Entre estes dois níveis, o do Acontecimento ontológico e o das ciências dos entes, esta Fenomenologia descreve, a partir das descobertas das diversas ciências, os mecanismos fenomenológicos que o motivo da doação que se retira do Acontecimento ontológico permite descortinar nesses domínios científicos: é isso que a expressão o que a Terra dá explicita de forma geral. Esta expressão pertence à linguagem corrente das actividades agrícolas, aonde aponta para a fecundidade das plantas, mas, na Origem da obra de arte, Heidegger ao reflectir sobre a phusis, a natureza, chama-lhe Terra, o que permite alargar – ao nível da descrição fenomenológica dos mecanismos dos diversos entes – o dom da Terra à doação retirada do Acontecimento ontológico. O que se vai tentar dizer é como em cada um dos domínios científicos tidos em conta (Física Química, Biologia, Ciências das sociedades, Linguística, Psicanálise) se efectua essa doação retirada da Terra, ou seja, indagar como são dados os minerais e os animais, as sociedades dos humanos e as suas invenções em ordem a habitarem a Terra que os dá: sendo mecanismos de autonomia com heteronomia apagada, a autonomia é dada (doação da Terra) pela heteronomia que se apaga (retiro da doação) para que a autonomia seja possível, tendo as mesmas regras do que as outras (heteroi) autonomias equivalentes.
3. Permita-se-me uma pequena digressão sobre a questão de saber se estes mecanismos fenomenológicos são ônticos ou porventura ôntico-ontológicos. Trata-se dum nível que não é o das ‘regras’ que as ciências descobrem, mas que tem (deve ter) incidência no paradigma que descreve a cena de produção e circulação dos entes ou fenómenos (cena da gravitação e da química, ecológica dos vivos, habitação tribal em sentido genérico, cena escolar e laboratorial). O paralelo com a Physica aristotélica diria que esses mecanismos (com a metáfora ‘motor / aparelho’) correspondem ao motivo da ousia e da sua panóplia de motivos, que a Metaphysica trata em termos não fenoménicos, dos entes já não enquanto se movem mas enquanto entes. Seria este o nível do pensamento heideggeriano da doação e retiro do Ser e depois do Ereignis, enquanto que o Dasein, o “ser no mundo” de Ser e Tempo com a sua estrutura da “afeição, compreensão e interpretação discursiva” e do “cuidado”, relevariam do nível da Physica. Enquanto que a différance derridiana, a meu ver, com o seu enigma da indissociabilidade da economia do Mesmo e do excesso do Outro e a sua maneira de ler desconstruindo os textos na sua singularidade, não permite discernir níveis de fenomenologia e de metafenomenologia. Mas é ‘a meu ver’.

As ciências da matéria e da energia
4. A ciência da matéria e da energia é, de todas as ciências que os humanos inventaram, a única que extravasa da Terra e se estende a todos os astros, o que tem uma consequência óbvia: esta Terra, que dá tudo o que é terrestre, é ela própria dada por outros astros, quer as estrelas que criaram os átomos, as moléculas, os graves de que a Terra é feita, quer o Sol e os outros planetas do sistema a que ela pertence. Pouco sei desta matéria, mas presumo que há na geologia uma riqueza de diversidade de minerais, em rochas, oceanos e atmosferas, embora em quantidades muito diferentes, desde a tão abundante sílica e do hidrogénio e oxigénio aos minérios mais raros, riqueza comparada com o que se vai sabendo dos áridos planetas que nos rodeiam.
5. Doada pois ela mesma, antes de se tornar doadora, poder-se-á dizer que a Terra é também doadora de toda essa mineralidade, sólida, líquida e gasosa, vulcânica, sedimentada e metamórfica, que a constitui, com um centro sem acesso ao conhecimento directo? Os vulcões e os sismos que nos aterrorizam por vezes (o ‘terror’ da Terra) assinalam os movimentos que ela sempre conheceu ao ser constituída; também os jogos da energia solar (luz e calor), das marés e inundações, dos ventos e tempestades, sempre produziram fenómenos de erosão e transformação química, de que Lavoisier deu a regra geral: “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Esta fórmula diria como a Terra não foge à doação que outros astros dela fizeram e que continuam, mais ou menos perto da Gaia de Lovelock: como astro autónomo doado pela heteronomia astral, continua a ser feita e a fazer-se, e também a fazer doando-se do que lhe foi e é doado, passiva do que recebeu e recebe, activa do que faz doação por sua vez. É que entre matéria e energia a Terra nunca deixou de se transformar, na sua temporalidade de quatro biliões e meio de anos.

As ciências dos vivos
6. Como é que a ciência dos vivos releva da doação da Terra? O que se cria e o que se perde traduz-se nos vivos em nascimento e morte, em reciprocidade relativa: cada vivo nasce de outros vivos e a esmagadora maioria dos cadáveres destina-se a servir de alimento a outros vivos, segundo esta feroz lei da selva[2] que resulta da doação justamente e coloca na mesma lógica geral plantas e animais, a lógica da alimentação. Enquanto que a reprodução sexuada se processa pela geração, entre progenitores e rebentos, a reprodução de cada vivo como crescimento e maturidade faz-se pela alimentação que, nas plantas (que nunca estudei) implica a Terra e o Sol: sabe-se que elas recebem moléculas de carbono em glicose que resulta da fotossíntese com o CO2 atmosférico, da iluminação solar assim, enquanto que os outros átomos de que ela necessita lhe vêm da água e doutros minerais que as raízes colhem do solo da Terra. Este processo de alimentação dá assim às células das plantas as hiper-complexas moléculas de carbono e outros átomos que são próprias dos vivos.
7. Ora, os animais, desde os invertebrados com um mínimo de órgãos digestivos e neuronais, não têm outra fonte dessas moléculas complexas de que as suas células são feitas que não sejam essas plantas que, herbívoros, eles encontram no seu espaço ecológico, enquanto que os carnívoros os caçam a eles, herbívoros, para o mesmo efeito. Pode-se pensar esta alimentação animal através de aparelhos digestivo e circulatório[3] como um fenómeno de redução progressiva dos ‘bocados’[4] comidos até se tornarem nos aminoácidos que chegam às células para aí serem sintetizados nas proteínas de que elas necessitam. A Terra que faz doação é o conjunto de espaços ecológicos com plantas ou animais.
8. Neste sentido fenomenológico, a Terra, incluindo a atmosfera que lhe pertence e a luz recebida do Sol, corresponde à phusis de Aristóteles, o seu archê, o seu ‘poder’ (do verbo que pode, não do substantivo) residindo nesta fabulosa doação de mecanismos que, por alimentação de outros, crescem como entes autónomos que receberam numa célula inicial (ovo: o metabolismo do protoplasma com um núcleo de ADN); é esse mecanismo que lhes permite circular na sua cena ecológica, buscando que comer e capazes de fugirem a serem comidos: recebidos da doação dos progenitores, continuam quotidianamente a receber a doação alimentar na selva ecológica. Os animais são pois capazes de movimento por si mesmos (Aristóteles), auto-móveis, mecanismos autónomos com heteronomia apagada, doação pela Terra que os deixa ser autónomos ‘retirando-se’. E é claro que essa doação também é feita às sociedades de mamíferos bípedes, cuja etologia se tornou de tal modo complexa que deu lugar a ciências autónomas da Biologia, a Antropologia, a História e a Sociologia, além de numerosas ciências sociais relativas a estruturas específicas (nomeadamente a Linguística, ciência das línguas, e a Economia, ciência dos mercados). Mas esta bipartição entre Biologia e Ciências do social, teve e tem um grave inconveniente de ordem fenomenológica (e ecológica, lá iremos mais adiante), o de manter mais ou menos dissimuladamente a oposição platónica e cristã entre corpo e alma, as ciências separando-se assim entre elas. Ao contrário da abordagem de Aristóteles, cujo tratado Da alma é um texto ‘biológico’ que vai até à ‘alma intelectiva’, depois de tratar da ‘vegetativa’ (referente à nutrição) e da ‘sensitiva’ (referente aos órgão dos sentidos e à mobilidade).

As ciências antropológicas
9. A Biologia molecular tornou-se em boa parte uma bioquímica, guardando assim relação com a ciência da matéria e da energia, mas, como disse, as ciências das sociedades humanas padecem de terem cortado com as ciências biológicas e etológicas, apesar de as suas unidades de habitação terem um problema principal que lhes vem da reprodução biológica: garantirem a alimentação quotidiana dos seus vários membros humanos e velar pela geração e aprendizagem dos que virão tomar o lugar da geração actual. E é a Terra – e não o ‘território’! – que dá procriação e alimento, tal como já aos outros animais e plantas, acrescentando-se uma nova exigência, a de garantir pela aprendizagem que os vários usos de prover à recolha dessa doação que os antepassados foram inventando continuem a ser sabidos: esse saber do seu mundo envolvente, achado pela curiosidade, tanto engenho como necessidade, acumulou-se, ensinou-se, cresceu.
10. A invenção da agricultura trouxe um domínio relativo das sociedades humanas sobre a lei da selva (deixaram de ser ‘selvagens’). Além disso, o excedente de alimentação permitiu a formação de especializações artesanais variadas em vilas rodeadas de campos agrícolas e de gado, mas também a formação duma casta de guerreiros que desenvolveu a lei da guerra que já havia entre tribos (aliada então à lei da selva) com o fabrico de armas metalúrgicas e domesticação de cavalos. Pode-se dizer que o núcleo geográfico destas sociedades consistiu em regiões duma vila com casas de artesanato rodeada de casas agrícolas que a alimentavam: provavelmente essa estrutura é o esqueleto da evolução social cuja base de riqueza consiste na (agri) cultura do que a Terra dá. A escravatura terá aí a sua lógica, a de aumentar os benefícios da Terra em latifúndios a favor dos guerreiros que conquistaram / compraram esses escravos.
11. As invenções dos humanos relevaram do fazer (técnicas e rituais) e do seu dizer (receitas e mitos). Com as cidades, os fazeres ganharam instrumentos e os dizeres técnicas de escrita, o que estará no cerne da lógica que levou a grandes reinos e impérios, tendo a difusão de textos copiados dado origem a unidades sociais inéditas, as escolas destinadas à educação dos filhos dos patrícios ricos; na Grécia dos séculos V e IV a. C. e em Roma depois gerou-se uma civilização cosmopolita que desaguou, se dizer se pode de guerras de conquista, no império romano que dominou a geografia mediterrânica durante alguns séculos. Após um bom milénio de regressão das cidades, a dita Cristandade, com o desenvolvimento de artesanatos e comércio em vilas bem como de universidades recuperando saberes antigos, gerou-se lentamente uma nova civilização cosmopolita que veio a desaguar na modernidade europeia, ainda durante alguns séculos com base no trabalho de escravos, vindos de África. A escravatura também era uma doação da Terra, à mercê das armas de fogo que entretanto se inventaram, em má hora para os conquistados, reduzidos a uma espécie de ‘animais domésticos’, lei da guerra que continuou a sobrepor-se à lei da selva. Que a lei da guerra seja predominante na história das sociedades humanas, lei das vontades de poder (substantivo: poder sobre as outras vontades que assim podem menos)[5], não implica pessimismo de concepção da história, já que o que esta conta de optimista é justamente o incessante trabalho de ‘educação’ (em sentido etimológico, o que busca trazer -duc- para fora e- ) como domínio relativo sobre a lei da guerra pelo que em geral merece o termo de cultura, em certo paralelo com o termo agricultura no que à lei da selva se refere. Espiritualidades e religiões, literaturas e filosofia, leis por justiça e direito, artes variadas e desportos, tantas formas de visar conter as rivalidades aonde elas largam o estímulo da concorrência entre quem ‘pode’ – como se diz ‘concurso’ – para o ‘poder’ sobre os outros, para que eles ‘não possam’. O lindo verbo ‘poder’ e o seu nefasto substantivo. Também aqui a Terra dá retirando-se, isto é, nunca as coisas estão acabadas, a cultura implica sempre busca de saber e recomeço com o ensino das novas gerações.

As ciências do saber
12. Houve três momentos decisivos na história greco-latina-europeia do saber, além do que diz respeito ao direito romano e que eu desconheço: o momento grego foi o da invenção da definição (Sócrates, Platão, Aristóteles), o momento cristão foi o da assunção do discurso cristão pelo platonismo (Orígenes, Agostinho, reviravolta aristotélica de Tomás de Aquino), o momento europeu foi o da invenção do laboratório científico (Galileu, Newton entre outros); este último articulou duma forma singular em todas as histórias de humanos que se conheçam, as duas achegas medievais, a do saber universitário filosófico aristotélico e a do labor artesanal das comunas.
13. O laboratório é pois o ‘labor’ ao serviço do ‘saber’. Mas também o seu preço ecológico, que se manifesta na diferença entre o sentido antigo da palavra ‘physica’ e o da nova ‘física’, aquele visando os vivos como os que de si se movem e este medindo as diferenças de movimentos em inertes, isto é, em substâncias que não se mexem delas mesmas, só forças de fora as fazendo mover. Ora bem, esta diferença corresponde à que na geografia evocada há entre os campos – humanos, animais, plantações, tudo se afirmando pela fecundidade que a Terra lhes dá, ela se encolhendo como paisagem – e as cidades, que se organizam com outras lógicas de habitação, de construção e artesãos, de comércio e de negócios, de discussões e de decisões dos que ‘podem’, ou do chefe que ganhou o ‘poder’. Claro que as cidades são de gente viva, a lógica da vida manifesta-se quotidianamente nas refeições – quando há festa, há banquete – e nos dejectos (primeiras poluições em cidades grandes), mas as preocupações citadinas são no fabricar e no trocar, no discutir e estudar, ler, compreender, escrever, ou seja o que nela se afirma merecerá o nome de razão, que vem de ‘ração’ como resultado de partilha: nas grandes cidades modernas os vivos como que estão a mais, árvores, cães e gatos, gente sem abrigo ou sem papeis. Pelo contrário, as casas da agricultura tendem à auto-subsistência, do que colhem da Terra com usos que implicam saberes antigos cuidadosamente guardados como condição da fecundidade, dos campos como das casas. É que também as ‘tradições’ são alvo de critica nas cidades que privilegiam o novo e que, quando não é possível, inventam modas para fingir que é novo. Ora, inventa é sempre modifica o antigo recebido, reduzindo, deixando cair, a parte desse recebido que é recusada pelo novo. Quem inventa não esquece completamente esse reduzido contra o qual se bate, mas a geração que aprende com ele a invenção não saberá já desse reduzido que foi substituído. Há pois esquecimento social dos saberes tradicionais que vão sendo substituídos pelos inventos, a história ‘moderna’ é feita desse esquecimento / inovação, as sociedades antigas pelo contrário recusando as alterações modernas, as querelas Antigos / Modernos renascem constantemente. O que é reduzido e esquecido não se perde todavia necessariamente, é sempre susceptível de ser recuperado posteriormente segundo a outra perspectiva que a inovação trouxe, aonde esta fizer doer: a ecologia joga-se estruturalmente assim, procurando recuperar mais do que conservar, em ordem a compensar prejuízos resultantes das inovações. Pode-se aliás dizer que a psicanálise oferece, ao seu nível de terapia individual, um modelo de saber em que justamente se recuperam memorias esquecidas que fazemfalta, cujo esquecimento provoca sofrimentos.

A poluição: fora do laboratório
14. Só em cidades é que o laboratório podia ter sido inventado. Ele é filho da também já citadina definição, como esta delimita o que nela entra para ser medido, reduzindo o contexto em que as coisas são dadas (pela Terra, pois), reduzindo portanto as forças e efeitos todos que essas doações implicam de maneiras complicadas de compreender: o laboratório só sabe, e quanto bem isso não é, do que mede dentro dos seus muros; para extrapolar esse saber para fora dele ‘especula teoricamente’ que as coisas, sob as tais ‘forças e efeitos todos’, obedecem às leis que o laboratório descobriu. E se se diz que a ciência ‘especula teoricamente’, é para assinalar que muita coisa fica por saber do que se passa fora dos muros. Ora bem, quando a nova Física desaguar na invenção da máquina um ou dois séculos depois, haverá juntamente com as novidades de grande espanto das inauditas indústrias também efeitos perniciosos igualmente inauditos, o que se chama poluição não sendo mais do que efeitos fora dos laboratórios daquilo que só pôde ser inventado dentro deles: os ditos efeitos secundários, os que não se previram e que nem sempre se sabe explicar. O que chamamos automóvel é ao mesmo tempo tanto a admirável invenção dum mecanismo que se move por si mesmo, que até aí só os animais e os humanos (veio substituir a carruagem e a carroça!), como a poluição das atmosferas das cidades, em que a lógica predominante não é a das regras dos vivos, mas a da construção, da produção, do comércio. É onde está a raiz do problema ecológico.
15. A poluição com origem nos vivos, própria das grandes cidades sobretudo, resolve-se com esgotos e reciclagem de detritos orgânicos, não é onde haja problemas difíceis, como a que consiste nos efeitos de produção sobre a atmosfera (explosões de motores e centrais energéticas), substâncias radioactivas, efluentes químicos (insecticidas, pesticidas, venenos), plásticos e por aí fora, que se expandem nos rios e águas freáticas, fontes de águas potáveis, oceanos, e intervêm pois na chamada cadeia alimentar, além dos efeitos nas saúdes. Que lógica fenomenológica se esconde neste tão grave problema?

Os inertes e as células
16. Há duas formas elementares de matéria terrestre, ambas se encadeando a dimensões microscópicas, a dos átomos e suas moléculas minerais, e a das células feitas de moléculas orgânicas (com base de carbono), as quais chegam à nossa vista desarmada respectivamente como inertes e como vivos. A fenomenologia dos átomos, dentro dos limites de temperatura e pressão do planeta, pode ser descrita como resistindo à desintegração por efeito das forças nucleares e oferecendo-se às forças da gravidade, por um lado, e, por outro, à transformação química na proximidade molecular, esta jogando melhor com gases e líquidos ou pastosos. A violência geológica da terra em seus cataclismos tem a ver com estas propriedades. É a fenomenologia dos vivos que mais interessa a ecologia. O segredo deles é a fecundidade, o que já tanto espantou Aristóteles, que eles cresçam (em grego phuô, donde phusis) e se reproduzam, o preço é a sua vulnerabilidade, de que a morte é a consumação. Esta fragilidade é-lhes intrínseca, resulta de que a fecundidade, o moverem-se por si num ambiente ecológico que os dá, implica que as moléculas orgânicas, as da bioquímica, sejam muitíssimo mais complexas dos que as dos inertes, compostas de aminoácidos mais simples e aguentam-se mal, degradam-se facilmente em suas partes, donde que, além da geração, cada célula necessite constantemente de se alimentar de aminoácidos (que ela sabe ‘sintetizar’ no metabolismo através destes mecanismos extraordinários operados pelos ARNs e pelos ADNs), necessite de os encontrar na cena ecológica. Em termos de entropia, a bioquímica representa uma produção entrópica, como mostrou Prigogine, mas a qual sendo uma estabilidade instável, precisa de ser mantida e acaba finalmente por ser vencida como entropia de Clausius. Mas que a Terra dê a fecundidade como a coisa mais forte do mundo terrestre, não significa pacifismo, já que há duas formas de violência da busca da fecundidade enquanto busca de crescimento: uma releva das plantas, é a que faz as selvas e os matos, com uma verdadeira luta entre plantas, raízes e troncos, sei lá, para conquistarem lugares, sementes excessivas para que outros rebentos rebentem, como a linguagem traduz tal violência; a outra releva dos animais, como acima se referiu que estes se alimentam de outros vivos nessa inacreditável lei da selva que não vejo os biólogos darem por ela, obnubilados pelo nível da bioquímica.
17. Ora, a evolução que se desenvolveu das consequências desta lei violenta seleccionou, entre modos de muitas astúcias, formas de dimensão maior e os respectivos músculos e bocas predatórias. Sendo a lógica inerente aos vivos a busca de crescimento e nos animais ela precisando de complexidade neuronal crescente, os humanos receberam da lei da selva os músculos e a dissimulação engenhosa que os levou ao deslocamento da lei da selva para lei da guerra enquanto lei da história, da evolução das sociedades humanas. Vivemos numa época cosmopolita e ecuménica, pacifista e anti-racista, o que impede de se perceber que as necessidades do próprio crescimento, do pequeno para o grande, implica que as unidades sociais se estruturem segundo uma privacidade protegida que olha todos os outros como ‘estranhos’, como se fossem a priori rivais, fenómeno que se repete nas aldeias, nos bairros das cidades e seus clubes, nas regiões, enfim nos países de línguas e usos diferentes, em que os estranhos são estrangeiros. São os paradigmas do que gera o ‘próprio’ (que cresce dentro da propriedade) que, para conter as rivalidades entre os seus indígenas, é levado a fomentar a unidade deles através da rivalidade para os de fora. A lei da guerra manifesta-se aí de forma clara e não há maneira de a impedir de se jogar, apenas tentar dominá-la por alianças, leis, tratados, etc. Porque é que isto é assim? Porque a doação pela Terra dos animais como mecanismos autónomos implica que estes a recebem passivamente mas em simultâneo (devido ao retiro da doação aquando da sua inscrição) apropriação activa dela, dinamismo da autonomia (desejo, vontade), destinado a circular na selva ou na tribo, devendo, para se alimentar, afirmar-se violentamente face aos outros. Donde que a história se tenha traduzido quase sempre em guerra pelo crescimento, os poderosos ocupando sempre mais e mais lugares, guerra de conquista: reinos e impérios, escravos e colónias. E por aqui voltamos à ecologia, aos efeitos dos inertes industriais sobre os vivos.

Ecologia e economia
18. A ecologia (etimologicamente, o discurso da habitação) nasceu da constatação da contradição entre as duas lógicas inerentes à economia (etimologicamente, a regra da habitação), a da produção e a da vida, no que há de efeitos excessivos numa que se revelam nefastos à outra. Heidegger, ainda não se falava de ecologia, disse que “o humano habita como poeta na Terra”, a poesia sendo o cume do discurso, acima do da ciência porque devendo nortear a civilização além do que ela produz, “nem só de pão vive o humano”, dizia a tradição bíblica. A grande dificuldade é que ecologia e economia, para já não falar de poesia nem de espiritualidade, não se encontram, na raiz que lhes é comum, ‘eco’, não têm nada em comum. Eis a distância entre elas: primeiro, a lógica ‘física’ da matéria / energia, segundo, a lógica ‘técnica’ da máquina e da produção química, terceiro, a lógica ‘empresarial’ da produção, entre financiamento, custos, salários e lucros, quarto, a lógica ‘mercantil’ das lojas, quinto e último, a lógica dos ‘vivos’ que comem e respiram. É claro que do ‘primeiro’ ao ‘quarto’, todos comem e respiram, mas só dão por isso depois, mais tarde, muito tarde, quando os ecologistas clamam ‘poluição!’.
19. São todos, somos todos especialistas de um segmento qualquer anterior ao comer e respirar, ninguém sabe do percurso todo, ainda que o discurso ecológico se encha também de números, globais e apocalípticos. Não tenho experiência de discussões entre especialistas diferentes, apenas de constatar que o que proponho sobre ‘ciências’ não é entendido por cientistas com quem busque conversar. Mas ainda que se chegasse a um entendimento relativamente consensual (a politica é feita disso!), há o problema do que a Terra dá, está a dar sem cessar (aquilo que Heidegger chamou Ge-stell), as instituições todas que laboram e trocam e poluem: se tudo é dado pela Terra e de tal maneira que ela retira a sua doação como condição do movimento mesmo das instituições que se foram criando, não é possível, já não digo ‘parar o funcionamento’ das coisas todas, mas alterar esse funcionamento de forma significativa em termos ecológicos. A contradição actual pode resumir-se assim: o que a Terra dá implica crescimento e ocupação de lugares e inevitavelmente rivalidades e conflitos, mas o crescimento tem sempre limites, entre máximos e mínimos, equilíbrios homeostáticos; ora, estamos a chegar a um limiar máximo de produção, em que é o próprio crescimento que se torna prejudicial ao conjunto dos vivos mas a grande ‘máquina’ continua quase cegamente. Ninguém sabe o que é que haveria que fazer, não pode haver senão achegas para atender a tal ou tal poluição, para ir diminuindo tal e tal produção nefasta. O que se pode deduzir destas dezenas de anos de movimentação ecológica, é que há questões que se vão conseguindo dominar, mas que há factores gerais, digamos, que fogem a todo o controle, excepto quando acidentes muito graves obrigam a decisões radicais, como acabar com as centrais nucleares no Japão por causa de Fukushima. O que indicaria que serão as crises ecológicas que provavelmente obrigarão a correcções drásticas que ainda possam vir a tempo.
20. Mas há questões a que sou mais sensível e que fogem, creio, a este tipo de lógica de correcção progressiva. Uma delas é a que desabou sobre nós, Europeus do Sul, vinda do sistema financeiro americano, que devastou economias (que se basearam demais no crédito, à instigação do próprio sistema financeiro). Os mecanismos relativos à moeda funcionam com um elemento de irracionalidade, de desejo de ganhar que vira facilmente ganância, a regulação do sistema financeiro que havia desde os tempos da crise de Roosevelt tendo sido deitada aos ventos pelos neoliberais, Freadman, Reagan e Thatcher tanto mais grave quando os meios de transferência electrónica geram velocidades impressionantes, que só multiplicam a irracionalidade do sistema e os seus efeitos devastadores. É a própria ciência económica que precisa de se tornar ecológica na sua racionalidade científica, de ter em conta os efeitos políticos sobre a habitação dos humanos.

Apocalipse e regionalização
21. Viemos do anidrido carbónico como condição da origem da vida dos organismos animais e chegámos ao anidrido carbónico como poluente predominante da vida animal: a atmosfera antes da invenção da vida não tinha oxigénio, era o anidrido carbónico que nela predominava e onde a evolução das plantas foi buscar, por via da fotossíntese, o carbono necessário às suas células, despejando na atmosfera o oxigénio que tornou possível a evolução dos animais. As combustões de carvão e petróleo estão a devolver a atmosfera aos seus inícios, eis o paradoxo. Hans Jonas explicitou o apocalipse desta forma serena. “Assim a festa cheia de sorte (happy-go-lucky) de alguns séculos industriais será paga com milénios de alterações na natureza terrestre, por um acerto de contas cósmico não injusto, uma vez que nesses séculos ter-se-ia esbanjado a herança de milhões de anos de vida passada”[6]. Poucas centenas de anos a deitarem fora os 600 milhões de anos da história dos organismos! Após as três histórias terrestres de que se partiu, a Terra volta de novo a ser um astro no meio de outros, quase árido como eles, despojada tudo o que ela deu! Lembra-me uma fabulosa fábula de Nietzsche, um século antes da de Jonas. “Num canto qualquer do universo espalhado no flamejar de inumeráveis sistemas solares, houve uma vez uma estrela na qual animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais arrogante e mais mentiroso da ‘história universal’: mas foi apenas um minuto. Mal se deram alguns suspiros da natureza e a estrela congelou, os animais inteligentes tiveram que morrer”[7].
22. Mas poderá ser menos drástico, o apocalipse deixar alguns restos. Teríamos uma lição da história a elucidar-nos como seria, a maneira como ao longo dos séculos V e VI da nossa era, o império romano do Ocidente tomado por populações ‘bárbaras’ viveu um apocalipse ‘imperial’: as super-estruturas do império, administração e exército, implodiram e a Cristandade medieval foi uma geografia de regiões, como se evocaram os alvores da agricultura, que durou uma boa dezena de séculos até outra coisa se engendrar a prenunciar a Europa. Tudo dependerá desses restos, dos saberes que restarem aos novos ‘bárbaros’, que não tenham que reinventar a máquina e a electricidade. Ou então, em menos drástico, para dar para as próximas gerações: tratar-se-á de, em vez de continuar a querer crescer até à demência, aproveitar o flagelo do desemprego para partilhar os empregos que há entre todos e diminuir o tempo de trabalho a favor de tempos de autonomia e liberdade, de jogos e de cultura, de invenções de formas de viver, sei lá! A electricidade, as energias renováveis, a agricultura, a internet, são muito favoráveis a formas descentralizadas de organizar a sociedade, anti-hierarquias e com menos burocracias. Seja como for, aprendemos com esta crise que nada se fará sem algum apocalipse: este, para nós, evoca catástrofe, mas em grego significa ‘revelação’. Da Terra e das suas doações, a serem melhor aproveitadas.



[1] Obviamente que cada Dasein humano também releva dessa doação retirada, sem que Heidegger todavia dê o menor sinal, nos seminários de Questions IV, posteriores à conferência de 62, de ter atendido a essa consequência.
[2] A que raros escapam, como os incinerados, por exemplo da actualidade.
[3] Ao invés das formas simples dos unicelulares e primeiras colónias deles, que recebem da água envolvente as moléculas de que necessitam.
[4] Em sentido etimológico, os pedaços que cabem numa ‘boca’.
[5] Adulteração do motivo de Nietzsche, em que o ‘pode’ era de pujança.
[6] Hans Jonas, O princípio de responsabilidade, 1979, versão ingl. 1984, p. 190 (citado da tese de Marília Carrilho, A fundamentação filosófica das noções de cuidado e de responsabilidade no pensamento de Maria de Lourdes Pintasilgo, Univ. de Évora, 2015)
[7] Início de “Sobre a verdade e a mentira em sentido extra-moral”, in O livro do Filósofo [póstumo de 1873]. É a mesma fábula de H. Jonas, mas com um zoom de escala mais pequena.