domingo, 12 de julho de 2015

Cristianismo e política : uma história por regra mal contada



1. Quem tenha alguma cultura histórica, perceberá facilmente que há um anacronismo inevitável nas leituras correntes dos evangelhos, como se eles tivessem sido escritos para durarem vinte séculos ou mais até aos crentes de hoje: a sua característica mais óbvia reside na consideração de que a Bíblia é um livro religioso. O historiador alemão judeu Folker Siegert (in P. Geoltrain, Aux origines du christianisme) disse lapidarmente que “o judaísmo do primeiro século não é uma religião, é um povo”. O que significa que nele religião e  política são indissociáveis, o que inclui também Jesus, cuja 'boa nova' é a narrativa duma praxis, não é só um 'dizer' mas dizer e agir e dizer como agir, o que não podia deixar de ter consequências políticas, como aliás atesta o processo que o condenou. 

Religião e cosmopolítica
2. Todas as sociedades não industriais, em que colheitas e rebanhos são a fonte principal da riqueza, estão dependentes das respectivas fecundidades que os humanos não controlam, são segredo dos deuses. A abertura em algumas grandes cidades de uma cultura escrita cosmopolita fez surgir escolas espirituais que criticam a religião, Buda, Confúcio, Zaratustra, e no helenismo escolas filosóficas e de cultos de divindades orientais, escolas essas ditas ‘heresias’ (em grego, ‘escolha’), termo que significa o gesto moderno por excelência, o da critica da tradição, em que se escolhe o que se quer reter.
3. A especificidade da Bíblia hebraica, livro político-religioso, foi segundo o Deuteronómio (~640 a.C.) a proposta com Moisés duma aliança em que a bênção, fecundidade e paz, seria dada se as casas israelitas e os reis observassem uma ética de justiça social: “que não haja pobre no meio de ti” (15,4). Segundo os Profetas, foi por não terem sido fieis que essa aliança falhou e foram derrotados, primeiro pelos Assírios (sec VIII) e depois por Babilónia (início sec VI). Os livros da Lei escritos em seguida reformularam a aliança, agora sob a égide de Abraão, como uma promessa incondicional, mas depois de 2 séculos pacíficos como vassalos do Irão, as vitórias de Alexandre e em -63 de Pompeu vieram pôr em questão essa promessa: ocupação estrangeira violenta sem nenhum vislumbre de saída  política, isto é, guerreira, que tornasse viável a promessa. Esta situação está na origem de dois séculos e meio de literatura apocalíptica que (com influência do iraniano Zaratustra, a quem se deve o motivo de Juízo final e da ressurreição dos mortos), apostou como única possibilidade na intervenção escatológica vitoriosa dum Messias que vencesse enfim os Romanos. Entre as várias tendências inconformistas, desde os Essénios marginais do Mar Morto às tentativas de rebelião armada dos Zelotes, vencidos no ano +70 por Tito, situam-se João Baptista, Jesus e Paulo, crendo que o Reino de Deus, o Juízo Final, se faria em breve, durante a vida da respectiva geração (Marcos 1,15 e 9,1, !ª Tessalonicenses 4,15-17 e 1ª Coríntios 15,51-53). O evangelho de Marcos foi escrito na sequência do fim de Jerusalém (e da literatura apocalíptica) e interpreta a derrocada do Templo como sinal do retorno iminente do Messias ressuscitado: “compreende, leitor!”, adverte em 13, 14. Mateus ainda subscreve esta expectativa que, Lucas, da geração seguinte, tem que desfazer, adiando a escatologia.
4. Sempre muito resumidamente, a consequência deste desfecho foi que as comunidades cristãs deixaram rapidamente de ter membros vindos do judaísmo e seguiram o caminho aberto por Paulo, tornando-se gregas e romanas. Orígenes de Alexandria instituiu o discurso teológico que acolherá os grandes dogmas dos séculos IV e V e perdurará até ao século XX, teologia que de si mesma se diz dogmática, enquanto que o legado judaico ficou confinado à liturgia. Ou seja, o cristianismo, fenómeno de cidades (o ‘pagão’ era o camponês fixado à terra pela ‘pax’ romana), foi durante dois a três séculos uma ‘heresia’ cosmopolita entre as outras (Actos dos Apóstolos 24,5; o termo veio a tornar-se pejorativo na 2ª metade do sec. II), perseguida por várias vezes, até receber o beneplácito de Constantino e dos seus sucessores: a ecclesia espiritual tornar-se-á religião do império e sobreviverá à implosão ocidental deste, voltando a haver pelos séculos seguintes religião e  política indissociáveis, como é regra das sociedades agrícolas e testemunham os conflitos constantes entre reis e bispos, papas e imperadores. Mas também confirma este deslocamento para o religioso ancestral holístico (que o cosmopolitismo questionara) o facto de, desde os monges do deserto egípcio e de S. Bento, se gerarem incessantemente grupos espirituais, franciscanos, dominicanos e por aí fora, com reclamações de reforma eclesiástica, as quais explodiram no sec XVI com a Reforma espiritual protestante em ruptura com Roma, mantendo, é certo, uma parte da estrutura religiosa, donde a multiplicação de confissões e de revivalismos espirituais. E foi o cosmopolitismo que, desde a impressão dos livros até à industrialização moderna, levou à separação das Igrejas e dos Estados seculares, mormente nos países católicos, onde a resistência clerical foi maior, aonde os cristão rurais ocupam o lugar dos antigos ‘pagãos’. Com essa excepção inacreditável do dólar ter inscrito “em Deus confiamos”.

Cristianismo e  política
5. Delineado o quadro histórico, resta a questão inteira: como se relacionam os evangelhos, na sua radicalidade espiritual escatológica, com a  política do mundo de hoje, com as suas questões ecológicas e sociais lancinantes? Do religioso para o espiritual, o enigma da fecundidade (duma planta muitas sementes, dum casal muitas ninhadas) desloca-se dos campos e dos rebanhos para os comportamentos humanos, cujo excesso tem o nome de generosidade: amar o próximo é a coisa mais difícil do mundo, como todos temos experiência. Em que é que a  política, a organização da sociedade, se opõe à generosidade, quando em termos de riqueza, a fecundidade foi substituída pela produtividade? Em todas as suas estruturas que consolidam um poder, substantivo de uso corrente, este tende a impedir o que os seus subordinados podem, como verbo. O motivo evangélico do serviço extremamente radical – “vocês sabem que os que são vistos como chefes das nações mandam nelas como senhores e que os grandes fazem sentir o seu poder sobre elas; não deve ser assim entre vocês: pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vocês, far-se-á o vosso servo e quem quiser ser o primeiro entre vocês, far-se-á o escravo de todos” (Marcos 10,42-44) – pode ser lido como fomento das possibilidades dos que estão sujeitos aos poderes, ajudá-los a libertarem-se para o que possam fazer e ser. Como por exemplo deve ser o lema de toda a educação, de todo o ensino.
6. Há três dicotomias políticas nos evangelhos que podem ser esclarecedoras: “não podeis servir Deus e o Dinheiro” (Mateus 6,24), “dai o que é de César a César e o que é de Deus a Deus” (Marcos 12,17), “[Deus] não é um Deus de mortos, mas de vivos; todos com efeito vivem por ele” (Lucas 20,38). O dinheiro, César e o Deus dos mortos (da religião enquanto poder, de que o suporte é o Templo, adversário simbólico de Jesus) são três feitiços do poder substantivo que impede que se possa viver fecundamente. É o cerne da atitude espiritual, renunciar aos feitiços, mas também é a de todos os grandes apaixonados por causas de vida, artistas ou pensadores, gente entregue à generosidade social, aqueles cujas biografias lemos por vezes maravilhados, que nos mostram como vale a pena viver. Fecundidade fora do ‘poder’: ‘sem posses’ mas ‘podendo’ além do que podiam. É isso uma ética radical.
7. É o dito referido ao imposto a César que pede um esclarecimento, os outros dois podem ser deixados à imaginação do leitor. Esta oposição é uma espécie de emblema da leitura anacrónica, que lê uma repartição das actividades, ao poder do Estado o que lhe compete, ao mundo eclesiástico a sacristia e o seu rebanho de pastores, um pacto entre dois ‘poderes’ substantivos (em que um deles está a perder terreno há mais de um século, o outro também aliás, nos últimos 30 anos de supremacia financeira do grande capital, como temos sentido). Mas uma leitura atenta do episódio que culminou nessa frase mostra o anacronismo que seria deixar-se todo o domínio de César ao seu arbítrio. Trata-se de uma armadilha: “é ou não lícito pagar o imposto a César?” Se Jesus disser que não, será denunciado à autoridade romana ocupante, a quem esse imposto se destina; se disser que sim, será abandonado pela multidão anti-ocupação romana que o aclamou à entrada em Jerusalém e à expulsão dos vendilhões do Templo, deixará de ser perigoso. Se a resposta de Jesus fosse a que hoje corre (e que ajuda ao ajuste dos poderes, não é daí que vêm os problemas entre nós, essa lição de separação dos aparelhos de poder até seria útil a muçulmanos e israelitas), ele teria caído na armadilha e sido renegado pela multidão, o que obviamente não sucedeu: a resposta não foi a dum ‘colaborador’ com o ocupante. A astúcia de Jesus foi pedir a moeda e pegar pela imagem de César nela: a Lei bíblica proíbe as imagens de humanos, aquela imagem é pois ilícita, estrangeira, mandá-la para César equivale a expulsar a moeda do pais, o que por um lado convém à multidão que o aclama e por outro não dá pretexto a acusação aos Romanos. “E eles ficaram espantados” com a resposta, concluem os três evangelhos. Em vez de submissão ao poder de César, é a libertação dos feitiços do poder – do dinheiro e das burocracias (clerical ou outra, engravatada, mediática) – que permite ‘viver’ fecundamente, apaixonadamente.
Público, 12 de agosto 2015

P. S. - escrito antes da encíclica do Papa Francisco sobre ecologia e questão social. Ele tenta, com  a coragem e generosidade inventiva que é sua maneira espiritual, reformar a estrutura religiosa que herdou.
2º P. S. - A interpretação corrente do "dai o que é de César a César e o que é de Deus a Deus" consiste a pôr em diálogo César e o Deus dos Mortos, as duas estruturas de poder. O que o evangelho preconiza tem a ver com práticas possíveis de baixo, desligando dos vários poderes, criando solidariedades e comunidades que tornem possível liberdades impossíveis, mais além do que se pode. Vale mesmo sem fé, mas é aonde há espiritualidade.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O ‘retorno às coisas’ tem uma história



1. A palavra chave da fenomenologia de Husserl, o “retorno às coisas”, que Heidegger não abandonou (ainda em Questions IV, pp. 173, 183), indica um movimento da História da Filosofia que se repete então pela terceira ou quarta vez, um movimento sem o qual teríamos sido sempre platónicos, pois foi nele que consistiu a ruptura de Aristóteles, critico da separação que o mestre instituíra entre as Formas ideais (Eidê) e as coisas de que elas davam o conhecimento: juntar essência com a substância na mesma ousia, esta categoria primária e aquela aparecendo como secundária mais adiante na tabela das Categorias. Mas ao fazê-lo guardou a definição que dera a Platão a separação radical (entre o Céu e a Terra), o motivo do acidente em sua singularidade distinguindo cada ente da respectiva ousia, deixando-o fora da fronteira que define esta. A essência veio à substância, foi a primeira vez.
2. Uma segunda vez, agora sim, claramente retorno, repetição dum gesto anterior, foi para revolucionar o pensamento que dos gregos se recebera, vindo aliás através das fontes árabes comentadoras de Aristóteles (mas delas eu não sei nada, tendo embora lido um livro que trata disso, ver o meu e.book Da Natureza à Técnica): foi Tomás de Aquino na esteira de Alberto Magno quem repetiu Aristóteles critico de Platão, tendo na mira Agostinho de Hipona cujo neo-platonismo dominava o pensamento eclesiástico havia mais de oito séculos. [A dificuldade aqui é saber como é que o aristotelismo medieval privilegia a concepção metafísica da ousia (o ente enquanto ente) e deixa em segundo plano a física (o ente enquanto capaz de movimento); não sei que chegue para dizer a permanência do motivo de ‘acidente’ enquanto relação ao contexto, é possível que ‘acidente’ também se tenha tornado um motivo metafísico, ao pensar por exemplo como ele joga na teologia tomista da eucaristia]. Ora bem, o ‘nominalismo’ de Guilherme de Occam, jogado contra o ‘realismo’ dos medievais aristotélicos, tem igualmente um efeito de retorno às coisas que se acrescenta ao do Aquino, mas agora com incidência sobre o próprio Aristóteles, já que propõe localizar a ‘essência’ das coisas nos nomes que as designam e privilegiar a singularidade delas nesta máxima surpreendente “não há senão singulares”, donde sem dúvida virão os empirismos clássicos. Propus no meu Da Natureza à Técnica que o que joga nele é a contaminação da filosofia pelas narrativas, bíblicas sobretudo: mas sendo ele um lógico, qual é o papel da definição em relação aos singulares? Nos empiristas posteriores, serão as “ideias” e a análise da sua génese, desde as sensações que sugerem ideias simples às mais complexas e abstractas (definições), que abrirão caminho a partir da experiência dos singulares, Locke e depois Condillac tendo compreendido o papel da linguagem na génese dessas ideias (meu Linguagem e Filosofia, INCM).
3. Mas Kant ignorará soberanamente este papel, ao fazer a nova repetição do retorno às coisas, que se refere a Descartes e Leibniz, que ele procura ultrapassar ao ter em conta as análises empiristas de Hume. Kant tem todavia outra fonte primacial, o laboratório de Newton, que mede fenómenos: como se as suas formas transcendentais da sensibilidade fossem réplicas subjectivas do metro e do relógio. O laboratório é filho da definição, também ele deixa de fora dos seus muros o contexto dos fenómenos cujo movimento analisa e acaba por só saber das relações matemáticas entre as medidas deles, e não das suas ‘substâncias’, os númenos singulares. Estes ficam fora do laboratório, nem a ciência nem a filosofia os conhece, porque não os sabe definir sem restos, são deixados à literatura, às narrativas.
4. Saltando sobre Hegel que nunca trabalhei, quando encontramos Husserl na quarta ou quinta vez (pelo menos) deste deslocamento do pensamento filosófico (o científico além da física e química seria outro continente a desbravar, que não aqui), este quer voltar aos Gregos e ultrapassar a oposição ousia / acidentes, partindo da percepção de coisas singulares nelas mesmas para chegar às suas essências eidéticas, ligando a consciência que vê à coisa que é vista na intencionalidade duma intuição sensível que evita a separação entre ambas, reduzindo todavia a empiricidade ou mundaneidade da coisa. O Heidegger de Ser e Tempo retorquir-lhe-á, lição da tese do João Paisana, que essa coisa percepcionada antes da intuição categorial (do juízo, com linguagem e cópula) é o ‘objecto’ da definição que foi já separado do seu contexto, como aliás a redução esclareceu.
5. E que sucede com ele, Heidegger? Dir-se-ia à primeira vista que ele abandona a definição, vindo nos anos 30 a aproximar-se da poesia, mas é claro que se tratou de modificar a maneira de abordar a filosofia, pegando nela por uma leitura filosófica da sua história, pondo em questão o privilégio da ‘substância’ aonde Occam pusera o da ‘essência’. Ora, como Aristóteles está entre as suas leituras preferidas, pode-se dizer que ele reencontra a Physica que os Medievais subestimaram para indagar do que ficou fora da definição, o ‘poder’ (archê) da phusis, o que o crescimento e, além de Aristóteles e com Heraclito, retira o que haveria de ‘substancial’ na doação. O que implicitamente faz é saltar da Física europeia para a Physica grega: a percepção husserliana era de inertes, poderia ele ter dito, incapaz de dar conta do exemplo de um cavalo ou de uma mosca. Com efeito, a Biologia quando se tornar ‘newtoniana’, isto é, molecular, bioquímica, tornar-se á incapaz de ‘definir laboratorialmente’ um insecto ou um vertebrado. Dessas coisas que se movem, crescem e morrem, buscam comer e evitar serem comidas, continua a saber-se apenas por descrição fenomenológica empírica, mais ou menos aproximada. Se é certo que Heidegger não falou assim, o que faz desde Ser e Tempo é reintroduzir este na sua concepção dos humanos como Dasein, o tempo e o movimento, e isto de maneira completamente alheia ao motivo do ‘acidente’. No que aliás prolonga o gesto decisivo de Husserl, o de dessubstancializar a ‘consciência’ (a res cogitans cartesiana) na intencionalidade. Mas ao buscar que esta ‘constituísse’ os seus objectos (inertes, é claro), não era uma espécie de ‘poder substancial’ que ele assim resguardava? A aproximação do ‘mundo’ é a saída heideggeriana, ainda que não vá até ao cabo dessa aproximação: o ser no mundo poderá vir a esclarecer cabalmente os estudos neurológicos contemporâneos quando se perceber que o papel dos neurónios é justamente o de serem impressos pelo ‘mundo’ tribal que lhes impõe a aprendizagem como o que permite, não à consciência constituir os objectos, mas ao humano ser capaz de os usar à maneira da tribo. É o mundo que institui o Dasein humano. É o mais forte retorno às coisas que creio poder ser pensado e só Derrida o conseguiu, embora sem o formular assim.
6. A sua gramatologia propõe duas reviravoltas duma penada nesta questão. Por um lado, substitui o ‘ente’ que dos gregos substancialmente nos vem pela sua espacia-temporalização estruturalmente impressa pelo Outro [pela tribo], abre assim a sua ‘anatomia’ fenomenológica, se dizer se pode, e por outro introduz como componente estrutural (espacia-temporalizada) dessa anatomia a aprendizagem através do exemplo da linguagem: a escritura como origem da linguagem (impressa pela tribo). Mas em rigor, mais difícil sem dúvida, poderia ser através da aprendizagem de outros usos tribais. Esta tríade gramatológica – a) espácio-temporalização, b) relação estrutural ao Outro, c) escritura como origem da linguagem (De la grammatologie, p. 69) – que se poderia eventualmente comparar com a tríade existenciária de Ser e Tempo (afeição, compreensão, interpretação discursiva), dá conta de forma extraordinária do ser-no-mundo heideggeriano. a) permite entender como se faz o processo da constituição biológica (crescimento, alimentação) e o da instituição tribal (aprendizagem dos usos); b) dá conta de como é o mundo da tribo que tem a iniciativa, que dá (ovo, alimento, aprendizagem) e se retira para deixar ser o que está dando; c) resolve o problema que sempre impediu que o retorno às coisas fosse conseguido sem cair no empirismo relativista.
7. O que Derrida teve que ter em conta como constitutivo da filosofia ocidental foi o papel da definição e da diferença que ela instituiu em relação ao contexto, singular e empírico, donde retirou o definido. Esta singularidade empírica das cenas do mundo que habitamos torna todas as coisas exteriores umas às outras (foi a intuição do nominalismo acima citada, não há senão singulares); o que a definição fez foi criar uma fronteira gnosiológica – a da essencialidade, que virará na Europa conceptualidade – permitindo argumentar entre as essências de que o contexto singular, o dos acidentes, foi reduzido pelo gesto de definir. Ora bem, Derrida não pôde limitar-se a ‘denunciar’ a definição ou a recuar aos pensadores de antes dela, teve que a ter em conta como tendo efeitos de transcendentalidade na maneira como pensamos, lemos e escrevemos, como avisadamente aliás já fizera a redução de Husserl, a quem ele foi buscar a diferença entre o aparecer estrutural dum fenómeno e o próprio (substancial) fenómeno aparecendo, transcendental um, e empírico, mundano, o outro; foi essa diferença que ele aplicou à diferença linguística [antes da percepção!] entre os sons empíricos, diferença essa que Saussure chamara significante, para a distinguir dos próprios sons, que não pertencem à língua, apenas à fala. Esta dicotomia linguística fica assim enfim esclarecida, num debate estruturalista que ficara num impasse (Derrida não se preocupou com ele) como a minha tese de doutoramento esclareceu: a língua, tribal e sem existência substancial, é o que se transmite das falas umas às outras, bem sonoras estas, gritadas até por vezes, é o que passa do contexto dos outros da criança e vai gerar fala substancial nela, a sua voz e discurso, enquanto que a fala dos outros se retira em sua substancialidade, para que só o transcendental ‘passe’, se inscreva. Como ter em conta o ‘retiro’ destas falas ensinadoras? Diz Derrida que após ter utilizado a diferença transcendental / empírico, há que apagá-la. Como? Tendo justamente em conta que, sendo privilegiado o significante sem sons como diferença entre sons, em termos filosóficos tradicionais, um inteligível como diferença entre sensíveis, que portanto não ‘subsiste’ sem eles, não é inteligível, não se lhes opõe como a transcendentalidade metafísica. Na linguagem que usará mais tarde, poderia ter dito que o significante é um quase transcendental. Ao fazer assim, bom discípulo de Heidegger, Derrida fez uma leitura crítica exigente de toda a tradição do pensamento ocidental mas acrescentando no mesmo gesto que não podemos pensar sem ela: foi a isso que a sua gramatologia chamou desconstrução.
8. Qualquer ciência encontra o seu rigor na maneira como o seu laboratório souber jogar com esta quase transcendentalidade. Nas ciências Física e Química, Bioquímica incluída, ela reside na maneira como se medem dimensões dos fenómenos substanciais e se faz com essas medidas equações de tipo matemático, donde as coisas mesmas estão ausentes, é claro (por isso a poluição é sempre possível). Saussure também o fez, como se aludiu, e as regras das línguas – incluindo as palavras – são o que os vivos vão ensinando e assim ultrapassam a morte das gerações, como quase transcendentais, quase imortais. Também o protoplasma das células gâmetas com o seu ADN nuclear, entre gerarem um novo ser e virem a formar-se nele mais tarde novos gâmetas para nova geração se manifestam como quase transcendentais, além da morte. ‘Quase’, em qualquer destes casos, porque nunca garantido que não haja extinção, da língua e da tribo como das espécies, isto é, estes quase transcendentais são históricos, relativos, não são transcendentes.
9. Não foi sem relação com esta questão que o discípulo do inventor da definição que projectou no céu as Formas ideais definidas também atribuiu a imortalidade à alma justa que as contempla: a sua escrita transcendeu as escolas, de mestres em discípulos, até nós, que lemos Platão quase como se ele fosse imortal – a imortalidade é o idealismo – e temos que saber retornar à Terra que nos deu como ‘coisas’ vivas, isto é mortais e fecundas além da morte, como as plantas e as fêmeas e as mulheres, Platão e Aristóteles, Agostinho, Tomás e Guilherme, Renato e Emanuel, Edmundo, Martinho e Tiago.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Conjugar Broca e Wernicke : como é possível falar ?




1. Um dos grandes enigmas da psicologia dos humanos, anterior aliás a qualquer tese psicológica, é a maneira como se aprende a língua dita materna antes de qualquer escolaridade, nas suas regras sintácticas razoavelmente complexas e que são as mesmas de toda a gente da tribo falante em que a criança nasceu. Ela vem com efeito completamente de fora e a criança de muito poucos anos fala com essas regras numa espontaneidade inacreditável. Basta pensar na demora de ensinar um poema ou uma oração de cor a uma criança ou a um adulto, um actor de teatro, para se perceber que não há nada de equivalente na aprendizagem infantil da língua materna, ninguém se põe a ensinar sujeito e verbo, singular e plural, feminino e masculino, pretérito e futuro, indicativo ou conjuntivo. A pouco e pouco, a criança vai aprendendo empiricamente do que ouve dizer à sua tribo, em casa ou na escola, e faz vibrar a sua espontaneidade (em que diz o que ‘ela quer’, o que ‘ela pensa’) no leque de entoações, da ternura à cólera, da hesitação ao espanto, que é o da tribo igualmente. A criança fala mas também nela as regras da língua são dadas ‘passiva’ e indissociavelmente pela tribo, apagada a sua ‘actividade’ pela da ‘própria’ criança.
2. Ora, este enigma tem um aspecto que o torna ainda mais enigmático, se dizer se pode, faz participar o cérebro ainda mais no enigma, quando se abordam as suas regiões do hemisfério esquerdo que receberam as impressões dos falantes da tribo, as chamadas áreas de Broca e de Wernicke. As lesões numa destas áreas são significativas nas afasias que implicam, nenhuma delas por si só extinguindo a fala mas afectando o discurso de maneira específica.
3. Seja uma citação do Homem neuronal de J.-P. Changeux. A lesão da área de Broca (área 44 de Brodmann) faz com que “o paciente fale len­tamente, deforme as palavras, empregue sobretudo nomes, verbos no infi­nitivo; a sua gramática é rudi­mentar” (p. 153 da ed. fr.), enquanto que a lesão da área de Wernicke (área 22 de Brodmann) faz com que “os pacientes falem facilmente, com as palavras encadeadas em frases perfeitamente estruturadas, mas o discurso é vazio de sentido, a associação das palavras em frases significantes não se faz” (p. 154). Seja um exemplo do primeiro caso tirado da Web (afasia de Broca, Wikipedia), de alguém que conta uma ida ao dentista : "Ah sim... segunda... pai e Peter... e pai... quarta... nove da manhã... e quinta... dez da manhã... e doutor.... e dois... eeee.... doutores... dentes…”. O que é que falta neste balbuciar para ser inteligível? Preposições, artigos, conjunções, até mesmo verbos, que Changeux diz virem no infinitivo, isto é, sem a sua rica morfologia de pessoas, tempos e modos, falta aquilo que encadeia os signos a que os escolásticos chamavam categoremas, que é o que temos no exemplo: termos que têm um sentido que reenvia ao mundo, mas ditos fora da gramática que faz as frases. Isto que falta chamavam-lhe sincategoremas, os elementos linguísticos que asseguram morfologia e sintaxe. Ao invés, se a lesão for na área de Wernicke, os sincategoremas estão bem colocados, são os categoremas que falham a sua correlação, são quaisquer, não fazem sentido em relação ao mundo. No exemplo da afasia de Broca, os elementos temporais, o pai e o médico, os dentes, são categoremas relacionados entre si, fazem parte da mesma história, é esta que não é contada por não ter os elementos gramaticais correspondentes a esses ‘signos’.
4. Não sei como é que os neurologistas encaram esta dupla localização das frases e discursos em duas áreas, mas aparenta-se ao fenomonólogo algo de fortemente bizarro: dissociadas, as duas áreas trabalham de maneira intrinsecamente ligadas nos detalhes, como se cada uma juntasse coisas à outra com uma rapidez desconcertante, inclusivamente antecipando o que a outra vai ‘dizer’. Parece impossível pensar em contribuições distintas a cada uma das áreas, de tal maneira elas se articulam entre si no detalhe, o que sugere que elas funcionem como uma única área num contexto neuronal mais vasto; é o facto de o desenho das duas áreas resultar de lesões que impõe a sua consideração, senão os mapas neuronais para outras actividades serão sempre mais abrangentes e parecem opor-se a especializações mais estritas das áreas reconhecidas por Brodmann.
5. Uma outra consideração, posta em função do meu texto sobre a escrita ideográfica chinesa (neste blogue), é a de saber se as várias línguas orais asiáticas a que essa escrita corresponde, monossilábicas e portanto desprovidas de morfologia e elementos sintácticos, implicam que os seus falantes não necessitem da área de Broca, sejam desprovidos dela, mesmo quem é de língua materna inglesa quase nada a usando. Se for o caso, teriam mais dificuldades em aprender línguas europeias com as suas riquíssimas morfologias, já que teriam que receber a inscrição duma área nova, virgem.
6. Chego duma mercearia aonde duas ou três romenas entre 25 e 30 anos falam português idiomático de forma extraordinária, só ao ouvi-las falar romeno entre elas é que acreditamos que aprenderam o português já adultas. O pasmo que se diz no título deste texto duplica: como podem elas falar tão bem, tão depressa e tão espontaneamente, conjugando duas áreas distintas no fabrico das suas frases, sem que elas tenham algum controle dessa duplicidade e como é que o fazem em duas línguas diferentes? Sem nunca esquecer que as regras das línguas, morfologia, sintaxe e semântica, sem falar na fonologia, são milimétricas e vêm todas de fora, da tribo. E pensar que a filosofia pensou o pensamento mais de vinte séculos sem indagar do papel das línguas nele, sem saber o que fazer dessas regras que variam com os povos, procurando mesmo em certas épocas uma impossível ‘gramática universal’, que fosse como a matemática.

 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

O que a Terra dá – breve reflexão ecológica




As ciências da matéria e da energia
As ciências dos vivos
As ciências antropológicas
As ciências do saber
A poluição: fora do laboratório
Os inertes e as células
Ecologia e economia
Apocalipse e regionalização

Eu sou devedor à Terra
A Terra me está devendo
A Terra paga-me em vida
Eu pago à Terra morrendo
(cante alentejano)



1. Pressuposto deste texto, as ciências modernas deram-nos a conhecer quatro grandes histórias cujas problemáticas incidem na crise ecológica: a cosmológica dos astros, incluindo a Terra onde essas ciências se situam, e três terrestres, a da evolução dos vivos, a das sociedades humanas e a do saber greco-latino-europeu, cada uma sendo envolvida pela precedente donde desabrochou. A Filosofia com Ciências (uma nova fenomenologia) é um nível de filosofia entre a filosofia teórica e as ciências, de modo equivalente ao que foi a Physica de Aristóteles entre a Metaphysica e as várias ciências aristotélicas.
2. O motivo heideggeriano de diferença ontológica articula o que o pensador designa como Ser e os entes, aquele doando estes e retirando-se; ora, em 1962, na conferência Tempo e Ser, esse Ser foi substituído pelo motivo do Ereignis, Acontecimento de nível ontológico – o que havia de ‘unidade’ em Ser cede a uma ‘multiplicidade’ doadora – donde os entes serem, em seu ‘ser’ e ‘tempo’, doação retirada desse Acontecimento ontológico. Ora é destes entes, segundo critérios específicos, que se ocupam as diversas ciências[1]. Entre estes dois níveis, o do Acontecimento ontológico e o das ciências dos entes, esta Fenomenologia descreve, a partir das descobertas das diversas ciências, os mecanismos fenomenológicos que o motivo da doação que se retira do Acontecimento ontológico permite descortinar nesses domínios científicos: é isso que a expressão o que a Terra dá explicita de forma geral. Esta expressão pertence à linguagem corrente das actividades agrícolas, aonde aponta para a fecundidade das plantas, mas, na Origem da obra de arte, Heidegger ao reflectir sobre a phusis, a natureza, chama-lhe Terra, o que permite alargar – ao nível da descrição fenomenológica dos mecanismos dos diversos entes – o dom da Terra à doação retirada do Acontecimento ontológico. O que se vai tentar dizer é como em cada um dos domínios científicos tidos em conta (Física Química, Biologia, Ciências das sociedades, Linguística, Psicanálise) se efectua essa doação retirada da Terra, ou seja, indagar como são dados os minerais e os animais, as sociedades dos humanos e as suas invenções em ordem a habitarem a Terra que os dá: sendo mecanismos de autonomia com heteronomia apagada, a autonomia é dada (doação da Terra) pela heteronomia que se apaga (retiro da doação) para que a autonomia seja possível, tendo as mesmas regras do que as outras (heteroi) autonomias equivalentes.
3. Permita-se-me uma pequena digressão sobre a questão de saber se estes mecanismos fenomenológicos são ônticos ou porventura ôntico-ontológicos. Trata-se dum nível que não é o das ‘regras’ que as ciências descobrem, mas que tem (deve ter) incidência no paradigma que descreve a cena de produção e circulação dos entes ou fenómenos (cena da gravitação e da química, ecológica dos vivos, habitação tribal em sentido genérico, cena escolar e laboratorial). O paralelo com a Physica aristotélica diria que esses mecanismos (com a metáfora ‘motor / aparelho’) correspondem ao motivo da ousia e da sua panóplia de motivos, que a Metaphysica trata em termos não fenoménicos, dos entes já não enquanto se movem mas enquanto entes. Seria este o nível do pensamento heideggeriano da doação e retiro do Ser e depois do Ereignis, enquanto que o Dasein, o “ser no mundo” de Ser e Tempo com a sua estrutura da “afeição, compreensão e interpretação discursiva” e do “cuidado”, relevariam do nível da Physica. Enquanto que a différance derridiana, a meu ver, com o seu enigma da indissociabilidade da economia do Mesmo e do excesso do Outro e a sua maneira de ler desconstruindo os textos na sua singularidade, não permite discernir níveis de fenomenologia e de metafenomenologia. Mas é ‘a meu ver’.

As ciências da matéria e da energia
4. A ciência da matéria e da energia é, de todas as ciências que os humanos inventaram, a única que extravasa da Terra e se estende a todos os astros, o que tem uma consequência óbvia: esta Terra, que dá tudo o que é terrestre, é ela própria dada por outros astros, quer as estrelas que criaram os átomos, as moléculas, os graves de que a Terra é feita, quer o Sol e os outros planetas do sistema a que ela pertence. Pouco sei desta matéria, mas presumo que há na geologia uma riqueza de diversidade de minerais, em rochas, oceanos e atmosferas, embora em quantidades muito diferentes, desde a tão abundante sílica e do hidrogénio e oxigénio aos minérios mais raros, riqueza comparada com o que se vai sabendo dos áridos planetas que nos rodeiam.
5. Doada pois ela mesma, antes de se tornar doadora, poder-se-á dizer que a Terra é também doadora de toda essa mineralidade, sólida, líquida e gasosa, vulcânica, sedimentada e metamórfica, que a constitui, com um centro sem acesso ao conhecimento directo? Os vulcões e os sismos que nos aterrorizam por vezes (o ‘terror’ da Terra) assinalam os movimentos que ela sempre conheceu ao ser constituída; também os jogos da energia solar (luz e calor), das marés e inundações, dos ventos e tempestades, sempre produziram fenómenos de erosão e transformação química, de que Lavoisier deu a regra geral: “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Esta fórmula diria como a Terra não foge à doação que outros astros dela fizeram e que continuam, mais ou menos perto da Gaia de Lovelock: como astro autónomo doado pela heteronomia astral, continua a ser feita e a fazer-se, e também a fazer doando-se do que lhe foi e é doado, passiva do que recebeu e recebe, activa do que faz doação por sua vez. É que entre matéria e energia a Terra nunca deixou de se transformar, na sua temporalidade de quatro biliões e meio de anos.

As ciências dos vivos
6. Como é que a ciência dos vivos releva da doação da Terra? O que se cria e o que se perde traduz-se nos vivos em nascimento e morte, em reciprocidade relativa: cada vivo nasce de outros vivos e a esmagadora maioria dos cadáveres destina-se a servir de alimento a outros vivos, segundo esta feroz lei da selva[2] que resulta da doação justamente e coloca na mesma lógica geral plantas e animais, a lógica da alimentação. Enquanto que a reprodução sexuada se processa pela geração, entre progenitores e rebentos, a reprodução de cada vivo como crescimento e maturidade faz-se pela alimentação que, nas plantas (que nunca estudei) implica a Terra e o Sol: sabe-se que elas recebem moléculas de carbono em glicose que resulta da fotossíntese com o CO2 atmosférico, da iluminação solar assim, enquanto que os outros átomos de que ela necessita lhe vêm da água e doutros minerais que as raízes colhem do solo da Terra. Este processo de alimentação dá assim às células das plantas as hiper-complexas moléculas de carbono e outros átomos que são próprias dos vivos.
7. Ora, os animais, desde os invertebrados com um mínimo de órgãos digestivos e neuronais, não têm outra fonte dessas moléculas complexas de que as suas células são feitas que não sejam essas plantas que, herbívoros, eles encontram no seu espaço ecológico, enquanto que os carnívoros os caçam a eles, herbívoros, para o mesmo efeito. Pode-se pensar esta alimentação animal através de aparelhos digestivo e circulatório[3] como um fenómeno de redução progressiva dos ‘bocados’[4] comidos até se tornarem nos aminoácidos que chegam às células para aí serem sintetizados nas proteínas de que elas necessitam. A Terra que faz doação é o conjunto de espaços ecológicos com plantas ou animais.
8. Neste sentido fenomenológico, a Terra, incluindo a atmosfera que lhe pertence e a luz recebida do Sol, corresponde à phusis de Aristóteles, o seu archê, o seu ‘poder’ (do verbo que pode, não do substantivo) residindo nesta fabulosa doação de mecanismos que, por alimentação de outros, crescem como entes autónomos que receberam numa célula inicial (ovo: o metabolismo do protoplasma com um núcleo de ADN); é esse mecanismo que lhes permite circular na sua cena ecológica, buscando que comer e capazes de fugirem a serem comidos: recebidos da doação dos progenitores, continuam quotidianamente a receber a doação alimentar na selva ecológica. Os animais são pois capazes de movimento por si mesmos (Aristóteles), auto-móveis, mecanismos autónomos com heteronomia apagada, doação pela Terra que os deixa ser autónomos ‘retirando-se’. E é claro que essa doação também é feita às sociedades de mamíferos bípedes, cuja etologia se tornou de tal modo complexa que deu lugar a ciências autónomas da Biologia, a Antropologia, a História e a Sociologia, além de numerosas ciências sociais relativas a estruturas específicas (nomeadamente a Linguística, ciência das línguas, e a Economia, ciência dos mercados). Mas esta bipartição entre Biologia e Ciências do social, teve e tem um grave inconveniente de ordem fenomenológica (e ecológica, lá iremos mais adiante), o de manter mais ou menos dissimuladamente a oposição platónica e cristã entre corpo e alma, as ciências separando-se assim entre elas. Ao contrário da abordagem de Aristóteles, cujo tratado Da alma é um texto ‘biológico’ que vai até à ‘alma intelectiva’, depois de tratar da ‘vegetativa’ (referente à nutrição) e da ‘sensitiva’ (referente aos órgão dos sentidos e à mobilidade).

As ciências antropológicas
9. A Biologia molecular tornou-se em boa parte uma bioquímica, guardando assim relação com a ciência da matéria e da energia, mas, como disse, as ciências das sociedades humanas padecem de terem cortado com as ciências biológicas e etológicas, apesar de as suas unidades de habitação terem um problema principal que lhes vem da reprodução biológica: garantirem a alimentação quotidiana dos seus vários membros humanos e velar pela geração e aprendizagem dos que virão tomar o lugar da geração actual. E é a Terra – e não o ‘território’! – que dá procriação e alimento, tal como já aos outros animais e plantas, acrescentando-se uma nova exigência, a de garantir pela aprendizagem que os vários usos de prover à recolha dessa doação que os antepassados foram inventando continuem a ser sabidos: esse saber do seu mundo envolvente, achado pela curiosidade, tanto engenho como necessidade, acumulou-se, ensinou-se, cresceu.
10. A invenção da agricultura trouxe um domínio relativo das sociedades humanas sobre a lei da selva (deixaram de ser ‘selvagens’). Além disso, o excedente de alimentação permitiu a formação de especializações artesanais variadas em vilas rodeadas de campos agrícolas e de gado, mas também a formação duma casta de guerreiros que desenvolveu a lei da guerra que já havia entre tribos (aliada então à lei da selva) com o fabrico de armas metalúrgicas e domesticação de cavalos. Pode-se dizer que o núcleo geográfico destas sociedades consistiu em regiões duma vila com casas de artesanato rodeada de casas agrícolas que a alimentavam: provavelmente essa estrutura é o esqueleto da evolução social cuja base de riqueza consiste na (agri) cultura do que a Terra dá. A escravatura terá aí a sua lógica, a de aumentar os benefícios da Terra em latifúndios a favor dos guerreiros que conquistaram / compraram esses escravos.
11. As invenções dos humanos relevaram do fazer (técnicas e rituais) e do seu dizer (receitas e mitos). Com as cidades, os fazeres ganharam instrumentos e os dizeres técnicas de escrita, o que estará no cerne da lógica que levou a grandes reinos e impérios, tendo a difusão de textos copiados dado origem a unidades sociais inéditas, as escolas destinadas à educação dos filhos dos patrícios ricos; na Grécia dos séculos V e IV a. C. e em Roma depois gerou-se uma civilização cosmopolita que desaguou, se dizer se pode de guerras de conquista, no império romano que dominou a geografia mediterrânica durante alguns séculos. Após um bom milénio de regressão das cidades, a dita Cristandade, com o desenvolvimento de artesanatos e comércio em vilas bem como de universidades recuperando saberes antigos, gerou-se lentamente uma nova civilização cosmopolita que veio a desaguar na modernidade europeia, ainda durante alguns séculos com base no trabalho de escravos, vindos de África. A escravatura também era uma doação da Terra, à mercê das armas de fogo que entretanto se inventaram, em má hora para os conquistados, reduzidos a uma espécie de ‘animais domésticos’, lei da guerra que continuou a sobrepor-se à lei da selva. Que a lei da guerra seja predominante na história das sociedades humanas, lei das vontades de poder (substantivo: poder sobre as outras vontades que assim podem menos)[5], não implica pessimismo de concepção da história, já que o que esta conta de optimista é justamente o incessante trabalho de ‘educação’ (em sentido etimológico, o que busca trazer -duc- para fora e- ) como domínio relativo sobre a lei da guerra pelo que em geral merece o termo de cultura, em certo paralelo com o termo agricultura no que à lei da selva se refere. Espiritualidades e religiões, literaturas e filosofia, leis por justiça e direito, artes variadas e desportos, tantas formas de visar conter as rivalidades aonde elas largam o estímulo da concorrência entre quem ‘pode’ – como se diz ‘concurso’ – para o ‘poder’ sobre os outros, para que eles ‘não possam’. O lindo verbo ‘poder’ e o seu nefasto substantivo. Também aqui a Terra dá retirando-se, isto é, nunca as coisas estão acabadas, a cultura implica sempre busca de saber e recomeço com o ensino das novas gerações.

As ciências do saber
12. Houve três momentos decisivos na história greco-latina-europeia do saber, além do que diz respeito ao direito romano e que eu desconheço: o momento grego foi o da invenção da definição (Sócrates, Platão, Aristóteles), o momento cristão foi o da assunção do discurso cristão pelo platonismo (Orígenes, Agostinho, reviravolta aristotélica de Tomás de Aquino), o momento europeu foi o da invenção do laboratório científico (Galileu, Newton entre outros); este último articulou duma forma singular em todas as histórias de humanos que se conheçam, as duas achegas medievais, a do saber universitário filosófico aristotélico e a do labor artesanal das comunas.
13. O laboratório é pois o ‘labor’ ao serviço do ‘saber’. Mas também o seu preço ecológico, que se manifesta na diferença entre o sentido antigo da palavra ‘physica’ e o da nova ‘física’, aquele visando os vivos como os que de si se movem e este medindo as diferenças de movimentos em inertes, isto é, em substâncias que não se mexem delas mesmas, só forças de fora as fazendo mover. Ora bem, esta diferença corresponde à que na geografia evocada há entre os campos – humanos, animais, plantações, tudo se afirmando pela fecundidade que a Terra lhes dá, ela se encolhendo como paisagem – e as cidades, que se organizam com outras lógicas de habitação, de construção e artesãos, de comércio e de negócios, de discussões e de decisões dos que ‘podem’, ou do chefe que ganhou o ‘poder’. Claro que as cidades são de gente viva, a lógica da vida manifesta-se quotidianamente nas refeições – quando há festa, há banquete – e nos dejectos (primeiras poluições em cidades grandes), mas as preocupações citadinas são no fabricar e no trocar, no discutir e estudar, ler, compreender, escrever, ou seja o que nela se afirma merecerá o nome de razão, que vem de ‘ração’ como resultado de partilha: nas grandes cidades modernas os vivos como que estão a mais, árvores, cães e gatos, gente sem abrigo ou sem papeis. Pelo contrário, as casas da agricultura tendem à auto-subsistência, do que colhem da Terra com usos que implicam saberes antigos cuidadosamente guardados como condição da fecundidade, dos campos como das casas. É que também as ‘tradições’ são alvo de critica nas cidades que privilegiam o novo e que, quando não é possível, inventam modas para fingir que é novo. Ora, inventa é sempre modifica o antigo recebido, reduzindo, deixando cair, a parte desse recebido que é recusada pelo novo. Quem inventa não esquece completamente esse reduzido contra o qual se bate, mas a geração que aprende com ele a invenção não saberá já desse reduzido que foi substituído. Há pois esquecimento social dos saberes tradicionais que vão sendo substituídos pelos inventos, a história ‘moderna’ é feita desse esquecimento / inovação, as sociedades antigas pelo contrário recusando as alterações modernas, as querelas Antigos / Modernos renascem constantemente. O que é reduzido e esquecido não se perde todavia necessariamente, é sempre susceptível de ser recuperado posteriormente segundo a outra perspectiva que a inovação trouxe, aonde esta fizer doer: a ecologia joga-se estruturalmente assim, procurando recuperar mais do que conservar, em ordem a compensar prejuízos resultantes das inovações. Pode-se aliás dizer que a psicanálise oferece, ao seu nível de terapia individual, um modelo de saber em que justamente se recuperam memorias esquecidas que fazemfalta, cujo esquecimento provoca sofrimentos.

A poluição: fora do laboratório
14. Só em cidades é que o laboratório podia ter sido inventado. Ele é filho da também já citadina definição, como esta delimita o que nela entra para ser medido, reduzindo o contexto em que as coisas são dadas (pela Terra, pois), reduzindo portanto as forças e efeitos todos que essas doações implicam de maneiras complicadas de compreender: o laboratório só sabe, e quanto bem isso não é, do que mede dentro dos seus muros; para extrapolar esse saber para fora dele ‘especula teoricamente’ que as coisas, sob as tais ‘forças e efeitos todos’, obedecem às leis que o laboratório descobriu. E se se diz que a ciência ‘especula teoricamente’, é para assinalar que muita coisa fica por saber do que se passa fora dos muros. Ora bem, quando a nova Física desaguar na invenção da máquina um ou dois séculos depois, haverá juntamente com as novidades de grande espanto das inauditas indústrias também efeitos perniciosos igualmente inauditos, o que se chama poluição não sendo mais do que efeitos fora dos laboratórios daquilo que só pôde ser inventado dentro deles: os ditos efeitos secundários, os que não se previram e que nem sempre se sabe explicar. O que chamamos automóvel é ao mesmo tempo tanto a admirável invenção dum mecanismo que se move por si mesmo, que até aí só os animais e os humanos (veio substituir a carruagem e a carroça!), como a poluição das atmosferas das cidades, em que a lógica predominante não é a das regras dos vivos, mas a da construção, da produção, do comércio. É onde está a raiz do problema ecológico.
15. A poluição com origem nos vivos, própria das grandes cidades sobretudo, resolve-se com esgotos e reciclagem de detritos orgânicos, não é onde haja problemas difíceis, como a que consiste nos efeitos de produção sobre a atmosfera (explosões de motores e centrais energéticas), substâncias radioactivas, efluentes químicos (insecticidas, pesticidas, venenos), plásticos e por aí fora, que se expandem nos rios e águas freáticas, fontes de águas potáveis, oceanos, e intervêm pois na chamada cadeia alimentar, além dos efeitos nas saúdes. Que lógica fenomenológica se esconde neste tão grave problema?

Os inertes e as células
16. Há duas formas elementares de matéria terrestre, ambas se encadeando a dimensões microscópicas, a dos átomos e suas moléculas minerais, e a das células feitas de moléculas orgânicas (com base de carbono), as quais chegam à nossa vista desarmada respectivamente como inertes e como vivos. A fenomenologia dos átomos, dentro dos limites de temperatura e pressão do planeta, pode ser descrita como resistindo à desintegração por efeito das forças nucleares e oferecendo-se às forças da gravidade, por um lado, e, por outro, à transformação química na proximidade molecular, esta jogando melhor com gases e líquidos ou pastosos. A violência geológica da terra em seus cataclismos tem a ver com estas propriedades. É a fenomenologia dos vivos que mais interessa a ecologia. O segredo deles é a fecundidade, o que já tanto espantou Aristóteles, que eles cresçam (em grego phuô, donde phusis) e se reproduzam, o preço é a sua vulnerabilidade, de que a morte é a consumação. Esta fragilidade é-lhes intrínseca, resulta de que a fecundidade, o moverem-se por si num ambiente ecológico que os dá, implica que as moléculas orgânicas, as da bioquímica, sejam muitíssimo mais complexas dos que as dos inertes, compostas de aminoácidos mais simples e aguentam-se mal, degradam-se facilmente em suas partes, donde que, além da geração, cada célula necessite constantemente de se alimentar de aminoácidos (que ela sabe ‘sintetizar’ no metabolismo através destes mecanismos extraordinários operados pelos ARNs e pelos ADNs), necessite de os encontrar na cena ecológica. Em termos de entropia, a bioquímica representa uma produção entrópica, como mostrou Prigogine, mas a qual sendo uma estabilidade instável, precisa de ser mantida e acaba finalmente por ser vencida como entropia de Clausius. Mas que a Terra dê a fecundidade como a coisa mais forte do mundo terrestre, não significa pacifismo, já que há duas formas de violência da busca da fecundidade enquanto busca de crescimento: uma releva das plantas, é a que faz as selvas e os matos, com uma verdadeira luta entre plantas, raízes e troncos, sei lá, para conquistarem lugares, sementes excessivas para que outros rebentos rebentem, como a linguagem traduz tal violência; a outra releva dos animais, como acima se referiu que estes se alimentam de outros vivos nessa inacreditável lei da selva que não vejo os biólogos darem por ela, obnubilados pelo nível da bioquímica.
17. Ora, a evolução que se desenvolveu das consequências desta lei violenta seleccionou, entre modos de muitas astúcias, formas de dimensão maior e os respectivos músculos e bocas predatórias. Sendo a lógica inerente aos vivos a busca de crescimento e nos animais ela precisando de complexidade neuronal crescente, os humanos receberam da lei da selva os músculos e a dissimulação engenhosa que os levou ao deslocamento da lei da selva para lei da guerra enquanto lei da história, da evolução das sociedades humanas. Vivemos numa época cosmopolita e ecuménica, pacifista e anti-racista, o que impede de se perceber que as necessidades do próprio crescimento, do pequeno para o grande, implica que as unidades sociais se estruturem segundo uma privacidade protegida que olha todos os outros como ‘estranhos’, como se fossem a priori rivais, fenómeno que se repete nas aldeias, nos bairros das cidades e seus clubes, nas regiões, enfim nos países de línguas e usos diferentes, em que os estranhos são estrangeiros. São os paradigmas do que gera o ‘próprio’ (que cresce dentro da propriedade) que, para conter as rivalidades entre os seus indígenas, é levado a fomentar a unidade deles através da rivalidade para os de fora. A lei da guerra manifesta-se aí de forma clara e não há maneira de a impedir de se jogar, apenas tentar dominá-la por alianças, leis, tratados, etc. Porque é que isto é assim? Porque a doação pela Terra dos animais como mecanismos autónomos implica que estes a recebem passivamente mas em simultâneo (devido ao retiro da doação aquando da sua inscrição) apropriação activa dela, dinamismo da autonomia (desejo, vontade), destinado a circular na selva ou na tribo, devendo, para se alimentar, afirmar-se violentamente face aos outros. Donde que a história se tenha traduzido quase sempre em guerra pelo crescimento, os poderosos ocupando sempre mais e mais lugares, guerra de conquista: reinos e impérios, escravos e colónias. E por aqui voltamos à ecologia, aos efeitos dos inertes industriais sobre os vivos.

Ecologia e economia
18. A ecologia (etimologicamente, o discurso da habitação) nasceu da constatação da contradição entre as duas lógicas inerentes à economia (etimologicamente, a regra da habitação), a da produção e a da vida, no que há de efeitos excessivos numa que se revelam nefastos à outra. Heidegger, ainda não se falava de ecologia, disse que “o humano habita como poeta na Terra”, a poesia sendo o cume do discurso, acima do da ciência porque devendo nortear a civilização além do que ela produz, “nem só de pão vive o humano”, dizia a tradição bíblica. A grande dificuldade é que ecologia e economia, para já não falar de poesia nem de espiritualidade, não se encontram, na raiz que lhes é comum, ‘eco’, não têm nada em comum. Eis a distância entre elas: primeiro, a lógica ‘física’ da matéria / energia, segundo, a lógica ‘técnica’ da máquina e da produção química, terceiro, a lógica ‘empresarial’ da produção, entre financiamento, custos, salários e lucros, quarto, a lógica ‘mercantil’ das lojas, quinto e último, a lógica dos ‘vivos’ que comem e respiram. É claro que do ‘primeiro’ ao ‘quarto’, todos comem e respiram, mas só dão por isso depois, mais tarde, muito tarde, quando os ecologistas clamam ‘poluição!’.
19. São todos, somos todos especialistas de um segmento qualquer anterior ao comer e respirar, ninguém sabe do percurso todo, ainda que o discurso ecológico se encha também de números, globais e apocalípticos. Não tenho experiência de discussões entre especialistas diferentes, apenas de constatar que o que proponho sobre ‘ciências’ não é entendido por cientistas com quem busque conversar. Mas ainda que se chegasse a um entendimento relativamente consensual (a politica é feita disso!), há o problema do que a Terra dá, está a dar sem cessar (aquilo que Heidegger chamou Ge-stell), as instituições todas que laboram e trocam e poluem: se tudo é dado pela Terra e de tal maneira que ela retira a sua doação como condição do movimento mesmo das instituições que se foram criando, não é possível, já não digo ‘parar o funcionamento’ das coisas todas, mas alterar esse funcionamento de forma significativa em termos ecológicos. A contradição actual pode resumir-se assim: o que a Terra dá implica crescimento e ocupação de lugares e inevitavelmente rivalidades e conflitos, mas o crescimento tem sempre limites, entre máximos e mínimos, equilíbrios homeostáticos; ora, estamos a chegar a um limiar máximo de produção, em que é o próprio crescimento que se torna prejudicial ao conjunto dos vivos mas a grande ‘máquina’ continua quase cegamente. Ninguém sabe o que é que haveria que fazer, não pode haver senão achegas para atender a tal ou tal poluição, para ir diminuindo tal e tal produção nefasta. O que se pode deduzir destas dezenas de anos de movimentação ecológica, é que há questões que se vão conseguindo dominar, mas que há factores gerais, digamos, que fogem a todo o controle, excepto quando acidentes muito graves obrigam a decisões radicais, como acabar com as centrais nucleares no Japão por causa de Fukushima. O que indicaria que serão as crises ecológicas que provavelmente obrigarão a correcções drásticas que ainda possam vir a tempo.
20. Mas há questões a que sou mais sensível e que fogem, creio, a este tipo de lógica de correcção progressiva. Uma delas é a que desabou sobre nós, Europeus do Sul, vinda do sistema financeiro americano, que devastou economias (que se basearam demais no crédito, à instigação do próprio sistema financeiro). Os mecanismos relativos à moeda funcionam com um elemento de irracionalidade, de desejo de ganhar que vira facilmente ganância, a regulação do sistema financeiro que havia desde os tempos da crise de Roosevelt tendo sido deitada aos ventos pelos neoliberais, Freadman, Reagan e Thatcher tanto mais grave quando os meios de transferência electrónica geram velocidades impressionantes, que só multiplicam a irracionalidade do sistema e os seus efeitos devastadores. É a própria ciência económica que precisa de se tornar ecológica na sua racionalidade científica, de ter em conta os efeitos políticos sobre a habitação dos humanos.

Apocalipse e regionalização
21. Viemos do anidrido carbónico como condição da origem da vida dos organismos animais e chegámos ao anidrido carbónico como poluente predominante da vida animal: a atmosfera antes da invenção da vida não tinha oxigénio, era o anidrido carbónico que nela predominava e onde a evolução das plantas foi buscar, por via da fotossíntese, o carbono necessário às suas células, despejando na atmosfera o oxigénio que tornou possível a evolução dos animais. As combustões de carvão e petróleo estão a devolver a atmosfera aos seus inícios, eis o paradoxo. Hans Jonas explicitou o apocalipse desta forma serena. “Assim a festa cheia de sorte (happy-go-lucky) de alguns séculos industriais será paga com milénios de alterações na natureza terrestre, por um acerto de contas cósmico não injusto, uma vez que nesses séculos ter-se-ia esbanjado a herança de milhões de anos de vida passada”[6]. Poucas centenas de anos a deitarem fora os 600 milhões de anos da história dos organismos! Após as três histórias terrestres de que se partiu, a Terra volta de novo a ser um astro no meio de outros, quase árido como eles, despojada tudo o que ela deu! Lembra-me uma fabulosa fábula de Nietzsche, um século antes da de Jonas. “Num canto qualquer do universo espalhado no flamejar de inumeráveis sistemas solares, houve uma vez uma estrela na qual animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais arrogante e mais mentiroso da ‘história universal’: mas foi apenas um minuto. Mal se deram alguns suspiros da natureza e a estrela congelou, os animais inteligentes tiveram que morrer”[7].
22. Mas poderá ser menos drástico, o apocalipse deixar alguns restos. Teríamos uma lição da história a elucidar-nos como seria, a maneira como ao longo dos séculos V e VI da nossa era, o império romano do Ocidente tomado por populações ‘bárbaras’ viveu um apocalipse ‘imperial’: as super-estruturas do império, administração e exército, implodiram e a Cristandade medieval foi uma geografia de regiões, como se evocaram os alvores da agricultura, que durou uma boa dezena de séculos até outra coisa se engendrar a prenunciar a Europa. Tudo dependerá desses restos, dos saberes que restarem aos novos ‘bárbaros’, que não tenham que reinventar a máquina e a electricidade. Ou então, em menos drástico, para dar para as próximas gerações: tratar-se-á de, em vez de continuar a querer crescer até à demência, aproveitar o flagelo do desemprego para partilhar os empregos que há entre todos e diminuir o tempo de trabalho a favor de tempos de autonomia e liberdade, de jogos e de cultura, de invenções de formas de viver, sei lá! A electricidade, as energias renováveis, a agricultura, a internet, são muito favoráveis a formas descentralizadas de organizar a sociedade, anti-hierarquias e com menos burocracias. Seja como for, aprendemos com esta crise que nada se fará sem algum apocalipse: este, para nós, evoca catástrofe, mas em grego significa ‘revelação’. Da Terra e das suas doações, a serem melhor aproveitadas.



[1] Obviamente que cada Dasein humano também releva dessa doação retirada, sem que Heidegger todavia dê o menor sinal, nos seminários de Questions IV, posteriores à conferência de 62, de ter atendido a essa consequência.
[2] A que raros escapam, como os incinerados, por exemplo da actualidade.
[3] Ao invés das formas simples dos unicelulares e primeiras colónias deles, que recebem da água envolvente as moléculas de que necessitam.
[4] Em sentido etimológico, os pedaços que cabem numa ‘boca’.
[5] Adulteração do motivo de Nietzsche, em que o ‘pode’ era de pujança.
[6] Hans Jonas, O princípio de responsabilidade, 1979, versão ingl. 1984, p. 190 (citado da tese de Marília Carrilho, A fundamentação filosófica das noções de cuidado e de responsabilidade no pensamento de Maria de Lourdes Pintasilgo, Univ. de Évora, 2015)
[7] Início de “Sobre a verdade e a mentira em sentido extra-moral”, in O livro do Filósofo [póstumo de 1873]. É a mesma fábula de H. Jonas, mas com um zoom de escala mais pequena.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O pensamento que vem sem se querer e a sua verdade



1. Há aquela frase de Nietzsche, uma das suas fulgurâncias como não quer a coisa, ele está a criticar o motivo europeu de ‘sujeito’: “um pensamento vem quando ‘ele’ quer e não quando ‘eu’ quero” (Para além do Bem e do Mal, § 17). Eu tenho há muito o pressentimento de que é esta experiência, com pensamentos de alta qualidade, que está na base do que se chama ‘idealismo’ em filosofia, em Platão e Descartes por excelência, já que a ambos se deve a atitude moderna extrema, a de recusar tudo o que se aprendeu, “sei que não sei nada” recebido de Sócrates, a dúvida metódica: a modernidade é o gesto de escolher na tradição, avaliá-la, guardar umas coisas e procurar prescindir de outras. Nesses dois iniciadores, um da escola grega, outro da europeia, não se quer guardar nada, mas inventar de novo tudo o que for para ensinar na academia. Dito assim, é algo que parece tremendo – tudo treme – e quase néscio, como disse alguém: quem não quiser repetir nada do que os outros disseram dirá coisas que ninguém repetirá. Elementar. A não ser que tenha havido uma experiência de pensamento de tal forma envolvente que o que se sabia, aprendera, apareceu (de repente ?) mesquinho, ridículo. Algo veio e, gente de qualidade tal que esse vir se pôde manifestar, perceberam logo que não veio do ‘querer’ deles, que se tratava de algo que os ultrapassava: a divindade era a hipótese da origem de tão forte vinda.
2. A nós hoje não nos é permitida já essa derivação para o divino, porque sabemos bem que só de muito ler bons pensadores acedemos a um modesto pensar e que a vaidade do próprio pensamento é sintoma de que ele é mesquinho, insignificante, se não se lhe pode dar alguma genealogia, alguma ‘influência’ deste ou daquele, como se dizia dantes, que muita energia se consumia à procura das influências em tal ou tal escritor. Mas isso não significa que não possamos ter experiências como a que Nietzsche refere, quem as não tem ainda estará verde nestas coisas de pensar, seja em que arte for. A questão: é possível compreender essa experiência da vinda dum pensamento tal que eu sei, indubitavelmente, que ele não veio de mim ? Em teoria, na minha maneira fenomenológica de compreender, julgo que ela faz parte do enigma irredutível de cada humano, nem o próprio nem um ‘especialista’ do autor poderão ‘explicar’ este fenómeno. Mas poder-se-á colocar a questão de forma geral, desde que o enigma faça parte dessa colocação. Eis o que quereria tentar, se algum pensamento quiser vir.
3. Ao ponto de partida, linha nevrálgica da argumentação, tenho aludido por vezes: é a passividade própria da aprendizagem – começar por não saber – que se tornará actividade depois de aprendido, não sabia, agora sei. Quem nos ensinou, retirou-se, porventura morreu, o saber que ensinou continuará, se o merecer, é certo, pode-se esquecer por irrelevância, como acontece a tanta coisa aprendida no liceu por exemplo e que dura pouco mais depois do exame. A hipótese da morte daqueles com quem se aprendeu a falar e a pensar (e usos vários) ajuda a perceber o estatuto do ‘mestre’ no ‘aluno’, que não está ‘presente’ nem ‘ausente’, já que deu o que estrutura a actividade e que, retirado embora, continua nos efeitos do que ensinou, que perdura em boa parte a vida toda. É este o estatuto do antepassado: nem presente nem ausente. O que é que provoca esse ‘retiro’ do mestre de quem se aprendeu? Ele e outros ensinarem coisas novas que se acrescentam ao saber anteriormente recebido. Seja o exemplo extremo duma criança que viva com uma só pessoa que a única coisa que lhe diz é uma dada oração, essa criança não saberia dizer mais nada do que repetir essa oração, tal o papagaio da vizinha que repetia as lengalengas do terço que ela dizia em voz alta: quando a senhora morreu, os vizinhos que herdaram o papagaio e não eram crentes, não percebiam nada do que ele papaguiava. Para aprender a falar por si, tem que ouvir coisas muito variadas, de preferência de várias outras pessoas, que não apenas de uma. É este leque de variabilidade, em que as falas ouvidas se substituem umas às outras em sucessão temporal, que permite que as regras da língua se cruzem de frases em frases, conversas em conversas, sejam aprendidas, isto é, façam a criança dizer coisas dela mesma, não ouvidas tais quais. Espantemo-nos um momento de estas regras não serem ensinadas gramaticalmente ou como num dicionário mas duma maneira inacreditável, isto é, que não me parece possível de qualquer explicação teórica, já que essas regras nunca se manifestam por elas mesmas (as morfologias dos verbos, os acordos de singular e plural, feminino e masculino, preposições e conjunções, etc. etc.): aos 5 ou 6 anos já lá estão, activas, a dar o que dizer e a deixar dizer, aprendidas heideggerianamente. E são as mesmas regras das dos outros falantes da tribo, heteronomia (a lei dos outros todos) que foi dada por esses outros falantes cujo retirar deixa a autonomia do falante. Ora bem, quando o retiro? Logo que a conversa acaba, ou quando outra começa. Falar e pensar vão juntos nisto, voz e discurso. E a variedade dos que dão as palavras e as regras e o seu retirarem-se permitem que o que é assim doado se cruze na fala da criança à sua maneira (mistérios da sua química cerebral) tendendo para estabelecer um estilo de falar e de pensar que a pouco e pouco – o aprender a falar e a pensar nunca pára numa vida – se estabilizará tanto quanto for possível com as oscilações das novas aprendizagens, das descobertas de saber. Mas é condição de todo este processo de aquisição de saber que o mundo da tribo – trata-se de seres no mundo – seja o mesmo para todos e aquele que ‘aprende’ aprende a tornar-se ser nesse mundo que ele aprende, com todas as dificuldades que os usos e os conflitos e as alianças colocam e que intervêm nas várias falas tribais.
4. Saltemos da tribo à aprendizagem filosófica. Grosso modo, o processo é equivalente, em mais complexo, equivalente ao de qualquer adulto que é envolvido por vários paradigmas de ‘saber’, de ‘pensar’, um é doméstico consoante a sua tribo social (classe, região), outro é profissional mais ou menos especializado, outro faz ponte entre ambos, se se pode dizer, de ordem cultural ou outra: eis o que se presta à singularização maior do estilo em relação aos familiares como aos colegas de profissão, presta-se à variedade de ocupações de lazer favoritas, empenhos sociais, políticos, espirituais, e por aí fora. Mas tais paradigmas, distintos, não são ilhas, conectam-se na singularidade do dizer / fazer de cada um, onde a experiência da citação de Nietzsche pode ocorrer: quantas vezes não se descobre a pólvora nessa procura de compreender-se a si e ao mundo em que se é, e que bem isso não é, ainda que possa fazer rir à volta quem anda noutra: mas é um bom sintoma em quem assim se dirige para aprender a pensar segundo a tradição filosófica ocidental. Há várias escolas de pensamento nessa longa tradição, há vários domínios de questões filosóficas; aliás, além da filosofia há literaturas e outras artes, e há problemáticas sociais e politicas, há questões de civilização, umas maiores do que outras, algumas despontando, outras desaparecendo. Há pois muita escolha (em grego, ‘heresia’), e em consequência será grande a variedade dos caminhos seguidos pelos professores que se vão encontrando, como a da literatura filosófica que se lê. Como quem navega entre escolhos, o processo de aprendizagem tem uma dose grande de aleatório, consoante os encontros que se fazem, de professores, de livros, de colegas. Claro que quando se escolhe estudar filosofia, já se tem algumas questões, mas essas em geral são tragadas mais ou menos rapidamente com a aprendizagem que se vai acentuando, substituídas por questões mais elaboradas a que se vai tendo acesso; não impede que o estilo que se foi ganhando desde criança será dominante, será ele que ganhará uma vertente filosófica. Pode até inverter-se, por certo, como aconteceu a muitos esquerdistas do Maio 68 e do 25 de Abril que viraram à direita, por vezes onde era negro passou a branco e o que era branco a negro, mas o estilo manteve-se.
5. Encontram-se com frequência leitores dum só livro, fans- de fanáticos, da Bíblia, de Marx ou de Friedman, são como a criança fictícia que só aprendeu uma oração, como o papagaio da vizinha. ‘Pensamento único’ é contraditório – como ‘partido único’, uma parte implica sempre outras – com as variedades que houve e há, não é pensamento. Sem dúvida que o estilo que se foi ganhando implica que haja escolas ou correntes que sejam deixadas de lado sem grande cultivo, já que é ele que serve de guia ao leitor que se é e que, do que lê, aprende ou critica. Mas tal como a criança que ouve gentes diferentes de diferentes saberes e daí se vai estruturando melhor ou pior, é de crer que a variedade relativa das leituras seja, juntamente com uma certa teimosia do estilo, a condição da possibilidade dum pensamento inesperado, que agora não seja já descoberta da pólvora como as da adolescência. Os autores que se lêem e os professores que se escutam ‘agarram’ a passividade do aprendiz que, mais do que só memorizar, vai ligando o que vem daqui e o que vem dali, mais ou menos explicitamente mas também porventura justapondo sem se dar conta da ligação, e muito menos da ligação a coisas que vieram muito antes e que nem sempre vêem à consciência do leitor, a não ser quando escreve. Ora, é na escrita que o milagre do pensamento ocorre melhor, escrevo num sentido, uma frase e outra frase e delas resulta uma terceira inesperada, sem ser por querer, sem que eu saiba como. Outras vezes, a escrita emperrou e é na pausa, quando nos deitamos ou de manhã nas primeiras higienes, ou quando se vai a guiar, vagueando o pensamento, é quando se não espera que vem uma solução para o que estava emperrado, surgem uma ou duas frases que continuam as que tinham parado. Esta creio ser a situação mais frequente, onde os peripatéticos, que discutiam passeando, tinham razão: mudar a posição do corpo que escreve ou fala, que busca e emperra, é muitas vezes boa receita em casos desses.
6. Mas a mais interessante e rara, a que Nietzsche sem dúvida mencionava como quem não quer a coisa, é o pensamento que vem a alguém que não anda em busca dele, ou se anda, não sabia que andava. É algo que está perto das narrativas de conversão espiritual que mudam vidas, instauram um antes e um depois. É aonde é mais óbvio, a quem recebe tal pensamento e o reconhece (talvez apenas algum tempo depois), que não sabe explicar como é que isto lhe veio à cabeça, como se tivesse sido apanhado por um laço que, de tanto que a-prendeu, o prendeu e não o deixa mais. A Paul Valéry que lhe perguntava se andava sempre com um caderno para notar os pensamentos que lhe vinham à cabeça, Einstein terá respondido com algum desprezo que nunca tivera senão duas ou três ideias na vida e que essas nunca mais o largaram. A questão é: se aquele a quem assim veio um pensamento muito mais forte do que ele – como provavelmente terá sucedido aos que veneramos como grandes pensadores, filósofos ou escritores e artistas outros – sabe que tal pensamento não veio dele nem do que aprendeu dos autores seus antepassados de leituras, como compreender o fenómeno? Não penso que haja que recorrer ao motivo psicanalista de ‘inconsciente’, mas o que de leituras diversas, que para ele se mantinham desligadas, nele se ligou e manifestou-se como pensamento inédito sem ele saber como: essa ligação fulgurante deu-se a um nível de memória esquecida, onde estratos diversos se mantinham diversos, sem que possa talvez dar um nome certo a uma influência predominante, ou talvez sim. Maravilha-se da sua sorte, como Heidegger aproximou Denk (pensamento) e Dank (agradecimento): o pensamento é gratuito.

A questão da verdade
7. Que o pensamento assim nos rapte, por muito arrebatador que seja, como se diz, que seja ele a ‘querer’ e não eu, que venha como dom, como graça, não significa porém que ele tenha um selo de verdade. Nem sequer que se revele fecundo como paradigma, sobretudo de multidões, já que pode se tratar de fãs entusiastas. A questão da verdade é bem difícil, já que um pensamento verdadeiro pode vir só a um, por onde sempre começa aliás, sem se comunicar significativamente na sua época, como sucedeu a Copérnico, por exenplo, que nem ele nem Kepler nem Galileu demonstraram o heliocentrismo, apenas Newton um século e meio após a morte de Copérnico: é uma bela demonstração, que ilustro noutro texto deste blogue, mas que nos custou os olhos da cara, já que se impõe contra a verdade deles, destes olhos que a terra há-de comer, a fonte de todas as nossas verdades mais elementares, entre as quais ver o sol a andar de nascente para poente. Assim começou a relatividade, embora então só a Igreja tenha estado perto de dar por esse preço imenso. Há em todo o caso, há um terreno em que a verdade se comprova de forma geral, a das equações físicas corroboradas pelos resultados experimentais que preenchem as respectivas variáveis, e a partir daí a técnica prova a física europeia – a aventura do espaço, no caso do movimento da terra –, como possivelmente não há outra verdade tão comprovável.
8. Todavia, fora do campo da física e da técnica, a verdade relativizou-se dado que no século XIX muitas ciências, da terra (paleontologia), da vida (evolução), das línguas (comparação das línguas indo-europeias), dos textos clássicos (edições criticas), da economia (industrialização e luta de classes), descobriram a historicidade dos seus campos de estudo e portanto a variabilidade da consideração deles segunda as épocas. O pensamento de Hegel, no alvor desse século, buscou integrar a história das civilizações no seu sistema de pensamento e, como na tradição vinda dos Gregos, a história era o lugar do singular e do acidental, só soube defrontá-la nessa sua relatividade recorrendo ao ‘absoluto’ da teologia cristã (que Kant tinha deixado fora da filosofia). Foi o que Nietzsche diagnosticou, anunciando o relativismo que viria (e que veio) como niilismo. Hoje qualquer filósofo que se preze desconfia da noção de verdade, é o mínimo que se pode dizer. Porém, a lei geral que regula as relações humanas por via da linguagem é, não pode deixar de ser, a lei da verdade, sem a qual nenhuma confiança é possível naquilo que outro diz, mesmo o erro só se descortina em contraste com a verdade de que é o erro, ou seja, a noção de erro implica necessariamente a de verdade, assim como a mentira só vinga se tiver as aparências de verdade que não levante desconfianças nos outros, a ficção precisa de verosimilhança (Aristóteles) do seu contexto para ser legível (fora dum ‘contrato’ com o leitor de leitura fantástica).
9. ‘Qualquer filósofo que se preze’, disse, mas houve uma excepção, a do que exerceu a maior reviravolta no pensamento europeu do século XX, Heidegger que propôs uma leitura diferente da ‘verdade’ como a-lêtheia, des-velamento do que velava a coisa que se des-cobre e manifesta a sua verdade ao humano que cuida dela com desvelo. Ora, duma forma que me encheu de espanto e de alegria, este motivo deslocado para as principais descobertas científicas do século XX, permitiu uma luz nova para essas descobertas, religando-as ao respectivo contexto donde os laboratórios haviam arrancado os fenómenos analisados. E então esse contexto revelou-se cena de produção e circulação dos fenómenos dessas ciências (graves, vivos, discursos, unidades sociais, psiquismos), cena de heteronomia (as regras de todos os fenómenos da ciência) que dá os fenómenos como autónomos, retirando a força dessa sua doação para deixar que haja autonomia. Ora, estes fenómenos jogam numa cena aleatória, o que significa que as regras deles que as ciências descobriram são para lhes permitir circular em condições aleatórias, a que têm que se adequar. Então necessidade das regras e aleatório de cada singular tornam possível uma verdade relativa qque mantém a exigência moderna de relatividade de todas as coisas. O longo capítulo 13 do meu Le Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida chama-se “demonstração da tese da verdade”.
10. O pensamento que esteve na origem das 1000 páginas destes dois volumes veio-me inesperadamente, arrumava o carro ao chegar a casa num fim de tarde da primavera de 1985. As 5 ciências, que até aí considerava de forma dispersa, vinham já no quadro que guardaram depois, em composição devida ao motivo derridiano de duplo laço, e com elas também a técnica no seu espécimen decisivo da civilização industrial, a máquina (exemplificada pelo automóvel). O guião inicial apurou-se em complexidade, mas não se desmentiu na dezena de anos que demorou a escrever-se.