quarta-feira, 11 de março de 2015

Sobre o Tempo




Bem haja! Maribel
que este textozinho me suscitou

1. A nossa noção vulgar de tempo é uma convenção ligada aos relógios. Nos relógios de mostrador um ponteiro anda à volta de hora em hora, outro de minuto em minuto e outro de 12 em 12 horas. Descrevem ciclos os ponteiros, com os quais contamos unidades de tempos de forma linear, como se o tempo fosse uma linha recta que vem desde o infinito, agora desde o tal big Bang, até ao infinito. Mas essa linha também é espacial, como os três ciclos do relógio.
2. Várias coisas se deduzem deste estado de coisas. Uma delas é que não se pode contar o tempo senão em medidas de espaço, em distâncias no mostrador do relógio, ou em ângulos, se se quiser, geometria em todo o caso. Porque podemos medir uma distância espacial, com uma fita métrica, por exemplo, um ângulo com um transferidor, a partir dum lugar perto da distância a medir, com olhos e mãos. Mas não podemos afastarmo-nos do tempo, estamos sempre em tal ou tal momento e medir o tempo seria a diferença entre dois momentos, com as tais unidades convencionais, segundos e minutos: ora o mensurador está no momento inicial e no final e em todos os momentos intermédios, ele faz parte do que se está a medir, não se pode pôr a cabeça de fora do tempo para o medir. O que leva a considerar a definição dele na Physica de Aristóteles: “o tempo é o número do movimento segundo o anterior e o posterior” (IV, II; 219 b 1), que diz que o tempo é a maneira de numerar, medir, o movimento; é pois a maneira dos humanos medirem, calcularem o movimento, não é algo ‘em si’, o tal contínuo linear entre dois infinitos, e que é correlativo do ‘agora’ (nun) em que se mede, com antes e depois da consideração sobre o tempo, ou seja sem se sair desse ‘depois do antes e antes do depois’ que é próprio de cada momento dum movimento.
3. Sendo assim, cada coisa, viva ou não, cada pessoa, está sempre em movimento (mesmo parada, pode sempre mover-se: erosão das rochas, oxidação dos metais), tem o seu tempo: e é por causa deste inúmeros tempos que temos necessidade de os medir e convencionar unidades de medida gerais, como os relógios. Mas estes, nos diversos ciclos dos seus ponteiros não fogem ao que estamos dizendo: o que se mede é o movimento deles, a distância que percorrem entre dois momentos, truque que permite retirar não a cabeça mas o relógio de fora do tempo.
4. Se a divisão em 24 horas é uma convenção (egípcia, aprendi com o Público dos 25 anos), o seu conjunto, o dia, é o tempo do movimento da terra em torno de si mesma, que chamamos com o mesmo nome do tempo que tem luz, o dia, o qual só é parte do dia de 24h, o tempo sem luz é noite e a partição entre ambos varia com o outro movimento da terra, o de translação em torno do sol, cujo conjunto de dias chamamos ano, sem já ter em conta, excepto perto dos pólos, os tempos de luz e os tempos sem ela. Esta bissemia do termo ‘dia’ diz bem a diferença entre o tempo que se pode chamar ‘real’, o tempo do movimento das ‘coisas’ (res), oferecidas à luz e retiradas da escuridão, e o tempo convencional dos relógios e calendários.
5. Ser e Tempo (1297) é a tentativa filosófica de tematizar o tempo dos humanos enquanto estruturando a sua ek-sistência, seres no mundo que, explicito eu, do mundo aprendem e se fazem seres da e na sua tribo, ser dos seus tempos, que é suposto nascerem e no dia a dia se alimentarem, terem o cuidado disso, por si e por outros com quem vivem, e que – e é o que Heidegger tematiza – antecipam um dia que morrerão: esta antecipação é parte essencial da sua temporalidade, tal como é a da sua aprendizagem que Heidegger silencia mas pressupõe com o cuidado e as possibilidades abertas, categorias igualmente temporais que as filosofias das almas imortais e dos sujeitos opostos aos objectos sempre ignoraram: mas a ‘possibilidade’ ecoa à dunamis aristotélica, à capacidade (com força) de se movimentar, de fazer obra (energeia). Em meados dos anos 30, Heidegger começa a falar de vez enquanto em Ereignis (acontecimento em alemão), termo que inclui o tempo – é óbvio – mas se pode considerar corresponder ao encontro entre dois ou mais movimentos que os afecta enquanto movimento justamente. Aparece pois um termo implicando a temporalidade e seres (humanos, por suposto filosófico heideggeriano), dizendo a conjugação entre eles de que Ser e Tempo não soubera dizer nada de positivo. Uma outra temporalidade aparece no início dos anos 40, meditando Aristóteles (a phusis e o movimento) e acrescentando-lhe Heraclito: “a phusis, o Ser traduz ele, gosta de se retirar”, este retiro sendo da doação dos vivos; sem falar em nascimento como antes tematizara a morte, é este que – de forma retirada, dissimulada, se dizer se ousa – vai ser a novidade dos 20 anos por vir do pensamento heideggeriano. O admirável desta conjugação dos dois pensadores gregos do ‘movimento’: este tem momentos fortes de doação, em que um casal de vivos dão origem a um rebento mínimo que crescerá, como tempo é claro, mas sendo para isso necessário que a força dessa doação (archê da phusis) seja retirada, dissimulada, adequada à dimensão mínima desse rebento, à sua temporalidade. Interpretando assim, já o grande texto de 1962, Tempo e Ser, está a pedir explicitação, que permitirá aproximar-se enfim de Aristóteles ultrapassando-o radicalmente: se dissermos que o acto de amor que lança o rebento para 9 meses de gravidez é um acontecimento, este que nasce para a sua temporalidade – entre semente e morte futura – é doado por esse acontecimento como sendo simultaneamente ser e tempo. Onde na Physica aristotélica a ousia, enquanto substância da mesma essência de outros, se opunha aos ‘acidentes’ (termo equivalente a acontecimento), à particular temporalidade de cada um, agora a mesma família (da mesma tribo) faz doação do filho enquanto vivo temporal e retira-se gradualmente para lhe deixar as suas possibilidades de vivo temporal.
6. O Ereignis de 62 ocupa o lugar que até aí tinha o Ser, doador retirado, na diferença ontológica, que se pode traduzir como ‘não Acontecimento que faz doação de acontecimentos’. Estes acontecimentos, dissemos atrás, são encontros entre dois ou mais movimentos que os afecta enquanto movimentos. Se procurarmos aproximar o motivo de movimento do de acontecimento, podemos supor as rotinas de movimentos quase autónomos, pequenas repetições que de facto nunca se repetem exactamente, pequeníssimos acontecimentos em zoom de grande escala, em que movimento e acontecimento parecem coincidir (em todo o movimento há sempre alguma alteridade, doutro movimento), e depois diminuirmos a escala do zoom e darmos com um acontecimento que vem alterar as rotinas e reorientá-las com fragor até que a rotina se estabeleça. Por exemplo, a rotina em que se guia um carro e se conversa com o parceiro do lado e a ameaça duma colisão que obriga a movimentos rápidos e talvez não consiga evitar o acidente, a maca a caminho do hospital, até que volte são mais tarde ao carro reparado; ou a rotina duma oficina de fábrica quebrada com a introdução duma máquina que implica aprender a manejá-la, rever a equipa que trabalha e passado um tempo a rotina que volta. Nestes exemplos se diz, tal como no do nascimento, como as doações em suas formas diferentes de serem acontecimentos jogam na oscilação temporal com as rotinas, estas provindo de Ereignis que serão as ‘espécies’ biológicas no nascer que comunica o ‘mesmo’ da espécie (a essência aristotélica) a um indivíduo singular e os ‘paradigmas’ dos usos sociais nos dois outros casos em que o que se aprendeu foi para se tornar rotina, habilidade espontânea dum motorista ou dum operário.

O sonho do califado




1. O que os diversos fundamentalismos religiosos que se manifestam no nosso mundo actual – extrema direita americana evangelista, integrismos católico, judaico e islâmico – têm em comum é a recusa global dos excessos libertários, mormente em matéria de costumes sexuais, que as televisões exibem como depravação do mundo ocidental desenvolvido. Uma questão prévia ao 7 de janeiro é a de saber porque é que apenas o mundo árabe muçulmano tem fornecido a forma terrorista-bomba que nos assombra desde o 11 de Setembro, que imola igualmente os que a provocam juntamente com as vítimas inocentes indiscriminadas, o horror ético de ‘darem a vida’ para matar criminosamente. Não tenho resposta para ela, nunca estudei o Alcorão nem a história que ele iniciou, apenas uma sugestão arriscada que permite gizar a noção de Califado, recentemente reclamada como meta politica pelos guerrilheiros da Síria e Iraque.
2. Semelhante à Cristandade medieval como forma religiosa unificando várias sociedades, o Califado difere dela não apenas por não ter raízes romanas mas também por representar então o auge da civilização muçulmana sem rivais à sua altura, já que a Cristandade era apenas um início, que aliás beneficiou da cultura árabe. Durante os seus Séculos de Ouro, esta ignorou os bárbaros europeus, até estes aparecerem a barrar-lhes os caminhos dos negócios e sobretudo quando, já modernos, manifestaram uma capacidade tecnológica que eles ignoravam e muito os surpreendeu. Diferença também na organização antropológica, que Germaine Tillion chamou “o harém e os primos”, visando as comunidades familiares endogâmicas (Emmanuel Todd), com prioridade dada ao casamento entre primos de primeiro grau, o que corresponde a criar conjuntos vastos sob a alçada dum patriarca poderoso, que têm manifestado uma dificuldade política em se erigir um Estado ocidental, oscilando entre formas de liderança ditatorial ou de fraternidades islãmicas. Como se fosse o monoteísmo corânico (e o seu profeta) quem ocupasse o lugar da unificação social, o que fará com que o fantasma do Pai seja muito mais vigoroso, como as mulheres muçulmanas sabem sem dúvida e tornará mais difícil a laicidade e mesmo o regime democrático de discussão e eleições. Também lhes será mais difícil criar a escola à maneira ocidental naquilo que tenha a ver com formas de vida e de crença, embora muitos magrebinos sejam bons alunos em França, melhores do que os portugueses (ainda E. Todd).
3. Reclamar o Califado como vasta unidade politico-religiosa, exprimiria uma homogeneidade de costumes muçulmanos e sonharia integrar nela as técnicas ocidentais (sem saberem que estas são parte essencial da desconstrução dessa homogeneidade, como sucedeu à Europa), excluindo as relações com o Ocidente desmoralizado e ateu; mas exprimiria também um ressentimento histórico, o dos ‘homens’ muçulmanos face aos europeus que conseguiram desenvolver-se mais do que eles. A pulsão agressiva que vitima também os seus portadores teria aí raízes antropológicas e históricas, a que a grande maioria da população muçulmana é obviamente alheia, querendo uma vida melhor, a que vêem nos écrans.
4. Fica a questão de saber se o 7 de Janeiro releva primordialmente da liberdade de expressão, como se tem dito. Claro que do ponto de vista desta é impossível não admirar a coragem temerária de Charb e dos seus companheiros, bem como a resposta impressionante das multidões francesas. Não se tratou da forma terrorista que implica alvos de massa, inocentes por definição, como nas torres de Nova Iorque e seus aviões, nos metros de Madrid e de Londres, mas dum atentado visando tais e tais personagens, que aliás se sabiam ameaçadas e ripostavam a essa ameaça corajosamente, com armas desiguais, mas ambas capazes de fazerem mossa. Não pesa ao gosto que se possa ter pelo seu humor considerar que politicamente Charlie Hebdo é anarquista, no sentido do final do século XIX. E é o que põe um problema de responsabilidade politica que a sua redacção ignorou: a de que, sob ameaça embora, as suas caricaturas são armas de acicatar o terrorismo a que fazem guerra na comunidade dividida, vão além dos seus 30 mil leitores, acicatar a impotência dos jovens muçulmanos, negar a integração como cidadãos que busca a grande maioria dos imigrantes, filhos e netos na Europa ocidental, acicatar também o medo do terrorista que possa estar sentado ao meu lado no metro.

Tempo ou temporalidade ?




1. Em sequência ao texto Física Química e gramatologia, a questão do tempo que interessou o Público nos seus 25 felizes anos, para nós leitores, pode ser tomada de outra forma. Percebe-se que a definição de tempo de Aristóteles, do tempo como “o número do movimento, segundo o antes e o depois”, implica que é a partir do movimento que ele procede e é possível que Francisco Limpo Queiroz tenha razão contra o Heidegger  interpretando Aristóteles (http://filosofar.blogs.sapo.pt/105816.html): pelo menos, acho que se pode dizer que é o movimento que no grego precede o tempo, ao invés de Heidegger de Ser e Tempo, que creio ser refém da maneira como a física de Galileu se apoderou do movimento e mediu o tempo, introduzindo essa medida como categoria geométrica, como diria Newton, que entendia a Filosofia natural como geometria mais mecânica. Igualmente o espaço em geometria, o nome o diz, é uma medida, uma diferença, uma distância entre dois lugares; o tempo será uma diferença entre dois momentos, uma diferância, se se pudesse dizer recorrendo a Derrida. Para este pensador pós-heideggeriano, se houvesse algo de prévio epistemologicamente, seria o jogo do rasto ou différance que implica o espácio-temporalização, a relação estrutural ao outro e a linguagem como inscrição. Se não é prévio, é porque justamente desse jogo só sabemos no movimento das ‘coisas’ que ele é, que ele dá. Pode-se dizer então que o tempo é uma abstracção, tal como o espaço (categoria desconhecida dos gregos, que só conheciam o lugar), o peso, a força, mas também a liberdade e tantos outros motivos filosóficos: o que existe são coisas temporais entre o seu surgir e o seu desaparecer, sendo que surgem sempre de outro(s) e para outro(s) desaparecem, coisas essas que também são espaciais, pesadas, indeterminadas, etc. Ora, as temporalidades são muito variadas. Sejam três exemplos.
2. Um relógio com ponteiros dá a aparência dum tempo linear, é para dar essa aparência que ele é feito, comprado, usado. Mas olhando para o funcionamento dele vê-se que ele tem três temporalidades cíclicas: a do ponteiro dos segundos que percorre o mostrador todos os minutos, o dos minutos todas as horas e o das horas de 12 em 12 horas. Quem não souber da maneira ocidental de medir o tempo, olha para um relógio perplexo, achando certamente graça aos movimentos dos ponteiros, embora só dê pelo dos segundos.
3. Segundo exemplo. Um livro escrito para ser lido (também dá para uma conversa, alguém que fala e outro ouve) também exibe linhas de frases que os olhos vão seguir. Mas basta pensar que quem não souber a língua pode percorrer as linhas com os olhos e não ler, para se perceber que há mais do que essa linearidade. As letras, com acentos e ditongos, fazem uma quarentena de elementos que se repetem vertiginosamente nas palavras, assim como as palavras se encaixam sintacticamente em frases e estas se ligam entre elas sucessivamente. Mas esta temporalidade complica-se: à medida que se avança na leitura das páginas, é necessário ir retendo na memória, não de cor é certo, o que se leu como condição do que se está a ler; e também há que manter a antecipação, o suspense, do que falta ler. Então a temporalidade da leitura das linhas complica-se com o movimento de reter o já lido e de diferir o por ler. E como é que se retém o que se leu, se não é de cor? Quando se volta atrás, ou no dia seguinte, percebe-se: ‘isto já li’; e leste o quê? Resume-se o que se leu, o que é outra forma ainda de temporalidade, o da possibilidade de resumir (que não tem a temporalidade da escrita matemática, nem a da música, nem a das imagens).
4. Terceiro exemplo, a temporalidade da nossa digestão. Ela tem dois termos, o primeiro é o despertar do apetite, a vontade de comer, o último é o metabolismo das células jogando sobre as proteínas, hidratos de carbono, gorduras, vitaminas e sais minerais que lhes chegaram pelo sangue, algumas horas depois de se ter comido. Ainda aqui, há um processo que é apreendido de forma linear pelos nutricionistas, mas também a temporalidade se complica: é que a vontade de comer, que nos vem por via hormonal, antecipa as duas ou três horas que os nutrientes levam a chegar às células, começa a soar mais cedo. Assim como outra hormona vem fechar o apetite, dá-lo como saciado ao fim duma certa quantidade de comida, bem antes outra vez do tempo digestivo se ter completado. Não é linear, não. E pensar que os bebés mamam de três em três horas, já com esta temporalidade bizarra que antecipa e depois adia: ao fim de algumas semanas, as mães começam a esticar os tempos da noite, de forma a que ele se habitue a uma pausa nesse ciclo das mamadas.
5. Voltemos ao princípio.  Galileu, na experiência que conta no Discurso sobre duas novas ciências, mostra claramente que para ele o movimento precede o tempo. Ora, não havendo então cronómetros, para medir o tempo Galileu inventou uma técnica astuciosa: pesou-o. Ele conta assim: “para medirmos o tempo, tomávamos um grande balde cheio de água que atávamos bem alto; por um orifício estreito praticado no fundo, escapava-se um fio de água que recolhíamos num recipiente durante o tempo em que a bolinha rolava na calha. As quantidades de água assim recolhidas eram pesadas de cada vez com uma balança muito sensível, e as diferenças e proporções entre os pesos davam-nos as diferenças e proporções entre os tempos” (ed. fr. 1970, p.144). Espectacular! Medir-se o tempo em segundos ou em gramas de água (nossas unidades) é a mesma coisa do ponto de vista do próprio conhecimento científico! O que significa que é logo o primeiro grande físico europeu na primeira narrativa recebida duma experiência que confessa que em física não se trata do ‘tempo’ nem aliás do ‘espaço’, mas apenas de medidas, de diferenças não substanciais. Elas bastam à física que, a esse nível, não tem nada a fazer nem com um nem com o outro. Acrescente-se e escandalize-se os físicos: ela não sabe nem tem que saber o que ‘é’ o tempo ou o espaço, só sabe de diferenças medidas e das respectivas proporções, para o que precisa de instrumentos adaptados e de convenções adoptadas pelos físicos sobre as respectivas unidades, como o metro ou o pé, o segundo ou a grama de água, em resumo, além de matemática, precisa essencialmente de técnica. O discurso teórico com que o físico interpreta as suas experiências é da ordem da definição, recebido da filosofia, sujeito como esta a confrontos, como a história demonstra, a normalidades e a revoluções.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Nº 100 Inacreditável !




1. Nós aprendemos e o que aprendemos torna-se habitual, não é preciso pensar mais nisso, mas é a partir do que vamos aprendendo que temos evidências em novas aprendizagens. Com o tempo, há coisas que vêm bulir com o que se aprendeu antes, com o que já se sabia, geram-se confusões, contradições, há quem queira perceber. Platão e Aristóteles disseram ambos que o espanto é a origem da sabedoria, é sobre o que já se sabe que ele incide: Sócrates chegou ao ponto de achar que só sabia que nada sabia, ao ponto de desdizer tudo o que tinha aprendido, ao ponto do grande espanto. Vieram outros a espantarem-se no rasto destes e doutros, até nós.
2. Há dias, a propósito de coisas que li no imenso nº do Público de 5 de Março dos seus 25 anos, não me lembro ao certo o quê, veio-me um espanto, um ‘inacreditável!’ e ao dar-me conta que o meu blogue habitual estava no nº 99, resolvi fazer o nº 100 sobre ele, mas acrescentando-lhe mais dois que já tinha, por onde começarei porque ajudam a perceber o que veio de novo.
3. Quem me lê por vezes já saberá, mas continuo a achar que a lei da selva é inacreditável, e creio que o é para toda a gente, até porventura para os biólogos, já que eles, tendo-a no dia a dia do seu material, não parecem dar por ela. Teresa Avelar, a quem mandei o texto em que falava dela e a propunha como chave da evolução e da selecção natural de Darwin, reagiu negativamente, sem que eu tenha conseguido perceber como motivo que haja algo no paradigma biológico que impede tal percepção. Ora, a argumentação é fácil de fazer. Há uns 30 e tal anos, admirei-me que houvesse evolução no sentido de se criarem de novo moléculas com átomos de carbono que não haveria, cuidava eu, à partida da invenção da vida. Foi uma bióloga do Porto que encontrei em Coimbra, não me lembro do nome, tenho pena de não a poder citar, tanto que lhe devo, que me esclareceu: a atmosfera da época não tinha oxigénio mas era abundante em anidrido carbónico, foram esses átomos de carbono que, por efeitos de tipo fotossíntese, a atmosfera cedeu às células. Deslumbrei-me e a pouco e pouco das leituras fui percebendo a lógica inacreditável da vida que tem no seu coração a necessidade incessante de átomos de carbono (e doutros, claro, mas este chega para o argumento) que as plantas recebem com a luz, como glicose. O problema é o dos animais, que não sabem fazer ou receber fotossíntese e têm como única fonte de carbono as plantas. ‘Única’ enquanto não houve número suficiente de herbívoros, vertebrados ou invertebrados, para se tornarem por sua vez fontes de carbono para os carnívoros. Até aqui, parece que a lógica joga bem. O que vem a seguir é mais polémico: o que se chama, sempre em uso metafórico aplicado aos humanos, a lei da selva, é literalmente a lei da biologia animal! E que se trata duma lei, derivada deste ciclo biológico das moléculas de carbono, pode-se deduzir do facto da anatomia dos animais, todos, herbívoros como carnívoros, estar feita para este processo de aquisição de moléculas de carbono. Anatomias sempre diferentes segundo as espécies, são determinadas (sem determinismos, claro, a variação das anatomias é argumento suficiente) por essa lei da selva. É essa lei que é inacreditável! Contra o romantismo da harmonia da Natureza e da sua beleza, Nietzsche sabia que ela era bela e cruel. Mas nunca dei por se encontrar nesta lei uma objecção contra a bondade de Deus (ele seria pelo leão ou pelo veado?), embora a Bíblia tenha contornado o problema, no seu primeiro capítulo sobre a criação, texto belíssimo de razão anterior a Platão, os animais e os humanos são todos criados como vegetarianos, só mais tarde é que Deus deixou que comessem carne, mas não o sangue. Ora bem, essa lei é ignorada (fui eu que a descobri?) ou é silenciada? Seja como fôr, é inacreditável! É aliás onde está a origem do mal, da violência, já que as espécies têm que desenvolver formas de atacar e de se defender, nas mais evoluídas isso resultou em músculos e em astúcias de agressão, que os humanos herdámos.
4. A outra coisa que é inacreditável é a invenção da sexualidade pela evolução, que sem ela não teria ido muito longe. É que a lógica da reprodução normal das células, das nossas mas também dos unicelulares e das primeiras colónias de unicelulares, é de reproduzirem-se sempre as mesmas, como os clones. Sejam quais sejam as formas de alimentação desses bicharocos, vermes e hidras de água doce, eles não morrem (a não ser que os comam), crescem e depois uma parte deles separa-se e continuam a crescer e a separar-se. Antes, a lógica da vida – invenção da reprodução das células – vencera o acaso que jogou nessa invenção, mas em ambientes pouco hospitaleiros, as possibilidades dessa reprodução implicando alguma aleatoriedade eram reduzidas. A invenção da sexualidade inverte isto, é como que uma segunda invenção da vida (esta, segundo Marcello Barbieri, no extraordinário Teoria semântica da evolução, durou um bilião de anos para se conseguir): reintroduz o acaso para reforçar o aleatório. Torna-se necessário que uma fêmea acolha um macho e daí resulte um terceiro, muitos terceiros aliás, distintos dos progenitores, isto é, outros indivíduos, macho ou fêmea (com indistinção inicial) que ficam lá quando eles morrerem. Ou seja, inventou-se duma vez só: fêmea e macho, indivíduos separados, o nascimento e a morte, a possibilidade futura de aprender. E para isso, plantas também aliás, geram-se quantidades astronómicas de gâmetas em pura perca, já que a lógica é estatística, apenas 1 ou poucos em milhões (aqui é claro que hesito, não sei que chegue). Em nós, que não temos o cio das fêmeas que limita os efeitos terríveis da sexualidade a alguns dias de vez em quanto, as pulsões sexuais são tais que têm que ser reprimidas por interditos do incesto desde sempre para tornar viável o convívio sexual, sem se perder o entusiasmo; mas como houve repressão dela durante milénios! Tanto no seu passo biológico como na história das sociedades humanas até Maio 68, não é inacreditável a sexualidade?
5. Tanto a lei da selva como a sexualidade pertencem a uma história cheia de aleatórios e de acasos, de acasos que se estabilizam como aleatórios. O meu terceiro espanto é este: a Terra é uma excepção cosmológica. Tanto quanto nós conhecemos, só ela tem condições para a vida evoluindo até aos humanos e estes até à modernidade que se globaliza a nossos olhos. Não sei argumentar sobre a história geológica, porquê os oceanos e o seu sal e a atmosfera de anidrido carbónico, as condições da gravidade que temos, a pressão e as temperaturas capazes de a vida suceder. Imagino facilmente que essas condições implicaram no tempo e implicam hoje ainda muito acaso e é justamente o ter-me conseguido libertar – devido à fenomenologia e a Prigogine – do determinismo científico, de ter conseguido compreender que as regras que as ciências descobrem jogam em situações aleatórias, como o automóvel exemplifica, é por isso que esta excepção cosmológica da Terra me parece inacreditável. A outros também mas ao contrário, custa-lhes a crer, apostam que haverá outros planetas habitados, mas do que nos contam percebe-se que seriam precisos muitos séculos para os encontrar. Ora, a evolução à base da lei da selva e da sexualidade implica tanto e tanto acaso e correlativo sucesso aleatório que, ainda que se soubesse dum planeta geologicamente parecido com o nosso, era mais que improvável que lá tenha acontecido vida e sociedades humanas. O inacreditável não se repete.

Faz hoje dois anos que morreu o arquitecto Manuel Vicente, meu cunhado. Ele havia de gostar disto.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Física Química e gramatologia






1. Algum tempo antes da sua vinda a Coimbra em novembro de 2003, escrevi a Jacques Derrida perguntando-lhe como é que na Física se punha a questão do rasto, da trace ou différance. Quando cá esteve, disse-me sorrindo que eu lhe punha questões muito difíceis, o que compreendi como significando que não frequentava pela leitura esse tipo de ciências. Tendo depois encontrado, nomeadamente num seu livro em diálogo com Elisabeth Roudinesco (De quoi demain..., Fayard/Galilée), mais duma vez a expressão trace vivante, depreendi que esta fora inventada com a vida e não tinha cabimento nos inertes de que Física e Química se ocupam. Átomos e moléculas formam graves, sejam do mesmo tipo de moléculas, sejam misturando-as como nos granitos, por exemplo, mas não constituem enquanto tais, nem nos astros, estrelas em combustão ou planetas áridos, tanto quanto eu (não) sei, estratos mineralmente acima do que são as moléculas, digamos, apesar dos campos que os sustentam, como o da gravidade. Tal como as garrafas ou as lâmpadas produzidas numa cadeia de fábrica, os graves não são nomeáveis individualmente, apenas susceptíveis de numeração, enquanto que os vivos são novas assemblagens de moléculas, criam a possibilidade de indivíduos empiricamente distintos, não idênticos, serem da mesma categoria que outros, pertencerem à mesma espécie. Os inertes não têm espécie, eles oferecem os elementos empíricos de que se fabricaram as espécies vivas.
2. A questão não fica todavia resolvida, percebo agora. No texto de Derrida De la grammatologie (Minuit, 1967), a trace ou différance é por duas vezes dita triplamente: “a estrutura geral do rasto imotivado faz comunicar na mesma possibilidade e sem que se os possa separar senão por abstracção, a estrutura da relação ao outro, o movimento da temporalização e a linguagem como escritura” (p. 69, cf p. 88). O “movimento da temporalização” será doutras vezes dito espácio-temporalização (no texto citado umas linhas abaixo) e implica que um vivo ou um texto individuais em suas células ou frases, na sua ‘substância’ espacial e na temporalidade que é a sua (crescer, num caso, escrever-se e ler-se no outro), relevam dum mesmo prévio, o da espécie ou a da língua que, sendo substancialmente ‘nada’, são (n)este vivo ou (n)este texto o que o faz/fez/fará esse indivíduo vivo ou textual não idêntico a outros. A esta indissociabilidade entre o mesmo e o não idêntico, a economia e o excesso, chamará em “La différance” (Marges. De la Philosophie, Minuit, p. 20, existe tradução na Rés), o “enigma” deste motivo gramatológico. “A estrutura da relação ao outro” diz como um vivo vem doutro vivo, esse ‘vir de’ relevando da mesma espécie e ainda que o animal se alimenta de vegetai ou animais, assim como um texto vem doutro e a outro vai, na mesma língua de que são originados. “A linguagem como escritura”, dita doutras vezes a origem da linguagem como escritura, marca um dos primeiros escândalos provocados por Derrida, ao pretender que a linguagem oral é posterior à escritura: a interioridade oral releva duma impressão vinda de fora, da inscrição pela aprendizagem. Foi este o motivo que Derrida introduziu em filosofia como questão que a desconstrói, esta mesma que estou dizendo. É esta estrutura tripla que permite compreender a biologia, a linguística, qualquer ciência do social, o mesmo sendo o que os respectivos cientistas buscam aclarar em análises sobre indivíduos não idênticos, que necessariamente reduzem ao abstraírem as suas experimentações.
3. A questão agora é: se for verdade, como creio ter percebido então, que os inertes da Física e da Química são prévios à trace ou différance, isso implica que esta  estrutura tripla não tenha relevância nessas ciências? O que pode ser ela em ciências sem espécie nem sociedade nem língua? Julgo que é o motivo do campo de forças que tem o lugar desses motivos, mas há que acrescentar que essa afirmação seria inaceitável pelos seus praticantes, como já sugeria o meu texto neste blogue Questão prigoginiana sobre energia, força e entropia. Vejamos então as incidências da tripla estrutura do campo de forças com o exemplo do sistema planetário e partindo da frente para trás. A “origem da linguagem como escritura” significa aqui que o motivo de campo de forças de gravidade seja epistemologicamente colocado previamente aos astros que o campo em suas forças sustenta, planetas e sol, embora não exista sem ser a resultante delas, tal como a espécie biológica tem privilégio epistemológico sobre os seus indivíduos, sem os quais ela não é, a língua sobre os textos, a sociedade sobre as suas populações. Por outro lado, olhando os graves do mundo terrestre, “a origem da linguagem como escritura” posiciona a Química em relação à Física, colocando-a como a ciência da ‘origem’ das moléculas e dos graves, antes de a Física inquirir dos seus diversos movimentos: a uma a ‘substância’, à outra o ‘movimento’. “A estrutura da relação ao outro” tem a ver com a definição mesma do campo de forças de gravidade, com a alteridade dos planetas e do sol uns em relação aos outros, sendo todavia que apenas o sistema da alteridade dessas forças dá conta da posição de cada um dos planetas e do sol: distinção epistemológica, não cronológica. O “movimento da temporalização” ou espácio-temporalização é sem dúvida o que poderia provocar maior escândalo se houvesse físicos para lerem este blogue. É que isto implica que não exista neles mesmos, isoladamente, nem o espaço nem o tempo nem o espaço-tempo que estão no coração das especulações da teoria da relatividade: apenas há graves e astros espácio-temporais. Não se trata de voltar a Kant, porque não há aqui ‘sujeitos’ que vêem, ouvem e mexem, apenas matérias e suas leis físicas e químicas.
4. Ora, isto põe uma dificuldade, que é típica do pensamento derridiano, que coloca a repetição como origem, num paradoxo que significa que não há acesso humano a origens. A língua ser anterior às palavras significa que só há palavras como repetições encadeadas sintacticamente: ninguém inventa palavras, quando isso parece suceder é porque muita gente começou a repetir. A espécie anterior aos seus indivíduos significa que nem galinha nem ovo são primeiros, mas sempre já indivíduos que se reproduzem. Também só há célula quando se reproduz, se repete. As sociedades igualmente: os colonos duma ilha deserta repetem, quanto podem, o que das suas sociedades sabiam.
5. Em física, isto implica que não se começa por partículas ou electrões ou núcleos atómicos, não há forças nucleares já lá que depois congregam protões e neutrões, como não haverá forças electromagnéticas que congregam núcleos atómicos e electrões para fazerem átomos, nem haverá forças de gravidade antes de haver astros. Que haja físicos, todos provavelmente, para acharem que sim, significa que, não havendo, que eu saiba (nunca li), experiências laboratoriais dessas congregações, antes pelo contrário, não há partículas antes de átomos em seus campos nucleares e electromagnéticos que se fazem explodir nas centrais e nos aceleradores do CERN. Sobre estas experimentações, de partículas a partirem em todos os sentidos depois de largadas pelos campos que as retinham, pode-se especular a sua retroversão, uma explosão de partículas a voltarem para trás e reformarem átomos com núcleos, mas é especulação, ainda que se possam propor cálculos e equações de como isso se faria, só restando fazer. Não há origem, apenas os cálculos dela, não há big Bang senão como mito (ateu) de criação do universo. Não há partículas sem campos, é a sequência do big Bang até às estrelas (claro que poderá haver algo antes delas) que se revela igualmente mítica, isto é, especulativa, filosófica, insusceptível de laboratório CERNético que a confirme. Onde os laboratórios físicos alcançam, encontram sempre já como sua condição campos de gravitação e portanto electromagnéticos e nucleares.


6. Porque é que um filósofo se mete em coisas que não são da sua lavra? Mas eu não discuto física nem biologia, mas sim filosofia, uma fenomenologia em que as ciências jogam um papel, do que elas nos ensinaram sobre os fenómenos que estudam, que a um outro nível, são da lavra fenomenológica também. Houve uma maneira de raciocinar científica partindo do elementar mais elementar  uma maneira cartesiana que inaugurou o “método” que foi adoptado pelo pensamento cientifico e filosófico durante séculos: começar pelos objectos mais simples e mais fáceis de conhecer para ir subindo pouco a pouco, como por degraus ao conhecimento dos mais compostos. Ora, esta maneira foi denunciada no século XX de vários lados, que propõem a noção de complexidade, por exemplo de Edgar Morin, ou de estrutura, com exemplos variados nos estruturalismos dos anos 60, de sistema, etc. É certo que o meu trabalho de Fenomenologia como Filosofia com Ciências, onde a gramatologia de Derrida se revelou de grande fecundidade, foi desenvolvido a partir da Biologia, da Linguística, da Antropologia de Lévi-Strauss e da Psicanálise, e só de seguida aplicada à Química Física, o que obviamente não deve agradar aos praticantes da ciência que sempre ocupou o primeiro lugar, no prestígio como na eficácia técnica demonstrada (felizmente para os físicos que há outras filosofias mais crentes nos seus mitos).
7. Mas eu presumo que possa haver alguma fecundidade na proposta que fiz, sabendo embora que o risco de não haver físicos para ligarem a ela é inevitável, ou se rirem da minha ingenuidade. E a razão é esta: a história da filosofia europeia, onde Descartes é peça decisiva, deixou nas ciências que dela se pariram um obstáculo epistemológico de predomínio do interior sobre o exterior que continua a jogar nos paradigmas dessas ciências, o que na Física é o predomínio das substâncias (astros, graves, átomos, cargas eléctricas...) sobre os respectivos campos, como parece que persiste na física das partículas: quarks e gluões e sopas delas, como se o universo tivesse começado por aí. É como se não soubessem o que fazer da noção de força atractiva, que parece ser interpretada como uma banal força local, tipo bola de bilhar em movimento que faz andar uma em repouso com que choca. 

8. A proposta fenomenológica consiste em compreender cada realidade do universo terrestre através de duplos laços dos seus elementos. No caso da Química Física, o duplo laço do átomo é por um lado o das forças nucleares que retêm protões e neutrões, e por outro o das forças electromagnéticas que retêm electrões. Duplo pois, mas ‘um’ apenas, nenhum tendo sentido físico sem o outro: o primeiro garante a impenetrabilidade do átomo por qualquer coisa de outro do que ele, resiste à explosão do núcleo, o segundo ciente dessa impenetrabilidade oferece-se à troca de electrões com outros átomos para formar moléculas, a partir das quais o conjunto delas se presta à atracção das forças de gravidade as quais retêm e atraem graves e astros. Quando o que é assim retido se solta dessas forças, expande-se como nas explosões de gasolina ou nucleares, as sondas deixam a gravidade terrestre e fogem por inércia. Ou ainda: se a força de gravidade se detecta apenas nos astros, como pretender que ela se exerça nas partículas à solta do mundo quântico? O que a física ensina é que a estabilidade do que chamamos matéria tem aí a sua base, dependente das condições da temperatura.
9. Se estas três forças estruturam o universo dos astros e a explosão das primeiras dá origem a partículas desenfreadas, quase todas instáveis em prazos curtíssimos, é difícil de pensar, a crer nos laboratórios, que se trate aí de algo de consistente, a crer nos laboratórios: é-se tentado a pensar, como fenomenólogo que não tem que propor números nem equações, que a estrutura do átomo e da molécula resulta da maneira como os duplos laços retiveram as respectivas partículas impedindo-as de fugirem segundo a inércia, tentado a pensar que se trata de fenómenos do primeiro nível da entropia positiva de Prigogine. É que todos os duplos laços seguintes, a começar pelo das células, são sempre fenómenos de ligações entrópicas de elementos que os tornam capazes de movimentos aleatórios que seguem as regras que as respectivas ciências vão descobrindo.


10. Parece que o motivo de campo de forças não é um motivo estrutural da teoria física, sem que eu saiba perceber que contradições isso tem nela. Não me parece que haja campo de forças em Mecânica quântica. Que a impenetrabilidade do átomo seja devida ao seu núcleo implica o primado absoluto da exterioridade, do campo de forças, ao substancial, ao material. As galáxias não serão os grandes campos cósmicos?
11. Só um não cientista pode ter audácias destas.

 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A prova experimental da homeopatia e Benveniste




1. David Marçal e Carlos Fiolhais mostram como ler um texto que critica as suas próprias posições é susceptível de desentendimentos tais que nem merecem resposta taco a taco (nome, título, editora, data, não chegam para identificar um psiquiatra?). Pretendem claramente denunciar a minha capacidade de argumentação, a qual não se deu como a dum ‘cientista’, que não sou, apesar de ter tido na minha juventude uma licenciatura em engenharia civil pelo IST, antes de vir a ensinar Filosofia da Linguagem na Faculdade de Letras de Lisboa. A tese de doutoramento sobre a epistemologia da Linguística estrutural abriu-me inesperadamente acesso à questão da relação entre a fenomenologia (Husserl, Heidegger, Derrida) e as principais descobertas científicas do século XX, a saber a teoria do átomo e da molécula, a biologia molecular, interdito do incesto e exogamia como nó do social (Lévi-Strauss), a dupla articulação da linguagem, a teoria das pulsões de Freud. O interesse desta descoberta (ver o meu blogue filosofia com ciências[1]) é antes de mais filosófico, mas as várias ciências são reorientadas fenomenologicamente umas em relação às outras. As ciências foram geradas adentro da filosofia (Galileu e Newton consideravam-se filósofos da natureza), foi Kant quem as separou da metafísica permitindo-lhes ganhar autonomia conceptual e metodológica. Essa tarefa esgotada nos seus efeitos, é pelo contrário a questão da unificação dos saberes que é hoje um dos mais graves problemas do conhecimento, a que esta aliança entre ciências e filosofia permite uma achega, contando nomeadamente com Prigogine. Dito isto, vamos à homeopatia.
2. A leitura do texto póstumo de Jacques Benveniste, Ma vérité sur la ‘mémoire de l’eau’, 120 páginas na Teia, mostra que, ao contrário do que consta nos mentideros cientistas que Fiolhais e Marçal repetem como verdade revelada, ele resolveu laboratorialmente a questão da homeopatia sem ter no entanto conseguido explicar teoricamente essa solução experimental[2]. A história da ciência e da técnica europeia tem muitas situações destas, soluções empíricas de questões que não se entendem teoricamente. Um dos casos mais conhecidos é o da máquina a vapor, comercializada em 1776 e que só foi compreendida teoricamente com a termodinâmica um século depois. Durante um século, o seu paradigma científico permaneceu ‘eficaz’ empiricamente, adiado o seu complemento teórico; pode-se pensar que seja actualmente a situação da homeopatia, eficaz como terapia de medicina e em busca de complemento teórico à experimentação laboratorial conseguida em vários laboratórios, como Benveniste conta num texto duma honestidade límpida. Porque é que a história dele não contará, só a dos que o não leram e repetem apenas o que ouvem ou lêem?
3. Não defendi a homeopatia como ciência, digo no início do § 3 do meu texto de 29/01 que não tenho competência para isso. Cito dois Prémios Nobel ambos vivos, um médico laureado pelos seus trabalhos sobre a sida, o outro físico inglês laureado em 1973, que conheceu de perto Benveniste.
4. “Em recente entrevista concedida à revista Science de 24 de dezembro de 2010, o virologista Luc Montagnier, ganhador do prémio Nobel de Fisiologia e Medicina de 2008 pela descoberta do HIV, defendeu Benveniste, que se tornou alvo de chacota (ganhou o antiprêmio IgNobel) e descrédito quando declarou que a diluição alta usada em homeopatia tem efeitos biológicos. Montagnier publicou pesquisa relatando a detecção de sinais electromagnéticos produzidos por "nanoestruturas aquosas" de sequências de DNA bacteriano biologicamente ativas. "Benveniste foi rejeitado por todos, porque estava muito à frente. Ele perdeu tudo - seu laboratório, seu dinheiro (...) Eu acho que ele estava em grande parte certo. O problema era que seus resultados não eram 100% reprodutíveis", declarou Montagnier. "Não posso dizer que a homeopatia está certa em tudo. O que posso dizer agora é que as altas diluições estão corretas. Altas diluições de alguma coisa não são nada. São estruturas de água que imitam as moléculas originais (...) Há uma espécie de medo em torno desse tema na Europa. Disseram-me que algumas pessoas têm reproduzido os resultados de Benveniste, mas têm medo de publicá-los por causa do terror intelectual promovido por pessoas que não entendem isso," completou o virologista” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_Benveniste).
5. “Em relação aos seus comentários sobre afirmações acerca da homeopatia,  as críticas centradas sobre a quantidade incrivelmente pequena de moléculas presentes numa solução depois de ter sido diluída repetidamente são algo que não tem sentido, já que os defensores dos remédios homeopáticos atribuem os seus efeitos não às moléculas presentes na água, mas às modificações da estrutura da água. Uma simples análise pode sugerir que a água, sendo um fluido, não pode ter uma estrutura do tipo que tal imagem exigiria. Todavia casos como os dos cristais líquidos, que fluem como um fluido normal e podem manter uma estrutura ordenada em distâncias macroscópicas, mostram os limites de tais maneiras de pensar. Não houve, tanto quanto eu saiba, qualquer refutação à homeopatia que permaneça válida actualmente depois de se ter em conta este ponto concreto. Um tema relacionado é o fenómeno, afirmado por Yolene Thomas, colega de Jacques Beneviste, e outros, como bem estabelecido experimentalmente, dito a “memória da água”. Se for válido, isso terá um significado além da homeopatía em si mesma e atesta a visão limitada da comunidade científica moderna que, em vez de se apressar a provar tais asserções, a sua única resposta foi expulsá-las da discussão.” (Brian D. Josephson,
University of Cambridge[3]
Público, 18/02/2015

P. S.



Sr. Fiolhais, catedrático rima com dogmático quando em vez de dizer ‘no estado actual do conhecimento científico, tal coisa não pode ser compreendida’, diz ‘tal coisa nunca será compreendida’. Foi esta atitude que Max Planck caracterizou dizendo que “a verdade nunca triunfa, são os seus adversários que morrem”.
Por mim, não tenho competência para saber se a homeopatia é ou não científica, se cura ou não. Mas sei avaliar a honestidade intelectual do texto em que Jacques Benveniste conta o que fez e o que lhe fizeram gente assim. Tenho dito.

2º P. S. 


Enviei este textozinho ao Público, Cartas à Directora, a 25 de Fevereiro, até hoje, 2 de Março, não foi publicado, porventura por perceberem que não é à Directora que se dirige. Faz-me confusão que um catedrático não saiba discutir sem ofender aqueles com quem discute, nem sequer sabe ler os argumentos. Nunca tomei partido pela homeopatia contra a medicina oficial, nem sequer sou ‘pela’ homeopatia; o que fiz foi discutir o carácter dogmático da argumentação fiolhaisiana. Aliás, tinha tido dois contactos epistolares com ele que me pareciam implicar que ele tivesse alguma consideração por mim como autor. O dogmatismo varreu isso duma forma eloquente. Assim como acha que as suas ‘opiniões’ valem mais do que as de gente com prémio Nobel. Porquê? O que é que ele já descobriu que dê tanto peso ao que opina?
 



sábado, 31 de janeiro de 2015

Uma adenda a Jacques Benveniste



1. Jacques Benveniste morreu em 2004 com 69 anos, na sequência de uma operação ao coração, sem ter visto aceite a sua grande descoberta, nem sequer aceites as provas laboratoriais que fez, como aliás outros laboratórios. Deixou um texto contando a sua história, Ma vérité sur la ‘mémoire de l’eau’ (a minha verdade sobre a ‘memória da água’), que os seus filhos publicaram na Internet (ed. Payot), 120 páginas. É impressionante a guerra que lhe foi feita por cientistas de toda a espécie, mesmo os que com ele colaboraram frequentemente o deixaram para salvarem a reputação. Havendo entre esses adversários gente como Changeux e F. Jacob, é-se levado a pensar que há algo nesta descoberta que põe em questão o paradigma da ciência do sec. XX, aliás Benveniste, médico imunologista, reconhece que lhe faltam conhecimentos de física para compreender os resultados inesperados das suas experiências. A pequena guerra portuguesa no Público contra a homeopatia ilustra bem que está aqui em jogo algo de teoricamente importante de mais.
2. Houve um fenómeno relativamente parecido de desconforto da comunidade científica com Ilya Prigogine, mas este químico obteve o Prémio Nobel, a sua guerra foi mais mansa. Publiquei neste blogue o ano passado um texto intitulado Questão prigogiana sobre a energia, a força e a entropia aonde se encontrará uma hipótese de compreensão possível da questão da ‘memória da água’. Explica-se aí que a Física europeia trata matematicamente de 'diferenças medidas' e não de 'substâncias', como era a Physica de Aristóteles. Quantidades e não qualidades ocultas, reclamou Newton, como se interpretasse a experiência de Galileu - pesando água para medir o tempo por não ter relógios precisos - concluindo que não se sabe o que é a ‘qualidade’ do tempo (a sua substância) mas apenas quantidades medidas, diferenças e proporções, dissera Galileu.
3. A Física é a desconstrução da Physica de Aristóteles, Heidegger e Derrida, recusando oposições exclusivas, descendem de Galileu e de Newton. A proposta implica a revisão do motivo de campo de forças atractivas: as forças fundamentais da Física, nuclear, electromagnética e da gravidade, constituintes dos átomos, moléculas, graves e astros, as únicas das quais há campos, são forças atractivas, e é porventura a razão pela qual não sabemos imaginá-las, como Newton confessou e Feynmann diz que nós também não (a nossa experiência intuitiva é justamente de forças locais, tão importantes na dinâmica newtoniana). Ora, um campo de forças atractivas, de cargas eléctricas ou de planetas, não é substancialmente nada, é resultado das forças das cargas ou dos planetas, substanciais estas e estes, susceptíveis de medidas. A diferença entre o campo das forças e os astros ou graves que o constituem é equivalente, mutatis mutandis, à diferença entre espécie biológica e os seus indivíduos, uma língua e os seus discursos e textos, uma sociedade e as suas populações: uma espécie biológica, uma sociedade, uma língua não são 'nada' de substancial, de observável fenonologicamente, só 'são' nos seus indivíduos (por isso é que a Thatcher dizia que a sociedade não existe). Afirmar num primeiro tempo o primado do ‘campo’ sobre os astros, só se pode fazer apagando-o em seguida para se dizer que são o ‘mesmo’, um não vai sem os outros, mas a proposta desse texto é de afirmar o primado epistemológico do campo, ‘nada’, sobre as suas substâncias.
4. É claro que isto é discutível e não haverá físicos capazes de entenderem a proposta, nem eu tenho estatuto (apesar duma licenciatura em engenharia civil em 1956 no IST) para me bater por ela. Proponho-a aos curiosos que calharem ler isto. Aplicado ao trabalho de Benveniste, isto daria o seguinte. As suas experiências consistiram em fazer dissoluções de moléculas orgânicas à maneira da homeopatia e verificar que, quando se chega além das dissoluções que implicam que não haja mais moléculas na água, esta mantinha um efeito como se lhe ficasse na memória. Como? Talvez que, além da substância molecular, o campo electromagnético se mantivesse na água.
5. Em vez da água por ser um líquido, como fiz erroneamente na última linha do texto do Público, Brian Josephson dá o exemplo de “cristais líquidos, que ao mesmo tempo que fluem como um fluido normal, podem manter uma estrutura ordenada em distâncias macroscópicas”. Não sei que chegue para entender este ‘como’. O físico de Cambridge continua. “não houve, que eu saiba, qualquer refutação da homeopatia que permaneça válida actualmente depois de ter em conta este ponto concreto”