domingo, 19 de outubro de 2014

O PENSAMENTO DOS PROFETAS BÍBLICOS



à luz da redução fenomenológica

trata-se duma comunicação ao colóquio Levinas entre nós, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 30-31/3/2006, organizado por Cristina Beckert, publicada nas respectivas Actas, editadas pelo Centro em 2006, pp. 233-246

O acontecimento de pensamento por redução filosófica alargada (a definição)
A República de Platão
A aliança pensada pelo Deuteronómio
Violência (filosófica, profética) contra violência da cidade (doxa, dívida)
Estrutura do discurso profético
Desgraça e endogamia

1. Assim como nós chamamos Filósofos à corrente de pensadores gregos que escreveram o que dizemos Filosofia, também chamo aqui Profetas à corrente de pensadores hebreus que escreveram o que dizemos Bíblia, a Bíblia hebraica, tanto a Lei como os Profetas. Isto todavia só é possível em referência à mudança de paradigma da exegese científica no último quartel do século 20. O ‘assim como’ inicial adverte da intenção de levar tão longe quanto possível a comparação entre as duas escritas, mormente a de Platão, apesar da grande diferença entre elas. Ninguém é obrigado a aceitar as Formas ideais eternas do platonismo para ler fecundamente o seu texto ; também não será preciso acreditar no Deus de guerra e fogo da velha Bíblia hebraica para tentar encontrar-lhe o pensamento.

O acontecimento de pensamento por redução filosófica alargada (a definição)
2. Recorro à operação fenomenológica da redução de Husserl para este ensaio, mas só o posso fazer mediante a consideração, demasiado rápida sem dúvida, do alargamento que ela recebeu nos textos de dois dos seus discípulos dissidentes, Heidegger e Derrida. Pode-se sustentar que a redução de Husserl consiste na repetição do gesto da definição, inventado pela escola socrática. No Ménon (71c), por exemplo, a questão da defi­nição é posta a propósito das virtudes - « o que é que dizes que é a virtude ? » - : por muito numerosas e diversas que sejam,, elas têm todas um a certa forma (que é) a mesma (hen ge ti eidos tauton), que faz com que elas sejam virtudes ». A sua definição consistirá em encontrar esse eidos tauton, essa forma que é a mesma em todos os comportamentos virtuosos, sobre os quais, diz Sócrates, « convém fixar os olhos », aonde eles se fazem, nos seus respectivos contextos. A definição arranca esse eidos que é o mesmo dos respectivos contextos particulares sob os olhos (e do que Aristóteles definirá como ‘acidentes’), criando-se um texto gnosiológico, intemporal, inlocal, incircunstancial, um texto de argumentos sobre essências assim definidas, que rompe com as narrativas e os discursos sobre o particular em seus contextos, que são qualificados de doxa (opinião, verdadeira ou não). Esta ruptura, que resulta da violência da definição (a chamada abstração) foi instituída, na Academia, no Liceu, na escola retirada, à margem das opiniões da cidade. Foi este arrancar de abstracção que Platão retomou como separação entre as Formas ideais celestes, saídas das definições, e as coisas definidas no seu contexto terrestre. Aquelas foram contempladas pela alma quando estava separada do corpo, estas, conhecidas através do corpo e dos seus órgãos, são geradas e corrompem-se como ele. Que o filósofo também é alterado nesta operação de redução, é o que assinala a imortalidade da sua alma virtuosa. Se Aristóteles atenuou esta separação e esta imortalidade, não deixou de vincar a separação, em relação à cidade e à doxa, da escola e do seu discurso, cada vez mais difícil de entender pelo profano.
3. Telegraficamente. Não creio forçar ao pretender que a epochê de Husserl é a retomada deste gesto de Platão, agora em relação à doxa académica e à sua « posição natural do mundo ». A primeira crítica que Heidegger lhe faz, ao reclamar o humano como ‘ser no mundo’, consiste em denunciar o gesto husserliano como escolar, separado do mundo da cidade (para o qual aliás Heidegger também não é terno), o objecto percebido pelo fenomenólogo já retirado do contexto, já definido. Introduzirá o discurso, o logos, e a pré-compreensão (os preconceitos) que lhe é necessária no mundo. Derrida continua, mas para entender como este discurso se liga ao olhar e ao mundo de fenomenólogo, como e donde lhe vêm os preconceitos, ele desloca a redução husserliana para a própria linguagem, para a diferença linguística entre sons e significantes (Saussure) : consegue assim dar conta, sem o explicitar, da aprendizagem da fala, do aparecer duma voz inédita de criança, através da redução das vozes empíricas dos outros que ouve, não retendo deles senão as diferenças significantes da língua. Num outro texto, mostrará como esta língua, que fala na sua voz e de que a criança é auto-afectada, con-sciente, a eleva à précompreensão heideggeriana, o olho e o mundo já na fala, eleva-a, digamos, ao nível do paradigma dos usos da sua tribo (receitas, regras, leis, jogos, sonhares). Teremos assim uma como que dupla redução, já não fenomenológica mas gramatológica, com a qual nos será possível, apesar do telegráfico, abordar a comparação entre Platão e os Profetas.
  4. A nova voz e fala como saber-fazer é provida de ‘substância’, digamos, em lugar da que foi reduzida dos outros, suportada por desejos[1] pré-éticos, quer de emulação, sem os quais não há aprendizagem possível, quer invejosos. É justamente o que dá corpo à doxa, aos discursos ou opiniões dos usos e dos desejos. Se dermos um salto para a ficção dum jovem adulto talentoso, em idade de substituir o pai e de lhe herdar a casa, que será chamado a tomar responsabilidades na sua comunidade política, eis que ele percebe que o jogo dos desejos invejosos entre casas se tornou tal que essa comunidade, puxada de vários lados, corre sérios riscos de desagregação, e portanto de derrota diante das ameaças inimigas. As tradições recebidas dos seus maiores, que ele aprendeu nos textos que circulam nas mãos dos mais esclarecidos, não lhe parecem estar à altura do que está em jogo, ei-lo dilacerado. Chame-se Platão ou Isaías, a minha ficção é que lhe sucede um acontecimento espiritual de pensamento. Uma iluminação sentida como gratuita, como o dom dum deus, mais forte do que as experiências de aprendizagem relevando da ancestralidade. É a descrição deste acontecimento que vou tentar.

A República de Platão
5. A República de Platão, que tenho por trave-mestra do seu pensamento (como a Física é a do de Aristóteles), foi objecto de três redacções. O livro I, que faz parte da colecção dos textos ‘socráticos’ sobre as principais virtudes (coragem, temperança, piedade), procura definir a da justiça. Em seguida, os livros II-IV e VIII-IX põem a questão da cidade justa. Enfim, os livros V-VII et X retomam a argumentação da proposta revolucionária, colocando no coração da cidade a educação filosófica dos seus guardiães. A radicalidade do texto mede-se na prposta da abolição das casas : os guardiães não se ocuparão de economia, não serão patrôes, não terão mulheres estáveis nem conhecerão os seus filhos, isto é não serão maridos nem esposas, pais nem mães, apenas guardiãos e guardiãs. Queria assim acabar com os desejos invejosos, só foi levado a sério por quem teve vocações monásticas ou equivalentes. 
6. Pode-se dizer que esta sequência de três redacções é a do pensamento de Platão, como quereria Levinas : primeiro a ética, herança de Sócrates, em seguida a política por razões éticas é já da responsabilidade de Platão, assim como, em 3º lugar, a ontologia. Mas foi a inadequação da ética sozinha do diálogo socrático que empurrou Platão para a revolução política e para a fundação da Academia[2], com o fim de formar cidadãos para dirigir a polis. Ora, é notável que, lendo os seus diálogos segundo a sua sequência provável, se vai vendo que os principais acrescentos de Platão à herança do seu mestre venerado, sejam assinalados por alusões ou a espécies de sonhos, ou à inspiração dum deus, ou ao ensino duma Diótima inspirada ou dum mestre reputado como Parménides (são os dois casos em que Sócrates perde o lugar principal e ocupa o de interlocutor que aprende), enfim dum possível « deus da refutação » (Sofista 216b). Por assim dizer, índices duma experiência de pensamento ultrapassando o seu pensador.
7. O jogo dos desejos é assinalado pela importância do motivo da doxa no texto platónico, a opinião, em contraste com o da épistémê, saber ou ciência, que ele procura estabelecer através da busca de definições por um diálogo posto à prova do diálogo e da refutação. Aliás a batalha contra a doxa é fortemente agudizada pela rivalidade com o ensino dos sofistas. Em todo o caso, a fundação da Academia (durou 9 séculos) assinala a violência desta verdadeira batalha : a retracção nas margens da escola é, com efeito, uma espécie de escudo defensivo (que Sócrates teria certamente recusado). É o correspondente institucional ou político da redução operada pela definição, uma quase clandestinidade diante da doxa e dos seus desejos a vencer. Ambição demais, sem dúvida, e tarde demais também : as tropas de Filipe da Macedónia, vencedor dos Gregos em 338, confirmaram os piores temores do filósofo ; felizmente para ele, tinha morrido uns dez anos antes.
8. Ora, a revolução política não fôra possível de ser proposta senão reduzindo, em pensamento que procura definir, as instâncias da cidade, as suas gentes, casas e instituições políticas, a fim de encontrar a sua estrutura justa (cada um na sua função própria, especializada) e de diagnosticar os desejos de ir mais além dessa função como o que constituia o problema. Por outro lado, essa ‘revolução’ também não era pensável sem o seu correspondente escolar de aprendizagem das artes e da filosofia, de que as virtudes faziam parte, com a consequente disciplina dos desejos por cada um. A ética tem um papel decisivo enquanto laço ‘individual’ dos seus desejos pela alma de cada guardião, laço esse que se articula com o conjunto das novas instituições políticas. É assim uma espécie de duplo laço social que serve de estrutura implícita da ‘república’ de Platão : um duplo laço, não dois laços, já que o ensino liga cada um, mas são esses laços individuais que suportam o laço social. Aristóteles repensá-lo-á, restituindo as casas como lugar do laço social, dizendo respeito sobretudo aos usos económicos e familiares e de aprendizagem por cada um do respectivo saber-fazer (é a casa que é o lugar e o laço das reduções gramatológicas evocadas inicialmente) ; mas guardou a escola, o seu Liceu, como instituição da formação dos cidadãos responsáveis da cidade, como uma outra articulação do duplo laço social (lugar-laço de reduções antropológicas ou políticas)[3]. É este duplo laço social que torna possíveis acontecimentos, incluindo os de pensamento, que justamente não são ‘experiências interiores’ mas de ‘seres no mundo’, com os olhos bem abertos sobre a desgraça do seu país, lendo os seus predecessores, filósofos ou profetas segundo os casos, ou seja trata-se de experiências que são imediatamente sociais, de que a disputa com a doxa é parte integrante.

A aliança pensada pelo Deuteronómio
9. Evoquemos muito brevemente o contexto político das intervenções dos profetas bíblicos. O hebreu David, por volta do ano 1000 AC, soube aproveitar do recuo, de 3 a 4 séculos, do domínio guerreiro e político dos impérios do Egipto e da Mesopotâmia na região da Palestina para fundar um reino cobrindo a quase totalidade da região. Após a morte do seu sucessor, Salomão, dividiu-se em dois reinos, Israel ao norte e Judá ao sul. A capital do primeiro, Samaria, foi tomada em 721 pelos Assírios, Judá sendo obrigado à vassalagem. Cerca de um século mais tarde, o rei Josias aproveita da faqueza assíria para retomar a autonomia, mas os seus sucessores, em 598 e em 587, foram vencidos e deportados para a Babilónia, até 538, quando os Caldeus foram vencidos por sua vez pelos Persas que autorizaram o regresso dos deportados e o restabelecimento duma autonomia relativa na nova vassalagem, mas sem monarquia, os sacerdotes do Templo de Jerusalem assegurando a autoridade local.
10. A derrota diante dos Assírios foi a ocasião das intervenções duma espécie de peritos em política internacional, os nabi ou profetas : Oseias, Amós, Miqueias e sobretudo Isaías, de quem temos livros. Um autor anónimo – o Platão da Bíblia – aproveitou da retomada de Josias para escrever o texto que se veio a chamar do Deuteronómio, preconizando uma aliança em torno do Templo de Jerusalem, entre Yahvé, o deus ancestral, e o povo de Judá, a qual aliança foi ratificada, segundo 2 Reis 22-23, em 622. A segunda e definitiva catástrofe foi também envolta de intervenções de outros profetas, nomeadamente Jeremias, assim como durante e após o exílio, Ezequiel, um 2º e um 3º Isaías, entre outros. É dessa época que data a escrita dos quatro primeiros livros da Bíblia hebraica : trata-se duma longa narrativa, em perspectiva profética e tendo em conta a aliança deuteronómica e o seu fracasso, escrita a partir das suas tradições míticas e legendárias. A restauração, após o regresso do exílio, do segundo Templo de Jerusalem esteve na origem do judaismo endogâmico, tanto na Palestina como na Diáspora : o Livro é o seu coração. Todavia os profetas parecem ter desaparecido com a monarquia davídica.
11. Em que é que consiste esta aliança ? Inspirava-se nos tratados que, após uma guerra, a nação vitoriosa impunha à vencida, tornada vassala, com obrigações de fidelidade e de tributação, em troca de protecção face a outros inimigos eventuais, que podia ser pedida em caso de ameaça. É Oseias, nos textos que nos chegaram, o primeiro a falar em tal aliança : com Yahvé e não com as outras nações e seus deuses. O Deuteronómio retoma esse motivo e cria a encenação dum discurso que teria tido no deserto de Moab, dois ou três séculos antes de David, o chefe guerreiro e religioso duma das tradições israelitas, Moisés, à multidão dos antepassados deles, antes de terem entrado no país actual. Esta grandiosa ficção começa com a narrativa da aliança (cap. 5, os 4 primeiros são acrescentos posteriores), com outorga por Yahvé do célebre Decálogo (dez mandamentos) na montanha do Horeb (ou Sinai) : o povo compromete-se a pô-lo em prática, Yahvé compromete-se a abençoá-lo na Terra que lhe dará – fecundidade das casas em filhos, colheitas e gados, vitória sobre os outros povos, seus inimigos, se, e apenas se, o povo obedecer à Lei. Após algumas injunções a pô-la em prática, “com todo o teu coração, o teu desejo (nèphesh), com toda a tua força”, os cap. 12 a 28 oferecem o direito correspondente a essa aliança : primeiro ‘constitucional’, ‘comum’ a seguir. Retenhamos dois pontos importantes. Cria-se uma unidade ‘nacional’ em torno do Templo real de Jerusalem, construído outrora por Salomão, e ordena-se a destruição de todos os outros templos e altares do país : mono-arquia e mono-teismo são assim ligados, aquela submetida a este, nomeadamente pela ética que é exigida antes de mais ao rei. A legislação social repousa sobre a doação do supérfluo de cada casa aos que, sem casa, viúvas, órfãos, estrangeiros imigrados, vierem colher para sobreviverem, em torno da prescrição seguinte : « que não haja pobre no meio de ti » (15,4).  Um texto posterior retomá-la-á num aforismo que fez fortuna : « amarás o teu vizinho como a ti mesmo » (Lev 19,18). Foi esta injunção ética que o deserto revelou, com a redução de todos os outros usos e práticas aprendidos dos antepassados.
12. Se se compara o que é comparável entre este texto e a República de Platão, encontra-se esta semelhança, que agradaria a Levinas : primeiro a ética - lá das almas, aqui dos corações -, em seguida o político de maneira a que o jogo dos desejos apropriadores (da parte dos ricos nomeadamente) não desagregue o tecido social das casas. Os ‘eu’ legisladores de Yahvé et de Moisés dirigem-se a um ‘tu’ que tanto é cada israelita presente como o conjunto que eles formam como povo de Israel, já que tanto há preceitos que são pessoais como outros colectivos, que ligam socialmente todos os israelitas. Esta ética diz respeito a cada pai de casa, lugar e laço da actividade económica (agricultura e criação de gado, essencialmente), à disciplina dos desejos, mas o preceito de dar, de amar o seu vizinho, abre esse laço para o articular ao laço social global que a Lei, o Templo e o rei devem assegurar. O duplo laço – em cada casa e entre o conjunto das casas – já existe, é constitutivo de cada sociedade : a aliança visa torná-lo ético, « sêde santos, porque eu, Yahvé vosso Deus, sou santo » (Lev 19,2). Ainda aqui Levinas parece justificado. O papel da escola é aqui tido pela Lei que todos devem ler, diferença capital com os Gregos de Atenas : isto diz respeito a toda a gente, não apenas à elite que vai à escola. No judaismo, com efeito, a sinagoga terá um papel de acesso à Lei.

O acontecimento de pensamento por redução profética (o deserto)
13. Permanece uma  questão : porque é que esta ficção escolheu o deserto para a sua encenação ? Trata-se duma operação de pensamento, duma redução, não filosófica, não gnosiológica, mas sobre narrativas, que eu diria profética : redução da terra, das suas casas, dos seus usos agrícolas, das instituições monárquicas. Com efeito, é todo este mundo vivido, que tem quase quatro séculos de história na época da escrita deste texto, que é ‘suspenso’, ‘posto entre parênteses’, para que a lei ética e o direito correspondente tenham o primado absoluto : sobre a fecundidade das mulheres, da terra e dos gados e sobre a ancestralidade de quem qualquer sociedade recebe o seu saber-fazer. O que é assim reduzido pelo deserto é a multiplicidade dos dons duma colheita (o solo, o calor, a chuva, o adubo, o saber da poda), atribuindo toda a fecundidade a Yahvé só : é por isso que ele pode prometer a terra, que é já há centenas de anos o seu próprio país, a Israel. Ora, a riqueza neste tipo de sociedades agrícolas e de criação de gado depende das diversas fecundidades e de muito trabalho : no deserto, isso não conta. « Livra-te de dizer no teu coração : ‘foi a minha força, o vigor da minha mão, que me deram este poder’. Lembra-te de Yahvé, teu Deus : foi ele que te deu esta força, este poder, guardando assim como hoje a aliança jurada aos teus pais » (Dt 8,17-18). Separado por esta redução antropológica, Yahvé deixa de ser o « Deus do teu pai » dos mitos hebraicos mais antigos, deixa de estar ligado à ancestralidade dum povo, como sucede a todos os Deuses dos humanos, em todo o lado e em todos os tempos : poderá ser colocado como um Deus sem povo que cria um para si, que chama Abraão para fazer da sua descendência o seu povo eleito, que ele próprio escolheu. Este Yahvé separado – numa instância que transcende o seu povo – poderá tornar-se, um ou dois séculos mais tarde, o Criador do universo : o texto admirável de criação em dez palavras e sete dias que é o primeiro capítulo da Bíblia admite muito bem o confronto com o Timeu de Platão como um texto de razão, além dos mitos. Os profetas, quero dizer os escritores dos primeiros textos da Bíblia hebraica, foram pensadores, compreende-se que eu tenha comparado o autor anónimo do Deuteronómio a Platão.

Violência (filosófica, profética) contra violência da cidade (doxa, dívida)
14. Disse atrás que a ruptura do texto filosófico com a doxa foi violenta, como a condenação à morte de Sócrates atesta : esta violência do tribunal de Atenas não foi desencadiada apenas contra a sua ética mas, julgo eu, pelo facto desta ética estar armada da violência da definição, que o escárnio da doxa não conseguia aparar. Violência atestada, por outro lado, também o disse, pela separação da escola, tornando possível o diálogo pedagógico de iniciação ao novo saber. São estes diálogos que nos contam o acontecimento de pensamento de Platão que leva os seus interlocutores para a abstracção, o novo olhar sobre as coisas, os humanos e a cidade. À invocação da divindade a que aludi (§ 4) como índice da novidade do que é avançado sob a sua égide (e qualquer invenção é violenta de usos adquiridos, até se tornar o bem da comunidade), há que acrescentar o impasse do platonismo sobre a aprendizagem (não se esqueçam que é sobre esta que incide a redução de Derrida), de que é testemunha o diálogo de Sócrates com o escravo de Ménon : os humanos não aprendem dos outros – geometria, por exemplo -, eles não são senão a ocasião, é a alma que se lembra, no tempo em que ela não estava ligada ao seu corpo actual e contemplava as Formas ideais celestes. Mais tarde, esta reminiscência é abandonada, o Teeteto propõe em seu lugar a teoria da maiêutica, o parto dos discursos pelas almas dos homens de que o estéril Sócrates é apenas o parteiro. Esta esterilidade parece reenviar também ao carácter ‘divino’ do pensamento sem aprendizagem, sem que o leitor de Platão possa saber se todos os mestres devem ser estéreis em termos de saber (seria a posição não-directiva dum Carl Rogers) ou se se tratava apenas da singularidade de Sócrates, do inventor da definição.
15. Antes de considerarmos as diversas narrativas em que os profetas bíblicos contam a sua vocação : os três grandes, Isaías, Jeremias e Ezequiel, mas também Oseias, Amós, Gedeão, Moisés, Samuel, o 2º Isaías, Jonas, o papel primordial do Deuteronómio na instauração da Bíblia hebraica, segundo o novo paradigma da exegese cristã, convida a olhar a sua formidável narrativa da outorga do Decálogo na montanha do Horeb no deserto como a narrativa da vocação de Israel ccomo povo eleito. ‘Formidável’, já que ela mete medo, segundo a narrativa de Moisés (leiamos esta narrativa fictícia como acontecimento de pensamento dum profeta israelita), que começa assim : « Yahvé nosso Deus concluiu connosco uma aliança no Horeb. Não foi com os nossos pais que Yahvé concluiu essa aliança mas connosco, nós que estamos aqui hoje todos vivos. Na montanha, no meio do fogo, Yahvé falou-vos face a face, e eu estava então entre Yahvé e vós para vos dar a conhecer as palavras de Yahvé ; já que, com medo do fogo, vós não tínheis subido à montanha ». E termina assim : « Foram estas as palavras que Yahvé vos dirigiu quando estáveis reunidos na montanha. Falou-vos do meio do fogo, na nuvem e nas trevas, duma voz forte. Não acrescentou mais nada e escreveu-as sobre duas tábuas de pedra que me deu. Ora, quando ouvísteis aquela voz a sair das trevas, enquanto a montanha estava em fogo, vós todos, chefes das tribos e anciãos, viesteis a mim e dissesteis : ‘Vimos Yahvé nosso Deus, a sua glória e a sua grandeza, e ouvimos a sua voz vinda do meio do fogo. Constatámos hoje que Deus pode falar ao homem, e este permanecer em vida. Mas deveremos morrer, se este grande fogo nos fosse consumir, ou, se ouvirmos outra vez a voz de Yahvé nosso Deus, vamos perecer ? Pode um ser de carne permanecer em vida, depois de ter ouvido como nós a voz do Deus vivo falando do meio do fogo ? Aproxima-te tu para ouvires tudo o que Yahvé nosso Deus te dirá, depois tu nos repetirás o que ele te terá dito ; nós escutá-lo-emos e pô-lo-emos em prática » (Dt 5,2-5,22-27).
16. É certo que houve antes textos de profetas – o de Oseias falando de aliança, a visão de Isaías no Templo – que abriram o caminho ao autor do Deuteronómio. Mas este, se se pensa na época da sua recepção no tempo de Josias, não deixa de ter um alcance inaugural nesta encenação : esta encenação de abertura pode ter, em relação ao conjunto do texto bíblico, um alcance equivalente – não creio que Levinas tivesse gostado da comparação – ao da colocação das Formas ideais celestes no coração da República de Platão. Em ambos os casos, com efeito, trata-se de fazer da separação Céu / Terra a medida ética, por assim dizer infinita, duma formidável reforma política da cidade dos humanos, isto em ruptura de escrita com os mitos da religião holística oficial, no quadro dum pensamento reduzindo o tecido social contemporâneo desses pensadores. Eles reinventam assim, cada um à sua maneira, a origem das sociedades respectivas : a origem justa da polis no Grego, o deserto ancestral no Judeu. Ora, da mesma maneira que a separação ético-ontológica das Formas ideais, saídas da definição do eidos, exigiu, como seu correlato, a separação dos filósofos na Academia como buscadores da verdade, pode-se pensar que também a separação entre a voz divina vinda do fogo e das trevas e o povo de carne, mortal e medroso, remarcou, na figura do profeta Moisés (é o seu estatuto na narrativa), o lugar da palavra profética como transcendente ao discurso corrente de monarquia e das casas israelitas[4]. « Assim fala Yahvé », dizem audaciosamente os profetas proclamando a palavra deles. Este pensamento de redução arranca a palavra deles ao contexto do discurso corrente, faz dela uma palavra em contra-corrente, como se diz, contra a dívida.

Estrutura do discurso profético
17. As narrativas de vocação profética permitem caracterizar a estrutura do discurso profético. Algumas partem duma visão divina e da purificação[5] consequente dos lábios do profeta (Is 6) ou da sua manduca­ção dum livro (Ez 1-2). Outras encetam um diálogo entre a voz de revelação e a sua precaridade humana diante duma missão duma tal envergadura (Jr 1,4.10, Ex 3, 4 et 6, Jg 6,11-24), Jonas chegando a fugir antes dum segundo apelo (ver a sua discussão com Deus em Jonas 4). Mas a estrutura comum a todos é a mais simples : «  levanta-te, vai e anuncia-lhes o que eu te direi » (Jonas, 3,2)[6]. Tornar-se profeta, é ser-se arrancado à sua morada, ao seu parentesco (à sua carne), ao seu contexto empírico, para ocupar, melhor ou pior, o lugar duma palavra divina que o ultrapassa. Vale aqui o que Fernanda Bernardo dizia da experiência da santidade segundo Levinas : « o seu desígnio é pensar como é que a inquietação, o sobressalto, a obsessão do sujeito pela sorte do outro, se faz sentir nele mesmo, independentemente da sua vontade »[7]. É uma vocação irresistível : « o lião rugiu ? quem não tem medo ? O Senhor Yahvé fala : quem não profetizará ? » (Am 3,8). O acontecimento profético de pensamento é uma experiência violenta, empurrando para uma tarefa que o ultrapassa, e que não pode senão ser atribuída a uma divindade enquanto além do saber herdado dos antepassados (depois destes terem sido reduzidos).
18. Esta violência de arranque e envio todavia não se revela apenas aquando da origem da vocação, ela também tem a ver com o seu destinatário : o povo que não quer escutar esta voz que lhe lembra a aliança e a sua exigência de santidade, que não quer pôr em prática a lei do Horeb. Todos os profetas sofreram esta recusa, até mesmo perseguições (Jer 7, 23-28)[8], é um leit-motiv de toda a literatura profética, retomada pelos autores do novo Testamento cristão. Eles convidam os seus compatriotas, todo o povo, a uma conversão ética e política radical, põem em questão o que está em jogo nos seus desejos, intimam-nos a deixar a sua situação de dívida (awôn) em relação aos seus vizinhos ou outros. Este motivo, que a religião cristão, sob o termo de ‘pecado’, tornou deslavado, seria aqui um pouco o análogo da doxa em Sócrates e Platão : esta é o discurso da defesa dos interesses particulares nos tribunais e nos conflitos na cidade, da relativização das virtudes ; a dívida é o inverso da justiça : em vez da doação solidária, a apropriação pela força ou pela astúcia dos bens do vizinho, mulher, campo, servo, serva, boi, burro (Dt 5,21). É à violência destes desejos e destas apropriações que responde a violência da exigência da santidade, do fogo e da voz em trovão do Deus do Horeb. Platão - que diria na Academia : ‘compreende e torna-te filósofo para venceres a doxa e dirigires a cidade de forma justa’ – faz a experiência da impossibilidade que o seu discípulo aprenda a virtude e o saber, de fala a fala em diálogo : por isso recorre à reminiscência e ao parto maiêutico. A palavra do profeta dirige-se a todos e a cada um, procura suscitar neles práticas de conversão – ‘dai daquilo que Yahvé vos deu àquele a quem lhe falta, ele fará de Israel uma nação justa e forte’, - de palavra a prática de arrependimento. Mas é impossível[9], Isaías é obrigado a constatá-lo desde a sua narrativa de vocação, com esta palavra terrível que será retomada pelos quatro evangelhos cristãos e pelos Actos dos Apóstolos, a encerrar : «  vai, e diz a esse povo : escutai com todos os ouvidos sem compreender, vêde com os olhos sem perceber[10]. Embota o coração deste povo, torna-o duro de ouvido, tapa-lhe os olhos, para que os seus olhos não vejam, os seus ouvidos não ouçam, o seu coração não compreenda, não se converta e não se cure » (Is 6,9-10, Mc 4,12). O profeta pensa que esta dureza de coração que ele é obrigado a constatar e que o espanta não pode escapar à omnipotência da divindade, esta tê-la-á querido[11], mas constata também que a sua palavra, o pensamento que atribui ao Deus que o enviou, é, digamos em termos gregos e no sentido ético não pejorativo, idealista, , demasiado acima das possibilidades deste povo, votada portanto ao fracasso. Toda a história bíblica, judaica como cristã, o confirmará[12]. A condenação de Jesus pelo tribunal de Jerusalem revela tanto esta violência da palavra profética como a condenação de Sócrates revela a sua : foram a doxa e a dívida que então venceram, mas depois a cidade foi levada pela desgraça que eles queriam conjurar, Filipe da Macedónia num caso, Nabucodonosor de Babilónia no outro e Tito de Roma sete séculos mais tarde.
19. A aliança visa tornar justo o duplo laço social da ‘casa d’Israel’ como condição de bênção quer de cada casa quer de todas, e também em relação às outras nações vizinhas (que virão aprender com Israel, quando virem como a sabedoria deles é condição de potência política) [13]. Haveria que formalizar esta retração-envio com ruptura : uma palavra-lei vinda de fora do social que diz como é que se deve refazer esse laço, em aliança entre todos e cada um ligado ao seu Deus pela leitura e prática dessa lei. Assim como a filosofia define para fazer compreender (ciência) o que se vê de maneira diferente da doxa, também aqui há que praticar de outra maneira do que a dívida. Doxa e dívida são delas mesmas éticas e políticas : para as vencer é preciso que haja justiça na cidade. Seria necessário conseguir aproximar estas experiências de vocação profética, a iluminação que os arranca ao contexto de habitação que foi sempre o deles, aproximá-las das experiências de evidência que a definição traz aos filósofos socráticos que a descobriram, maravilhados. Trata-se de gestos de escrita crítica das tradições recebidas, de gestos de modernidade. É a fecundidade da escrita (palavra e prática : narrativa) que eles procuraram pensar e praticar, pensar a inovação de pensamento e a sua multiplicação nos outros, de mestre a discípulos (já não de pai a filho), também das razões das recusas que ele suscita. O que é que a palavra opera ? Ela diz, nos que a escutam, o mesmo que naquele que a diz (fazer a mesma prática ética : amarem-se uns aos outros, partilhar), sem todavia abolir a alteridade mútua, já que eles podem acquiescer, ou não escutar ou muito simplesmente recusar (é a parábola dos terrenos semeados em Marcos 4,3-20). Aceitar a palavra nos seus frutos éticos : eles tornam-se o mesmo (um no Messias, em Paulo). Em Platão, no Banquete, o eros dos dois amantes : amam a beleza dos corpos, depois a beleza intelectual, depois a verdade (platónica, a das Formas ideais), eles tornam-se um no amor intelectual do Bem.
20. Estas narrativas de vocação profética implicam, mais ou menos desenvolvida, uma teofania (mais tarde substituída por anjos) : visão divina por vezes, escuta em todo o caso da voz que envia. A palavra ‘experiência’ seria aqui muito ambígua, nomeadamente por causa da ‘interioridade’ que no Ocidente prevaleceu para este tipo de fenómenos espirituais. Para não largar as exigências filosóficas do motivo da redução –experiência de pensamento que não é estritamente filosófica (nem esta é ‘interior’, mas com os olhos abertos sobre, como vimos), para que seja compreensível por leitores não crentes em entidades divinas – digamos que se trata dum acontecimento espiritual que sucede ao profeta e que deve ser proclamado, tornado público, dirigir-se ao povo com segurança, em função da aliança estabelecida entre o Deus e ele.  A palavra ‘acontecimento’, correlativo de narrativa, implica que o profeta proclamou o que tinha que ser proclamado (em verdade, em termos filosóficos), que a sua palavra não vale senão em vista desse endereçar-se ao povo. A palavra ‘espiritual’, por seu lado, implica que o profeta crê naquele que o enviou assim, em nome de quem ele fala, a modos que é a sua ‘evidência’, mas – já que se trata aqui duma operação quase filosófica que conta ‘com’ o trabalho filológico e de historiador da ciência exegética – não deve implicar, da parte dum leitor moderno culto, a fé na existência desse Yahvé (é a vantagem de guardar este nome ‘étnico’).  Se falo de ‘acontecimento de pensamento’, é na mira de tornar possível a leitura destes textos que recebemos duma tradição de escrita e leitura (pouco importando que ela não tenha origem verificável, acontece a qualquer literatura), assim como podemos tentar compreender o pensamento de Platão sem aderir ao platonismo.

Desgraça e endogamia
21. É a desgraça que suscita os profetas[14] - cativeiro no Egipto, ameaça de destruição pelos Assírios, deportação em Babilónia -, que acorda neles o pensamento de que só a justiça da aliança preconizada pelos seus antecessores está à altura de salvar os seus compatriotas. Mas quando chegam é tarde demais. Estes textos tão fortes têm então que esperar outros contextos para produzirem os seus efeitos. O que sucederá no retorno do cativeiro da Babilónia. Reconstruindo o Templo de Jerusalem e conjurando o povo a seguir a Lei dos profetas, Esdras tirou a consequência da lição e do fracasso deles : preconizou o casamento endogâmico, isto é, a separação deste povo ‘eleito’ de todos os outros em redor. Fez-se figurar o antepassado Abraão como fiel a um envio semelhante a uma vocação profética : « deixa o teu país, os teus parentes e a casa do teu pai, vai para o país que te indicarei. Eu farei de ti uma um grande povo […] » (Gn 12,1-2). A promessa da aliança, no Horeb sob a condição estrita da fidelidade do povo à lei, torna-se na promessa incondicionada de bênção a esse ‘grande povo’, doravante separado dos outros. O seu Deus tornou-se silencioso ; ele atravessará, hélas !, numerosas desgraças, mas chegará até hoje, único com os Gregos entre os povos antigos e as suas línguas. Foi um dos efeitos do pensamento da escrita profética, pois isso não teria sucedido sem a leitura fiel dela.

P. S. enviado ao R. Epifânio após o colóquio, a propósito duma questão que me pôs no debate

Renato, queria agradecer-lhe a sua questão, que me apanhou desprevenido e à qual respondi atabalhoadamente. E agradecer-lhe porque me fez pensar. Aqui vai um ensaio de resposta.
A dificuldade consiste no seguinte : o texto filosófico é intemporal,  exclui as narrativas. Sendo a Bíblia composta de narrativas que formam uma longa narrativa, que se pretende histórica, nomeadamente com a sequência de genealogias de antepassados, desde Abraão, maneira de nesse tipo de sociedades se fazer um texto ‘histórico’, parece clara a oposição com o texto gnosiológico grego. Mas justamente, e foi aí que eu resisti ao carácter óbvio da sua pergunta, há nessa narrativa algo que resiste, que está mais perto de Platão do que parece.
É que a narrativa começa com a criação, depois com um Deus sem povo a criar um povo, idem para a saída do Egipto, etc.; o ter-se gorado a aliança leva a um messianismo escatológico de final dos tempos, que acabará a narrativa. O que permite perceber que a grande narrativa, se inclui obviamente narrativas humanas, é dominada no seu conjunto – enquanto ‘história’ – pela ‘acção’ de Deus e não pela dos humanos, é o que se chama uma história de salvação, em que o principal actor é Deus. O que significa que as narrativas humanas são desvalorizadas, como os acidentes (ou acontecimentos) em Platão ou Aristóteles.
Isto é muito mais evidente na Bíblia cristã, no Novo Testamento, que começa (cartas autênticas de Paulo, Marcos, Mateus) por anunciar o final dos tempos para breve : o Messias é o que acaba a história da salvação, da iniciativa de Deus. Por exemplo, Paulo renega o Jesus segundo a carne, só quer saber do Cristo (Messias) ressuscitado, que foi para Deus e que voltará. Ora, o que ele renega, desvaloriza, é o que contam os evangelhos, a narrativa de Jesus. Ou então, o Credo, qualquer das duas formas, a da Missa ou a simplificada : só há ali história de salvação, mítica, o narrativo é mínimo (Pilatos quase só, Jesus e Maria). A história como temporalidade dos humanos só começou a ser levada a sério com Hegel e Marx, e aí ainda com ‘fins’, aliás (conheço mal Hegel…), a sociedade sem classes ainda é ‘teológica’, embora secularizada.








[1] Envies, na antropologia francesa, intraduzível em português, de forma a dizer as boas ‘envies’ e as invejosas.
[2] É provável que a República, com o Górgias, o Protágoras e o Banquete, sejam os textos publicados por Platão em torno da fundação da Academia.
[3] A República, anulado o laço social da casa, substituía-a por esta nova articulação escolar, o que ia bem com o laço político em que o filósofo era rei.
[4] A transcendência é o passo « além da fortuna » (a epekeina tês ousias, palavra privilegiada por Levinas que coloca o Bem antes das coisas do mundo), além dos desejos das sociedades de casas, que corta com o ‘mal’ – é a pureza da alma e do coração, respectivamente, este corte – em direcção ao Bem (virtude) e à Verdade (ciência) em Platão, à Santidade (justiça) e à Lei nos profetas ; é este passo transcendente que estará na origem das futuras instituições de escrita, a escola, a sinagoga, a ecclêsia.
[5] Que marca o arrancar desses homens ao seu sítio para os santificar, reduzindo os seus laços empíricos aos desejos das casas, ao mundo das dívidas : em suma, primeiro a conversão, em seguida a missão para a justiça ou santidade global, é isso a aliança. Ora, o mesmo se passa no Fédon, em que se se desliga dos desejos das casas para os da alma, a virtude e o saber; a singularidade de Sócrates e do platonismo é a relação entre este desligar–religar e a definição em vista da redução da doxa
[6] Ver também Am 7,15, Is 6,9, Jer 1,7, Jz 6,14,1 Reis 19,15, Ez 3,27, Ex 3,10, 4,12, 6,6 (três versões diferentes da vocação de Moisés), Jonas 1,2, 2nd Is 40,6 (cf. Gn 24,4 e Mt 8,8-9). Li com muito proveito, para encontrar e analisar estas narrativas, P. Ricœur, « Le sujet convoqué. À l’école des récits de vocation prophétique », Revue de l’Institut Catholique de Paris, 1988, pp. 83-99, e W. Vogels, « Les récits de vocation des prophètes », Nouvelle Revue Théologique, 95, 1973, nº 1, pp. 3-24, este citado por aquele.
[7] F. Bernardo, Transcendência e Subjectividade. A ‘Subject-illeida­de’ ou a responsabilidade ética como incondição do sujeito em Emmanuel Lévinas, tese de doutoramento, 2000 (primeirea redacção fotocopiada de 1997), vol. I, p. 168 (eu sublinho).
[8] Ex 6,9, Jer 1,19, Ez 3,24-27, etc.
[9] O espírito de Yahvé dá-lhes a audácia, a coragem para essas missões impossíveis, face à regra social da sociedade e das suas casas, dos seus parentescos, em habraico ‘basar’, a carne. Estes dois motivos paulinianos têm aí a sua fonte. Este motivo do impossível foi tratado por Levinas e por Derrida, sem que eu o saiba aqui tematizar de forma consequente.
[10] O que não deixa de evocar a crítica platónica das possibilidades de conhecimento das sensações.
[11] A terrível tese teológica da predestinação de Agostinho e de Calvino terá tido aqui a sua fonte.
[12] Ver o discurso do heleno-cristão Estêvão em Actos 7,2-53.
[13] É da ausência de relação entre a sua justiça e a sua desgraça que Job se queixará, alguns séculos mais tarde, criticando pois este pensamento profético, como se ele tivesse sido desmentido existencialmente.
[14] Os filósofos também : a fenomenologia de que nos reclamamos aqui foi suscitada por uma ‘détresse’ epistemológica, « a crise das ciências europeias » (« se consideramos a miséria filosófica em que nos debatemos em vão », Ideen, p. 167). Que ‘intuição’ pode ter um filósofo que define, ou um profeta ? A duma certa repetição das dos seus antecessores, leitores quer da palavra filosófica / profética, quer da situação de injustiça e desgraça da sua época, da sua gente, receber dela uma injunção para ir proclamar contra a doxa, contra a dívida.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

As ‘almas’ de Aristóteles e os duplos laços




1. Isto foi feito em cima do joelho. Ao acaso duma conversa sobre a diferença entre alma e espírito, o recurso à tripla concepção aristotélica de ‘alma’ fez de repente ‘tilt’ na minha cabeça (mas não chegou para me propor uma leitura cuidada dos textos). A alma vegetativa é o que dá forma ao corpo enquanto capacidade de nutrição, à maneira das plantas, assim como a sensitiva lhe dá capacidade de conhecimento do mundo em que o animal se move. Ora, quando comecei o meu Le Jeu des Sciences, justamente pelo capítulo sobre as ciências da vida, veio-me quase espontaneamente a distinção entre o sistema da nutrição e o sistema da mobilidade, que mais tarde vim a compreender como o duplo laço das anatomias zoológicas. Em que consistem então esses laços? O da nutrição corresponde ao que liga os vários órgãos que concorrem para a nutrição de todas as células do organismo, razão pela qual, embora o sistema não corresponda a todos os órgãos da anatomia, pode no entanto ser compreendido como ‘forma’ ou ‘alma’ de todo o corpo. Mas será uma alma incompleta, que precisa da outra ‘alma’, sensitiva, já que a nutrição animal, ao contrário da das plantas, exige o deslocamento em busca de que comer e este pede os órgãos de conhecimento, visão, audição, tacto, e sobretudo faro e olfacto, que permita descobrir presas e discernir o que se pode e não pode comer, mas pede também membros móveis. Só que Aristóteles não liga estas sensações que permitem conhecer o mundo (sensível) em que se é – onde ele aliás inclui a voz e a fonação em correlato com a audição, o que os nossos ‘cinco sentidos’ tradicionais não fazem, como também não consideram o ‘trabalho’ das mãos ao tratarem do tacto – aos órgãos da mobilidade, o movimento do animal e do humano sendo analisado depois de todas as diversas faculdades como tendo o seu princípio no desejo e no intelecto, que é o que faz ‘mover’ (localmente) para fins: a busca ou a fuga de qualquer coisa. Talvez o faça no seu tratado sobre “as partes dos animais”, um texto de anatomia comparada.
2. Qual a razão desta maneira de abordar? Provavelmente, a consideração da alma como princípio de funções e de faculdades é a razão principal, resultante da exclusão do contexto pela definição (embora após observação desse contexto como condição duma boa definição). A própria faculdade de nutrição, que dá conta por exemplo do crescimento dos animais, é uma faculdade da alma, sem considerar que o alimento vem de fora e implica a mobilidade que considera mais tarde, perto do final do texto. Essa razão principal tem como implicação análises separadas dos vários órgãos e respectivos funcionamentos; uma ligação das sensações faz-se no sentido comum a todas, o qual permite percepcionar o movimento e o repouso, a figura, a grandeza, o número e a unidade. Há sem dúvida aqui um efeito, se dizer se pode, da ontoteologia herdada de Platão e da definição, embora reelabore esta herança criticamente nas suas análises.
3. Então como caracterizar o que chamo sistema da mobilidade? Ele liga os órgãos perceptivos ao cérebro e este aos músculos da mobilidade e os jogos hormonais que excitam ou inibem, implicando por exemplo a fonação correlativa dos ouvidos, assim como as mãos (trabalho) e os pés (deslocamento) correlativos dos olhos. Ele é o ‘aparelho’ da anatomia do animal (de que o sistema da nutrição é o ‘motor’), pertencendo ao todo do animal, os seus órgãos são igualmente alimentados, mas diferencia-se do sistema da nutrição, não apenas pela mobilidade como também pelo repouso: com efeito, o sono dirige-se justamente a ele, nomeadamente à tonalidade dos músculos mas também à percepcionalidade dos olhos (que chegam a ser ocupados pelos sonhos!), ouvidos e tacto, que ficam adormecidos, capazes de serem alertados por situações perigosas embora. Forma uma ligação dos seus órgãos (que é excitada pela fome e sede que vêm da ligação do sistema de nutrição) através do sistema neuronal – duplo cérebro e nervos –, o paleo-cortex vigiando, controlando a homeostasia do sangue nutricional, tendo pois uma função decisiva na nutrição, enquanto que o neocortex se dirige mais à mobilidade: trata-se pois duma dupla ligação, nenhuma das duas ligações joga sozinha (como será talvez o caso da nutrição das plantas?), é essa, juntamente com a sexualidade, a espantosa invenção da evolução desde muito cedo.
4. Resta a questão da alma intelectiva aristotélica nos humanos. É sem dúvida aonde a ontoteologia prega uma maior partida ao Aristóteles inventor da lógica: é que, sem nunca ter feito uma leitura suficientemente trabalhada do Da alma, creio que o motivo do logos que está no coração do aristotelismo surpreende aqui pela sua ausência. Imaginação e inteligência são estudados por assim dizer ‘biologicamente’, quase como os neurologistas de hoje (sem ofensa), procurando dar conta da experiência intelectual que distingue, senão todos os humanos, pelo menos aqueles que os filósofos mais apreciam. Há uma alma para a inteligência, esta sendo ‘passiva’, como as sensações que se recebem de fora, e há um intelecto agente, activo, que mal se explicita e foi muito especulado. “O pensamento que vem quando ele quer e não quando eu quero” de Nietzsche? As leituras e a audição dos mestres, o saber que voga na sociedade e interpela cada um, como ‘agente’? Vá-se lá saber. A não ser que se interrogue no tratado Da Política a mais célebre definição de humano do Ocidente, zôon echon logon, o animal que tem discurso, em que logos tanto é pensamento, razão como língua, fala. Eis o que corrige o Da alma em seu biologismo, que obriga o intelecto humano a ‘transcender’ o corpo e a sua alma sensitiva: é do mundo social que vem o logos contando com língua e saber tradicional, o intelecto é aí que se aprende e desenvolve, passivo que se inscreve como activo. No que diz respeito ao duplo laço dos humanos, aquele que releva da mobilidade liga cada um à sua tribo pelos usos e linguagem com que ela o prende, faz aprender até à espontaneidade, tal que já Aristóteles e ainda os nossos melhores neurologistas caiem no logro de pensar o pensamento como idion, próprio de cada um, como se fôssemos idiotas que nada aprendem. Mas trata-se do maior enigma, de como a tribo nos faz nós, nos deixa ser na nossa singularidade.

domingo, 21 de setembro de 2014

O dinheiro a favor e contra a liberdade




1. Porque é que  a esquerda está encurralada, como Hollande acaba de mostrar ao largar o seu discurso de há dois anos? Porque enquanto que a política é local, a chamada globalização é a dos capitais e das suas guerras, como dizem: ‘competitividade’. Electrónica, ela também é das palavras, dos números e das músicas, com a diferença de que estas são de borla para quem as usa e repete, enquanto que moedas e notas têm uma cunhagem ou uma assinatura política que atribui a cada uma um dado ‘poder de compra’, adequado à língua dos preços das coisas (oscilante segundo as conjunturas), poder do seu possuidor que se transmite anonimamente de mão em mão, ao invés da palavra, número ou nota musical, gratuitas e sociais indissociavelmente. É esse poder apropriado que permite a troca de notas ou moedas por tal ou tal mercadoria. Quanto aos cheques e cartões electromagnéticos de multibanco ou de crédito, a assinatura individual e o segredo dos códigos não substituem a marca política, já que eles exigem a instituição bancária que os edita e que estabelece a sua equivalência às notas. Assim como as notas obviam ao esgotamento das moedas, também assim os cheques ao das notas, às malas cheias destas: um ponto da importância estrutural dos bancos.
2. A propriedade privada do dinheiro, no bolso e nas contas no banco, asseguram, em sociedades de produção especializadíssima, a liberdade de escolha do que se compra como estando na essência do mercado, em vez de listas de rações distribuídas pelas autoridades (Cuba). Ora, faz parte da lógica do sistema que a prossecução dos interesses próprios dos bancos (segundo a sua liberdade) possa jogar contra os dos seus clientes se faltar a devida regulação, foi o que nos ensinou a crise destes anos de troika, a destruição da economia, falências e desemprego. A regulação tem falhado, parece, porque teria que estar ‘dentro’ de cada banco, tal como os escritórios da Troika em Lisboa.
3. Há uma diferença de escala. O sistema financeiro electrónico é facilmente ‘global’ e rápido, apesar dos câmbios e da concorrência (das suas redes fazem parte também os off shore), enquanto que a política, a democracia, as regulações, são essencialmente locais e lentas, seguem as regras dos Estados-nações, têm apenas um alcance ‘local’. Ora, esta diferença de escala reflecte-se nos ‘paradigmas’ das políticas locais democráticas consoante os partidos são de direita e de esquerda: a direita pensa do lado do capital global (Friedman), a esquerda do lado do social local (Keynes), o que tem como consequência que a direita pensa e age segundo um paradigma que segue a onda do capital, a esquerda o da contestação dessa onda. Quando o discurso político de esquerda consegue ganhar democraticamente e o melhor que pode prometer é salvar a socialdemocracia, isto é, o Estado social, arrisca-se – Hollande como Obama – a não conseguir levar as suas promessas avante por pressões que vêm do capital global e que se impõem à direita como evidências (capitalistas), o chamado “pensamento único”. Em termos nacionais, é sempre possível equilibrar as contas que sustentam o Estado social, como Vieira da Silva terá provado, até que, a culminar uma fase demencial de incitações a empréstimos, a crise da banca americana veio pôr tudo do avesso. Já o marxismo falhou na Europa por não ter conseguido ser ‘internacional’ como Marx compreendeu que era a solução: mas o que sobrou dele foi justamente a social democracia local (dita ‘revisionismo’). Alguém será capaz de pensar uma ‘esquerda global’?
4. Como panaceia do desemprego, predomina em todos os discursos uma ânsia do crescimento económico que o mede em termos exclusivamente monetários (PIB), que se opõe claramente (fora das tais evidências) à ameaça ecologista, quer climática (e será o terror para toda a gente, os ricos também), quer das reciclagens impossíveis que um tal crescimento implicaria, já que parece óbvio que os mais de 2 biliões de chineses e indianos têm o mesmo horizonte de produção e consumo que americanos e europeus e que isso será insustentável para o planeta. Ou seja, haverá algo um dia parecido com uma ‘solução’ após crises ambientais muito fortes que obrigarão a pensar em termos de economias frugais e solidárias.
5. Se for certa a tese de Piketty, de que a crescente desigualdade depois dos 30 anos à Keynes do pós-guerra é uma crescente ameaça à democracia, o capital a dar cabo da liberdade que o dinheiro oferece, espera o leigo que se trate dum passo decisivo para uma ciência económica que seja uma verdadeira ciência social, isto é, que tenha como objectivo salvar as sociedades locais, as empresas e os empregos, que forneça argumentos para a esquerda guiar a sua acção.


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Ciências, determinismo, reducionismo, relativismo




Textos deste blogue que serão aqui citados






1. Qual é o interesse filosófico da desconstrução das ciências, em que estas são parte activa da argumentação fenomenológica? Pode aliás haver um inconveniente, para um cientista a quem aconteça ler um texto que pretenda ‘desconstruir’ a ‘sua’ ciência, é uma espécie de suspeita de proprietário em relação a um vizinho que esteja a querer mudar os limites do seu jardim, a entrar no dele: mas o que é que este filósofo sabe da minha ciência? Ele quer-se fenomenólogo, mas quem sabe dos fenómenos de que se trata nos laboratórios somos nós, os cientistas, não os filósofos. E é óbvio que tem razão, o não especialista não sabe praticamente nada do que se passa num laboratório científico. A recíproca também é verdadeira: o cientista não sabe grande coisa de filosofia, ainda menos da que se pretende desconstrutiva, e pode pretender com boa fé, como Edgar Morin me respondeu em tempos a um e.mail, que há disjunção total entre ciências e filosofia. Aí já o filósofo porá uma objecção: as ciências não se esgotam no laboratório que escapa ao não especialista, são os próprios cientistas que escrevem livros de divulgação para leigos em que as partes laboratoriais mais complicadas são simplificadas e em que as questões filosóficas aparecem com alguma frequência, por vezes os próprios autores o reconhecem. É que as ciências são filhas históricas da filosofia e da definição que ela inventou como sua operação de base, não como laboratório, mas como o seu ‘escritório’ inventor de essências e conceitos, incluindo aqueles de que o cientista se serve para articular as suas hipótese e teorias. Desde Platão, que colocou os seus ‘definidos’ no céu, Formas ideais eternas e imutáveis predominando sobre as coisas terrestres que as reproduziam mimeticamente: o céu e os deuses (astros) predominando sobre a terra e os humanos desde as mitologias, marcou-se assim a filosofia como ontoteologia (Heidegger), o que é eterno explica o que nasce e é mortal. É certo que Aristóteles operou um “retorno às coisas” e ao seu movimento, mas como se disse noutro texto (“Movimento e causalidade”), a ousia – substância essência – prevaleceu sobre os acidentes do seu contexto, como a interioridade sobre a exterioridade; aliás, com o cristianismo Platão regressou em força – o Criador celeste de que cada criatura terrestre é originado – e inclusive platonizou o aristotelismo medieval. É certo que Kant, que deu autonomia às ciências europeias, colocou Deus, alma imortal e coisa em si (substância) fora do alcance do entendimento, mas ao pretender que fez uma revolução copérnica colocou o sujeito da razão como o ‘sol’ em torno do qual giram as ‘coisas’ do ‘realismo’ cristão: desloca assim a ontoteologia do par Criador / criatura para o par sujeito / objecto, este definido como fenómeno cujo movimento é analisado no laboratório de Newton, aquele o que prevalece enquanto sede do conhecimento. João Paisana mostrou muito bem na sua tese sobre Fenomenologia e Hermenêutica. A relação entre as filosofias de Husserl e de Heidegger como este cortou com aquele justamente ao denunciar o ‘objecto’ como já delimitado do seu contexto, já ‘definido’, e ao reclamar, por assim dizer pelo ‘humano quotidiano’ contra o ‘filósofo conhecedor’, o Dasein como ser no mundo, isto é, alguém feito pelo seu contexto, por exemplo, pelos usos que aprende, ilustraria eu.

Discurso e texto
2. Eis o ponto que se oferece à desconstrução: o primado científico do fenómeno analisado no laboratório sobre o que, cientificamente ignorado, permanece fora, como contexto. Exemplos: a bio-molécula dum medicamento e os efeitos secundários dela noutras moléculas não testadas, as peças testadas duma máquina e a poluição que ela provocará (para não falar das análises teóricas económicas feitas sobre as estatísticas do passado e as crises que a sua aplicação provocam, como temos visto e sofrido, onde é o próprio carácter científico das teorias que creio em causa). De forma geral, num par indecidível pensamento / discurso (linguagem), teoria / experiência, planetas / campo das forças gravitacionais, cargas eléctricas / campos electro-magnéticos, organismo / ambiente, fruto do laboratório / ‘realidade’ extra laboratorial, a definição decide pelo definido, circunscrito (pelo conhecimento que o sujeito dele tem) sobre o contexto donde foi buscado, contexto que é a sua origem complexa, indeterminada. O que pretendo é que a desconstrução, segundo o exemplo no mesmo texto do automóvel, permite ligar a máquina saída do laboratório com a lei do tráfego que lhe determina a anatomia, ligar o laboratório e o seu fora como cena de circulação com suas regras, que o engenheiro replica no aparelho do carro e na sua articulação com o respectivo motor (de explosão ou eléctrico). Este exemplo será suficiente para se perceber que o filósofo não tem pretensão nenhuma de ‘ensinar ciência ou engenharia’ mas apenas a olhar as coisas de maneira adequada ao que cientistas e engenheiros fazem, é do retorno às coisas que a fenomenologia se reclama.

3. “Uma das definições do que se chama desconstrução seria a tomada em conta deste contexto sem bordo, a atenção mais viva  e mais larga possível ao contexto e portanto um momento incessante de recontextualização” (Derrida, Limited Inc., Galilée, ver texto sobre o “exorbitante”). Esta citação confirma o que acabo de propor: ter em conta com o definido, com o laboratório, o contexto donde ele foi retirado. Mas ela segue-se de outra coisa que merece atenção. “A frase, que para alguns se tornou uma espécie de slogan, em geral tão mal compreendido, da desconstrução (“não há fora-de-texto”), não significa senão que não há fora-de-contexto. Sob esta forma, que diz exactamente a mesma coisa, a fórmula teria sem dúvida chocado menos”. Esta formulação convida a deslocar o que propus como retorno às coisas: em vez de olhar as coisas de maneira adequada, ler de maneira adequada os textos que cientistas e engenheiros escrevem sobre o que fazem, sobre o que Khun chamou paradigma (ver texto no blogue). E o que é que Derrida chama texto e que distingue de discurso (a “órbita”? “[...] de maneira um pouco convencional, chamamos aqui discurso à re­presentação actual, viva, consciente dum texto na experiência da­queles que o escrevem ou o lêem [...] o texto transborda sem ces­sar esta representação por todo o sistema dos seus re­cursos e das suas leis próprias [...]” (De la grammatologie, p. 149). Quando se fala ou se escre­ve, ninguém pode ter consciência das leis linguísticas e textuais que operam no discurso que diz ou escreve, somos inevi­tavelmen­te transbordados por efeitos textuais não conscientes (mas legíveis por outros, já que segundo regras da língua, como um analista consegue decifrar o que outros não lêem). “O escritor escreve em uma língua e em uma lógi­ca de que, por definição, o seu discurso não pode dominar absolu­tamente o sistema, as leis e a vida própria. Ele não se serve delas senão deixando-se duma certa ma­neira e até um certo ponto gover­nar pelo sistema. E a lei­tura deve sempre visar uma certa relação, desapercebida do escritor, entre o que ele comanda [o seu ‘discurso’] e o que ele não co­manda dos esquemas da língua que usa [do texto]. Esta relação não é uma certa repartição quantitativa de sombra e de luz, de fraqueza ou de força, mas uma estrutura significante que a leitura crítica deve pro­duzir”. Qualquer texto é sempre heterogé­neo, a sua busca de homogeneidade (ou discur­so) é jogo de vários textos e seus embates. É essa heterogenei­dade (ou texto) que a leitura ‘desconstrutiva’ de Derrida pro­cura (mais do que exibir) fazer ressaltar em seus confli­tos, de ma­neira a que ga­nhem nova força de pensamento no contexto da nossa mo­dernidade, aju­dem a pensar conflitos e crises. Dito de outra maneira. A linguagem permite-nos falar (ou escrever) sobre coisas passadas, ausentes, ficções e erros, inclusive, trazendo-as ao texto entre falantes (ou leitores), não é precisa para dizer o copo presente na mão ou à vista. Mas também o pode dizer, e quando o diz, é como se o copo não estivesse lá; lá, aonde? Na chamada realidade, ele ‘está’ nas frases que o dizem e para isso servem, para as coisas ditas desaparecerem enquanto ‘presença natural’. Ver o exemplo de Derrida sobre o “céu azul” no texto sobre o “exorbitante”.
4. O paradigma segundo Kuhn tem a grande vantagem de dizer o que se pensa e faz num laboratório, sem corte entre teoria e experiência. Sem ter em conta os ‘excessos’ singulares devidos a quem escreve, pode ser transposto como motivo fenomenológico das ciências sociais. Mas cada texto de um ou mais cientistas cabe no motivo derridiano de órbita, relevando da singularidade de cada texto e no caso das ciências da sua correlação correcta (ou não) com o paradigma. Desconstruir, será exorbitar este, já que Kuhn definiu o paradigma seguindo a ‘consciência’ dos cientistas. Corresponde ao que o seu autor tem em vista, ao seu ‘discurso’ consciente, ao que ele quer dizer. Exorbitar é ir além dessa órbita propositada, ir ao ‘texto’, buscar excessos à órbita que não se dão à vista desarmada. A questão é saber se o critério do diagnóstico de oposições desapercebidas é suficiente, inscritas na tradição do saber por definições e laboratórios; isto é, como estabelecer o diagnóstico da supremacia da substância, da essência (definição), sobre a cena / campo, o diagnóstico da ontoteologia que os cientistas herdaram de Aristóteles sem saber. Não creio que haja um ‘método’ a seguir, mas apenas atenção a sintomas dessas oposições. Mas só há sintomas para uma abordagem filosófica, no caso são os textos de Heidegger e Derrida que oferecem uma margem donde sintomas se podem ler, astuciosamente. Se posso invocar dois exemplos pessoais, os das minhas leituras do evangelho de Marcos e da Poética de Aristóteles, foi sobretudo o S/Z de Barthes que me guiou e curiosamente em ambos os casos aconteceu que foram chaves preciosas dessas leituras a consideração do termo logos no texto grego que as traduções modernas restituem com termos diferentes segundo o contexto, inviabilizando uma leitura textual. Sintoma no primeiro caso foi o duma contradição entre duas camadas do texto. Isto é, não havia nenhum ‘método’ além da abordagem que Barthes propunha, ler o texto nas suas diferenças (conotações e códigos) e não nas crenças do leitor.

Determinação sem determinismo
5. Dito isto, podemos voltar à questão inicial deste texto, supondo os exemplos que dei no texto sobre Movimento e causalidade: qual é o interesse filosófico da desconstrução das ciências? Ele incide nomeadamente na reelaboração da teoria de modo a elucidar a relação entre laboratório e cena de circulação dos fenómenos que ele analisou nas suas componentes: ora, é na ignorância dessa relação que se alojaram os três debates filosóficos importantes do século XX que cita o título deste texto. Comecemos pelo determinismo. Bem antigo na tradição filosófica, pelo menos deste Agostinho de Hipona, dependente da relação entre Criador e criatura, ele foi, implicitamente pelo menos, sempre um pressuposto das novas ciências europeias e da importância crucial da relação causa – efeito que elas buscam. Ora, como sugeri em Porque é que as ciências precisam de laboratório?, o laboratório justifica-se por criar condições de determinação que tornem possível encontrar correlações de tipo causa – efeito, o que tem como consequência que fora dele as ciências não conhecem determinações, o contexto aonde vão buscar o fenómeno a analisar dá-se-lhes como indeterminado, o que significa que o determinismo é uma projecção indevida do que se passa no laboratório fora dele, sobre o que não se conhece, não foi analisado. As causas efeitos são apenas de peças, digamos, de fragmentos, os ‘todos’ não são susceptíveis de análise senão fragmentariamente, como é óbvio no caso do automóvel. Mas igualmente na biologia molecular, que analisa transformações químicas mas não o conjunto de todas as que ocorrem no metabolismo duma célula, muito menos um órgão dado, etc.
6. Para as várias ciências que, da biologia em diante, se ocupam de vivos creio suficientes os exemplos que dei e a conclusão geral: onde uma dessas ciências encontra regras, elas jogam em situações aleatórias, susceptíveis de variações com os contextos. Nenhuma dessas ciências encontra determinismos. São as ciências da energia e da matéria, a física e a química, que merecem alguma atenção. O caso do automóvel, das máquinas em geral, dos robots inclusive, parece claro também, o trabalho delas sendo susceptível de aleatório. Se se objecta o condutor do carro como introduzindo um elemento estranho ao analisado em laboratório e justificando a adequação ao aleatório do tráfego, a resposta é simples: ele tem que aprender a conduzir, isto é, a tornar-se uma peça do carro, a peça piloto encarregada da ‘causa final’ do movimento. E quando não há piloto nos movimentos de inertes? Temos que indagar o que é a inércia. Supondo a resistência à desintegração dos átomos devida às forças nucleares dos seus núcleos, a inércia é a oferta dum grave à lei da gravidade segundo as condições de temperatura (forças electromagnéticas moleculares que permitem, por exemplo, haver água, gelo e vapor) e portanto a ser movido quando forças do seu contexto o atinjam. Mas também forças electromagnéticas moleculares poderão oferecerem-se a transformações químicas quando da proximidade de contacto, de contexto, com outros graves, no que se poderia chamar inércia química. Dito isto, é óbvio que o nosso planeta está cheio de movimentos de inertes sem pilotos, sem finalidades, casuais, que se provocam uns aos outros por gravidade ou química. As rochas vulcânicas, tipo granito, são um exemplo, bem como as lavas e as rochas metamórficas (basalto) ou as sedimentares com os seus fósseis, rochas essas que são classificadas justamente segundo o aleatório dos movimentos que lhes deram origem, as erosões sendo outro exemplo. Ou o clima e seus ventos e chuvas, as correntes dos rios e dos oceanos, são sempre movimentos de inertes cheios de aleatório em que o interesse dos laboratórios e das suas medições é justamente o de compreender de forma mais geral o que se passou e o que se pode vir a passar. Determinismo?

Redução sem reducionismo
7. A redução é de forma geral uma operação de pensamento e conhecimento. A um primeiro nível, as línguas quotidianas operam uma redução, utilizando substantivos (casa, criança, laranja), adjectivos (lindo, caro, amigo), verbos (viver, comer, ser) para trazer ao discurso, à conversa, à escrita, coisas e suas qualidades e movimentações, inúmeros singulares que são reduzidos na sua singularidade, na sua “presença natural”, dizia Derrida, para figurarem no texto em que são ditos. A esta redução primeira, a filosofia grega acrescentou outra, a da definição, criando os textos gnosiológicos de argumentos sobre essências intemporais e incircunstanciais, fora de contexto. O laboratório científico soube da insuficiência desta redução por se ater a textos alfabéticos e acrescentou-lhe a que consiste em reduzir graves às dimensões de instrumentos convencionais de medição de seus movimentos. Pretendi que as Bíblias hebraica e cristã jogaram sobre outras formas de redução propícias a narrativas históricas, e sem dúvida que haverá outras formas de redução, a mais conhecida em filosofia sendo a epochê de Husserl. Cingindo-nos à do laboratório, introduzindo a experimentação no conhecimento, ela é correlativa da determinação que ele cria (o chamado reducionismo epistemológico): é reduzido tudo o que fica fora do laboratório e que portanto equivale à confissão pela ciência de que não conhece esse reduzido indeterminado. Em suma, toda a especialização tem como condição a redução de tudo o que não é ela. Disso sofremos hoje muito, a reclamação por todo o lado de interdisciplinaridade é a da busca de articulações, respeitando fronteiras mas não se resignando a elas.
8. O reducionismo, em sentido pejorativo, é a atitude filosófica – parente próxima do determinismo da ciência (física e economia nomeadamente) – que pretende que as sua leis ‘explicam’, determinam, as leis das outras ciências supostas num patamar mais elevado da ordem das coisas. Mas também este reducionismo ignora o seu  próprio laboratório, a redução que teve de fazer para as suas descobertas: o que implica sem mais que ela não pode saber o que se passa fora do seu laboratório, tal como ignora o laboratório das ciências que quer reduzir às suas leis. Exemplo da ignorância da redução do seu próprio laboratório é o jargão marxista da instância económica que se queria “determinante em última instância”, sem conseguir explicar como é que essa determinação se fazia das línguas[1], por exemplo de grandes variáveis sociais imotivadas (Saussure), já que a instância económica não se entende sem os efeitos da língua nela. Também o fisicalismo, reducionismo de físicos, não explica nada da estrutura das línguas a partir da gravidade ou da Acústica (ao invés da anatomia que explica a dupla articulação da linguagem). Com efeito, Saussure para estabelecer a cientificidade da Linguística estrutural teve que reduzir tanto a Acústica como a anatomia da fonação e da memória cerebral e a relação das falas ao chamado referente (redução do nomenclaturismo), ou seja do próprio ‘sentido’ das unidades linguísticas estudadas, às quais só pede que tenham sentido. Estas reduções foram decisivas para se estabelecer que na língua não há senão diferenças entre sons ou vozes e palavras ou frases, para pôr em questão o substancialismo das línguas, a concepção do signo como relação entre um som e um sentido. É por os sons (e as grafias) não fazerem parte das línguas (só das falas, sendo certo que não há língua fora das falas e textos) que a Acústica não determina nenhuma língua: se determinasse alguma, determinaria todas?
9. É claro que quando se sobe no patamar das ciências, as regras das que ficam abaixo jogam nas novas ciências: por exemplo, as da física, química, biologia e linguística, jogam nas sociedades e nos psiquismos humanos, mas nenhuma delas, nem sociologias e psicologias aliás, ‘determinam’ por exemplo os vários desportos organizados nas sociedades actuais, as regras destes sendo imotivadas entre eles, como se percebe facilmente comparando-as, os com bolas entre si, com ou sem redes, raquetes ou não, maneira de contar vitórias e derrotas, os individuais ou por equipas, e por aí fora. A articulação entre cenas e suas ciências que resultam umas das outras tem que recorrer ao motivo de produção de entropia de Prigogine, como tentei fazer nos capítulos 13 e 14 do meu Le Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida (2º volume).

Relatividade sem relativismo
10. A questão do relativismo põe-se de maneira oposta à do determinismo e do reducionismo, que são pretensões filosóficas de alguns cientistas para as suas disciplinas a partir dos respectivos laboratórios ignorando os limites deles (determinação e redução) que anulam essas pretensões. O relativismo é também uma pretensão filosófica mas desta feita contra os cientistas, que parte da ‘realidade quotidiana’, do fora dos laboratórios, mas ignorando estes e as suas descobertas. A relatividade resulta necessariamente da consideração do contexto em relação à definição (de essências) e ao laboratório, como se disse: se as nossas ‘verdades’ filosóficas e científicas resultam dessas duas operações de pensamento redutoras, ter em atenção o que elas não atingem implica a sua relatividade, a não possibilidade trivial de fazer afirmações absolutas em relação a todo esse ‘reduzido’ caótico: é que foi este caos das coisas que pediu a filosofia e as ciências. Este argumento alarga-se em relação às outras civilizações, nomeadamente à literatura sapiencial chinesa, indiana, japonesa, muçulmana, que procederam com outras abordagens às questões do conhecimento. O que significa que o saber das ciências ocidentais (e das filosofias) é estruturalmente relativo à história greco-romana-europeia.
11. A filosofia com ciências que proponho permite que o motivo do duplo laço dê conta duma estrutura das coisas em patamares ‘históricos’ (astros e graves, vivos, sociedades humanas com discursos e textos, psiquismos) que permite conhecimentos de ‘espécies’ nas várias ciências (mesma espécie em indivíduos não idênticos) e saber que esses indivíduos são (coisas) indeterminados no seu duplo laço singular. Permite além disso conhecer as grandes leis das cenas de circulação desses patamares. Assim sendo, esta relatividade é incompatível com o relativismo como cepticismo epistemológico. O triunfo tecnológico das ciências físicas, químicas e bioquímicas, largamente aceite nas sociedades asiáticas desenvolvidas, serve de comprovação da correcção dessas ciências, enquanto que as ciências relativas ao social e ao humano estão largamente longe duma comprovação equivalente, mormente a economia, de que se tem experimentado a sua dificuldade em se articular com as estruturas politicas, que a teoria hoje predominante reduz no chamado monetarismo (texto sobre economia), encerrando-se no seu laboratório.



[1] Staline teve que cancelar a querela entre teóricos e linguistas russos marxistas determinando que a língua não é uma super-estrutura.

domingo, 7 de setembro de 2014

Os Portugueses do século XVI falavam brasileiro


Lembro-me de o grande linguista português Luís Lindley Cintra, pai do actor da Cornucópia, me ter contado que o linguista brasileiro Celso Cunha, com quem ele escreveu uma gramática do português, o ter demonstrado através de análises de manuscritos do século XVI, creio que de poesia teatral. Ora, é o que veio confirmar o que no PÚBLICO de 7 de Maio 2014 escreve Paulo Werneck, que lhe contou o poeta e tradutor Paulo Henriques Britto: “estudando a poesia de Camões, deu-se conta de que, lidos com o actual sotaque português, a métrica não fechava. Ele e seus alunos então leram os mesmos sonetos com o sotaque do Brasil de hoje e foi batata: a métrica fechou perfeitamente”. Haverá sem dúvida linguistas para nos explicarem esta coisa estranha: porque terão os Portugueses fechado as vogais, a, e, o, que hoje dizemos sem acentuar (como em ‘fechado’, ‘a métrica’), ao contrário das línguas latinas que há por aí, castelhano, catalão, francês, italiano e brasileiro que todas as abrem?