sábado, 12 de julho de 2014

O QUE É QUE HÁ FORA DO TEXTO? NADA. TUDO.





1. É uma dívida, daquelas que não se pagam, não se apagam. Um projecto de tese sobre a epistemologia da semântica saussu­riana à luz da gramatologia de Derrida. O P. Manuel Antunes, que pouco depois a doença levou, dava-me apoio do lado da Filosofia, o de­partamento onde ensinava Filosofia da Linguagem, mas preci­sava de alguém do lado da Linguística. O Professor Lindley Cintra prestou-se, e emprestou mesmo o departamento para as provas, é a dívida maior. Mas precisava de alguém do lado da teoria saus­suriana, e foi a Maria Alzira quem me leu o que escrevi, atenta, crítica, alegre. Há cerca de15 anos que se cumpriu, bem haja!
2. Uns anos antes conhecera o António Guerreiro, que aca­bava de se licenciar em Literatura e fôra aluno da Maria Alzira. Estreara-se no J. L. com um artigo sobre um romance do José Gil, em que defendia uma concepção do feminino que nos mereceu uma resposta, à Teresa Joaquim e a mim e depois, por mediação do J. Gil, um encontro no Jardim da Estrela. Tímido, ainda hoje o parece embora tenha mostrado sobejas vezes que faz jus ao ape­lido. No final da conversa, tomou-me de lado para uma questão que obviamente era para ele então motivo de grande inquietação: acreditava eu na imanência estruturalista do texto que a Maria Alzira defendia? Respondi-lhe que sim, na altura ainda não me dera conta de que tinha uma concep­ção estruturalista duma afir­mação célebre de Derrida “não há fora de texto”. A inquietação fi­cou-lhe nos olhos. Claro que, passados uns 20 anos sobre esta cena, o crítico de poesia, e também leitor de filosofia, que é hoje reconhecido na nossa praça com a assinatura de António Guerrei­ro não precisa já do meu esclarecimento tão atrasado. Maria Alzi­ra nunca terá precisado. Sou eu que nunca esqueci o epi­sódio, que porventura preciso de tentar saldar esta dívida, já que a outra não posso.

Uma guerra contra a ‘bêtise’
3. Trata-se mesmo duma guerra contra esta ‘bêtise’ me­do­nha que enche os jornais, mesmo e sobretudo os meios uni­versi­tários, quando lhes calha falar da linguagem: como ‘meio de co­municação’ ou, a melhor que já li, como ‘meio de acesso à infor­ma­ção’. Toda esta minha gente parece acreditar que existem coi­sas cha­madas in­formações e actividades chamadas comunicação antes de haver linguagem, como acreditam - tudo isto é beatice ignorante - que têm ideias e pensamentos que depois ‘exprimem’ em lingua­gem, que esta não é senão um instrumento (como um martelo, sem dúvida, tanto nos martelam assim), um ‘meio de’[1]. Ou então a linguagem gestual, como se funcionasse sozinha, oposta à verbal, isto é como se pudesse haver aquela sem esta. Há uma outra mais requintada, que não se pode colocar na rubrica destas ‘bêtises’, mas que não deixa de ser parente epistemológica delas: certas realidades para as quais não haveria palavras que as pu­dessem dizer. Se não se trata de dizer uma música ou um quadro - e mesmo as­sim, sei lá! eles sabem falar dessas coisas, sem que eu entenda -, na maioria dos casos trata-se de desculpas de mau pa­gador, significa apenas que ‘eu não sou capaz de dizer’. Nós te­mos as palavras to­das para dizer o que quer que seja, foi com as pala­vras que há que os poetas, os pensadores, os místicos[2] disse­ram coisas impos­síveis de dizer à sua época (e por vezes ainda impos­síveis de re­petir por outros, depois de eles o terem dito). Di­zer que ‘não há palavras que possam pensar, descrever, contar, evo­car...isto ou aquilo’ é ignorar que ‘só as palavras podem pen­sar, descrever, contar, evocar...o que quer que seja’, é subordi­nar a linguagem, ignorar o que ela nos dá: ‘tudo’ o que sabemos e po­demos. É isso a literatura, e é por isso que a prezamos: diz o que nós não sabemos dizer.
4. Mas não posso ir à questão sem antes retirar os insultos do parágrafo ante­rior: que haja ‘bêtise’ não quer dizer que as pes­soas sejam neces­sariamente estúpidas quando a cometem, já que a her­da­ram da grande filosofia europeia, a partir pelo menos de Des­car­tes, da in­venção das ‘ideias’ e outras representações men­tais de objectos em sujeitos, invenção essa tanto seguida por ra­ciona­listas como por empiristas e por idealistas, como se diz na história clás­sica da filosofia. Uma boa parte do pensamento mo­derno, a partir de Marx, Nietzsche e Freud, tendo-se explicitado em Saussure e nos estruturalismos dele se reclamando, por um lado, em Heideg­ger e em Derrida por outro, fez fincapé na contes­tação destas re­presen­tações, por uma espécie de retorno à lingua­gem que Hei­degger tematizou como retorno ao dito de Parméni­des: “Pois que o pensar e o ser é o mesmo [...] têm que ser o dizer, o pensar e o ente”. Quando Derrida escreveu que “não há fora de texto” não fez senão estender este dito às escritas, a tudo o que se escreve e escreveu[3], incluindo oralmente. Esta ‘bêtise’ é pois uma (má) herança filo­sófi­ca que se ig­nora.

A imanência das inscrições
5. Chamarei aqui inscrições ao que muitas vezes se generali­za indevida­mente como ‘linguagens’: quer a linguagem oral e a es­crita alfabética (ou outras formas de escrita, como os hieroglifos e os caracteres chineses e japoneses), quer a escrita dos números ou matemática, quer a música, quer as imagens (desenhadas, pinta­das, fotografadas, do cinema), têm todas em comum: a) serem ‘feitas’ numa matéria outra (sonora ou superfície visual, consoan­te), repetindo-se (os mesmos textos, imagens, peças de música) em matérias empíricas não-idênticas (vozes, instrumentos musi­cais, superfícies várias), tendo chegado, a partir da invenção do telefone, ao ponto de hoje em dia serem susceptíveis de serem transformadas em corrente eléctrica (e depois esta em ondas electromagnéticas) e de regressarem em seguida às matérias que lhes são tradicionais (proeza tecnológica que pode servir para descriminar essas inscrições de todas as outras produções mate­riais, as que não se podem mandar por via ‘tele-’), e b) o de se basta­rem a si mesmas enquanto inscrições, ou seja, não serem ‘meios’ de outra coisa, não serem instrumentos em função de qualquer outra coisa relativa à habitação dos humanos.
6. Ora, é a estas duas ca­racterísticas - que creio definitórias das inscrições - que corres­ponde a imanência do respectivo jogo de diferenças, aquilo que se inscreve em tal ou tal inscrição: em tal ou tal fala, texto, música, problema ou plano de imagem. Se elas são todas susceptíveis de serem transportadas para outro lado, se, em todo o rigor, é para que haja essa deslocação que qualquer inscrição se faz, que para isso foram elas inventadas (para começar de tal boca ou piano para outros ouvidos, de tal pena ou pincel para ou­tros olhos), isso significa que a ruptura com o contexto da sua fa­bricação faz parte da sua estrutura essencial, significa que esse contexto não é necessário para que quem ouve ou vê ‘entenda’ o que ouve ou vê. É óbvio quando se lê um soneto de Camões ou se escuta uma composição de Mozart, quando se analisa uma de­mons­tração de Newton ou se vê um filme de Go­dard: o fabrico deles pelos seus autores, escrita ou filmagem, não vem com eles, se viesse seria um estorvo monumental à leitura, escuta, análise ou contemplação. É na não ne­cessi­dade estrutural desse contex­to, na autosuficiência da inscri­ção, que consiste a imanência do seu jogo. A dificuldade é saber como é que ela é suscep­tível de ‘reenviar’ a ‘outra coi­sa’ do que ela, de referir ao que os linguistas chamam referente: conheci­mento duma receita, duma lei físi­ca ou de uma cena numa paisa­gem. E como estes exemplos são suficientes para sabermos que esse ‘reenvio’ é ine­rente às inscrições, a dificuldade consistirá em sa­ber se se trata de um reenvio para ‘fora’ do texto ou filme, para um referente ‘extra-linguístico’, de que ‘outra coisa’ se trata, se é ‘coisa’, se é ‘outra’ e em que sentido.
7. Num texto a que se pode ter acesso na Web[4], procu­ro mostrar como estas inscrições são compostas de unidades sus­cep­tíveis de três níveis: a) um nível de unidades elementares (não divisíveis) imoti­vadas em relação a qualquer outra coisa do que o jogo imanente (os fonemas orais e as letras dos alfabetos, as notas musicais), b) um nível de unidades de significação ou referência (as palavras, os algarismos e os outros caractreres matemáticos, as imagens de ‘coisas’) e c) um nível de composição das unidades ante­riores (frases e discursos ou textos, equações, frases musicais e peças de música). Tendo-se em conta a propriedade estrutural destas inscrições serem analisáveis enquanto composi­ções linea­res segmentáveis em unidades discretas que comutam entre si, verificaremos: que as imagens não têm essa propriedade (planos superficiais, isto é não lineares nem compostas de unidades co­mu­táveis), são unidades do nível da referência (só b), o dum re­trato de alguém, por exemplo (as imagens são, por isso, eminen­temente singulares, concretas: não é um defeito, é o que motiva os artistas e a publi­cidade); que a música, frases musicais de notas imotiva­das, não contém unidades referenciais (só a e c), é a mais imanente (ou abstracta) de todas estas inscrições, a única em que o problema duma refe­rência nem sequer se põe (não é um defei­to, é por isso que se gosta de música); que a matemática não con­tém unidades de nível imotivado (só b e c): embora elementares, as suas unidades são convencio­nadas por definição que lhes é prévia (também não é defeito, é por isso que ela é exacta, ignora a polissemia); que as unidades de significação da lin­guagem oral e da escrita alfabética, as pala­vras, são as únicas que são duplamen­te articuladas (a, b e c): com­postas de fo­nemas ou letras sem mo­tivação (por isso as línguas separam os que as falam entre in­díge­nas e estrangeiros, como as outras ins­crições não fazem delas mesmas), compondo-se em fra­ses que se sucedem em discursos ou textos mais ou menos longos. É nesta dupla articula­ção, escla­reci­da pelo linguista francês A. Martinet, que está uma boa parte dos segredos, da pujança da lin­guagem. Como tentarei sugerir.


ling. oral [escr. alfab.]
escrita matemática
música
imagens
composição
discurso
       ø
 melodia
       ø


unidades de sentido
 frases
equações
frases mu­sicais
       ø
unidades de refe­rência

palavras
números e outros caract.
[medidas]
      
      ø

imagens
unidades
imotivadas
fonemas
 [letras]
      ø
 ‘notas’
       ø


Comutação linguística e conotação semiótica
8. Tentei mostrar na tese a que aludi[5], jogando entre Saus­sure e Derrida, este permitindo esclarecer algumas das aporias daquele, como o aforismo saussuriano célebre “na língua não há senão diferenças, sem termos positivos” - o qual diz a imanência de que aqui é questão - resulta da operação essencial da linguísti­ca estrutural saussuriana, a comutação (Hjelmslev). Para se saber se tal troço de linguagem (desde o fonema ou letra até à frase) é uma unidade linguística, há que o segmentar duma frase (com sentido na língua) onde se manifeste e substitui-lo por outra (com sentido também, mas alterado): a comutação (segmentação + substituição) faz-se sem ter em conta quais são os sentidos em questão, apenas exige que haja sentido. Ela implica assim uma re­dução fenomenológica, uma ‘epoché’ husserliana, dos sentidos: e portanto dos eventuais referentes como das eventuais intenções do falante ou escrevente, o que é consentâneo com a propriedade estrutural das inscrições de romperem com o contexto da sua fa­bri­ca­ção (§ 6): quem ouve (ao telefone, por exemplo) ou lê (um autor antigo) não tem acesso nem a esses referentes nem a essas inten­ções, só ao discurso que ouve, ao texto que lê. Saussure tinha de facto retirado a coisa referida da definição clássica do signo (de origem nos Estoicos) assim como o sujeito falante da língua. Con­dição da autonomia da linguística como ciência, quer em relação à Acústica e à Fisiologia da fonação e da audição, quer em relação às psicologias e filosofias da percepção ou outras. Autonomia no­meadamente da Fonologia, da Sintaxe-Morfologia (Hjelmslev) e, a caminho, da Sintaxe-Semântica (M. Gross).
9. Mais complicada parece ser a questão das semióticas textuais, quer de corpus, quer de tal texto (à maneira do admirá­vel S/Z de R. Barthes)[6], já que aí a comutação não é mais possível. Trata-se de ler um texto na maneira como as suas frases sucessi­vas se articulam em códigos (alguns paramétricos, outros se­quen­ciais), estes sendo detectados pelo relevar paciente das cono­ta­ções, dos reenvios que tal troço de texto faz a outro, dessas cor­re­lações como diferenças imanentes ao texto. Mas para detectar es­sas conotações, há que fazer intervir a sua com­petência semân­tica de leitor (a distinguir firmemente das “associa­ções de ideias” do leitor analista), e portanto o seu conhecimento dos usos sociais da sociedade ‘contada’ no texto (no caso dum romance, por exem­plo, ou dum documento histórico), já que é para esses usos que os có­digos remetem. É aonde parece que a imanência textual deixa de ser possível.
10. Parece. Mas o que a formação dessa competência se­mântica exige (fiquemos no caso duma narrativa histórica) é o co­nhecimento de outros documentos dessa época, não do referente desaparecido para sempre: ainda que se trate de imagens de refe­rentes, de testemunhos orais de idosos, tratar-se-á sempre de ‘textos’ (descrevendo a imagem, registando as vozes) que se acrescen­tam ao corpus do texto que está a ser lido, que serão in­corporados eventualmente na análise como citações. Não se sai nunca para ‘fora’ dos textos. Acrescentarei aliás que a minha ex­periência de leitura me ensinou a, garantida a competência de leitura daquele tipo de textos, é sempre muito mais fecundo não recorrer a esses acrescentos de tipo testemunhal, mas tentar ler o texto até ao detalhe das suas inúmeras conotações, até se encon­trarem as contradições dos seus códigos (porventura singulares) e por via delas se encontrar o que levou à sua escrita. Permita-se-me um exemplo (não é imodéstia, mas elucidação do que Barthes fez). Em 1981, dirigi um curso de mestrado sobre semiótica e ideologia no Departamento de Sociologia da Universidade de La­val, no Québec, onde fui ajudando a ler vários textos, tendo o úl­timo sido o mais complexo, um relatório de Jesuitas do século XVII sobre um ritual indígena duma etnia local. Depois de ter apresentado a leitu­ra ‘imanente’ (sem saber nada, aliás, do con­texto etnológico preci­so) que preparara na véspera em casa, o historiador que tinha fornecido o texto comentou que me ouvira dizer em duas horas coisas que levara vários anos de investigação para descobrir. Que­rem melhor ilustração do aforismo “não há fora de texto”?

Uma redução muito fecunda
11. Mas isto não é redutor? Claro que é, a redução (em sen­tido fenomenológico) é inerente a qualquer ciência ou filosofia, a qualquer experimentação (comutativa ou conotativa) ou à neces­sidade de definição gnosiológica. Mas a maneira como a gramato­logia de Derrida recorreu à redução fenomenológica de Husserl para dar conta da autonomia da linguística saussuriana, destacan­do o ‘ser-ouvido do som’ do ‘som ouvido’, isto é, da voz concreta, empírica, de quem fala, mostrando como aquele é fenomenal, es­trutural, consistindo em diferenças entre sons empíricos que se repetem como as mesmas em todas as vozes dos falantes dessa língua (o ‘significante’ de Saussure define-se assim), essa maneira gramatológica mostra que é a própria linguagem quem opera no seu próprio jogar essas reduções, dos referentes como das inten­ções dos falantes. Com vantagens óbvias. A de poder haver nar­rativas: podem-se contar coisas a quem não as viu, pode-se con­versar de coisas passadas noutro lado ou noutro tempo (com refe­rente inatingível ‘directamente’ por quem conversa). A de poder fazer-se ficção, contar-se o que não se passou como tendo passa­do. Portanto, poder-se também mentir, guardar segredo, dissimu­lar as suas intenções, ser-se livre de o interlocutor não ter acesso ao que se pensa. Poder aprender-se a falar, aprender coi­sas que os outros sabem e nós não, só com sons ou com rabiscos em papel. A redução que a linguagem opera é duma fecundidade imensa. Como os discos em relação à música, reduzindo a orquesta que a tocou em tal momento e lugar, como a fotografia e o cinema. Só imanências, sem ‘fora’ das inscrições.
12. O que é então essa coisa a que os linguistas chamam re­ferente extra-linguístico? O nome não é bom, porque ‘essa coisa’ só existe ‘dentro’ do discurso ou texto, se é que este tem ‘dentro’. Vamos por partes. O que é um retrato da Maria Alzira? É a Maria Alzira. Senão, é um papel com riscos. Não é ela em carne e osso, claro, mas em referência a ela em tal lugar e momento da sua vida. O referente dum retrato é o retratado, não nele mesmo mas no re­trato. O que é um mapa? É o território no mapa. Da mesma manei­ra, o referente duma história é o que é contado nessa his­tória, autêntica, ficção ou mentira. O que se passou de facto é ex­trema­mente complexo, com milhões de detalhes (todas as expres­sões faciais e movimentos de membros de cada persona­gem nas diver­sas acções, as nuances dos cenários em móveis, cor­relações, luzes e perspectivas, sei lá eu) impossíveis de serem contados. Se hou­ver um referente, só pode ser na própria história tal como é con­tada, trazendo alguns elementos mais ou menos es­senciais do que se passou nas suas frases e sequências. A esma­gadora maio­ria das coisas que acontecem não é contada, não é referida. Ora, o que se conta tem como finalidade referir o que aconteceu, isto é, chamar a atenção para ele, torná-lo referente. Contar histórias é assim aumentar a nossa experiência vivida por referentes que não vi­vemos, aumentar em consequência o que sabemos. A maior parte das coisas que sabemos, mormente quem foi à escola, foi aprendi­da por linguagem, não por experiência. Sem a redução da lingua­gem, estaríamos ‘reduzidos’ à nossa ex­periência, no nosso habitat.
13. A dupla articulação da linguagem é uma dupla econo­mia: com algumas dezenas de sons de que as nossas gargantas são capazes fazem-se muitos milhares de palavras, com os 4 ou 5 milhares de palavras que usamos habitualmente, que a nossa memória cerebral consegue reter, dizemos frases e textos indefi­nidamente, multiplicando os seus sentidos. Mas para isso, as pala­vras mais correntes variam de sentido consoante os contextos em que ocorrem, de maneira linguisticamente muito regrada: é o que se chama polissemia. Sendo resultante da dupla articulação, a es­crita matemática não a conhece (por isso é exacta e exaustiva), nem creio que tenha sentido dizer - a não ser metaforicamente - das no­tas musicais e das imagens que são polissémicas, julgando eu também que há algo nelas que se aproxima da exaustividade: se subentendem o que lá não esteja, será por reenvio (intertextual, digamos) a outras músicas ou imagens. Na lingua­gem, pelo con­trário, a não exaustividade, o carácter elíptico do seu referente, é estrutural. Nunca se conta tudo, escolhe-se sempre o que parece mais pertinente, o resto é deixado ao bom entendedor, aquele a quem meia palavra basta. Ora, o bom entendedor tam­bém é obra da redução fecunda da linguagem - sem que saibamos como, feliz enigma -, já que se aprendemos sobretudo do que ou­vimos e le­mos, a nossa experiência e talento joga na maneira como isso que aprendemos se liga em nós ao que sabemos já. A fecundidade re­vela-se na maneira como, ao aprender-se a falar, as palavras que nos vêem dos outros vão gerando no que aprende, na sua voz que repete essas palavras e sendo eventual­mente corrigido, os senti­dos do Mundo que os outros dizem, pen­sam, repetem, de certa maneira, os referentes dos outros, e assim ensinam, com o falar e o pensar, a olhar e a manejar, a usar os usos sociais[7].

Retorno a Parménides: fora há ‘nada’ e há ‘tudo’
14. “Não há fora de texto” significa assim que são os textos ou discursos, articulados à aprendizagem dos usos, que dão voz aos falantes, trazendo-lhes o Mundo como referente a falar, a compreender. Assim no seu meio social se vão fazendo sujeitos. Um lindo livro de Marlene Zarader, Heidegger e as palavras da origem (ed. Inst. Piaget), conta como este analisa o termo grego para ‘dizer’ (legein), próximo aliás do latim legere, ‘ler’, que tem ligações etimológicas a vários verbos em ‘-lher’ (colher, acolher, recolher, escolher). O primeiro sentido de legein (e de legere) é justamente ‘colher’, como flores num jardim que se acolhem e re­colhem para fazer um ramo, e depois o de estender diante[8], em posição: também falar é acolher e recolher, nas palavras escolhi­das, as coisas a dizer, colocadas depois, reunidas, em proposições para outrem. Ora, Heidegger sublinha que também o que fala faz parte do que assim se acolhe e recolhe: isto é, o dizer acolhe, reco­lhe e propõe quer o (ente) que é dito quer o (pensar) que diz. As­sim leio o que dizia Par­ménides: “Pois que o pensar e o ser é o mesmo [...] têm que ser o dizer, o pensar e o ente”. Também o es­crever, acrescentou Derrida. E portanto, por minha conta e risco, o musicar, o pintar ou fotografar, o mate­matizar.
15. Portanto, não há ‘nada’ fora do texto, que ele recolhe tal fora. Mas o que é este jogo de diferenças fónicas ou gráficas, este mesmo que se repete em vozes ou grafias não-idênticas? O que é uma diferença? Nada de substancial, não é ente nem gente. As inscrições inscrevem-se em matérias que elas não são, em subs­tâncias que se podem estragar, por exemplo, de que elas são in­dissociá­veis (dos sons, das superfícies) mas de que a redução fe­nomeno­lógica as distingue, para as poder analisar fenoménica ou estruturalmente, as enviar algures. As diferenças que se inscre­vem em substâncias existentes, não têm ‘existência’, nem ‘essência’, não são da ordem dos ‘entes’, como o são essas subs­tâncias ou matérias: neste sentido estas são ‘exteriores’ ao texto, de diferenças feito, o tal que é ‘nada’. En­tão, qual é a condição de tudo o que es­crevi, de que “não haja fora de texto”? Tudo o que existe substancialmente neste mundo, tudo existe fora dos tex­tos[9], é desse tudo que existe ‘substancialmente’ que os textos fa­lam ‘não-substancialmente’, incluindo da nossa subjectividade cor­poral: que nos permite falar porque textos nos ensinaram, deles e doutros usos e costumes fomos feitos gente.

Admirável Maurice Gross
16. Este retorno a Parménides manifesta-se, embora com maneiras de ler diferentes, no facto de a actividade destes dois filósofos ser pre­dominantemente de esclarecimento de sentidos de palavras, de expressões, de pedaços de textos, etc.: aí encon­tram o pensa­mento que fez / faz o Ocidente, nos textos e nas lín­guas (Heideg­ger sendo aliás conhecido por ter privilegiado a grega e a alemã como eleitas para a filosofia). E deconstruir é ainda uma activida­de textual da própria civilização.
17. Porque é que houve então a perturbação do jovem Guer­reiro perante a imanência? Julgo que resultou de a ter recebido na evidência filosófica da separação entre o sujeito e o objecto[10] que todos recebemos no liceu, ‘transcen­den­tes’ (o Ego transcen­dental e o númeno kantiano, por exemplo) e deixa a linguagem num qualquer entre ambos: ‘meio’, ‘instrumento’, ‘expressão’ de repre­sentações, sei lá. Ora, foi contra essa separação (contra essa ‘bêtise’) que se levantaram as filosofias estruturais dos anos 60 e 70, na sua inédita aliança com as ciências sociais e humanas (bem como de outra maneira a fenomenologia de Husserl e Heidegger), pro­pondo a imanência da linguagem como o lugar aonde filosofias e ciências se elaboram, aonde encontram as suas problemáticas. Daí que a linguística de Saussure, recebida como a primeira grande disciplina social e humana a ter encontrado uma metodo­logia ri­gorosa que lhe ga­rantia um estatuto científico inédito, te­nha tido um papel pioneiro de que se inspiravam, melhor ou pior, as ten­tativas das outras disciplinas. Maria Alzira, como muitos outros entre nós, ainda vi­via dessa euforia. Mas foi chão que deu uvas. E o mais triste sin­toma da decadência posterior do pensa­mento es­trutural foi o re­cobrimento dessa magnífica linguística por uma técnica de tradu­ção de línguas a partir do in­glês[11] que, por exemplo, ignora a dupla articulação da linguagem e toma como modelo implícito, à manei­ra da lógica formalizada, a escrita matemática! Tentarei para terminar, e mostrar que não se trata aqui de nostalgias, algumas sugestões da fecundidade possível da linguística saussuriana.
18. Para isso será necessário evocar o mais espantoso de to­dos os textos linguísticos publicados no século XX depois do Curso de Linguística Geral de Saussure que abriu o paradigma: Métho­des en syntaxe: régime des constructions complétives, Hermann, 1975[12], de Maurice Gross, prematuramente falecido há pouco tempo. Espantoso por duas ra­zões principais que coroam a grande proposta saussuriana. 1) Pela primeira vez, desde os Alexandri­nos, se escreveu um texto de gramática ou linguística sobre os verbos duma língua humana em que eles são tratados, não a par­tir de al­guns exemplos, mas de forma tendencialmente exaustiva: ele analisa nada mais nada menos do que 3000 verbos[13], através das suas propriedades de aceitar argumentos (sujeito e comple­mentos preposicionais), clas­sificando-os em 19 tabelas, com al­guns verbos, por ex. ‘aller’, ‘donner’, ‘faire’, ‘avoir’, entrando em mais do que uma (ou seja definindo-se as respecti­vas grandes polis­semias). 2) Ora, algumas destas tabelas são de ver­bos se­mantica­mente aparentados (verbos de “passagem dum lu­gar a outro”, de “causativo de movimento”, de “juízo de valores”, etc.). Ora, se fôr possível prosseguir a afinação das análises em or­dem a conse­guir chegar a tabelas semânticamente homogé­neas[14], ter-se-á en­contrado uma maneira rigorosa de arti­cular a Sintaxe e a Se­mân­tica dos verbos numa só região, como Hjelmslev já fizera para a Morfologia e a Sintaxe[15]: foi a isso que Gross chamou Léxico-Gra­mática.

Comparação de antropologias através das línguas
19. Estas análises têm-se revelado extremamente interes­santes em pro­cessamento de textos - mormente para tradução automática entre línguas, que, ao contrário do que julgam os pu­ristas, é fortemente desejável para se conseguir que as línguas humanas resistam à sua creolização pelo inglês -.  Mas poderão vir a revelar outras possibilidades, se fôr verdade que a imanên­cia das línguas[16] lhes dá a pujança de lhes permitir: a) inscreve­rem-se em criancinhas e torná-las sujeitos de fala e saber, b) que podem por isso entender e formular em discursos inúmeros as­pectos da paisagem do Mundo da sua tribo (hoje globalizando-se, donde a importância da tradução). Para além das trivialidades habituais sobre os ‘russos’, os ‘franceses’, os ‘americanos’ (se ne­gati­vas, são sintomas de racismos, se positivas, de servilismos) poderia ter-se acesso a comparações entre formas diferentes que elas permitem de verem / serem o Mundo (a célebre tese de Sa­pir-Whorf). Do ponto de vista da separação clássica entre pensa­mento e mundo, esta tese é aberrante: do ponto de vista que aqui se defende, há que precisar justamente o seu não-determinismo, já que uma língua ao inscrever-se num humano, inscreve este como falante, isto é, inscreve os mecanismos de autonomia falante de que as regras sociais da língua fazem parte, apagando os ou­tros que lhes ensinam; ou seja, inscreve-o, com maior ou menor talen­to, como livre, capaz de segredo, de estratégia, de pensamen­to[17].
20. Ora, mesmo em línguas muito próximas pode haver dife­renças intrigantes. Seja, com a liberdade que é permitida aos ‘curiosos’, uma lista de verbos portugueses com a mesmo sufixo em ‘-ecer’, que me ocorreu há algumas semanas, que eu situaria em torno de ‘acontecer’: ‘aparecer’, ‘es­quecer’, ‘esclarecer’, ‘mere­cer’, ‘ador­me­cer’, ‘adoecer’, ‘estremecer’, ‘enrouquecer’, ‘enlouque­cer’, ‘fortalecer’, ‘enfraquecer’, ‘emagrecer’, ‘enrijecer’, amolecer’, ‘enfurecer’, ‘aborrecer’, ‘en­tris­tecer’, ‘estabelecer’, ‘abastecer’, ‘pre­valecer’, ‘encarecer’, ‘enri­que­cer’, ‘empobrecer’, ‘embranque­cer’, ‘aquecer’, ‘arrefecer’, ‘fenecer’, ‘falecer’, ‘perecer’, ‘apodre­cer’, ‘amanhecer’, ‘entardecer’, ‘anoitecer’, last but not the least, ‘obe­de­cer’; todos me parecem envol­ver uma significação que me ar­riscaria a caracterizar como ‘mudança de estado que acontece a algo ou alguém’; ‘obedecer’ seria o estado de quem está sujeito à mudança de estado que lhe mandarem, o que permite abordar esta significação através do sentido etimológico de ‘sujeito’: en­quanto que é tradicional a concepção que faz do ‘sujeito’ da frase um ‘activo’, um ‘causador’ (já Nietz­sche se queixava disso)[18], estes verbos supõem, quando o têm[19], um ‘sujeito’ nem activo (acontece-lhe algo) nem passivo (nesse acontecer, ele muda de estado), como sugere a etimologia do seu correlativo clássico, o ‘objecto’ como ‘objecção’. Ora bem, julgo saber suficientemente fran­cês para poder consta­tar que nessa língua os verbos que tra­du­zem estes nossos, que nem sempre os há, não têm entre eles ne­nhum parentesco deste géne­ro, que os agrupe. Haverá na lite­ratu­ra linguística portuguesa alguma análise deste sufixo e das dis­tri­buições destes verbos[20], permitindo esclarecer melhor este sen­tido gramatical em torno do motivo filosófico do ‘acontecimento’, tão caro a Heidegger, Derrida, Deleuze? Questão de linguística comparada: os equivalentes fran­ceses terão também esta mesma ‘propriedade’ sintáctico-semânti­ca que postulei hipo­teticamente?
21. Mas sem dúvida que as relações sintácticas re­veladas pelas tabelas de Gross são bem mais interessantes e dignas de se­rem comparadas entre vá­rias línguas (mormente os tais verbos locucionários que referi em nota ao § 18), a detectar-lhes even­tuais coincidências para certo tipos de verbos e variações para outros, o que seria certamente significativo na medida em que se conseguisse formalizar tais compara­ções: entre línguas la­tinas, entre germânicas, entre germânicas e latinas, indo-euro­peias em geral, etc., até chegar às línguas das grandes civilizações asiáticas. Da mesma maneira, seria interes­sante encontrar regu­laridades e irregularidades nas maneiras de se conjugarem os tempos ver­bais, os conjuntivos, os imperativos. No que diz respei­to às manei­ras de se construir o ‘eu’ e o ‘tu’ (quando eles existem), talvez se possa en­contrar o peso da ‘alma’ que a filosofia grega e o cristia­nismo introduziram nas línguas ocidentais e também os constras­tes, quer com os cristãos ortodo­xos, quer com os muçul­manos, isto é, regu­laridades e irregularidades entre línguas que disseram du­rante séculos religiões monoteistas absolutas. Então os grandes constras­tes entre estas línguas e as línguas que igno­raram a alma e o Deus que as conhece no seu íntimo, que não têm a noção de ‘absoluto’, poderia ajudar a compreender as dificulda­des de rela­ção e compreensão entre Europeus e Asiáticos.
22. Análises austeras de muito abstractas, provavelmente, só possíveis depois de infindáveis análises (entretanto necessárias para as preciosas traduções automáticas), talvez alguns dos nos­sos netos, Maria Alzira, possm vir a saber delas e a compará-las com as literaturas comparadas em que você é Mestra, e que eu ignoro.


[1] Como os ‘meios de comunicação social’. A que os americanos chamam ‘mass-media’ (eles martelam as massas como ninguém, e toda esta minha gente quer aprender com eles a martelar-nos) e os pindéricos que não sa­bem que ‘media’ é latim mas (não) sabem que quem sabe diz que (em latim o neutro plural do nominativo ‘-um’ é ‘-a’) se deve dizer ‘-a’ e não ‘-as’, e quem sabe parece não saber que do latim o português fez o plural da termi­nação ‘-a’, em regra, por ‘-as’ (como poeta fantasma, jornalista, vigarista), em inglês é que não! E depois, e é o cúmulo, mas toda a gente faz isto (e pode ser que se eu mando um texto para um jornal ou uma tipografia também me corrijam!) a subordinação duma língua latina à maneira angló­fona de dizer palavras latinas leva a que se escreva ‘media’, com aspas, a di­zer que é um termo inglês (os brasileiros vão ao ponto de escrever mídia, sem aspas!). O que é que será preciso para explicar a esta gente sabiamente colonizada que devem escrever os médias, sem aspas nenhumas, como qualquer língua latina que se preze. Que irritação!
[2] Quando Teresa d’Ávila ou Hadjwich falam assim, estão encontrando uma linguagem para as contar, essas experiências. “[Teresa d’Ávila] só escreve porque as palavras lhe faltam” (M. Allendesalazar, Thérèse d’Avila, l’image au féminin, Seuil, 2002, p. 73).
[3] “[...] Pode-se chamar ‘contexto’ toda a ‘história-real-do-mundo’, na qual este valor de objectividade, e mais geralmente ainda o de verdade, adquiriram sentido e se impuseram. [...] Uma das definições do que se chama desconstrução seria a tomada em conta deste contexto sem bordo, a atenção mais viva  e mais larga possível ao contexto e portanto um momento incessante de recontextualização. A frase, que para alguns se tornou uma espécie de slogan, em geral tão mal compreendido, da desconstrução (“não há fora-de-texto”), não significa senão que não há fora-de-contexto. Sob esta forma, que diz exactamente a mesma coisa, a fórmula teria sem dúvida chocado menos” Limited Inc., Galilée, 1990, p. 252.
[4] “Discursos, números, músicas, imagens. Cérebro, livro, computador”, in www.educ.fc.ul.pt./hyper
[5] Epistemologia do sentido. Entre filosofia e poesia, a questão semântica, F. C. Gulbenkian, 1991
[6] Que tentei prosseguir nas minhas Leituras de Aristóteles e de Nietzsche, A Poética. Sobre a Verdade e a Mentira, F. C. Gulbenkian, 1994. Ver a teoriza­ção dessa abordagem in “Semiótica e Ciências Sociais”, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 10, Coimbra, retomado em apêndica a A Conversa, Lin­guagem do Quotidiano. Ensaio de Filosofia e Pragmática, Presença, 1991.
[7] Há duas páginas verdadeiramente notáveis de Derrida em La voix et le phénomène, P. U. F., 1967, pp. 88-89, técnicas demais para as citar aqui, em que ele analisa como, no interior desta redução do empírico (no ser-ouvi­do), se continua a operação de ouvir-se falar - a auto-afecção pura da voz - com as idealidade dos sentidos das palavras, tornando possível a universa­li­dade: é a possibilidade do que se chama subjectividade.
[8] Recolher-se no ‘leito’, estendido, é da mesma família semântica (como ‘lit’, em francês, sugere melhor).
[9] “Não há senão texto, não há senão fora-de-texto, ao todo um “prefácio incessante’ que dá cabo [déjoue] da representação filosófica do texto, a oposição tradicional do texto ao seu excesso” (Derrida, La dissémination, Seuil, 1972, p. 50).
[10] Lembro-me de, nesses tempos, ter perguntado a um colega que ia dar um curso sobre o “problema fundamental da filosofia em Hegel”, o que era essa problema e dele ter-me respondido com ar de evidência: “o problema sujei­to / objecto”.
[11] Língua excepcional pela sua quase ausência de morfologia, o que faz dela uma útil língua de contactos internacionais.
[12] Ver texto citado na nota ao § 8, Q133ss.
[13] Que corresponderão a 3/4 dos verbos franceses presentes em dicionários de bolso. A leitura de E. Ranchhod (org.), Tratamento das Línguas por Com­putador. Uma introdução à Linguística Computacional e suas aplicações, Caminho, 2001, incluindo um capítulo de M. Gross, a cuja escola Ranchhod pertence, mostra de forma prática como é possível tratar textos de forma automática, isto é simplesmente formal: na sua imanência (embora com al­guns limites, mormente em literatura poética com as suas transgressões gramaticais). Esses métodos dependem essencialmente do grau de exaustivi­dade dos dicionários electrónicos que utilizam. Na p. 131, transcreve-se a primeira tabela do livro de 1975.
[14] Como tentei su­gerir na tese citada, a partir dos trabalhos dum linguista russo, J. Apresjan.
[15] À ma­neira tosca dum amador, es­bocei, no texto sobre a Con­versa citado (nota a § 4), um quadro de semânti­ca distribucional-pragmática para os verbos locucionários e performativos (que ‘fazem’ algo de social, a par do que ‘dizem’).
[16] O serem imotivadas, nas diferenças entre elas, em relação a factores fi­siológicos, ambientais, sociais.
[17] Contra uma maroteira do meu mestre Barthes, a língua não é fascista, dá, bem pelo contrário, mecanismos de resistência. Mas é certo que os fascis­mos generalizam-se pelas suas linguagens colectivizantes e estupidifican­tes.
[18] Para além do Bem e do Mal, § 17.
[19] ‘Amanhecer’ e congéneres são mais impessoais do que o exemplo gra­matical clássico ‘chover’, já que com a regularidade quotidiana da rotação da terra.
[20] Já agora, aqui entre nós que gostamos das palavras, haverá linguista que me explique esta espantosa conjunção, de tipo ‘lógico’ segundo parece, ‘já agora’, feita de dois advérbios temporais? Eis o que julgo compreender: que ‘já que’ (‘já que falas nisso’) e ‘agora’ (‘agora, se estás de acordo com o primeiro ponto, podemos dizer que...’) são conjunções desse tipo em que se entende a temporalidade: no primeiro caso, ‘já’ parece referir a fala ante­rior, no segundo a conjunção suporia o sentido do advérbio como índice de locução. Se ‘já’ em ‘já agora’, se refere possivelmente à fala anterior (no caso desta nota, a referência à literatura linguística como esclarecedora), continua enigmático para mim como é que o índice de locução ‘agora’ se liga ao ‘já’ para criar uma espécie de ‘acontecimento lógico’ numa associa­ção de ideias de que afastará o carácter arbitrário.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Futebol, guerra, religião



1. As sociedades humanas parecem ser regidas por uma lei de rivalidade a todos os níveis, os superiores eclodindo mesmo em guerras. O antropólogo francês Pierre Clastres explicou que as sociedades a que chamamos ‘primitivas’ que se depararam aos navegadores, conquistadores, comerciantes e missionários ocidentais, sempre foram descritas como fortemente guerreiras em relação às suas vizinhas, as trocas cingindo-se adentro das fronteiras. As sociedades agrícolas por sua vez tiveram guerreiros como castas ‘nobres’ dominantes. Mas também a níveis internos, cidades e regiões, onde quer que haja ‘estranhos’ aos costumes locais, mas mesmo familiares, entre irmãos e herdeiros, entre vizinhos de bairro, predominam sempre rivalidades de tipo diferente, como se as alianças sociais suscitassem delas mesmo irritações mais ou menos permanentes (‘quem pode mais?’). Esta lei da guerra é uma espécie de deslocamento da lei da selva que opõe os animais carnívoros aos herbívoros e estes às plantas como condição de sobrevivência, já que só alimentando-se de vivos se conseguem as moléculas complexas à base de carbono de que são feitas as células (as plantas recebem o carbono da fotossíntese) e justifica que as anatomias dos animais ganhem em músculos e astúcias quanto mais crescem as espécies. Assim fortes e astuciosos os humanos. Quando deixaram de ser canibais, sobrou-lhes apenas a guerra. Eis onde reside o velho problema do mal, da violência.
Ver Da ben(mal)dição: porque é que há Mal?
2. Qual a sua ‘origem’, como se reconstitui constantemente? Creio que é no próprio processo da aprendizagem dos usos de cada tribo em que crescemos a partir de outros, em geral mais velhos, que se apagam progressivamente para que o aprendiz ganhe autonomia. Todo o uso, de linguagem nomeadamente, é relacional aos outros e sucede com frequência que, no processo de recompensa e castigo que fomenta as aprendizagens, a vontade de aprender ganhe o sentido também de ser melhor do que os outros ao lado, o mais hábil e reputado, o capaz de ocupar os melhores lugares. Aos vários níveis sociais, esta rivalidade de querer ser melhor e mais forte instaura a lei da guerra que se pode reconhecer com facilidade à nossa volta, lendo jornais ou vendo televisão. Hoje ainda há guerras aqui e ali mas as ‘grandes’ guerras do século XX parece difícil que voltem a haver, já que é ao nível económico – concorrência e competitividade – que ela hoje se trava, os nobres guerreiros substituídos pelos burgueses capitalistas na dominação social.
3. Também as religiões holísticas desapareceram, como os fundamentalismos minoritários atestam os resquícios delas, substituídas pela escola obrigatória (isto é, holística) e pelos médias. Ora o futebol, e outros desportos em alguns países menos futebolísticos, parece ser um sucedâneo quer da lei da guerra quer das religiões. Da primeira, ele tem a competição como regra principal que serve para que haja campeões e equipas que o querem ser, mas com a vantagem de essas guerras serem organizadas com regras vigiadas por árbitros. Da segunda, ela tem a paixão clubística que se transmite em geral por parentesco e se vinca  a ‘herois’, mas que é capaz de envolver vidas poucos interessantes e dar-lhes um ‘sentido’ que de outra maneira poderia facilmente descambar em bebida ou droga; tem por outro lado as suas liturgias anuais, os seus campeonatos e outras taças entre clubes, além das selecções nacionais, propícias a um certo patriotismo que vai faltando noutras dimensões cívicas e políticas. Se tiver razão, não há que barafustar contra o excesso da violência no futebol: não desejável, ela faz parte da competição, da paixão de ganhar. Mais vale violência organizada e com regras, que bem sabemos como a falta de controle das competições financeiras tem consequências terríveis sobre todos nós. 
Público, 11 / 07 / 2014

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Brevíssima reflexão sobre as quatro grandes leis do universo


Brevíssima reflexão sobre as quatro grandes leis do universo segundo a fenomenologia que rege estes blogues

1. Assim como a lei da selva supõe a invenção da vida, das células e dos organismos em suas espécies e o ciclo biológico do carbono, também a lei da guerra supõe que as sociedades se constituem por alianças entre unidades sociais de origem biológica, isto é supõe a invenção do parentesco alem da biologia: aliança e rivalidade, aliança e guerra. O canibalismo seria o que fazia coincidir a lei da selva com a da guerra, quiçá anterior à invenção do fogo e da culinária, dos utensílios e das palavras e frases.
2. Quanto à outra grande lei das cenas humanas, a lei da verdade tribal terá um pressuposto como a da selva e a da guerra? Julgo que, pelo contrário, é a lei da verdade tribal, que implica com a sua aprendizagem precoce e o seu papel na aprendizagem dos outros usos sociais o entendimento prévio quer dentro de cada unidade social quer entre elas, que assim ela faz parte da possibilidade das alianças do parentesco: é preciso conhecer a língua para se fazer parte da tribo. A língua é parte dos paradigmas e por isso joga adentro deles, como ‘receitas’ em suas regras, sendo a lei da guerra que justifica as rivalidades de linguagem sob forma de mentiras e difamações; com efeito, estas só são possíveis por verosimilhança, se parecerem verdades. Enquanto que a lei da guerra tanto pode ser ‘surda’ como ‘descarada’, a mentira desmascarada deixa de o ser e é repudiada (ainda é o argumento de Platão no início da República contra a poesia).
3. E a lei da gravidade, o que é que ela supõe? Segundo a física clássica, supõe átomos e moléculas que formam graves (sólidos, líquidos e gasosos); mas que a Lua não a tenha, parece indicar que ela é uma lei dos astros e que será precisa uma certa dimensão para existir. Os físicos que citam Newton falam de "atracção dos corpos celestes". Portanto a lei da gravidade supõe a existência de estrelas ou outros astros. Os físicos de hoje andam à procura dum gravitão, duma força de gravidade de partículas: parece-me bem estranho que eles não se dêem conta de que a Lua não tem gravidade, portanto ainda menos as partículas, nem sequer os graves da Terra, contra a maneira como, estudante liceal, julguei compreender a lei de Newton segundo a qual dois corpos quaisquer se atraem segundo a proporção das suas massas e o inverso do quadrado das distâncias, como se fosse uma lei geral. Fui eu que me enganei ? A questão é de saber como é que as poeiras que sucederam ao big Bang se explicam, como é que as estrelas ganharam força da gravidade? Não sei física que chegue para ir mais longe, mas creio que há aqui um paradoxo valente.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Psicanálise e Antropologia


o corpo sem órgãos  de Deleuze
           

1. A relação da psicanálise à antropologia pode ser estabelecida pela passagem do ser no seio da mãe que é o feto e depois o bebé que mama para o ser no mundo da tribo, isto é, para a aprendizagem progressiva dos usos segundo o paradigma das unidades sociais onde a criança vai crescendo (família e escola na actualidade ocidental). Tal aprendizagem é correlativa da alimentação e da protecção que a criança mamífera precisa enquanto não for capaz de ter a sua parte autónoma no paradigma que garante essas precisões biológicas. Ora, o contacto recente com o motivo do corpo sem órgãos que Deleuze e Guattari propuseram no Anti-Édipo (1972) – motivo que não entendera senão como recusa da relação da psicanálise com a biologia, como o próprio Freud o fez em parte na Interpretação dos sonhos abandonando os ‘neurónios’ cerebrais do Esboço de psicologia clínica e mais acentuadamente Lacan com o motivo do “inconsciente estruturado como uma linguagem” – fez-me voltar a considerá-lo, mas agora usando um truque de leitura que me é frequente diante de motivos filosóficos que procuro trazer a uma perspectiva fenomenológica, que sempre me foi mais familiar: procurar traduzir esses motivos em exemplos (tenho um textozinho sobre isso neste blogue).
 
2. Como traduzir biológica e antropologicamente o corpo sem órgãos? Verificando que no ventre materno o feto é alimentado directamente no seu sangue pelo da mãe através do cordão umbilical que os une, ainda que, como sucede frequentemente, os sangues sejam de tipo diferente, mas nutrientes e oxigénio passam dum ao outro e no feto vão a todas as células sem respiração nem digestão, isto é, sem órgãos: nem boca, nem estômago, intestino e fígado, nem pulmões. Estes órgãos correspondem às necessidades anatómicas da biologia de qualquer humano que durarão toda a vida e são introduzidos com o parto, como se sabe, num processo em que o digestivo é progressivo, começando pelo líquido leite materno antes de vir a mastigar com dentes mais tarde. Mas a dependência desse corpo agora com órgãos em relação a quem lhe garanta alimentação e protecção, as duas necessidades imediatas de qualquer animal, desde os invertebrados, vai continuar no que se poderá chamar um corpo ou um sujeito sem usos, durante todo o tempo, variável segundo as sociedades, de aprendizagem dos usos adultos que lhe permitirão trabalhar, isto é, participar em paradigmas de usos que tenham alimentação e protecção como contrapartidas (salário em sociedades de direito, no nosso caso mais frequentemente). Porquê ‘sujeito’? porque é justamente esse o efeito das aprendizagens dos usos sociais, desde a própria língua, tornar sujeito relativamente autónomo como ser no mundo quem começa por não o ser e se altera como sujeito a cada novo uso que se torna sua habilidade esponânea.
3. O parto traz os órgãos e a aprendizagem traz o mundo. Entre ambos, após o período do ventre de  corpo sem órgãos pleno, um período de latência até ao estádio de adulto, embora com trabalho infantil nas casas rurais de antanho e escolar actualmente, permite que o motivo de corpo sem órgãos como que se prolongue parcialmente no corpo ou sujeito sem usos como tempo de brincadeira, isto é, de jogos sem finalidade fora deles, que valham pelo prazer que dêem, rivalidades incluídas e respectivas malandrices. Jogo além das necessidades de alimentação e de protecção que a respectiva unidade social (família, escola) garante, mas sendo de sublinhar que é lição fundamental do Anti-Édipo que esta tribo, aqueles que as crianças conhecem regularmente, é envolvida por gente de outras tribos, gentes estranhas que se não conhece, de que se desconfia, em círculos que se prolongam até bairrismos, outras cidades, estrangeiros enfim, e a organização capitalista que penetra todas estas unidades sociais: nomeadamente o dinheiro como fetiche dominante, o endurecimento do poder nas relações hierárquicas, a mediocridade mediática.
4. O corpo sem órgãos e sem usos pode-se talvez dizer que perdura como corpo brincalhão que sobrevive sempre aos usos diários e profissionais como um ‘além’ que pede amor e amizade, leituras, artes, actividades cívicas, férias, viagens, que sei eu da lista possível de coisas que relevam do gratuito (ainda que haja dinheiro a gastar), além de entretimentos diversos em que o futebol predomina: divertimento é a palavra que diz de forma geral o que nos desvia dos constrangimentos quotidianos para o diverso que vale por si. Outra palavra que parece ligar-se melhor ao que venha da brincadeira da infância, é a paixão que pode agarrar uma vida profissional inventiva de usos a melhorar, paixão que dispensa divertimentos, como um grande amor. 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Piketty : o livro que faltava à Esquerda


1. Há vários anos já, como atestam alguns textos deste blogue listados no final deste, que me tenho atrevido a escrever publicamente sobre economia sem ser economista (nenhum número apareceu nesses textos) e advogado a necessidade duma reformulação da ciência económica, de ordem terapêutica ou pragmática, pois falta pensamento teórico de ordem económica à Esquerda, capaz de mobilizar estratégias e energias. Tratar-se-á de lhe dar orientações estratégicas adequadas aos tempos presentes de guerra de capitais financeiros desenfreada global e electronicamente desde que Reagan e Thatcher puseram Friedmann a mandar nas economias. O Capital no século XXI de Thomas Piketty, segundo a resenha de João Constâncio no Público de 16 de Maio, parece ser o livro tão esperado, que eu resumiria desta forma: sendo necessário o capitalismo ao desenvolvimento humano, ele só será viável democraticamente sob a forma da social democracia, com redistribuição por via de impostos dos capitais (acumulados), de maneira a garantir confortavelmente o Estado social e a impedir que a guerra dos capitais destrua as economias, a aliança entre empresas e famílias que é a sociedade moderna. O Estado tem o papel essencial de regulador, de maneira articulada com a escola e os médias democráticos para que uma opinião pública esclarecida possa apoiar e ser apoiada por esta reformulação da ciência económica.
2. Sem dúvida que são imensas as dificuldades para impor esta nova visão em sociedades interligadas cada vez mais por mercados sem cabeça central nacional, numa União Europeia ameaçada de nacionalismos egoístas, bem como numa globalização em que países emergentes de enormes populações procuram afirmar-se como potências. Mas o que me parece certo é que sem uma teoria económica contrariando as desigualdades criadas pelo “pensamento único” não há réstea de esperança possível. A convicção politica que a nova economia traga aos partidos de Esquerda será decisiva, não apenas nos seus círculos tradicionais mas também aonde um partido de centro direita se denomina de ‘social democrata’ e junto de quem se reconheça na doutrina social dos predecessores do novo Papa que denuncia corajosamente “a economia que  mata”, doutrina que pode ser revisitada como exigindo a redistribuição fiscal que tornará possíveis Estados sociais sustentados. Não apenas a Esquerda mas toda a gente “de boa vontade”, como dizia uma célebre encíclia de 1962, Pacem in Terris, todos os que se têm indignado com a visão da destruição das economias que tem feito a “Austeridade” dos pobres e remediados para devolver aos ricos, como se fossem estes que, sozinhos, tivessem enriquecido, como se, em época de robots e computadores, se preparassem para serem os seus únicos beneficiários. É uma excelente notícia quando a Troika se vai embora.
3. Voltarei a este texto para retomar de forma critica a comparação que J. Constâncio faz com Darwin, que falha quer com este quer com Peketty, mas não quis esperar por tão boa notícia.



http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/2011_10_01_archive.html


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Da Economia como ciência pragmática




1. Um velho texto de António J. Esteves, sociólogo da Universidade do Porto, que evoca as engenharias como “ciências de projecto” de Herbert Simon para incluir nelas a Economia, trouxe-me algo que procurava há vários anos. Segundo ele, “a determinação de ‘como as coisas podem ser’ e de ‘como devem ser’ para a realização de determinados objectivos delimita um conjunto de saberes que não se resumem às disciplinas científicas nem à sua ‘aplicação’”, diz Esteves, o projecto da Economia devendo ser “uma nova politica de bem estar social para um Estado” (H. Simon)[1]. Ciência de acção e portanto de mudança, pragmática assim, a sua verdade consistirá na transformação que ela consiga operar nas estruturas sociais sobre que incide, implicando a definição de objectivos.
2. Era esta descrição que me escapava, modesto fenomenólogo praticante de filosofia com ciências. Sendo uma ciência dos mercados, a economia é apenas uma ciência social entre outras que a ausência duma ciência global das sociedades capitalistas levou a ocupar esse lugar, indevidamente por certo mas a apelo do vazio. O seu carácter sectorial implica que os ‘objectivos’ a reconhecer-lhe não dependem exclusivamente dela mas de algo que a ultrapassa: a dupla grande crise que atravessamos, económica - financeira e climática, orienta o nosso olhar para o mais largo objectivo da Economia, a perpetuação da espécie humana, posta em questão por duas questões dramáticas, o enorme desemprego jovem (que futuro daqui a 30 anos?) e as consequências da progressiva alteração dos climas (que futuro daqui a 100 anos?). Estas duas questões impõem à Economia a consideração da nossa condição biológica como axioma imperativo, se dizer se pode: qualquer animal tem como problemas principais comer e proteger-se de ser comido e a sociedade começa por ser uma forma cooperativa mais económica de enfrentar esses problemas. No que dependa da Economia, há que garantir a alimentação (o “bem estar social” de que falava Simon, a que chamamos na Europa o Estado social) e a protecção de todos os cidadãos, a nossa liberdade (o Estado de direito). O imperativo estende-se à salvaguarda do planeta que nos dá a vida: a este nível, de que não me ocuparei, o papel da Economia será nomeadamente o de remover obstáculos derivados da arbitrariedade da especulação financeira.
3. Ora, a Biologia oferece também uma espécie de modelo para delinear os objectivos da Economia, à maneira da Medicina. Sabemos hoje que há uma inter-relação entre a determinação genética que diz respeito à reprodução das moléculas de cada célula do organismo e a circulação do sangue (que as alimenta a todas elas), a qual, instável, deve ter uma estabilidade homeostática cujos limiares, máximo e mínimo, são o objectivo médico, a nossa saúde: tensão arterial, seus teores variados (análises de sangue), mormente os de nutrientes e oxigénio. Para o que nos interessa aqui, este imperativo da saúde cifra-se em não se comer nem de mais nem de menos. O que nos tem chocado a todos nesta crise é ver-se a maior parte da população ser despojada mais ou menos brutalmente do que tem para viver, muitos do emprego, outros de parte do salário ou da pensão, enquanto que os muito ricos enriquecem e põem os capitais a darem dividendos lá fora.
4. O escândalo é que, aos olhos da Economia, isto parece ser apenas algo de lamentável, nem sequer ‘imoral’: o argumento com que nos enchem os ouvidos é o da ‘credibilidade’ junto dos grandes capitais especulativos, ditos ‘mercados’ como se fossem honestas mercearias. Ou seja, este baixar até à miséria de milhões de pessoas e a grande riqueza de poucos milhares não é nada que pareça dizer respeito à Economia enquanto ciência, algo que é deixado como preocupação aos políticos. Nela não haver respeito pelos limiares mínimos e máximos da Economia, faltar no seu arsenal axiomático o que define os seus objectivos enquanto ciência da ‘habitação’ (oikos, casa). No entanto, a crise ilustra como proceder na homeostasia social, na estabilidade instável (Prigogine) das conjunturas: garantir os mínimos (o Estado social) – que deverão ir até ao pleno emprego, diminuindo as horas de trabalho de todos para que todos o tenham – e corresponder a essas despesas com impostos (é a social-democracia) sobre a propriedade ‘privada’ (do social), a qual só vale por essa ‘privação’ que lhe dá contexto (ou seja, os impostos são devolução ao social duma parte do recebido dele). O nosso governo troikista, pelo contrário, forçou aquém dos mínimos sociais sem qualquer pudor, para garantir os máximos aos credores que vivem de especulação – jogam com títulos para lá, títulos para cá –, sem que a Economia enquanto ciência pareça ter algo a dizer a esse respeito, como se fosse apenas uma questão moral, ou o fatalismo de “as coisas serem como são”.
5. Não sou de economia nem de qualquer outra área social e percebo a dificuldade imensa de uma ciência económica global e que pretenda domesticar os capitais internacionais. Mas as crises são as sociedades a tornarem-se laboratórios exibindo o que falta às ciências, pedindo para as reformular, se ainda for a tempo. Ou para o que sobrar de espécie humana.

Público, 12 de Maio 2014 



[1] In M. Pinto e S. Silva, Metodologia das ciências sociais, 1986, p. 255-6

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Consciência e memória




(retorno à questão de “Memória em fenomenologia neurológica” neste mesmo blogue)

Neurónios e mente: Damásio renova a questão
O que a psicanálise complica ao neurologista
A bifurcação da linguagem
Retorno à questão da memória


Neurónios e mente: Damásio renova a questão
1. O que especifica os neurónios enquanto células é eles afectarem-se uns aos outros por múltiplas sinapses, permitindo a auto-afectação do humano (como de qualquer animal) e a sua hetero-afectação. Não li isto em nenhum livro de divulgação neurológica, deduzi duma definição de ser vivo por Derrida – “a auto-afectação é uma estrutura universal da experiência [...] só um ser capaz [...] de se auto-afectar, pode deixar-se afectar pelo outro em geral; esta possibilidade, outro nome da vida [...]”[1] (a dizer verdade, isto só é válido dos animais, não das plantas) – que era essa a especificidade dos neurónios dos seres no mundo que são os animais. Eis o que pode dar o devido valor à solução extraordinariamente simples que o último livro de A. Damásio, O livro da Consciência, trouxe à velha e dificílima questão da diferença entre o cérebro e a mente e à oposição alma / corpo donde aquela é a herdeira, que foi a de dizer – sem argumentar, mas dizendo-o várias vezes como algo que é óbvio – que à rede dos neurónios de cada um[2] apenas o próprio tem acesso, ao que se poderia chamar a sua ‘internalidade’ (da rede de relações sinápticas), e não o neurologista com os seus instrumentos de laboratório: é a esse acesso exclusivo que, sem dualismos, Damásio chama mente. Esta será o saber de si e do seu mundo ecológico. Genial simplicidade duma questão que embaralha os neurologistas, desde o incrível livro de J. Eccles e K. Popper (o título é revelador, The Self and his Brain!) até às buscas de ‘mecanismos’ cerebrais em redor do ‘eu’ e da ‘consciência’ que evoca Kandel no final do seu livro (Edelman e Crick).
2. Mas a simplicidade desta resposta esplêndida repõe velhas questões, nomeadamente a da memória. O que é esta e porquê é ela necessária e como escapam os respectivos neurónios à consciência. Ou seja, porque é que não estão todos os neurónios sempre ‘acesos’ como mente? A primeira observação a fazer é que um cérebro demora tempo a desenvolver-se – o que é verdade para qualquer animal, mas no caso humano aprende-se até ao fim da vida –, isto é, a tornar-se o órgão biológico e social que ele é. A rede neuronal que se vai instalando em suas sinapses com a aprendizagem, como mostrou Kandel com a sua lesma do mar, é algo de material, bioquímico, isto é espaço e tempo, a sua manifestação enquanto ‘saber’ também implica tempo, como falar ou ouvir, ou ler um texto, o tempo das palavras se seguirem umas às outras, embora sendo o cérebro–mente bastante mais rápido e não se trate só de palavras, claro, também de gestos usuais em sentido largo. Com efeito, não é possível ter um texto instantaneamente na mente, um resumo é outra coisa, o que chamamos uma ‘ideia’ do texto é uma aproximação. Isto para dizer que parece ser impossível que tudo o que sabemos na nossa rede neuronal nos seja simultaneamente presente num momento mental mais ou menos curto. Temos, bem pelo contrário, frequentemente a experiência de nos ser difícil lembrarmo-nos de algo que nos está interessando, de que quanto muito nos vêm apenas fragmentos. Essa totalidade ‘acesa’ seria aliás esmagadora da própria noção de ‘eu’, que também é temporal, implica articular sequências, antes e depois. Sendo tão extensa a rede neuronal, parece que só pode haver consciência se esta se demarcar na rede, como uma sua zona (oscilante, por certo, deslocável).
3. Já que a sequencialidade do ‘eu’ é também de grandes oscilações entre estádios da consciência: atenta, descansada ou relaxada, a dormir, com graduações entre estes três estádios, é bem de ver, mas que poderemos considerar como suficientemente significativos para o que pretendemos compreender, entre consciência e memória. Chamamos memória ao estado normal duma boa parte da rede neuronal que corresponde à parte que pode estar presente à consciência vigilante mas não está por inibição devida à atenção ou mesmo em relaxação. Esteve aquando da aprendizagem que a grafou, mas de tão repetida deixa de ser útil: se em cada coisa que fazemos tivéssemos a atenção de quando a aprendemos, se todos os neurónios estivessem mentalmente dispersos, nunca passávamos da cepa torta. Não só não está presente, como não depende dessa consciência vigilante a sua manifestação: como diz a palavra francesa para ‘recordação’, ‘souvenir’, literalmente ‘sub-vir’, é a memória que vem quando algo a acorda do seu estado habitual, o de latência, de estar escondida, à espreita ou não. À espreita, porque a consciência vigilante não pode exercer-se na sua actividade corrente sem o recurso constante ao seu ‘saber’ latente, que lhe ‘sub-vem’ sempre que é preciso para essa tal actividade, duma forma que parece ser extremamente variável e que não tem necessariamente que se explicitar antes de desaparecer novamente. Quando falo dum assunto numa aula, por exemplo, as frases que vou dizendo saem, como dizer?, do muito mais que sei dele e que joga no que digo sem se manifestar, manifestando-se em parte logo que uma pergunta a provoca. Há uma espécie de jogo permanente entre a atenção e a memória, com partes automáticas (as que dizem respeito às regras da língua, por exemplo) e outras não, que são suscitadas (citadas a sub-vir) mas têm a sua autonomia na maneira de virem, com lapsos e esquecimentos, por exemplo, num jogo intenso do que se chama ‘associação de ideias’, e com a incerteza de se poder contar com a fidelidade dela, que é o que nos faz levar uns apontamentos para a aula. É certo que a latência maior ou menor da memória tem a ver com a repetição dos respectivos grafos: as palavras correntes da língua estão sempre disponíveis automaticamente, assim como os gestos que repetimos quotidianamente, desde lavar os dentes a guiar. Do mundo neuronal que diz respeito a esta memória, por assim dizer sempre atenta, sempre a manifestar-se e a esconder-se, pode-se porventura dizer que faz com a zona consciente em cada momento um só mapa de grafos, à diferença da memória dum livro, dum filme, dum acontecimento singular que se vai esbatendo com o tempo, com acentos diversos consoante a força que tiveram, algumas memórias com certa frescura, outras desaparecidas quase.
4. Or que é a atenção? Digamos que é a maneira como esta consciência vigilante é chamada por uma situação do mundo em que se é, ainda que por vezes respondendo a necessidades próprias, como fome ou sede, mas para responder a essas situações (ir a um restaurante ou fazer uma refeição em casa) é sempre segundo possibilidades, minhas do meu mundo, ecoando na memória do que se aprendeu. Como todos sabemos pela experiência da nossa inexperiência: diante duma situação bastante nova, normalmente ficamos sem saber o que fazer de imediato (temos que perguntar). Pelo contrário, em situações conhecidas, embora complicadas, somos capazes de responder porque aprendemos, quando éramos mais novos e nos ‘chamavam a atenção’ (‘isso não se faz!’, ‘cuidado, isto faz-se assim!’). Esta expressão explicita o que me parece aqui importante sublinhar: o estádio da atenção da consciência, que por um lado é suscitado pela situação no mundo que nos ‘capta a atenção’, por outro precisa da relação à memória que sub-venha. Pode ser um perigo, que nos ‘concentra’ na situação em que estamos, palavra que diz o apagar de outras considerações, a predominância que restringe o campo da consciência (posso esquecer uma dor ou outra preocupação qualquer numa situação anómala). Poderemos então dizer que o que distingue este estádio de atenção ou consciência vigilante do estádio da relaxação – consciência desconcentrada em que a memória se aviva mais de incertezas e dispersões –, implicando a própria noção de atenção como ‘tensão’, será a necessidade de regras de conduta em tal situação, de cuidados a ter como se aprendeu. É esta tensão da atenção captada que exclui provisoriamente muito saber da memória quotidiana. É o paradigma dos usos, estas regras como lei social no que diz respeito ao fazer de cada dia, que joga aí o seu jogo, na tensão suscitada por uma situação de perigo, mas também pode ser, por exemplo, a leitura concentrada dum livro, que expulsa dela mesma a dispersão da memória relaxada, posso nem sequer ouvir a campainha da porta de tal maneira o livro me absorve a atenção; mas se se ouviu, então é a memória latente que desperta e a do que se estva a ler que passa a latente. Ora bem, o que Kandel mostrou, foi que o que se aprendeu para obviar a um perigo ou a uma carência e que faz memória, a inscreve como sinapse de grafo – mapa neuronal de grafos da nossa espontaneidade –, saber e força em cada um, que tanto é o que age neste uso, nesta conversa, como o que se retira enquanto memória latente.
5. Sem nunca saber dizer nada de localizações destes grafos que funcionam sempre em oscilações de espaço como de tempo, de zonas como de sequências, creio que fica uma extensão de memória menos actuante e por isso mais susceptível de falhar por vezes, mas que será memória ainda, mais ao sabor das ‘associações de ideias’ (‘é verdade, nunca mais me tinha lembrado disso’). E há a sua alternativa, a actuação tão insistente que se torna memória apagada, os neurónios que sabem da roupa que se tem vestida, de gestos dos pés ao andar, das coisas que se vêem todos os dias em casa e por isso não se repara nelas: essa é mais claramente memória apagada para não esmagar a consciência vigilante, claramente empurrada pelo que se aprendeu e se soube e se repete como se não se soubesse, apagada por inútil, fazendo parte da memória implícita de Kandel, mas diferente da memória que age em gestos habituados. Um outro exemplo: quando muito cansados nos pomos em posição de relax, sem pensar em nada e prestando atenção ao passar do sangue, numa têmpora por exemplo, consegue-se com a experiência vir a estar consciente da circulação do sangue por uma boa parte do corpo. É fácil de perceber que o apagamento dessa memória mental do sangue circulante é uma economia energética da rede neuronal a favor de maior concentração energética da atenção no mapa de grafos quotidiano. Difícil é, pelo menos ao leigo, saber como é que estes jogos energéticos de compensação se fazem, entre hormonas e neuro-transmissores.

O que a psicanálise complica ao neurologista
6. E aquilo a que a psicanálise chama ‘inconsciente’? que não é apenas o ‘não consciente’ (que em rigor coincide com o sentido primeiro da palavra ‘memória’, a latência) mas algo que é impedido de ser consciente, que seria perigoso se o fosse, como sucede no que se chama habitualmente loucura, pior do que uma bebedeira, que triunfa todavia nos sonhos. Julgo que se pode fazer um paralelo com a memória do tempo de infância (in-fante é o que não fala), da aprendizagem da fala, de que normalmente ninguém se lembra, provavelmente porque justamente anterior à linguagem com que a memória funciona: não será memória impedida por outrem mas incapaz por si, podendo porventura ter algum papel nos sonhos. Ora, os sonhos são o terceiro estádio da consciência; quando se dorme, não se deixa apenas o ‘mundo’ exterior de usos a fazer mas também a consciência de si e as suas memórias, até as mais íntimas e secretas, e é aonde então, em vários períodos do sono, surgem cenas inesperadas e incompreensíveis a maior parte das vezes com outras gentes em jeitos diversos; aí, segundo Freud, prevalecem imagens e sensações, visuais sobretudo, da ordem do ‘concreto’, em que mesmo quando há palavras ditas ou escritas estas valem como imagens (de voz ou de grafia). Tratar-se-á então de um estádio em que prevalece a situação arcaica da memória, como seríamos se não houvesse nem linguagem nem as variadas regras dos outros usos quotidianos. Será a memória da não lei, da não regra, não testável por definição pelo neurologista, como aliás se rebela fortemente ao psicólogo e ao psicanalista. Será então o que justifica o lugar dado às regras dos usos na sua relação entre memória e consciência vigilante: é o que chamei mapa dos grafos que se apaga quando se adormece, a nossa lógica vigilante, a memória antropológica. Isto representa uma hipótese de compreensão da lógica da psicanálise, que justamente releva da consciência vigilante (não se faz psicanálise a dormir!), mas que também desconfia dela. O que constitui o laboratório da psicanálise percebe-se: é um divã que não sendo para dormir se aproxima da relaxação do sono, e uma regra contra as regras sociais, tendente a ‘desarmar’ a consciência vigilante das suas ‘armas’ quotidianas: ‘diga tudo o que lhe vier à cabeça, não me esconda nada, ainda que lhe pareça estúpido, sem interesse, obsceno, contra a lógica e a moral sociais’, isto é, contra os usos de cada dia. Com ênfase nos sonhos e na sua interpretação, a ‘análise’ vasculha as zonas da memória de relaxação entregue ao ‘delírio’ das associações de ideias. Ora, o que posso saber de um ano e meio de análise, é que este jogo de memórias estranhando-se é progressivo mas bastante lento em seu aproximar-se das zonas que resistem a vir à memória, que interrompem com silêncios ou choros ou denegações e outros actos falhados e assinalam bloqueios da memória, forças mais fortes que resistem. Se se retiver de Kandel que um pequeno acontecimento traumático leva a abrir uma sinapse (ou mais), dir-se-á que a força que agrediu o neuronal ao se gravar se transformou em força de reacção, de defesa ou de ataque: recebida passivamente de fora, virou actividade para fora, segundo a lógica de toda e qualquer aprendizagem. Então, no caso das resistências que não conseguem dizer-se explicitamente, haverá que dizer que o seu efeito terá sido diferido e deslocado, sublimado. E que isto se passou ao longo dos tempos, com repetições de forças nas mesmas zonas e repetição do diferir e deslocar, que terão sido os usos que se foram aprendendo e triunfaram na cena social do paradigma dos usos, reconhecido após ter sido incitado e corrigido. Com o longo tempo e o aleatório dos percursos, pode o que ficou bloqueado vir a doer de tanto  pisado, ao contrário de outros que poderão vingar em suas habilidades espontâneas. O que assim se sugere é que o tempo da passagem da pertença ao seio da mãe, parto, desmame pelo andar, mexer e falar ao ser no mundo do paradigma de todos é o das muito difíceis aprendizagens, dos primeiros grafos e sinapses que vão ser alicerces de muitos outros, e que estes prevalecerão sobre aqueles primeiros, ainda impotentes face ao que os posteriores conseguem. Seria essa impotência que ficaria marcada como in-consciência, incapacidade de chegar à consciência do que terá ganho um estatuto de alicerce dinamizador, se dizer se pode. Os prazeres passivos de se ser parte da mãe, do seu seio, ficam interditos pelo que se vai ganhando como possibilidades activas e seus novos e menores prazeres: são as regras destas possibilidades, deste ‘poder’ ser no mundo, que impossibilitam o retorno ao que fica marcado como incestuoso.
7. Mas é óbvio que disto tudo os neurologistas não poderão saber, resulta da paciente ‘análise’ de discursos no divã, do neuronal ‘mental’ a que só o próprio tem acesso. E quando se os vê a fazerem certas experiências de laboratório e concluírem que Freud estava errado, o mínimo que se pode achar é que provavelmente nunca leram o seu admirável Interpretação dos sonhos, que não fazem a mínima ideia da diferença entre o seu laboratório químico eléctrico de experiências relativamente curtas e o longo tempo das caminhadas psicanalíticas, um outro mundo. Basta ler o capítulo sobre os sonhos de M. Jouvet em O sono e o sonho, de como não consegue retirar da sua análise de dois mil e cinquenta sonhos mais do que duas considerações relativamente anódinas e comparar com o livro de Freud para se medir a diferença. Que também é de paradigmas incomensuráveis, como dizia Kuhn, muito mais do que a incomensurabilidade entre físicos de gerações diferentes.

A bifurcação da linguagem
8. Uma das possibilidades da linguagem dos humanos é a de permitir ‘suspender’ o contexto situacional do falante e do ouvinte (do escritor e do leitor) em vista de ‘criar’  um acontecimento de palavras trazendo consigo o seu contexto : dois bons exemplos são, quer o contar uma narrativa do passado ou uma ficção, quer o que se chama pensar, incluindo sonhar, desejar, imaginar outras possibilidades do que as do contexto situacional, do ‘aqui e agora’. O ‘discursivo’ (que Benveniste distinguiu do ‘narrativo’) permite dois modos dos verbos : o indicativo presente que, com outros índices de locução (‘eu’, ‘tu’, ‘aqui’, ‘agora’, e outros), reenvia ao seu contexto, ‘indica’ o que está ‘presente’ a esse discurso falado, e o conjuntivo, que reenvia a esta capacidade de pensar em outra coisa, guardando todavia o suporte do ‘eu’ da enunciação e a relação ao ‘tu’. Da mesma maneira, a narrativa evocada pode guardar este suporte (auto-narrativa, a respeito do locutor), que no entanto estruturalmente ele exclui. Que nome dar a esta possibilidade das nossas palavras de ‘suspenderem’ o nosso contexto situacional e de nos arrebatarem para algures, absorvidos por exemplo na leitura dum romance apaixonante ? Bifurcação ? Jogando com dois dos sentidos da palavra ‘sentido’, poder-se-ia com efeito falar de bifurcação do sentido : o que nos orienta no espaço, direita, esquerda, à frente, atrás, em cima, em baixo, norte, sul, este, oeste, por um lado, e por outro o que, sentido do discurso, nos dá uma outra possibilidade ao nosso ser-o-aí, a de se ser algures, num outro aí. Bifurcação : ao mesmo tempo aqui-presente e algures.
9. Esta bifurcação far-se-ia entre o nosso contexto situacional, o nosso ‘aqui e agora’, e o contexto contado pela palavra ou pelo escrito. Este tem a potência de nos raptar daquele, de nos absorver, de nos bifurcar[3]. Pode-se presumir que seja necessário normalmente um ponto de partida no contexto situacional para que haja esse ‘ir-se’ da bifurcação, algo, acontecimento mínimo, que faça interrupção, que faça ‘associação’ entre um elemento do contexto e o que está em jogo na palavra, dita ou silenciosa : um encontro com alguém, tal coisa que acene à memória, ou muito simplesmente uma associação de ideias.  Esta é tão frequente que temos que admitir que o nosso estado normal seja o de estar sempre já em bifurcação de sentido, digamos assim, entre a situação do contexto e a do discurso[4], a chamada consciência. Prevenção dum ‘acidente’, a expressão  ‘dá atenção !’ lembra com insistência que há que estar atento ao contexto quando se está algures, nas nuvens.

Retorno à questão da memória
10. O que esta questão da bifurcação implica é que ela vem-se estabelecer lentamente com a aprendizagem da fala e, com os outros usos, andar, mexer nas coisas, brincar, a atenção sendo constantemente ‘chamada’ por quem educa para o contexto presente, este é também coberto pelas palavras que o nomeiam, o que o povoa e nele se faz. Se dissermos que estamos, quando acordados, sempre numa ‘paisagem do nosso mundo’, em interior ou em exteriores, e que os nossos ‘sentidos’ acordados são esse mundo que lhes é dado e que muda sempre que nos movemos, e que é nessa paisagem que somos possibilidades de usos, o que a linguagem aprendida traz à bifurcação é que esse ser em paisagem e em possibilidades é coberto pelas palavras e pela sintaxe das frases que dizemos, de maneira tal que praticamente nada do que era in-fância antes dela lhes escapa (a não ser eventualmente certos gostos visuais e auditivos que venham a manifestar-se em talentos de desenho ou música, que em certas pessoas parecem inatos). Mas o que se chama língua materna será a língua da saída da mãe para o das falas e dos usos: ela orienta o que se vê, ouve, diz e faz: o que corresponde ao que Derrida escreveu: “na língua não há fora de texto”. E será o que ‘après coup’ torna impotentes os neurónios cujas principais sinapses se instalaram na in-fância, incapazes de virem jogar directamente qualquer jogo na consciência atenta mas porventura indirectamente (por deslocamentos e metaforizações, em termos freudianos) na consciência relaxada.
11. Conjecturo que é difícil nestas coisas saber se as sinapses dum dado neurónio são todas da mesma idade ou se podem ter anos de diferença, o que poderá invalidar algumas destas hipóteses. Mas esta in-fância seria por um lado o que a psicanálise busca atingir, os seus efeitos, e por outro, paradoxalmente, corresponderia à concepção dominante de todos os neurologistas que li (Eccles, Changeux, Vincent, Edelman, Berthoz, Jouvet, Damásio, Kandel…), o de não terem em conta a linguagem como aprendida e que lhes baralhará as contas todas.


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[1] De la grammatologie, p. 236, citado in Belo, 2007, 3. 12. Digo isto para ajudar a perceber que a fenomenologia pode ser interessante para os neurólogos.
[2] Dos mosquitos aos humanos, acrescente-se como prolongamento do óbvio
[3] É aonde residiria, parece-me, a ‘verdade’ do que se chama idealismo, cujo erro consise em dividir ou separar a bifurcação entre ‘corpo’ e ‘alma’, extensio et cogito, finalmente objecto et sujeito. Em Husserl : região natureza e região consciência.
[4] Limito-me aqui ao discurso, mas este ‘lá’ pode ser também música, jogo de imagens, cálculo matemático.