quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A Bíblia Hebraica revisitada




1. Assim como os Filósofos escreveram a Filosofia grega, também os Profetas escreveram a Bíblia hebraica. Eis o paralelo que se pode estabelecer a partir da revolução paradigmática dos estudos exegéticos, sobretudo protestantes de língua alemã, relativos aos seus cinco primeiros livros, o Pentateuco, revolução essa que despoletou a partir de 1975 e de que dá fé, em língua acessível a latinos, o livro organizado pelo suíço Albert de Pury, Le Pentateuque en question. Les ori­gines et la composition des cinq premiers livres de la Bible à la lu­mière des recherches récentes, Labor et Fides, 1989, em que colaboram os principais obreiros desta renovação espectacular.
2. Na Bíblia hebraica, além desses cinco livros contando a pré-história lendária dos antepassados Abraão e Moisés, segue-se noutros cinco a história da monarquia inaugurada por David (por volta do ano 1000 antes da nossa era tomou Jerusalém e fez dela a sua capital) e que terminou em 587 com a derrota de Judá e Israel face aos Caldeus da Babilónia. Depois vêm os livros dos grandes Profetas, Isaías, Jeremias, Ezequiel e mais uns tantos menores, fortemente críticos da falta de justiça social dos monarcas e que reclamam falar em nome do próprio Deus de Israel, Yahvé. Durante o século XX, pensou-se que, das quatro redacções de que o Pentateuco é composto, a primeira era do tempo do rei Salomão, filho de David, a segunda contemporânea dos Profetas do século VIII, a terceira o livro dito Deuteronómio em grego, de cerca de 640, e a quarta já no século V provavelmente, após a restauração de Israel, na paz de vassalos que os Persas lhe garantiram entre vencerem os Caldeus em 539 até serem derrotados por Alexandre em 331. Esta última mão fez o acabamento do Pentateuco, a chamada Tora, a Lei de Moisés que ainda hoje é lida solenemente nas sinagogas.
3. O argumento fundamental da revolução paradigmática é este: nenhum dos Profetas fala de Abraão, de Moisés, da saída do Egipto, da aliança e outorga dos 10 Mandamentos no Sinai, o que implica necessariamente que os textos que contam essas lendas foram escritos apenas depois dos textos dos Profetas, o primeiro dos livros do Pentateuco sendo o Deuteronómio, o tal de 640. Explica-se assim, exemplo importante, que apareça por duas vezes, no cap. 12 do Génesis e no início do Êxodo, a figura antropologicamente impossível dum Deus sem povo que escolhe um: primeiro o seu antepassado Abraão, depois o seu líder libertador Moisés; trata-se pois duma figura teológica, que é a grande invenção profética, com o motivo da aliança – fabulosa ficção! – que Yahvé estabeleceu no deserto com o povo mediante Moisés, outorgando os 10 Mandamentos; o Deuteronómio prossegue com vários capítulos de leis que reformam o sistema de culto e estabelecem um direito comum cuja pérola é “que não haja pobre no meio de ti” (cap. 15, 4): a lógica da aliança é que se o povo for fiel à justiça da prática da lei, Yahvé garante-lhe a paz face aos inimigos. Esse texto foi usado pelo rei Josias para encenar essa aliança (2º livro dos Reis, cap. 22-23), tendo os Profetas concluído que a derrota de 587 veio da infidelidade de reis e povo.
4. Porquê essa cena-ficção se passa no deserto? Havia já três séculos e meio de monarquia em Israel, com agricultura e muitos usos e costumes arreigados. A cena passa-se antes desses usos, no deserto não há agricultura, o povo está como que nu diante de Yahvé: trata-se da operação filosófica de redução da realidade social – um tipo específico da Bíblia – para deixar à vista apenas a questão ética e espiritual da aliança, deixar sobressair a origem divina das leis que os Profetas propõem. E é aonde se pode estabelecer um paralelo com os Filósofos, nomeadamente é possível fazer uma comparação com a República de Platão, mutatis mutandis: em ambos os casos – Formas ideais celestes e Yahvé – trata-se fazer da separação entre o Céu e a Terra a medida ética quase infinita duma formidável reforma política da cidade dos humanos, cada um reinventando a origem das suas respectivas sociedades: a origem justa da polis no Filósofo, o deserto ancestral no Profeta.
5. Tiro três consequências apenas. a) Torna-se possível distinguir claramente a Bíblia hebraica – a referência maior dos Judeus – do Antigo Testamento como parte da Bíblia cristã, onde é apenas uma ‘letra’ que anuncia um ‘espírito’, o Novo Testamento: letra esvaziada do seu potencial ético-político, subordinada ao novo ‘espiritual’. Ou à inglesa, without: a Bíblia hebraica é a Bíblia com (with) o não ter (out) o cristianismo. b) A revolução paradigmática da exegese do Pentateuco e as consequências filosóficas que lhe acrescentei permitem retomar a primeira frase deste texto: assim como os Filósofos escreveram a Filosofia grega, também os Profetas escreveram a Bíblia hebraica. E assim como se pode estimar Platão e detestar o platonismo, creio ser possível aos intelectuais judeus que não acreditam no Yahvé do deserto procurarem, se quiserem, uma base sólida nos seus antepassados para se afirmarem culturalmente. Foi esse livro e a endogamia que ele preconizou que permitiu a inverosímil aventura da Diáspora, com tanta dor e perseguição. c) Se for verdade que a Bíblia hebraica e a Filosofia socrática são os dois pilares do pensamento ocidental, também para os intelectuais ocidentais em geral pode ser uma grande e saborosa novidade que os ali­cerces desses pilares sejam dois textos que pensam a cidade, busquem uma aliança do pensa­mento com a justiça.

 (http://phenomenologiehistorique.blogspot.pt/, Prophètes et Philosophes)

Público, 17 março 2013

Filosofia e história




A recensão por D. Pires Aurélio da Breve história da Filosofia de P. Tunhas e A. Abranches (Expresso 3 novembro 2012) releva dum conceito escolar de Filosofia (conceptual, exterior ao mundo e à história) e parece ignorar que há outras maneiras filosóficas de encarar essa história, e portanto de encarar a questão dum eventual ‘progresso’ da filosofia, desde que esta seja encarada como parte efectiva da história do Ocidente greco-europeu, como parte decisiva pelos efeitos que teve nessa história. Se se tem em conta o pensamento de Heidegger e de Derrida, a importância dada às palavras, à sua tradução, aos textos, e não apenas aos ‘conceitos’, às ‘ideias’ e seus sistemas, é possível relevar por exemplo: que não haveria o Ocidente que há sem a invenção da operação de definição por Sócrates, Platão e Aristóteles; que o cristianismo não teria passado dum culto oriental do império romano como outros se o platonismo não tivesse pegado nele desde Orígenes de Alexandria (início do sec. III); que a diferença da Europa em relação às grandes civilizações asiáticas foi ter no seu berço a filosofia, além da Bíblia e do direito romano, isto é, as universidades medievais; que Galileu e Newton consideravam-se filósofos e de facto inventaram uma segunda operação de conhecimento, após a da definição, o laboratório científico; que todas as outras ciências, economia, biologia, psicologia, surgiram também da filosofia, como as filosofias políticas que vieram ter à democracia.
Várias tentativas de historiadores e economistas para compreenderem o segredo da modernidade europeia (como E. Jones O milagre europeu, 2002, Gradiva, A. Schiavone, L’histoire brisée. La Rome antique et l’Occident moderne, 2003, Bélin, K. Pomeranz, La force de l’empire. Révolution industrielle et écologie, ou pourquoi l’Angleterre a fait mieux que la Chine ?, 2009, Ère) falharam porque provavelmente têm também uma concepção puramente conceptual da filosofia, não lhes veio à cabeça que definição, universidades medievais e laboratório científico fazem parte estrutural da diferença europeia. Pelos vistos, há filósofos que também não o sabem.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Casamento e filhos (homossexualidade)



1. A questão do casamento entre dois homens e entre duas mulheres não é uma questão jurídica, como julga quem argumenta contra ou a favor dele a partir do direito. É uma questão social que pede uma decisão política, após a qual os juristas têm o importante papel de a legislar. Como sucedeu com outras questões sociais e politicas, como a abolição da escravatura que nos Estados Unidos provocou a única guerra civil que eles conheceram para ser resolvida, ou a da pena de morte, que eles ainda não resolveram integralmente, tendo o direito pactuado com ambas até que as sociedades tenham resolvido a respectiva abolição. Ou o divórcio, a legitimação dos filhos extra matrimónio, para dar exemplos de ordem familiar, ou melhor dito, relativos à organização do parentesco, decisões politicas que se opuseram ao que o direito secularmente estipulou.
2. A organização do parentesco é estruturante do social, como mostrou uma célebre obra de Lévi-Strauss sobre as suas estruturas elementares: homem, mulher, filho e irmão da mulher formam o quadriedro elementar, o irmão da mulher sendo o que permite figurar a troca de mulheres como o que impede a reprodução biológica de se auto-centrar em ilhas de descendentes, o que impõe que, em cada grau de parentesco, duas famílias se cruzem e façam sociedade: o interdito do incesto não tem razões biológicas mas sociais, foi a sua tese fundamental, ele é condição da exogamia, que as mulheres vão casar fora de casa. E pode-se continuar pelas sociedades agrícolas posteriores, cuja célula social não era a ‘família’ mas a casa, simultaneamente realidade de parentesco e de actividade económica, rural na maioria dos casos (de que entre os Gregos, por exemplo, os escravos também faziam parte, como se pode ler na Política de Aristóteles); a casa, como os nomes ainda atestam frequentemente (a mulher passa do nome do pai para o do marido), era uma coisa entre pai e filhos, com diversas possibilidades de herança (morgadio, igualdade dos irmãos independentes, comunitarismo patriarcal, “harém dos primos” no Magrebe, etc.).
3. A nossa família moderna – pais e filhos habitando em apartamentos de prédios e trabalhando fora de casa os homens e depois também as mulheres – resultou da fractura das duas dimensões das casas de antanho, empresas económicas e outras actividades sociais e politicas por um lado, e famílias por outro, o que começou há pouco mais de dois séculos no Ocidente. A atestar esta historicidade do casamento que acompanha a do parentesco: a palavra ‘casamento’ não é primitiva no vocabulário indo-europeu (Benveniste), como o não é na Bíblia hebraica, a casa era entre pai e filhos, não entre marido e mulher. Depois mudou (há literatura abundante sobre isso).
4. O ponto polémico é saber qual é a importância social do parentesco. Não é tanto a relação entre macho e fêmea, como a sua estabilidade em ordem à procriação e educação dos filhos, que foi sempre e em todo o lado preocupação social predominante: a reprodução da própria sociedade, pela longa aprendizagem dos usos e costumes dos que nascem pelos adultos (pertencendo hoje em parte essencial à escola, torna possível divórcios e recasamentos que as casas antigas não permitiam). Aprender os usos e os costumes é uma tarefa essencial porque os nossos cérebros nascem virgens de mundo e, sendo órgãos simultaneamente biológicos e sociais, só funcionam por serem socializados pela aprendizagem (a filosofia nunca se preocupou muito com esta, desde Platão que queria abolir as casas, o património como o matrimónio). Ora, se a escola é feita por homens e mulheres, não se vê que um casal de dois homens ou de duas mulheres não possa realizar cabalmente esta missão essencial do parentesco: se lhes foi permitido casar, a adopção faz parte essencial desse casamento. Embora haja casais heterossexuais que preferem não ter filhos, tendo todo o direito de casarem, como os homossexuais.
5. O que faz problema aqui, em mim como em qualquer um, até porventura nos próprios homossexuais que se casam, é que nós estamos moldados pelo modelo do casamento heterossexual que se encaixa muito melhor na maneira da reprodução biológica se fazer, a nossa linguagem – pai e mãe, marido e mulher – que tem a ver com aspectos afectivos fundamentais da nossa existência precoce, rebela-se aqui (até os psicanalistas se atrapalham com a complicação da coisa). Assim como o nosso racismo espontâneo só se vence na nossa intimidade quando temos um/a amigo/a negro/a, também julgo que a melhor maneira de se perceber o que está em jogo é conhecer de perto o que foi durante muito tempo o drama tremendo de gente, rapazes e raparigas que se descobrem como atraídos por gente do seu sexo e isso ser terrivelmente mal visto socialmente, sem saberem como dizer aos amigos que namoram alegremente eles com elas, aos pais, a alguém em que pudessem ter confiança. Trata-se, como em tempos percebi contra os meus preconceitos lendo um texto de Miguel Gaspar, duma outra reviravolta histórica do parentesco, a que só o tempo dará a pacificação da língua (quando eu era adolescente, abominavam-se os divorciados, juntamente com os ateus, os comunistas e os ex-padres casados).
6. Porquê se desabrocha alguém como hetero ou homossexual? Não creio que haja hoje em dia explicação par isso, entre hormonas e psicanálises. O mais provável é que pertença ao grande enigma de cada humano na criação da sua espontaneidade em fazer com grande habilidade o que aprendeu, como também os talentos intelectuais e as ‘vocações’ para a música, para o desenho, para a matemática ou para as maquinarias.
7. Aos juristas: compreender a novidade social e legislá-la.
Público de 7 setembro 2013, com alguns acrescentos

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Identidade?


Identidade ?

1. Será que tem sentido perguntar o que é que caracteriza um humano como sendo o mesmo, ele mesmo, o que é que nele ‘responde’ ao nome próprio? Em ‘caracterizar’ há ‘carácter’, inscrição durável, que se presta ao ‘idem’ (mesmo, em latim) de identidade. Sem dúvida que o programa genético, da espécie mas também da tribo, da família e com marcas individuais, que se repete em todas as células com excepção das que se prestam à reprodução de outro indivíduo (curioso!), esse programa de várias mesmidades biológicas e sociais e que vai até à individualidade, faz parte da resposta. E mais? O sangue (há vários tipos e não coincide sempre com o da mãe) que vai a cada célula e por aí faz laço, será parte da identidade? Feito de células que se reproduzem e alteram pois, que são aliás substituíveis numa transfusão, não parece pertencer. Nem o jogo hormonal, que parece fazer parte da anatomia e fisiologia da espécie, não ter individualidade que não seja a dum jogo que responde a variações aleatórias, se presta. Isto é, parece não haver nada mais de biológico estritamente que se preste, a não ser que se tenha em conta que as células do sistema neuronal, os neurónios, são permanentes, não se reproduzem (pelo menos significativamente, para o caso que nos interessa, digo isto para ter em conta uma notícia qualquer de jornal há algum tempo).
2. Ora, ter em conta os neurónios é ter em conta o social dos usos que neles se inscreve, o que se aprende e cria sinapses (E. Randel), os grafos da memória (Changeux). Ora, estes sim, perduram a vida toda como língua e a cultura tribal que com ela vem, os usos elementares que se repetem no quotidiano dos anos todos da vida, as especializações de ofícios que se vão tendo e aperfeiçoando, e por aí fora. É certo que há sempre coisas que se perdem por falta de prática, mas o que se vai ganhando como ser no mundo tribal (chamo tribo ao ‘nosso’ mundo, da famílias em que se nasce e cresce e da(s) que depois se cria com outra pessoa, dos colegas de escola e de trabalho, dos amigos e conhecidos, de vista e encontros mas também dos médias, sei lá) estrutura-se de uma maneira que cria um estilo de fazer e dizer, que sabemos nosso e os nossos reconhecem e têm em conta nas  suas relações connosco. Ora, a memória é algo de irrepresentável, nunca ninguém sabe da sua como um todo, ela vem como ‘subvir’ (fr. souvenir) por associação com o que sucede e suscita as lembranças necessárias para agir e reagir; por outro lado, ela perde-se no sem fundo da infância das primeiras aprendizagens e nos deslocamentos que se fizeram e fazem, lugar do que Freud chamou ‘recalcamentos’ (a conjugar no plural para cada um, justamente por causa dos deslocamentos tribais). Não tem princípio nem fim, como as nossas conversas aleatórias, leituras e audições, todo este mundo de linguagem em que estamos sempre a entrar e a sair, com fios emaranhados que se perdem e reatam sem darmos por isso. Identidade? Talvez melhor estabilidade relativa, que vai oscilando ao longo do tempo, ganhando-se memórias novas e perdendo antigas, crescendo mas também variando. Certamente que isto, esta memória não controlada e esquecida a maior parte do tempo, irrepresentável (como também não podemos representar um livro que acabamos de ler, ou de escrever, não podemos tê-lo ‘presente’ na memória como um todo), faz parte da nossa ‘identidade’, ou talvez que sejamos nós que fazemos parte dela. Mas será porventura o estilo dessa memória, por vezes dito carácter em termos morais, que melhor ‘pendant’ faça com o ADN para nos identificar, a cada um de nós.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A Física em Newton e Galileu


1. Foi no século XVII que foi inventado uma forma de instituição social de inscrição radicalmente nova (havia a igreja e a escola), o laboratório de física. Eis como Newton fala do que lá se passa. Os Antigos partilharam a Mecânica em duas classes : uma teórica, que procede por demonstrações exactas[1], a outra prática. Desta última fazem parte todas as Artes chamadas Mecânicas[2], donde esta ciência [a nova Física] tirou a sua denominação : mas como os artesão têm por costume operar pouco exactamente, veio daí que se distinguiu tanto a Mecânica da Geometria, que tudo o que é exacto é ligado a esta, e o que o é menos, à primeira. No entanto, os erros que comete aquele que exerce uma arte, são do artista e não da arte. […] A Geometria pertence em algo à Mecânica, já que é desta que depende a descrição das linhas rectas e dos círculos sobre as quais ela é fundada. É verdadeiramente necessário que aquele que se quer instruir em Geometria saiba descrever [desenhar] essas linhas antes de aprender as primeiras lições dessa ciência : depois é que se lhe ensina como é que os problemas se resolvem por meio dessas operações. Vai-se buscar à Mecânica a solução deles : a Geometria ensina o seu uso, e glorifica-se do magnífico edifício que ela eleva indo buscar tão pouco fora dela. A Geometria é no entanto fundada sobre uma prática mecânica, e ela não é mais nada senão um ramo da Mecânica universal que trata e demonstra a arte de medir. Mas como as artes usuais se ocupam principalmente de mover os corpos [cargas pesadas, nos estaleiros], resultou disso que se assignou à Geometria a grandeza [a extensão] por objecto e à Mecânica o movimento : assim, a Mecânica teórica [a sua nova Física] será a ciência demonstrativa dos movimentos que resultam de quaisquer forças, das forças necessárias para gerar quaisquer movimentos (Newton, 1966)[3]. O movimento, isto é, o tempo e as forças, eis o que há de novo, o que a Mecânica acrescentou à Geometria[4].
2. Quando nós hoje falamos de matemática, pensamos em cálculo e em equações, em aritmética e álgebra, não pensamos em geometria, que se tornou numa área afim. Mas, como antes Galileu, espantamo-nos de vê-los argumentarem o que para nós é física de maneira geométrica : na sua época, a do ‘more geométrico’ de Spinoza, geometria era matemática, e assim é no raciocínio de Newton ; o que no entanto ele mostra é que se trata de algo que é mais do que a nossa matemática – puras notações convencionadas que funcionam exactamente segundo uma lógica rigorosa imanente a essas convenções –, ela é uma matemática que mede, segundo a etimologia de geo-metria, medida da terra. Ou seja, métrica, ela é a matemática da física, que se faz adequadamente a instrumentos de medição. O que leva Newton a associá-la, ela que tem fama e proveito de exacta, à mecânica a quem essa fama falta. E o que é a mecânica ? O diálogo de Galileu sobre duas novas ciências, a que voltarei adiante, é contado ter-se passado em Veneza num arsenal de construção de barcos, que é justamente o reino da mecânica, do movimento de cargas pesadas com aparelhagem própria. Newton : a delicada e exacta geometria só se faz com movimentos e aparelhos de desenho que relevam da rude e inexacta mecânica. O que procura ele então ? Nada mais nada menos do que chamar Mecânica à (por nós chamada) Física que vai demonstrar longamente. Ele está a estabelecer uma aliança entre matemática, instrumentos de medida e movimentos mecânicos como sendo a nova física que se está a constituir então na Europa, ele não sendo mais do que um anão aos ombros de gigantes, disse algures citando um medieval. Mas, sabendo embora, como Galileu, que se trata duma ‘ciência’, ele não a trata pelo nome que vingou (aristotélico, aliás), diz em título : princípios matemáticos da filosofia natural. Este título acrescenta então um outro termo à tríade, cuja aliança constitui o laboratório : ‘labor’ implica justamente a introdução da mecânica na filosofia natural, no projecto do saber europeu (instituído de longa data pelos tais gigantes). O que é que a filosofia tem de pertinente para a nova ciência ? Newton não precisa de dizer que se trata da velhíssima definição herdada dos Gregos e dos termos definidos e a definir da filosofia natural, dotada agora de princípios matemáticos, isto é, geométricos e mecânicos. Nas nossas categorias, que vieram a distinguir fortemente filosofia de ciências justamente por estas terem laboratório no coração das suas operações ao contrário daquela, que só tem ‘escritório’, para nós hoje a filosofia naturalde Newton diz o lugar da teoria como essencial a esse laboratório.
3. Há todavia um problema nesta pretensão ‘filosófica’ da nova ciência : como é que o laboratório pode incidir no conhecimento, no saber ? É que a mecânica que Newton recupera e nobilita pertence aos usos sociais de habitação, usos de construção ou de transporte, tem funções empíricas bem definidas que não se adequam de forma evidente às escritas que são a linguagem duplamente articulada e a matemática. A própria geometria, que pede instrumentos de desenho para fazer as figuras das suas demonstrações, põe um problema que Husserl resolveu fazendo uma redução fenomenológica das circunferências empíricas das rodas ou dos pratos do mundo da habitação para reter apenas, como ‘geométrica’, a circunferência ideal que os geómetras conhecem, por exemplo, pela equação 
x2 + y2 = R2
 com raio R e centro no ponto de encontro das coordenadas OXY. O que é que há que reduzir da mecânica e dos instrumentos de medição laboratoriais para que a física de Galileu e de Newton possa caber cabalmente na cena de inscrição ? Para responder, teremos que fazer uma citação do tal diálogo de Galileu sobre as duas novas ciências, a primeira dizendo respeito ao movimento uniformemente acelerado que ele analisou fazendo correr uma bolinha bem alisada na calha duma prancha inclinada e medindo os espaços percorridos e os respectivos tempos ; depois de verificar que não há correlação linear entre eles, pôs a hipótese certa, a de haver correlação entre os espaços e os quadrados dos tempos (raciocínio provavelmente de indução geométrica do teorema de Tales), que os resultados verificam (mas, ‘filósofo’ ?, Galileu não deu nem as medidas nem os resultados, temos que lhe fazer confiança). Tinha porém um problema técnico, não havendo cronómetros na época, como medir os tempos de forma exacta ? Espante-se quem não conheça o truque. Para medir o tempo, tomávamos um grande balde cheio de água que atávamos bastante alto ; depois, por um orifício estreito praticado no fundo escapava-se um fio de água fininho que era recolhido num recipiente durante o tempo em que a bolinha rolava na calha. As quantidades de água assim recolhidas eram pesadas de cada vez numa balança muito sensível, e as diferenças e proporções entre os pesos davam-nos as diferenças e proporções entre os tempos[5]. O que há de engraçado nisto, é que Galileu, a quem Husserl atribuía os males da evolução da geometria, anticipa por assim dizer a redução fenomenológica nesta maneira extraordinária de medir o tempo pesando água : as diferenças e proporções entre os pesos e os tempos são as mesmas, as medidas da água dão para medir o tempo sem ser preciso um cronómetro. O tempo enquanto tal, o tempo empírico medido, é reduzido, a própria medida laboratorial é reduzida[6], isto é, a mecânica do movimento da bolinha e a dimensão mecânica da própria geometria, as medições com aparelhagem, tudo o que, empírico, releva do laboratório enquanto mecânica, enquanto cena da habitação, é reduzido como condição da ciência física se inscrever como saber,  como conhecimento[7]. O que tem como consequência que a Física, enquanto necessariamente laboratorial e redutora do seu empírico, não conhece nem o espaço nem o tempo, mas deles apenas as diferenças das respectivas medidas[8]. Ora, uma diferença não é ‘nada’, não é ‘substância’ : reter apenas as diferenças implica a redução das ‘substâncias’ e todo o carácter empírico do laboratório e da mecânica, dos instrumentos e do movimento experimental, de tudo o que releva da cena da habitação. Em resumo, a Física não conhece as substâncias com que lida, des-substancializa-as, anticipando Saussure[9], Husserl, Heidegger e Derrida, nenhum deles tendo sido possível sem a desconstrução operada pela Física.
4. E como é que estas medidas de espaço, tempo e outras dimensões, obtidas por aparelhos laboratoriais, mas necessariamente empíricas, experimentais, como é que elas contribuem para o saber científico ? Por via das equações físicas em que elas vão ocupar o lugar das chamadas variáveis e permitir calcular dimensões não mensuráceis directamente, no exemplo de Galileu, a aceleração da bolinha (em metros por segundo quadrado, em categorias actuais). Isto é, são as equações depois de verificadas experimen­talmente e podendo-o ser em qualquer outro laboratório em qualquer parte do mundo onde os haja, são elas que constituem saber físico universal. É claro que haverá bastantes dimensões novas (peso, temperatura, intensidade eléctrica, e por aí fora) com respectiva instrumentalidade, havendo como condição de universalidade que as unidades de medida convencionadas sejam aceites em todo o lado, bem como a álgebra matemática. Mas uma das lições da citação de Newton feita é que estas equações sejam, não apenas matemáticas, mas geométricas em sentido lato, isto é equações adequadas exclusivamente aos intrumentos de medição, sejam cronómetros sejam baldes de água. Do facto de Newton não ter referido a teoria (da filosofia natural), podemos induzir uma tese que não será pacífica : estas equações terão que ser interpretadas teoricamente, por conceitos definidos à maneira filosófica, com discussões entre os cientistas sobre essas interpretações, ou até com ignorância confessada, como o mesmo Newton quando, tendo calculado a aceleração da gravidade terrestre (9,8 m/s2), disse que não era capaz de ‘fingir hipótese’ sobre o que era essa força da gravidade, essa atracção a distância, Feynman acrescentando em 1961 que ainda hoje não se sabe em que é que esta consiste. Ora, esta ignorância teórica (ou filosófica) não impede que equações e mensurações relativas a essa aceleração continuem cientifica­mente correctas, ainda que a física da relatividade tenha questionado as noções newtonianas de espaço e tempo absolutos para velocidades perto da luz. Por exemplo que aqui importa, uma boa parte da engenharia clássica que ainda hoje se faz, funciona na base da correcção científica da Mecânica de Newton, Einstein não sendo para aí chamado : o núcleo duro da Física enquanto saber científico (distinto do saber filosófico) consiste nas equações ‘more geometrico’, é delas que boa parte da técnica moderna depende.
5. P.S. Parece-me intrigante que na Lua não haja gravidade, como testemunharam os que lá caminharam. A fórmula newtoniana da atracção dos corpos na proporção directa das massas e inversa do quadrado das distâncias terá que se lhe diga: não se aplica às coisas na lua? Nem na terra as pedras não são ímanes, parece que só a Terra, enquanto planeta com dada densidade, é capaz de gerar gravidade (e é o que a constitui, as coisas de que ela é feita. Será que os físicos deram por ela, têm explicação para essa não 'universalidade' da fórmula de Newton (ou fui eu que a entendi mal?). O que me parece é que esta questão torna ainda mais difícil de compreender como é que se formaram as estrelas: será que foi só com elas que surgiu a gravidade? Difícil de compreender como é que se foi do tal big Bang até elas!



[1] Ver-se-á que é a Geometria.
[2] Opostas às artes liberais, que se ensinavam nas universidades.
[3] Plutar­co, a propósito de Arquimedes, conta como foi Platão quem vituperou os primeiros ensaios de aplicação da geometria à mecânica. A citação termina assim: “a mecânica destituída foi assim separada da geometria e desprezada pela filosofia durante muito tempo; tornou-se um ramo da arte militar” (citado por Aldo Schiavone, 2003, L’histoire brisée. La Rome antique et l’Occident moderne, Bélin, p. 174).
[4] Que foram já o fulcro das duas novas ciências de Galileu, sobre o movimento uniformemente acelerado e a resistência dos sólidos a forças que os deformam.
[5] Galilée, 1970, p.144.
[6] Seria por ter a intuição disso que Galileu não deu os resultados ? era costume da época ?
[7] A redução é uma operação de pensamento que consiste em suspender a ‘substancialidade empírica’ do fenómeno a pensar como condição do conhecimento ‘ideal’ dele. Mas este ‘ideal’ é um diferencial de linguagem, seja matemático ou lógico (caso de Husserl), seja de linguagem, tipo definição ou comutação linguística. Há com efeito várias reduções, as de cada tipo de laboratório científico, por exemplo, da moeda em economia, a partir daquela que um nome (cão, casa, filho) faz das particularidades de cada coisa que assim nomeia, a da escrita, a de qualquer aprendizagem.
[8] É o que significa a afirmação bombástica de Heidegger de que “a ciência não pensa”, com os seus métodos. O que ele devia ter acrescentado: ela pensa enquanto elabora teoria para montar as experiências e entender os resultados, pensa como filósofo de laboratório.
[9] Derrida aplicou a redução à diferença significante de Saussure, reduzindo os sons empíricos para não reter senão a diferença entre eles (De la grammatologie, Minuit, 1967, pp. 65-94).

domingo, 9 de junho de 2013

O espanto da Terra




O que os biólogos parece não serem capazes de entender é que as leis ou regras que eles descobrem e nos mostram a incrível complexidade das inúmeras espécies biológicas, da formiga ao elefante e ao primata humano, que essas leis, não se aplicando tais quais a nenhum vivo singular, jogam-se segundo as condições essencialmente aleatórias da cena ecológica em que eles vivem, tal como um carro no aleatório duma estrada. E supõem por isso mesmo um constante aleatório em cada processo evolutivo, que os biólogos ‘explicam’ pelas mutações, sem se darem conta de que estas são arbitrárias, fruto de acaso, e introduzem um factor ilógico que viria de indivíduos da espécie, aonde justamente o aleatório corresponde a uma lógica, aporética é certo, mas dependente antes de mais das transformações da cena que vêem a ter efeitos nas espécies que são obrigadas a reagir a tais transformações. À ilógica do acaso das mutações, ao seu arbitrário contra toda a exigência de rigor cientí-fico, responde o espanto imenso perante o aleatório da história da evolução. Como já foi provavelmente assim com a formação do planeta Terra, o único entre os conhecidos dos astrónomos que se encontrou ter condições para que nele a vida surgisse.

sábado, 1 de junho de 2013

DA ECONOMIA COMO TERAPIA




1. Quando fazemos análises de sangue a vários parâmetros, é costume junto dos resultados virem entre parêntesis os limites máximos e mínimos que indicam o equilíbrio saudável de cada parâmetro, o chamado equilíbrio homeostático. A terapia que o médico seguirá é a de trazer o resultado a esses limites, subi-los ou descê-los consoante; ainda que se trate duma criança, cuja saúde é a de alguém em idade de crescer, não passa pela cabeça do médico fazer crescer todos os parâmetros. Uma ciência terapêutica trabalha entre limites que a investigação laboratorial testou como os adequados. Igualmente, o código penal que se aplica nos tribunais indica limites máximos e mínimos de penas para dado crime, a terapia ficando a cargo do juiz que estudará as circunstâncias para decidir a pena a aplicar. Que sentido tem pretender que a economia, ciência dos mercados, deve ser uma ciência terapêutica?
2. O que justifica fenomenologicamente a economia, como qualquer ciência social (meus textos no blogue filosofiamaisciências2), é o seu alvo no tratamento dos mercados ser o bem-estar da população de cidadãos. E o que a crise dos últimos anos mostra é que, não só ela não busca regular os mercados em vista do bem-estar, como parece incapaz de diagnosticar a doença e portanto a terapia para a debelar. Uma das aberrações mais óbvias aos olhos do leigo é a ‘crença’ generalizada, à direita e à esquerda, de que ‘o que é preciso é crescimento’ e portanto investimento de capitais nesse sentido, quando por outro lado todos reconhecem que esta crise veio directamente da especulação dos capitais e do remédio que se aplicou, a recapitalização do sistema bancário, ao mesmo tempo que apenas cresce o desemprego e a mal chamada austeridade, nome para disfarçar o empobrecimento generalizado.
3. Este desiderato geral mostra uma ciência económica cega para o que tem sido proposto de há 40 anos para cá pela sua prima ecologia, desde o Relatório do Clube de Roma intitulado Os Limites do crescimento (1972), que tem clamado para os limites dos recursos naturais e contra o crescimento descontrolado das maquinarias e químicas industriais que estão a dar cabo do clima, do ar e das águas. Esta urgência deve tornar-se um axioma da economia, que obrigue a lógica do mercado a ter em conta a homeostasia do planeta que habitamos. O desemprego crescente, correlativo da cibernética dos robots e computadores, obriga a outro axioma: a economia enquanto ciência social deve buscar o pleno emprego, bem-estar óbvio da população, continuar a boa tendência em dois séculos de industrialização de diminuir o horário de trabalho, que é outra variável homeostática (em vez de o aumentar e de despedir na função pública: lógica absurda! com tantos cidadãos desempregados).
4. O desafio será o de inverter o critério económico dominante, o crescimento dos números em dólares ou euros. Eis a perversão: aquilo que foi inventado como um excelente ‘meio’ de racionalizar as trocas, tornou-se o ‘fim’ das bolsas especulativas – caso único de disciplina universitária que se pretenda ciência ser tão profundamente errada (os Nobel em economia têm justamente 40 anos!) –, a que se junta o carácter sacrossanto da propriedade do capital em detrimento da economia real, do mercado que serve o bem-estar dos cidadãos. A propriedade é inerente ao dinheiro, cada um de nós que vive de salários sabe como a propriedade de algumas centenas de euros é vital para a liberdade de viver. A questão é o fascínio pelos grandes números como critério de ‘competitividade’, isto é, a guerra entre os capitais e a correlativa destruição das suas bases económicas (como fizeram as duas guerras mundiais, agora sem armas). É esta questão epistemológica que me parece estar no coração da crise actual, da sua incompatibilidade entre finanças e economia. Ora, a própria crise tem mostrado um exemplo de terapia reguladora desta guerra: taxar os grandes capitais, dividendos e salários, sim, mas para melhorar as condições do modelo social europeu, corresponde a ter em conta os limites da homeostasia social, manter os mínimos controlando os máximos, e foi o que fez a social-democracia escandinávia.
5. Desde o início que a figura de Vítor Gaspar me atrai, inspira seriedade, tem fama de competente nos meios financeiros: que ele esteja a empobrecer teimosamente a economia e nós todos com ela para pagar dívidas a juros usurários, eis o que me parece tornar evidente que o problema está no paradigma da economia, que é urgente alterar.
Público, 1/6/2013