sábado, 1 de junho de 2013

DA ECONOMIA COMO TERAPIA




1. Quando fazemos análises de sangue a vários parâmetros, é costume junto dos resultados virem entre parêntesis os limites máximos e mínimos que indicam o equilíbrio saudável de cada parâmetro, o chamado equilíbrio homeostático. A terapia que o médico seguirá é a de trazer o resultado a esses limites, subi-los ou descê-los consoante; ainda que se trate duma criança, cuja saúde é a de alguém em idade de crescer, não passa pela cabeça do médico fazer crescer todos os parâmetros. Uma ciência terapêutica trabalha entre limites que a investigação laboratorial testou como os adequados. Igualmente, o código penal que se aplica nos tribunais indica limites máximos e mínimos de penas para dado crime, a terapia ficando a cargo do juiz que estudará as circunstâncias para decidir a pena a aplicar. Que sentido tem pretender que a economia, ciência dos mercados, deve ser uma ciência terapêutica?
2. O que justifica fenomenologicamente a economia, como qualquer ciência social (meus textos no blogue filosofiamaisciências2), é o seu alvo no tratamento dos mercados ser o bem-estar da população de cidadãos. E o que a crise dos últimos anos mostra é que, não só ela não busca regular os mercados em vista do bem-estar, como parece incapaz de diagnosticar a doença e portanto a terapia para a debelar. Uma das aberrações mais óbvias aos olhos do leigo é a ‘crença’ generalizada, à direita e à esquerda, de que ‘o que é preciso é crescimento’ e portanto investimento de capitais nesse sentido, quando por outro lado todos reconhecem que esta crise veio directamente da especulação dos capitais e do remédio que se aplicou, a recapitalização do sistema bancário, ao mesmo tempo que apenas cresce o desemprego e a mal chamada austeridade, nome para disfarçar o empobrecimento generalizado.
3. Este desiderato geral mostra uma ciência económica cega para o que tem sido proposto de há 40 anos para cá pela sua prima ecologia, desde o Relatório do Clube de Roma intitulado Os Limites do crescimento (1972), que tem clamado para os limites dos recursos naturais e contra o crescimento descontrolado das maquinarias e químicas industriais que estão a dar cabo do clima, do ar e das águas. Esta urgência deve tornar-se um axioma da economia, que obrigue a lógica do mercado a ter em conta a homeostasia do planeta que habitamos. O desemprego crescente, correlativo da cibernética dos robots e computadores, obriga a outro axioma: a economia enquanto ciência social deve buscar o pleno emprego, bem-estar óbvio da população, continuar a boa tendência em dois séculos de industrialização de diminuir o horário de trabalho, que é outra variável homeostática (em vez de o aumentar e de despedir na função pública: lógica absurda! com tantos cidadãos desempregados).
4. O desafio será o de inverter o critério económico dominante, o crescimento dos números em dólares ou euros. Eis a perversão: aquilo que foi inventado como um excelente ‘meio’ de racionalizar as trocas, tornou-se o ‘fim’ das bolsas especulativas – caso único de disciplina universitária que se pretenda ciência ser tão profundamente errada (os Nobel em economia têm justamente 40 anos!) –, a que se junta o carácter sacrossanto da propriedade do capital em detrimento da economia real, do mercado que serve o bem-estar dos cidadãos. A propriedade é inerente ao dinheiro, cada um de nós que vive de salários sabe como a propriedade de algumas centenas de euros é vital para a liberdade de viver. A questão é o fascínio pelos grandes números como critério de ‘competitividade’, isto é, a guerra entre os capitais e a correlativa destruição das suas bases económicas (como fizeram as duas guerras mundiais, agora sem armas). É esta questão epistemológica que me parece estar no coração da crise actual, da sua incompatibilidade entre finanças e economia. Ora, a própria crise tem mostrado um exemplo de terapia reguladora desta guerra: taxar os grandes capitais, dividendos e salários, sim, mas para melhorar as condições do modelo social europeu, corresponde a ter em conta os limites da homeostasia social, manter os mínimos controlando os máximos, e foi o que fez a social-democracia escandinávia.
5. Desde o início que a figura de Vítor Gaspar me atrai, inspira seriedade, tem fama de competente nos meios financeiros: que ele esteja a empobrecer teimosamente a economia e nós todos com ela para pagar dívidas a juros usurários, eis o que me parece tornar evidente que o problema está no paradigma da economia, que é urgente alterar.
Público, 1/6/2013 

domingo, 5 de maio de 2013

SOBRE O TEMPO


Bem haja! Maribel
que este textozinho me suscitou

1. A nossa noção vulgar de tempo é uma convenção ligada aos relógios. Nos relógios de mostrador um ponteiro anda à volta de hora em hora, outro de minuto em minuto e outro de 12 em 12 horas. Descrevem ciclos os ponteiros, com os quais contamos unidades de tempos de forma linear, como se o tempo fosse uma linha recta que vem desde o infinito, agora desde o tal big Bang, até ao infinito. Mas essa linha também é espacial, como os três ciclos do relógio.
2. Várias coisas se deduzem deste estado de coisas. Uma delas é que não se pode contar o tempo senão em medidas de espaço, em distâncias no mostrador do relógio, ou em ângulos, se se quiser, geometria em todo o caso. Porque podemos medir uma distância espacial, com uma fita métrica, por exemplo, um ângulo com um transferidor, a partir dum lugar perto da distância a medir, com olhos e mãos. Mas não podemos afastarmo-nos do tempo, estamos sempre em tal ou tal momento e medir o tempo seria a diferença entre dois momentos, com as tais unidades convencionais, segundos e minutos: ora o mensurador está no momento inicial e no final e em todos os momentos intermédios, ele faz parte do que se está a medir, não se pode pôr a cabeça de fora do tempo para o medir. O que leva a considerar a definição dele na Physica de Aristóteles: “o tempo é o número do movimento segundo o anterior e o posterior” (IV, II; 219 b 1), que diz que o tempo é a maneira de numerar, medir, o movimento; é pois a maneira dos humanos medirem, calcularem o movimento, não é algo ‘em si’, o tal contínuo linear entre dois infinitos, e que é correlativo do ‘agora’ (nun) em que se mede, com antes e depois da consideração sobre o tempo, ou seja sem se sair desse ‘depois do antes e antes do depois’ que é próprio de cada momento dum movimento.
3. Sendo assim, cada coisa, viva ou não, cada pessoa, está sempre em movimento (mesmo parada, pode sempre mover-se: erosão das rochas, oxidação dos metais), tem o seu tempo: e é por causa deste inúmeros tempos que temos necessidade de os medir e convencionar unidades de medida gerais, como os relógios. Mas estes, nos diversos ciclos dos seus ponteiros, não fogem ao que estamos dizendo: o que se mede é o movimento deles, a distância que percorrem entre dois momentos, truque que permite retirar não a cabeça mas o relógio de fora do tempo.
4. Se a divisão em 24 horas é uma convenção, o seu conjunto, o dia, é o tempo do movimento da terra em torno de si mesma, que chamamos com o mesmo nome do tempo que tem luz, o dia, o qual só é parte do dia de 24h, o tempo sem luz é noite e a partição entre ambos varia com o outro movimento da terra, o de translação em torno do sol, cujo conjunto de dias chamamos ano, sem já ter em conta, excepto perto dos pólos, os tempos de luz e os tempos sem ela. Esta bissemia do termo ‘dia’ diz bem a diferença entre o tempo que se pode chamar ‘real’, o tempo do movimento das ‘coisas’ (res), oferecidas à luz e retiradas da escuridão, e o tempo convencional dos relógios e calendários.
5. Ser e Tempo (1297) é a tentativa filosófica de tematizar o tempo dos humanos enquanto estruturando a sua ek-sistência, seres no mundo que, explicito eu, do mundo aprendem e se fazem seres da e na sua tribo, ser dos seus tempos, que é suposto nascerem e no dia a dia se alimentarem, terem o cuidado disso, por si e por outros com quem vivem, e que – e é o que Heidegger tematiza – antecipam um dia que morrerão: esta antecipação é parte essencial da sua temporalidade, tal como é a da sua aprendizagem que Heidegger silencia mas pressupõe com o cuidado e as possibilidades abertas, categorias igualmente temporais que as filosofias das almas imortais e dos sujeitos opostos aos objectos sempre ignoraram: mas a ‘possibilidade’ ecoa à dunamis aristotélica, à capacidade (com força) de se movimentar, de fazer obra (energeia). Em meados dos anos 30, Heidegger começa a falar de vez enquanto em Ereignis (acontecimento em alemão), termo que inclui o tempo – é óbvio – mas se pode considerar corresponder ao encontro entre dois ou mais movimentos que os afecta enquanto movimento justamente. Aparece pois um termo implicando a temporalidade e seres (humanos, por suposto filosófico heideggeriano), dizendo a conjugação entre eles de que Ser e Tempo não soubera dizer nada de positivo. Uma outra temporalidade aparece no início dos anos 40, meditando Aristóteles (a phusis e o movimento) e acrescentando-lhe Heraclito: “a phusis, o Ser traduz ele, gosta de se retirar”, este retiro sendo da doação dos vivos; sem falar em nascimento como antes tematizara a morte, é este que – de forma retirada, dissimulada, se dizer se ousa – vai ser a novidade dos 20 anos por vir do pensamento heideggeriano. O admirável desta conjugação dos dois pensadores gregos do ‘movimento’: este tem momentos fortes de doação, em que um casal de vivos dão origem a um rebento mínimo que crescerá, como tempo é claro, mas sendo para isso necessário que a força dessa doação (archê da phusis) seja retirada, dissimulada, adequada à dimensão mínima desse rebento, à sua temporalidade. Interpretando assim, já o grande texto de 1962, Tempo e Ser, está a pedir explicitação, que permitirá aproximar-se enfim de Aristóteles ultrapassando-o radicalmente: se dissermos que o acto de amor que lança o rebento para 9 meses de gravidez é um acontecimento, este que nasce para a sua temporalidade – entre semente e morte futura – é doado por esse acontecimento como sendo simultaneamente ser e tempo. Onde na Physica aristotélica a ousia, enquanto substância da mesma essência de outros, se opunha aos 'acidentes' (termo equivalente a acontecimento), à particular temporalidade de cada um, agora a mesma família (da mesma tribo) faz doação do filho enquanto vivo temporal e retira-se gradualmente para lhe deixar as suas possibilidades de vivo temporal.
6. O Ereignis de 62 ocupa o lugar que até aí tinha o Ser, doador retirado, na diferença ontológica, que se pode traduzir como ‘não Acontecimento que faz doação de acontecimentos’. Estes acontecimentos, dissemos atrás, são encontros entre dois ou mais movimentos que os afecta enquanto movimentos. Se procurarmos aproximar o motivo de movimento do de acontecimento, podemos supor as rotinas de movimentos quase autónomos, pequenas repetições que de facto nunca se repetem exactamente, pequeníssimos acontecimentos em zoom de grande escala, em que movimento e acontecimento parecem coincidir (em todo o movimento há sempre alguma alteridade, doutro movimento), e depois diminuirmos a escala do zoom e darmos com um acontecimento que vem alterar as rotinas e reorientá-las com fragor até que a rotina se estabeleça. Por exemplo, a rotina em que se guia um carro e se conversa com o parceiro do lado e a ameaça duma colisão que obriga a movimentos rápidos e talvez não consiga evitar o acidente, a maca a caminho do hospital, até que volte são mais tarde ao carro reparado; ou a rotina duma oficina de fábrica quebrada com a introdução duma máquina que implica aprender a manejá-la, rever a equipa que trabalha e passado um tempo a rotina que volta. Nestes exemplos se diz, tal como no do nascimento, como as doações em suas formas diferentes de serem acontecimentos jogam na oscilação temporal com as rotinas, estas provindo de Ereignis que serão as ‘espécies’ biológicas no nascer que comunica o ‘mesmo’ da espécie (a essência aristotélica) a um indivíduo singular e os ‘paradigmas’ dos usos sociais nos dois outros casos em que o que se aprendeu foi para se tornar rotina, habilidade espontânea dum motorista ou dum operário.

sábado, 20 de abril de 2013

O salto da neurologia à psicologia, visto por um filósofo



III Fórum Internacional de Psicologia Clínica. Painel : Novas Perspectivas de Investigação. 12/04/2013. 

12/04/2013.

Resumo -- A especificidade dos neurónios enquanto células: a rede do saber de si, auto e heteroafectação. Os seus grafos vindos da aprendizagem (Kandel e Changeux). Pensar e contar aprende-se do mundo, com a língua e a tabuada. À mente neuronal só o próprio tem acesso (Damásio), não os neurólogos ('onde lhe dói?', 'estava a sonhar?'). O cérebro é simultaneamente um órgão biológico e social. O salto: os psicólogos, intérpretes do discurso e dos comportamentos que aos métodos da neurologia escapam (os psiquiatras jogam entre ambas as disciplinas). Há pois uma irredutibilidade metodológica entre neurologia e psicologia.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Economia, direito e moral

 
1. O envio do orçamento ao T. Constitucional provocou uma querela entre profissionais de duas ciências sociais diferentes, economia e direito, de cada lado se vendo o social com os olhos do seu paradigma, sem que haja uma ciência da sociedade em geral capaz de dirimir, uma sociologia cuja metodologia abranja a complexidade inextricável das sociedades modernas. Só há sociologias regionais, do trabalho, da escola, da família, das empresas, e por aí fora. Ora, a economia não é senão a sociologia dos mercados, cuja unidade científica é a moeda que reduz o que se vende e compra a mercadorias, a um jogo de custos e preços, percas e lucros. [A redução é uma operação essencial do pensamento, a começar pela linguagem: ‘casa’ permite pensar inúmeras casas, reduzindo a imagem singular de cada uma (contra o slogan idiota corrente), a definição reduz os ‘acidentes’ para pensar a ‘essência’, o laboratório reduz o contexto ‘real’ dos fenómenos a estudar.] E assim como o direito ocupou de facto, durante os séculos de instauração da modernidade (contra a teologia e a metafísica) o lugar da ciência geral da sociedade que se estava a gerar, assim o faz agora a economia, os mercados estendendo-se por todo o lado.
2. Será o direito apenas uma sociologia das leis? Tal como a medicina é uma ciência que visa a saúde (e não apenas uma biologia humana), o direito visa a justiça: são ambas atravessadas pelo bem e pelo mal, ciências terapêuticas no âmago dos seus diagnósticos e decisões. A questão é: e a economia não deve também ter o bem e o mal em conta? Creio que é o que movia Keynes e o epíteto ‘política’ dado à economia, mas também as perspectivas conservadora (contra o progresso, devastador social) e revolucionária (a favor das classes trabalhadoras) os tinham em conta, às suas maneiras. Ora, a força do dito neo-liberalismo foi o de reconhecer a redução monetária como elemento crucial do seu laboratório, tendo assim evacuado as problemáticas políticas e o bem e o mal. Só que a redução significa que a economia monetarista se situa claramente como uma ciência regional como as outras, uma sociologia dos mercados: confessa-se inoperante face ao direito constitucional, como se vê pela confusão que lhes faz a jurisdição dum tribunal de não economistas sobre um orçamento.
3. Parece não serem capazes de ver que um orçamento é uma peça essencialmente política nas suas decisões, que eles crêem económicas. O que cortar na saúde ou na educação, não é coisa que se faça às cegas, isto é, com olhos reduzidos ao paradigma económico, mas tem a ver com o bem: saúde ou transmissão de saber. Destas coisas, há outros especialistas que sabem o que os economistas não sabem, que a ciência deles reduziu. Há um ponto moral (e político) interno à ciência dos mercados que o monetarismo obliterou, ao reduzir os salários a um mero factor contabilístico, ‘custos’ de produção que se podem eliminar para melhorar a dita competitividade, isto é, o dito crescimento económico por via do crescimento dos lucros. Nesta linguagem monetarista, o desemprego não aparece como mal, não só mal de tal indivíduo, mas mal dum cidadão, de alguém que nasceu e cresceu numa sociedade moderna que só dá condições de vida a quem tem emprego. Não se trata dum problema de pobreza nem de assistência social ou de Estado, mas de ciência económica. E trata-se do mais elementar de todos os direitos: o direito à vida como supremo bem, que excede de longe o crescimento dos lucros. O bem da eco-nomia, regras (nomos) da casa (oikos), é a saúde da actividade económica.

4. Não quer dizer que ninguém possa ser desempregado (segundo contratos), mas parece cada vez mais claro que a tecnologia electrónica está a provocar um crescimento económico que gera desemprego, ao contrário da crença economicista que grassa por aí como ‘solução’ da crise. Reduzir os tempos de trabalho para que toda a gente tenha emprego, eis o problema económico que os economistas não vêem, não vêem que foi assim com as várias etapas de progresso tecnológico. Ganhar tempo livre, mais frugal talvez, eis uma motivação terapêutica digna de economistas jovens. Há 30 anos que André Gorz o anunciou, ao dizer “adeus ao proletariado”.
 
Público, 11 de Fevereiro de 2013


Menos tempo de trabalho


  
A propósito do mercantilismo segundo Rodrik


          1. O texto de Dani Rodrik chama-se “O novo desafio mercantilista” (Público de 10.02.2013). Este professor de Harvard (por uma vez, boas notícias dum economista desses sítios neoliberais, que só juram por Friedman) propõe reabilitar o mercantilismo no essencial: aquele que tem sido praticado pelos Asiáticos (Japão, China, Coreia do Sul, Taiwan) com excelentes resultados. Uma primeira citação me interessa: contra uma parte da tradição mercantilista então vigente, “a opinião de que a política nacional deveria ser orientada pela acumulação de ouro e prata, [...] Adam Smith, A Riqueza das Nações, [...] mostrou, em particular, que o dinheiro não deve ser confundido com a riqueza. Tal como ele disse, ‘a riqueza de um pais não consiste somente no seu ouro e prata, mas nas suas terras, casas e bens de consumo de todos os tipos’ ”. O título célebre do livro sugere que esta citação diz o essencial do alvo do economista inglês. E uma segunda: “os mercantilistas [...] enfatizam o lado produtivo da economia. Para eles, uma economia sólida requer uma estrutura sólida de produção. E o consumo precisa de ser sustentado por uma taxa elevada de emprego com salários adequados”.
           2. Estas duas citações ilustram, para o não economista que eu sou, as duas vertentes do que se passa hoje em Portugal e na Europa quase toda. A primeira justifica, dois séculos mais tarde, uma como que ‘predição’ (em termos científicos, entenda-se) de A. Smith: ele mostra como a concepção, hoje predominante na especulação financeira, de a riqueza ser os números em dólares ou em euros, ser o critério de ‘progresso económico’, está a dar cabo da parte essencial da ‘riqueza das nações’ que são as terras, as empresas e as famílias[1] e os bens de consumo: essencial, porque o dinheiro só vale em função dessa riqueza propriamente económica. O neo-liberalismo monetarista parece coincidir hoje com o que foi criticado por Adam Smith no mercantilismo: o que este privilegiava – estrutura sólida de produção, consumo, emprego e salários adequados –, é o que o neo-liberalismo está a deitar abaixo com a importância demolidora da especulação financeira.
          3. Dito isto, algumas reflexões. Rodrik considera que “o modelo liberal tem perdido o brilho, de forma severa, devido ao aumento da desigualdade e à situação difícil da classe média no Ocidente, juntamente com a crise financeira que a liberalização gerou” (eu sublinho). Espero bem que tenha razão, já que, para quem trabalha em filosofia e portanto crê no peso histórico das palavras teóricas, parece cada vez mais óbvio que a teoria neo-liberal, funcionando como paradigma dos economistas no poder, dando-lhes a ver o que vêem (os números crescentes da riqueza financeira nas bolsas) e cegando-os para o que o paradigma reduz (a riqueza económica das nações), é a causa mais forte de toda esta crise, que a rapidez dos meios electrónicos acelerou de forma nunca antes vista (nem em 1929, julgo eu). O que chamo aqui ‘riqueza económica das nações’ – estrutura sólida de produção (empresas produtivas) e consumo com emprego e salários adequados – corresponde às duas margens do mercado: por um lado, a que lhe é anterior, a produção técnica liderada pelo engenheiro e não pelo economista, e por outro a que resulta dele, os que consomem o que foi produzido por eles, as famílias da tal classe média, hoje ameaçada pelo desemprego e pela insegurança, em vias de empobrecimento. Caramba! É difícil de perceber que os efeitos nefastos do liberalismo correspondem a uma época de grande progresso tecnológico electrónico e à formação de fortunas colossais por especuladores que muitas vezes nunca administraram empresas nenhumas dignas desse nome? Que é absurda uma crise destas em época de apogeu tecnológico com consumo de massas? Que este progresso electrónico veio a seguir aos trinta anos de produção económica que instauraram o grosso da classe média, os seus ordenados, as suas férias pagas e a sua segurança médica e social, e que não há nenhuma razão tecnológica que explique esta crise, se não fosse uma teoria económica virada para a ganância financeira, para a guerra dos capitais pelos maiores números, a qual teoria levou à desindustrialização do Ocidente em grande parte?[2]
         4. Rodrik diz que o mercantilismo chinês e de congéneres corresponde à “construção duma economia moderna e à criação das condições para a prosperidade a longo prazo”, assim como também lembra que o liberalismo só triunfou em Inglaterra em meados do século XIX. O que significa que o mercantilismo, onde “o Estado e as empresas privadas são aliados e cooperam na procura de objectivos comuns, tais como o crescimento económico interno ou o poder nacional”, foi quase sempre a regra: inclusive as nações europeias que foram atrás do modelo industrial inglês, França, Bélgica, Suécia e outras, recorreram ao Estado para fomentar caminhos de ferro e bancos suficientemente fortes, explica Landes[3] na sua história da técnica europeia[4]. Tudo isto parece-me significar que o Estado social faz parte intrínseca deste novo mercantilismo como teoria económica que deveria suplantar o neo-liberalismo.
5. O que é que me move nesta pretensão de crítica do paradigma da ciência da economia? Não sou economista, mas isso parece-me ser aqui uma vantagem, já que por regra os cientistas de paradigma normal, como dizia Kuhn, são avessos a revoluções desse paradigma, é frequentemente alguém de fora que as faz, ou melhor alguém que tenha um pé fora. Eu tenho os dois pés fora, não tenho a menor pretensão de dizer o que deve ser a ciência económica. Mas as minhas deambulações de filósofo da linguagem por várias ciências que a revolucionaram, linguística, semiótica, antropologia, neurologia, psicanálise, levaram-me a retê-las na sua dimensão filosófica – filhas da definição e dos conceitos filosóficos – como componentes duma fenomenologia ambiciosa, capaz de entender a estrutura do universo, nomeadamente a da terra e da vida. Ora, foi-me dado assim perceber que a história dos humanos, desde a invenção da agricultura e da criação de gado com que as sociedades domesticaram a lei da selva que dominava os humanos como os restantes animais, tem sido a história de procurar controlar pela linguagem da razão a lei da guerra que da da selva herdámos. Saindo todos das religiões que criticaram, o direito nomeadamente, mas também a filosofia e as ciências, é esse controle da lei da guerra que buscam, dos excessos das rivalidades, tendo vindo a alargar-se a zona da sua amplidão, regional, reinos, nações, globalidade do planeta. Nesse sentido, a economia enquanto ciência tem como função primeira domesticar a guerra dos capitais.
6. O que sei da economia é que é a ciência do mercado e que este se situa entre a produção de bens e o seu consumo, entre as empresas e as famílias, digamos de forma geral, e que são estas que são importantes em termos da habitação social dos humanos na terra. Com efeito, o que move o engenho dos humanos é a invenção que permite melhorar as produções, o que move os seus desejos terra a terra e corpo a corpo é a qualidade e o preço desses bens. O dinheiro, como equivalente de trabalho produtivo, é um meio racional de proceder às trocas, vendas e compras (a troca começou por se sobrepor às pilhagens e razias guerreiras). Ninguém come dinheiro, numa ilha deserta ele não vale nada, onde continuam a ser essenciais o engenho e os desejos. [O problema da especulação financeira é ela reduzir totalmente a produção e o consumo e centrar-se no 'meio' que só entre ambos vale: trocam-se acções de empresas, mais de 50% para se ter poder sobre elas e sobre os que a constituem enquanto produtores, é este 'poder' que, antidemocráticamente em relação aos poderes legítimos eleitos, é o que se procura nas bolsas, além fronteiras nacionais, fora do alcance dos Estados respectivos. Seria necessário entender esta relação entre finanças à solta nas bolsas e economias de cidadãos que trabalham, entendê-la entre economia e direito.] Seja como for, creio que o erro crasso da ciência económica actual é o de ter como elemento de avaliação o crescimento dos números em termos de dinheiro, em vez de ser a qualidade da produção e do consumo. É certo que esta escapa ao economista, mas não deveria escapar que a especulação financeira está a desvastar esta qualidade e que o carácter terapêutico da ciência económica deveria encontrar meios científicos de vigiar por essa ‘qualidade’, a começar pelo emprego. Assim como a medicina busca que não haja doentes como seu critério primeiro, a economia deveria buscar antes de mais que não haja desempregados. Pela boa razão que os empregados são o esteio da economia, os que a fazem com a cabeça e as mãos nas máquinas e nas matérias primas, e que a ciência só intervém pelo facto de ser necessário capital para que haja produção: lembremo-nos que os trabalhadores começaram por ser escravos captados em guerra, que esse foi o esteio da economia da chamada Antiguidade, que a moeda é um meio histórico excepcional para domesticar a guerra.
7. É verdade que a democracia foi inventada pelos Gregos num regime esclavagista, não impede que a sua lógica primeira, restringida embora aos cidadãos de Atenas, foi a de evitar que as casas poderosas (em terras e escravos) absorvessem as casas mais pequenas, dependentes do trabalho dos donos. Ora bem, se a democracia moderna se refere a todos os cidadãos, incluindo os trabalhadores por conta de outrem, percebe-se que, além do direito e protegidos aliás por contratos de trabalho, a ciência económica deva ter que ver também com a justa partilha dos resultados entre lucros e salários, partilha essa para a qual não há critérios que não sejam políticos, de acordos, consentidos ou impostos, de greves por vezes. Mas sobretudo, uma vez que a economia não pode pretender evitar a falência de tal empresa nem o despedimento de tal trabalhador, ela tem que velar pelo jogo da concorrência e da competitividade de maneira a evitar que este jogo não elimine os mais fracos por abuso dos mais fortes (as leis anti-monopólios, por exemplo). Tudo isto creio ser razoavelmente pacífico. O que me parece escandaloso todavia, é que o que não é senão um meio entre a ‘riqueza’, de troca entre a produção das empresas e o consumo das famílias, Adam Smith dixit, meio privilegiado justamente pela ciência económica como operador da necessária redução que faz dela ciência, que o crescimento ilimitado desse meio se tenha tornado o critério principal dos economistas, é algo de intrinsecamente perverso. Mesmo em termos de PIB não é evidente: já A. Gorz assinalava que os números relativos às consequências dos desastres de automóvel contribuem para aumentar o PIB, e que este baixa com as medidas de prevenção rodoviária que conseguem diminuir o número de desastres. Mas que as finanças especuladas tenham como consequência a crise da estrutura económica, falências e desemprego, eis o que me parece ser a negação pelos próprios fenómenos da economia como ciência. Como as vacinas e outros remédios quando matam os doentes o são para a medicina. É a esta preocupação democrática que chamei ‘saúde da actividade económica’ no texto “Economia, direito e moral”, em que o zelo do bem comum deve ser parte essencial da ciência económica, tal como a justiça no direito e a saúde na medicina.
8. Esse texto termina propondo que reduzir os tempos de trabalho para que toda a gente tenha emprego, é o problema económico que os economistas não vêem, não vêem que foi assim com as várias etapas de progresso tecnológico. Durante o século XIX europeu e americano, 10 a 14 e mais horas de trabalho foram regra, como o sol a sol dos trabalhadores rurais, ainda vigente entre nós no 25 de Abril. As 40 horas semanais foram conseguidas durante o século XX. A questão parece ser actualmente a de computadores e robots estarem a precipitar o desemprego de forma crescente e massiva: o que é um bem do ponto de vista do trabalho vira-se contra o trabalhador que perde o emprego e apenas a favor dos lucros que têm que crescer, não apenas por desejo dos empresários mas por imperativos ‘científicos’ da teoria, explicitados ou pressupostos apenas. "Como pode uma economia em crise crescer, quando isso não aconteceu quando havia condições favoráveis? E se o crescimento económico não existir?", perguntava Miguel Gaspar no Público de 10 de janeiro, citando Krugman que citava Gordon, pretendendo que o crescimento, após três revoluções industriais, estará a chegar ao fim. “Face ao desemprego e ao uso das novas tecnologias, a diminuição radical dos horários de trabalho é uma solução de bom senso evidente. Todavia não há nenhuma instância que possa aplicar essa regulação”, dizia em 1989 Serge Latouche (“Essai sur les limites de l’analyse régulationniste dans le contexte de la crise contemporaine”, La Revue du Mauss nº 3, 1989, p. 63). Em todo o caso, como André Gorz antecipou no seu Adeus ao proletariado em 1980[5], será tecnologicamente possível organizar-se a sociedade em duas grandes esferas de tempo: a da heteronomia onde se trabalha em vista de salário e a da autonomia onde se vive segundo a sua liberdade, onde se faz aquilo de que gostamos sem ser preciso que nos paguem, um tempo livre activo, as instâncias municipais facultando meios variados para facilitar esta esfera (oficinas para reparar maquinaria solidariamente, por exemplo que ele dá, a que se pode acrescentar bancos de tempo, com gente que ensine coisas interessantes, ou músicas, pinturas, vídeos, feitos pelas pessoas, e por aí fora).
9. Este aumento duma esfera de vida autónoma com possibilidades solidárias pode bem ser uma utopia razoável para o século XXI, pelo menos para as populações ocidentais (as outras é mais complicado). Mas é claro que as dificuldades são muitas, já que é impossível tornar viável uma reforma social dos horários de trabalho apenas numa região, num país, como sublinhava Latouche. Terá que ser algo que implique a U. E. e os E. U., a América latina e a Ásia, os países muçulmanos, as Áfricas. Vê-se bem que os países ditos emergentes quererão chegar ao nível de vida dos Ocidentais, enquanto estes deverão melhorar a sua vida mas frugalmente, de forma a baixar os números económicos. A favor desta utopia estão as questões ecológicas e climatéricas, as ameaças deste sistema industrial sobre as condições de habitação da terra, que deverão ser parte nevrálgica das motivações políticas. São ou deveriam ser conhecidos os argumentos para um decrescimento sustentável: “esgotamento dos recursos energéticos - (petróleo, gás, urânio, carvão) ; valor decrescente de numerosas matérias-primas; degradação ambiental: efeito estufa, aquecimento global, perda da biodiversidade e poluição; degradação da flora, da fauna e da saúde humana; evolução do padrão de vida dos países do hemisfério norte em detrimento dos países do sul, no que diz respeito a transportes, saneamento, alimentação” (Web), ver Serge Latouche, Pequeno tratado do decrescimento sereno, ed. 70. Só que tem-se visto como é difícil que os políticos, sujeitos a eleições periódicas e à pressão das populações, chegarem a ‘acreditar’ no que os cientistas da terra e do clima vêm avisando há algumas décadas e a porem em prática as reduções industriais preconizadas. Num texto de 2007, “A economia política por vir como ciência terapêutica”, neste blogue também, aventei o exemplo das reformas de Keynes só terem sido possíveis no rescaldo da última guerra e de portanto ser necessária uma crise forte para se reformar este capitalismo selvagem à Friedman: ingenuidade minha, que a crise veio, e de que maneira, e viu-se que os remédios propostos são neo-liberais e atacam-se ao Estado social, e que as populações em crise votaram à direita, sem aliás que a esquerda se mostrasse capaz de fazer outra coisa.
10. Mas continua a ser certo que só a violência de crises poderá obrigar a reformas, as quais provavelmente não virão logo de cima mas poderão eclodir de baixo. O exemplo maior, quer-me parecer, é o da maneira como a Auto Europa e outras fábricas mais pequenas de que se não fala, ao terem menor vazão para os seus produtos, em vez de despedirem uma dada percentagem de pessoal, aplicam essa percentagem a tempo de trabalho de todos, um dia a menos por semana no caso duma fábrica em Cascais com 70 empregados de que conheço um deles. A redução do salário repartida por todos vale mais do que o despedimento duns tantos, as pessoas não gostam do que lhes falta mas percebem que é justo e solidário. O mesmo pode ser feito na Função Pública, mas vê-se a ‘estupidez economicista’ de quem quer aumentar as horas de trabalho e despedir 50 mil! É a confissão mais clara da cegueira do ‘crescimento’ que aliás só tem gerado recessão. Sem dúvida que isso não chegará, mas altera o clima social e levará a pouco e pouco a reavaliar necessidades (e inutilidades habituadas). A questão de fundo (não sei dizer nada sobre a dívida) é saber se as coisas caminham para recuperar as 40 horas de trabalho ou se, pelo contrário, se verificará que o desemprego ocidental, resultante de computadores e robots, é irrecuperável com tantas  horas e que se virá a concretizar menos tempo de trabalho necessário, com fim também da produção de muita bugiganga.



[1] Que eram as duas faces das “casas” de antigamente, economia e parentesco, que a revolução industrial separou em redes autónomas de empresas e famílias. Não deixa de ser curioso sublinhar que o livro de Adam Smith foi publicado no mesmo ano em que Watt e Boulton começaram a produzir máquinas a vapor.
[2] O ‘caramba!’ é sintoma de que me falta aqui o argumento de história económica e da respectiva teoria desde o final da última guerra.
[3] L'Europe technicienne ou le Promé­thée libéré - Révolution technique et libre essor industriel en Eu­rope occiden­tale de 1750 à nos jours, trad. de L. Evrard, Galli­mard [1969], 1975/1980.
[4] Pretendo aliás que os países que entre as duas guerras e após a segunda constituíram regimes de partido único o fizeram por razões de ‘atraso’ industrial, quer para se modernizarem (socialismos), quer para resistirem à modernidade (Salazar), quer ainda para a conseguirem à Pinochet. Aonde a China deu a volta e a Rússia não parece ter conseguido. Alemanha e Itália são um caso diferente, dependente da sua recente unificação no último terço do século XIX
[5] Traduzido no Brasil. Citei-o largamente no meu Linguagem e Filosofia. Algumas questões para hoje, INCM, 1987.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Cérebro / computador... e a linguagem? (debate com L. Moniz Pereira)




1. A excelente exposição de Ana Gerschenfeld (Público, 27/12/2012) sobre o debate entre as posições extremadas do neurologista nobelizado Sydney Brenner e o cibernético Moniz Pereira na homenagem a A. Turing abriu o espaço à intervenção de quem ensinou durante mais de 25 anos Filosofia da Linguagem na Faculdade de Letras de Lisboa. Ambos os contendores ignoram a linguagem, não por ignorância pessoal mas por razões da filosofia europeia que teceu os paradigmas científicos respectivos. Com efeito, de Descartes a Husserl passando por Kant, tudo se passa como se a variabilidade das línguas europeias as tivesse tornado incapazes de abordarem as grandes questões da razão, do pensamento e do conhecimento, sendo o sintoma dessa exclusão massiva o lugar ocupado pelas ideias (universais), hoje acrescentado de representações e outras informações.
2. Foi a grande escola francesa de filosofia aliada às ciências sociais e humanas dos anos 60 e 70 do século passado que deu à linguística estrutural o lugar de piloto, que ilustra muito bem a dupla articulação da linguagem que André Martinet formulou, sublinhando a sua relação com a biologia humana. As palavras articulam-se em fonemas (letras no alfabeto), ‘muito’ e ‘mito’, com uma única letra de diferença, não têm nada a ver uma com a outra em termos de sentido, este relevando da maneira como as palavras se articulam em frases e suas sintaxes (‘você sua muito em sua casa’: iguais na pronúncia, as duas ‘sua’ são palavras diferentes por razões sintácticas, uma forma verbal e um pronome). Ora, a primeira articulação, com as suas poucas dezenas de fonemas, está adequada às possibilidades articulatórias da nossa fisiologia fonadora, enquanto que os milhares de palavras que usamos habitualmente são os que o nosso cérebro guarda sem dificuldades de maior. Esta dupla articulação não existe nem na matemática, nem na música, nem nas imagens, mapas, etc., mas é um universal dos milhares de línguas humanas diferentes, que relevam de evoluções históricas que se sobrepuseram à evolução biológica da nossa espécie e nos tornaram estrangeiros uns aos outros.
3. Foi por isso que a razão universal as postergou, e bem assim a biologia. O grave inconveniente é o dos neurologistas (Eccles e o seu Popper, Changeux, Vincent, Jouvet, Edelman, Berthoz, Damásio, Kandel, com todos eles aprendi o que sei) acharem espontaneamente que o cérebro é feito para pensar, como se o nosso cérebro não fosse muito próximo do dos gorilas e outros primatas. O primeiro cérebro dos vertebrados regula a homeostasia do sangue que, quando faltam nutrientes, pulsiona o animal para procurar comida e para se proteger de ser presa doutros; o neo-cortex dos mamíferos, aves e alguns répteis, desenvolveu-se a partir daquele para se especializar em estratégias de caça e de segurança, e foi este cérebro que recebemos na evolução como seres no mundo (Heidegger). Se aprendemos a pensar, foi com a invenção das línguas e de usos de caça, culinários, protecção em cabanas e por aí fora, segundo as histórias, depois usos de escritas, o alfabeto e a definição filosófica, etc., e para calcular inventaram-se ábacos, geometrias, algarismos, etc. Nenhum neurologista que eu tenha lido pôs nunca a questão do cérebro desta maneira, sempre o consideram um órgão estritamente biológico, quando o nosso é simultaneamente um órgão social que aprende desde bebé até morrer. Assim como se recebe o ADN dos progenitores como directiva celular, incluindo as hormonas de regulação homeostática, também o que se aprende com a sua tribo é regulador das condutas sociais. Pode-se dizer que somos um mecanismo de autonomia com heteronomia apagada: os que nos ensinaram as regras de falar, usar, conviver, apagam-se, não ficam a segredar-nos ao ouvido o que fazer caso por caso, mas as regras da nossa autonomia são, no essencial as mesmas, nossas (auto) porque deles (hetero).
4. Qual é então a diferença para com o computador? Este é um mecanismo programável por software, terá sido a grande invenção de Turing, disse-se na Gulbenkian, à diferença das outras máquinas, dedicadas a trabalhos específicos em seu hardware. O que significa que um mesmo computador se presta a programas diversos de software, mas diz também a diferença em relação aos cérebros mamíferos: essa programação, correspondendo sem dúvida a uma dada autonomia de execução, não se apaga, conduz permanentemente o trabalho de cálculo matemático, por exemplo. Enquanto que nos humanos, a anatomia cerebral é, pela aprendizagem dos usos sociais e da fala, investida dum ‘eu’ autónomo capaz de escolhas no mundo. A isto chamamos de forma geral ‘pensar’, o computador (putare, em latim, diz pensar) não o faz: creio que apenas calcula, e isso fá-lo muito melhor do que nós, já que faz cálculos nas simulações complexas, de que somos incapazes por limites fisiológicos. (http://www.educ.fc.ul.pt/ hyper/resources/fbelo.htm)
5. Qual é então o ponto de dificuldade do computador (além das diferenças entre moléculas de carbono e de silício, que aqui não dá para explicitar)? Tem a ver com a linguagem, justamente, com a sua dupla articulação: em rigor, o computador só lê letras, não lê palavras nem frases senão como sequências de letras. Estas não são imagens de nada, não têm sentido por elas: o computador não atinge o sentido, o que tem a ver com a lógica binária 1/0 que lhe é imposta pela electricidade, corrente / interrupção; o hardware ignora até a distinção entre um número e uma letra. Tanto quanto sei, ele apenas recebe do teclado 256 possibilidades, correspondendo aos octetos (bytes), com­binações de oito impulsos eléctricos simultâneos de 0/1. É com es­ses octetos (0 1 2 . ,  a b c A B C + – … o intervalo entre as palavras inclusive) que o software tem que fazer jogar as sintaxes operacionais, a transposição fazendo-se por três operações elementares do sistema lógico (‘e’, ‘ou’, ‘não’), inscritas no hardware. Os números da aritmé­tica são aí inscritos, não no sistema decimal que todos conhecemos (1, 2, 3, 4, 10, 100 …), mas num sistema binário que só conhece 1 e 0 (1, 10, 11, 100, 101…). Por outro lado, é necessário que todas as operações matemáticas que o hardware tem que operar estejam, ou inscritas na própria rede electrónica, ou traduzidas anteriormente nas que estão lá ins­critas. Se ele tem que adicionar dois números, o + do software deve estar convertido na indicação desta operação no hardware. A mi­nha presunção é a de que o computador, no que respeita à matemá­tica, não faz senão isso, e que é essa a sua positividade, a razão do seu enorme sucesso. Posto isto, os números são susceptíveis de verda­deiras operações de cálculo, a uma velocidade inaudita, mas não as letras das equações, que são apenas transpostas entre os seus dois membros, segundo as regras matemáticas, até ao momento em que sejam substituídas por números, o cálculo prosseguindo em seguida somente com estes. Como o matemático também faz na sua matemática de lápis e papel. Não se trata de um de­feito dos computadores, mas da sua positividade essencial. Quer isto dizer que o hardware é radicalmente inapto para ‘calcular’ com a linguagem alfabética: as sua únicas operações – muito úteis, cada um de nós o sabe pelo seu Mac ou P. C. – são as de receber ‘representações’ de letras, acentos, vírgulas, etc. e espaços brancos se­parando as palavras, o que lhe permite ter também ‘representações de palavras’ (e de sintagmas mais ou menos prolon­gados) como sequências de representações de letras. Por razões intrínsecas ao hardware, o computador ignora a dupla articulação da linguagem e os seus diferentes níveis de regras, as suas polissemias que tanto irritam os lógicos e amam os poetas, o que se joga ao nível do software, enquanto texto capaz de ser lido e escrito por um cérebro humano.




sábado, 5 de janeiro de 2013

O que é o 'privado' da propriedade privada?


1. ‘Privacidade’ tem um sentido a ver com o íntimo, do foro pessoal, como se ‘privado’ fosse sinónimo de ‘próprio’ e a expressão ‘propriedade privada’ dissesse duas vezes a mesma coisa. Mas ‘privado’ é uma forma do verbo ‘privar’, que implica retirar a alguém algo que lhe pertenceria, por exemplo um emigrante privado de direitos, entre outras privações. Questão: a propriedade priva outrem daquilo que lhe é próprio? É uma apropriação? E se for uma apropriação devida, como a justificar?
2. Sejam dois exemplos estranhos. O que é o nosso ‘próprio’ corpo? Um complexo imenso de células que, desde a primeira que os nossos pais fecundaram, se alimenta de moléculas de animais e plantas mortos; estes foram privados da vida, das suas moléculas  nos apropriamos fazendo delas as moléculas do nosso ‘próprio’ corpo seja. Estranha e cruel natureza, em sua lei da selva. O que é o nosso ‘próprio’ pensamento? O que aprendemos a formular ao longo da nossa experiência de vida com as palavras e regras da língua da nossa sociedade, de cujo saber nos apropriamos (em ‘aprender’ há ‘prender’), agora sem que outrem sofra privação: sendo-nos próprio, o nosso pensamento só foi possível apropriando-nos do saber que é comum aos outros, deles privado. Esta é uma regra geral de tudo o que diz respeito à vida: recebendo de outrem somos feitos, privando deles nos fazemos a nós ‘próprios’.
3. O que é então uma fábrica? É uma apropriação legal do que se recebe do ‘bem comum’: o edifício, as máquinas, matérias primas e energia, os humanos com o seu saber escolar contratados para nela trabalharem, tudo isso – usos inventados e reproduzidos tradicionalmente – lhe vem do social comum a todos (como as outras fábricas que já existem e cada nova mais ou menos repete), apropriação por um dado capital (‘dado’ por outrem, por usos legais) que por sua vez é fruto de anteriores apropriações. ‘Privado’ aqui tem dois sentidos: o do direito do proprietário circunscrever o espaço de produção, retirando-o do domínio comum, de forma a que a produção seja possível, privado para que estranhos de fora a não perturbem; mas sendo ‘privação’ do bem comum (toda a propriedade social foi um dia apropriada por particulares), este só não fica ‘privado’ negativamente na medida dos benefícios que receber em troca dessa privação, antes de mais relativos ao que lá se fabrica e vem ao comum mercado, com boa qualidade e bom preço; e também pagando impostos por tudo aquilo de que a fábrica beneficia: estradas, sistema de ensino, ordem nas ruas, e por aí fora. Mas não só. Os trabalhadores são parte do que é apropriado mas, excluídos da propriedade, são necessariamente incluídos no seu domínio privado através dum contrato, como cidadãos que são: a propriedade privada do capital só se justifica em relação a estes na medida em que eles se sentirem honrados na colaboração quotidiana, na  efectivação do contrato.
4. Esta relação bipolar da propriedade – ela só existe porque recebida da sociedade –, relação entre o bem comum desta e o próprio, foi negada pela sua abolição politica que resultou mal para o bem comum (que a teoria prezava), tanto a Rússia como a China o atestam nos seus destinos históricos contrários; mas é igualmente negada pela tradição contrária (que de Roma nos veio) da propriedade do capital, como coisa exclusiva do próprio, como se ser-se ‘rico’ fosse coisa não social que também valesse numa ilha deserta. Quando patrões e sindicatos se concertam ao nível da economia terra a terra, a que diz respeito ao pão e ao corpo de cada um, se concertam porque a economia afundada a todos afunda, donde veio então a crise? Das decisões de ‘propriedades privadas’ no sistema bancário e nas bolsas especulativas, que justamente ignoram a economia que diz respeito aos cidadãos. E quem nos governa é de finanças contra economia que se ocupa. Há aqui um problema de epistemologia da ciência económica e financeira, a separação entre ambas que acaba por ser o alheamento das finanças em relação ao que justifica o que é a ‘propriedade privada’. Esta separação parece remeter para a ignorância da dimensão politica, que não é tida em conta, como o foi no tempo da grande depressão, de Roosevelt e de Keynes. Trata-se agora duma concepção absolutista dos capitais que reina impiedosamente (Reagan, Thatcher) há 30 anos, hoje e aqui é dela que padecemos: privou-nos provocando a crise e nos priva crendo curá-la. Os que ensinam economia e finanças, os que preconizaram este corte entre ambas desde Milton Friedman, tornados, este e outros da sua dita ‘escola neoliberal’, prémios Nobel: os que fizeram o mal foram recompensados ainda por cima!

Públicoı, 23/12/12 (reformulado)