sábado, 8 de dezembro de 2012

No paradigma de Biologia falta o Ser no Mundo (debate com Teresa Avelar e António Damásio)


NO PARADIGMA DA BIOLOGIA FALTA O SER NO MUNDO
(debate com Teresa Avelar e António Damásio)


UM PRECONCEITO FILOSÓFICO NO PARADIGMA DAS BIOLOGIAS
A) Selecção natural e lei da selva (diálogo com Teresa Avelar)
A lei da selva comanda as anatomias animais
Passar do ‘ambiente’ à cena ecológica
B) Cérebro, mente e mundo : dar o braço a torcer, mas... (diálogo com António Damásio)
Na Neurologia como na Biologia
Nós, animais, somos seres no mundo
Onde há neurónios, há mente
O cérebro é um órgão biológico e social
A questão do filósofo: o que é o humano?
Conclusão fenomenológica: compreensão e linguagem relevam de evoluções diferentes

Resumo
Trata-se de questionar o paradigma biológico a partir da fenomenologia biológica (Belo, 2007): o privilégio dos genes como determinantes do todo do organismo animal, e deste sobre o chamado ambiente, a que contraponho o conceito de cena ecológica, ou seja uma biologia de seres no mundo. Numa 2ª parte, será a neurobiologia de Damásio que será objecto do mesmo questionar, do cérebro como 'produzindo' a mente e a consciência, propondo que o cérebro é um órgão biológico e social e que compreensão e linguagem relevam de evoluções diferentes.


1. Trata-se aqui de um pequeno ensaio do que se pode chamar fenomenologia biológica, fazendo parte duma aliança da filosofia com ciências, da fenomenologia (começada por Husserl e continuada pelas dissidências que foram Heidegger e Derrida) com as principais descobertas científicas do século XX, a saber: a teoria do átomo e da molécula, a biologia molecular, a correlação entre interdito do incesto e exogamia, a dupla articulação da linguagem e a segunda tópica da teoria psicanalítica das pulsões.
2. O projecto de conhecimento das ciências europeias, os seus conceitos e métodos, foram historicamente herdados da filosofia grega, Sócrates, Platão e Aristóteles, inventores da definição e da argumentação sobre as essências intemporais, os seres concretos analisados abstraídos das suas circunstâncias, arrancados do seu contexto. As narrativas e os discursos quotidianos dizem sempre respeito a singulares concretos em contextos determinados, a definição deu origem a um tipo de texto gnosiológico – filosofia, lógica e ciências – tendente a um saber geral, universal. As ciências europeias, por sua vez, inventaram o laboratório (Galileu, Newton, etc), em que se medem e avaliam movimentos, reelaborando em consequência as definições herdadas da filosofia na formulação das suas teorias: definições e argumentos dum lado face a experiências que lhes põem objecções do outro.
3. Ora, o primeiro grande tratado de Física moderna, publicado por Newton em 1687, chamava-se Princípios matemáticos de filosofia natural: o que para nós é ‘ciência’ era para o autor ‘filosofia’. Já Galileu dissera que gastara mais anos a estudar filosofia do que meses em matemática pura[1]. O que significa que, longe ainda do seu futuro alcance técnico, sabendo-se que a ‘ciência’ era um discurso específico, era no entanto considerada ainda um ramo da filosofia consagrado à natureza. Só um século depois de Newton é que a distinção entre os dois tipos de texto se marcou teoricamente: foi o trabalho de Kant que assumiu a novidade newtoniana e a incorporou na sua filosofia[2], separando as águas e permitindo que, ao longo do século XIX e anunciados pela primeira grande filosofia incorporando a história, a de Hegel, se desenvolvessem vários tipos de ciência, quase todos tendo como esteio o tempo histórico: biologia, paleontologia e evolução, linguística das línguas indo-europeias, filologia crítica e edição dos textos antigos, economia, antropologia dos povos pré-históricos, história propriamente dita, e por aí fora. E assim como Kant fez uma teoria filosófica que continha as descobertas ‘críticas’ de Newton, também o sistema hegeliano implicava na sua lógica as ciências do seu tempo na sua dimensão filosófica, que Kant todavia ‘suspendera’. De maneira diferente pois, ambos estes pensadores da transição entre a época clássica e a modernidade pensaram a filosofia ainda com as ciências; ao mesmo tempo que Kant contribuíu para separar as ciências da filosofia e deixar-lhes um espaço de inovação mais liberto de preocupações metafísicas, consoante a constante reclamação ‘positivista’ dos sábios.
4. Mas não era possível impedir que perdurassem preconceitos filosóficos nas evidências não questionadas desses sábios, uma boa parte das dificuldades das grandes descobertas científicas implicando um verdadeiro trabalho filosófico da parte deles contra preconceitos tradicionais, trabalho critico esse constitutivo do que Kuhn chamou revolução dos paradigmas. Após o grande desenvolvimento científico dos dois últimos séculos, encontramo-nos na situação oposta, que dá a perceber que a suspensão kantiana da dimensão filosófica das ciências deixou de ser fecunda: diante da imensa fragmentarização dos saberes científicos em especialidades infindas, a crescente reclamação de interdisciplinaridade estimula a recuperar essa dimensão filosófica nas novas ciências e a formular uma fenomenologia, uma descrição dos fenómenos em que as principais descobertas científicas tenham também um lugar filosófico. É que é fácil de dizer como a filosofia europeia, construída, tanto a dita racionalista como a dita empirista, em torno do ‘sujeito’ ou da ‘consciência’, que substituíram a ‘alma’ na sua dupla oposição, tanto ao corpo como ao mundo dito exterior, essa filosofia estava (está ainda em muitos discursos) carente das dimensões dos humanos que assim estavam excluídas: a um tal sujeito sem corpo nem sociedade nem linguagem nem sexualidade submetida à lei era necessário recorrer às respectivas ciências, biologia, antropologia, linguística, psicanálise, para se poder fazer uma abordagem fenomenológica dos humanos, em prol duma articulação dos saberes, de uma tentativa de os unificar por dentro deles, digamos, unificação filosófica dos saberes científicos, revelando uma mesma fenomenologia nas grandes descobertas científicas do século XX. A esta tentativa chamei filosofia com ciências ou fenomenologia reformulada[3]. Assim se me vou ocupar aqui de biologia, é porque esta filosofia de que me reclamo foi elaborada lendo livros de biologia e neurologia, além de outras ciências.
5. Digamos que há quatro grandes domínios ‘históricos’ da realidade de que se ocupam as ciências. 1) o domínio da gravitação: a história da formação dos astros, os seus fenómenos caracterizando-se pelos núcleos atómicos de protões e neutrões; 2) o domínio da alimentação: a evolução dos vivos, caracterizados pelo ADN; 3) o domínio da habitação: a história das sociedades humanas, caracterizadas pelas unidades locais de habitação e os paradigmas dos seus usos; 4) o domínio da inscrição: a história (ocidental) dos textos literários, filosóficos e científicos, caracterizados pelo alfabeto.
6. Acontece que estas quatro ‘histórias’ foram todas passíveis de inúmeras contingências e frequentes convergências, como T. Avelar[4] mostra ser verdade da evolução, que contesta a existência persistente do pressuposto finalista em muitos biólogos, o qual é obviamente de origem filosófica. Essa leitura levou-me a debruçar-me sobre um outro pressuposto filosófico (também de cariz antropocêntrico) ignorado dos biólogos, que ela própria partilha (cf § 18). Ora, o a todos os títulos notável Livro da Consciência de A. Damásio[5] mostra que a neurologia actual também partilha desse pressuposto filosófico da restante biologia, sendo-lhe proposto em diálogo o motivo heideggeriano de ser no mundo para ajudar a uma melhor fenomenologia destas questões. Parece com efeito que aí reside uma grande dificuldade, lugar de tantos diálogos de surdos, já que este tipo de pressupostos corresponde a evidências não questionadas, que fazem parte da própria maneira de colocar as questões, daquilo a que Althusser chamou “filosofia espontânea dos sábios”. Esses pressupostos ou preconceitos foram herdados pelas ciências do seu passado filosófico sem que os cientistas o saibam, receberam-nos - ‘sujeito / objecto’ e respectiva ‘representação’, para assinalar o mais insidioso -, recebemo-los no liceu, nas aulas de ciências e outras, não só nas de filosofia propriamente dita. Ora, acontece que Heidegger e Derrida nos permitiram tornear tais pressupostos, como também as próprias grandes descobertas científicas necessitam dessa crítica para se articularem umas com as outras, se unificarem. É por isso que alguém trabalhando em filosofia pode ousar entrar em questões de especialistas sem o ser, a partir da sua outra especialidade (tendo obtido todavia uma licenciatura em engenharia civil na sua juventude).

II ––  UM PRECONCEITO FILOSÓFICO NO PARADIGMA DAS BIOLOGIAS
A) Selecção natural e lei da selva (diálogo com Teresa Avelar)
7. Gostei muito da clareza argumentativa do livro de Teresa Avelar (T. A.), da sua tese sobre o papel quer da contingência quer das convergências frequentes na evolução dos vivos, do carácter único e irrepetível desta. Bate-se assim contra os criacionismos anacrónicos, mas também contra o que diz ser um preconceito antropocêntrico de muitos biólogos evolucionistas, que colocam os humanos como ‘cúmulo da evolução’ dos animais. Já o filósofo Deleuze tinha nos anos 70 proposto substituir o esquema clássico da árvore genealógica hierárquica pelo do rizoma[6], como T. A. fala de arbusto. Assim como na história dos humanos há progressos (tecnológicos nomeadamente) sem progressismo[7], também a evolução se fez e se faz sem evolucionismo.
A lei da selva comanda as anatomias animais
8. Como é costume entre os biólogos, T. A. fala da “selecção natural" como um mecanismo, como se tivesse peças ou elementos diversos e uma fonte energética, o que manifestamente não é o caso. Digamos que se trata duma lógica imanente aos processos biológicos e ecológicos, uma selecção relativa às interacções entre organismos, que estes sim, podem ser ditos mecanismos. Há aliás quem ache que a selecção natural é uma explicação que se pode dizer tautológica: ela selecciona os que sobrevivem como aqueles que se mostraram capazes de sobreviver. A sua grande importância científica reside na imanência (biológica) da sua lógica, na rejeição crítica de pressupostos finalistas de ordem metafísica, filosófica ou teológica: ela ‘obriga’ o biólogo (ainda que seja crente!) a argumentar estritamente em termos de mecanismos de ordem biológica. E um dos grandes interesses do texto de T. A. é o de mostrar, com exemplos variados, que não é só o chamado criacionismo que é rejeitado, mas também a tendência, que se pode chamar ‘finalismo humanista’, de muitos biólogos e divulgadores da teoria da evolução, o pressuposto antropocêntrico de que a evolução se destinou a fazer aparecer a espécie dos humanos.
9. A caracterização inadequada mas reiterada da selecção natural como mecanismo incita a procurar saber se haverá algo como uma lei fenomenológica a que obedeçam os mecanismos biológicos, que possa esclarecer melhor sobre o que é que se exerce a selecção natural. Ela andará em torno da questão crucial de todos os vivos, que implica a relação do organismo com o que está fora dele mas lhe é necessário, a saber a questão da alimentação através de outros organismos. Ora, à excepção da água, todas as moléculas que constituem as células contêm átomos de carbono. Poucos existindo à partida na água onde se gerou a vida, e o número de vivos tendo vindo sempre a crescer, isto só foi possível através da fotossíntese que os vai buscar ao CO2 da atmosfera para constituírem as moléculas das células das plantas, aonde os herbívoros os vão buscar e os carnívoros depois a estes, segundo o chamado ciclo do carbono (parecido com o da água). É este ciclo que implica o que se deve chamar literalmente lei da selva: os animais só sobrevivem comendo outros vivos, sejam plantas sejam animais. O que é assim um mundo de imensa contingência.
10. Qual é o interesse desta lei? Sem que eu saiba dizer como é que ela pode interessar as plantas, todos os animais minimamente extensos são estruturados segundo ela: deverão ter uma anatomia capaz de ‘caçar’ e de digerir plantas ou animais e capaz de fugir a ser caçado. Nos animais melhor conhecidos por um leigo em biologia, distinguem-se, além do esqueleto e da sexualidade, dois grandes tipos de sistemas de órgãos: a) os que têm a ver com a digestão dos alimentos e com a circulação do sangue em equilíbrio homeostático que leva as moléculas digeridas e o oxigénio da respiração a todas as suas células, para que estas operem o seu metabolismo; b) os que têm a ver com a caça e a fuga, sistema neuronal (órgãos de percepção do exterior e interior, cérebro, nervos) e muscular da mobilidade. Se tomarmos o exemplo dum mecanismo, um automóvel, percebe-se alguma analogia conceptual: além dos cilindros do motor que transformam a energia, todos os órgãos do automóvel são calculados para circularem nas estradas, virarem à direita ou à esquerda, travarem, recuarem, acelerarem, etc., em função de situações regidas pela lei do tráfego, que não diz respeito só ao ‘meu’ automóvel mas a todos os que circulam e tem essencialmente a ver com situações aleatórias[8]. Esta lei determina todos os projectos laboratoriais dos engenheiros das fábricas de automóveis e tem como consequência lógica que todas as regras científicas (físicas e químicas) que jogam nas peças da máquina estão ao serviço duma condução essencialmente aleatória. O mesmo se passa com a lei da selva, obviamente mais complexa: ela determina todos os órgãos da anatomia dos animais minimamente extensos, e as regras bioquímicas, anatómicas e histológicas da constituição dos organismos respondem igualmente ao aleatório das situações de caça e de fuga.
Passar do ‘ambiente’ à cena ecológica
11. Todos os biólogos sabem isto, que eu deduzi do que li em livros de divulgação, e se digo ‘deduzi’, é por não o ter encontrado explicitado, ainda que sem a designação que lhe dei (a expressão ‘lei da selva’ é antiga, mas só se usa metaforicamente), não encontrei nunca esta explicitação da economia da alimentação. Espanta-me que na literatura de divulgação biológica que li esta economia estrutural da biologia animal nunca tenha sido aflorada: tratar-se-á de outro preconceito filosófico que fará parte da teoria do paradigma dominante da biologia actual. Ele assinala-se no próprio texto de T. A., quando falando do “ambiente”, diz que este “inclui não só factores como temperatura, humidade, etc., mas outros organismos: predadores, presas, parasitas, etc.” (p. 32). Se se disser que a ‘temperatura’ e a ‘humidade’, o clima em geral, assim como a mineralogia do ecossistema, são exemplos normais de ‘ambiente’ no que este tem de exterior ou de ‘inerte’ em relação ao processo da reprodução das espécies, de não controlável por estas, percebe-se claramente que ‘predadores’ e ‘presas’ correspondem a uma categoria completamente diferente: todos os organismos animais são predadores e podem ser presas! É a lei da selva que claramente escapa a T. A., o que mostra que há que trabalhar este conceito de ambiente, substituí-lo, por exemplo, pelo de cena ecológica.
12. Com que vantagem? A de mudar o olhar sobre o que fazem as ciências e sobre o papel estrutural do laboratório nelas: o que justifica a necessidade deste é a redução de factores aleatórios da cena para a criação de condições de determinação que permitam constatar ‘causas e efeitos’ de tipo científico, digamos de forma simplista. Mas há um segundo tempo, o da restituição do fenómeno observado à cena ecológica, em que importa ter esta em conta como referência teórica, a cena onde plantas e animais de espécies muito diferentes se reproduzem em concorrência necessária (ou aliança, caso das plantas e insectos de que T. A. fala, p. 72-4), segundo uma lei – que também não é um ‘mecanismo’ mas que rege a estrutura dos mecanismos – que me parece ser o grande factor da evolução. A selecção natural continua a ser uma descoberta histórica inestimável enquanto lógica imanente da evolução para recusar explicações extrínsecas aos mecanismos biológicos, sempre útil nestes tempos de criacionismos anacrónicos mas militantes nas Américas.
13. O que me escandaliza na literatura bio e neurológica que li e em tantas referências que se lêem por todo o lado, é, nunca por nunca ser, ter encontrado teorizada a transição da biologia das células à anatomia. Julgo poder deduzir da literatura biológica que li, que, à excepção das glândulas endócrinas e equivalentes, as células especializadas , além de se reproduzirem, não fazem mais nada senão reconstituírem algumas das suas proteínas, moléculas muito extensas e por isso frágeis, sempre ameaçadas de se desintegrarem em componentes mais estáveis e que é necessário repor para que as células possam fazer o seu trabalho especializado no seu tecido e órgão. Ou seja as ‘funções’ do ADN são, desde os unicelulares, internas à própria célula de acordo com a sua especialização anatómica nos organismos. Ora, é ao nível da boa anatomia clássica que se processam os comportamentos na cena ecológica, segundo os seus aleatórios, os quais comportamentos dependem do conjunto do organismo regulado cerebralmente e, nos humanos, dos usos que se aprenderam, linguagem incluída, os quais, ser no mundo, são abertos a várias possibilidades. Os biólogos moleculares entusiasmaram-se com a descoberta dos genes e desataram a sugerir determinismos sobre tudo e mais alguma coisa (inteligência, homossexualidade, que sei eu)[9].
Conclusão fenomenológica: uma biologia de seres no mundo
14. A grande mutação filosófica que aqui me guia foi devida ao filósofo M. Heidegger que propôs em Ser e Tempo[10], que os humanos, em vez de ‘alma e corpo’, espíritos, mentes, sujeitos, consciências, são seres no mundo, ek-sistentes fora deles. O que a biologia comprova: tudo em nós vem de fora, as moléculas de que somos feitos vieram de comermos outros vivos, e também as coisas que pensamos vêm de termos aprendido a falar e a pensar com os outros, o que sabemos fazer com mais ou menos habilidade (comer à mesa, lavar os dentes, trabalhar num computador) aprendemos ‘no mundo’ fora de nós, vendo os outros fazerem. É a sociedade, que já existe quando nascemos, que nos ‘faz doação’, complementando a ‘doação’ da espécie humana na cena ecológica. Somos antes de mais seres tribais (família e amigos), é a escola, os livros e os médias que nos fazem cosmopolitas. Voltaremos adiante à questão.
15. O novo paradigma que aqui se propõe considera a cena ecológica  como prévia  a cada organismo animal para poder dar conta de cada espécie e da descrição da anatomia e dos genes de cada organismo: tal como o engenheiro de automóveis experimenta peças em seu laboratório com os olhos teóricos postos na estrada onde ele vai circular, também as descobertas laboratoriais de relações de causalidade entre elementos duma dada anatomia ou fisiologia animal são para serem teorizadas com o olhar sobre a cena ecológica e a sua lei da selva. O extremo oposto encontrei-o num autor em voga nos anos 80 e 90, F. Varela[11], que propôs o conceito de auto-poiético. Tudo se explicaria a partir da lógica interna do organismo (autopoiético: faz-se a si próprio), tudo o que tem a ver com o ‘fora’ dessa lógica seria segundo[12]. Aqui, é de ‘fora’, da cena ecológica, que vem o autopoiético, embora esse ‘vir de fora’ seja apagado como condição da autonomia do organismo (e é por isso que os empiristas não dão por ela). Sucede exactamente o mesmo connosco: tudo, desde o óvulo fecundado, nos vem de fora (alimentação e aprendizagem) mas de maneira a que esse vir de fora seja não consciente, apagado (os sonhos lembram algo desse apagado reelaborado): tudo o que nos é ‘próprio’, foi-nos doado por outros, desde as moléculas das nossas células. A concepção antropocêntrica aqui criticada surgiu para substituir o teocentrismo medieval; a filosofia europeia do sec. XVII (Descartes é o mais conhecido, mas os seus críticos empiristas também incluídos) elaborou-a como interioridade, ‘eu que pensa’, depois ‘sujeito’, ‘consciência’, ‘homem’, etc., em oposição à exterioridade, o ‘objecto’, o mundo, o dito ‘ambiente’. Preconceito filosófico de cariz antropocêntrico: como se pensa o humano, também cada animal. A isto Heidegger contrapôs o humano como ser no mundo, que eu generalizo, com as devidas diferenças, aos animais em geral. Nos textos de 2007 e 2009, proponho que o Ereignis de 1962 permite interpretar o motivo de espécie biológica (no seio do de cena ecológica) como o que faz doação dos acontecimentos dizendo respeito aos indivíduos dessa espécie. A argumentação não pode ser aqui resumida, mas ela esclarece a maneira como Heidegger ultrapassou a oposição aristotélica entre ousia e acidentes, entre ser e tempo.

B) Cérebro, mente e mundo : dar o braço a torcer, mas... (diálogo com António Damásio)
Na Neurologia como na Biologia
16. O mesmo preconceito se encontra nos paradigmas de Neurologia, como tentei ilustrar no meu texto de 2007, num capítulo (11. 30-46) que articula O Homem neuronal de J.-P. Changeux[13] com O erro de Descartes de A. Damásio (A. D.)[14], um oferecendo, na sua teoria dos grafos, uma bela base para a abordagem da memória e o outro, na sua teoria do papel das emoções nas decisões, aquilo a que chamei uma neurologia do acontecimento. O recente livro de A. D., O livro da consciência, é deslumbrante para quem tem a paixão de compreender e sabe como estas questões estão ainda longe de esclarecimentos completos. Ele tem a bela ousadia de colocar a questão da emergência da mente, consciência e Eu (self) nos sistemas neuronais, a partir dos protozoários eucariotas como a ameba até aos humanos, com a ambição de alcançar a globalidade do que está em jogo, apesar de saber das lacunas e enigmas que persistem.
17. Mas no entanto as suas hipóteses de trabalho, sem as quais o projecto seria impossível, manifestadas nas nomeações escolhidas para as várias instâncias e etapas cerebrais, são, dum ponto de vista fenomenológico, inadequadas à excelência do trabalho descritivo, não tanto no detalhe (que o leitor leigo não sabe avaliar, em que confia) mas nas articulações teóricas. Ora, essa inadequação releva do preconceito filosófico de que foi questão no diálogo com T. A. É o sentimento agudo desse desfasamento – entre a audácia conseguida do neurólogo no laboratório e o ‘handicap’ (fenomenológico) da teoria que assombra a performance – que me move a escrita, que buscaria abrir um horizonte que possa porventura tornar mais fecunda ainda esta espantosa aventura em neurologia. Claro que não é o investigador notável que é António Damásio que está aqui em questão (antes pelo contrário, é a sua clareza de apresentação, que voltou à estaca zero da neurologia, começando tudo pelo princípio, que permite esta tentativa de desenhar o preconceito filosófico) mas toda a literatura biológica e neurológica que pude ler. Com efeito, uma parte importante da apreciação crítica a fazer-lhe reenvia para o capítulo anterior, ao diálogo com T. A., escrito aliás antes da leitura do Livro da Consciência, assim como parece óbvio que a bibliografia que cita o confirma neste preconceito filosófico herdado da filosofia greco-cristã-europeia, do que Heidegger chamou ontoteologia[15]. Será possível discutir sem diálogo de surdos, de forma a que seja frutífero para a neurobiologia? Não é seguro, já que quando investigadores em biologia como em linguística (o cartesianismo de Chomsky, por exemplo), história ou antropologia, e sem dúvida também em filosofia, andam já há muito em questões destas, vão-se sedimentando evidências antigas que jogam nas descobertas que se fazem, nos argumentos que se constroem. Mas como A. D. mostrou já que está atento a implicações filosóficas possíveis no domínio em que trabalha, Descartes e Spinoza aparecem em títulos dos seus livros, seria difícil encontrar um melhor neurólogo para este diálogo (além de falar português). Assim esteja eu à altura.
Nós, animais, somos seres no mundo
18. Esta afirmação central de fenomenologia biológica foi descrita a partir do § 7, fazendo-se a distinção entre dois sistemas, o da alimentação e o da mobilidade destinado antes de mais à caça e à fuga a ser caçado (§ 8). Creio que eles são relativamente autónomos um do outro, com dois órgãos apenas a pertencerem a ambos os sistemas: a boca e o cérebro. Aquela destacou-se da sua função essencial de preensão de animais ou plantas com os primatas, cujas mãos libertas se encarregaram da preensão (Leroi-Gourhain[16] ensinou como tal libertação na marcha bípede foi decisiva para o aumento da capacidade do crânio), mas com a aquisição da fala a boca voltou a ter um papel preponderante no sistema da mobilidade. Quanto ao cérebro, a sua dupla função em cada um dos dois sistemas – que não poderá ser ‘separada’, julgo – não só se manteve como conheceu desenvolvimentos muito grandes com as invenções de usos técnicos e das respectivas receitas faladas: dum ponto de vista biológico, haverá que sublinhar o que julgo ser a relativa estabilidade do sistema da alimentação dos humanos em contraste com as alterações do sistema da mobilidade, fortemente empenhada nos novos usos sociais. Estes, a linguagem incluída, são sem dúvida a grande manifestação do ser no mundo segundo Heidegger, o cuidado na habitação. E de tal maneira se tornou importante para os cérebros humanos, que as filosofias e as ciências privilegiaram a actividade intelectual, artística e espiritual: é desse privilégio que resulta o preconceito filosófico que na Neurologia tenderá a fazer do sistema neuronal humano um modelo laboratorial de que se procuram os antecedentes na evolução das espécies. Em A. D., é claramente afirmada a escolha do paradigma psicológico de William James, como Changeux, no Homem neuronal, privilegiava os filósofos empiristas do século XVIII. A. D. tem no entanto mais nítida percepção de que o cérebro pertence essencialmente ao sistema da alimentação, afirmando expressamente que a regulação da homeostasia do sangue é a grande função cerebral (p. 79-85)[17], embora o uso duma metafórica de gestão económica – “gestão vital”, “valor biológico” – assinale, à maneira dum sintoma, a ausência duma descrição da economia anatómica em termos da cena ecológica e da sua lei da selva. Esta noção ‘idealista’ de ‘valor’ contrasta com o grande rigor ‘materialista’ das suas descrições que seguem sempre a via anatómica, embora não contando com o ‘mundo’, com a cena ecológica, como factor de análise. É assim que o seu conceito mais forte parece ser o de ‘construção’, de que o actor principal  é o ‘cérebro’, que ‘constrói’ a mente, a consciência e o Eu (Self). Ora, a sua dupla pertença aos dois sistemas deveria levar a caracterizá-lo como um órgão simultaneamente biológico e social, o que diz a diferença maior desta proposta fenomenológica, a crítica do preconceito filosófico: o organismo é visto apenas nele, a cena ecológica (o mundo) não passa dum mero ‘ambiente’ sem incidência biológica significativa nessa ‘construção’.
Onde há neurónios, há mente
19. Para se entender a dupla função do cérebro enquanto regulador vital dum organismo no mundo da cena ecológica, há que começar por indagar da especificidade dos neurónios enquanto células: pelas suas muitas ‘sinapses’, eles agarram-se (aptô) uns com (sun) os outros em redes. O filósofo Derrida escreveu que “a auto-afectação é uma estrutura universal da experiência. Qualquer vivo é capaz de auto-afectação. E só um ser capaz de se auto-afectar, pode deixar-se afectar pelo outro em geral. [...] Esta possibilidade – outro nome da ‘vida’ – é uma estrutura geral articulada pela história da vida e dando lugar a operações complexas e hierarquizadas”[18]. Esta capacidade do ser vivo permite caracterizar os neurónios como as células que afectam e são afectadas umas pelas as outras, formando uma grande rede de auto-afectação, e também de hetero-afectação por outros vivos na cena ecológica, como presas possíveis, predadores de que se foge, eventuais aliados. As várias referências de A. D. aos “córtices sensoriais iniciais” (p. 377-8) e “primários” sublinham o carácter ‘inicial’ desta hetero-afectação, assim como o esquema da p. 381: “o neurónio NEU apercebe-se do objecto OB e informa o neurónio ZADIG, o qual impulsiona a fibra muscular MUSC e provoca o movimento” e segue pela evolução acima, num processo que ‘começa’ pelo encontro entre o neurónio e a cena ecológica (aonde se encontra o ‘objecto’, termo filosófico aqui tão feio).
20. O livro termina, no seu último apêndice, por evocar a questão da equivalência entre estados mentais e estados cerebrais (ou neuronais), que diz ser uma hipótese útil e não uma certeza, sendo “improvável que alguma vez venhamos a conhecer todos os fenómenos neuronais associados a um estado mental, mesmo sendo este simples”, desejando que venham a ser “encarados como as duas faces do mesmo processo” (p. 385, eu subl.). Eis o ponto em que o fenomenólogo gostaria de dar uma ajuda ao neurólogo: é que a sua demonstração convenceu-o do bem fundado da expressão sublinhada. É aonde se dá o braço a torcer. Nos textos referidos de 2007 (11.44-6) e 2009 (§§ 100-101), foi recusada a noção de ‘mente’ por razões de ordem filosófica: a diferença cérebro / mente seria (e é-o certamente em muitos textos) um resto da oposição corpo / alma. Propunha então substituí-la pela diferença entre os fenómenos cerebrais nos neurónios e os discursos e usos sociais correspondentes no mundo, os métodos de abordagem de uns e de outros sendo irredutíveis, relevando de ciências diferentes. A argumentação (2007, 6.3-11) fora conduzida sobre uma leitura de O sono e o sonho do neurólogo M. Jouvet[19], onde se contrasta claramente os sucessos neurológicos dizendo respeito aos mecanismos do sono e o insucesso flagrante relativo ao sonho (é preciso de cada vez acordar o paciente e indagar ‘subjectivamente’: estava a sonhar?), como testemunha o desalento das últimas páginas do livro. O sono ao neurólogo e suas aparelhagens, o sonho ao psicanalista que o recolhe do discurso do sonhador, carregado de ‘subjectividade’, como se diz. Aliás, as várias psicologias e linguísticas também estudam fenómenos cerebrais, quer discursivos quer comportamentais. Ora bem, a definição de mente de A. D. levou-me a compreender esta duma forma muito estimulante: “as imagens – visuais, auditivas ou quaisquer outras – encontram-se disponíveis directamente mas apenas para o dono da mente em que ocorrem. São privadas e inobserváveis por terceiros” (p. 97, o autor sublinhou). Os termos ‘imagem’ e ‘dono’ serão discutidos (§§ 22 e 24), mas vê-se claramente o que é designado como mente: a auto-afectação do ‘dono’ do cérebro pelas ocorrências electro-químicas dos seus padrões neuronais. Esta seria uma maneira de entender a mente como uma das ‘faces’ do cérebro: a auto-afectação numa zona onde só nós é que sabemos, onde a aparelhagem neurológica, que se ocupa da outra ‘face’, não pode chegar[20]. Esta diferença entre cérebro (circuito neuronal de sinapses) e mente ou consciência só do próprio (auto-afectação do circuito, sua introspecção) é o ponto de irredutibilidade entre as duas metodologias, da neurologia e das psicologias[21], digamos. Exemplo geral muito simples: o médico tem sempre que perguntar se ‘doi’, só o doente é que sabe (é ‘doer’ que dá a etimologia de ‘doente’!)
21. Só que a mente, sendo assim definida pela internalidade da rede neuronal, é correlativa de qualquer rede mínima, desde as primeiras espécies dispondo de neurónios; não é portanto ‘construída’ pelo cérebro: como A. D. diz, ela é uma “das duas faces do mesmo processo”. E a dizer verdade, mente e consciência parecem ser dois nomes para a mesma ‘face’ do processo, a face internal a que só o próprio tem acesso, já que a noção de auto-afectação também é correlativa de ‘consciência de si e de outrem’, embora em graus diversos. Enquanto que um cão manifesta a sua abanando a cauda para os donos e ladrando para os desconhecidos, o que é que pode ser a mente ou a consciência dum mosquito, o que sabe ele de si? Ele fareja o sangue do meu braço como apetecível para a sua auto-reprodução e vem pousar-se nele, mas a ameaça da minha mão o esmagar fá-lo partir rapidamente, contendo a pulsão da fome para salvar a vida. Saberes elementares, certamente, aqueles que lhe são necessários, de que os seus neurónios o auto-afectam. A descrição das diversas etapas da evolução deveria adjectivar mente e consciência, como se fez para o ‘eu’, recorrendo, por exemplo, às respectivas proezas no mundo, correlativas de ganhos anatómicos.
O cérebro é um órgão biológico e social
22. Haverá ‘imagens’ na mente? (§ 20). O termo tem o inconveniente (mas qualquer outro o terá) de fazer pensar que a mente ‘vê’ ou ‘ouve’ imagens tal como os olhos e os ouvidos, quando parece mais claro que se tratará da correlação entre ocorrências electro-químicas cerebrais: por exemplo, as dos córtices associativos e as da “actividade perto dos pontos onde os sinais sensoriais entram no córtex” (p. 191). Só se ‘veria’ com o cérebro mas nos olhos, na sua região próxima, como parece que é neles que se sonha. Só se ‘ouviria’ com o cérebro mas nos ouvidos. Ora bem, a diferença entre as ‘imagens’ a que estamos habituados e as que nunca antes tínhamos visto põe a questão decisiva da memória, correlativa do ser no mundo. A concepção dela como ‘armazém’ parece-me inadequada, assim como a de ‘mapa’ de imagens, que serve, parece, para corresponder à de padrão neuronal electro-químico, tal como observado nas novas maquinarias com ecrãs, aquilo a que a tradição chamava ‘fluxo nervoso’, que se acende e se apaga, sem estabilidade. Ora, J.-P. Changeux foi buscar à matemática o conceito de grafo, que inclui a noção de gravação, de escrita que perdura, e que seria uma solução extremamente elegante da questão da memória. Esta é uma estabilidade apagada, que está lá mas esquecida, vem (sou-venir, diz-se em francês) por ‘associação de ideias’ com as do fluxo nervoso, e apenas por pequenos pacotes de ‘recordações’. Como correlacionar estes dois motivos, grafo e fluxo? Pela metáfora duma senda aberta numa floresta, um caminho que se abre dificilmente mas se reforça à medida que é pisado: também assim seriam os grafos derivados da aprendizagem, fluxos estabilizando lentamente sinapses na floresta neuronal que serão seguidas depois por novos fluxos que são assim reconhecidos. De facto, é fácil ter a experiência de que só se conhece o que se reconhece: ao chegar a uma cidade asiática fica-se perdido, assim como o não-melómano que se habituou a ouvir algumas poucas músicas clássicas, consegue apreciá-las, enquanto que se distrai irremediavelmente a ouvir peças desconhecidas. Não há ‘primeira vez’ nestas coisas, a memória não é um acrescento, tal como a mente, ela é parte integrante da estrutura do neuronal no mundo: qualquer pequeno núcleo de neurónios, como o do mosquito, só tem eficácia para a auto-reprodução do organismo se for capaz de ‘reagir’ ao mundo. A aprendizagem só tendo sentido por criar memória, ele terá que ter grafos de aprendizagem, embora seja muito difícil saber como, mas que não podem ser inatos, como outros o são (“as vastas redes de disposições que operam os nossos mecanismos básicos de gestão vital”, p. 173). Ora, na página 172 o autor tinha dado um exemplo de impacto impreciso (não ‘mapas’, na sua terminologia) de algo que implica em todo o caso aprendizagem de movimentos. Pode-se pôr a questão de saber se as “disposições não conscientes” (não teriam ‘mente’?) que foram “educadas” (p. 332) não terão sido ‘conscientes’ durante a sua aprendizagem e esquecidas depois, recobertos os seus grafos em seguida por outros mais fortes (por regra, esquecemos os primeiros anos da nossa infância, mas há quem consiga retomar recordações muito antigas). Isso iria aliás ao encontro de Freud, em que a ‘força’ (do interdito do incesto) implica recalcamento.
23. Este motivo da diferença entre grafo e fluxo permite elucidar fenomenologicamente uma outra questão decisiva, a da formação do Eu que A. D. supõe ‘criado’ pelo cérebro. Começo com um exemplo simples: o sotaque duma voz transmontana implica que ela foi aprendida da sua tribo, é social, mas os seus próximos reconhecem-na ao telefone como a voz de Fulano (‘sou eu’), como individual. A voz tem componentes sociais e individuais indissociáveis, foi recebida (passiva) e é pessoal (activa). O mesmo se passa com qualquer aprendizagem: aprender é sempre aprender (passivo) a fazer (activo), e o que aprendemos são os usos sociais da nossa tribo, num primeiro tempo eles são-nos estranhos, vindos de fora, grafados ganham habilidade, tornam-se espon­tâneos, do próprio, segundo o esquema admirável dum mecanismo de simulação com poupança de energia e que pode ser reactivado em caso de emergência que Damásio apresentou em O erro de Descartes[22]. São estes usos que fazem o Eu, mas não ‘no’ ou ‘com’ o cérebro, formulações que deixariam este ‘passivo’ em sua rede neuronal: o cérebro grafado pelos usos do mundo é o Eu. Seja um exemplo com os números. Os nomes destes, além dos 10 primeiros, ‘um’, ‘dois’, ‘dez’, ‘cem’, ‘mil’ e vários sufixos (-ze, -enta, -entos), são compostos a partir uns dos outros: 37 supõe 3x10+7. Se todos os números tivessem um nome próprio como têm ‘um’, ‘dois’, ‘três’, ‘dez’ (por exemplo, os da tabela periódica: ‘sódio’ em vez de 11, ‘cálcio’ em vez de 20, ‘ferro’ em vez de 25, ‘cobre’ em vez de 29, etc.), era impossível fazer contas com eles. O que significa que, ao aprendermos a fazer contas, a lógica social deles ‘pensa’ no nosso ‘pensar’, o que veio de fora pensa no nosso dentro (Belo, 2007, 11.34-5). Com as línguas e suas regras estritas (fonológicas, sintácticas, semânticas, textuais) passa-se o mesmo em mais complicado: estas regras de ‘comunicação’, como se diz, são necessárias para que os outros nos entendam, mas estão prodigiosamente ao serviço do aleatório de qualquer conversa ou escrita (como um automóvel e um organismo animal, § 5). O cérebro é o órgão biológico e social de seres no mundo, deste todo a que chamamos Eu justamente para o destacar do mundo (coisa de que japoneses e chineses, cujas línguas ignoravam o pronome, não pareciam sentir a falta). Mas os usos e a língua deste mundo tribal inscrevem-se, grafam-se nos neurónios, o que faz com que a consciência que estes têm de si é de mundo que é feita, tribais que somos: o nosso mundo no coração do nosso Eu.
A questão do filósofo: o que é o humano?
24. Quanto ao termo ‘dono’ (§ 20), a questão complica-se com a multiplicação de instâncias: o cérebro, a mente, a consciência, a memória, o eu, o organismo, o corpo. Eu diria em vez de ‘dono’: o animal no seu mundo. Como pensá-lo sem homúnculo, sem mente oposta a cérebro[23]? Há que ter em conta que a rede neuronal que os neurólogos nos revelam é composta de células, de material bioquímico por onde passam correntes de electricidade iónica[24]. É deste material que é feita a nossa subjectividade, desde os órgãos de percepção aos nervos dos músculos do movimento. Seja o exemplo das nossas palavras que se transformam em electricidade por meio de um telefone e voltam a palavras sonoras por outro telefone. Ou o que escrevo num teclado, vira electricidade, sofre transformações segundo o programa de software e o operador e volta ao ecrã do computador. A corrente eléctrica é o mesmo do que as palavras mas num outro suporte, estas aliás inacessíveis sem os ‘transformadores’, telefone, teclado e ecrã. Ora, no que diz respeito ao nosso cérebro, os transformadores para os outros são os ouvidos e a fonação, os quais para cada um de nós não são necessários: sabemos o que pensamos nas nossas mentes ao mesmo tempo em que o pensamos, pensar é ser-se auto-afectado pelo que se pensa (grande liberdade nossa, já que, sendo ‘mente’, podemos mentir aos outros, só nós é que sabemos), tal e qual como se é auto-afectado pelo que se diz a outrem. Ora, a noção de hetero-afectação nos olhos, ouvidos, pele, etc., que se torna auto-afectação (vemos e ouvimos o outro que nos fala), implica que a relação entre ambas não se perca quando ‘pensamos’ mentalmente no que vimos, ouvimos, sentimos na pele (é nestes órgãos sensoriais que há ‘imagens’, sons, sensações, segundo a minha interpretação da p. 191 de A. D., como há aliás também palavras abstractas, frases lidas ou ouvidas, o ouvir-se dizer, o saber-se a fazer). É a condição necessária para que os ‘conteúdos’ da consciência, as ‘imagens’ de A. D., a outra face da electro-química, sejam pensamento do mundo, a partir do que se aprendeu, é esta a condição para se evitar o dualismo mente / mundo, desiderato essencial da fenomenologia desde Husserl, para se ter consciência das próprias coisas (e não de ‘representações’, como se diz habitualmente). Resumindo e concluindo, o neuronal é o ‘cabo químico eléctrico’ entre órgãos periféricos e órgãos de mobilidade com actividade variada segundo os usos sociais, cabo-rede bem mais complexo do que o hardware dos computadores, já que é software que se grafa para se tornar parte do hardware.
25. O que há de deslumbrante na descrição de A. D., é permitir perceber algo do funcionamento extremamente complexo desta subjectividade neuronal no mundo e da sua reserva mental, inacessível a estranhos, ainda que amantes. Sem dúvida que o filósofo fica despojado de parte da sua capacidade de falar disto, já que não é neurólogo, mas eu encontrei aqui uma nova e fascinante resposta a uma das mais velhas questões da filosofia: quem somos nós? Bem haja, Damásio!
Conclusão fenomenológica: compreensão e linguagem relevam de evoluções diferentes
26. A boca é o grande órgão de preensão[25] de presas, como é claramente visível nos peixes e nos répteis, nos seus ataques sobre elas. Muitas espécies são capazes de estratégias que implicam reter a fome para esperar e só atacar no momento propício: digamos que são capazes de com-preensão, de juntar (com-) gestos e momentos em vista da actividade de -preensão. Mas todos são lançados para as suas presas por pulsões hormonais, afectados pelo seu mundo (também pelo medo de serem caçados, busca de parceiros, etc.). Eis o que nos permite alçarmo-nos ao Ser e Tempo de Heidegger que caracteriza os humanos como seres no mundo por uma tripla dimensão existenciária: 1) o estar situado, projectado no mundo (Befindlichkeit), 2) a compreensão e 3) o discurso que interpreta 1) e 2). Se dissermos que 1) corresponde à hetero-afectação emocional, percebe-se que ela e a compreensão, manifestada esta no saber-fazer dos usos tribais, representam nos humanos a herança filogenética de mamíferos primatas, a que corresponderá um grande eixo cerebral[26] ligando os periféricos órgãos de visão às igualmente periféricas mãos, libertadas da marcha para manipularem. Quanto ao discurso, ele herda de outra linha filogenética, linguística esta, independente da primeira (Vygotsky) [27] já que variável com os povos: ela grafa-se por regra no hemisfério esquerdo apenas (áreas de Broca e Wernicke), correspondendo ao eixo cerebral que liga os ouvidos à fonação. Ou seja, o cérebro dos mamíferos (e portanto o dos humanos) não foi inventado para pensar[28], mas para com-preender certas actividades de caça e de defesa, sós ou colectivamente. Mas se nos bebés (área de investigação do psicólogo Vygotsky) estes dois eixos começam a estruturar-se no cérebro com autonomia relativa (ver e mexer antes de falar), em breve a preponderância da linguagem no aprender dos usos faz o verbal predominar na compreensão, o que não deixa de dificultar as análises neurológicas, já que chamamos ‘pensar’ ao conjunto de (2) e (3), compreensão discursiva, a que O erro de Descartes já acrescentara a emoção (1) [29].
27. Como joga este ganhar de preponderância? Com a língua, recebemos as palavras e os saberes dos outros, recebemos esta possibilidade inaudita de tornar ‘presentes’ coisas que estão fora da vista, de contar histórias do passado ou projectar actividades para o futuro. Ora, à medida que o Eu vai falando, vai encontrando nessa memória recebida do seu mundo um verdadeiro repositório de saber socialmente acumulado que lhe alçará a inteligência duma forma muito mais acelerada do que se o seu cérebro tivesse que descobrir tudo sozinho, tivesse que construir sozinho o Eu.
28. O título inglês do livro, Self comes to mind, prefere ‘mente’ onde o título português prefere ‘consciência’. Se os dois termos designam o mesmo, pode ser preferível guardar ‘consciência’ em vez de ‘mente’. Este termo é facilmente oponível a cérebro como alma a corpo, dualismo a que obviamente A. D. procura escapar, e creio que consegue, a ‘mente’ presta-se a ser ‘outra coisa’ além do cérebro. Enquanto que o outro termo, que conota hoje a consciência de si, o saber (scire) con-sigo[30], diz o ‘verbo’ dos neurónios, a função deles, o seu saber a respeito de si e (sobretudo) do mundo, tal como quando se diz ‘vejo esta casa’, ‘ouço esta canção’, ‘sinto a tua mão’, tudo formas de saber. ‘Consciência’ diz portanto tanto a passividade do ‘eu’ face ao mundo como a actividade do ‘eu’ que sabe, e diz ainda o que, de si e do mundo, só ele sabe; o ‘con-’ dirá a indissociabilidade do passivo e do activo neste ‘saber’. Derrida, num livro em que lê Husserl, diz que “a voz é a consciência” (1967b, p. 89), que esta é o ser-se auto-afectado pela sua voz, e mais adiante que “o ouvir-se falar [ou seja a consciência] não é a interioridade dum dentro fechado sobre si, é a abertura irredutível [do fora] no dentro, o olho e o mundo na palavra (parole[31])” (idem, p. 96).
29. O que permite uma última consideração sobre o ‘sujeito do pensamento’ : entre cérebro, mente, consciência e eu, quem pensa? Ninguém diz ‘o meu cérebro pensa que...’, dizemos ‘eu penso que...’, ou ‘Fulano pensa que...’. Quando usamos o plural, dizendo ‘pensamos que...’, referimo-nos a um grupo, um ‘nós’ em redor do ‘eu’ que fala. Mas como o pensamento ou a fala são sempre, em certo sentido, uma maneira de tomar distância em relação aos outros, o ‘nós’ raramente dirá a verdade da aprendizagem, a saber, que os outros, pois que deles aprendemos, ‘pensam’ também no que ‘eu penso’. Haveria nesta omissão um outro “erro de Descartes”, mais do que ‘penso, logo existo’ – fórmula certa enquanto consciência do pensante enquanto tal, em sua mente a que só ele tem acesso (como estou feliz por essa afirmação repetida de Damásio) –, haveria porventura que dizer qualquer coisa como ‘penso, logo sou da minha tribo que me deu o pensar’. Seria essa a afirmação da criança que começa a aprender a falar, mas é justamente esta afirmação que se torna ‘inconsciente’, recoberta pelas aprendizagens posteriores, em que o ‘Eu’ será por vezes levado a uma certa rebeldia contra a lei da sua tribo (como Freud nos ensinou). Foi assim a rebeldia de Descartes, ela espelha o forte acento individualista da civilização europeia (ignorado das grandes civilizações asiáticas), cunhado pela alma que o cristianismo herdou de Platão. É desta rebeldia que Damásio, honra lhe seja, fez a teoria neuronal, desta ‘verdade de Descartes’ que Heidegger questionou. Indivíduo e sociedade não se opõem, Descartes e Heidegger são heranças a acolher em conjunto.


[1] Carta de 1610 in GALILÉE, G., Dialogues, Lettres choisies, trad., choix et préface de P.-H. Mi­chel, Paris, Hermann, 1966, p. 360.
[2] VUILLEMIN, Jules, Physique et métaphysique kantiennes, P.U.F., 1955
[3] BELO, Fernando, Le Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida (2 volumes), 2007 (com índice pormenorizado das matérias) e La Philosophie avec Sciences au XXème siècle, 2009, ambos Paris, L’Harmattan. ZAGALO PEREIRA, Gonçalo, “Recensão” [do segundo título indicado], Revista Filosófica de Coimbra, Coimbra, 2010, nº 38, pp. 506-13.  O critério para decidir quais essas grandes descobertas é inerente ao projecto (www.filosofiamaisciencias.blogspot.com).
[4] AVELAR, Teresa, A evolução culmina no homem?, Lisboa, Bertrand, 2010
[5] DAMÁSIO, António, O livro da consciência, Paris, Círculo de Leitores, 2010
[6] DELEUZE, Gilles, Le rhizome, Paris, Minuit, 1975
[7] A chamada Idade Média representa uma regressão em relação às grandes civilizações da Antiguidade mediterrânica, cujos progressos a se­quência moderna europeia não repetiu.
[8] Precise-se que aleatório é diferente de acaso: que eu tenha que me desviar dum carro surgido repentinamente à minha esquerda, é aleatório, faz parte do possível na circulação automóvel; que o condutor desse carro seja um colega de liceu que nunca mais tinha visto é um acaso que não tem nada a ver com a lei do tráfego
[9] Por razões de espaço, fui obrigado a excluir uma parte da argumentação deste capítulo aduzida no Congresso.
[10] HEIDEGGER, Martin, Être et Temps, [1927], trad. E. Martineau, ed. hors-commerce, 1985
[11] VARELA, Francisco, Autonomie et connaissance, Essai sur le vi­vant, Paris, Seuil, 1989
[12] Eis uma citação dele que me pôs os cabelos em pé: “a reprodução e a evolução, assim como todos os fenómenos que decorrem delas, aparecem como fenómenos segundos, subordinados à existência e ao funcionamento autopoiético destes sistemas” (Varela, op. cit. p. 71).
[13] CHANGEUX, Jean-Pierre, L'homme neuronal, Paris, Fayard, 1983
[14] DAMÁSIO, António, L'erreur de Descartes, La raison des émotions, Paris, Odile Jacob, 1995

[15] Para filósofos : esta resulta da invenção da definição por Sócrates que implica que o definido seja arrancado ao seu contexto, como disse atrás ; Platão elevou o eidos, a forma visada desse definido, a entidades celestes e eternas, Formas ideais, que o cristianismo substituiu pela relação entre o Deus (teo) criador eterno e cada ente (onto) do mundo. A crítica de Aristóteles ao platonismo manteve a abstracção, o definido arrancado ao contexto, o seu conceito de essência sendo aliás platonizado no pensamento medieval. Ao Criador cada criatura, como ao sujeito o seu objecto: o que constitui a criatura ou o objecto não é tido em conta. Não basta substituir Deus pelo sujeito humano (antropocentrismo), se o ‘preconceito’ perdurar nas ciências que estudam os seus fenómenos no laboratório, isto é, objecto fora do contexto, da cena ecológica, e não têm esta em conta ao restituí-lo à cena.
[16] LEROY-GOURHAN, André, O Gesto e a Palavra. 1 - Técnica e linguagem, Lisboa, ed. 70, [1964]
[17] A grande demonstração desta tese encontrei-a no admirável VINCENT, Jean-Didier, Biologie des passions, Paris, Odile Jacob, 1986.
[18] DERRIDA, Jacques, De la Grammatologie, Paris, Minuit, 1967, p. 236. Em rigor, isto só parece valer para os animais, não para as plantas.
[19] JOUVET, Michel, Le sommeil et le rêve, Paris, Odile Jacob, 1992
[20] Changeux, por quem tenho grande veneração, escandalizou-me ao responder ‘sim’ à pergunta de Ana Gerschenfeld, se ‘vai ser possível um dia ler o pensamento’ (Público de 13/07/2010). Donde também o meu grande contentamento com esta noção de ‘mente’ de A. D.
[21] BELO, Fernando, « A irredubilidade metodológica entre Neurologia e Psicanálise », Phainomenon, Revista de Fenomenologia, Lisboa, 2008, nº 16-17, pp. 211-220
[22] P. 202 da ed. francesa; Belo, 2007, 11.41.
[23] The self and its brain é o título dum livro inenarrável dum prémio Nobel da medicina, secundado por um filósofo célebre, cuja filosofia se mostrou incapaz de acudir ao descalabro. ECCLES, John e POPPER, Karl, El Yo y su cérebro, Barcelona, Labor, 1980
[24] Que permite jogar com a química, iões de sódio e potássio nomeadamente, ao contrário da nossa electricidade industrial, de electrões, que não afectam quimicamente o cobre ou a fibra óptica.
[25] Do latim: acto de agarrar, prender.
[26] Detectável em ecrãs de neurologia?
[27] VYGOTSKY, Lev, Pensamento e linguagem, [1934], São Paulo, Martins Fontes, 1999
[28] Como parece ser o pressuposto do próprio nome que a si se deram as ‘ciências cognitivas’, que se articulam em torno da chamada ‘representação’ e da respectiva oposição objecto (representado no) sujeito (é essa oposição que o ‘ser no mundo’ desfaz). Infelizmente, Heidegger é de muito difícil acesso, mesmo aos filósofos, e tem fama de ser ‘contra’ as ciências (ver o meu Heidegger, pensador da Terra, § 89). A sua afirmação de que a ciência não pensa, que escandalizou com razão os cientistas, significa que o método experimental, medindo o espaço e o tempo, não permite pensar o que eles são, pensar à maneira da filosofia. Mas pode-se dizer que, para formularem as suas ‘teorias’, os cientistas pensam como filósofos.
[29] Não convirá opor ‘dois cérebros’, o antigo como ‘emocional’ e o neo-cortex como cognitivo, trata-se dum duplo cérebro; já Changeux (p. 72, 75) chamava a atenção para que os circuitos do neo-cortex, quando vêm dos órgãos periféricos da sensibilidade, passam pelo antigo antes de virem às áreas comuns, aonde as reflexões e as decisões se operam. Talvez houvesse que distinguir o químico (hormonal e neurotransmissor) e o eléctrico (fluxo), aquele do lado do ‘emocional’ e este do ‘racional’, mas sendo o trabalho deste sobre aquele que faria os grafos (a memória será de ordem química, parece óbvio). Se no cérebro antigo também há ‘electricidade iónica’, ele não pode ser só emocional, embora o seja preponderantemente (peixes e répteis quase só têm o antigo, o paleo-córtex, portanto este tem que ter inscrições do ‘mundo’ deles, senão seria inútil). A aprendizagem humana, aquilo que do social se inscreve no cerebral, tem que disciplinar o químico, inibir o emocional (Belo, 2007, 3. 15-17).
[30] Embora no latim dissesse o saber partilhado com outro, próximo, cúmplice.
[31] Fala, seja voz, seja discurso.

A irredutibilidade metodológica entre neurologia e psicanálise


A irredutibilidade metodológica entre neurologia e psicanálise[1]



1. Não falarei aqui explicitamente de Fenomenologia, mas a análise proposta, extracto simplificado da primeira parte do capítulo 6, sobre a psicanálise, do meu livro Le Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida, 2007, L’Harmattan, pertence a uma tentativa de reformulação do discurso fenomenológico que tem em conta, além de Husserl, os seus dissidentes nomeados no título, bem como a dimensão filosófica das principais ciências europeias do século XX, recuperada pelo levantamento da sua suspensão kantiana.

A questão
2. Queria ocupar-me aqui do ‘fenómeno’ do cérebro, como dizer? mais do que ‘objecto’ da ciência, do que ele objecta à ciência que se ocupa dele. Há duas ciências, por assim dizer: uma região da biologia chamada neurologia e entre as chamadas psicologias, a única que conheço um pouco, a psicanálise. Para tratar desta questão não é preciso ser neurologista, psicanalista nem psiquiatra. Creio que é necessário e suficiente ser-se capaz de precisar os domínios ou áreas de que se ocupam quer a Neurologia quer a Psicanálise, quais são os respectivos laboratórios e métodos. Tentar responder brevemente a estas duas questões permitirá entender porque é que há, tão manifestamente, irredutibilidade entre as duas disciplinas.
3. Comecemos pela Neurologia. Sendo uma especialidade adentro da Biologia, tem antes de mais que ter em conta o conjunto do domínio desta, que é o que lhe prescreve as funções do sistema neuronal e quero crer que aí começam os problemas de delimitação da área da Neurologia, dada a importância que justamente nela têm a priori, nas razões mesmas pelas quais se escolhe trabalhar nela, as questões de psicologia humana. Resumirei o argumento. Como se sabe, todas as células dum organismo têm o mesmo programa genético, mas uma boa parte dele está recoberto em cada célula especializada, só activas a parte que tem a ver com a síntese das moléculas específicas da própria célula. O que já basta para perceber que o alcance da actividade desses genes se limita à membrana da célula, o nível de funções superiores relevando dos diferentes órgãos e seus tecidos especializados. No que diz respeito a um mamífero, esses órgãos conhecem dois sistemas mais um: o sistema que alimenta o metabolismo de todas as células e que fornece ao sangue nutrientes e oxigénio, por um lado, e por outro o sistema que, além do esqueleto que sustenta o conjunto, permite buscar esse alimento e fugir de ser alimento de carnívoros, isto é, órgãos de percepção, cérebro e nervos, músculos da mobilidade. Estes dois sistemas asseguram a reprodução do organismo, o ‘mais um’, o da sexualidade, releva da reprodução da espécie.
4. Primeira conclusão a tirar em relação à Neurologia: sendo o sistema neuronal humano fruto da evolução dos vertebrados, ele é constituído na sua estrutura essencial para essas duas funções, de caça e fuga a ser caçado, que são próprias da animalidade, as funções de inteligência, consciência e deliberação, que tanto prezamos, são primariamente a entender como as necessárias às estratégias para essas duas funções. Enquanto que as características humanas da linguagem duplamente articulada e dos usos sociais, que variam com as tradições dos povos e são aprendidas por cada indivíduo que nasce, relevam de outra linhagem evolutiva, como mostrou Vygostky, e vêm enxertar-se na estrutura, em seus três sistemas, herdada da evolução biológica. Ora bem, este motivo de duas linhagens, uma relevando da alimentação biológica e a outra da habitação social, rege em princípio a partilha entre as duas disciplinas.

A neurologia, ciência do cérebro que não do discurso nem do sonho
5. Venhamos então à Neurologia: a primeira questão a pôr, me parece, a mim que sou leigo, é a da função dos neurónios enquanto células especializadas, diferentes das duas centenas de outras células dos tecidos dos vertebrados. O que os diferencia claramente das outras células é o facto de constituírem uma rede entre si, cada um se ligando a outros por uns milhares de sinapsis: essa rede faz com que sejam afectados uns pelos outros, e também pelo exterior a partir dos órgãos de percepção, graças aos nervos tipo óptico, acústico, etc. É nesta rede que o animal sabe de si e do seu envolvimento - ‘saber’, ‘scire’ em latim, ‘con’ sigo -, os neurónios são as células da consciência. Sujeitos à acção química, de tipo hormonal, dos neurotransmissores, dando passagem, ou impedindo-os, a influxos de electricidade iónica (que lhe permite jogar com a química).
6. A comunicação entre dois falantes, no esquema corrente, dá-se a dois níveis fenomenológicos, este cerebral ou neuronal, jogando em electricidade e química, e o da voz, jogando por ondas acústicas do ar. O problema está em ser a voz, para os outros, a maneira de ter acesso ao neuronal, ser a sua ‘ex-pressão’ (pressão do ar vinda para fora), com um risco duplo, o de engano e o de dissimulação ‘expressa’. O grande progresso da Neurologia, desde a descoberta dos neurónios nos finais do século XIX, adveio das invenções de instrumentos, de ordem química e eléctrica sobretudo, dando acesso cada vez mais detalhado à rede neuronal. E aqui supõe o leigo que está a dificuldade insuperável dos neurologistas: com excepção das lesões ou amputações, como conciliar o que analisam dos neurónios com o que estes ‘sabem’ de si e do envolvimento, como testar a correlação de tal zona neuronal com ‘comportamentos’. O problema também se encontra noutras especialidades da Medicina, quando o médico tem que perguntar: ‘onde lhe dói?’ Quando o neurologista recorre ao discurso do sujeito para esclarecer as observações feitas com a sua aparelhagem (excepto ablação e lesões, com os respectivos efeitos), qual é a fiabilidade do discurso, que pode obviamente enganar-se sobre si, simplificar-se, enganar o neurologista conscientemente ou não, etc.
7. A leitura do livro de M. Jouvet de 1992, Le sommeil et le rêve, Odile Jacob, traduzido em português, é muito elucidativa, já que esclarece bastante do sono e nada do sonho, como o próprio autor conclui num desabafo no final duma vida de investigação. Enquanto que a sua geração de especialistas compreendeu bem as duas fases alternativas do sono, uma hora e meia de sono de ondas cerebrais lentas e uma vintena de minutos de sono paradoxal, com ondas agitadas, sem ter necessidade da colaboração activa dos que dormiam, a tentativa de estabelecer uma correlação ‘científica’ entre as ondas cerebrais agitadas e o sonho, implicava acordar a pessoa e aceitar o seu testemunho ‘subjectivo’ de que estava ou não a sonhar. Jouvet di-lo claramente: “o sonho constitui um fenómeno subjectivo cuja realidade só pode ser apreendida pela recordação que se guarda dele após ter acordado; ora, o sonho aparece ao mesmo tempo que um conjunto de actividades fisiológicas específicas que se designam habitualmente pelo termo de ‘sono paradoxal’” (p. 80, subl. meu). Ora bem: que conteúdo dar ao termo ‘subjectivo’? À confissão de que ele não pode ser apreendido pela instrumentação neurológica, que capta os fenómenos químicos e eléctricos neuronais, e ao facto de não ser localizada no organismo, como as dores, podemos acrescentar que a recordação acordada é dada nas ondas acústicas do ar, na voz, e que o relato dele é inevitavelmente afectado, não só por esse carácter de ‘recordado’, como pelo seu desfasamento em relação ao tempo do sonho. Noutro passo (p. 68), recomenda que se tome nota dessa recordação o mais rapidamente possível após o acordar, para impedir a deformação dessa recordação. Voltaremos a esta questão a propósito da psicanálise.
8. Ainda que seja muito provável que os fenómenos fisiológicos neuronais sejam ‘onticamente’ o mesmo que os fenómenos ditos ‘psíquicos’, isto é que o sono paradoxal seja um sonho, já que é próprio dos neurónios a auto afectação, e ainda que os animais também sonhem, como experiências com a ablação em gatos do locus cæruleus a, a conclusão a tirar é que os sonhos, ao contrário do sono, não fazem parte do domínio da Neurologia, já que não são susceptíveis de serem captados metodologicamente pelo seu arsenal próprio. Basta ler o capítulo sobre os sonhos que Jouvet registou e o que sabe dizer deles, para se perceber que, não só é duma magreza confrangedora comparado com a interpretação psicanalítica, como não há nada de ‘neurológico’ nessa interpretação. O que não é de admirar, se fizermos uma comparação: sendo o pensamento e a fala fenómenos de índole cerebral tanto quanto o sonho, alguma vez algum neurologista pensou que poderia analisar as línguas humanas, as suas regras sintácticas ou fonéticas, com os seus métodos científicos? Ao ver-se as ondas dum electroencéfalograma de alguém calado, pode-se saber em que língua é que ele está a pensar?

Uma semiótica experimental do discurso neurótico na sua relação à sexualidade
9. O campo fica livre, assim espero que aceitem, para tentar caracterizar a cientificidade da psicanálise, a metodologia da sua análise, através da sua abordagem dos sonhos, que o livro de 1900, Traumdeutung, inaugurava de forma exemplar. Se permitirem a um profano caracterizar as ciências médicas, à diferença das biologias, como a) um saber teórico e experimental de tipo biológico, químico e físico, b) que se exerce numa relação terapêutica, isto é dual, de singular a singular, c) a pedido do paciente que se queixa de certos sintomas, d) essa relação devendo durar todo o tempo do tratamento até à cura, até que os sintomas desapareçam, é fácil ao tal profano concluir que apenas no ponto a) a psicanálise se distingue das outras especialidades, ou seja no ponto das metodologias, de cuja irredutibilidade estamos a tratar. Se compararmos as pretensões do médico Freud, no Esboço duma psicologia científica de 1895, com a Interpretação dos sonhos de cinco anos mais tarde, parece óbvio o abandono das preocupações de tipo neurológico (próprias da época, claro, Ramon y Cajal descobrira os neurónios, 5 anos antes) - de busca de localização anatómica cerebral ou de fisiologia dos neurónios - das instâncias de que se vai ocupar : esse abandono manifesta que ele teve em conta esta irredutibilidade metodológica como condição da instalação do paradigma psicanalítico. É claro que há um outro ponto de discussão, mas desse o profano não sabe dizer : há curas, os sintomas desaparecem ? Quem pode sobre isso ter uma palavra segura ? A dos pacientes não será suficiente, porque testemunha só do seu caso, a dos não praticantes enferma de ser exterior ao paradigma : em bom rigor kuhniano, apenas os próprios praticantes terão conhecimento suficiente, teórico e prático, para de tal poderem discutir entre si. 
10. Mas esse abandono da orientação de tipo neurológico não implica uma ruptura total com o saber de tipo biológico, em que as questões energéticas têm lugar primordial. A grande descoberta de Freud – que creio continuar a ser, um século mais tarde, a razão de ser da prática psicanalítica, e só dela – foi, citando Ricœur, « o acesso à energética apenas pela via da interpretação », ou ainda « o carácter híbrido da psicanálise »[2], foi a da relação intrínseca do discurso dos humanos com a sexualidade. É justamente o que, se há curas, permite colocar o estatuto da psicanálise entre as ciências médicas : o duma semiótica experimental do discurso neurótico em relação à energia sexual humana no seu laço à lei social. Semiótica paradoxal, em comparação com as dos contos populares ou doutras narrativas, ou com as semióticas poéticas : sendo uma ciência da linguagem, não se ocupa todavia das estruturas linguísticas, mas apenas dos sintomas neuróticos que justamente só se encontram no contexto da interpretação duma relação dual terapêutica, na explicitação da memória latente do paciente (dos seus sonhos manifestos, por exemplo) através da sua livre associação de ideias, em direcção aos pressupostos mais profundos do seu percurso histórico singular. Semiótica paradoxal ainda, porque fazendo-se, não sobre um discurso já dito ou escrito, como as outras, mas sobre o discurso ‘enquanto se faz’ na longa duração da terapia, mas também que muda pelo efeito dessa mesma terapia, que visa essa mudança, o desaparecimento dos sintomas e do sofrimento. Trata-se portanto duma semiótica experimental, a chamada experiência analítica, que em princípio a cura deve poder testar : « a libertação dum ser humano, escreveu Freud, dos seus sintomas neuróticos, inibições e anomalias caracteriais »[3]. Este carácter experimental é de tal maneira primordial que nada no discurso psicanalítico tem valor científico fora desta relação dual terapêutica, o que não deverá ter equivalente nas outras ciências médicas e seus métodos laboratoriais.

As resistências como índice de ‘real’
11. Uma das objecções possíveis à cientificidade (à objectividade, como se diz) desta semiótica tem a ver com o facto de ela se exercer sobre as associações livres do paciente, portanto sobre a sua subjectividade mais acentuada. Com efeito, dizem-se aí muitos disparates, coisas incongruentes, sem sentido. Ora, em vez de se ofuscar, o terapeuta encoraja-o : « diga tudo o que lhe vier à cabeça, mesmo que lhe pareça idiota, chocante, indecente, sem relação com o que quer que seja ; não me dissimule nada ». Encoraja-o pois a evitar a vigilância da consciência (razão, ética, conveniências) nesse desfile de ideias libertadas. Se há assim suspensão dum certo aspecto do subjectivo do paciente, trata-se no entanto do que ele tem de ‘social’, de ‘comum’ com os outros : a associação de ideias será ainda mais ‘subjectiva’, singular. Mas mais automática também, quase mecânica, como um rio fora das barragens, melhor entregue às leis hidráulicas do movimento dos fluidos que se possam jogar no próprio desfile. Cheio de figuras, deslizes, choques inesperados, eis no entanto que o terapeuta vê surgirem correlações que se repetem aqui e ali, que desenham contornos, configurações, nesse magma de ideias ; e essas repetições revelam-se com frequência no bordo de certas paragens do discurso, de resistências a dizer que se manifestam por esquecimentos, lapsos ou outros actos falhados, intervenções súbitas da consciência vigilante que se auto-censura, silêncios, desmentidos, risos, choros, negações, etc. Isto é, sintomas energéticos (diferenças de sentido e diferenças de força indissociavelmente) que estabelecem uma clivagem, uma margem, um limite que não se pode passar, uma fronteira fractural, digamos, entre o que se diz e o que não chega ao dizer. Além dessa fronteira encontram-se os nós discursivos escondidos que manifestavam os sintomas neuróticos que levaram a pedir a terapia. Esta, o fim da interpretação, consistirá neste lento avançar do jogo livre das associações em ordem a que esses nós cheguem à relação explícita possível com o discurso corrente do paciente. Dialógica e experimental, esta semiótica dum discurso no seu fazer-se deverá servir à interpretação do analista mas também à cura.
12. Ora, é nestas repetições e resistências diversas que a sexualidade se manifesta como sexualidade censurada, interdita, tingida muitas vezes de agressividade, sexualidade incestuosa e de ciúmes correlativos : isto é, ela manifesta-se como ligada à lei social. Censurada, não apenas em relação ao analista, mas antes de mais e sobretudo em relação à consciência vigilante do sujeito, que se ofusca com aquelas revelações e não quer crer nelas. Digamos que é justamente a ‘subjectividade’ livre do sujeito que é contrariada por esses sintomas falando e trabalhando nele a partir de alhures. Algo mexe e resiste, permanecendo ‘autónomo’ da consciência, algo de real ; esse algo que se joga nele, ele não o reconhece como seu, como por vezes nos sucede com a experiência de estranheza de certos sonhos : como é que eu pude sonhar isto ? Que o paciente resista primeiro, seja surpreendido por esse íntimo de si muito estrangeiro a si, que ele se alivie no fim dos seus sintomas neuróticos, que as suas dores desapareçam por este trabalho-palavra dum real estranho vindo dele, que não se dá senão ao trabalho de interpretação do analista sem que o paciente saiba como é que aquilo chegou a um certo fim, eis o que torna plausível um estatuto de ciência médica à psicanálise, é certo que não como as outras.
13. Esta semiótica experimental dos discursos neuróticos nas suas relações à sexualidade ligada à lei social pode assim distinguir, como o seu inventor fará vinte anos mais tarde, três instâncias discursivas : a que se tece em redor do ‘eu’ que fala (Ego, com uma zona inconsciente à volta), a que deseja, pulsiona, além do que ‘eu’ crê querer e desejar (Id, a líbido recalcada) e a que resiste a estes desejos e pulsões, também além do que ‘eu’ quer (Super-ego, os interditos morais, o ideal, parcialmente também inconsciente). Sobre o lugar da sexualidade na psicanálise, um argumento de conveniência, exterior à psicanálise e acrescentando-lhe alguma verosimilhança, é o da sua invenção precoce pela evolução, se se põem em contraste as espécies mais evoluídas (aves e mamíferos) com as espécies assexuadas, como certos vermes ou a hidra da água doce (cissiparidade e outros processos), que não deixam cadáveres nem conhecem filiação, isto é indivíduos completamente distintos daqueles donde são originados. Com a se­xualidade, excessiva e pulsional, a evolução inventou também progressivamente quer o par fêma / macho, quer o nascimento e a morte dos indivíduos, quer ainda a permanência em vida dos progenitores em simultaneidade com os seus rebentos, e portanto a possibilidade da lei, da aprendizagem. Não há que nos admirarmos que estes motivos apareçam centrais nas interpretações psicanalíticas.

Pertinência e dissimulação
14. E já agora, um segundo argumento de conveniência, também independente da psicanálise, mas que lhe esclarece um aspecto importante, o que se pode chamar o seu laboratório, que sem ele não há ciência. Recolhi-o dum texto muito lindo e curto de F. Flahault, discutindo a proposta duma lógica da conversa do filósofo americano P. Grice[4]. Observa ele que em qualquer conversa, seja qual for o número de participantes, só há um fio da palavra, só um pode falar de cada vez como condição de que os outros escutem. Ora, esta estrutura implica que cada um, para tomar a palavra, seja socialmente obrigado a mostrar que tem o direito de o fazer, isto é, tem que provar a quem escuta que o que ele diz é pertinente para a conversa. Sem o quê, os outros rir-se-ão dele, tratá-lo-ão como estúpido ou como doido, não o escutarão. O que tem uma segunda implicação : não poderá dizer o que lhe vier espontaneamente à cabeça, tem que aprender a criticar-se previamente de si para si, tem que aprender a dissimular, a pensar duas vezes, a elaborar estratégias eventualmente, etc. Ora, como esta situação se apresenta a cada um desde miúdos de quem os adultos se riem, que corrigem, etc., isto implica que não é só a sexualidade, também a linguagem está desde o início ligada à lei, que nos impõe uma espécie de axioma pessoal de pertinência, para evitarmos de sermos considerados estúpidos, ou loucos. Lei que nos ensina a transgredi-la, pois que uma das suas regras é que não se pode mentir, mas só se pode ser pertinente dissimulando. E se é certo que a mentira é por este mecanismo que se forja, também o é a capacidade de se guardar segredo, seu ou de outrem, a de pensar, de fazer ficção, de vida interior, como se dizia no calão católico.
15. Porque é que isto é um argumento de conveniência da psicanálise ? Porque justamente dá uma luz antropológica sobre a injunção psicanalítica acima referida : « diga tudo o que lhe vier à cabeça, mesmo que lhe pareça idiota, chocante, indecente, sem relação com o que quer que seja ; não me dissimule nada ». Não seja pertinente, não me esconda nada, quer dizer ‘largue a sua dimensão social’, venha para um laboratório, aqui deitado e relaxado, o mais perto possível da posição do sono e do sonho. O contraste é flagrante com a preocupação de M. Jouvet com o carácter ‘subjectivo’ do sonho enquanto recordação, com o evitar a deformação do seu relato após o acordar: essa preocupação é inexistente na psicanálise porque justamente essas deformações, impossíveis de evitar ou de controlar, fazem-se segundo a lógica estrutural que é a do sonho.

Somos por vezes loucos durante a noite
16. Todas as noites sonhamos várias vezes, mas isso permanece um fenómeno tão extraordinário para qualquer neurologia ou psicologia ou filosofia que haverá que o considerar um pouco se se quer saber da cientificidade ‘não normal’ da psicanálise que pela interpretação deles começou. Acontece por vezes que, ao acordarmos, esfregamos os olhos dizendo : ‘ah !, estou aqui, no meu quarto, estás aí, és a minha mulher, sou professor, moro nesta casa…’. Este alívio corresponde à recuperação de algumas marcas fundamentais da nossa identidade : estado civil, ofício e local de trabalho, morada, sei lá. Estas marcas perdem-se em certos sonhos, passados alhures, noutros tempos e sítios, com outras gentes, mas que não correspondem sem mais ao nosso passado, visto que há misturas, amálgamas, condensações e deslocamentos em linguagem técnica, repetições de cenas que nunca tiveram lugar (quando sonho que me falta ainda passar um exame do liceu). Há portanto regressão no tempo, para o passado, mas para um passado que nunca foi presente, que nunca aconteceu nem passou, que sucede em sonho pela primeira vez como se fosse muitas repetida. Sou sempre ‘eu’ no sonho, mas não sou exactamente ‘eu’ e muitas vezes no sonho não estranho essa diferença de identidade, não me espanto com as gentes desconhecidas, espantosas, que nele frequento lado a lado (e se me espanto, no sonho, é índice do que Freud chamou de « elaboração secundária », sem interesse nas associações de ideias).
17. Um outro aspecto de grande espanto no sonho, é que é ele e não eu que tem a iniciativa, que se me impõe, não sou senão um dos comparsas, por vezes reduzido ao papel de espectador, desenvolve-se segundo uma lógica de encenação ou figuração que me escapa, juntamente com as condensações e deslocamentos, uma lógica que não é a minha quando estou acordado. Esta ‘iniciativa’ manifesta-se também na força incisiva das cenas oníricas, ainda que gentes ou gestos sejam muitas vezes confusos, imagens fortes, sem nenhuma semelhança com o que, acordados, chamamos recordação ou imaginação. Se esta nitidez incisiva das imagens me acontecesse em estado de vigília, eu seria alucinado, louco : Moreau de Tours (1855) disse que « a loucura é o sonho do homem acordado », mas no sonho sou por vezes mais louco do que qualquer louco acordado. Ora, ele vem-me, esse sonho louco, quando me recolho em mim, deixo os outros e o mundo, os nossos usos e o nosso aqui e agora comum, quando deixo mesmo a minha intimidade consciente, os meus pensamentos e sentimentos, os meus projectos, as minhas vontades, a minha ética, os meus segredos. Estas estranhas gentes do ‘meu’ sonho são-me portanto mais íntimas a mim do que a minha intimidade mais próxima de mim, em que me reconheço como ‘eu próprio’, como diferente dos outros. Outros habitam em mim ‘antes’ de mim ? Posso aliás dizer o ‘meu’ sonho ? Ou sou eu pelo contrário que lhe pertenço ? Mas como na noite de amanhã será um outro sonho ainda, de que pertença fugaz se trataria ?
18. Esta é a grande questão que a psicanálise aborda, que ela procura compreender. Há que esperar que não seja susceptível de relevar do mesmo tipo de ‘cientificidade’ do que a da física de Newton, a neurologia de Jouvet ou a lin­guística de Gross. A questão a colocar é : fora de Freud, há alguma teoria consistente do sonho, seja ‘científica’, seja ‘filosófica’ ? Alguma teoria consistente desta dupla lógica ?

Oscilação e identidade
19. Há assim em nós duas lógicas muito diferentes, que Freud chamou « primária » e « secundária », uma tendo a primazia nos sonhos e nos casos mais patológicos das doenças mentais e a outra na nossa vida social adulta : uma lógica do sonho e uma lógica do estado de vigília, mas aquela assinala-se nos lapsos e outros fenómenos da psicopatologia da vida quotidiana, e ainda nas anedotas, assim como os sonhos são também trabalhados pela lógica vigilante, na tal elaboração secundária que procura atenuar os excessos da outra e evitar que o sonhador acorde. O que significa que não há oposição cortante entre as duas lógicas, mas uma oscilação. Tentemos um esboço de aproximação desta dupla lógica.
20. ‘Eu sonhei que… P’, diz ‘eu’ acordado, em que P é uma narrativa de várias sequências e personagens, entre as quais aquele que diz ‘eu’. É uma narrativa mais ou menos confusa, bizarra, que ‘eu’ tem mais ou menos dificuldade em ‘contar’, em explicitar que ‘quem’ se tratava, ‘aonde’, e por aí fora. ‘Eu’ que conta sabe no entanto que foi aquele que diz ‘sonhei que… P’ quem sonhou : há portanto uma certa identidade entre ‘eu (que estou) acordado’, vigil (eu-vigil) e ‘eu (que) sonhei’ (eu-sonho). Mas entre eu-sonho e e eu-vigil há também uma tradução : da cena sonhada à cena contada, dum cenário imaginário a um cenário narrativo, das ‘imagens’ às ‘palavas’. Esta tradução – na qual justamente o ‘eu-vigil’ hesita, resiste, gagueja – impede que a identificação entre ‘eu-sonho’ e ‘eu-vigil’ seja completa, total. Nem ‘um só eu’, nem ‘dois ‘eus’, nem um ‘nós’, mas uma oscilação irredutível, já que cada um dos ‘eu’ é e não é o outro. Com efeito, eu-vigil sabe que ele é ‘eu-sonho’, mas a minha experiência de sonhador (sic) parece permitir-me dizer que, quando se sonha, se sabe também no sonho que é o ‘eu-vigil’ que está a sonhar, apesar da loucura do sonho. Digamos que quando estou acordado, diante de outrem, eu sei (razoavelmente) quem vejo, o que ouço e o que digo, o que sinto, etc., sem nunca ser ‘eu diante de mim’ : o que se chama con-sciência (scire, saber) é este co-saber de mim naquilo que, diante dos outros, sou. Ora, quando sonhamos, por muito bizarra que seja a cena sonhada, apesar da perda eventual da certas marcas da minha actualidade (ofício, residência, estado civil…), este co-saber não parece desaparecer totalmente : o alívio que se tem ao acordar dum pesadelo, quando se recuperam essas marcas perdidas, parece confirmá-lo. Ele seria o fio ligando eu-vigil a eu-sonho. Por outro lado, na interpretação do sonho no divã, o eu-vigil que o contou presta-se a séries de associações livres que permitem ao psicanalista ter acesso a uma certa lógica do sonho, num movimento inverso ao da tradução. Este fio entre eu-vigil e eu-sonho não poderia ser percorrido em sentido inverso senão em relação com outrem, outra indicação de não identidade total entre os ‘eu’.
21. Em que é que consiste a lógica da vigília ? Pode dizer-se, de forma aproximada, que se trata duma lógica textual, no sentido corrente (já que um sonho também é um texto) : saber, por regras linguísticas e semióticas (rápidas demais para serem conscientes), compor um discurso – numa conversa, ou uma narrativa, sei lá – com um sentido coerente, predicável de um contexto relativo ao mundo, ilocucionado por um ‘eu’ a um ‘tu’, aqui e agora, implicando pertinência e capacidade de dissimulação. Trata-se duma lógica aprendida antropologica­mente, no sistema familiar de usos em que se foi inserido ao nascer. O que implica também que essa lógica da vigília se articula nos comportamentos dos usos e costumes tribais que se aprenderam.
22. A lógica do sonho, por sua vez, supõe a desarticulação dos comportamentos (inibidos no sonho paradoxal, ensinaram-nos os neurólogos), deixando no entanto que a visão e a audição guardem uma relação escondida à sexualidade, que os sonhos fariam ressoar e o acordar por sua vez inibiria. Nenhuma destas inibições sendo nunca completa – já que o fio nunca se quebra entre os dois estados, excepto talvez em casos extremos de loucura –, a oscilação entre as duas lógicas insere-se nas oscilações mais gerais que nós somos, entre dia e noite, entre atenção e relaxação. Ela é sem dúvida uma objecção forte a uma Fenomenologia de tipo husserliano.




[1] Comunicação ao Colóquio Internacional de Fenomenologia, Psicologia e Psicoterapia, 23 e 24 de Janeiro de 2009, Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa
[2] P. Ricœur, De l'interpétation, Essai sur Freud, Seuil, 19952, p. 366.
[3] "L'analyse avec fin et l'analyse sans fin", 1937, cit. in F. Delbary, La Psychana­lyse: une antholo­gie, 1. Les concepts fonda­mentaux, Pockett, 1996, p. 168).
[4] "Le fonctionnement de la parole. Remarques à partir des maximes de Grice", Communications, nº 30, La Conversation, 1979, Seuil, pp. 73-79.