quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Relatividade sem relativismo


PROPOSTA DE UM ARGUMENTO (1998)


A questão: filosofia, ciências e relativismo
As cenas da Biologia e da Linguística estrutural
Retiros, regras, aleatório: o exemplo do automóvel
Mecanismos de autonomia com heteronomia apagada
A verdade dos usos quotidianos
Breve história da verdade ocidental: os Gregos
Breve história da verdade ocidental: os Europeus
Acabamento e ultrapassagem da metafísica
Uma verdade relativa mas estável no futuro



1. Trata-se aqui do resumo dum novo argumento que me pareceu ter encontrado. após ter escrito o essencial da I parte dum longo trabalho (Le jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida). sobre uma das questões mais difíceis e intelectualmente mais mortíferas, a da verdade entre re­latividade e relativismo (repetindo alguns dos pontos do Manifesto, no outro blogue). Este argumento supõe a demonstração da con­vergência entre algumas descobertas científicas do século XX e a fieira fenomenológica Husserl, Heidegger, Derrida, contemporâ­nea dessas des­cobertas. A primeira parte da exposição debruçar-se-á sobre a vertente das ciências, sendo a biologia e a linguística es­trutural retidas como exemplos, a segundo colocará a concepção da verdade como alêtheia de Heidegger no contexto da história ociden­tal da verdade. Para a levar a bem, terei inevitavelmente que supôr por vezes desenvolvimentos des­ses dois textos que não poderei se­quer resumir, terei também que aludir a questões que não conheço muito bem, que nunca trabalhei em detalhe: se me quiserem questionar sobre elas além das trivialidades que qualquer pessoa culta saiba dizer, rapidamente te­rei que levantar a bandeira branca da rendição. Benevolência vos peço pois, a de quem é capaz de compreender a importância filosófica da questão ainda que tenha objecções fortes a pôr à perspectiva como será tratada.

A questão: filosofia, ciências e relativismo
2. Tentarei pois colocar aqui a questão - decisiva nos tempos que cor­rem, quiçá, entre as outras todas - da relativi­dade e do re­lativismo. Há quem confunda as duas noções indevidamente, já que a primeira, re­cla­mada explicitamente pela Física, a ciência mais anti-relativista, é o ho­ri­zonte incontornável do pensamento con­temporâneo, que desde o sé­cu­lo XIX nos vem e Nietzsche anunciou sob a forma da morte de Deus, do de­sabar do absoluto; a relativi­dade é o princí­pio - parado­xal, pois que ele se enuncia assim: já não há princí­pios - da cultu­ra que desco­briu que toda a realidade, não apenas humana, mas a da vida e do próprio uni­verso físico, é radical­men­te evolutiva e histórica, ou seja que toda a rea­lidade é movimento, é temporal. Em termos da filosofia tradicional: toda a realidade é contingente, é acidental. Quanto ao relati­vismo, ele não é mais do que a leitura pre­guiçosa e apressada da relatividade, já que se faz ainda no para­digma do absolu­to negado: se tudo é re­lati­vo, se não há mais prin­cípios nem fun­damentos es­capando à história e ao aleatório, então tudo se vale, sejamos tole­rantes para as opi­niões uns dos outros, deixe­­mo-nos de teorias ou ideologias e das suas divisões, que tão horrí­veis carnificinas pro­duziram no sé­culo que ora finda, se­jamos prag­máti­cos e solidários que as tare­fas são tantas e tão ur­gentes, para citar a ver­são mais generosa, a de R. Rorty. O relativismo é o cepti­cismo, e o que assim se re­clama é o fim da filosofia, que também já foi procla­mada, com outros fins ou mor­tes, da história ou do homem. Relatividade e não rela­ti­vismo: como as­sim?
3. O cepticismo ou relativismo, cujas formas também histo­ri­camen­te variam, sabemos que foi sempre uma espé­cie de aguilhão do pensamento filosófico, mormente nas suas duas épocas de ouro, se di­zer se pode, a da Atenas dos séculos V e IV e a da Europa clássica dos séculos XVII e XVIII. Comparemos essas duas gestas filosóficas. Havia séculos já de literatura na Grécia, de ins­crição oral primeiro, escrita de­pois, prolon­gando os mitos religio­sos mas acrescentando-lhes outros re­lativos a an­tepassa­dos (Homero, claro, He­síodo, outros poetas). Por outro lado, a en­cena­ção teatral do destino trágico de muitas casas nobres de antanho e a acen­tuação progressiva do ponto de vista ético cria­ram uma dis­tância 'crítica' em relação à tradição das grandes li­nha­gens e ao sa­grado que se lhe articulava, ao mesmo tempo que o brilho lite­rário des­sas tragédias valorizava a obra poética como cultura, como pro­du­ção 'actual', como novi­dade que vale, como 'moderni­dade', em suma. A mul­tiplicação de manuscritos em prosa[1] e a generaliza­ção da leitura entre os jovens cidadãos criou as condi­ções do de­senvol­vi­mento das escolas (dos sofistas) e da cultura, com a tendência a uma como que ri­vali­dade entre os textos, nomeada­mente para saber quais privi­legiar na educação da juven­tude. Qualquer texto sendo, por definição, uma maneira singu­lar e elíptica de se­leccio­nar na herança da tradição, e portanto de tornar esta hete­rogé­nea, esta mul­ti­plicação acelerada de manuscritos teve como con­se­quência um de­bate agudo, com pontos de vista irredutíveis, pro­pício assim ao que se chama relativismo, já que a heteroge­neida­de das selec­ções torna a cultu­ra es­truturalmente relativa. Foi uma pro­blemática as­sim que deu ori­gem à escola socrática de Filosofia. Em três tem­pos, eu resumiria. a) Sócrates conduz a críti­ca do sa­ber rece­bido, tradicional ou sofista, em nome da sua igno­rância, que ele radical­mente opõe à preten­sa vacuidade dos múltiplos pontos de vista que ti­nha encon­trado. b) Va­lendo-se dos seus conhecimen­tos em geo­me­tria, Platão ultrapassa este 'cepticismo' fun­dando a verdade dos entes nas Formas ou Ideias eternas, às quais a Geome­tria e a Astro­nomia lhe fornecem o modelo; desva­loriza, deste ponto de vista da compreen­são do todo, o saber tra­dicional, di­zendo res­pei­to à phy­sis, ao 'sensível', ao que nasce, cresce e morre, ao que as­sim muda constantemente. c) Aristóteles, enfim, in­verte esta po­si­ção, apoia-se no conhecimento (quase expe­ri­mental, pelo menos de ob­servação) das ousiai, das substâncias-es­sências des­ses entes vivos, para criti­car quer o 'cepticismo' (de Sócrates) quer (o ‘dogmatismo’ de) as Ideias de Platão.
4. A filosofia da Europa clássica repete estes gestos da ate­niense. Também a cultu­ra está em ruptura com a dominância teo­lógica tradicio­nal: multiplicidade crescen­te dos livros com a inven­ção da imprensa, cepticismo vindo do cisma da Cristandade, desau­torização dos livros dos Antigos, mormente escolásticos, que igno­ra­vam to­tal­mente os novos mundos que se vão conhecendo, di­vulga­ção da inversão copérnico-gali­laica do cosmos. Em seguida, neste contexto, os três tem­pos. Os dois pri­meiros em Des­cartes: a) dúvi­da metódica, lembrando a igno­rância fictícia de Sócrates, b) fun­damento da certeza no Deus eterno que produz em nós ideias inatas, as quais têm cumplicidade com a geo­metria, como em Platão; c) Kant, por seu lado, repete Aristóte­les: crítica do cepticis­mo (Hume) e do dogmatismo (Leibniz) pela valorização da ex­pe­riên­cia sen­sível, mas esta apoiada não na bio­logia, mas na nova Física de Newton. d) Mas houve depois um quarto tempo, inédito nos Gregos clássicos (correspon­dendo tal­vez à consti­tuição patrística da teolo­gia cristã, em que tex­tos narrativo-his­tóricos são trabalhados por conceitos gnosio­lógi­cos gregos, ou em todo o caso ao tomismo me­dieval) e que é justamente aquele em que emerge num sis­tema filo­sófico completo a relativida­de mo­derna: trata-se da integração por Hegel da histó­ria (das civiliza­ções) - até aí reino do aleatório, do particular, do contingente, do acidental, do acontecimento - no pro­jecto do sa­ber herdado. E a ma­neira como esse primeiro sis­tema filosófico abar­cando o relativo é coroado por um saber abso­luto, mostra, mau grado seu, sob forma de denegação (será Niet­zsche quem o revelará), o para­doxo constitutivo de todo o pro­jec­to da filosofia ociden­tal: ela fundava a verdade abso­luta (que não é a mesma aliás em 'pagãos' politeistas e em cris­tãos monoteistas) em textos escri­tos por tal ou tal pen­sador em tal ou tal época, isto é, a verdade abso­luta fun­dava-se em tex­tos histó­ricos, singu­lares, con­tingen­tes, cul­turais, relativos em suma.
5. É sobre este paradoxo - que permite o paradoxo aludido acima, de um 'princípio da relatividade' sem contradição nos ter­mos, desde que ele seja en­tendido como um princípio histórico, que recebe­mos na cultu­ra elaborada pelos nossos antepassados e que nós herdámos, cultura histó­rica a que é es­sencial a dimensão filo­sófi­ca e suas problemá­ticas ab­solu­tas - é sobre este paradoxo que havemos de reflectir. Ele está, por assim di­zer, no âmago das questões heideggerianas, do Ser e Tempo de 1927 - o motivo da finitude, por exemplo - à conferência Tempo e Ser de 1962 - o projecto de histó­ria do ser do II Hei­degger -, como nas de Der­rida que o prolongou e for­çou além de uma certa clausu­ra - por exem­plo, a que levou o Mestre de Fri­burgo a negar pen­sa­mento às ciên­cias. Ora, a geometria e a as­trono­mia em Pla­tão, Descartes e Newton, a zoologia e a bo­tâni­ca em Aristóte­les e a física de Newton em Kant tiveram um papel não dissociável da filosofia no combate ao relativismo, o qual em Aristó­teles e Kant foi também combate por uma certa relativida­de[2]. Donde que haja também que ter em conta as prin­cipais des­cober­tas dalgu­mas das ciências do sé­culo que ora finda. Não se estranhará que a elas re­corra: as ciências são mais resis­tentes do que a filosofia ao relati­vismo.
6. Proponho-me sugerir aqui a fecun­didade possível do pen­samen­to de Heidegger-Derri­da - agrafados por um traço de união - que cultivo há muitos anos como o pen­samento mais inte­res­sante que neste século houve. Retirada do contexto do seminário apresen­tado sobre a articula­ção, por via da fenomenologia, dos domínios das várias ciências de que a lin­guagem é pelo menos uma parte, este texto terá, como seu primeiro tempo, que recapitular a exposição das cenas dessas diversas ciências.

As cenas da Biologia e da Linguística estrutural
7. Comecemos pelas descobertas biológicas da genética e da neuro­logia e ten­temos reflectir sobre o que elas implicam, quer quanto à res­pectiva articulação, quer quanto ao funcionamento dos vivos e dos hu­manos. Seja uma espécie qualquer de mamífe­ros: en­quanto dados pela natu­reza (physis ou Terra, em termos heidegge­ria­nos), eles reproduzem-se. Quer dizer que o casal de um macho e de uma fêmea deve gerar du­plos, machos e fêmeas, que sejam por um lado os mesmos (são da mesma es­pécie) e que não sejam por outro lado idênticos (são outros indivíduos). Quer dizer também que os recém-nascidos deverão ser ali­mentados e pro­tegidos, deve­rão habitar um território ecológico propício, até aprenderem a fazê-lo autonomamente. Se­gundo o ensino da biologia, para estes dois tipos de reprodução - da espécie e dos indivíduos - a physis-Terra joga da mesma ma­neira: a mesmidade da espécie e do conjun­to organizado dos comportamentos dos indivíduos é assegurada pelo programa ge­nético. Este no entanto - ao contrário do que, a crermos nos jor­nais, parecem pensar muitos biólo­gos - não pode determinar tais comportamen­tos de forma estrita, pois que cada indivíduo deverá agir segundo o aleatório das pre­sas a caçar, das fugas para não ser presa dos outros, etc. A mes­midade tem pois que jogar es­sencialmente com a pos­sibi­lidade de alteração devida ao outro, ao ambiente em ge­ral, mas sem perder a mesmidade da es­pécie: o pro­grama genéti­co deve regu­lar o jogo químico do meta­bolismo (que varia nas células consoante os tecidos es­pecializa­dos e cor­responde ao aleató­rio do que se comeu, dos teores at­mosféricos, etc.) e re­s­guardar-se da transformação química das suas molécu­las, per­manecer reti­rado (diria Heidegger, que aqui se força, do ser ao ente), o que se faz por esse admi­rável meca­nismo da du­plicação duma parte do ADN em ARN mensageiro, este operando a sínte­se quími­ca reque­rida e degradando-se em seguida, aquele guardado como mesmo para a próxima vez.
8. Fazendo um trajecto rápido pela anatomia do nosso mamí­fero, facilmente se veria como toda ela está orientada para assegu­rar o meta­bolismo de cada célula: a cir­culação do san­gue leva oxi­génio e nutrientes até cada uma delas, enquanto que os apa­relhos diges­tivo e respira­tório se ocupam de recarregar o san­gue; os mús­culos, patas, boca, cére­bro e seus ór­gão de percepção, agui­lhoados pelo jogo hormonal (este sendo ac­cionado por via genéti­ca, em função de qualquer alteração do equilíbrio homeos­tático do sangue), de­vem reagir no territó­rio para encontrarem o que comer, beber, respi­rar. Ora, o nosso mamífero não poderá, nem caçar nem fugir a quem o cace se não tiver algo desse seu terri­tório inscrito dura­velmente nas sinapses do seu cérebro, segundo os grafos do neuró­logo Chan­geux. E também esses grafos, memó­ria como resultado do que se chama aprendizagem, são re­grados para que acções alea­tórias sejam possí­veis, comporta­men­tos re­grados a partir dos ór­gãos da percepção até aos ossos e mús­culos da motilidade atraves­sando o duplo cérebro, o emocio­nal herdado dos peixes e o neo-cortex das aves e mamíferos, mais extenso em nós humanos, tudo isso implican­do memória e aprendizagem que hormonas (e seus ge­nes) impulsionam. O que tem como conse­quên­cia necessária que nada do que, sendo comporta­mento, im­plique al­gum conhecimento do território ecológico e das suas si­tuações aleatórias, possa ser determinado geneti­ca­mente: as re­gras destes compor­tamentos, no caso dos humanos, não são mais do que os usos so­ciais, uns mais ge­rais, outros mais especializa­dos, que em nós são inscritos de forma a que nos tor­nemos mais ou menos hábeis ne­les, de forma a que os nossos comportamentos se fa­çam espontaneamente, a partir de dentro, como nossos, em­bora de fora originados pela aprendiza­gem.
9. O jogo da alteração, quer na sexualidade, quer na ali­men­ta­ção, quer na aprendizagem, é assim es­tru­tural à reprodução do mesmo: o que eu como, é o outro vivo (animal ou vegetal) que se torna em mim mesmo; como isto é verdade desde as primeiras células, cada animal é 'feito', substancialmente se se quiser, isto é em todas as suas cé­lu­las e mo­lécu­las, de outros entes vivos de outras espécies (além da água). Ora, também os usos que dos outros aprendo e se tor­nam meus, impli­cam que eu seja feito ‘useiro’, se se me permite o neo­logismo, 'agente' desses usos, com um talento singu­lar, pelo pró­prio processo de aprendizagem. A lin­guagem é um des­ses usos e bem especial en­tre os outros, já que permite que estes também se re­produzam através de receitas com que a linguagem permite dizê-los/pensá-los. Seja um poeta por exemplo. Ma­nuel Gusmão dizia há tem­pos que ele não dispõe, para fa­zer o seu poema, senão das pala­vras dos outros: a linguagem é esse mecanis­mo fabu­loso vindo to­talmente de fora, duma muito an­cestral tradição, que permite o ta­lento singular, irre­petí­vel, duma So­phia Mello Brey­ner, dum Her­berto Helder. Ora, é possível mos­trar, mas não aqui e agora (Epistemologia do sentido, F. Gulbenkian, 1991), como a Lin­guística de inspiração saussu­riana pôs a luz, nos trabalhos dum A. Martinet, por exemplo, como dupla articula­ção da lin­gua­gem, ou dum M. Gross, como pro­priedades sintácti­co-semânti­cas dos verbos das frases das nos­sas es­pontaneidades, que di­ze­mos quase automaticamente segundo re­gras que são de todos os da mesma língua, é possí­vel mos­trar como essas des­co­bertas linguísti­cas se podem arti­cular com as da neurologia, para com­preender por exemplo as afasias de Broca e as de Wer­nicke.

Retiros, regras, aleatório: o exemplo do automóvel
10. Tendo sido obrigado a deixar de fora as ciências das so­ciedades e a psicanálise[3] - além da física e da química, cujos me­canismos são ou­tros e aqui porventura menos significativos -, eu diria que estas várias ciências nos deram a conhecer o que se pode chamar mecanismos de autonomia, de que um automóvel po­derá ser, até certo ponto, um pa­ra­digma: o seu motor e apare­lho são re­grados até à minúcia, teórica e ex­perimental, segundo as leis de várias regiões da física (mecânica, ter­modinâmica, electricidade, etc.) e da química (carburantes, óleos, etc.), para pro­duzirem um trabalho que é essencialmente aleatório. Um au­to­móvel só serve na medi­da em que tudo nele é comandado pela lei do tráfego, da circulação, andar mais depressa ou de­vagar, travar ou recuar, virar à esquerda ou à direita, etc., em cada instante se podendo apresentar uma situação que implique a alteração da conduta se­guida nesse momento, o aleatório sendo assim tanto o dos interesses circulató­rios do piloto do carro como o dos outros carros que com ele circulam. Se pensarmos quantas e tão diferentes instituições es­pecializadas existem nas sociedades modernas para tor­nar viável esta circulação (empresas de enge­nharia de estradas, pontes e tú­neis, fábri­cas e stands de automó­vel, oficinas de reparação, refi­narias de petróleo e bombas de ga­solina, código da estrada, polícias e tribunais, empresas de crédito e de seguros, es­colas de condução automóvel, que mais sei eu), poderíamos verificar como essa enorme diversidade obedece a uma mesma grande lei: a da circula­ção do tráfego se­gundo um aleatório essencial; se olharmos um pouco para os carros que pas­sam em tal avenida e imaginarmos os zi­gue-zagues da vida de cada um que ali vai e a relativa or­dem da circula­ção que no momento vai seguindo, como se todos fossem para o mesmo ca­mi­nho regu­lados por um horário colectivista, não dará para perceber que o que aqui chamo mecanismo de auto­nomia é um assombro de per­feição im­perfeita?[4]
11. Ora esta lei do tráfego, estruturalmente aleatório e de muitos, comanda tam­bém a própria construção do automóvel, em todos os seus detalhes mecânicos e até de simples conforto. Ex­cepto num ponto: a ex­plosão de gasolina que dá o movimento, o motor, como se diz, obedece por sua vez a uma lei da termodi­nâmica dos gazes, a qual é incompatível com a lei do tráfego, que nin­guém pode andar a provocar ex­plosões de gasolina no meio da estrada. Jogando aqui com o pensamento de Derrida, a différance de duas forças antagónicas ou o double bind entre duas leis in­conciliáveis, o automóvel (e antes a máquina a vapor de Watt) é a fa­bulosa des­coberta da maneira de conciliar a lei da ter­modinâ­mica com a lei do tráfego: o motor tem que ser retirado (e agora é Heidegger que estou citando, de maneira oblíqua), hermetica­men­te fe­chado, blin­dado, fortemente repetitivo - o seu efeito limita-se a fazer rodar um eixo, como aliás também fazem, de outra ma­neira e segundo outras leis da fí­sica, os motores eléc­tri­cos, inven­ção genial do belga Gramme (1869) -, enquanto que o resto do carro, chamamos-lhe apare­lho, é pensado para as mano­bras de circulação adequada ao trá­fego de que falámos acima.

Mecanismos de autonomia com heteronomia apagada
12. Podemos então volver às descobertas da biologia e da lin­guísti­ca saussu­riana com este modelo (parcialmente) explicativo. Conservado no núcleo, o ADN é retirado das transformações quí­micas do me­tabolis­mo que o transformariam em outras moléculas, mantendo assim a sua identida­de em todas as células do organismo (excepto as gâme­tas se­xuais); o que implica que ele tenha que con­ter todas as regras ne­cessá­rias às sínteses de proteínas em cada um dos 200 tipos de tecido celu­lar dum vertebrado e segundo as etapas da embriogénese, maturação e ve­lhice, con­soante o aleatório tam­bém da alimenta­ção que lhe chega e dos teores do sangue, sobre o equilíbrio do qual o jogo hormonal vi­gia. Ora, quer o oxigénio quer a alimentação vêm de fora, do am­biente ecológico, onde há que caçar e que fugir de predadores, aleato­riamente, segundo as inscrições ou grafos feitas no cérebro, como já se disse; na evolu­ção dos vertebrados, o olfacto (jogando quimi­camente no exterior, à maneira in­terna das hormonas), cedeu o passo à visão, audi­ção e tacto e suas aprendiza­gens: o jogo hor­monal, que é motor dos com­portamentos (a fome, por exemplo), também é re­tirado do territó­rio, e tanto mais quanto o desenvolvimento do neo-cortex. Estrita­mente reti­rados do território assim, os genes e as hormonas são ce­gos em relação a ele (como o cilindro do automóvel o é em relação ao trá­fego), não podem pois determinar nenhum com­porta­men­to neste, embo­ra seja o jogo ge­nético sobre as hormonas que dá a es­tas o im­pul­so para esses mesmos comportamentos; donde a dupla ce­gueira epistemológica desses biólo­gos, americanos e não só, que vêm para a comunicação social dizer que des­cobriram o gene da inteligência ou da homossexualidade: dupla cegueira, 1º porque os genes não podem determinar comportamentos que só no trá­fego, no território, têm a sua lei, e 2º porque eles julgam saber o que é a inteligência ou a homossexualidade, como se não houves­se milhões de maneiras diferentes, todas singulares, de se ser homosse­xual e inteli­gente, como se não houvesse também espe­cialistas desses do­mínios de que eles não sabem teoricamente nada.
13. Esta digressão permite então chegar às duas leis incon­ci­liáveis das espécies dos animais. Uma é a da autonomia de cada in­divíduo, re­grada a partir do retiro dos genes e do jogo hormo­nal, que busca sempre e exclusivamente a sua reprodução (além da da espécie, em épocas de cio), a sua vida, o adiar a sua morte, para isso tendo que comer outros vivos (vegetais ou animais); a outra lei é a do conjunto de todos os ou­tros vivos que procuram o mesmo, já que nenhum animal sobrevive sem ser através do sa­crifício de ou­tros vivos: é a lei da vida ('é a vida, o que se há-de fazer'), ou talvez me­lhor, a lei da selva; espanto dos espantos, esta lei inconciliável com a da repro­dução de cada um, não apenas fun­ciona, como o seu funciona­men­to é o segredo último da evolução, daquilo a que Darwin chamou selec­ção natural. Tal como a lei do tráfego co­manda a en­ge­nharia toda dum au­tomó­vel, também a anatomia de cada es­pécie é comandada por esta lei da selva, anatomia feita precisamente para a melhor maneira de caçar e de não ser caça­­­do: tantos milhões de espécies, que imensa pa­nó­plia de tão dife­rentes astúcias, le­que sem fim das artes de capturar e de se de­fender, venenos, garras, mandíbulas e dentes fortes, trombas e cornos, fer­rões e teias de aranha, refúgio em tocas ou em cima das árvo­res, até às asas para voar. Assim como a lei do tráfego comanda a cons­trução do automóvel, também a lei da selva co­manda as anatomias que tornam possíveis todos estes truques e astúcias.
14. Falemos agora da linguagem. O que é que é retirado? Os gritos inarticulados dos primatas nossos antepassados, transfor­ma­dos em fo­nemas, isto é, em sons elementares sem significação nem querer-dizer, imagens de nada - também assim as letras do alfabeto -, retirados pois do campo da significação das coisas e da comuni­cação directa; com eles, as línguas formam muitos milhares de pa­lavras com as quais comunica­mos, através do seu encadeamen­to em fra­ses fortemente regradas (ninguém escapa às regras da sintaxe e da semântica, elas exercem-se em nós au­toma­ticamente, é aliás esse automatismo que se perde quando há abla­ção da área cere­bral de Broca). Essas frases, encadeadas por sua vez em dis­cursos, permi­tem ainda que os sentidos das palavras mais fre­quentes conheçam uma certa variabilidade polissémica e se au­mente pois o leque de possibilidades do que queremos dizer. Esta dupla arti­cu­lação (Martinet) é correlativa, por um lado da eco­nomia da nossa fona­ção, que só consegue dizer de forma distinta facilmente entendível al­gumas de­zenas de sons simples, por ou­tro da capa­cidade de me­mória ce­rebral, já que parece que não usamos senão 3 a 4 mil pala­vras, e ainda reconhece­remos até 30 mil. Ora bem, como funciona esta lingua­gem, as­sim adequada à nossa anatomia? De tal maneira que, por um lado, as pala­vras e as ou­tras regras da lín­gua são co­muns a todos, vêm-nos dos ou­tros, e por isso nos en­ten­demos, por outro lado, estas frases totalmen­te regradas, saiem-nos muito es­pontâ­neamente, já que raramente ga­gue­jamos a pro­curar a palavra precisa, e de forma es­sencial­mente ade­qua­da à situação aleatória de con­versa ou outra em que se está. Com efeito, em que é que consis­te uma conversa ou uma discus­são interes­sante? No facto de que ela é feita a dois (ou mais), cada um pegando no que o outro acaba de dizer para lhe acres­centar, de acordo ou em con­traponto, outra coisa, e que cada um dos interlocutores é sur­preendido pelo que o outro diz, não sabe o que vai ser, tem pois que responder se­gundo o aleatório do fio da conversa, e seguindo sempre as regras da lín­gua, para que haja entendimento. Tam­bém aqui duas leis inconciliá­veis se jogam indisso­ciavelmente: a do senso comum, que todos parti­lham, e a da espontanei­dade das associações de ideias de cada qual, coagidos que somos, desde as aprendi­zagens infantis da fala, a confor­marmo-nos à pertinência desse senso comum, a dissimular, do que à ca­beça nos vem, o que o possa con­tra­riar e nos traria re­putação de estúpi­do ou de louco.
15. Se suceder que o que estou dizendo tenha para alguns um sa­bor a novida­de, como para mim o teve, se pois o recurso a Hei­degger-Derrida tiver ajudado a perceber o que biólogos e linguistas descobrem, pare­cendo todavia não terem ainda enten­dido todo o al­cance de tais des­co­bertas fabulosas, é porventura porque haja na concep­tualidade que os cientistas usam algo que haja que ser cor­rigi­do, mormente no que tem a ver com a noção de causalida­de me­câ­nica e determi­nis­ta que herdaram da filosofia clássica eu­ropeia, cujo campo de validade será restrito: ape­nas o da ex­peri­menta­ção laborato­rial. Com efeito, os muros do laborató­rio signifi­cam que só se podem conhecer as re­gras finas que os cientistas nos ensinam isolando os fenómenos a conhecer doutros factores aleató­rios que lhes estão intimamente ligados na chamada reali­da­de, no que fica fora do la­boratório. O de­terminismo artificial­mente conseguido no laboratório não se deve pois estender além dele[5]. De certa maneira, os biólogos sabem disso: vimos como a Natureza-Terra é necessa­riamente mis­tura de espé­cies diferentes no mesmo território, mas com a con­dição de cada uma só se re­produzir entre os seus indiví­duos. Apesar das suas lacu­nas, a teoria da evolução supõe que cada es­pécie vem doutra es­pécie. Ha­verá pois saltos, a imensa varie­dade das es­pécies testemu­nhando do carác­ter não-determi­nista desses saltos (mutações, se­gundo os bió­lo­gos), da sua imoti­vação. Mas que não haja causa-mecâ­nica-de­terminan­te não im­plica que não haja 'al­go' (ser e não ente, em Hei­degger) que dê o movimento, que moti­ve (de motus, movi­mento em latim): é o que ele chamou Terra, in­cluindo nela tanto a vida como o inorgâ­nico. Chamemos dom à mo­tiva­ção imotivada, não cau­sal e multipli­ca­da, isto é vinda de vários lados: como no que chamamos acontecimentos, o que significa que não há na realidade senão acontecimentos, re­grados e aleatórios.
16. Digamos que há dois níveis de doação nos fenómenos da vida e da lingua­gem (e chegamos agora a um ponto em que o exemplo do au­tomóvel já não nos serve). O primeiro seria consti­tuinte, dom do ADN pe­los progenito­res, os quais são reti­rados, fi­cam cada vez mais de fora à medida que o novo ser vai ganhando a sua auto­nomia: ali­mentado san­gue a sangue pela mãe no ventre, ex­pulsão, alimen­tação pelo leite, etc. É o ADN quem garante, em úl­tima instância, se se pode dizer, essa autono­mia, e ele funciona sem depender já dos progenitores, continua para além da morte deles. Mas só funciona por via do segundo nível de doa­ção, agora da Terra como lei da selva que dá incessantemente a possibi­lidade da alimenta­ção e da res­piração, através de molécu­las que se tor­narão as mo­léculas da nossa própria substância: os outros que nós co­me­mos para se tor­narem nós. Mas a autonomia não será completa sem as apren­diza­gens de usos da nossa sociedade, entre os quais o da lingua­gem e da cul­tura. Ora, também aqueles de quem aprendemos a falar fi­cam de fora, mestres reti­rados, que pode­rão morrer antes de nós, esse retiro sendo condi­ção para nos tor­narmos os falantes que não éramos (sem ditadores que nos ditem ao ouvido o que dizer ou pen­sar). Em ter­mos das fi­losofias do sujeito e da consciência, isto significa, como é óbvio, que não há sujeito falante e consciente dessa fala antes desse dom e do seu apa­gamento ou esquecimento estrutural. Mas tam­bém o dom se continua numa espécie de ali­menta­ção cultural, da aprendizagem perma­nente que recebemos de muitos lados e instâncias, às vezes até dos nossos próprios filhos ou alunos. Da mesma maneira que o ADN dado ao ovo é um ADN de adulto, também a sociedade tem uma cultura multis­secular de adulto que nos é oferta.
17. Para terminar este ponto, quereria ousar uma interpre­ta­ção do motivo hei­deggeriano do Ereignis, a partir do que nos é proposto na conferência Tempo e ser de 1962: trata-se de um (não)Acontecimento (não ôntico, mas a nível ontológico) que dá ser e tempo, isto é dá entes em sua temporalidade. Mas essa tem­po­ra­lidade implica estruturalmente o aleatório de acontecimentos (ôn­ticos, agora sim) de que o Ereignis dá as regras, mas retirando-se, dissimulando a sua doação. O Ereignis seria a hetero­nomia dissi­mu­lada que dá autonomias, que as dá de forma não causal e multiplica­da, isto é vinda de vários lados: as dos animais vivos, as das socie­dades em seus usos, as dos falantes e seus psiquismos. A dissi­mula­ção absoluta dessa heteronomia é a condi­ção das auto­nomias dadas. Então o Ereignis, onde me parece se ‘acabar’ o percurso do pen­sa­mento heideggeriano, seria a cena de repro­dução com osci­lações se­guindo predominantemente as al­ternâncias dia / noite que permitem encontros aleatórios mais ou menos complexos, daria uma espécie de mo­tivo fractal que po­deria ser fecundo para estas várias ciên­cias. Desde cada espécie, mas também cada ente vivo, de células organi­camente feito, em seu tempo de vida, cada socieda­de de hu­manos, cada sua insti­tui­ção ou família, cada humano e sua memó­ria, as línguas e cul­turas, os tex­tos, até ao Universo inteiro e suas regras e aleatórios desde há uns 15 biliões de anos, a terra e as suas condições ecológicas para a evolução da vida, todas estas realida­des são susceptíveis de serem en­tendidas, cada uma à sua ma­nei­ra e umas envolven­do as outras, como 'cenas', (não)Acontecimen­tos que dão possibi­lidades, destinam aconte­cimentos aleatórios que consti­tuem/ali­mentam entes em suas temporali­da­des. Ereignis fractais.
18. Se tiver razão em todo este arrazoado, então percebe-se que o lugar essen­cial do aleatório em toda a realidade desde sem­pre, desde que haja tempo, espaço e matéria (e Prigogine pensou, com outros, uma alternativa ao anti-físico Big-bang, em que esse momento inicial também sucedeu por acaso), o lugar es­sencial do aleatório em toda a realidade, dizia, implica o princípio da relati­vidade: a impossibilidade, ou a inutili­dade, de seja que instância fôr que possa centrar ou sequer arbitrar este jogo imenso, regulado até ao infinitamente pequeno dos átomos, com as suas forças nu­cleares ligando protões e neutrões e as suas for­ças electro-magé­ti­cas ligando electrões, aqueles retirados das órbitas destes, que permitem as transformações químicas de mo­léculas, os fenóme­nos da electricidade e do magnetismo e, de forma geral, os fenó­menos aleatórios da gravitação. Mas por outro lado, as descober­tas que aqui evoquei sumariamente e ou­tras encontraram meca­nismos de reprodução es­tável e regrada, de heteronomias que dão autonomias, e em tal es­tabilidade consiste a ver­dade desses mecanismos, dessas cenas, des­ses Ereig­nis.

A verdade dos usos quotidianos
19. O que é a verdade? A esta pergunta de Pilatos parece hoje o relativismo impedir qualquer resposta, de tal forma o dogmatis­mo a terá tornado irrespirável para o pensamento. Há que creditar Heidegger de não ter cedido a essa facilidade e de ter reformulado o campo dessa questão duma forma inédita, como abertura e dissi­mulação, e cuja fe­cundidade me proponho sugerir na segunda parte deste texto, começando por a ilustrar por exemplos. Desde o início de Sein und Zeit que ele pro­põe não falar mais de ‘sujeito’, ‘alma’, ‘consciência’, ‘espírito’[6], no sentido em que tais termos implicam sempre, na tradição ocidental, uma interio­ridade fundadora. O Da­sein é o-aí, estruturalmente aberto para o seu fora: os outros hu­manos a quem fala, os comportamentos dos usos do habitar quoti­diano.
20. Ele é, onticamente, este mundo em que está aberto, este ‘aí’, aqui-e-agora. Determinismo, fatalismo? Não, porque justamen­te ele não pode ser este ‘aí’, no exterior, senão por já ter sido ou­tros ‘aí’ e ter ganho assim uma pré-compreensão deste ‘aí’. O meu exemplo será o duma co­zinha de gente atarefada em véspera dum dia de festa. Não se trata de marcianos caídos do céu, cada Dasein trabalha a partir do que já sabe, das receitas que conhece, etc.: as suas palavras e comportamentos são a sua abertura. E respondem a uma outra abertura. Com efeito, para que a verdade duma coisa seja, se desvele a um humano, é necessário o acordo mútuo duma dupla abertura do Ser (Terra-Mundo): ele tanto dá a coisa, dada aí, como o humano, aí no seu comportamento em relação à coisa. Ao nível das aberturas dos próprios entes, quando por exemplo se faz uma sopa de legumes: as ‘pommes-de-terre’ guardam no seu nome francês que a terra as deu, e também a água (uma fonte, é a terra que se abre), as cenouras (a terra as fez crescer e abriu-se desse crescimento), o sal (depositou-se em salinas abertas), o azeite pressionado das azeito­nas (as oliveiras como as cenouras, as azeitonas brotam das flores que se abriram), tudo isso é metido numa grande panela aberta (antes de se a tapar), depois abre-se o fogão colocado na abertura da chaminé, saiem dele o gás e o lume, a cabeça do fósforo abre-se numa chama, etc. E o cozinheiro (sou eu, todas as semanas faço uma pelo menos) tem os olhos bem aber­tos, é claro, olhando cada gesto seu, as mãos, para pegar em cada cenoura e na faca ou para acender o lume, não podem ficar fecha­das, os braços têm que se abrir para se pegar na panela com as duas mãos, etc. Há que saber abri-los, os olhos e as mãos, de maneira a deixar ser o que se recebe, batata ou panela ou fogo, deixá-los ser segundo o seu ser, tal como são (segundo leis empíricas, diriam os cientistas): coisa que se aprende e que pede habilidade, uns têm-na mais, outros podem ser mais azelhas. Falar a outro implica também que, de olhos abertos, se lhe dirija a palavra por aberturas e encer­ramentos muito seguidos da garganta e da boca, que se escute sem se fechar os ouvidos, que um sorriso abra o rosto ou que, se um ar zangado o fecha, este fechamento seja ainda uma espécie de abertu­ra, ainda que zangada; para se apertar as mãos, houve que as abrir primeiro, são os braços abertos que envolvem o pescoço do outro num abraço, assim como os lábios se abrem para beijar. Todas estas aberturas ônticas são dadas pelo Ser como possibilidades, e para que tais possibilidades não sejam determinismos, obrigações, a pró­pria doa­ção se dissimula, se esconde, se vela. Desvelar permane­cendo velado, é a alêtheia, a verdade em grego heideggeriano. Que na nossa língua, o cuidado dos usos, quando é feito com aber­tura terna ao outro, se chame desvelo, parece indicar que o desve­lamento como verdade também tem a ver com os usos quotidianos, e não apenas com o discurso que pensa.
21. A abertura do cozinheiro supõe nele portanto uma pré-compre­ensão, recebida dos seus percursos passados, são os pressupos­tos, os precon­ceitos, e não é pejorativo, tudo o que se aprendeu no passado, que neste Dasein ‘abriram’ o cozinheiro, o falante que explica uma receita, fez dele al­guém capaz de fazer uma sopa de legumes, com um saber que no seio da abertura lhe permite um certo recuo, uma certa facilidade hábil, uma como que descontração, retração digamos, que é também um ‘poder’ es­condido sobre o ‘aí’, sobre o mundo (culinário), trata-se de possibilidades de agir diferentes para cada um, as suas capacidades, hábitos, talento, saber-fazer ga­nho ao longo do tempo. O possível é o futuro aberto na finitude do nosso mundo-aí e dos seus usos, finitude das nossas capaci­dades, possibilidades de compreender e de usar. Aberto pelo Ser (o Mundo-terra), de que cada Dasein é, ele também, um dos frutos tempo­rais: já que nascido e mortal, a vida jogando-nos (é preciso comer, fazer isto e aquilo, repousar: é a este imperativo que res­ponde o cuidado pelos usos) num tempo que nunca mais volta atrás, finito na sua abertura ao que chamamos porvir. Finitude ou liberdade habitante - com os outros, em usos - na terra que os deu e sempre os reitera, finitude entre nascimen­to e morte, liberdade de escolher segundo os seus possíveis: eis o que o Ser (terra-mundo) dá como temporal e, doando, esconde-se, esconde o seu poder doador como condição da própria liberdade dada.
22. Se está aqui, como creio firmemente, a descoberta inesti­mável de Heidegger, o não-determinismo no coração da liberdade, é óbvio que é um escândalo intelectual que ele tenha aderido ao nazismo (intelectual, antes de o ser político ou ético, ele foi nazi em 33), uma vez que o coração do seu pensamento, já em 1927, é anti-nazi, sem relação significativa nem ao racismo nem ao totali­tarismo. É quase impensável que o pensador não tenha estado à al­tura política e ética do seu pensamento, é a sua finitu­de (como quando se fala em ‘fraquezas humanas’). Seja dito de passagem que não sei de nin­guém que, filho de famílias judaicas e o que melhor compreendeu Heidegger, porque o seguiu para além do seu pensa­mento, não sei de ninguém que mais do que Derrida deva lamentar esta adesão ao nazismo. E no entanto, talvez não seja tão má coisa assim para os filó­sofos que, reclamando-se de Heidegger, tenham em vista uma qualquer intervenção de pensamento no não-filosófico (política, ciências, compre­ensão da civilização actual...), o saberem que tão grave mácula manchou, desde o início, a intervenção do pensamen­to heideggeriano no não-filo­sófico. Que não nos esqueça­mos, mais longe no passado, dos laços indisso­lúveis da tradição fi­losófica às escravaturas grega e europeia, à Inquisi­ção, ao empo­brecimento produzido pelo Ocidente nos países sovietizados e co­lonizados.

Breve história da verdade ocidental: os Gregos
23. Esta verdade dos usos sociais dos humanos nas suas unida­des locais de habitação em qualquer tipo de sociedade, das tribais às nossas, é dita em receitas recebidas dos antepassados (nós saiba­mos ou não quem as inventou) e repetidas tais quais, uma vez que se tem dela os mesmos efeitos - de ‘bênção’ nas tradições, de ‘produtividade’ na mo­dernidade - da habitação na terra, efeitos nunca garantidos, já que os usos podem sempre falhar (azelhices, falências, doenças, desastres). É esta a verdade de ‘partida’, digamos, a do cuidado ou desvelo de todos os usos de tipo empírico, nomeadamente aqueles de que as mulheres fo­ram tradicionalmente encarregadas, os usos dos corpos, da alimentação, da limpeza, da doença. De forma necessariamente elíptica, digamos que a primeira grande ruptura histórica com esta economia quotidiana de des­vela­mento da verdade terá sido consequência da invenção da escrita, a irrupção da primeira grande literatura: Zaratustra na Pér­sia (700-630), Lao-Tseu (640-517) e Confúcio (551-479) na China, Buda na Índia (543-479), os Profetas em Israel (s. VIII-VI), também He­raclito, Par­ménides, Pitágoras, Sócrates na Grécia (s. VI-V). Que faz ela? Abre um novo con­texto social, de novos usos e de novos desejos, na margem dos usos das casas e dos seus desejos de repro­dução. O que há de comum a estas lite­raturas di­versas poderá ser dito assim: buscam intensidades do viver que a reprodução das ca­sas e dos seus usos não satisfazem já; em lin­gua­gem tradicional, são es­colas de exercício espiritual. Mas não 'religiosa', que implica o sagrado ancestral e diz respeito ao todo social (embora da­qui se venham a abrir futuras religiões, sem dúvida); trata-se, antes pelo contrário, de aventuras de experimentação à margem das sociedades estabelecidas, que abandonam os rituais e mitos des­tas (Sócrates e Jesus, por exemplo de margens espirituais cujas escritas tive­ram um alcance civilizacional imenso, foram executados em nome da reli­gião), à maneira, entre nós, de um novo pensamento, poético, filo­sófico, científico, que es­cave quase em silêncio um novo cami­nho: escolas de exercícios espiri­tuais, elas estão na génese do que chamamos cultura, relativa a ante­pas­sados históricos e nomeados (e não o sagrado holístico, de todos os ante­passados). A oposi­ção oci­dental entre a alma e o corpo, não sendo válida sem mais para as tradições asiá­ti­cas, permitirá em todo o caso visualizar o que está em jogo em todas elas: o deslocamento dos prazeres da casa (ou do corpo) para os da alma. Podemos supôr que elas encontraram nos seus discursos formas de enunciar as ‘verdades’ outras que busca­vam, que o nome latino de ‘espirituais’ melhor ou pior designa. Suponhamos que, desfeita parcialmente a relação delas com o mundo sa­grado dos usos ancestrais, essas gentes se encontravam face a uma como que ‘transcendência’ desligada de tais usos e dos desejos que lhes são conatu­rais (de comer e beber bem, de luxo, poder e osten­tação), que eles bus­cavam novos usos austeros adequados a esse mundo espiritual e a sua transmissão além da morte a discípulos.
24. Creio que se poderá encontrar esta problemática em Par­méni­des que teria chamado ‘ser’ a esta ‘transcendência’ à margem da socie­dade de casas grega e ‘não-ser’ à corruptibilidade que se mistura ao ser nos usos e desejos abandonados. Em linguagem cristã, o ‘ser’ seria a bên­ção separada de toda a maldição, inclusive a da morte, a forte motivação espiritual seria a busca dessa pureza do Bem, impossível no mundo das casas e das suas guerras onde bem e mal andam sempre misturados. A grande audácia de Platão em relação a este antepassado eleata, muito antes do parricídio no Sofista, terá sido a de, guardando a ‘passagem espiritual’, voltar todavia atrás e ousar pensar o corrup­tível ou sensível, a de abrir o projecto do seu conhecimento dentro do projecto de repensar a própria cidade: referir os entes dum mesmo eidos, aspecto, viso, a um eidos eterno, imutá­vel, de que esses entes seriam uma cópia, uma reprodução mimética. A leitura heidegge­riana do apólogo da caverna republicana[7] reve­laria esta nova versão da ‘passagem espiritual’: do registo da ver­dade-alêtheia dos usos quotidiano (os encadeados) ao da verdade-idea da Academia (os que sairam para o ar livre e para a luz do sol). Trata-se da passagem à verdade dos com­portamentos escolares de leitura e escrita gnosiológica, na sequência da ruptura com os usos quotidianos. Nesses comportamentos escolares e solares de conhecimento intelectual e espiritual, qualquer ente é arran­cado ao seu contexto de uso e portanto à sua temporalidade contingente (entre geração e corrupção) para receber o brilho, a luz inteligível vinda da sua ideia eterna, a qual aliás também releva da luz da Ideia de Bem (ou Divindade, to théon), Causa de tudo o que é bom, adequado. Esta adequação iluminadora implicará a alteração pro­funda da concepção de verdade: já não o velamento (do Ser doador) e o desvelamento (do com­portamento ou uso), mas a exactidão, de inspiração geométrica sem dú­vida, pois que procurar a ‘medida’ mais exacta possível era característi­ca do pensamento do geóme­tra. As mãos que desenham e escrevem sendo ignoradas, estes com­portamentos escolares são supostos releva­rem unicamente dos olhos. Sem dúvida Aristóteles corrige Platão, traz de volta o eidos a cada ente (ousia: substância-e-es­sência), os vivos nomea­damente sendo compreendidos na sua autonomia, mas sem deixarem o pa­radigma intemporal do texto gnosiológico das definições e argu­menta­ções: a temporalidade será designada por ele como ‘acidental’ (como acontecimento), e acidental também o ‘lugar’ de qualquer coisa (ainda não há ‘espaço’), e essa será a condição da futura universali­dade do conheci­mento, da representação europeia, da ‘ideia’ de algo fora de qualquer contexto.
25. Longo processo este, em que a filosofia, tornada ‘ancilla’ da teo­logia, recebe marcas desta. A Divindade longínqua e inaces­sível de Platão e Aristóteles, não conhecida e não conhecedora do mundo sub-lu­nar, misturou-se ao Deus bíblico criador e fonte de verdade, que ele mesmo revela intervindo na história, um Deus que conhece cada coisa singular e cada coração humano; é em nome deste conhecimento divino dos singu­lares que, na querela nomina­lista, se separará essência e subs­tância, re­tirando aos entes vivos os últimos vestígios da autonomia de outrora, e se abrirá assim a porta à representação moderna, à análise e à síntese, e portanto também à física, em que a inércia dos corpos será uma tese capital. O que teria sido inconcebível para Aristóteles: foi ne­cessário que entretanto o ‘sujeito’ científico se tenha ‘representado’ como um conhe­cedor ‘à semelhança’ de Deus, colocado como se estivesse fora do espaço e do tempo, podendo pois medir estes (transcenden­talidade do sujeito kantiano, inclusive do seu entendi­mento e razão às formas do tempo e do espaço). Com efeito, foi do lado das ciên­cias que houve uma modifica­ção profunda da concep­ção da verdade, que se torna doravante ‘repre­sentativa’, digamos, entre sujeito e objecto; foram elas que levaram as filosofias euro­peias do sujeito a reformular o paradigma ontoteológico, a razão universal humana e as suas representações despedindo Deus mas ocupando-lhe o lugar. Nietzsche terá sido o primeiro a compreen­dê-lo.

Breve história da verdade ocidental: os Europeus
26. Julgo que se pode dizer que houve duas grandes crises eu­ro­peias da verdade, problematizadas nos dois epistemas que Michel Fou­cault nos deu a ler em Les Mots et les Choses: o clássico, em torno da re­presentação, e o moderno, saído da descoberta do tempo irreversível. Em filosofia, foi a incorporação da Física de Newton na filosofia de Kant que deu acabamento à primeira crise, aberta pelo nominalis­mo de Occam; foram Hegel e Nietzsche que abriram a se­gunda, que está acabando na convergência da fenomenologia de Husserl a Derrida com algumas ciências principais do sec. XX, como estou tentando aqui sugerir. Ao cortar a relação entre pen­samento e linguagem e ao subordinar os nomes das línguas aos no­mes mentais, Occam abriu com efeito a contestação europeia de Aristóteles - que, de Tomás de Aquino a Galileu, era dito o Filóso­fo - e da teolo­gia cristã que ele cautionava (o tomismo estru­turou durante vários sécu­los o ensino das escolas europeias): as ‘essências’, separadas das ‘substâncias’ e portanto também dos seus ‘acidentes’, podem tornar-se representações universais, não apenas fora-do-contexto - essa possibili­dade fora-lhe dada já pela invenção filosófica da definição na escola so­crática - mas também e sobretu­do fora do texto, fora da linguagem: o ‘conceito’ liberto do ‘nome’ (do ‘significante’ em terminologia de Saussu­re) é a mais importan­te representação mental. Adequada portanto aos pensamentos mate­má­ticos e físicos, Platão o geómetra tendo sido o aliado desta ex­clusão de Aristóteles o biólogo. Por outro lado, o Renasci­mento, ao mul­tiplicar as formas de inscrição (livros impressos, perspec­tiva, de­senhos de máquinas e de anatomia, cartas geográficas, etc.), esta­be­lecera uma nova relação entre os olhos e as mãos onde o labora­tó­rio, a grande novidade das ciências europeias, se instalará: neles não só se meterá as mãos à obra experimental do conhecimento, além dos olhos, mas também se usarão instrumentos de medida, de experimentação, de dissecação, de análise, e para tudo isto se re­pre­sentará em sínteses teóricas a realidade exterior ao laborató­rio, para poder testar, por hipó­teses, por ficções, cada fragmento da realidade estudado no laboratório. Estes novos comportamentos de conhecimento trouxeram consigo uma longa reflexão sobre a ver­dade e os seus critérios, sobre a lógica e os seus argumentos, a in­tuição, a indução e a dedução, a evidência e as pro­vas, etc., mas donde paradoxalmente as mãos e os instrumentos - o que teria im­pedido o jogo ingénuo das representações - estavam ausentes, com­preendidos sem dúvida como acidental, correlato do narrativo ex­pe­rimental, do empírico, do que se deixava cair na hora da teoria e da sín­tese universalizante por sujeitos em posição monoteista. É óbvio que as coisas não poderiam ter-se passado de outra maneira. O meu texto sobre o Jogo das Ciências tenta mostrar contudo como dois tipos de ‘démarche’, científica por um lado, filosófica por outro, convergiram ao longo do século XX para conseguir ultrapas­sar este impasse repre­sentativo-contemplativo: sem mãos que to­quem o sensível, só olhos para o inteligível, é uma maneira de ca­rac­terizar a metafísica - da verdade herdada de Platão e Aristóte­les. Como se sabe, a razão pura de Kant não tem mãos.
27. Venhamos então à outra grande crise ocidental da verda­de. He­gel, transportado pelo movimento histórico da revolução in­dustrial mas resis­tindo-lhe (não soube pensar uma máquina que funcionas­se[8], o nosso au­tomóvel), ultrapassa Kant pela introdução da histó­ria no projecto do co­nhecimento, um pouco como Aristóte­les ou­trora ul­trapassou Platão pela introdução da physis e da noção de auto-mo­vimento dos vivos. Ora, a história sendo o reino do aci­den­tal, da contingência, do relativo em suma, Hegel não poude le­var o seu projecto a bom termo sem o absolutizar, sustendo-o sobre a teolo­gia cristã que Kant tinha abandonado. Por outro lado, novas ciên­cias - elas também sem relação explícita ao cristianismo do pas­sado - constituem os seus paradigmas em que a temporalidade é axial, a biologia evolucionista, a linguística comparatista, a eco­nomia po­lítica aberta ao progresso, à reforma e à revolução, relan­çam a crise para além de Hegel. Creio que se pode encontrar num texto inaca­bado de Nietzsche, Sobre a verdade e a mentira no senti­do extra-moral (1873), uma espécie de reduplicação do gesto críti­co de Occam acima evocado como abertura da primeira crise, mas o gesto sendo agora con­duzido com outra audácia, já que pondo a questão da própria palavra ou significante, de que ele des­cobre a imotivação das suas primeiras im­pressões intuitivas - descreve-as, em linguagem empirista, como uma dupla metaforici­dade: trans­porte da coisa-excitando-o-nervo à imagem e desta ao som-tornado-palavra - e, por via de consequência, a imotivação do seu significa­do (folha, honestidade) e depois dos conceitos científi­cos. Ora, é a maneira como se usa longamente as palavras e se es­quece a sua ori­gem imotivada, diz ele, que torna possível a verdade como uso so­cial, é essa verdade que permite “[...] qualquer coisa que nunca te­ria podido suceder no meio das primeiras impressões intuitivas: cons­truir uma or­dem piramidal segundo castas e graus, criar um novo mundo de leis, privilégios, subordinações, delimita­ções, mundo que se opõe doravante ao outro mundo, o das primei­ras im­pressões, como sendo o que há de mais firme, mais geral, mais co­nhecido, mais humano e, por isso, como o que é regulador e impe­rativo. [Ora, diante deste] grande edifício dos con­ceitos [... d] este jogo de dados dos conceitos [...] há que admirar o homem por ser um pode­roso génio de arquitectura que conseguiu erigir, sobre fundamentos móveis e como sobre água corrente, uma catedral con­cep­tual infini­tamente complicada: na verdade, para encontrar um ponto de apoio em tais fundamentos, é preciso que seja uma cons­trução feita como que de fios de aranha, suficientemente fina para ser transportada com a onda, suficientemente sólida para não ser dispersa ao menor sôpro de vento. [...] Há aqui muito que admirar, mas não pelo seu instinto de ver­dade, nem pelo puro conhecimento das coisas [...]”[9]. O “jogo de dados dos conceitos”, a exibição do jogo imotivado da linguagem, inverte a repre­sentação que Occam havia outrora torna­do possível. Nietzsche é o pri­meiro grande filó­sofo da relatividade (que ele dirá perspectivismo, sem evitar o re­lativismo ou niilis­mo). A crise será o desafio a pensar o tempo da história e o jogo do texto dum pensamento que não releve antes de mais do ‘eu’, da consciência. Saussure sistematizará a linguística em torno do moti­vo da imotivação e do carácter diferencial da significante (comparado justamente ao jogo de xadrez), Freud psi­canalisará o incons­ciente em torno do jogo associativo do discurso dos sonhado­res. Heideg­ger, parmediano, pensará o discurso-pensa­mento como o mesmo que o ser dos entes ditos-pensados. Estes três pensadores obrigam assim a regressar ao texto como lugar de verdade, e mesmo ao contexto da sua es­crita, levando o gnoseológico filosó­fico a re­cordar-se do seu laço escondido aos textos narrativos e dis­cursivos dos usos quotidianos. E foi assim que Heidegger retor­nou aos Gre­gos, mais precisamente, retornou a Aristóte­les e à sua auto­nomia dos vivos, mas levando consigo a temporalidade como in­trínseca à realidade e não mais acidental; com efeito, o motivo da cena-Ereig­nis reencontra a mesmidade da ousia aristotélica mas sem se opôr ao acidental: o jogo dos retiros ou retrações inverte a ousia, abre-a para fora do seu ‘auto’ e escava nela um lugar estrutural para o aleatório, o da sua relação aos outros.

Acabamento e ultrapassagem da metafísica
28. Ora, com a temporalidade, Heidegger traz também a rela­tivida­de, e é onde a modernidade acaba e ultrapassa a metafísica: o ser (a physis, a natureza de Aristóteles, a Terra) e o tempo (a his­tória do Mundo pen­sada-escrita), os Gregos e os Hebreus. É Derri­da quem tem em conta todos estes movimentos e outros ainda (como a crítica marxista de Hegel, por exemplo importante), quem tem em conta o jogo da linguagem, da diferença e do tempo, mas sem es­quecer Husserl, a sua epoché, a sua preocupação com as ciências europeias em crise epistemo­lógica, que não perde portanto Platão e a distância do pensamento como possibilidade de ruptura (é isso um laboratório de ciência: supõe a redu­ção fenomenológica e a sua quase-transcendentalidade), Derrida que sabe melhor do que nin­guém que não se pode pensar nem conhecer se­não em texto e con­texto (“crescente consciência da dificuldade de pen­sar”, dizia dele Lévinas), apenas ele tornará enfim possível que a fieira feno­meno­lógica de Husserl-Heidegger chegue a bom termo na direcção da sua convergência com a das ciências evocadas.
29. Eis como eu resumiria essa chegada a bom termo. Husserl ence­tou a ruptura com a separação entre pensamento e realidade, ou seja, entre o sujeito e o objecto do comportamento escolar de co­nhecimento, que enfiava a filosofia-das-ciências nas questões sem saída de metodologia e das rela­ções (de exterioridade) entre teoria e expe­riência: a intencionalidade foi um passo decisivo para o re­torno à mesmidade parmediana pensamen­to-ser-discurso, mas fa­lhou este último; a fenomenologia, sem conseguir largar a repre­sentação (a idealidade colocada antes do signo), guardando o laço ao privilégio (platónico) da teoria matemática, pensa essa mesmi­dade como re­petição estrita, destacada dos pressupostos metafísicos de existência empírica (redução do substancialismo). Foi esse laço que Hei­degger cortou com nitidez: segundo ele, as ciências e a filo­sofia ocidental, sua aliada, permanecem derivadas, segundas, em relação ao discur­so do Ser (dizendo respeito aos usos quotidianos do Mundo e da Terra), o qual Ser dá todos os entes temporais, re­servando-se ele para que a finitude deles possa ser; a redução fe­nomenológica in­verter-se-á, se se pode di­zer, são todos os pressu­postos substancia­listas da tradição metafísica que serão doravante a destruir para se reencontrar o ser como diferença (para com os entes) e tempo, portanto como retiro e destinação; é a poe­sia que tem agora o privilégio de ser a vizinha do pensamento do Ser, o percurso hei­deggeriano acabando-se pelo motivo do Ereignis e do seu jogo, que permite compreender o conceito de cena científica proposto para as espécies biológicas e as línguas humanas. Derrida retoma a he­rança destes seus dois antepassados, deslocando o mesmo da redução hus­serliana das idealidades para o significante (saussuriano e quase nietzschiano) como diferença que se repete num jogo (polémico porque energético) em que o outro é primor­dial, a sua ‘trace’ re­servada inscre­vendo-se para que o mesmo seja espaçado-temporali­zado (constituido ou alterado), se­gundo uma intriga ligada a duas leis, simulta­neamente inconciliá­veis e indissociáveis. Aqui já não há privilégios, as ciências têm o seu lugar tal como a grande literatura moderna marginal, a repeti­ção husserliana jun­tando-se à diferença heideggeriana.
30. Por seu lado, a caminhada de algumas ciências na direcção desta convergência com a fenomenologia poderia ser dita assim. Cada uma delas encontrou uma nova cena entrópica, aberta por um duplo retiro, estrito e alargado, com uma nova ‘lógica’ que procu­rei exemplificar com o automóvel para a biologia e a linguística estrutural: por um lado estruturada e dissipativa, que portanto se repete, isto é, se re­produz em circunstâncias aleatórias, e por outro lado oscilando entre pequenas repetições automáticas com poupança energética máxima e as intensidades dos acontecimentos que resul­tam dos en­contros com o outro, levando a entropia “até ao fim do que eles podem”, como diria o Nietzsche de Deleu­ze[10]. Esta nova lógica é a de cada cena científica, de cada uma das suas espécies, de cada um dos seus indivíduos, de cada célula, das sociedades, dos seus siste­mas de useiros, de cada uso, das línguas, das culturas, de cada texto: haveria algo de ‘fractal’ neste motivo da ‘cena’ ou Ereignis, que se desdobra em qualquer escala segundo uma mesma configura­ção, sempre segundo o aleatório da lei da selva ou do conflito entre falantes, uma vez que não há reprodução do mesmo sem o outro (que se come, se repete, se cita, com quem se sonha). Não há nada de absoluto aqui: a “verdade” de cada cena, espéce, indiví­duo, sociedade, língua e cultura, é a da sua reprodução atra­vés de outrem, a da sua afirmação pelo adiamento ou diferança da sua morte, enquanto se a consegue e nas condições aleatórias desse con­seguir que passa pela troca ou conflito com o outro. Com efeito, é a reprodução conseguida no longo tempo - selecionada na evolução (Darwin) e vale bem além da biologia e das suas regras -, na flecha irreversível do tempo (Prigogine), é essa reprodução que mostra a verdade de cada cena, verdade essa que a ciência demons­tra quando encontra as suas molas retiradas. Esta verdade, se se me seguiu, é a heteronomia dada (que se esconde, dissimula) como au­tonomia ou abertura de cada indivíduo: é alêtheia, desvelamento que se vela, que “gosta de se esconder” (Heraclito, fragm. 123). “A verdade perten­ce, enquanto alêtheia, ao próprio ser: physis é alê­theia, desclosão no aberto, e por essa razão gosta de se esconder” (Heidegger, Questions II, p. 276).

Uma verdade relativa mas estável no futuro
31. Ora, como essas ciências também são instituições sociais, segun­do a teoria dos paradigmas de Kuhn, é mais do que provável que, na reprodução social das ciências, es­tas descober­tas se mante­nham estáveis, isto é, verdadeiras no futuro próximo, ainda que continuando as investigações dos deta­lhes de sistemas indefini­da­mente com­plexos, é claro, e claro tam­bém que sendo objecto de di­versi­dade e conflito de inter­pre­ta­ções: exemplo célebre é o que su­cedeu à fí­sica de Newton com o sur­gimento da da relatividade, isto é, sem que ela tenha deixado de ser verda­deira, já que nem a rela­tivi­da­de nem a me­cânica quân­tica nem a física das partículas são pos­síveis sem instru­men­tos construidos a partir da física de Newton. Digamos que me pa­rece certo que estas grandes desco­ber­tas do século XX não mais deixarão de fazer parte da verdade da ci­vili­zação ociden­tal, en­quanto esta durar. É da estabi­lidade desta, hé­las! que há mais ra­zões para duvidar.
32. Se nos recordarmos de que Husserl foi essencialmente motiva­do pelo dese­jo de unificação do campo das ciências, o que tentei su­gerir implicará que o tra­balho dos seus dois discí­pu­los dissiden­tes aqui invocados realiza, inesperadamente por certo, esse desejo. Pode­remos então pen­sar que a convergência entre o trabalho da fieira filosófica Husserl-Heideg­ger-Derrida cobrindo todo o século XX (o primeiro texto de feno­menologia, as Investiga­ções lógicas, foi publicado em 1900) e o de al­gumas das principais ciências do mesmo século, essa convergên­cia, supondo um imenso aleatório sem dúvida, responderá a uma forte desti­na­ção escondida na história do Ocidente greco-eu­ropeu, aquela que Hei­degger sem­pre obstinadamente procurou. Há uma ideia muito corrente, até em espíritos pouco propen­sos ao rela­tivismo, segun­do a qual as ver­da­des científicas são pro­vi­sórias, são erros adia­dos; julgo que a honra de al­guns dos maio­res cientistas e pen­sa­dores deste tão cruel e marti­rizado sé­culo XX será a de te­rem des­mentido essa ideia cor­rente, tão con­trária aliás à epopeia de pai­xão pela verdade científi­ca que atra­vessou a modernidade eu­ro­peia desde os seus alvores com Co­pérnico, Ke­pler, Galileu e Newton. Um outro exemplo, sem dú­vida pouco co­nheci­do, da es­tabilidade científica dum trabalho de dois séculos é o da lin­guísti­ca comparada, fonologia e sintaxe, das lín­guas indo-europeias, ini­ciada com Bopp (1816) e que Du­mézil, úl­timo elo da Escola de Paris (Bréal, Saussure, Meillet, Ben­veniste e Dumézil), completou com a desco­berta da lógica tri-funcional da estrutu­ra da sua mi­to­logia[11].
33. Será entendido como uma provocação, se eu terminar di­zendo que o que disse aqui, neste texto, é verdade? Que não é ape­nas a 'minha' verdade, como muitas vezes se pretende, sem se sair do relati­vismo subjectivista? Ou esta pretensão será um dog­matis­mo? Entre dogmatismo e relativismo que alternativa há? Tudo é rela­tivo: esta des­coberta moderna, que já desponta na teoria do mo­vimento de Galileu, antes de ter sido explicitada por Einstein, e que tentei aqui mostrar ser a de outras ciências tam­bém, esta des­coberta moderna é o que está a as­sombrar a mo­dernidade, nos dois sentidos do termo, o do espanto e o do terror, modernidade que não deixa de se referir, negando-o embora, ao paradigma do abso­luto, e é isso o niilismo, o relati­vismo. Os valo­res me­tafísicos, a alma grega e o coração hebraico separados do corpo, da casa e da terra pelas escritas fundadoras, a platónica e a bíblica, essas ficções que nos foram dadas como eternas, revelam-se hoje his­tóricas, aconte­cimentos de outrora, experiências espiri­tuais e in­te­lectuais muito inten­sas; será a própria modernidade, grá­vida da técnica saída das ciências, que está a acabar a metafí­sica, a cum­pri-la - o que implica sem dúvida que a técnica conti­nuará a ne­cessitar de metafísica para continuar a re­produzir-se - mas tam­bém a acabar com ela, a desconstruir-se a si pró­pria no que Niet­zsche chamou a 'morte de Deus' e dos seus valores: tudo é históri­co e relativo, diz a modernidade. Ou seja, tudo sendo histó­rico, nada pode ser com­preendido senão no seu contexto, nenhum contexto prevalecendo, de direito, sobre os outros. E eu, que não sou alma nem sujeito transcendental, tam­bém não sou exterior ao contexto históri­co que me instituiu como falante e pensante, o que torna os outros contex­tos relativos ao meu, e por isso mesmo me coloca numa situação singular. Por um lado, não posso pensar senão com palavras dos outros, a par­tir de outros textos que li, de pensamentos que escutei; por outro lado, não posso pensar sem ter consciência de pensar pela minha cabe­ça, sem an­tepassados. Eu não posso manter simultanea­mente es­tas duas afirma­ções: "tudo o que penso, e antes de mais as mi­nhas palavras, vem-me de ou­tros" e "eu penso pela minha cabeça, não dissimulo, não minto, não estou louco". Esta, é a afirmação da mi­nha própria consciência, o 'cogito' que Descartes colocou no fun­damento do seu pensamento; aquela, que refuta este funda­mento cartesiano, só pode ser dita tomando distância em relação ao 'eu penso', só pode ser dita na terceira pessoa. Estas duas afirmações, inconciliáveis à minha consciência, são fenomenologicamente indissociáveis: são o duplo laço, o double bind, que me instituiu como falante e aprendiz do saber dos adultos do meu tempo. Trata-se justa­mente do retiro heideg­geriano: se, quando eu falasse, tivesse cons­ciência de que outros falavam na minha voz, não poderia fa­lar, estaria aluci­nado, louco. É preciso que aqueles que me deram a fala, quer voz, quer dis­curso, aqueles que me a continuam a dar, estejam retirados, de­sapareçam, se dissimulem absoluta­mente, para que eu seja falan­te e pensante. O que não me impede, é claro, de ter a ex­pe­riência que Nietzs­che formulou assim: "um pensamento vem quando 'ele' quer e não quando 'eu' quero" (Para além do Bem e do Mal, § 17). Foi a força inaudi­ta de experiências assim que leva­ram Sócrates e os ou­tros filósofos, e também os profetas bíblicos, a referirem a sua alma ou palavra a uma instância divi­na: como poderiam eles ter re­cebido tão inaudita novidade dos seus mestres e an­tepassa­dos?
34. O contexto ou paradigma da minha fala e acção com ou­tros implica consti­tutivamente critérios históricos de verdade, her­dados, mas também reavaliados par­cialmente (é por exemplo o que estou tentando aqui). Só a partir desses critérios é que eu posso falar, isto é, afirmar a verdade da minha fala, do que escre­vo, do meu pen­samento, por vezes mesmo contra a verdade dos mestres e autores que me deram ao pensar; por outra parte, só em outro mo­mento de mim, a uma certa distância, posso reconhe­cer essa verda­de como histórica, com origem nesses mes­mos mestres e auto­res, e portanto relativa, segundo os contextos. Estra­nha verdade, que tem tanto em conta a necessidade das re­gras que os la­boratórios cientí­ficos descobrem com muito traba­lho como o aleatório dos encon­tros com o outro sem os quais a (verdadeira) re­produção não se faz. Ora, esta ver­dade que me vem da história, que não é absoluta, em que é que ela merece o nome de verdade? Eu diria, e seria a minha úl­tima invocação da lição de Heidegger-Derrida, que é a verdade que, desde a Idade Média, desde antes de a Europa se constituir, se veio a inscrever na semântica das nossas línguas, como força-e-sentido e por força-e-sentido das grandes obras (de pequenas também) que fize­ram/desfizeram a nossa civili­zação mo­noteista ocidental, a qual continua a transfor­mar-se em vagas osci­lantes, por crises cíclicas e recomeços de outros ciclos que re­petem e al­teram os ante­riores, é a verdade está­vel / instável da sua inces­sante reconstrução / desconstrução.
[1] Na segunda metade do século V, segundo E. A. Havelock, The Literate Re­vo­lution in Greece And its Cultural Consequences, 1982, Princeton, e The Muse Learns to Write, 1986, Yale, W. J. Ong, Orality and Literacy, 1982, Lon­dres and New York, citados por J. Trindade dos Santos, Antes de Sócrates, 1992, Gradiva, p. 24.
[2] Na medida em que a no­ção de movimento (bem di­ferente entre eles sem dúvi­da, como diferen­tes são a nossa bio­logia e a nossa física) está no eixo dos seus sis­temas (ver o Manifesto, § 59-60, no outro blogue).
[3] [Quanto às ciências das socie­dades, as grandes descobertas são as de Lévi-Strauss, dizendo respeito à es­truturação do paren­tesco das sociedades tribais em torno do in­terdito do incesto e da con­sequente exoga­mia, so­cie­dades essas que assim se tecem en­tre li­nhagens patriarcais (em geral) que a cada geração se alte­ram pelo acolhimento de uma mulher de uma outra linhagem, as­sim a mes­midade de cada uma, ao se alterar, se articu­lando com o con­junto das outras li­nhagens para tecerem o mesmo so­cial, com os mesmos antepassados e mitos. Estaremos ainda à es­pera que a história e a sociologia se­jam capazes de se ree­labora­rem em con­sonância com a antro­po­logia, para que se chegue a um concei­to de socie­dade e dos seus mecanismos de transformação que seja váli­do uni­versalmente. O quarto tipo de ciência do século XX que haveria que invocar aqui, ini­ciada aliás pela publicação, no ano mesmo de 1900, dum dos mais fa­bulosos "livros de filosofia" que houve no século, a Interpretação dos sonhos, de Freud, a psicanáli­se, tem um estatuto científico muito es­pecial e controver­so. Ela tem o in­teresse por um lado de atra­vessar os domínios das outras três in­vocadas: parte do discur­so do pacien­te e sem nunca abandonar o terreno da linguagem, dá conta da estruturação do psi­quismo sob a alavanca, digamos, do eixo social que é o interdito do in­cesto, e vai, através duma teoria das pul­sões, encontrar a sexualidade que a evolução inventou precocemente, e com ela o nascimento e a morte, o indivíduo separado dos seus pro­genitores, as condições da aprendizagem: será de espantar que seja destes dramas que o psi­quismo inconsciente se tece? Ao mesmo tempo que a psicaná­lise assim articula três grandes domínios científicos, ela descobre-nos como o nosso psíqui­co es­trutura a sua identidade a partir das relações aleatórias com os nos­sos familia­res e próxi­mos, como os nossos sonhos revelam que essa identidade se com­põe de "con­densações e deslocamentos" das imagens dos outros, como ela se con­quista gradualmente, não a partir dum cres­cimen­to interno, como se acreditava, mas duma ruptura progressiva e nunca aca­bada com a cena do teatro familiar em que o nascimento nos in­seriu violen­tamente: o interdito do incesto, lei es­sencial da socie­dade, é o que provoca essa ruptu­ra, e desse recalcamento e do super-ego das leis morais resulta o motor essen­cial do psi­quismo, da sua iden­tidade, da sua lei de autonomia nas relações aleatórias com os outros. (Foram leituras de Freud e de Hegel que permi­tiram a Derrida formular o 'dou­ble bind' das leis inconciliáveis de que será questão adiante.)]
[4] Im­perfeita, visto que há acidentes, avarias, engarrafamentos, zangas, como noutros domínios há doenças, fomes, injustiças.
[5] Como se o cientista fosse um discípulo atrasado da absurda predestinação de Santo Agostinho.
[6] Ser e tempo, § 10. O ‘espírito’ voltará ao discurso heideggeriano, Derrida traçou-lhe a história que passa pela adesão ao nazismo, em De l'esprit.
[7] “La doctrine de Platon sur la vérité”, Questions II, Gallimard, 1968, trad. A. Préau.
[8] Derrida, “Le puits et la pyramide”, Marges - De la philosophie, 1972, Minuit, p. 126.
[9] Nietzsche, “Introduction théorétique sur la vérité et le mensonge au sens ex­tra-moral”(1873), in Le Livre du philosophe, (trad. A. K. Marietti), ed. bilin­gue Aubier Flammarion, 1969, pp.185-187.
[10] Nietzsche et la Philosophie, PUF, 1962, pp. 65-67.
[11] Mas a Linguística fornece também um contra-exemplo, já que a corrente que descobriu o mecanismo de autonomia da linguagem, de obediência saussuriana, que aqui privilegiei, foi destronada por uma outra, gerativa ou chomskyana, hoje dominante, que ignora esse mecanismo e me parece claramente redutora e não explicativa dos fenómenos linguísticos e da sua articulação com o que de­les mostram outras ciências. Trata-se dum recuo da história, que justamente é pródiga em avançar e recuar. Obviamente que a minha posição aqui é filosófi­ca, e não a de adivinhação do empírico e aleatório. É provável, ou pelo menos possível, um refluxo um dia, que mais dizer?

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

João Paisana (1945-2001)

PAISANA, LEITOR DE HUSSERL E HEIDEGGER
A ESTRUTURA ‘ENQUANTO QUE’

João Paisana, Fenomenologia e Hermenêutica. A relação entre as filosofias de Husserl e Heidegger, Presença, 1992

Continuidade e ruptura entre os dois filósofos
Intencionalidade e estrutura 'enquanto que'
Da intuição sensível à intuição categorial
O ser liberto da cópula do juízo

1. João Paisana (1945/2001) era um filósofo claro e um homem bom.
2. A Professora Manuela Saraiva regressando de Sevilha, do VIII Congresso Internacional de Fenomenologia em Maio de 1986, dizia que o João Paisana era o nosso melhor especialista em fenomenologia, de nível internacional, que ele foi um sucesso. Na minha cabeça isto significava: Paisana com Husserl. Donde o meu espanto quando li a tese dele: o João era um heideggeriano! embora apenas do I Heidegger, dos anos 20-30, do Sein und Zeit , que em relação ao II Heidegger, dos anos 35 e depois, ele confessava-me, como aliás é frequente (sucede também com Fernando Gil, por exemplo importante em Portugal, se bem me lembro duma mesa redonda no Jornal de Letras em 1989), que não lhe entendia as questões.
3. Tinha razão a professora, ele criou escola, como se diz, um dos seus doutorandos, dos mais próximos dele, dizia-me há tempos que a sua geração de fenomenólogos tinha conseguido entrar na imensa floresta dos textos de Husserl através da tese do João Paisana. Esta morte estúpida atinge o trabalho dele em fenomenologia quando começavam a ver-se-lhe os frutos, num seminário de mestrado, um pequeno grupo de doutorandos, uma associação portuguesa de fenomenologia, uma revista.
4. E era um homem bom: os doutorandos dele eram também um círculo de amigos, gostosos de viver, de estarem juntos em torno duma mesa a comer e beber, de brincar, de conversar até altas horas da noite.

Continuidade e ruptura entre os dois filósofos
5. A sua grande obra, a tese intitulada Fenomenologia e Hermenêutica, a relação entre as filosofias de Husserl e de Heidegger, é uma introdução muito clara à fenomenologia de Husserl, uma introdução muito clara à filosofia do I Heidegger, o de Sein und Zeit, uma introdução muito clara à questão da relação entre ambos, a questão da continuidade e ruptura de Heidegger em relação a Husserl analisada através do conceito de estrutura ‘enquanto que’. Muito clara não significa que não seja discutível, obviamente, como tudo em filosofia, mas como esta questão da articulação dos dois maiores da fenomenologia do século XX foi fundamental no meu próprio trabalho, e em relação a ela e aos textos que analisa e compara (entre 1900 e 1930 no essencial), eu sou discípulo de Paisana, o que sei com ele aprendi, falta-me a competência para a discutir. Limitar-me-ei a testemunhar, cingindo-me o mais possível ao texto, mas não posso deixar de assinalar a minha postura de fim de século, atento não só ao II Heidegger como a J. Derrida, herdeiro francês comum dos dois pensadores alemães, que retoma, duma certa maneira pró-husserliana e ao invés de Heidegger, a aliança filosofia-ciências. Começarei por realçar os grandes traços da problemática do passo de um a outro, aquilo que o segundo guarda do primeiro e aquilo em que rompe com ele, quer radicalizando-o, quer invertendo-lhe as prioridades. Tentarei em seguida resumir alguns aspectos essenciais da argumentação de Paisana sobre o conceito de estrutura ‘enquanto que’ em Husserl, a qual lhe permitirá ilustrar a continuidade e ruptura de Heidegger. E aí terminarei.
6. É a ruptura que salta à vista desarmada de qualquer leitor husserliano que aborde Ser e Tempo. Os dois motivos deste título, se não estão completamente ausentes da problemática fenomenológica de Husserl, têm em todo o caso um lugar nitidamente secundário. Diferentes também os interesses extra-filosóficos. O filósofo Husserl tem também formação universitária na área da matemática e procura - desde os seus primeiros textos pré-fenomenológicos, sobre o número e a aritmética, até aos últimos, sobre a crise das ciências europeias e a origem da geometria - conseguir que a filosofia (precisará: a fenomeno¬ogia como ciência universal da consciência) possa fundar as restantes ciências. Heidegger será conhecido por ter voltado as costas a esta preocupação, que considera derivada, segunda, e por ter vindo a perfilhar a busca de vizinhança com a poesia, nomeadamente a de Hölderlin.
7. Muito diferentes ainda as concepções filosóficas em relação aos humanos. Husserl não abandona nunca a posição de partida na consciência perceptiva de coisas, definindo-a pela intencionalidade (“a consciência é consciência de qualquer coisa”) e colocando num segundo momento quer a consideração do horizonte vital em que as coisas são, quer a da linguagem predicativa sobre essas coisas. Primado assim do presente da intuição sensível (percepção) em relação aos instantes passados e futuros, do ante-predicativo e da ausência radical de pressupostos, à maneira da dúvida metódica cartesiana mas em vista da indubitabilidade dos actos imanentes da consciência. Enquanto que Heidegger concebe os humanos como abertos ao ser além das coisas: seres-no-mundo onde cuidam das coisas que lhes estão disponíveis, como entes que se definem por questionarem o sentido do ser das coisas e o sentido do seu ser (e se definem portanto também pelo discurso), pelos pressupostos que lhes permitem compreender no mundo os seus possíveis, pela temporalidade como horizonte da questão do sentido do seu ser.
8. Em tão vasto espectro de diferenças - para Heidegger, o que preocupa Husserl é apenas uma das possibilidades dos humanos, a que tem a ver com o conhecimento filosófico e científico, que chama apofântico, coisa de pouca gente, enquanto que ele se ocupa da interpretação que chama hermenêutica, a da habitação quotidiana de qualquer humano -, eles mantêm em comum a crítica da oposição (como exterioridade recíproca) clássica europeia entre sujeito e objecto, intencionalidade no primeiro, ser-no-mundo no segundo, e mais precisamente a crítica da ‘naturalização’, como ‘res cogitans’, da consciência: pela redução fenomenológica desse substancialismo que no primeiro faz ressaltar a diferença fenomenológica entre o objecto aparecendo e o seu aparecer fenomenal, e no segundo se pode dizer que se traduzirá em diferença ontológica . É esta ruptura-continuidade no passo de Husserl a Heidegger que Paisana ilustra muito claramente, restituindo o contraste das concepções da estrutura ‘enquanto que’ em ambos os autores.

Intencionalidade e estrutura ‘enquanto que’
9. Na sua maneira habitual de iniciar cada capítulo resumindo-o claramente, a introdução de Paisana destaca como na fenomenologia hermenêutica de Heidegger “iremos dar especial atenção à estrutura da interpretação, à estrutura ‘enquanto que’ (Als Struktur)” (p. 12), “que permite um primeiro acesso ao ente” e “articulando o sentido, funda a possibilidade da interpretação e, como tal, a constituição do ente em objecto” (13). Em Husserl, “praticamente ignorada”, “esta estrutura (als was) encontra-se [...] sobretudo nas Logische Untersuchungen, sob a designação de matéria intencional do acto [...] que o autor praticamente identifica com a significação do acto intencional” (13-14), sendo através dela que se pode esclarecer a relação entre intuição sensível e categorial, que será o “ponto quente” da questão entre os dois autores.
10. Para evitar os escolhos do psicologismo, querendo que “a imprecisão das leis empíricas da [...] psicologia experimental” dê conta da “precisão, clareza e necessidade das leis lógicas”, a fenomenologia será a “disciplina que tenha por objecto o estudo da consciência enquanto intencional, a qual se deverá desenvolver inteiramente a priori” (31). Isso implicará “desnaturalizar a consciência” (39), recorrendo à intencionalidade de Brentano, ao “objecto aparecente como tal”, de que distinguirá o “aparecer (Erscheinen) do próprio objecto” (42) : este é o fenómeno, segundo Husserl, a “vivência intencional” do objecto (imanente à consciência), não o objecto em si (que transcende o que é dado à consciência). Esta vivência não é ‘objecto’ da consciência, esta pode tematizá-lo apenas por reflexão, não empiricamente (44); ela não é “substancial”, “não tem qualquer essência para além daquela que lhe é conferida pela sua relação intencional” (46), o seu sentido, o qual, “permanecendo identicamente o mesmo, não é um momento real empírico da vivência, mas um momento meramente ideal”(47), sendo no entanto sentido do objecto, é isso a intencionalidade. É o que permitirá que “o mesmo objecto possa ser visado como identicamente o mesmo através de uma multiplicidade de actos distintos” (49), ou até que se possa “falar de objecto intencional mesmo quando o objecto visado realmente não existe [...], o deus Júpiter, por exemplo” (50). O conteúdo real das vivências será “acessível [...] às ciências empíricas, o conteúdo intencional, porque ideal, exige [...] uma verdadeira fenomenologia do conhecimento” (55).
11. Distinguida no acto ou vivência intencional da consciência a sua “qualidade” (percepção, imaginação, recordação) da sua “matéria intencional” (o objecto visado), esta será precisada mais estritamente como objecto intencional (58): “o objecto [que] apenas é visado enquanto determinado de tal ou tal modo” (55), “isto é, segundo a estrutura enquanto que (als was)” (58). É esta matéria intencional “que torna possível e funda” “a simples relação ao objecto” (ibidem), “lhe confere eminentemente uma relação a uma objectividade”, “confere sentido à vivência intencional” (59). É esta matéria intencional ideal que permite à consciência visar o mesmo objecto em actos psíquicos múltiplos, enunciar um juizo cuja significação idêntica se repete, constituir a “validade objectiva do [seu] sentido” (61), antes de se pôr a questão da verdade do seu conhecimento (que depende da “intuição [...] como preenchimento de uma intenção significativa”, p. 67). Esta análise pressupõe pois, Paisana sublinha-o, a desnaturalização da consciência (60), um passo além, acrescente-se, da oposição clássica europeia entre sujeito e objecto, da respectiva exterioridade segundo a aparência empírica, passo esse que é bem expresso pela célebre palavra de ordem do “regresso ‘às coisas mesmas’, e com tal afirmação se pode resumir toda a metodologia própria à investigação fenomenológica”: “não nos devemos centrar no estudo das vivências psíquicas no seu aspecto empírico, mas no seu aspecto intencional, [...] nos próprios objectos eles mesmos e no modo como são presentes” (64).

Da intuição sensível à intuição categorial
12. Para que, a partir de intuições sensíveis ou actos de percepção, únicos fundadores do conhecimento numa fenomenologia da consciência intencional (posso visar objectivamente uma sereia ou o deus Júpiter, não os conheço porque nunca me apareceram), o conhecimento de tipo científico, com juizos de essência, seja possível, Husserl propõe, de forma arriscada em relação à tradição filosófica europeia, mormente a de Kant (discutido nas pp. 68-72), que haja intuições de generalidades ideais preenchendo intenções significativas que as visam, a partir do dado imediato da experiência directa: “quando intuitivamente trazemos a ‘cor’ à plena claridade, ao pleno ser dado, o dado é uma essência”, escreve Husserl (cit. p. 67). Reformula em consequência e alarga a noção de experiência, assim como a de a priori, correlativo deste dado. Não é no entanto esta intuição eidética ou de essência (de que será correlativa a redução fenomenológica) que interessará Paisana, mas o passo intermédio, da intuição sensível à intuição categorial, a maneira como esta alarga aquela, que é aonde incidirá a crítica de Heidegger em ruptura.
13. Paisana assinala, nas primeiras páginas do seu 3º capítulo, “A Fenomenologia como ciência”, a dificuldade crucial: como pode ser fundamento geral das ciências e da própria filosofia uma disciplina que tem um objecto circunscrito, a consciência? (76). A redução fenomenológica pretenderá resolver a dificuldade, mas pagando o preço de regressar “à tradição da filosofia dos tempos modernos”, dirá Heidegger, ao idealismo que “reduz toda a realidade à própria consciência”, acrescentará Th. Celms (78-9). Paisana mostrará mais tarde como tal dificuldade desaparece em Heidegger, cuja ontologia fundamental (com método fenomenológico) não tem objecto (o ser não é ente; finito, o Dasein não é fundador), sem todavia sublinhar o preço que, por sua vez, teve que pagar: o abandono das preocupações husserlianas com as ciências, desconsideradas, a par da metafísica, pela sua posição derivada, apofântica.
14. É a intenção significativa que visa o objecto e é ela que a intuição sensível deste vem preencher, determinando-a e pressupondo-a, mas não a fundando. É este preenchimento que funda o conhecimento (81-2), o qual confirma (ou não) uma significação prévia, em continuidade com a concepção escolástica da verdade como adequação entre a coisa e o intelecto (82-3), é ele ainda que permite a evidência num acto posicional (93). Adequação que nunca é total, já que o objecto é mais visado como o mesmo do que dado na intuição, que é múltipla e sempre perspectivada de forma particular: “deveremos assim encontrar algo, já na própria intenção significativa, que orienta a intuição [...] a matéria intencional, que nós traduziremos por estrutura enquanto que” (85). É esta com efeito que visa “tal objecto e precisamente de tal modo [...] rigorosamente enquanto o mesmo” (e não dados sensoriais brutos), escreve Husserl (86-7), é ela que faz com que os momentos intuídos reenviem com necessidade ao objecto, sejam necessariamente orientados por uma talidade (88).
15. Alarga-se assim a noção de intuição como acto de preenchimento: de objectos simples, em posição absoluta (intuição sensível, ante-predicativa) a objectos complexos ou relacionais (intuição categorial, predicativa, do tipo S é P), que Husserl chamará “estados-de-coisas”, igualmente com estatuto alargado de objecto (95-7). Os primeiros fundam os segundos; em termos do conhecimento desses objectos, alarga-se também, a partir da análise da significação, a noção de constituição a objectos não sensíveis (97-101). Neste passo da intuição sensível ao estado de coisas que é o objecto de intuição categorial, introduz-se nesta o ser, que também é dado, não sensivelmente, mas num ente intuido sensivelmente: este ser, sendo o que permite fundar a cópula ‘é’ do juizo S é P (94-5), é dado em excedente de significação, correlativo do estado de coisas articulado, tal como na intuição sensível o visado excede o intuído (102-3); ora, segundo Paisana (em discussão com Taminiaux), é justamente a estrutura ‘enquanto que’ quem permite esse excedente, já que é ela que identifica o objecto como o mesmo e como tal objecto (103-6). É ela que permite o excedente de ‘algum’ e ‘é’ no juizo ‘algum S é P’, em que apenas S e P são fundados em intuição sensível. Em “o oiro é amarelo”, explicita Paisana, o objecto intencional (determinado) é o oiro enquanto amarelo e o intuído (determinação) o amarelo enquanto atributo do oiro (106-7). Relativamente independente do conteúdo sensorial intuído, a intuição categorial presta-se assim à passagem ao nível da formalização (107). Conclusão de Paisana: “o paralelismo entre intuição sensível e intuição categorial fundamenta-se no facto de em ambos os casos o objecto só pode ser visado através da estrutura ‘enquanto que’, da matéria intencional do acto” (108).

O ser liberto da cópula do juizo
16. Em tudo isto, a palavra ‘objecto’ vem constantemente: donde é dada a objectualidade do objecto? pergunta Heidegger. Este, que é percebido, é uma “substância”, em Kant “uma categoria do entendimento” (116): “segundo Heidegger, ‘intuição categorial quer dizer estritamente uma intuição que dá a ver uma categoria’” (117). Está aqui o ‘ponto quente’ da fenomenologia do mestre, por onde o discípulo pega e rompe: “o grande mérito de Husserl terá consistido, através das suas investigações sobre a intuição categorial, em libertar o ser da cópula do juizo e considerar o ser como dado, [...] dado de outro modo que o sensível” (117). E “será precisamente tal libertação que irá [...] permitir a Heidegger formular a sua célebre questão ‘qual o sentido do ser do ente?’” (117-8). Mas rompe, já que, levado a rigor, em vez de ser o juizo categorial “que é fundado pela ‘experiência’ do ser”, é ele que, como em Kant, determina a objectualidade enquanto dada pelos sentidos, ou seja a intuição categorial é prévia à intuição sensível, é a condição dela. Esta deixa de ser “a pedra angular” da sistematização husserliana (118). Ser foi sempre para Husserl “ser-objecto”, ora “a objectualidade é um modo de presença [...], é o ser presente na dimensão [...] da subjectividade” (120). E “pressupõe [...] uma abertura prévia ao ser do ente”, que em Sein und Zeit se dirá Dasein (ser-o-aí).
17. Numa página de argumentação cerrada em torno da estrutura enquanto tal (was) que seria a citar por inteiro, Paisana mostra como ao nível categorial (juízo: o predicado determina o ente constituindo-o “enquanto objecto, sujeito de possíveis predicados”; intuição: o objecto é visado e o predicado intuído), “a talidade é a um tempo determinante e intuída” e, em seguida, como o paralelismo entre as duas intuições implica um rebatimento implícito da predicação, da relação determinante / determinado sobre a relação visado / intuído da intuição sensível (124). Ora, “é apenas na medida em que a talidade, a significação , é compreendida como um predicado, e o ser como predicação, que o ente pode ser um objecto, enquanto sujeito de possíveis predicações”. “Abandonado decididamente o nível antepredicativo”, “a objectividade e [...] a intuição pressupõem já a predicação” (125) .
18. Paisana prossegue mostrando como Heidegger, buscando “determinar a mundaneidade do mundo como significabilidade” (126), reformula a estrutura ‘enquanto que’, de apofântica (ou filosófica) em hermenêutica (ou pré-objectiva), como a que “nos permite um primeiro acesso ao ente” e a “que funda a predicação”, pela qual “o ente se constitui em objecto” (ibidem). E é onde se pode ler e se deve citar o extracto que diz a súmula da tese de João Paisana. “Segundo pensamos, é esta alteração da estrutura ‘enquanto que’, permitindo passar do nível pré-objectivo para o nível objectivo, que possibilita a clara articulação entre a fenomenologia hermenêutica de Heidegger e a fenomenologia explicitativa husserliana. A relação entre o âmbito da fenomenologia de Heidegger e a de Husserl é a que medeia entre o ‘enquanto que’ hermenêutico e o ‘enquanto que’ apofântico” (127).
19. Novidade do pensamento heideggeriano: “[...] a significação, porque pré-objectiva, é não teórica, reenvia como tal para o próprio comportamento do Dasein, [...] para um comportamento prático” (129). Citando Heidegger: “o nosso ser orientado para as coisas e os homens move-se nesta estrutura: algo enquanto algo - resumindo: tem a estrutura ‘enquanto que’. Esta estrutura enquanto que não é por isso necessariamente recebida da predicação. No ter-que-fazer (Zu-tunhaben) com algo não realizo tematicamente nenhum enunciado predicativo enquanto tal” (129-30). Esta estrutura “regressa junto ao ente encontrando-o e descobrindo-o enquanto serve para tal ou tal (wozu es dient). É sempre em função de um ‘para que’, que o ente ‘com que’ o Dasein se encontra, se descobre enquanto tal ou tal [...] A significação originária, pela qual o ente é descoberto, funda-se assim na disponibilidade (Zuhandenheit) do ente, no seu estar-à-mão para” (130). “A estrutura ‘enquanto que’ originária refere-se pois às possibilidades de ser no mundo do Dasein, e não a um simples ponto de vista parcial, teórico, sobre um objecto. [...] O ente é sempre interpretado na sua possibilidade, nunca um puro dado encerrado sobre si. [...] o que o ente é surge sempre articulado sobre um fundo, que lhe permite ser tal ou tal, mas sempre articulado segundo a estrutura ‘enquanto que’” (130-1). “Ora, precisamente o o fundo a partir do qual o ente se articula enquanto ‘tal ou tal’ é o que o autor chama o sentido de ser do ente. [...] o ser transcende o ente e, se quisermos compreender o ser do ente, nunca o devemos interrogar num simples modo de ser ôntico, mas sim através do seu sentido de ser, que articula as suas possibilidades ônticas. [...] o ente surge sempre já interpretado, e interpretado através do seu sentido de ser” (131-2). É o motivo novo da diferença ontológica.
20. Paisana conclui este capítulo dedicado ao passo entre os dois grandes filósofos mostrando como “o ente, determinado como objecto, cortado da significabilidade, é encerrado em si, [...] pode ser encontrado numa intuição teórica”, como para isso “é necessário que tenhamos já um acesso prévio” à sua significação (talidade) pré-predicativa” (134), que o conhecimento, entre sujeito e objecto, seja “um modo derivado, não originário, de ser no mundo do Dasein. “São os próprios conceitos de intencionalidade e de objecto intencional que deverão ser postos em questão. [...] nem a verdade como adequação é originária, nem a intuição é o acto que nos abre originariamente ao mundo”. “Visado e intuído não surgem como momentos originários, mas ao inverso, só no interior de uma abertura prévia, possibilitada pelo significar, será possível posteriormente distinguir entre o visado, como objecto intencional e o intuído como objecto real” (136-7). “Será na própria estrutura ‘enquanto que’ ante-predicativa que deveremos encontrar o local originário onde surge o ser” (140). “O ser não pode procurar-se apenas no próprio ente, mesmo como posição, como pretendia Husserl [...], é necessário existir uma compreensão prévia do modo de ser do ente, não fundada apenas no próprio ente [...] Compreende-se assim que Heidegger tome como ponto de partida de toda a sua análise existenciária do Dasein a compreensão pré-ontológica” (142).
21. Pouco passei de um terço da tese, que continuará pela exposição da tripla estrutura existenciária do Dasein, o “encontrar-se afectado”, a “compreensão” e a “interpretação”: a nossa conhecida estrutura “‘enquanto que’, constituindo a estrutura do expressável de algo compreendido, constitui a interpretação” (153). Mas considero que trouxe o leitor a bom porto, só o quis convidar à leitura pegando por onde ela poderá ser de mais difícil abordagem, que a exposição do pensamento de Sein und Zeit guiada pela questão sobre o sentido de ser do ente me parece bem mais aliciante. Bem hajas!, João, por este tão claro livro.
in Revista de Fenomenologia (Homenagem a João Paisana - 1945/2001) nº5/6 (Outubro de 2002/Primavera de 2003),

domingo, 24 de agosto de 2008

Evolução, razão e Bíblia



1. O debate americano entre evolucionistas e criacionistas, agora a alastrar à Europa, só tem sentido se o colocarmos em termos de razão, mas esta precisará de ser esclarecida dos dois lados. Comecemos pela evolução, nestes 150 anos da publicação da Origem das Espécies. Não me parece que, com se diz habitualmente, a selecção natural seja um ‘mecanismo’; trata-se, outrossim, duma lógica de compreensão global das análises biológicas que Darwin forneceu, lógica essa que para nós hoje se tornou quase uma tautologia: os mais aptos sobrevivem, seja por que razões for (como mostra a excepção que representam os dinossauros). A lei a que ela obedece parece ser, à maneira do ciclo da água entre chuva, rios, mares e evaporação, a do ciclo de reprodução das moléculas de carbono, essenciais a todas as moléculas componentes das células, fabricadas, a partir do hoje mal afamado CO2 da atmosfera, pela fotossíntese dos vegetais que os herbívoros comem para depois serem comidos pelos carnívoros. Verdadeira lei da selva: os animais só sobrevivem comendo outros seres vivos.
2. As respectivas anatomias, tanto de invertebrados como de vertebrados, foram desenhadas pela evolução com uma panóplia surpreendente de mecanismos, entre força e astúcia, para conseguirem essa sobrevivência: comerem outros e evitarem ser comidos por terceiros. O que não se pode fazer por ‘determinismo genético’ como parece ser preconizado pela explicação neo-darwinista que assenta os ‘mecanismos’ da evolução exclusivamente nas mutações do ADN. Este exige que lhe cheguem moléculas de carbono (e fósforo, azoto, etc), mas não diz onde as encontrar, já que a caça (e a fuga) são fenómenos essencialmente aleatórios, a que as anatomias biológicas se adequam (assim como os determinismos mecânicos e químicos dum automóvel são pensados para um tráfego essencialmente aleatório). Os evolucionistas modernos têm uma filosofia inadequada para pensar a relação da lei da selva com a lógica da evolução.
3. Se o aleatório é estrutural nos detalhes da anatomia das espécies, a teoria do ‘desígnio inteligente’ perde a sua pertinência, que é de responder, em termos de problemática global, ao ‘acaso’ (que não é a mesma coisa do que o aleatório), ao acaso das mutações como único mecanismo. Desde que a análise se aproxime das questões concretas da evolução das espécies e das transformações ecológicas, tal como os biólogos as põem tanto quanto os fósseis o permitem, tanto faz que se acredite em Deus como não, o que é decisivo é compreender a transformação das regras na sua adequação essencial aos aleatórios.
4. Voltemos ao debate americano. Os defensores da evolução ganhariam em ir buscar armas ao campo oposto, à 1ª página da Bíblia (Génesis, capítulo 1) e à sua admirável construção da criação do mundo em 6 dias. Escrito provavelmente no início do século V antes de Cristo, trata-se, na época das célebres cosmogonias mesopotâmicas, egípcias, gregas, dum verdadeiro texto de razão, nos seus números, classificação e organização do cosmos, duma razão que pede meças ao próprio Timeu de Platão, escrito uma boa centena de anos mais tarde. Os 6 dias enquadram 10 palavras de criação, distinguindo-se em 4 dias com 5 palavras (vv. 3-19) e 2 dias com outras 5 (vv. 20-31), formando dois conjuntos de igual extensão, de 207 e 206 palavras hebraicas (P. Beauchamp, Création et séparation). A separação entre o Criador e o universo (sol, lua, fecundidade das espécies, e por aí fora) é uma crítica teológica das magias religiosas dessas épocas, e até do mito de Adão e Eva que se lhe segue, crítica essa que a aliança entre a filosofia grega e a bíblia no seio da teologia cristã veio a concretizar paulatinamente: tratou-se da pré-história da razão filosófica e científica europeia, também assim da própria razão biológica.
Público, 22 / 08 /2008 (com algumas alterações)

sábado, 21 de junho de 2008

Sexo / género : que relação?

Isto foi publicado em
"Sexo e Género: que relação?", in Universidade de Verão, Actas, Em busca duma Pedagogia da Igualdade organizado pela C.I.D.M. e pelo Seminário Universitário de Educación no sexista (SUENS) da Univ. de Palencia (Valladolid), na Faculdade de Psicologia da Univ. de Lisboa, CIDM, 1995, pp.249-265






O surgimento explosivo da questão feminina
O género: um forte dispositivo social
Os quatro polos da questão
A bipolarização do sexo (homem/mulher)
A bipolarização do género (masculino/feminino)
A transformação actual do género





O surgimento explosivo da questão feminina

1. Foram as alterações espectacu­la­res do esta­tuto social das mulheres que fizeram surgir a questão do feminino, quer na ordem prática, quer na ordem teórica, nos últimos 30 a 40 anos.

2. Houve dois grandes tipos de causas para essas alterações. A primeira foi a entrada massiva das mulheres no mercado do trabalho, saindo elas de 'casa', aonde as funções fe­mininas tradicionais foram em grande parte esvaizadas (escolarização obrigatória das crianças; indústrias do 'pronto-a-vestir' e do 'pronto-a-comer', incluindo cantinas; electrodomésti­cos; saúde pública; etc.). Esse mercado de trabalho era fortemente masculinizado, com alguns sectores feminizados (enfermagem, magistério primário, creches, assistência social, etc), e ofereceu sobretudo empregos em certas indústrias (textil, cadeias de montagem de componentes electrónicas, etc.), em lugares admi­nistrativos (dactilógrafas, secretárias, etc.) e no ensino secundário. Os outros sectores resistiram mais à invasão feminina. O salário contribuiu para uma relativa autonomia financeira das mulheres em relação aos maridos e aos pais.

3. O outro factor foi o que se chamou revolução sexual, com a relativização do casamento e a fragilização da família: pílulas e outros meios de contra­cep­ção, permitindo forte autonomia (mormente feminina) da ac­tivi­dade sexual em relação à procriação; aumento do número de di­vórcios, como de casais não casados legalmente e do que se chama 'famílias monoparentais, as mães solteiras e as divorciadas com filhos; movimentos de homosexuais de ambos os sexos; maior protagonismo dos jovens e correlativa contestação da autoridade paterna; maior facilidade de relações sexuais pré- ou extra-conju­gais, etc. Qualquer des­tes factores resultou, por sua vez, do movimento mais largo de transformação da civilização in­dustrial.

4. As mulheres assumem-se assim como indivíduos na praça pública (com salário, profissão, direito a voto, relativa auto­nomia de decisão sobre a sua vida e a sua actividade sexual, etc.), o que até aí era praticamente reservado aos homens.

5. O movimento feminista - minoritário como organi­zação e militantismo, com algumas grandes manifestações públi­cas de massa nos inícios dos anos 70, mas com grande impacto junto das mulheres e dos homens - é o detonador e o porta-voz desta grande alteração do estatuto social das mulheres.

O género: um forte dispositivo social

6. Um provérbio, ainda hoje respeitado em muitas aldeias (exemplo de Pardais, no Alto Alentejo, estudado recentemente por Miguel Vale de Almeida), enuncia assim a tradição ocidental multissecular: "do homem a praça, da mulher a casa". Esta divisão tradicional do trabalho e da reprodução era assegu­rada por um forte dispositivo social de iniciação e de enquadra­mento das práti­cas e tarefas sociais, que 'forçava' os rapazes e os homens a serem mas­culinos e as raparigas e as mulheres a serem femininas, com dife­renciação nos modos de vestir e de se com­por­tar, de sentir e de pensar, com acesso diferente aos recursos ma­teriais e intelectuais da sociedade. É a este dispositivo social ex­tremamente forte que se chama género. Como ele tem uma grande inércia de reprodu­ção (é 'exterior', 'transcendente' às consciências de cada um/a), as alterações do estatuto social fe­minino vieram provocar um embate violento, nomeadamente nas mulheres que vêm ocupar um lugar masculino, pondo-lhes graves problemas de identidade: "quem sou eu, mulher num mundo masculino? como fazer para me fazer respeitar na minha nova autonomia?". Assim se acelerou a transformação do género, para o adaptar à nova situação de civilização.

7. É neste contexto que no campo da teoria irrompeu, a par­tir dos anos 60 mas sobretudo ao longo dos anos 70, os chama­dos Women's Studies (de origem americana), os estudos so­bre as mulheres e sobre o feminino: nas ciências sociais (antropologia, sociologia, história), na psicanálise (com crítica do modelo 'masculino' com que Freud interpretou a estruturação psíquica das mulheres, a célebre 'inveja do pénis'), na filosofia (pioneira francesa: Luce Irigaray), nos estudos linguísticos e lite­rários, mais recentemente também na biologia, mas com forte propensão in­terdisciplinar.

8. A grande tese que foi avançada consistiu justamente na distinção entre o género (feminino/masculino) e o sexo (mulher /homem), beneficiando da distinção (nomeadamente antropoló­gica, mas com uma muito antiga tradição filosófica) entre natu­reza, biologia, por um lado, e cultura, sociedade, psicologia, por outro. Mas o género apresenta-se historicamente, em todas as sociedades conhecidas, de forma não simétrica, como um dis­positivo hierárquico de dominação das mulheres pelos homens.

9. As primeiras formulações assentavam na ideia da per­manência do biológico, do sexo como um invariante, em contraste com a variablidade do género com as sociedades, quer as ditas 'primitivas' estudadas pela antropologia, quer as da longa sucessão histórica ocidental (sociedades grega e romana, cristandade medieval, Europa). Esta constatação adequava-se, sob a forma de uma evidência - quer da teoria, quer da experiência individual, quer da militância feminista -, à alteração acelerada do género na actualidade.

Os quatro polos da questão

10. O jogo entre estes poderá ser assim esquematizado:

MASCULINO --------------->    FEMININO (variável)   (?) (?)

HOMEM --------------->     MULHER (invariante)(?)   (cultural) (?) (natural) (?)

em que (?) assinalam as questões teóricas que interrogaremos e as setas ---> as que são, não apenas a questionar teoricamente, mas também a alterar social e politicamente. Essas setas indicam de facto a dupla ideologia - patriarcal (género) e ma­chista (sexo) - a qual pressupõe:
a) que a relação de sexo ou biológica é invariante, com o destino da mulher marcado pela maternidade (pela natureza);
b) que a relação de género resulta 'naturalmente' da relação de sexo, é pois também invariante.


A bipolarização do sexo (homem/mulher)
11. Analisaremos brevemente quatro pontos.

Do ponto de vista da ontogénese, ou seja da evolução biológica:
1) a) houve alterações substanciais dos primatas aos huma­nos, b) tendo os caracteres sexuais destes mudado nos últimos 100.000 anos;
2) nesta evolução, o sexo sofreu efeitos do género.

Do ponto de vista da morfogénese, ou seja da formação de cada humano:
3) o sexo não é pré-determinado exclusivamente pelos genes;
4) o sexo de cada um/a sofre efeitos também dos seus per­cursos singulares, nomeadamente a nível da economia libidinal, mas não só.

12. 1)
a)
Australopitecus ----> Homem de Neandertal ----> Homem moderno
(1 milhão anos)         (100.000 anos)                      (10.000 anos)
bacia:                        1/3 menor                              1/3 menor
crânio:                      400 cm3                                 1600±600 cm3 (4x)
altura:                       120 cm                                   170± 40 cm (1,5x)
gravidez: 21 meses   13 meses                                9 meses

O aumento do crânio e a diminuição da bacia obrigaram a que o parto passasse a ser de dorsal (primatas) a ventral, com o feto a dever fazer um duplo movimento de rotação e flexão e, en­fim, a uma muito maior prematuridade do nascimento do feto humano, propícia a um maior tempo de socialização do seu psi­quismo. A mulher tem assim um tempo maior de ligação às suas crianças (Peyre, Wiels, Fonton, 1991, pp. 34-37).

13. Outra alteração decisiva, embora já se verifique também com as fêmeas de algumas espécies primatas: não há cio na espé­cie humana, o que implica que os desejos sexuais das mulheres estão desligados dos periodos de fecundação (ovulação), estes nem sequer sendo assinalados exteriormente. Também resulta da gravidez ser por regra de um só bébé, do seu tempo de matura­ção ser muito mais longo e do elevado índice de mortalidade in­fantil (e até das parturientes), que a espécie humana é re­lativamente infértil (P. Tabet, 1985).

14. b) O diagnóstico do sexo de esqueletos humanos do pe­riodo neolítico (Peyre, etc., pp. 38-42) - com grandes diferenças entre populações da mesma época, situadas a cerca de 1000 km de distância: o esqueleto dum homem da Normandia é equiva­lente ao duma mulher da Renânia - é fácil de fazer para os 'extremos' feminino e masculino, mas difícil para o 'continuum' entre ambos, que corresponde a um bom terço da população, o que dá que apenas 70% desta tem "sexo determinável', "cada su­jeito [tendo] uma percentagem relativa de feminidade e de mas­cu­linidade. [...] Convém emitir a hipótese de que o sexo não in­fluen­cia a morfologia dos ossos por um determinismo simples" (idem, p. 40).

15. 2) O 'continuum' dos esqueletos neolíticos, quando com­parado com os Brancos americanos actuais, segundo duas variá­veis da bacia, leva a que todos esses esqueletos seriam 'femininos' segundo uma delas e todos 'masculinos' segundo a outra. Por outro lado, comparando também com os Negros ameri­canos actuais, verifica-se que, quer as mulheres negras, quer as neolíticas, estão mais perto dos homens respectivos do que as brancas dos seus. "Seria assim um facto sócio-cultural [de gé­nero, pois] intervindo na Europa após o Neolítico e dizendo res­peito ex­clusivamente às mulheres que teria modificado um carác­ter bio­lógico" (idem, p. 41). Trata-se aqui de hipó­teses de interpretação científica.

16. 3) São os pares de cromossomas XX que dirigem a for­mação das características sexuais das mulheres (vagina, ovários, etc.) e os pares XY que dirigem as dos homens (pénis, testículos, etc.), nestas características se contando também a maior altura, robustez física, voz mais grossa, da parte dos homens. Ora bem, até às 6 ou 7 semanas do feto, as gónadas sexuais são indiferen­ciadas (só após elas evoluirão para ovários ou testículos, secre­tando estrogénio e progesterona - hormonas femininas - e testos­terona - hormona masculina, respectivamente; mas estas hormo­nas também ac­tuam no cérebro (na sua constituição e no seu funcionamento), podendo, graças à presença de uma enzima, a hormona masculina trans­formar-se na feminina (Vincent, p. 262); numa questão muito complexa, digamos que cada sexo secreta percentagens maiores das respectivas hormonas, tratando-se as­sim de dominâncias tendenciais. À questão de saber o que é que determina essa evolução, as autoras, após evocarem algumas tentativas sem su­cesso, dizem que essa evolução é "verosimilmente resultado duma sucessão de numerosos aconte­cimentos agindo de maneira coor­denada e regulando-se mutua­mente" (Peyre, etc., p. 33). Haverá pois aleatório nesta evolução. Ora, pelo menos 6/1000 indivíduos (o que daria 60 mil na popu­lação portuguesa, por exemplo) não são XX nem XY, dos quais 50 num milhão são homens normais com XX e 30 num milhão hema­froditas com XX, havendo ainda, sem indicação de números, mu­lheres XY (idem, pp. 30-31).

17. O que significa que o sexo de cada um/a não é pré­determinado biologicamente exclusivamente pelos genes, mas depende também do jogo hormonal. Este jogo implica uma parte de aleatório no percurso de cada um, nomeadamente as secreções do hipotálamo (paleo-cor­tex) estando ligadas ao que sucede no neo-cortex, o qual, por sua vez, joga intrinsecamente com os factores ambientais ou sócio-culturais (e portanto com o género).

18. 4) É esta articulação entre a determinação genética e os efeitos, parcialmente aleatórios e dependentes, via hormonas, do género e dos percursos singulares de cada um no seio da família, etc., que permite perceber que nós somos todos, biológica e psico­logicamente, diferentes uns dos outros, embora com um pro­grama genético que é quase totalmente igual em todos os huma­nos (uma parte muito pequena dizendo respeito a diferenças bio-etnológicas, tipo raça e outras). O que implica também que a nossa 'biologia' se altere durante o crescimento, com os modos de vida, com acontecimentos traumáticos de vária índole, etc. Por exemplo: toda a gente que frequentou o liceu, adquiriu a capaci­dade de estar durante horas a fio sentada a uma mesa a ler, es­crever, fazer cálculos ou desenhos, que foi regulada pela disci­plina escolar (jogando sobre hormonas e criando hábitos), capaci­dade essa que a esmagadora maioria da humanidade passada nunca teve. Se se tem em conta que ser mais magro ou mais gordo, peludo, imberbe ou careca, forte ou fraco muscularmente, e por aí fora, tam­bém são diferenças 'biológicas' (que também têm a ver com os genes, mas não exclusivamente), percebe-se que a diferença biologia / psicologia-cultura (e por­tanto sexo / género) não é uma oposição essencial, mas uma articula­ção com efeitos recíprocos, em que determina­ção e alea­tório jo­gam indissociavelmente. Isto é, sendo embora a distinção ho­mem / mulher a mais óbvia (a pergunta "é menino ou menina?" tem em geral resposta clara), não é possível estabelecer catego­rias herméticas entre homens e mulheres a nível biológico; este não é rigorosamente pré-determinado, mas contém uma parte de aleatório na complexidade de factores que intervêm na constitui­ção de cada humano. Somos homens com parte de mu­lher (os mamilos, por exemplo, o atestam) e mulheres com parte de ho­mem, a repartição variando caso por caso, a regra estatística sendo que um dos polos se torne dominante.

19. Se dermos atenção às economias libidinais de cada um/a, tal como a psicanálise nos ajuda a entendê-las, a mesma constatação duma bisexualidade primária de todos os humanos se impõe. Aqui está-se numa zona em que mais cla­ramente a oposi­ção biologia / psiquismo (sexo/género) é inade­quada, já que são as energias sexuais, sempre excessivas em todas as espécies, que são culturalmente sublimadas. A po­limorfia das pulsões se­xuais, sujeitas ao que Freud chamou "princípio do prazer", parece ser a razão que levou o género pa­triarcal a tornar-se sobrema­neira rígido ("princípio de realidade"), a forçar essa sublimação no sentido heterosexual. Como os que são chamados homose­xuais foram vítimas de tal rigidez ao longo da história, podemos ter uma pálida ideia através do so­frimento dos que hoje têm bus­cado afirmar essa sua diferença, essas suas diferenças melhor dito, já que também se não trata de categorias estanques e es­senciais (sem mudarem nem de sexo nem de género: continuam homens masculinos ou mulheres fe­mininas), mas de percursos singulares libidinais diferentes, em transgressão da norma da adequação sexo-género dominante. Como atesta o facto de haver muitos ca­sos de hete­rosexuais (com filhos inclusive) que se tor­nam homo­sexuais, bem como de pes­soas que são as duas coisas, homo ou heterosexuais, consoante o sexo da pessoa que amam. Todos so­mos pois primaria­mente bisexuais e é a partir desta bise­xualidade que uma sexualidade tende a estabili­zar-se, preva­lecendo sobre a poli­morfia por factores em que o aleatório tem relevância grande (trate-se de 'biologia', de 'género' ou da singu­laridade dos percur­sos respectivos).

20. Sejam alguns casos mais atípicos da repartição desta bi­sexualidade. Estéreis (5 a 15% dos casais): são 'heterosexuais' incapazes de reprodução procriadora. Transexuais (parte dos tais 6/1000): com alguma 'falha' na questão XX/XY, sem diferen­ciação completa entre os órgãos sexuais, podem mudar de sexo e de género (sendo em regra estéreis), querendo ser hetero-sexuais e hetero-género. Travestis: não mudam de sexo, mas de género (homo-género).

A bipolarização do género (masculino/feminino)
21. O casamento sendo estrutura decisiva de todas as sociedades conhecidas, parece óbvio que seja ele o factor que crista­liza a bipolarização do género, como dispositivo que distri­bui os homens / mulheres de cada sociedade pelas tarefas e práti­cas que esse dispositivo define como masculinas e femininas. Segundo a tese de Lévi-Strauss em Structures élémentaires de la parenté (P.U.F., 1948), o tecido social constitui-se pelas alianças de casamento entre linhagens, em geral pa­trilineares, que entre si trocam as suas filhas (ou irmãs), segundo regras mais ou menos estritas (segundo lógicas não conscientes, que o autor restituiu de forma brilhante), as quais constituem tam­bém, simultâneamente, as próprias linhagens como estrutura do tecido social. Essas regras postulam sempre (universalmente) o interdito do incesto (entre os homens e as respectivas fi­lhas, irmãs e mães sempre, algumas outras parentes próximas consoante) e a exogamia das raparigas, que vão pois casar noutra linhagem (a que são 'estranhas'). Existência de linhagens e casamentos, interdito do incesto e exogamia, bem como o respec­tivo dispositivo do género, são fenómenos sociais, são a ossa­tura essencial de cada sociedade que garante a sua reprodu­ção enquanto tal de geração em geração, em vez de ser constituída por 'ilhas familiares'.

22. Esta ossatura enxerta-se na diferença sexual entre ho­mens e mulheres, a qual, por sua vez, é a condição (em qualquer espécie complexa, vegetais ou animais, com macho e fêmea e com morte dos indivíduos), da reprodução da es­pécie de geração em geração. Se se tem em conta, como vimos, a relativa infertilidade da espécie humana e a também relativa polimorfia biológica (e libidinal) dos sexos, percebe-se que não houve até hoje reprodução da espécie humana dissociável da reprodução das sociedades em que ela se organiza. Já Aristóteles definiu os humanos como "animais sociais" e "animais com linguagem" (ou cultura), isto é, biologia (sexo) e sociedade-cultura (género) são indissociáveis, não podem ser opostos (também Lévi-Strauss co­locou o interdito do incesto como escapando a esta oposição tra­dicional). Na situação actual de acelerada transformação do gé­nero, temos pois que analisar esta questão: quais os limites desta transformação? Como jogam os interesses e desejos dos indiví­duos, face aos das sociedades e da espécie? Como foi esse jogo no passado?

23. O mínimo que se pode dizer é que ele não foi meigo para as mulheres. P. Tabet (1985) defende que, diante da relativa in­fertilidade da espécie humana (§ 13), todas as sociedades tiveram que forçar as mulheres a exporem-se o mais possível ao coito e ao risco consequente da gravidez (sem saberem em que alturas ela é possível, sabemos hoje que num periodo mensal sempre muito curto, no máximo de 48 horas): o casamento é a instituição que provoca essa exposição. O dossier que a autora apresenta é catastrófico, de tal forma é grande a violên­cia a que os homens (maridos e pais, por vezes também com a cumplicidade de outras mulheres da linhagem do marido) sujei­tam as mulheres que se revoltam diante desse destino. Esta vio­lência é aliás a confirma­ção mais cabal da polimorfia do sexo biológico e dos desejos se­xuais (hetero ou homosexuais). Há que dizer que há casos fre­quentes descritos por antropólogos em que sociedades tribais abrem lugares para homosexuais e outros do sexo masculino, da mesma maneira que o divórcio, a poligamia e até a poliandria são por vezes instituidos.

24. Limitemo-nos agora às sociedades da civilização ociden­tal. Estas são pa­triarcais, como todas as sociedades de classes e Estado (com agricultura, criação de gado, classe guerreira e monarquia): a sua base é a casa, que é simultanea­mente unidade de pa­rentesco e unidade econó­mica (em geral, à base de agri­cultura e de gado). O género insti­tui simultâneamente a divisão sexual de reprodução (homens destinados a serem pais e mulhe­res a serem mães) e a divisão social e sexual do trabalho (tarefas guerreiras, políticas, religiosas e de trabalhos fisicamente mais duros para os homens; tarefas domésticas, a ver com a reprodu­ção dos corpos e seu sustento, para as mulheres). Enquanto que a divisão social do trabalho co­nhece outras formas também de se­paração entre classes sociais (escravos, servos feudais, etc.), em resultado, quer de vitórias na guerra, quer de outras formas em que o poder das armas perma­nece decisivo, sacramentado ou não com formas religiosas. Ora bem, ainda aqui parece que factores biológicos (maior estatura e força física dos homens) são condição desta maneira de se organi­zar a sociedade e o género, já que a guerra é a condição essencial destas sociedades, as classes guerreiras procu­rando sempre acrescentar os seus domí­nios e devendo sempre defendê-los da cobiça de outras.

25. Atendamos agora a alguns aspectos específicos do polo masculino do género patriarcal. Luce Irigaray (1974, 1977, ver Belo, 1987, § 42, com alguns extractos dessa filósofa) mostrou como a filosofia greco-ocidental se estruturou de forma patriarcal, com o primado do um-uno, do centrado, do visível, do sólido (como o phallus masculino erecto), sobre o duplo (os dois lábios da va­gina), o plural e o disseminado (erotismo no corpo feminino), o 'sem-nada-para-ver' (buraco vaginal, caverna), o húmido e fluido do sexo feminino. Pode-se acrescentar que, em concordância com o lugar público do homem e o lugar caseiro da mulher (a casa sendo também o lugar do trabalho agrícola e pecuário sobre a 'natureza'), ao homem foi atribuida a razão discursiva política (o logos, que discute na ágora), o inteligível, a abstração, a alma (platónica), e à mulher a relação à natureza, ao sensível, ao corpo. Mas também a medicina de Hipócrates: a mulher é aí definida pela maternidade, pelas mênstruas impuras e pelos humores instáveis (ligados à 'mobilidade' do útero, para cima e para baixo) (Teresa Joaquim, Menina e Moça).

26. Na Idade Média cristã, o dispositivo masculino parece ter duas formas complementares. Uma, clerical e celibatária (retirando pois o homem da casa, o que continuará a ser domi­nante até ao sec. XVIII, mesmo para filósofos, sábios e artistas não-clérigos, necessitando de mecenatos para se dedicarem à sua obra), 'penetra' a linguagem e dissocia-a: para o masculino, a lin­guagem do poder, sob a forma de leis, cânones, dog­mas, dis­cursos eclesiásticos e universitários, etc., linguagens visí­veis, públicas, perenes, imperativas, coercitivas, executivas (no duplo sentido do termo, governando e matando em fogueiras he­reges e feiticeiras), fixas, operatórias, escrevíveis, formais (no sentido de 'com-uma-única-forma'); para o feminino, a lin­guagem imprecisa, vaga, sem princípio nem fim (sem coe­rência), taga­rela, frívola, fútil, imaginativa, arbitrária, efémera, não-escrevível (mesmo as místicas terão dificuldades em escre­ver), etc. Linguagem sem corpo versus linguagem do corpo, em suma. A outra forma é guerreira e assume o corpo do homem como força e destreza muscular: na guerra, nos torneios, na caça, nos vários ofícios mais duros. O corpo do homem funciona aí como 'inteiriçado', à ma­neira das enormes armaduras militares, sem brechas internas e duma só peça, o corpo todo 'erecto' contra o que lhe é adverso. Duas formas que se completam: força da lei, lei da força.

27. A emergência de uma terceira forma do dispositivo masculino que vem acrescentar-se às duas medievais dá-se com o nascimento da Física matemática e ciências congéneres. Ela manifesta-se filsoficamente no célebre Cogito cartesiano e na es­pantosa 'ficção' que o segue no 4º capítulo do Discurso do Método: "depois, examinando com atenção o que eu era, e vendo que po­dia fingir que não tinha nenhum corpo, e que não tinha nenhum mundo, nem nenhum lugar onde eu fosse; mas que não podia fingir, para isso, que eu não existia; e que pelo contrário, disso mesmo que eu pensava em duvidar da verdade das outras coisas, seguia-se muito evidentemente e muito certamente que eu exis­tia; em vez de que, se eu tivesse somente cessado de pensar, ainda que tudo o resto do que eu tinha jamais imaginado, fosse verdadeiro, eu não tinha nenhuma razão de crer que eu tivesse existido [...]". Espantosa, não apenas porque ficção, fingimento, imaginário, isto é, coisas 'femininas' (note-se que 'imaginar o que fosse verdadeiro', como as mulheres são supostas fazer, não ga­rante a existência de que o faz) em que masculino se promove, mas também pelo seu portentoso alcance profético: a racionali­dade de tipo matemático e científico tornar-se-á lentamente do­minante no polo político das sociedades ocidentais e inscrever-se-á no dis­positivo masculino duma razão que finge não ter corpo, a razão dos físicos e dos químicos, dos engenheiros e dos economis­tas, dos médicos e de todos os técnicos que, enquanto tais, en­quanto em tal razão, não têm corpo próprio, seu operar permi­tindo no en­tanto transformar corpos, mundos e lugares, como hoje se vê, por via das máquinas e suas energias não-humanas. Homens de ra­zão-sem-corpo alçaram-se assim ao poder, domi­nantes até à náu­sea, enquanto um corpo armado de exércitos e polícias, comple­mento corporal da razão sem corpo, se encarre­gam de pôr na or­dem os corpos desordenados que porventura agitem as ruas.

28. Dos corpos, já se sabe, cuidavam as mulheres que os pa­riam. Excluidas secularmente da praça pública pelo dispositivo masculino, entregavam-se ao concreto, desenvolvendo uma ló­gica do cuidado (Teresa Joaquim): à base do gosto estético da casa e dos corpos, do saber cuidar dos pormenores, das crian­ças, dos doentes, das culinárias, da higiene, das roupas, tudo mundos rebeldes à razão masculina dominante e à sua homoge­neização unidimensional. O cristianismo contribuíra para remode­lar o dis­positivo feminino também, com o privilégio da materni­dade e da virgindade (a que se obrigavam, querendo-o ou não, as mulheres que da casa não queriam ou não conseguiam) tutelado pela figura da Virgem-Mãe, em contraponto com a cortesã, tam­bém deixada da casa para o serviço extra-conjugal dos prazeres machistas, a figura de Eva marcando as mulheres rebeldes à norma com o es­tigma das 'tentadoras' (Teresa Joaquim, Menina e Moça). À vio­lência física que força as mulheres à reprodução heterosexual, acrescenta-se a violência ideológica que faz a mulher duvidar dos seus próprios desejos, reprimir de forma 'interiorizada' a sua po­limorfia (estes §§ 25-28 são citações de Belo, 1983).

29. Exclusão e repressão ainda de todas as veleidades inte­lectuais e artísticas por parte de qualquer mulher, estigmatizada desde os Gregos pelo que seria a sua incapacidade radical de abstração, de sublimação estética. O que hoje, à vista do leque imenso de mulheres intelectuais e artistas, não pode deixar de provocar grande espanto. Fica em aberto a questão de saber, como algumas defendem e outras contestam, se há uma 'escrita feminina', ou maneiras femininas de pintar, fazer música ou rea­lizar cinema.

30. Se mosteiros e conventos são, até ao sec. XIII, sem re­pressão oficial e doutrinal, lugares de possível cultivo de afectos homosexuais, estes tornar-se-ão também razão de sofrimento para os homens cuja economia libidinal escape ao género domi­nante. Mesmo os que se dão à arte e à poesia, cuja 'lógica do cui­dado' os feminizava também, segregando-os numa certa margina­lidade que os confinava parcialmente ao feminino do dispositivo: a linguagem enquanto significante-corpo, letra-material em seu jogo rítmico, não domesticada pelo significado da verdade univer­sal, escrita que se impõe ao oral, por assim dizer (Platão, no Fedro, liga a tinta 'líquida' ao pharmakon, droga, remédio, ve­neno, mortal), linguagem pois de sensação, de imaginação e de corpo, sujeita também à mesma lei de exclusão filosófica que a oferecia de bandeja ao dispositivo feminino. Vê-se pois que muitas mulheres, homens também uns tantos, sofreram, na carne, nos desejos, nas aspirações mais fundas, a rigidez do género patriarcal: ou na resignação, ou pagando cara a rebeldia ao impe­rativo im­peria­lista da reprodução heterosexual da espécie-sociedade. Mas en­tre estas duas atitudes extremas, os provérbios parecem atestar que de preferência as mulheres usaram de manha.

A transformação actual do género
31. Recapitulemos, voltando ao esquema do § 10. A varia­ção da bipolarização do sexo foi argumentada, tanto quanto a biologia ainda se buscando o permite, através da bise­xualidade primária de cada humano, cada um com parte de ho­mem e parte de mulher, num 'continuum' em que os extremos se afirmam melhor, mas cujos lugares medianos atestam o aleatório do processo de constituição 'biológica' de cada sexo, o que a va­riabilidade ainda maior de economias libidinais confirma, e já a força esmagadora dos imperativos de adequação à norma da he­terosexualidade procriadora dizia como sintoma, como sofrimento de tantas e de tantos. Essa mesma variabilidade, que impede de aceitar que 'homem' e 'mulher' sejam categorias essenciais ou oposições exclusivas, que haja um 'nível biológico' taxativamente determinista e isolável, também questiona que 'masculino' seja sobreponível sem mais a 'homem' e 'feminino' a 'mulher' ("já fui barco, já fui navio / já fui chalupa e escaler / já fui moço, já sou homem / só me falta ser mulher", cantava, sem temer o ápodo de 'maricas', Zeca Afonso). E enfim, o carácter 'cultural' do homem-masculino e o carácter 'natural' da mulher-feminina revelou-se também ser uma elaboração cultural e histórica do dispositivo patriarcal ocidental, apoiado em suas filosofias e me­dicinas. Resta-nos indagar do futuro das setas da dominação desse dis­positivo, do horizonte da transformação acelerada que este está conhecendo.

32. Nem o movimento feminista, nem o movimento 'gay', nem a 'revolução sexual', se justificam por si mesmos. Eles avan­çaram pelo caminho que lhes foi aberto pelos dois grandes fenó­menos que assinalámos nos §§ 2-3, correlativos entre si, mas am­bos também consequência última da grande revolução da civiliza­ção ocidental, a saber: a substituição das casas de antanho, uni­dades simultaneamente de parentesco e de economia (§ 24), pelo que se pode chamar genericamente instituições (desde as empresas industriais, comerciais, financeiras, jornalísticas, etc., às do Estado) como espaços de emprego e salário para (quase) toda a população activa, espaços esses separados como regra dos novos espaços do parentesco, os apartamentos em prédios onde moram as famílias, reduzidas estas às funções de re­produ­ção (procriação e sustento no consumo quotidiano). Este alija­mento das funções de produção económica é a fragilização da família, foi ele que permitiu a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho que precisou delas, como também provocou a relativização do casamento. Este deixou de ser a ossatura do te­cido social (§ 20), substituído pelo próprio tecido das instituições económicas e pelo correlativo mercado (onde hoje se dão as crises sociais).

33. O que, para as sociedades ocidentais mais evoluidas, funcionou bastante bem durante os anos 50-70, digamos, período de grande expansão tecnológica e económica, justamente o pe­riodo de incubação e manifestação em força dos movimentos de militantes feministas e 'gays', como da 'revolução sexual'. Mas a década de 80 e o que já passou da de 90 trouxeram o desen­canto das crises e apagaram as fraternidades e sororidades exaltantes dos tempos idos. O desemprego alastra, devido em boa parte às novas tecnologias electrónicas economizando força de trabalho, ameaçando as fragilizadas famílias em seus apartamen­tos e magros orçamentos de consumo, atingindo sobretudo as mulheres e feminizando uma boa parte da nova pobreza destas opulentas sociedades. As finanças dos mecanismos de segurança social e de pensões de reforma estão em falência, anunciando futuros sombrios a pedir solidariedades difíceis em tempos de individualismo exarcebado. A liberdade sexual, tão dificilmente ganha, é ameaçada por uma epidemia nova diante da qual a me­dicina está desarmada. 'Last but not the least', o desmoronar do género patriarcal não é de certo o menor factor do que se chama 'crise de valores': de crenças éticas e de crenças no futuro, que as religiosas já antes tinham definhado. Para não falar das ameaças ecológicas, das crises económicas e políticas dos países libertados do comunismo soviético, da fome de tantos países sem saída à vista no dito Terceiro Mundo. É este o contexto em que temos que pensar os horizontes da transformação actual do género: eles não são propícios ao optimismo.

34. Sobretudo talvez para as mulheres, se for verdade que estas sempre resistiram melhor em épocas de catástrofes, ou seja, sempre pagaram o maior preço, quando os homens deixam cair os braços nos desânimos, bebedeiras e outras drogas e suicídios. De qualquer forma, estamos todos no mesmo barco, como se diz, e a questão que me parece se pôr é a de saber se o acesso massivo das mulheres ao mercado e à praça pública poderá dar alguma esperança a estes tem­pos difíceis que atravessamos.

35. Não creio, como por exemplo defende Christine Delphy, que tenha sentido "imaginar o não-género" (p. 100), isto é, o de­saparecimento das 'categorias' masculinas e femininas. Uma tal tese implica, por um lado, que estas não tenham nada a ver com a di­ferença (e não oposição) entre homem e mulher (posição filosó­fica contrária é a de Luce Irigaray, mas há que dizer que a litera­tura feminista teórica recente, ao menos de língua francesa, a ig­nora totalmente); por outro, que as sociedades se atomizem em indivíduos todos diferentes e que as questões de procriação e de busca do prazer erótico além da procriação (que é um dos grandes bens que se adquiriram nas últimas décadas) não tenham nenhuma incidência no plano social ou cultural. Ou seja, esta tese separa e opõe ainda sexo e género, como aqui se tentou evitar. Julgo mais correcto pensar, como, segundo me parece (que o não pude ler todo), sugere Miguel Vale de Almeida que é já o que se passa em Pardais e a fortiori nas grandes cidades, que o género tende a multiplicar-se em formas mais ou menos dife­renciadas de mas­culinos e de femininos, com a correlativa perca de hegemonia do modelo pa­triarcal e machista. Este pode aliás sobreviver muito mais acentuadamente, se se atender, por exemplo, aos modelos que aos rapazes oferecem os filmes violentos e os desportos de massa e de alta competição (onde a mixagem de sexos está ainda por se manifestar), e as mulheres (e os homens, porventura) que com tais machistas se queiram relacionar terão que ter muita arte, muita manha, para os modificar.

36. A questão de fundo seria esta: numa civilização forte­mente racionalista, isto é, masculina no sentido pejorativo da pa­lavra, que poderão as mulheres fazer, a partir da sua 'tradicional' lógica do cuidado (§ 28), para ajudar à sua transfor­mação, se for verdade que elas se sentem ameaçadas na sua identidade pela racionalidade desse mundo de instituições a que acederam (§ 6)? Pense-se nas questões ecológicas, por um lado, na das relações competitivas de mais adentro das instituições, no 'stress' que elas provocam e a todos ameaça, por outro. Não se trata apenas de 'relações humanas' a melhorar, mas também de tarefas de teoria e de estratégia (institucional, mercantil, política, urbana, etc.), de reelaboração das racionalidades estabelecidas, de abrir nelas, de forma fecunda a todos os níveis, lugar para as so­lidariedades, os afectos, a convivialidade. Não há que sermos in­génuos: as mulhe­res têm ainda, por regra, muitos obstáculos a vencer em seus percursos singulares para ganharem os seus lugares, estão sujei­tas, como os homens, ao individualismo domi­nante, poderá não lhes sobrar energia para tais tarefas quase im­possíveis, difíceis de articular em discurso, de propor a outrem de forma convincente.

37. Entre as raras utopias que têm aparecido, relevo a de o desemprego actual, provavelmente estrutural e não conjuntural, obrigar a uma redução mais ou menos drástica dos horários de trabalho para que os empregos cheguem para todos, com a con­sequência de aparecer uma nova tarefa de civilização: a criação de novos espaços de convivialidade social e cultural nos tempos livres acrescidos (André Gorz, Ivan Illich), uma nova polis (Hannah Arendt), espaços esses que permitiriam conter o peso excessivo da eco­nomia e do seu dis­curso nas vidas e nos fazeres das gentes. Esses espaços, na pro­posta do economista Gorz, seriam mais fru­gais, com menos con­sumismo e desperdícios, compensando as even­tuais quebras de salários. Também aí parece haver um lugar em que a 'lógica do cuidado' das mulheres (e de homens também) poderá ter empenhos deci­sivos. Digamos que se trataria de pro­por os 'novos valores' que permitirão aos nossos descendentes encontrarem motivações para viverem numa terra mais pacifi­cada. Mas as novas gerações de raparigas não são formadas já em ruptura com essa tradição feminina que tornou humanas as casas de antanho? Quem saberá dizer? Quem ousará a esperança?




Bibliografia citada

Almeida, Miguel Vale de, Corações de Pedra. Discursos e Práticas da Masculinidade Numa Aldeia do Sul de Portugal, Tese de Doutoramento em Antropologia Social, Lisboa, I.S.C.T.E., 1994
Belo, Fernando, "Quando masculino/feminino não coincide com homem/mulher", in J.L., 27-12-1983
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Joaquim, Teresa, Menina e Moça, A construção social da Feminilidade em Portugal (sec. XVII-XIX), Fim de Século, 1997
Peyre, Evelyne, Wiels, Joëlle, Fonton, Michèle, "Sexe biologique et sexe social", in Marie-Claude Hurtig, Michèle Kail, Hélène Rouch (org.), Sexe et genre. De la hiérarchie entre les sexes, C.N.R.S., Paris, 1991, pp.27-50
Tabet, Paola, "Fertilité naturelle, reproduction forcée", in Nicole-Claude Mathieu (org.), L'arraisonnement des femmes. Essais en anthropologie des sexes, Cahiers de l'Homme, série XXIV, E.H.E.S.S., Paris, 1985, pp. 61-146
Vincent, Jean-Didier, Biologia das paixões, Europa-América, [1986], 1988

A sexualidade como excesso e alteridade

DA SEXUALIDADE

COMO EXCESSO E COMO ALTERIDADE

A filosofia ocidental é assexuada
A alimentacionalidade
A sexualidade como desperdício
O interdito do incesto domina o excesso e prolonga a alteridade
Oscilação e sublimação
Sexualidade e lei segundo a psicanálise
O erotismo e a morte segundo Bataille


A filosofia ocidental é assexuada

1. “Os filósofos são castos”, dizia Gilles Deleuze numa aula sobre a teoria dos afectos de Spinoza, dizia-o com alguma ironia, estava-se nos anos 70, no auge da ‘revolução sexual’. Procurei em vão em três dicionários de Filosofia do sec. XX - um dos começos, sob a direcção de A. Lalande, dois do último quartel, um espanhol dirigido por M. Quintanila, outro francês dirigido por A. Akoun - nenhum incluia uma rubrica intitulada ‘sexualidade’. Esta nunca foi parte das questões filosóficas ocidentais a não ser como rele­vando da moral, do lado das paixões de que os filósofos se preca­viam. [Mas deixem-me que defenda a minha dama, que a castida­de não foi defeito mas condição de possibilidade: ao se abste­rem assim, os filósofos faziam uma escolha, a de se dedi­carem à grande experiência do pensamento e, não fôra essa esco­lha de tão grandes humanos, nós não estaríamos aqui a falar de ‘sexualidade’, a medicina estaria ainda nas sanguessugas dos ‘physicos’, não haveria ciência europeia nem portanto civilização moderna.] Sobre o Amor, sim, há esse monumento venerável que é o Ban­quete de Platão, mas que, significativamente, ‘à tort ou à rai­son’, deixou-nos como tradição a expressão ‘amor platónico’, ou seja o amor sem sexualidade. Isto foi assim provavelmente até à segunda metade do século XX, mas ainda hoje, ou encontramos os três volumes interrompidos da His­tória da Sexualidade de Fou­cault, em que se trata ainda de uma perspectiva ética, ou textos em que ela é encarada a partir da psicanálise, ainda mesmo quando ‘contra’ o Édipo. É nesta rubrica que os dois dicio­nários referidos se ocupam dela. A excepção, uma reflexão filosó­fica em que a sexualidade esteja no seu âmago, é G. Bataille, autor desse belíssimo livro, O erotismo, de 1957, de que, apesar do su­cesso que teve na época, se pode duvidar que esteja recebido como texto ‘filosófico’. Talvez haja algum texto recente que eu ig­nore que desminta este alheamento, pelo menos nos seus grandes no­mes, da tradição filosófica em relação a uma dimensão intrínse­ca dos humanos, embora não exclusiva deles. Porventura na imensa bibliografia feminista que, nos últimos 30 anos, se tem ocupado do prin­cipal efeito de tal dimensão intrínseca, a diferen­ça entre mulheres e homens.
2. Para não cancelar esta comunicação ‘sexualidade e filoso­fia’ num desanimado ‘nada consta’, procederei da seguinte manei­ra, antes de no final vir a Bataille: sem as explicitar como faria para um público de filósofos, terei em conta algumas categorias de pensadores recentes para reflectir, por mi­nha conta e risco, sobre alguns dados que nos vêm da biologia, da an­tropologia e da psi­canálise. Da conferência “Tempo e Ser” de Heidegger, de 1962, reterei o motivo do Ereignis, do ‘(não)-acontecimento’ que é a doação dissimulada, re­tirada, dos acontecimentos pelos quais o ente é constituido na sua singularidade própria, o que permitiria interpretar, por exemplo, a reflexão da filósofa Séverine Auffrey (citada por Teresa Joa­quim, Menina e Moça. A Construção social da feminilidade, 1997): “cronologicamente o um vem mais tarde do que o dois”, explicitação da gestação. De Derrida, que também é excepção ao panorama lacunar que evoquei, já que trata da se­xualidade em variados textos (mas sem fazer dela um título de capítulo ou de livro, como de nenhum filosofema tradicional, aliás, faz parte da sua maneira de pensar), reterei o motivo do rasto, vivo e imotivado que impli­ca a relação estrutural ao outro e o do duplo laço, que ele explici­tou justamente em leituras da filosofia da família de Hegel e da obra literária de J. Genet (Glas, de 1974) e depois do “Para além do princípio de prazer” (Carte postale, de Socrate à Freud et au-delà, de 1980).
3. O título deste pequeno texto, “Da sexualidade como exces­so e como alteridade”, diz as duas características de que me ocu­parei, sem pretender que sejam as únicas: o excesso, o desperdí­cio, o aspecto anti-económico da sexualidade, em que ela é pa­rente da arte, do sacrifício, do potlach, da festa, por um lado; a relação ao outro, em que a sexualidade é parente da linguagem, por outro lado. Ora, sucede que estas duas características só se podem defi­nir por contraste com a economia do mesmo, que é definitória da vida, nomeadamente animal, aquilo a que eu daria o feio nome de alimentacionalidade. Terei assim que fazer um desvio prévio, propondo o desenho desta espantosa propriedade da vida, sabendo embora que corro o risco de querer ensinar o padre-nosso ao vigário.

A alimentacionalidade

4. Em que é que consiste a grande descoberta da biologia molecular? Na maneira como a mesma molécula de ADN, em todas e cada uma dos cerca de 200 tipos de células especializadas dum mamífero, por exemplo, está retirada no seu núcleo para poder permitir as muito diferentes sínteses de proteinas do metabo­lismo no protoplasma dessa célula, donde ela está retirada para poder ser sempre a mesma (à diferença dos diferentes ARNm que de cada vez são copiados e depois da síntese operada degra­da­dos). Essas proteínas, sintetizadas a partir de mini-moléculas vin­das pelo sangue, vão fazer parte da estrutura funcional dessa cé­lula no conjunto do organismo: vão contribuir para quê? Cada te­cido e órgão, no lugar que lhe é específico dentro da eco­nomia geral do organismo, vai contribuir, essencialmente e em última análise, para que a cada célula especializada cheguem as proteí­nas de que ela necessita. A lógica da evolução foi assim a de, par­tindo de seres unicelulares que se alimentavam das molé­culas que as circundavam no mar onde a vida se originou, os ir juntan­do e especializando de forma a conseguirem essa alimenta­ção de forma cooperativa, digamos, coordenada e menos aleatória: to­das especializadas para que todas se ali­mentem do que todas contri­buem para fazer, sem outra finalida­de, para cada orga­nis­mo, do que essa alimentação, do que a reprodução da sua própria subs­tância. [Já se pode antever que é esta mes­midade que a se­xuali­dade vem perturbar, lá iremos.]
5. Foi esta complexidade que tornou possível aos animais largarem o mar e invadi­rem a terra, depois da aquisição duma espécie de ‘mar interior’, a circulação do sangue (como da seiva nos vegetais), encarregado da última fase da alimentação de todas as células, o chamado aparelho circulatório, após os digestivo e respiratório, formando o conjunto do sistema da nutrição. Falta considerar a outra parte do sistema animal: como ter acesso às moléculas que interessam o organismo, as complexas moléculas de carbono? Es­tas só existem em outros vivos: vegetais que rece­bem carbono por fotossíntese, animais herbívoros e carnívoros. No caso destes, um segundo sistema se encarrega de caçar e de fugir a ser caçado: o sistema neuronal, formado de órgãos percep­tivos, cérebro e nervos que fazem ac­tuar músculos ligados estra­tegicamente ao esqueleto ósseo, siste­ma que é feito agir por pul­sões hormonais desencadeadas pelo abaixamento dos teores do sangue no que à alimentação diga res­peito. O sistema neuronal completa o da nutrição, a troco da mesma vantagem: que as suas células sejam alimentadas em me­lhores condições do que se so­brevivessem sozinhas. O que chamo alimentacionalidade é este propriedade sistémica dos animais fa­zerem a sua própria subs­tância, desde a sua primeira célula, à custa da substância dos ou­tros. O mesmo faz-se de outros. Não é necessário detalhar aqui como, sabendo-se que, quer a caça de pre­sas, quer a fuga de pre­dadores, implica um aleatório fundamental dos comportamentos animais, há uma espantosa economia de meios, ana­tómicos e fisio­lógicos, de se realizar esta auto-reprodução à custa de outrem: a economia do mesmo.
6. Se nos deslocamos agora para o estrito campo dos huma­nos e atendermos a que o desenvolvimento das sociedades tornou muito mais complexa as tarefas sociais, muito além das da ali­mentação, poder-se-ia mostrar como - cada cria de humanos só se tornando humano, ele também, por via social, isto é pela aprendi­zagem da linguagem e dos outros usos necessários para a repro­dução das unidades sociais (famílias, empresas, etc.) - aprender um uso de outrem é também constituir o seu próprio saber-fazer a partir do saber-fazer dos outros (mas agora sem os destuir, é claro). Ou seja, também há aqui, mutatis mutandis, uma economia de alimentacionalidade, como base estrutural de qualquer socie­dade.

A sexualidade como desperdício

7. Voltemos ao nível da evolução e espantemo-nos de muito cedo esta ter inventado um terceiro sistema além do da nutrição e do neuronal, o da sexualidade, como condição da imensa varieda­de e complexidade das espécies. Uma hidra de água doce ou um verme (os exemplos que aprendi no liceu, já lá vão mais de 50 anos), reproduzindo-se por cissipa­ridade ou por ‘bourgeonnement’, não saiem fora da lógica econó­mica da alimen­tacionalidade: tal como uma célula que se torna grande de mais se divide em duas, assim fazem esses bicharocos, mantendo muito estritamente a mesmidade do ADN da espécie (creio). Ora, a re­produção sexual faz-se numa anti-economia fla­grante, ela implica que estes indivíduos se ‘acasalem’ por acaso, macho com fêmea, para além dos seus estritos interesses alimen­tacionais; é preciso pois criar neles interesses de atracção, ou até de sedução, sufi­cientemente fortes para garantirem o acaso desse acasalamento: quantidades enormes de células machas e fêmeas, ou mesmo de sementes que não terão condições de medrar, são pro­duzidas para que um qualquer zero-vírgula, vários zeros e um um no final por cento delas resulte. Ou em nós, humanos, desapa­reci­do o cio das fêmeas algures na maior extensão do neo-cortex dos primatas, não só muitos óvulos e um número astronómico de es­permatozoi­des são produzidos incessantemente em vão, em puro desperdício, como uma parte forte de energia de hormonas este­roides é de­sencadeada para atrair homens e mulheres em ‘prejuízo’ manifes­to das funções sociais quo­tidia­nas.
8. Este desperdício revelou-se todavia muito ‘útil’ no ganho de complexidade das economias da alimentacionalidade das es­pécies. Demos atenção ao primeiro ganho que veio com esta ‘inacreditável’ invenção da sexualidade, que tenho para mim ser como que uma segunda invenção da vida, quase tão improvável e sur­preendente como ela. Inventaram-se os machos, as fêmeas e os ‘ovos’, isto é, que um ser vivo nasça de um casal de outros dife­rentes, nasça ou um ou outra, nasça fora deles e deixando-os lá, com eles. Isto é, invenção do nascimento, da paternidade, da ma­ternidade e da filiação, da futura família, da possibilidade da aprendizagem; invenção por outro lado da morte, dos cadáveres, da morte ‘natural’ que acontecerá a quem não tiver sido comido. Percebe-se que a psicanálise, ao descobrir a sexualidade no ínti­mo do inconfessado a si mesmo dos humanos, a tenha encontrado em correlato estrei­to com o pai e a mãe, o nascimento, a infância e a morte. Nada disto há entre as hidras ou vermes: filhos não nas­cem de pais, não morrem deles mesmos.
9. Esta pulsão anti-económica de desperdício cria uma cliva­gem entre o indivíduo e a espécie, entre as suas pulsões da ordem da economia alimentacional (ou de auto-reprodução à custa dos outros), e as pulsões para o outro ou a outra, em pura perca de ‘mim’, apenas para bem da espécie. O que estou a querer sugerir, com a importância que estou a dar à dimensão biológica da se­xualidade muito antes de haver humanos, é como as suas várias facetas, sociais, afectivas, reprodutivas, prazer erótico possível de ser cultivado além da reprodução, relação à lei e à moral, etc., não são mais do que consequências, aumentadas por efeito da com­plexi­dade, do que ela é nela mesma, se se pode dizer, antes dos huma­nos. É já ao nível dos mamíferos pelo menos, que macho e fêmea são arrancados à sua estrita economia alimentacional, ar­rancados ao seu si-mesmo em direcção ao outro: dando-lhes pra­zer, é claro, compensação da espécie à alimentacionalidade no passo de a contrariar fortemente.

O interdito do incesto domina o excesso e prolonga a alteridade

10. Porque é que, de acordo com a célebre tese de Lévi-Strauss, todas as sociedades interditam o incesto? Com uma caja­dada mataram-se dois coelhos: uma dupla complementar de ra­zões se pode deduzir do antagonismo entre sexualidade e alimen­tacionalidade. Como ela é excessiva e não há já cio, haveria o risco de sexo a mais e alimentação a menos, de os excessos de desejo satisfeito com quem está ali à mercê impedirem os usos sociais da habitação quotidiana, o que chamamos trabalho, como se fosse sempre festa. O interdito do incesto é, por um lado, uma forma geral de contenção do excesso da sexualidade para que a alimen­tacio­nalidade se possa realizar estavelmente, que os usos corres­pondentes possam ser aprendidos pelos jovens. Por outro lado, admitir o incesto como meio de reprodução social fecharia a so­ciedade em ilhas consanguíneas, enquanto que o seu interdito re­lança a busca da alteridade fora da mesmidade do nascimento, cria laços sociais intrínsecos entre as várias unidades sociais pelas alianças entre famílias. É a extraordinária lição de Lévi-Strauss sobre o primeiro e essencial laço de qualquer sociedade: a exoga­mia, a troca de mulheres entre linhagens como corolário do in­terdito do incesto, é a maneira de qualquer sociedade criar uma nova forma de alimentacionalidade, se se pode dizer, de solida­riedade social en­tre unidades (um pouco como as células dum or­ganismo), uma forma mais extensa e completa, uma rede social de famílias com jogos de emulação entre os mesmos e os outros, em que o que chama­mos família tem sempre no seu coração materno, no seu co­ração reprodutivo, uma ‘estranha’ vinda de outra famí­lia.
11. O interdito do incesto, se é um travão da sexualidade, é para a lançar para alteridades mais distantes. Ele alia-se assim à aquisição da lin­guagem, que também é um factor de essencial al­teridade. Cada um de nós não dispõe para falar e pensar, como dizia M. Gusmão do poeta, senão das palavras dos outros, que es­tas não são de nin­guém mas de todos: alimentacionalidade por um lado assim da sua aprendizagem, mas também lançamento para a alteridade já que falar e pensar só para outrem também têm sen­tido, a lingua­gem é anti-autista por estrutura e funcionamento. Não apenas só se fala ou escreve para e com outros, mas também se fala em outros contextos e épocas, se compara e pensam coisas novas, se compõem mitos, ficções, poesias, ciências e filosofias: trata-se de intensificar alteridades sociais, factoras de história. Porque as novas gerações encontrarão novas coisas para aprende­rem, serão outras dos que as dos seus pais.

Oscilação e sublimação

12. Esta oposição entre trabalho, segundo a economia aprendida da alimentacionalidade, e a sexualidade como pulsão excessiva para outros, que perturba essa economia e a sua aprendizagem, não é uma oposição exclusiva, já que se insere nos ritmos de oscilação a que nos obrigam quer o dia e a noite, quer as épocas do ano, oscilações entre trabalho e repouso e fé­rias, en­tre trabalho e festas. É nesta última oscilação que joga a sexuali­dade, já que, como a festa, ela gasta energia, não dá repou­so. Sem o poder justificar cabalmente (porque implicaria um longo des­vio), eu proporia que é nesta oscilação que ela terá o pa­pel subli­mador que Freud lhe reconheceu. O conceito de grafos neuronais proposto genialmente por Changeux permite perceber como é que as aprendizagens sulcam o nosso neo-cortex de esta­bilidades so­cialmente adequadas, as de saber fazer com espon­taneidade e habilidade os mesmos usos do que os outros, com ajuda crucial da linguagem. Por outro lado, se pensarmos na pul­são maior da ali­mentacionalidade, a da fome, é óbvio que ela só nos obriga a co­mer, sem nos dizer como o fazermos, se cozinharmos e o quê, se fazermos uma sanduiche ou irmos ao restaurante. O jogo das pul­sões hormonais encaixa-se no dos grafos, Damásio tendo-nos dado outro tipo de exemplos, relativos também aos usos de rotina pro­fissional e ao papel da química (de tipo hormonal) dos neuro­transmissores nas decisões além dessas rotinas.
13. Ora bem, a sublimação freudiana seria justamente o como se tece este jogo entre pulsões hormonais e grafos de aprendizagem de usos e da língua, estes contendo aquelas e adiando-as (no pe­ríodo de latência), mas nessa conten­ção que adia (como que citando Derrida) uma parte dessa energia sexual a mais, excessiva, será des-sexualizada para fun­ções sociais, cultu­rais, sagradas, ar­tísticas. Seria o jogo das oscila­ções (de que os so­nhos são índice) que permitiria acasalar os dois factores de exces­so e alteridade, a sexualidade e a linguagem, in­clusive colocando-os ao serviço das alterações e melhoramentos da economia de alimentacionalidade. O desperdíco anti-económico é, ‘à la longue’, recuperado pela economia. De maneira talvez equivalente àquela pela qual alguns casais de grandes amantes são capa­zes de tor­near com a linguagem a precaridade do excesso da pai­xão deles e dar-lhes uma continuidade no longo tempo que, sendo por­ventura rara, ainda mais admirável se torna. Mas isto é tema para o qual me falta mais, do que noutros, a competência.

Sexualidade e lei segundo a psicanálise

14. Há hoje um tipo de resistências à psicanálise, diferentes das que ela encontrou inicialmente. Sugeri acima como a invenção da sexualidade nos primeiros tempos da evolução foi também a do nascimento e da morte, da p/maternidade e da filiação, da possibilidade da aprendizagem: não nos admiremos de que estes temas estejam no coração do discurso psicanalista. A este primei­ro argumento de conveniência, quereria acres­centar alguns ou­tros. Os sonhos serão restos de desejos, de excessos que não tive­ram cabimento, que voltam assim na oscilação do repouso que o sono paradoxal (Jouvet) proporciona. O que Freud encontrou neles de bizarro, para além da estranheza própria que sempre lhes foi reconhecida, foi que o seu deslindar encontrasse a certo mo­mento resistências no próprio sujeito, ou seja, que este se revelas­se, en­quanto dormia - em que, por assim dizer, ‘não era ele’ -, como uma complexidade de pelo menos três instâncias: a) a do sonhador que diz ‘eu sonhei isto e aquilo’ e continua no divã a fazer associa­ções em torno desse sonho, b) uma outra que nega e censura algu­mas dessas associações como se não fossem ‘minhas’, ou não de­vessem sê-lo, c) a terceira, a desse conteúdo sonhado que horrori­za o so­nhador, de querer fazer amor com a própria mãe, ou matar o pai, etc. Isto é, a sexualidade quando aparece nos sonhos, apare­ce sempre-já marcada pela lei, interdita. Além disso, a perturba­ção é ainda maior de tais desejos proibidos e portanto repugnan­tes vi­rem no aprofundamento do oculto de desejos muitas vezes bons e convenientes, ou excessivos, obcecados, como certas pai­xões de artistas, inventores ou pensadores. Por isso que o mate­rial se lhe foi impondo, Freud veio a falar respectivamente de ‘ego’, ‘superego’ e ‘id’ para as tais instâncias que dividem e compõem simultaneamente o psi­quismo, veio a falar de sexo, interdito e sublimação.
15. Dir-se-á que se tratava de intelectuais burgueses da época victoriana. É certo. Mas que grande espanto não é a leitura do volume de O processo civilizacional de N. Elias que conta como esse ‘super-ego’ burguês se foi forjando na história ocidental, em correlação com a formação, a partir do feudalismo, do Estado mo­derno e do seu monopólio da violência, se foi forjando na aristo­cracia da corte dos reis absolutistas, aonde conviviam largo tempo fidalgos e fidalgas de casas diversas, não abrangidos pois pelo in­tedito do incesto como em suas casas, e devendo a pouco e pouco criar as regras de civilidade sem as quais a civilização não teria sido possível. Sem as quais, por exemplo importante, não seria possível que homens e mulheres hoje partilhassem empregos em que convivem várias horas seguidas por razões de economia, tendo que conter mais ou menos espontaneamente as pulsões se­xuais que a evolução inventou há milhões de anos.

O erotismo e a morte segundo Bataille

16. É um tanto indecente resumir, no final desta breve re­flexão, a esplêndida inovação filosófica de O erotismo de Georges Bataille, mas provavelmente mais indecente ainda seria calá-la. Definido como actividade sexual independente da procriação, o erotismo é uma “exuberância da vida”, que não pode ser com­preendido fora da sua relação com a história do trabalho e com a história das religiões. O horizonte filosófico de Bataille, um pouco bizarro, há que confessar, é o do ser como continuidade, à qual os seres humanos são arrancados violentamente (ao ventre e seio maternos porventura) para serem instituídos como seres descon­tínuos, indivíduos separados uns dos outros, até que a última violência, a da morte, os faça regressar à continuidade original do ser. Ora, para Bataille, é esse regresso que fascina os seres des­contínuos que nós somos e o ero­tismo é um revelador desse fas­cínio, da violência que, por sua vez, ar­ranca os seres individuais à posse de si quotidiana, dissolve (como na ex­pressão ‘vida dissolu­ta’) os laços sociais, atrai-os ao obsceno, à nudez, ao vai-vem dos órgãos sexuais, à maneira duma expe­riência da continuidade, duma espécie de ‘pequena morte’, perdi­da a coerência do sujeito que se ‘estilhaça’ no orgasmo, é raptado violentamente na paixão amorosa ou ainda, por outros meios, na experiência místi­ca. É ainda este fascínio pela despossessão que Bataille encontrará nou­tros domínios, os dos jogos e das batalhas, do amor do perigo e do desafio em que tudo se arrisca, no sacrifí­cio pela/o amada/o. Que encontraremos ainda, se nos quisermos próximos da nossa vida mais prosaica, na fuga constante à repeti­ção, na busca do inespe­rado, do acontecimento surpreendente. Enquanto Ela não vem.

F. Gros, Os segredos do gene, [1986], D. Quixote
J.P. Changeux, O homem neuronal, [1983], D. Quixote
J.D. Vincent, A biologia das paixões, [1986], Europa-América
A. Damásio, O erro de Descartes, [1995], Europa-América
C. Lévi-Strauss, Les structures élémentaires de la parenté, 1947, PUF
N. Elias, O processo civilizacional, [1939], D. Quixote
G. Bataille, O erotismo, [1957], Antígona
Heidegger, “Temps et être”, Questions IV, [1962], Gallimard
Derrida, De la grammatologie, 1967, Minuit
Idem, Glas, Que reste-t-il du savoir absolu?, 1974, Galilée
Idem, Carte postale, de Socrate à Freud et au-delà, 1980, Flam­marion