domingo, 19 de outubro de 2014

Questão prigoginiana sobre a energia, a força e a entropia



1. Uma questão que se pode pôr à ciência que se ocupa dela, a Física, é a de saber o que é a energia, que reconhecidamente se conserva no universo e nele se degrada, segundo os dois princípios da Termodinâmica, mas também é susceptível de constituir estabilidades instáveis (Prigogine), segredo entrópico da evolução dos vivos e da história dos humanos[1]. Dizia o conceituado físico generalista R. Feynman, num texto citado a seguir, que “na física de hoje, não temos o conhecimento do que é a energia” (p. 95). Então haverá que questionar a Física e a Química com os olhos instruídos por Prigogine, como ele próprio não o terá conseguido por falta de filosofia adequada. Antes porém, interroguemos a própria palavra que o físico inglês Thomas Young, em 1807, foi buscar ao vocabulário filosófico de Aristóteles para substituir as ‘forças vivas’ dos físicos clássicos. O par dunamis / energeia corresponde na Physica de Aristóteles a duas situações do movimento dum ente vivo, animal ou humano, da sua alteração: dunamis, a que precede o movimento mas corresponde a haver já a sua capacidade, a ‘potência’ (tradução habitual) ou possibilidade, ‘ele pode’ (do verbo dunamai, poder) mudar, incluindo a força para tal (donde a ‘dinâmica’ newtoniana como teoria das forças); en-ergeia, a situação que corresponde ao ‘acto’ (tradução habitual) desse movimento efectuado, trabalho (-ergon) sobre si (en-); e como movimento diz-se kinêsis, donde ‘cinético’, o que dá para entender porque é que os físicos europeus foram buscar este par aristotélico para dizer as energias potencial / cinética, com a diferença de que em Aristóteles se trata da própria substância (ousia) que se move, que se altera, enquanto que na nossa física se trata da diferença, relativa à energia, entre duas posições de graves, por exemplo, no campo da gravitação: numa barragem, a diferença entre o nível da água da albufeira e a posição mais baixa da turbina é a energia potencial, enquanto que a energia cinética é a do movimento da água caindo efectivamente dum desses níveis para o outro.

2. Poder-se-ia pensar que, anterior à vida, a matéria de que Física e Química se ocupam, a matéria ‘verdadeiramente’ substancial, conhece uma autêntica estabilidade sem oscilações instáveis. É o que aliás Prigogine parece ter pensado, ao falar na “estabilidade dos átomos do nosso Universo morno”, como que se postulasse que eram inacessíveis à ‘produção de entropia’, descoberta na química do metabolismo celular (o que lhe valeu o Prémio Nobel de Química em 1977) e que ele buscava em turbilhões e outros fenómenos mais ou menos marginais, embora por vezes diga que a sua nova concepção se destina a toda a Física. Para tratar da questão, podemos recorrer ao famoso texto Seis lições sobre os fundamentos da Física do prémio Nobel Richard Feynman[2], cuja pedagogia inovou de tal maneira que talvez se o possa ler na sua lógica de 1961-62, sem ter que saber das descobertas dos 50 anos posteriores, acreditando que os ‘fundamentos’ da Física não foram entretanto alterados nem terá havido textos acessíveis a leigos tão pujantes de clareza.

3. Para adaptar a perspectiva entrópica de Prigogine além do metabolismo celular, à Biologia animal e às ciências relativas aos humanos, foi necessário denunciar um preconceito substancialista no paradigma dessas ciências: ‘corpo próprio’ nas biologias em vez de ser no mundo[3], ‘população de indivíduos’ como constituindo as sociedades, em vez dos paradigmas dos seus usos nas unidades sociais. A questão será a de saber se se pode, e como, ‘des-substancializar’ os átomos e as moléculas de que os graves e os astros são constituídos. O que será um procedimento fenomenológico equivalente em relação à Física lendo o texto de Feynman? implicará privilegiar o motivo do campo de forças atractivas sobre os corpos ou os átomos a eles sujeitos. Trata-se dum motivo da Física que é paradoxal, já que, tomando o exemplo do sistema solar e dos seus planetas, são os astros que se atraem reciprocamente, com o sol como foco principal, não sendo o campo ‘nada’ de substancial, apenas o jogo entre si dessas diferentes forças de atracção, jogo esse que é no entanto o que sustenta o sistema na sua estabilidade, reconhecida desde os antigos Caldeus e Egípcios. Este paradoxo não permite decidir entre os astros e o campo, já que este não existe sem eles, mas é o que faz o preconceito substancialista, de índole empirista, que considera o campo ‘depois’ dos astros, a partir das suas substâncias e massas. Para compreender isto, teremos que começar por uma questão epistemológica prévia: porque é que o laboratório é essencial à Física?

4. O laboratório busca aliar saber e técnica para pôr à prova as definições e argumentos filosóficos herdados dos Gregos e dos Medievais[4]; ele consiste 1) em retirar um fenómenos determinado (delimitado, definido) da respectiva cena de circulação aleatória, 2) medir-lhe o movimento em condições de determinação com técnicas apropriadas, 3) ao conhecimento adquirido devendo em princípio seguir-se um movimento de restituição teórica do fenómeno conhecido à cena donde fora retirado (já que é esta ‘realidade’ que se busca finalmente conhecer por etapas laboratoriais). Tal como em geometria e astronomia, os números da matemática, entre equações e medidas, permitem uma exactidão maior do que aquela que as definições teóricas buscam em linguagens estruturalmente polissémicas como a matemática não é: esta sua exactidão – adentro de margens de erro, repetem-se tais quais em qualquer outro laboratório – corresponde a uma estabilidade a que as filosofias nunca chegaram, mas também não as próprias teorias científicas que interpretam os resultados das experiências laboratoriais. Já que estas têm um ponto fraco, são fragmentárias (como qualquer tipo de problemas em álgebra clássica, cada um com a sua equação), só permitem conhecer com exactidão laboratorial de cada vez um aspecto determinado do movimento dum fenómeno, sendo à teoria, herdeira da filosofia, que cabe a unificação do conhecimento, mas este sempre aproximado, instável pois, já que os ‘fenómenos inteiros’ não são susceptíveis de laboratório e são obviamente indeterminados nas respectivas cenas de aleatório[5]. Assim, por exemplo famoso, Newton descobre as equações da força da gravidade sem saber imaginar esta, como ainda hoje, segundo Feynman, não se sabe o que é a energia ou o porquê da inércia.

5. Um outro aspecto da questão do laboratório pode ser ilustrado com a famosa experiência de Galileu demonstrando o movimento uniformemente acelerado com uma bolinha correndo por uma ranhura num plano inclinado. Não havendo ainda relógios adequados a medir esses tempos, Galileu usa um recipiente com água que escorre durante o tempo da queda e depois se pesa, “as diferenças e proporções entre os pesos dando-nos as diferenças e proporções entre os tempos”[6]. Medir o tempo em gramas de água ou em segundos, tanto vale, só das diferenças sabe o físico experimentalmente, e não das ‘substâncias’, sobre o tempo define e argumenta, faz teoria, ou seja, filosofia; o mesmo se dirá do espaço, da massa, da força, da energia, da intensidade de electricidade. As teorias evoluem historicamente, enquanto que as experiências, fora a precisão das técnicas de mensuração, continuam válidas: por exemplo, se a física de Newton foi reelaborada por Einstein para fenómenos de velocidade perto da da luz, ela continua válida para a maior parte dos fenómenos de engenharia corrente na Terra. Ora, com as técnicas de mensuração, foi a técnica que entrou no âmago das ciências físicas e (bio)químicas, donde que delas tenham vindo a resultar as invenções técnicas mais diversas, testemunhando da estabilidade dessas ciências, enquanto que os cientistas debatem as respectivas teorias, testemunhando assim da sua instabilidade: o grande problema destas é o movimento de restituição do saber fragmentário adquirido laboratorialmente sobre o fenómeno, restituição à cena donde ele foi retirado, fora do laboratório pois, ao fenómeno inteiro, já que é sobre este que deve versar a teoria. As técnicas laboratoriais fazem parte da elevação entrópica das ciências exactas, juntamente com as ‘vontades’ dos cientistas que, na definição de ‘paradigma’ de Kuhn, são por este ‘atraídos’ (attract)[7] e ligadas as suas ‘vontades’ como colegas do mesmo paradigma pela respectiva aprendizagem. À estabilidade corresponde o curso normal dos paradigmas segundo Kuhn, o que se poderia chamar a homeostasia laboratorial, em contraste com as suas crises, manifestação de instabilidade em fortes polémicas, quantas vezes de gerações.

6. Voltemos ao heliocentrismo. Se fez parte do génio de Newton compreender a estabilidade heliocêntrica do sistema em termos do princípio galilaico da inércia e da sua descoberta das forças de gravidade como atracção dos corpos na razão directa das suas massas e na inversa do quadrado da sua distância – isto é, ele não teria lá chegado sem estes dois motivos fundamentais da sua Mecânica –, o que é notável é que a sua demonstração não se fez através deles mas utilizando as leis de Kepler (o qual utilizara as medições de Tycho Brahe), nas quais jogam apenas os espaços e tempos dos percursos das órbitas dos planetas e as razões entre as respectivas superfícies. Parte-se portanto do sistema enquanto ‘campo’ teórico, concluindo aliás Newton pela confissão, reiterada por Feynman cerca de três séculos mais tarde, de que não sabe explicar o que é a força da gravidade enquanto atracção a distância[8], como ainda hoje, segundo o mesmo Feynman, não se sabe qual é a causa do princípio de inércia, cujos efeitos podem todavia ser medidos e calculados. Pode-se dizer que esta maneira ‘não substancialista’ de demonstrar o heliocentrismo bate certo com o que se pode deduzir da afirmação de Galileu medindo o tempo em unidades de peso de água: ele só conhece “diferenças e proporções” entre medidas de tempo, e não  o tempo em si, não as substâncias. Ora, acontece que Feynman procede de maneira inversa à de Newton, por exemplo, ao definir carga eléctrica, parte das cargas para os campos: “temos assim duas regras: (a) as cargas geram um campo e (b) as cargas em campos ficam sujeitas a forças e movem-se” (p. 60), 1º cargas, 2º campo, 3º forças!  Outro exemplo: no primeiro capítulo, argumenta longamente sobre os átomos de água, vapor e gelo sem nunca referir as forças electromagnéticas perdidas na vaporização ou ganhas na solidificação. O problema manifesta-se ainda na sua concepção de força como interacção, a da gravidade sendo uma interacção a distância (p. 57), o que parece significar que a força é pensada como as forças habituais da mecânica, tipo bola de bilhar sobre outra bola de bilhar, acção e reacção, aquilo a que se pode chamar ‘força local’. Feynman chega ao ponto de caracterizar a força electromagnética pela “propriedade de gostar de repelir e não de atrair” (p. 58): só considera a relação entre cargas do mesmo sinal e não entre as de sinal contrário, de atracção, ora, são estas que justificam que os átomos tenham electrões, atraídos pelos protões, bem como que haja moléculas e graves, gelo, água e vapor! Ora bem, as forças fundamentais da Física, nuclear, electromagnética e da gravidade, constituintes dos átomos, moléculas, graves e astros, as únicas das quais há campos, são forças atractivas, e é porventura a razão pela qual não sabemos imaginá-las: a nossa experiência intuitiva é justamente de forças locais, tão importantes na dinâmica newtoniana[9]. Dada a sua portentosa atenção ao detalhe, não se pode apontar estas coisas como devidas à inatenção de Feynman, só pode ser algo de inscrito na força do paradigma (atractiva!) que institui os físicos enquanto tais (donde que não haja que esperar da parte deles grande aceitação deste texto).

Energia, força e entropia

7. Se os grandes ‘génios’ da Física, desde Newton até Feynman, não conseguiram, a partir das ‘substâncias’, imaginar o que são as forças atractivas, a energia e a inércia[10], não se tratará de esperar um futuro ‘génio’ que o consiga; é mais provável pensar que o problema está mal posto: porque não partir destes motivos ‘inexplicados’ para compreender melhor o que são as tais ‘substâncias’? Estes motivos, que logo de início estruturaram a Física clássica, manifestando como os seus inventores eram também hábeis filósofos, constituem o motivo ‘fundamental’ de campo; é claro que não tenho a pretensão de os  ‘compreender enfim’, mas, assim como se fala de princípio de inércia, eles poderão ter um estatuto, digamos, de princípios laboratoriais, isto é, de princípios duma filosofia confrontada com a experimentação de movimentos, princípios necessários à compreensão de qualquer análise de laboratório. Des-substancializar será então considerar forças e energia como epistemologicamente (e não cronologicamente!) prévias às ‘substâncias’, ao átomo, molécula, grave e astro, as 3 forças jogando juntas e a energia sendo o que, por inércia, se expande sem elas. Não se ‘parte’ do átomo, como faz Feynman, porque não há ‘o’ átomo, nem ‘a’ molécula, nem ‘o’ grave: o que há, antes de mais, são os astros em que os três tipos de força actuam. No caso do sistema solar, as órbitas dos astros são estáveis devido ao campo de forças de gravidade que os retêm, campo que são eles próprios em movimento inerte[11]; também os graves de que eles são feitos são retidos pelo campo dessas forças, graves que por sua vez são feitos de moléculas que forças electromagnéticas retêm agregadas, os seus átomos por sua vez devendo a sua estabilidade à retenção de protões e neutrões no núcleo por forças nucleares. O que significa este ‘reter’ sublinhado quatro vezes? Que o que é retido tem estabilidade e que a perderia se deixasse de ser retido: a explosão da gasolina líquida num motor é um exemplo do fim duma tal retenção por forças electromagnéticas e a consequência é que as suas moléculas, gasosas agora, se expandem sob forma de explosão, o mesmo sucedendo, mutatis mutandis, aos protões e neutrões das bombas nucleares que explodem por lhes serem retiradas as forças nucleares, como ainda se expandem os fotões quando electrões se movem e perdem algo da força que os retinha. Se um foguetão enviado à Lua ou uma sonda a Marte, após deixarem o campo da força de gravidade que os retinha na Terra, seguem sem precisarem de mais energia do que a que os expulsou (seria impossível alimentá-los pela estratosfera fora como o foram na atmosfera), seguem num movimento inerte, perdido de ligações a forças quaisquer. Então definir-se-ia uma força atractiva pela sua capacidade de reter o que, de inércia sua, se expande ilimitadamente. Ora, o que assim se expande, explode, são exemplos essenciais e não quaisquer, de energia. Então, o que as forças atractivas fazem em seu reter ou ligar, é criar entropia positiva, isto é, energia interna tal como Einstein a concebeu como equivalente à massa vezes o quadrado da velocidade da luz[12]. A palavra grega ‘entropia’ (‘fechar-se em si, timidez, vergonha’)[13], convém a esta ‘energia’ einsteiniana. Não são só os gases e os líquidos, os ares e os mares, que são sujeitos a ventos, ondas e outros turbilhões, também os sólidos são instáveis segundo a sua posição no campo da gravitação, como rochas sujeitos a erosão, sucedendo por vezes, de forma dramática, que vulcões ou sismos nos venham recordar que as palavras ‘terrível’ e ‘terror’ derivam de ‘terra’. Instabilidade química ainda, sempre que a proximidade entre moléculas dê azo às transformações que a química estuda, como os ferros que se oxidam. Tudo isto será construído entropicamente, em sentido de Prigogine, e é por isso que tudo pode ser destruído, que há entropia no sentido de Clausius, é por isso que há uma ‘história’ do Universo, da cena da gravitação.

8. Explosão, expansão, inércia, serão pois contra-exemplos da entropia prigoginiana, são movimentos de degradação dela, entropia clausiana que cresce. Mas são também os exemplos da estranha mecânica quântica, cuja principal estranheza é justamente a instabilidade da sua população de partículas, electrões à solta que disparam como balas ou como ondas (exemplos de Feynman no último capítulo), raras sendo as que conseguem perseverar quando soltas (protão, electrão, fotão e poucas mais); nem se lhes pode chamar ‘população’, que implica duração, nem ‘mundo’ ou ‘universo’ quântico, nem sequer ‘matéria’, já que ‘aquilo’ (que é estranho) só existe na luz, irradiações e corrente eléctrica e fora disso fugazmente em laboratórios. Quando o grande físico multiplica as advertências sobre a dificuldade de compreender a gravitação em termos de forças electromagné­ticas quânticas, deplorando o que se veio a chamar a não unificação das duas grandes teorias da Física do século XX, relatividade e quântica, a questão que o leigo pode colocar é a seguinte: qual é a barreira entre a grande estabilidade do nosso universo macro e a instabilidade inacreditável, ultra caótica, deste estranho micro quântico? Eis a resposta que arrisco: os campos das forças atractivas. Dum lado, só partículas, ainda que átomos isolados, do outro graves e astros que, analisados, se vê que são constituídos por átomos e seus núcleos, por moléculas[14]. Como é que a barreira pode ser passada? De cá para lá, por desintegração técnica dos graves até às partículas, em bombas nucleares ou nos grandes aceleradores; e de lá para cá? Do big Bang para as estrelas? É possível ‘pegar’ em protões, neutrões e electrões e constituir átomos?

9. Se se aceita a concepção de ciência física proposta acima (§§ 4-5), haveria que concluir que o seu núcleo duro consiste nas equações correspondentes aos resultados experimentais, estes sendo os ‘dados’ que vão ‘verificar’ nessas equações as suas ‘variáveis’. Enquanto os instrumentos de medida não variarem, essas equações (variáveis e dados) verificam-se, como se diz, são verdadeiros. Galileu e Newton resistem às físicas do século XX, era sobretudo a física deles que se ensinava nas escolas de engenharia de meados desse século. Interpretar essas equações e essas experiências fragmentárias numa teoria, com as suas definições de conceitos e respectiva argumentação, sendo necessário para criar o próprio laboratório, é todavia trabalho de físicos ‘filósofos’ (ou teóricos) que definem e argumentam para compreenderem o que ao laboratório vem, já que as equações não atingem as ‘substâncias’, apenas diferenças e proporções, como disse Galileu[15]. Isso tem algumas consequências que os físicos terão dificuldade filosófica em aceitar. Uma delas é que os laboratórios são irredutíveis e portanto as equações e as técnicas de mensuração da Física newtoniana continuam cientificamente válidas, nomeadamente permitindo inúmeras construções técnicas, ainda que a interpretação ‘filosófica’, vinda de outros contextos laboratoriais (velocidades altíssimas, distâncias microscópicas), possa rever as antigas interpretações, mas não declará-las ‘erradas’, como faz Feynman peremptoriamente uma vez ou outra. Fazendo-o, e é uma segunda consequência, não é enquanto físico (já que os respectivos laboratórios são irredutíveis) mas enquanto filósofo. Igualmente ‘filosófica’ será a pretensão de que a mecânica quântica seja válida em toda a realidade extra-laboratorial, no nosso universo material onde as velocidades são ‘pequenas’ e ‘minúsculos’ os comprimentos de onda, por via das dimensões macroscópicas dos graves. Ou seja, dada a irredutibilidade dos laboratórios respectivos, a tão desejada unificação das duas grandes teorias do século XX só poderia ser ‘filosófica’, incluindo a dimensão filosófica das ciências. Ora, o filósofo Cornelius Castoriadis evoca “a antinomia epistemológica formulada por Heisenberg desde 1935 entre a constatação da não validade das categorias e das leis da física ordinária no domínio microfísico e a demonstração dessa não validade por meio de aparelhos construídos segundo as leis dessa física ordinária e interpretadas segunda as categorias usuais”[16]. O que significa que a unificação das duas Físicas, relatividade e quântica, só seria possível tendo em conta os laboratórios em que elas foram formuladas, os seus instrumentos de medição e respectivas diferenças de escala[17], e portanto também a validade laboratorial da Física de Galileu e Newton, cujas equações aparecem quando reduzidos os factores de escala na equação de Lorentz, por exemplo (quando v/c tende para zero).


A entropia e a flecha do tempo contra o determinismo

10. O que Prigogine descobriu foi o segredo de toda a evolução, de toda a história, invenções e descobertas, da chamada flecha do tempo. A partir duma situação caótica ameaçando degradação, implosão ou explosão, entropia de tipo Clausius, como é que pode a vida adiar a morte, a desintegração: como é que, de formas muito diversas consoante o nível de que se trata da chamada realidade, se produz entropia de tipo Prigogine, se criam novas estabilidades com suas regras adequadas a circulações aleatórias, portanto instáveis. Permitiu compreender que a entropia não é só ‘não’, é ‘sim’ e ‘não’, sem se oporem (como foi talvez a sua tendência), já que a flecha do tempo vai primeiro ao ‘sim’ e depois ao ‘não’, a morte depois da vida e como condição desta (já que só sobrevivemos comendo cadáveres).

11. Recapitulemos. Há duas formas essenciais de matéria na Terra. Matéria inerte em sentido clássico que se faz da agregação de moléculas relativamente simples e iguais para atingir dimensões macroscópicas, sólidas, líquidas e gases: como perdura, de gelo a água e desta a vapor, a ligação entre os átomos de oxigénio e de hidrogénio, que se revela mais forte do que a solidez e a liquidez. A outra, matéria viva, que, para também chegar a dimensões macroscópicas e formar organismos muitíssimo variáveis, se faz da composição de moléculas diferentes em suas funções celulares e muito complexas, à base nomeadamente de carbono, e por isso instáveis e pedindo serem refeitas constante­mente, pedindo alimentação; que contraste com a estabilidade e a impenetrabilidade dos átomos, graças aos seus núcleos, impenetrabilidade que os torna irremediavelmente outros entre si. O que fez a vida, foi inventar um novo nível de mesmo, acima desta alteridade empírica radical: o nível de indivíduos diferentes da mesma espécie. E foi no metabolismo da matéria viva que Prigogine descobriu uma entropia positiva.

12. É de crer que o sábio tenha sido levado pela importância da sua descoberta a uma oposição entre a sua entropia e a de Clausius, a uma exclusão entre os fenómenos entrópicos, a uma oposição em seguida às certezas que acompanharam as lendárias descobertas dos seus predecessores, cujo fim um seu título proclama: “o fim das certezas”[18]. Ora, as certezas da física clássica, laboratoriais, mantêm-se, como se disse, não passaram a ser leis meramente estatísticas, e em vez de se dizer que são leis deterministas, deve-se dizer que são leis determinadas, isto é, deduzidas nas condições de determinação do laboratório. O problema é que sempre se pensou que o que era válido no laboratório era automaticamente válido na chamada ‘realidade’; mas obviamente que aí sempre houve incertezas, devido à confluência não dominável de efeitos que é justamente o que implica a necessidade de laboratório. Ora, o motivo da cena, como é claro com a máquina automóvel, esclarece a questão: as regras estudadas pelas ciências correspondem a situações aleatórias, a máquina é construída rigorosamente para seguir o aleatório da lei do tráfego. Como a anatomia de qualquer animal, ‘construída’ segundo a cruel lei da selva que comanda que se coma outro vivo para se sobreviver. A lei da gravidade vale sempre na terra, mas a trajectória de cada grave depende da sua posição aleatória na cena. Quanto à mecânica quântica, o problema da incerteza terá a ver com o facto de que a distinção entre laboratório e cena (instabilidade total, nem de cena se pode falar) se esbate num acelerador de partículas. Que fora do laboratório reina a contingência sempre se soube, duma maneira ou doutra, desde Platão que colocou as entidades resultantes da definição na eternidade celeste porque na terra só havia contingência, geração e corrupção. Mas é certo que, na esteira dele e do neoplatonismo do século III onde o terrível Agostinho foi beber, um Deus absoluto opunha-se a essa contingência e marcou os sábios europeus, fossem ou não crentes, com uma concepção determinista que extrapolava as certezas laboratoriais (que a astronomia justificava), e contra esse determinismo Prigogine estava certo. Mas era preciso outro argumento em tal combate. O que não se sabia – não se escreveu que se soubesse da forma generalizada que convém a um tal saber –, o que o mestre também não soube, é que as regras (ou leis), os saberes científicos que alimentaram a narrativa lendária das ciências europeias dos últimos quatro séculos, não se realizam substancialmente, vimo-lo com Galileu, mas são regras estrutu­rais de regimes aleatórios de circulação: exemplo do automóvel entre o rigor laboratorial da sua construção e o aleatório do seu jogo no tráfego, da anatomia animal que joga no aleatório da caça ecológica e da fuga a ser-se caçado, das regras da língua que servem para o aleatório das conversas ou das escritas. E este ser das regras para o aleatório só é possível, em todos os seus níveis, devido à entropia prigoginiana. Como acima das rochas, dos mares e dos ares, móveis por certo mas duradouras de grande estabilidade se as temperaturas não mexerem muito, se estabeleceram in/estabilidades vivas, não só eminentemente frágeis já que mortais, mas fazendo da morte vida, lei da selva, em espécies cada vez mais complexas, que são elas que duram além das gerações de indivíduos mortais.

13. É o ser das leis científicas para o aleatório, quero crer, que reabilita – sem determinismos e segundo a relatividade do saber ocidental enquanto histórico – a verdade delas e a das ciências exactas dos sábios europeus, contra muitos dos seus próprios herdeiros que hoje facilmente crêem que uma tal ‘verdade’ é provisória, um erro suspenso. As técnicas que dos laboratórios delas derivaram desmentem esse cepticismo



[1] D um texto inédito que propõe uma fenomenologia científica (http://filosofiamaisciencias.blogspot.pt/) e considera quatro grandes cenas históricas: a do gravitação (cosmo), a da alimentação (vida), a da habitação (sociedades humanas) e a da inscrição (saber definido ocidental), os elementos de cada um sendo caracterizados respectivamente pelo núcleo atómico, pelo ADN, pelas unidades sociais com disciplina  sobre a sexualidade e pelo alfabeto e definição. A viragem fenomenológica em relação à filosofia europeia deu-se com Heidegger e Derrida, colocando as diferenças (respectivamente ontológica e com a) antes das substâncias, como adiante se dirá terem iniciado Galileu e Newton.
[2] Ed. Gradiva Presença 2000.
[3] Ver No paradigma da Biologia falta o ‘ser no mundo’ (debate com Teresa Avelar e António Damásio) in  http://filosofiamaisciencias2.blogspot.pt/
[4] Herança reconhecida pelo grande físico que foi Feynman: “[...] o que era hábito chamar filosofia natural, de onde derivou a maior parte das ciências” (p. 74), crendo aliás, erradamente mas como Newton, que a Física é o seu equivalente moderno.
[5] As regras que as ciências descobrem jogam em função de tal aleatório, como um automóvel é projectado laboratorialmente para se mover no aleatório do tráfego.
[6] Galilée, Discours et dé­monstrations mathématiques concernant deux scien­ces nouvelles, in­trod., trad. e notas por M. Clavelin, 1970, A. Colin, p. 144.
[7] Thomas Kuhn, La structure des révolutions scientifiques, [1962], Flammarion, 1983, p. 31.
[8] Feynman diz que “Newton não elaborou hipóteses, ficou satisfeito por descobrir o que ela fazia, sem se interessar pelo seu mecanismo. Ninguém desde então propôs qualquer mecanismo” (p. 128). De facto o que Newton disse foi que não era capaz de ficcionar (latim ‘fingere’, fingir), imaginar, uma hipótese explicativa dessa estranha força a distância : “não consegui ainda deduzir dos fenómenos a razão destas propriedades da gravidade e não imagino uma hipótese (hypothesim non fingo)” (Newton, Principes mathématiques de la Philosophie natu­relle, trad. de Mme Châtelet, Paris [1756], édition fac-simile de A. Blanchard, 1966, pp. 178-179).
[9] Quero crer, seja dito de passagem, que o ‘gravitão’ dos físicos que não há meio de ser encontrado, releva desta concepção de força local e que não terá cabimento em forças atractivas. Mas como não se sabe o que estas são, só que não são substanciais...
[10] Feynman sublinha constantemente esta ignorância dos físicos do seu tempo sobre motivos fundamentais da Física: pp. 57, 66, 95, 106, 107, 113-4, 128-9, 133.
[11] A diferença entre o campo das forças e os astros ou graves que o constituem é equivalente, mutatis mutandis, à diferença entre espécie biológica e os seus indivíduos, uma língua e os seus discursos e textos, uma sociedade e as suas populações. Afirmar num primeiro tempo o primado do ‘campo’ sobre os astros, só se pode fazer apagando-o em seguida para se dizer que são o ‘mesmo’, um não vai sem os outros.
[12] Até onde é que a ‘atracção’ por forças continua a jogar nos níveis entrópicos da vida e dos humanos? Ao nível biológico, as noções de ‘faro’ e de ‘fome’ jogam como atracções químicas essenciais na reprodução alimentar dos vivos, assim como as pulsões sexuais são atracções químicas para a reprodução das espécies. Na habitação social, o motivo de ‘vontades’ responde igualmente ao paradigma dos usos que as ‘atrai’, continuando o jogo dos desejos a ser de atracção, tal como as rivalidades funcionam entre rivais que se buscam combater e vencer. Enfim, ao nível da inscrição, a curiosidade é o grande motor atractivo de todo o saber, aprendizagens como descobertas e invenções. Treino e educação são maneiras de reter a espontaneidade química dessas atracções para criar nelas entropia, isto é, fazer delas uma espontaneidade hábil capaz de servir em qualquer momento útil. Eis uma maneira de justificar aos físicos a ousadia da proposta feita.
[13] Em 'entropia', o verbo trepô significa ‘mudar, virar’, que o ‘en-’ interioriza, significando ‘mudança interior’, de sentimentos: aqui, de energia interna.
[14] Seria tentado a dizer que a física das partículas é kantiana e a do átomo husserliana. Os pés de barro do kantismo são o seu ponto de partida nas ‘sensações’, como se estas fossem ‘entes’ donde partir, enquanto que Husserl foi mais avisado e assentou o seu edifício fenomenológico na percepção da coisa, sempre a mesma ainda que variando as percepções dela. Quer Kant quer a compreensão (que me parece ser a) da física das partículas obedecem ao princípio cartesiano de ir até ao mais simples e depois ir subindo. A questão é a de saber se esse mais simples, sensações e partículas respectivamente, subsistem por si de maneira a poderem servir de base de análise.
[15] A primeira definição de Newton é de “quantidade de matéria”, que designa pelas palavras ‘corpo’ ou ‘massa’ e conhece-se pelo peso dos corpos, isto é, por mensuração; começara aliás por dizer que “os Modernos rejeitaram enfim, há algum tempos, as formas substanciais e as qualidades ocultas”. Quantidade (por diferenças medidas, como Galileu) e não qualidade: des-substancialização.
[16] “Science moderne et interrrogation philosophique”, Encyclopædia Universalis, vol. Organon, 1975, p. 48.
[17] Tidas em conta nas respectivas equações, como faz para a relatividade restrita Laurent Nottale, La relativité dans tous ses états. Au-delà de l’espace-temps, Hachette, 1998.

[18] Também editado pela Gradiva, 1996.

Sem comentários: